STAR WARS: CLONE WARS – SÉRIE DO CARTOON NETWORK (CRÍTICA)

142_00

Como fogo, por toda a Galáxia as Guerras Clônicas se espalham. Ao perverso Conde Dookan, aliados mais planetas se tornam. Contra essa ameaça, aos Cavaleiros Jedis é designada a tarefa de liderar o recém formado Exército da República. Enquanto aumenta o fervor da batalha, na mesma proporção a bravura do mais talentoso estudante da Força cresce. (Yoda, narração inicial)

Após a fatídica Batalha de Geonosis (final do O Ataque dos Clones, 2002), os jedis, os grandes emissários da paz na Galáxia, são convertidos em generais e estão à frente do exercito de clones da República. Nesta animação do criador de Samurai Jack, presenciamos os reveses desta batalha épica que mudou para sempre o destino da Galáxia e jovem e talentoso Anakin Skywalker, futuro Darth Vader. Nesta animação, que influenciou a criação em computação gráfica Clone Wars, conheceremos novos vilões e tudo que um verdadeiro jedi terá que fazer para cessar o avanço do Lado Sombrio sobre o destino do universo, nem que para isso tenha que perder a própria alma.

142_01

Título original: Star Wars: Clone Wars.
Direção: Genndy Tartakovsky.
Roteiro: Bryan Andrews (1 episodio, 2003), Darrick Bachman (25 episódios, 2003-2005), Paul Rudish (1 episódio, 2003) e Genndy Tartakovsky (25 episódios, 2003-2005).
Duração: 2h 13min
Lançamento: 2003-2005 (série).

142_02

Elenco: André Sogliuzzo (Capitão ARC), Mat Lucas (Anakin Skywalker), James Arnold Taylor (Obi-Wan Kenobi), Grey Griffin (Asajj Ventress), Tom Kane (Yoda), Corey Burton (Conde Dookan) e Nick Jameson (Chanceler Supremo Palpatine).

142_03

1. ANÁLISE TÉCNICA: SAMURAI-JEDI
Esta animação que é assinada pelo criador de Samurai Jack, Genndy Tartakovsk, é um compilado 20 episódios de 3 minutos e outros 5 episódios de 15 minutos que eram exibidos nos intervalos da Cartoon Network. Cada capítulo foi transmitido inicialmente antes do primeiro programa no horário nobre e, no dia seguinte, ficava disponível para download no site Clone Wars da própria emissora. Desta forma o desenho animado Clone Wars era transmitido simultaneamente na televisão e na internet e tecnicamente se tornou a primeira série da web a figurar no Emmy Winning. O desenho animado gerou um filme, Star Wars: The Clone Wars (2008), e uma série em computação gráfica (CG) de mesmo nome, The Clone Wars, que recentemente ganhou uma sétima e última temporada pela Disney+.

142_04

Enquanto o desenho animado de Genndy Tartakovsk tem uma narrativa alucinante e que abarca em mais de 2 horas diversos embates das Guerras Clônicas de forma resumida, os eventos das sete temporadas em CG não é uma reinicialização completa desta obra, mas uma expansão da série original, pois fornece uma história de fundo para personagens recorrentes. Assim a série animada do criador de Samurai Jack precede o mundo ampliado na animação em computação gráfica. No entanto, quando a franquia passou a Disney, esta animação deixou de fazer parte das obras consideradas oficiais (cânone) de Star Wars, o que gera debates calorosos por boa parte dos fãs. Por isso considero injusta a decisão da animação de Genndy Tartakovsk não ter sido levada em conta, pois os elementos por ela abordados não anula, mas enriquece ainda mais a série animada em CG.

142_05

Do ponto de vista da narrativa, a animação é composta por dois blocos distintos: uma primeira parte na qual os diálogos são raríssimos ou quase nulos e o foco é a ação frenética que mescla a técnica de animação 2D, essência desta obra, com o apoio mínimo das técnicas em computação gráfica. Nestes momentos o recurso de cel-shading, que mescla o 3D com o traço a mão, passa a impressão de que tudo é feito efetivamente na base do papel e caneta. Um exemplo disso é a luta de Asajj Ventress e Anakin Skywalker.

142_06

2. ENREDO: O CAMINHO DO LADO SOMBRIO / SPOILERS
Ao longo de toda a animação acompanhamos os passos de múltiplos personagens em suas batalhas e que abarcam o intervalo de tempo entre o episódio II (O Ataque dos Clones, 2002) e o episódio III (A Vingança dos Sith, 2005). A narração de Yoda no início deste compilado de duas horas de episódios animados nos dão o tom do que virá: sentir todas as formas e amplitudes que as batalhas clônicas e como elas assolaram a galáxia.

142_07

A divisão da obra consiste em uma compilação em duas partes. A primeira é composta pela junção de episódios de três minutos exibidos originalmente da TV e focadas quase que integralmente na batalha por Muunilinst, o país sede do Clã Bancário, um dos principais aliados dos Separatistas. Aqui vemos as vitórias, em pequenas histórias, das tropas de elite dos clones, os Arc-Troopers, e do diversos jedis que permeiam a academia, o templo e o conselho. Já o segundo volume, os episódios de 15 minutos, lidam com os eventos que imediatamente precedem A Vingança dos Sith (2005) com o surgimento do General Grievous e o sequestro de Palpatine do planeta sede da República, Coruscant.

142_08

Se por um lado vemos a evolução de cavaleiros e mestres jedi, suas perícias e técnicas de combate principalmente em Yoda e Mace Windu (este último fantástico), testemunhamos a petulância e o egocentrismo de Anakin Skywalker para o Lado Sombrio. A história começa logo após os eventos da Batalha de Geonosis, com o padawan ainda de cabelo curto, com sua trancinha característica, liderando um ataque a pedido de Palpatine e contrariando Obin Wan Kenobi e o próprio Yoda, maior representante do Conselho Jedi.

142_09

A animação Genndy Tartakovsk ainda nos brinda com outros momentos do lado obscuro de Anakin. Além da desobediência e arrogância, o vemos deixar aflorar sua perversidade quando enfrentando a primeira aparição de Asajj Ventress, recrutada por Dookan. Em certo momento o jovem se apodera do sabre vermelho de Ventress e a cada golpe que desferia contra a Irmã da Noite, fantasiava que enfrentava os demais Cavaleiros Jedi. Mesmo assim é promovido a cavaleiro sem passar pelos testes convencionais, por desejo de seu mestre Kenobi, devido não só a valentia do padawan como também as terríveis baixas que a Guerra Clônica trouxera à Ordem. E por fim, ainda em um planeta remoto e primitivo, quase vencido, tem visões de como um herói da justiça se tornaria o maior vilão da Galáxia na figura de Darth Vader.

142_11

Além de Ventress, essa animação nos mostra a primeira aparição do general droide Grievous, em plena força e perícia. Seus primeiros assassinatos, o início de sua coleção de sabres de luz. Ele dá as caras por volta do episódio 20 presente nesse compilado e ainda não tinha sua voz ofegante e interrompida pela tosse o tempo todo. Ela seria sequela de sua batalha contra Mace Windu, que lhe esmagou os pulmões e quase o derrotou. No entanto é Grievous que está a frente do sequestro de Palpatine e que o entrega a Dookan, sequestro esse que marca o início do filme A Vingança dos Sith (2005).

3. CURIOSIDADES

  • 142_12A voz do General Grievous é significativamente diferente nesta animação. Isso se deu porque o ator que o interpretaria no Episódio III: A Vingança dos Sith ainda não havia sido escolhido. Assim no episódio final, quando Mace Windu esmagou os pulmões de Grevious, produziu uma voz levemente alterada não causando estranhamento entre as diferenças entre o desenho e o filme de 2005.
  • 142_13Uma cena deletada de Star Wars Episódio III: A Vingança dos Sith (2005) mostra Obi Wan e Anakin testemunhando Shaak-Ti sendo morta nas mãos do General Grievous em sua missão de resgatar o Chanceler Palpatine. Isso atua como um final alternativo à missão de Shaak-Ti do desenho, no entanto, foi considerado algo não oficial.
  • 142_14No capítulo 24, Anakin vê uma mensagem enigmática detalhando um guerreiro Nelvaan que perdeu a mão na batalha, recebeu uma nova e quase destruiu sua própria aldeia. Este é um prenúncio da passagem de Anakin para o Lado Sombrio como acontece no último filme da trilogia prequel,  A Vingança dos Sith.

4. CONCLUSÃO
Se você é um fã do canal Cartoon Network, um fã raiz, vai apreciar bastante esta animação com os traços de Samurai Jack, que considero um dos grandes desenhos da época de ouro desse canal. Compensa muito ver as cenas de ações mortais, rechearem a tela principalmente as que envolvem não só Anakin, futuro Vader, mas a todos os jedis, em geral, mas principalmente Mace Windu e Yoda. Percebemos o porquê desses últimos serem considerados os jedis mais valorosos e eficientes da Ordem.

Outro ponto importante é a estreia de dois vilões importantíssimos para franquia: Asajj Ventress e o General Grievous. Ela porque é uma das peças centrais do filme e da série animada em computação gráfica; ele por ser um dos melhores vilões de A Vingança dos Sith (2005). As batalhas nas quais se envolvem vale cada minuto de seu tempo.

Já para quem é fã de longa data de Star Wars, fica a curiosidade para ver se a Disney cometeu ou não uma injustiça ao excluir essa série animada da mitologia oficial da franquia. Questão essa, para vocês eu deixar (tentando ser Yoda aqui). Adianto que considero uma obra digna e bem construída para ser descartada, mas não há como saber que rumos para Força a empresa do Mickey tomará. Sendo assim, assista e tire suas conclusões. No mais, prepare uma pipoca e que a Força esteja com vocês.

Barra Divisória

assinatura_marco

O POÇO – UMA ANÁLISE LITERÁRIA DO FILME

141_00

Uma prisão dividida em diversos andares. Dois presos por andar, seja ele um voluntário em busca de uma certificação ou que busque se isolar; seja ele um condenado por algum crime. A cela é um cômodo: camas, pia e privada. Sem portas. A única saída ou entrada é uma abertura no centro. Um poço por onde sempre descerá um banquete em uma plataforma. Um único banquete para os quase infinitos andares. Aqueles que estão nos andares superiores comem com fartura. Os restos são descidos. A medida que o banquete desce pelo poço, menos comida vai sobrando em meio a migalhas, restos. Quanto mais abaixo no poço, mais fome se terá. A situação é mudada de tempos em tempo quando um gás desacorda os presos e, novamente, ao despertarem estão em um andar diferente podendo ter mais sorte ou azar, mais fartura ou fome. Mas isso, é óbvio.

141_01

1. O bicho homem: de oprimido a opressor

Quando olhamos a dinâmica do filme, inicialmente vem-nos a mente a luta de classes ao modo marxista ao evidenciar que aqueles que estão em uma esfera superior, pouco se importam como os que estão abaixo deles (o termo comunista chega a ser citado). Há a manutenção perpétua do status-quo: nem mesmo aqueles que em um dado momento alcançam os primeiros andares se importam com seu passado de fome. Neste ponto o longa-metragem espanhol é repleto de referências filosóficas que pensam a dinâmica da sociedade. Tem riqueza e fartura quem se banqueteia nos andares superiores e aos de baixo resta-lhes as migalhas ou nada. Nem aqueles emergentes, que ficam subitamente na elite do poço, se importam com sua pobreza anterior. Isso reflete diretamente a nossa sociedade ao mostrar que temos a tendência de esquecermos de que também fomos oprimidos e nos tornamos opressores narcisistas, parafraseando Paulo Freire. Claro que a animalização humana é uma constante no filme ao reduzir o homem e sua racionalidade ao instinto da fome (Manuel Bandeira, implicitamente), numa esfera naturalista que relega e destrói a todos em prol da sobrevivência do mais forte. Darwin aprovaria esse enredo e aplaudiria de pé, se estas circunstâncias acontecessem no mundo real.

141_02

2. O inferno são os outros: a punição

Isso mesmo, o enredo do filme não se passa em nossa realidade. É uma metáfora bem construída e potencializada de nossa sociedade, mas o filme é uma ficção da ficção. Nesse sentido o terror do longa-metragem se estabelece com uma esfera angustiante de ameaça constante a “vida” dos personagens. Bem, se é que é vida, pois eles estão no inferno. Afinal, pela cultura ocidental, é no submundo, no Hades, no Sheol, no Tártaro que ficam presos aqueles que por seus crimes (é óbvio) ou vícios (como o de fumar) são punidos. Mas no Poço não há necessidade de “grelhas” para arder a alma do maus. “O inferno são os outros”, como diz o filósofo Jean-Paul Sartre, pois “projetamos nos outros a nossa realização e aguardamos deles que amenize o vazio que nos habita”. Desta forma, O Poço é uma roupagem nova para a punição no inferno, no qual as chamas eternas são substituídas pela fome que queima e pela centelha de uma esperança na mudança do outro, ou do sistema que nunca ocorre ou ocorrerá.

141_03

3. O inferno de Dante: no fundo O Poço

A primeira parte da consagrada obra de Dante Alighieri está nas entrelinhas do funcionamento do Poço. Este poema com mais 14 mil versos conta a história de Dante que decide encontrar sua amada Beatriz após sua morte. Para isso ele passará pelo Inferno, onde é guiado pelo poeta latino Virgílio, o Purgatório e o Paraíso. A parte mais conhecida é justamente o Inferno porque ficou notória a crítica social à Itália do século XIII em que o poeta colocou no poema todos os seus desafetos e a elite daquele tempo. Mas é justamente as nove regiões do Inferno de Dante que inspiram diversas passagens do filme, inferno esse também em andares cada vez mais profundos, os círculos. O filme está na ordem inversa da obra do poeta italiano: do nono ao primeiro ciclo (dos andares superiores do Poço ao último).

  • 141_04O nono círculo: Os traidores – No poema italiano é o Lago Cócite, pavimento de gelo. Aqueles que traem seus companheiros ficam aprisionados aqui. E a traição aqui é baseada na fome, quando a amizade é esquecida em favor da fome, ou mesmo quando se quer reter algum alimento do banquete às escondidas. O ambiente começa a congelar (ou esquentar) de forma drástica. Qualquer andar ou pessoa é traidora: fica claro e até ÓBVIO para quem vê os primeiros momentos do filme.
  • 141_05O oitavo círculo: Pecados e calor – Neste ciclo há muitos pecados listado a arder nos vapores infernais. Novamente vemos os mais diversos pecadores no andares do poço. Por mais que a gula seja o que mais chama a atenção, há luxúria, ira, inveja… Mas sempre puníveis com o calor se alguém burlar as regras da fome.
  • 141_06O sétimo círculo: A violência – Neste ciclo está todo aquele que agiu contra o próximo. Assim todos podem praticar a morte no Poço e agir contra o próprio companheiro de cela. Em Dante é o Vale da sombra da morte; no Poço é a morte do outro que vale. Não há confiança e todos serão tomados pela violência em algum momento.
  • 141_07Sexto círculo: Os hereges A fé não está resguardada, nem em quem acha que a solidariedade é o caminho, nem em quem quer usar a corda como atalho para sair do Poço. Aqui a noção de Deus é distante e pouco a pouco todos se distanciam dele, sem deixar de blasfemar ou deturpar os valores cristãos: homens bons matam, mulheres boas interpretam a Bíblia de forma hedionda e a própria existência de Deus é questionada.
  • 141_08Quinto círculo: Ira – Em Dante é um lago de sangue onde ficam mergulhados os irados. Pense no Poço, nos assassinatos e no sangue que a todos permeiam. Lembre-se da mulher que mata e vive em constante sujeira sanguinolenta. Ela sempre mergulhada em sua busca sangrenta.
  • 141_09Quarto círculo: AvarentosAcomete a todos no Poço. Não há partilha quanto mais alto é o andar em que os condenados se encontram. Querem o melhor para si e esquecem dos outros. Engordam vergados pelo peso da saciedade e se apegam aos seus itens pessoais.
  • 141_10Terceiro círculo: Os gulosos – Neste círculo do inferno de Dante aqueles que comem demais ficam na lama e são por fim devorados pelo cão de três cabeças Cérbero. É a própria dinâmica do Poço em que aqueles que comem demais imediatamente servirão de alimento, para a fome canina do outro. Não esqueça que há um cão nessa história: Ramsés II, faraó conhecido por Ozymandias (Rei dos Reis). O cão vira vítima da fome, o verdadeiro Cérbero, rei dos reis do Poço.
  • 141_11Segundo círculo: O julgamentoAcontece de forma crua e seca na entrevista antes de entrar no poço com a escolha da comida favorita e do objeto que levará para prisão. Minos, ser infernal, julga em Dante; a administração e os formulários no Poço. O inferno já estava ali desde sempre.
  • 141_12Primeiro círculo: Limbo – Primeira região de Dante é onde está os que morreram pagãos, que não conheceram Jesus e que vagam na eterna escuridão devido a não iluminação de suas mentes. O último andar é o primeira círculo da Divina Comédia. Uma menininha oriental, não batizada, pagã perto do divino (o andar é 333, três vezes, número da Divina Trindade), mas longe da salvação. Andar que também é o da besta visto que 333×2 dão 666 pessoas condenada (como salientou Dan Pereira Leite). E por fim um Gorik fadado ao limbo, a escuridão de quem não conheceu a salvação ou a luz.

141_13

4. Dom Quixote e a antropofagia

Se pensarmos que O Poço é uma representação do Inferno e que a principal punição deste lugar hediondo sãos as ações dos outros, fica fácil entender as motivações do protagonista Goreng. Ele escolhe estar no Poço em busca de redenção pessoal em relação ao seu vício em fumar. Acredita que expiará essa falha, que será um herói do auto domínio. Acredita nessa ilusão. Se observamos a caracterização do ator, ele nos lembra da imagem que temos de Dom Quixote, herói do livro de Miguel de Cervantes, o fidalgo que acreditou ser um cavaleiro andante e que lutava por uma donzela que não existia. Goreng é um homem abastado que quer ser herói de si mesmo (vencedor do vício) e do Poço (ao tentar salvar a mãe e sua filha). Mas seu Sancho Pança, óbvio que é o Trimagasi, tenta fazê-lo entender a filosofia do lugar onde ele está, trazê-lo para realidade infernal. Tanto Quixote como Goreng acreditam na ilusão e tem seus Sanchos até o final ao seu lado. Se você tem dúvida, lembre-se da cena em que, literalmente, Goreng come o seu livro, afinal “você é aquilo que você come”. Assim ao final da jornada de Dom Quixote, ele descobre a verdade; Goreng, por sua vez, descobre a ilusão e fica eternamente preso no limbo com Trimagasi.

Por fim há ainda de prestar atenção que Goreng é atormentado por quem ele se alimentou. Não é canibalismo, porque isso seria o simples prazer alimentício de comer carne humana. Não é o caso de nosso “herói”. Podemos dizer que o faz por necessidade. E ao se alimentar do outro, os humanos passam a habitar sua essência. Alimente-se do guerreiro mais forte: antropofagia, um ato religioso. Então Trimagsi e Imoguiri, a dona do cachorrinho, passam a habitar os pensamentos de Goreng e incentivando-o tanto no banquete que desce na plataforma como no banquete humano.

141_14

5. Sempre uma última ceia: a blasfêmia

Quando vemos a antiga recepcionista, Imoguiri, nos delírios de Goreng incentivando-o a comer carne humana, ecoa a citação bíblica da Última Ceia de Jesus com os apóstolos antes de ser crucificado (Mateus 26:17-30, Marcos 14:12-26, Lucas 22:7-39 e João 13:1 até João 17:26). Para ser o inferno precisa deturpar os valores de Deus de alguma forma e nada do que levar ao pé da letra “comer do meu corpo e beber do meu sangue”. Nesse ponto o Poço parece ironizar as primeiras perseguições feitas aos cristãos primitivos, acusado de fazerem sacrifícios humanos pelos Romanos. Muitos cristão foram morto por causa dessa interpretação. Os pagãos entendiam esses trechos como literalmente um sacrifício e não como rito simbólico de memória. Se para um cristão comer e beber da essência de Jesus os deixam saciados de qualquer fome carnal ou espiritual, para Goreng cada banquete sanguinolento só o leva a uma fome maior e desesperadora.

Outro dado: a trajetória de Jesus fala de uma mesa em que todos possam se alimentar, o banquete dos justos. É o comensalismo, uma filosofia que prega que todos devem ser aceitos à mesa e que todos são iguais. Ninguém deve alimentar-se das migalhas da mesa dos ricos (Mateus 15: 21:39). Até o cachorrinho Ramsés II, come mais do que quem está nos andares inferiores. Também o Poço subverte a ótica cristã e nem as migalhas deixa aos famintos e o banquete não é para todos.

Por fim a menina ao final. Aquela que lhe está destinada uma Panacota perfeita, sem nenhum cabelo. Ela mesma pura, limpa. Naquele inferno até a esperança é uma ilusão. No Poço, na Caixa de Pandora, de todos os males a criança é a esperança. Como pode uma menina conservada em um estado tão puro em um lugar hediondo sem se alimentar. Impossível. A última refeição é dela, da esperança ilusória de Goreng, o Dom Quixote do Poço. Ele fica para sempre no Limbo enquanto a esperança e a salvação sobem em alta-velocidade como oferenda de verdade. A esperança sobe veloz e furiosa sem chance de salvação. A mensagem final: bom apetite, pois chegamos ao fim do Poço.

Barra Divisória

assinatura_marco

ROGUE ONE – UMA HISTÓRIA STAR WARS (CRÍTICA)

140_00

Seis anos se passaram desde a Ordem 66 e o fim da Ordem Jedi (Star Wars Episódio III: A Vingança do Sith, 2005). O Império Galáctico precisa de uma arma definitiva capaz de minar qualquer ameaça ao seu domínio. Assim o responsável pelo projeto militar, o diretor Krenic, tenciona trazer de volta seu engenheiro-chefe, Galen Erso que se isolou arrependido de participar de um plano tão diabólico. Esta é a história por trás da construção da Estrela da Morte. Para ser mais exato, é a história de um grupo de soldados rebeldes que precisa reacender a esperança na Galáxia e, sem temer as consequências, deter a construção da “matadora de planetas”.

Para isso a Aliança Rebelde recrutará Jyn Erso, a filha sobrevivente de Galen. Ela, que fora criada pelo extremista Saw Guerrera depois que seu pai foi coagido a cooperar com o Império e sua mãe ser assassinada, é a única que pode unir as pontas soltas da trama. É preciso que Jyn entre em contato com Guerrera, pois ele tem informações cruciais sobre seu pai e o projeto da arma suprema do Império. Informações que podem mudar o destino da Galáxia. Na jornada, a amizade, a fé na Força e a esperança de um futuro melhor terão que ser reconstruídos no coração da Aliança Rebelde para um dia por fim na tirania do Imperador Palpatine, Darth Sidius. Sua confiança será depositada em um grupo de heróis totalmente inesperados tendo Jyn e o capitão Cassian Andor como líderes da missão Rogue One.

140_01

Título original: Rogue One.
Direção: Gareth Edwards.
Roteiro: Chris Weitz, Tony Gilroy, John Knoll e Gary Whitta.
Duração: 2h 13min
Lançamento: 15 de dezembro de 2016.

140_02

Elenco: Felicity Jones (Jyn Erso), Diego Luna (Cassian Andor), Alan Tudyk (K-2SO), Donnie Yen (Chirrut Îmwe), Wen Jiang (Baze Malbus), Ben Mendelsohn (Orson Krennic), Guy Henry (Governor Tarkin), Forest Whitaker (Saw Gerrera), Riz Ahmed (Bodhi Rook) e Mads Mikkelsen (Galen Erso).

140_03

1. A HISTÓRIA DA ESTRELA DA MORTE
Podemos de dizer que o maior feito bélico do Império Galáctico é a arma suprema, a Estrela da Morte. Esta nave gigantesca em forma de lua e armada com um poderoso canhão laser canalizados por cristais Kyber (o mesmo utilizado para construção dos sabres de luz) é capaz de dizimar planetas inteiros. E isso chocou a todos que virão o Episódio IV: Uma Nova Esperança (1977), quando a princesa Leia Organa vê seu planeta natal Alderan ser desintegrado.

No entanto o Imperador já punha em prática a construção dessa nave devastadora há muito mais tempo do que imaginamos. Antes das Guerras Clônicas, ainda como Chanceler Supremo, notamos que os planos para a Estrela da Morte estavam nas mãos dos Separatistas que se retiraram diante da investida jedi na Batalha de Geonosis (Episódio II: O Ataque dos Clones, 2002). Isso nos dá indícios que os fabricantes droides estavam de alguma forma ligados ao projeto inicial como parte dos planos do Conde Dookan e Palpatine.

140_04

Isso se confirma no Episódio III: A Vingança dos Sith (2005). Primeiramente vemos que em seu gabinete o Chanceler Supremo Palpatine, dono de poderes emergenciais, analisa os planos da Estrela da Morte antes de uma conversa com Anakin Skywalker, futuro Darth Vader. Ao final da trama, quando o Imperador finalmente extinguiu a Ordem Jedi, tomou o controle total do que antes era a República Galáctica e converteu Anakin Skywalker em Darth Vader, o mestre e seu aprendiz admiram a construção do esqueleto da “Matadora de Planetas”.

Nessa cena ainda vemos que estão acompanhados pelo Grande Moff Tarkin, o impiedoso comandante da Estrela da Morte, e que desde as Guerras Clônicas conseguiu subir ao poder e estar cada vez mais perto tanto de Anakin como de Palpatine, como nos mostra a série animada Clone Wars (Episódios 3×15-3×17; 5×17-5×20).

140_05

Treze anos antes da Batalha de Yavin, na qual a Estrela da Morte seria destruída por Luke Skywalker (Episódio IV: Uma Nova Esperança (1977), o diretor Orson Krennic precisa reconduzir o engenheiro-chefe, Galen Erso, ao trabalho na arma suprema. Erso se exilara com sua esposa e filha Jyn em um planeta afastado, Wobani (um anagrama para Obi Wan), para viver uma vida simples como fazendeiro. Mas o projeto não pode prosseguir sem Galen. Então Krennic, acompanhado dos impiedosos Troopers da Morte, precisa coagir seu antigo subordinado a voltar para construção da Estrela da Morte. O resultado é desastroso: o engenheiro é forçado a retornar, sua esposa Lyra Erso é assassinada diante de seus olhos e sua filha precisa se esconder e esperar pela ajuda de Saw Guerrera, amigo da família e a esperança de sobrevivência da menina. Desta forma a Estrela da Morte caminha para sua conclusão de forma irremediável para a Galáxia.

140_06

2. QUEM É SAW GUERRERA? (Spoilers não comprometedores)
Simplesmente: ele é rebelde até para Aliança Rebelde! Sim, um extremista capaz de fazer atos inomináveis tais quais o Império. Já havia causado diversos problemas a Aliança (que não são mencionados no longa-metragem) e que acabou tendo uma mente perturbada e tendo parte de seu corpo sobrevivendo por meio de implantes robóticos e sistemas de vida. No entanto plenamente atuante e com sua base escondida no planeta Jedha, outrora lar de um dos maiores templos Jedi.

Antes de tomar conta da pequena Jyn Erso e se tornar uma espécie de pai adotivo, ele esteve a frente, ainda muito jovem, de um frente rebelde contra o domínio separatista de seu planeta Alderon. Planejava conquistar a capital Isis e destituir o poder vigente com ajuda de sua irmã e do Conselho Jedi. No entanto, a Ordem não quer se envolver diretamente no conflito civil apenasse limitando a treinar a Aliança Rebelde a agir de forma militar e coordenada.

Depois que se infiltram na cidade, os jedis acabam deixando Ahsoka Tano como conselheira estratégica, informal da nova líder Rebelde Steela Guerrera, irmã de Saw. Mesmo reconduzindo ao governo seu líder legítimo, Saw Guerrera perde muito com a vitória sobre os Separatistas. Apesar de Alderon ter recuperado a paz e voltado ao seio da República, Saw Guerrera perde sua irmã. Esse sacrifício endurece ainda mais o coração do rebelde e talvez seja o motivo de sua ações extremistas como a Aliança Rebelde o caracteriza em Rogue One. Esses fatos, contados na série animada Clone Wars (5×02-5×05), também nos remete a própria origem da Aliança Rebelde e coloca Saw como um de seus fundadores.

Assim Saw Guerrera é encarregado pela força das circunstâncias a criar e educar Jyn Erso, que cresce entre os ataques e planos terrorista de Guerrera. É forjada na iniciativa Rebelde, mas passa a desacreditar nela desde que Saw a abandona temendo que a usassem para feri-lo. Desde então ela passa a viver sem se importar com nada, neutra e cometendo crimes. Presa, acaba sendo solta pela Aliança Rebelde, pois é a única que pode entrar em contato com Saw Guerrera e sobreviver. E o líder extremista é o único que possui uma mensagem secreta de seu pai, Galen, que foi enviado por meio do piloto, Bodhi Rook.

140_07

3. UMA MISSÃO SUICIDA (Alerta de Spoiler / pule para a conclusão)
Coagida a ajudar a Aliança em troca de sua liberdade, Jyn Erso se junta a Cassian Andor, um oficial capaz de qualquer coisa pela cauda Rebelde, e um androide do Império reprogramado K-2SO. Não há afeição ou confiança, mas eles precisam ir a Jedha encontrar Saw Guerrera e assim ter acesso ao piloto Bodhi Rook e a mensagem que ele porta de Galen Erso.

No caminho esbarram em dois antigos guardiões do templo de jedi, Chirrut Îmwe e Baze Malbus, que parecem sentir a Força permear as ações da jovem Erso. Assim após uma batalha são conduzidos a Saw Guerrera que finalmente revela o conteúdo da mensagem: Galen trabalhou por anos a fio na Estrela da Morte, mas deixou um falha capaz de por em colapso toda nave suprema. É preciso encontrar o engenheiro-chefe e se apossar desse segredo. Mas o fim do encontro com Saw é trágico: Tarkin ordena que Krennic teste o poder da arma em Jedha. Assim o primeiro ataque da Estrela da Morte dizima a cidade e com ela Guerrera que aceita de bom grado a sua morte e o fim de tantas lutas.

De posse da informação, mas sem a mensagem holográfica Jyn Erso tenta convencer a cúpula da Aliança Rebelde a ir ao encontro de seu pai em Eadu, locar de refinaria imperial de cristais kyber. Assim Cassian Andor, com a missão secreta de matar Galen depois de obter a informações, junto com K-2SO, Chirrut e Baze são guiados pelo piloto Bodhi. Mas novamente Jyn perderá alguém amado: seu pai morre em seus braços, mas deixa claro onde estão os planos de sabotagem da Estrela da Morte.

Novamente sem provas e somente sua palavra, Jyn Erso não consegue convencer a Aliança Rebelde de que em Scariff estariam os planos de seu pai. Não consegue fazer com que a cúpula apoie uma investida em massa a sede dos arquivos imperiais. Bail Organa, pai adotivo de Leia, bem como Raddus, o mon calamari, parecem acreditar na jovem, mas não aponto de arriscar uma ofensiva.

Assim Cassian, os guardiões do templo, Bodhi e K-2SO juntam-se a Jyn Erso para uma missão suicida: infiltrar-se com a nave roubada em Scariff e roubar os planos que podem destruir a Estrela da Morte. Mas o que pode um grupo de Rebeldes e um pequeno destacamento de soldados contra uma das bases mais bem protegidas do Império Galáctico? Este plano suicida acaba por ser aqueles que Leia esconde em R2D2 no início de uma Nova Esperança, aqueles que indicarão onde Luke Skywalker deverá atingir para por fim a Estrela da Morte na batalha de Yavin.

Mas sabem Cassian Andor e seu grupo que tanto Krennic como Tarkin, já comandante da super arma, encaminham-se para Scariff e contarão com a ajuda de ninguém menos que Darth Vader que se encontrava em Mustafar, seu covil e lugar onde fora derrotado por Obin Wan Kenobi no Episódio III: A vingança dos Sith (2005). Mas talvez, como a própria Jyn afirma:

As rebeliões começam com esperança.

140_08

4. A CRENÇA NA FORÇA
Jyn Erso não acredita em mais nada. Sua mãe antes de morrer lhe afirma para confiar na Força. Neste filme o conceito de Força é amplamente abordado, mesmo que nenhum jedi apareça em cena, somente Darth Vader e seu uso sombrio do Lado Negro. Nesse sentido é uma época decadente para quem acredita nela.

O lugar de um dos mais poderosos templos da Ordem, a planeta Jedha, não passa de uma grande mina de cristais Kyber. Tudo referente a era gloriosa dos jedis está em ruínas e até uma imensa estátua de Cavaleiro e os restos do templo da ordem servem esconderijo para o bando de Saw Guerrera.

Mas o sentimento místico da Força ainda permeia as ações dos guerreiros do bem. Apesar de Jyn Erso só ter como lembrança um cristal kyber como pingente de um colar e as palavras de sua mãe, a Força encontra um jeito de envolvê-la. É assim que ela trava contato com dois antigos guardiões do Templo: Chirrut Îmwe e Baze Malbus. O primeiro é cego e exímio com a luta com os bastões, um crente fervoroso nos desígnios da Força; o segundo, tornou-se um descrente mesmo nutrindo um amizade com Chrirrut, confia mais no seu rifle de blaster do que em algo invisível.

Rogue One restabelece a ideia da força como algo místico e religioso, mostra como os povos comuns passaram a crer como algo que os leva para o bem. Esse sentimento é o que marca os Rebeldes em sua luta contra o Império, cujos maior expoente são os esforços de Luke e Leia Organa. Assim a história de Jyn mostra que a crença na Força não era exclusividade de Jedi e Sith nem simples contagem de mindiclorianas (explicação de George Lucas que acho forçada e digna de pouca ênfase), porém algo análogo a esperança para cada ser vivo da Galáxia. Ou seja, a Força como filosofia jedi morrer com seus cavaleiros, mas permanece viva nos homens comuns como a fé em um futuro melhor.

Por isso não tem como não se emocionar com o mantra repetido por Chirrut Îmwe a cada momento do filme até seu derradeiro suspiro e os último momentos de Baze Malbus, recuperando a fé perdida:

Eu estou com a Força e a Força está comigo.

5. EASTER EGGS

  • 140_09O laser da Estrela da Morte: é a última parte adicionada à arma suprema original para torná-la completa em Rogue One. No entanto segunda Estrela da Morte (Episódio VI: O Retorno do Jedi, 1983), tem seu laser já conectado (e totalmente operacional), mesmo quando a superestrutura da estação ainda estava incompleta.
  • 140_10Rebels, série animada: em uma cena em Yavin IV, um locutor pode ser ouvido chamando um “General Syndulla”. Refere-se a Hera Syndulla a piloto twi’leks da Ghost no desenho animado. A própria nave está presente tanta na base rebelde em Yavin 4 como na batalha final em Scariff. No entanto não existe nenhuma perspectiva do arco Rebels se tornar um filme live-action.
  • 140_11Arquivos 1: Rastreando no hiperespaço – Há menção a uma tecnologia imperial secreta usada pela Primeira Ordem em Star Wars: Os Últimos Jedi (2017). Um tópico chamado “Rastreamento do Hiperespaço” diz respeito a tecnologia que permite à Primeira Ordem perseguir a frota da Resistência, mesmo quando eles viajam pelo hiperespaço.
  • 140_12Arquivos 2O Sabre Negro – Quando Jyn está procurando os planos da Estrela da Morte no cofre, ela lê “Darksaber” ou “Sabre de Luz Negro”. A arma O Darksaber é uma espada de energia criada pelos primeiros Jedi Mandalorianos. Foi visto na série animada Clone Wars nas mãos de Pre Vizsla (4×14, 5×14-5×15) e, mais recentemente, na série O Mandaloriano (1×08). Ainda há referências a arma em Rebels no qual Sabine Wren a maneja e a presença dele no game Star Wars: The Force Unleashed (2008).
  • 140_13O nome Rogue One é o codinome que Bodhi Rook inventa para usar a nave imperial roubada que os rebeldes para missão em Scariff. Rogue Two é o codinome do piloto rebelde que encontra Luke e Han em Hoth no Episódio V: O Império Contra-Ataca (1980).
  • 140_14A Cidadela e o Planeta Scarif, onde os dados imperiais são armazenados, é uma reminiscência do planeta Rakata Prime, que apareceu pela primeira vez no videogame Star Wars: Knights of Old Republic (2003).
  • 140_15As consequêcias para o Episódio IV (1977) – A Batalha de Scarif ajuda a explicar por que a Aliança Rebelde só conseguiu reunir cerca de trinta caças estelares para atacar a Estrela da Morte (Episódio IV: Uma Nova Esperança (1977). Também explica por que eles deixaram Luke, um piloto sem experiência em X-Wings, se juntar ao ataque. A batalha final com para auxiliar Jyn e seu grupo esgota severamente o corpo de caças Rebeldes e seu líder, o general Merrick, é morto em ação. Luke é recrutado para substituir o Red 5, que também foi morto em Scarif. A batalha também acrescenta peso à advertência de Luke a Han de que os rebeldes “… poderiam usar um bom piloto como você, você está dando as costas a eles”.
  • 140_16O Imperador aumenta seu poder – Ainda em relação Episódio IV: Uma Nova Esperança (1977), o governador Tarkin anuncia que o Imperador dissolveu o conselho permanentemente e que todos os territórios são diretamente controlados pelos governadores regionais. Embora o motivo dessa decisão nunca tenha sido explicitamente declarado, é provável que o Imperador tenha feito isso em resposta direta à batalha de Scarif, que ocorre no final deste filme. Como este foi o primeiro ataque aberto da Aliança Rebelde ao Império, ele provavelmente a usou como uma desculpa para implementar alguma forma de lei marcial em toda a Galáxia e se livrar do último órgão governamental da República que estava entre ele e o poder absoluto.

6. CURIOSIDADES HISTÓRICAS

  • 140_17Bomba Nuclear – O pai de Jyn, Galen Erso, é inspirado em J. Robert Oppenheimer, o pai da bomba atômica. Pois os dois homens compartilham o mesmo fator de culpa de se tornar um agente da morte por construir uma arma de destruição em massa.
  • 140_18Guerras reais – Para conferir a aparência pretendida das batalhas na superfície, o diretor Gareth Edwards e a equipe de design simplesmente resgataram fotos da Segunda Guerra Mundial e do Vietnã, substituíram os capacetes do exército por capas de rebeldes e adicionaram X-Wings nas fotos. Eles também desenharam storyboards inspirados em fotos das zonas de conflito do Oriente Médio. Foi a inspiração definitiva para o estúdio prosseguir com os detalhes do conflito.
  • 140_19Batalhas no PacíficoOs soldados da Aliança Rebelde na batalha por Scarif são vistos usando capacetes M1, um tipo usado pelas forças armadas dos EUA de 1941 a 1984. Isso mostra que a cena é inspirada em batalhas travadas em ilhas tropicais como Tarawa e Pelelui no Pacífico. No entanto a locação real fora as Ilhas Maldivas no Oceano Índico.
  • 140_20Che Guevara? O personagem de Saw Gerrera parece ser uma homenagem ao combatente da liberdade argentino, Ernesto ‘Che’ Guevara. Ambos os homens foram considerados extremistas em suas batalhas contra as ditaduras, resultando em visões contraditórias de seus legados.

CONCLUSÃO
Este é um filme de guerra. É um filme sobre uma causa maior. É meu preferido quando se refere aos longas criados a partir do momento que a franquia passou as mãos da Disney. Um dos primeiros pontos é a consciência de como o Império Galáctico pode ser mortal em suas ações. Os Stormtroopers, que nos parecem tão patéticos na trilogia original e que são tão facilmente enganados e mortos por Luke e seus amigos, aparecem letais nesse longa-metragem. Realmente uma força a ser temida. Mas também os Rebeldes são extremamente heroicos e com táticas militares invejáveis.

Mesmo não tendo em cena nenhum jedi, a Força está lá e as informações serão passadas a Obi Wan em seu exílio. Este filme é justamente o fundamento para entendermos com mais propriedades as lacunas de Um Nova Esperança (1977), pois se passa alguns dias antes deste filme. Assim detalhes como Leia é presa, como os planos passam a R2D2 e a história de morte e sacrifício por trás dessas sutis ações. Como também explica fatos maiores como Tarkin no comando da Estrela da Morte, o primeiro planeta a ser destruído ser Alderam, lar de Bail e Leia Organa, entre outros fatores.

Considero um filme obrigatório para as novas gerações que querem adentrar na trilogia clássica sem ficar boiando nas referências. Não que um fã de velha data precise dele para amar a vitória de Luke sobre a Estrela da Morte, mas Rogue One nos apresenta uma ótica poética e bonita que serve de fundo para os episódios IV a VI da franquia. E acredite ao ver esse filme, caro leitor, não perderá seu tempo, pois, afinal: você estará com a Força e a Força estará consigo.

Barra Divisória

assinatura_marco

STAR WARS: THE CLONE WARS (CRÍTICA E GUIA DE EPISÓDIOS)

135_00

ONDE A SÉRIE ANIMADA SE ENCAIXA NO MUNDO STAR WARS?
É inegável que a franquia Star Wars é um universo gigantesco e que de tempos em tempos volta ao imaginário da cultura pop. O fascínio que o mundo criado pela Lucas Art pode exercer sobre as gerações pode vir acompanhado tanto de alegria como de decepção. Se compararmos com a trilogia clássica (Episódio IV: Uma Nova Esperança, 1977; Episódio V: O Império Contra Ataca, 1980; e Episódio VI: O Retorno de Jedi, 1983), a trilogia prequela é, para os fãs mais entusiasmados, bastante inferior do ponto de vista do enredo e atuação.

Chamamos de trilogia prequela (ou pré-sequência) os filmes dirigidos por George Lucas e que contam a ascensão de Anakin Skywalker até ser convertido ao Lado Negro da Força e como a República Galáctica e o Conselho Jedi, aos poucos, sucumbiram e foram aniquilados pela influência de Darth Sidious, o líder supremo do Império Galáctico. Abrange: Episódio I: A Ameaça Fantasma (1999); Episódio II: O Ataque dos Clones (2002); e Episódio III: A Vingança dos Sith (2005).

No entanto, nada é mais obscuro que o período que compreende o início das Guerras Clônicas, na Batalha de Geonosis (final do Episódio II) até a Ordem 66, o extermínio dos Jedis a mando de Darth Sidious (final do Episódio III). Isso se dá por imensos buracos no roteiros da trilogia prequela, informações não explicadas ou mesmo curiosidades que deixaram questões em aberto como quem criou os clones, como os Jedis foram enganados, entre outros pequenos e grandes detalhes.

135_01

O longa-metragem de animação Star Wars: A Guerra dos Clones (2008) dá o pontapé inicial para explorar toda a história por trás do maior conflito enfrentado pela República Galáctica. Esse longa já resenhado aqui, trata justamente da chegada de duas discípulas: Ahsoka Tano e Asajj Ventress. A primeira se torna padawan (aprendiz) de Anakin Skywalker e a segunda, é uma Irmã da Noite do planeta Dathomir que se torna serva de Conde Dookan, líder separatista e aprendiz de Darth Sidious.

A série de TV Clone Wars, aqui exibida pela Cartoon Network, teve seu sucesso entre os anos de 2008 e 2014. É considerada pela Disney como cânone (conteúdo oficial) da franquia Star Wars e possui seis temporadas e um total de 121 episódios. Anakin, agora mestre de Ahsoka Tano, ao lado de Obi-Wan Kenobi, enfrentam os inimigos da República em uma guerra de reveses alucinantes. Eles descobrem cada vez mais a influência do Lado Sombrio sobre as forças Separatistas ao mesmo tempo que tem seu mundo e incertezas totalmente abalados por uma guerra de épicas proporções.

135_02

O QUE VOCÊ PODE ESPERAR? / LEVES SPOILERS
A série animada é em computação gráfica e segue os mesmo moldes e conceitos do longa-metragem de animação Star Wars: A Guerra dos Clones (2008). A ação é frenética e o traço dos personagens são bem marcados. Seja em uma batalha com sabres de luz ou na trincheira dos clones no tiroteio contra um exército droide, a ação não deixa a desejar.

Mas o principal atrativo é que a série consegue conquistar não só ao frequentador assíduo do mundo Star Wars, pois conserva os elementos emocionantes ou impiedosos como a morte de um personagem querido, como também mantém um tom capaz de conquistar as novas gerações.

135_03

Além de elucidar muitas questões que ficaram em aberto entre o Episódio II e Episódio II, a série mostra múltiplas narrativas e histórias. É como se fossem crônicas de uma guerra e você pode acompanhar a trajetória de inúmeros personagens que contribuíram, influenciaram ou foram tocados de alguma forma pelas Guerras Clônicas. Então não pense que o foco será 100% em torno de Anakin Skywalker que, aliás, aprenderá a gostar muito mais da versão do desenho animado do que da péssima interpretação de Hayden Christensen no filmes.

Podemos citar, entre tantas histórias contadas ao longo de seis temporadas, o papel de Ahsoka Tano que sai de simples padawan para um líder importantíssima. Também Ventress, discípula de Conde Dookan é intensamente trabalhada mostrando seu passado como Irmã da Noite no planeta Dathomir, o mesmo de Darth Maul, o aprendiz sith que enfrentou e matou Qui-Gon Jinn em Episódio I: A Ameaça Fantasma (1999).

135_04

A série animada expande o universo conhecido ao abordar o passado de Obin Wan Kenobi e os detalhes sutis do romance entre Anakin Skywalker e Padmé Amidala. Ao mesmo tempo que revela muitos detalhes obscuros das Guerras Clônicas, apresenta personagens marcantes como os soldados clones do Batalhão 501 (Rex, Fives, Echo e Cody). Também desenvolve as narrativas em torno do conselho jedi, muitos personagens que só rapidamente aparecem nos filmes: os mestres Plo Koon, Shaak Ti, Kit Fisto, entre outros. E claro, somos brindados com episódios estrelados por Mace Windu e Yoda, que apesar de poucos, são importantes demais para entender as Guerras Clônicas e suas ressonâncias.

Também há narrativas focadas no Lado Negro e podemos conhecer as artimanhas de General Grievous, Ventress e até inimigos novos como Savage Opress e a líder das Irmão da Noite, Mãe Talzin. Há inimigos que julgávamos mortos e outros que começam a ser desenvolvidos aqui como Bobba Fett e os Caçadores de Recompensa. Ainda vemos Palpatine, como Darth Sidous, em lutas fantásticas e como ele poderia ser mortal com um sabre de luz.

135_05

Claro que nem tudo são flores e há episódios ao longo das temporadas que mais preenchem espaços (enchem linguiça) do que sejam relevantes para história geral da franquia. Quase sempre são encenados pelos droides C3PO e R2D2. Calma, adoro os robozinhos e muitas histórias mostram como o astrodroide R2D2 é um veterano e importante personagem de guerra, mas muitas vezes os episódios são mais divertidos e infantis do que relevantes.

Ainda há episódios com Jar Jar Binks que, mesmo em parceria com outros personagens da série, terminam sendo enfadonhos. Talvez devido a minha implicância com esse personagem não tenha aproveitado bem as aparições dele, exceto quando ele auxiliou Mace Windu em uma missão, mas também eu adoro este mestre jedi e talvez devido a isso tenha gostado.

135_06

QUAL A ORDEM CRONOLÓGICA PARA ASSISTIR?
Abaixo um guia para assistir as seis temporadas da série animada na ordem crológica:

135_07

135_08

QUAIS SÃO AS MELHORES HISTÓRIAS?
Qualquer seleção é sempre problemática na medida que é uma questão de opinião. Mas nas+1 linhas abaixo separo os arcos de história mais relevantes para entender as Guerras Clônicas e o que elas influenciaram na origem de personagens ou suas consequências para a trilogia clássica ou outras obras derivadas. Claro que devorar as seis temporadas mostrarão informações valiosas e renderão boas horas de diversão. Deixe sua opinião ou histórias favoritas nos comentários.

135_09

1. As origens de Boba Fett (2×20-2×22, 4×15, 4×20)
O perigoso caçador de recompensas que, a serviço de Jabba, aprisionou Han Solo em carbonita (Episódio V: O Império Contra Ataca, 1980), tem suas origens exploradas na série animada. O mandaloriano é treinado por Aurra Sing, perigosa assassina que assistia a a corrida de pods em Naboo (Episódio I: A Ameaça Fantasma, 1999). Aurra aparece como mestre do garoto quando Bobba Fett deseja vingança contra Mace Windu (2×20-2×22), o mestre jedi que assassinou seu pai na Batalha de Geonosis (Episódio II: O Ataque dos Clones, 2002). Ambos fracassam devido aos esforços jedi.

Depois, percebemos que ele se adaptou a vida do crime e possuía aliados leais na prisão entre eles Bossk (4×15) e acaba ajudando Cad Bane e Kenobi (que estava infiltrado) a escaparem.

Por fim já o vemos adolescente como Caçador de Recompensas, muito jovem e habilidoso e já com todo um bando a sua disposição. Acaba contratando a Asajj Ventress (4×20) que se encontra exilada na Orla Exterior depois de ter perdido suas origens e rumos.

135_10

2. Mandalore (2×12-2×14, 4×14, 5×14-5×15)
Com o sucesso da série da Disney+, O Mandaloriano, os fãs da franquia ficaram ainda mais animados para conhecer o passado desse povo guerreiro do qual só conhecíamos com mais ênfase Jango e Bobba Fett. A série animada nos apresenta o planeta Mandalore que almeja a um caminho de paz ao passo que líderes como Pre Vizsla, à frente do Olho da Morte, tentam a todo custo sabotar os planos da pacifista Condessa Satine (2×12-2×14).

Mesmo com uma derrota inicial, exilados momentaneamente (4×14), o Olho da Morte nutre o desejo de tomar o poder da Mandalore. Acaba por encontrar um antigo sith, um aliado dúbio para sua escala ao poder: Darth Maul (5×14-2×15).

135_11

3. O retorno de Darth Maul (3×14, 4×21-4×22, 5×01, 5×14-5×16)
Sim, ele mesmo. Para você que pensou que o monossilábico aprendiz sith que matou Qui-Gon estava definitivamente morto após Obi Wan Kenobi cortá-lo ao meio (Episódio I: A Ameaça Fantasma, 1999), está enganado. Descobrimos com a série animada que sua origem está ligada ao planeta Dathomir, lar das Irmãs da Noite, bruxas capazes de manipular a Força Viva em todas as criaturas.

Savage Opress, aprendiz sith e das Irmã da Noite, acaba por receber a missão de reencontrar seu irmão na Orla Exterior (final do episódio 3×14, mas convém ver os dois anteriores para saber melhor o contexto). Opress consegue localizar Maul, agora ensandecido e vivendo isolado. Seu clamor por vingança é doentio e só melhora com os esforços de Mãe Talzin (4×21-4×22), bruxa maior de Dathomir. Curado, persegue Kenobi com a ajuda de Savage Opress.

Mesmo tentando agir no submundo, recrutando contrabandistas como um exército capaz de fazer frente aos jedis (5×01), acaba sofrendo duras derrotas. No entanto, ao ser resgatado por Pre Vizla e o Olho da Morte, vê uma chance de formar um grande exército de criminosos e assim dominar a Orla Exterior (5×14-5×16). Ajudando o grupo mandaloriano a chegar ao poder, acaba por atrair as atenções tanto de Kenobi quanto de Darth Sidious. As consequências são impressionantes e com direito as melhores batalhas de toda série animada.

135_12

4. Qui-Gon Jinn e o Escolhido (3×15-3×17, 6×11-6×12)
Diferente de Darth Maul, Qui-Gon ainda está morto. Mas isso não quer dizer que não esteja presente. Aliás ele é de vital importância para o rumo da Galáxia e inclusive para Luke Skywalker, mesmo que indiretamente.

Quando Anakin, Ahsoka e Obin Wan visitam um misterioso planeta Mortis no qual os elementos da Força estão personificados (o Pai, o equilíbrio e os filhos, a Luz e a Sombra), é Qui-Gon que conversa com Kenobi em um momento de confusão e personificado como fantasma da Força explica sobre o Escolhido (3×15-3×17). Também é o antigo mestre de Kenobi que guiará Yoda para que ele entenda os desígnios da Força, possa superar a morte e se integrar à Força Cósmica (6×11-6×12). Com ele entendemos as ações de Yoda ao final das Guerras Clônicas e até as do próprio Kenobi.

135_13

5. O impiedoso Tarkin (3×15-3×17; 5×17-5×20)
O Grande Moff Tarkin, o vilão que comandava a Estrela da Morte na Batalha de Yavin (Episódio IV: Uma Nova Esperança, 1977) tem parte de seu passado revelado na série Clone Wars. Acompanhamos o primeiro contato dele com Anakin Skywalker, futuro Darth Vader,  ainda quando era capitão das forças da República (3×15-3×17). No início a antipatia é mútua, no entanto, aos poucos, ambos concordam com a ineficácia da técnicas jedi para levar fim a guerra: era preciso uma liderança firme.

Tarkin ainda mais severo com a ordem jedi e já comandado por Palpatine, empreende uma investigação e acusação contra Ahsoka Tano, culpabilizada por um atentado ao Templo Jedi (5×17-5×20). Isso dá mostra do seu caráter inflexível e maldoso que o fará comandante da maior arma do Império Galáctico.

135_14

6. A saga do soldado clone Fives e a Ordem 66 (3×01; 1×05; 3×02; 3×18-3×20; 4×07-4×10; 6×01-6×04)
A questão dos clones é intensamente debatida ao longo da série. Questões filosóficas como a humanidade dos mesmos, o fato de serem descartados ou não como meros droides, como força de batalha dispensável ou não. O batalhão 501, que respondia diretamente a Anakin e Ahsoka é falado com detalhes e alguns oficiais são detalhados como, em maior medida, o Capitão Rex e Fives.

Este último é especial porque é aquele que mais questiona sua condição e reafirma seu senso de fidelidade e dever para com seus irmãos de armas. Também é a saga do único clone que consegue descobrir o mistério por trás da Ordem 66, uma programação inserida para no momento certo executar todos os jedis da Galáxia. Acompanhando a saga de Fives, conheceremos o segredo por trás desse malicioso e mortal plano de Palpatine, bem como suas origens.

135_15

7. Uma guerra de histórias
Claro que ainda há muita coisa a ser vista, mas para completar o guia, nada mais justo do que umas sugestões de episódios baseados nos personagens principais em ordem cronológica para aproveitar o enredo:

  • Somente os episódios com os protagonistas: Anakin Skywalker, Obi Wan Kenobi e Ahsoka Tano
    (2×16; 1×16; Filme A Guerra dos Clones; 3×01; 3×03; 1×01-1×15; 1×17-1×21; 2×01-2×03; 2×17-2×19; 2×04-2×14; 2×20-2×22; 3×05-3×07; 3×02; 3×04; 3×08; 1×22; 3×09-3×11; 2×15; 3×12-3×22; 5×02-5×13; 5×01; 5×14-5×20; 6×01-6×13);
  • As aventuras de Padmé Amidala
    (1×04; 4×04; 1×08; 1×11; 1×17-1×18; 2×19; 2×04; 2×14; 3×05; 3×07; 3×04; 3×08; 1×22; 3×10; 3×11; 2×15; 4×01-4×04; 4×14; 5×20; 6×05-6×07);
  • A história de Asajj Ventress: a Irmã da Noite convertida em sith
    (1×16; 1×01; 3×02; 1×09; 3×12-3×14; 4×19-4×22; 5×19-5×20);
  • Quem é Saw Guerrera? Importante líder rebelde durante Rogue One: Uma história Star Wars, possui sua origem explícita na série animada (5×02-5×05);
  • A origem dos clones e a trama de Palpatine (6×10-6×11) se completa com o plano da Ordem 66 (6×01-6×04).
  • Somente, Yoda, quer você ver: (1×01; 6×10-6×13).

CONCLUSÃO: Se queres paz, te prepara para a guerra!
A  essa altura da minha crítica o leitor já deve desconfiar de minha crítica super favorável a esta série animada. Não só pelo seu caráter elucidativo para quem é fã da franquia Star Wars como também abrilhantar uma parte da história que achamos sem o mesmo brilho que a trilogia clássica: a pré-sequência de George Lucas. Se você já acompanhou em ordem cronológica as críticas aos longas-metragens prequel, sabe que, tanto o Episódio I quanto o Episódio II, são ao meu ver bastante inferiores do ponto de vista do roteiro. Mas a série animada  Clone Wars não só consegue “consertar” boa parte da história como até melhorar.

Enquanto os filmes mostram um Anakin Skywalker insípido e sem graça, a série animada nos mostra seus anos dourados como valente herói da República e um grande trunfo do Templo Jedi. Isso também vale para Obin Wan Kenobi, mas a série ainda nos brinda com a preciosidade que é Ahsoka Tano. Essa complexa padawan que amadurece ao longo das temporadas talvez seja uma das maiores contribuições ao universo Star Wars.

Se você já é um fiel frequentador de Star Wars e deseja saber tudo sobre a guerra entre a República Galáctica e os Separatistas, talvez esse seja seu melhor desenho animado. Para o recém-chegado à franquia, esta será uma oportunidade sem igual de conhecer franquia devido as epígrafes filosóficas (mensagens no início de cada episódio), arte gráfica e batalhas alucinantes. Seja corajoso, pois como a última citação da série diz:

Enfrentar todos os seus medos o libertará de si mesmo.

Barra Divisória

assinatura_marco

 

O CONTO DA AIA – LIVRO (CRÍTICA)

131_00

I- SINOPSE

Depois de uma revolução teocrática no século XXI, que estabeleceu uma sociedade estratificada, conservadora com bases nas raízes puritanas do século XVII, o que conhecemos como Estados Unidos foi destruído. As políticas racistas foram um dos combustíveis emocionais da revolução e agora impera a República de Gilead, um estado totalitário que, embasado em uma interpretação moral e segregadora do Antigo Testamento, restabelece uma sociedade patriarcal na qual a mulher não tem voz ativa nenhuma.

Uma sociedade envelhecida, assolada por doenças e reflexos da contaminação nuclear, fez como que a taxa de natalidade caísse a níveis muito pequenos. Há uma esterilidade generalizada entre mulheres e homens (por mais que eles neguem isso). Assim a elite, com forte teor militar, estabelece que suas esposas (recatadas e do lar) lhe sejam submissas, não tenham acesso à leitura, instrução ou beleza. Incapacitados de conceber filhos, tem como última esperança as Aias: barrigas de aluguel que geram os filhos para a elite de Gilead.

No entanto as Aias, sempre de vermelho e antolhos, não exercem tal função de bom grado e espontaneamente, pelo menos a maioria. São obrigadas, doutrinadas a procriar contra sua vontade e tem seus filhos arrancados de si desde muito cedo. É nesse contexto que seguimos de perto as memórias da Aia Offred, de 33 anos, e sua liberdade vigiada de ser usada como objeto reprodutivo de uma família e uma sociedade que diz agir em nome de Deus e dos bons costumes. Ela precisa conceber de seu Comandante (chefe da casa), senão pode ter um destino bem pior: ser prostituta ou ir para as colônias radioativas e ter uma morte lenta e dolorosa. Tudo isso sem amor, afeição, ou liberdade de expressão, pois tais atos, às vezes, podem significar a tortura e a morte.

131_01

Título original: The Handmaid’s Tale
Autora: Margareth Eleanor Atwood
Tradução: Ana Deiró
Gênero: Romance canadense.
Editora e ano: Rocoo, 2017.
Páginas: 366
Referência bibliográfica: ATWOOD, M.E. O conto da aia. Rio de Janeiro: Rocco, 2017.

131_02


II – PERSONAGENS

  1. OFFRED (JUNE) – Narradora-personagem, ao menos a segunda Aia enviada à residência dos Waterford a fim de dar um filho a família. É pelo olhar dela que conhecemos os costumes da República de Gilead e os rumos que a sociedade teocrática tomou. O nome June remete a deusa romana do casamento Juno e não é à toa!
  2. O COMANDANTE (FRED) – Oficial importante de Gilead e o patriarca da família Waterford. É velho e possui acesso a muitos itens proibidos naquela sociedade, desde revistas femininas a livros, além de livre acesso aos espaço de Gilead.
  3. SERENA JOY (a Esposa) – Senhora decrépita que se reduz a tricotar e cuidar de seu jardim. Antes da revolução, fora uma celebridade televisiva que pregava sobre a santidade do lar e como as mulheres deveriam ficar em casa, mas que agora não passa de um Esposa à espera de um filho. É amarga para com Offred e fará de tudo ao seu alcance para que sua Aia possa engravidar.
  4. TIA LYDIA – A instrutora, tutora, carcereira do Centro Vermelho responsável pela doutrinação das mulheres férteis e pela sua adequada servidão na casa dos Comandantes. É acessada por meio de flashbacks de Offred ao longo da narrativa. É a voz na mente da narradora. Só aparece no livro como personagem durante a cerimônia de Salvamento.
  5. OFFGLEN – Companheira de caminhada e ida às compras de Offred. É integrante de uma rede clandestina de fuga de mulheres da República de Gilead. Pouco se sabe sobre a identidade da moça e suas conexões, mas percebe-se que era ativa na luta pelo restabelecimento da liberdade das mulheres.
  6. MOIRA – Melhor amiga de Offred em seus tempos de faculdade quando a narradora ainda era June. Lésbica e muito determinada, é o ideal de Offred de resistência e luta sendo extremamente arredia em relação ao Centro Vermelho e sua doutrinação. Também é vastamente acessada pelas divagações de Offred e aparecendo somente como personagem ativa em um capítulo.
  7. NICK (o motorista) – chofer da família Waterford, silencioso e contido. Pouco se sabe de seu passado além das suspeitas de ser ou um agente da resistência (Mayday) ou um dos Olhos (agentes repressores de Gilead). Desenvolve certa afeição por Offred.
  8. OUTROS PERSONAGENS – Outros personagens são também acessados pelo fluxo da memória de Offred como Janine, uma Aia extremamente bajuladora e submissa. Mas essa visita às memórias são ainda mais fortes quando envolvem a vida de Offred antes de se tornar uma Aia do regime teocrático de Giliead. Por meio de flasbacks conhecemos a mãe de June, militante política pelos direitos femininos, seu marido Luke (e a incerteza dele ter sobrevivido à tentativa de fuga para o Canadá) e sua filha (retirada da mãe ainda muito cedo e mandada para alguma família de Gilead).

131_03


III-  ESTRUTURA DO LIVRO

A narrativa é feita em primeira pessoa (narrador-personagem) e conta as memórias de Offred como Aia na casa do Waterford. Usa o discurso indireto livre: ou seja a voz da personagem e o fluxo de sua consciência se misturam a narração dando ares psicológicos aos fatos. Somente em dois momentos essa dinâmica não é obedecida ao pé da letra: quando Moira narra sua história, a qual June tenta reproduzir com o máximo de fidelidade; e ao final do livro, no discurso dos pesquisadores sobre Gilead.

Por obedecer o fluxo das memória de June, tornada Offred pelo regime teocrático, acompanhamos os acontecimentos por meio de dois planos: o do acontecimento em si e as reflexões da narradora com base em sua memória afetiva. Tais memórias não são organizadas linearmente, mas se mostram a medida que as situações acontecem. A própria Offred se justifica:

Isso é uma reconstrução. Tudo, cada detalhe é uma reconstrução. É uma reconstrução agora, em minha cabeça, enquanto estou deitada estendida em minha cama de solteiro, ensaiando o que deveria ou não deveria ter dito, o que deveria ou não deveria ter feito, como deveria ter feito meu jogo.

A descrição é de extrema importância e pode, por vezes, cansar o leitor mais cru. No entanto são responsáveis por pintar a sociedade de Gilead em todas as suas feiúras, maldades e obscenidades. Despertará em quem lê muita indignação em certos aspectos a que um regime totalitário religioso por chegar.

O livro possui ao todo 46 capítulos, simplesmente numerados com algarismos romanos. A ausência de título por capítulo é compensada  pela organização do romance em 15 blocos (ou partes), como por exemplo o inicial que se chama “I – Noite” e possui apenas um capítulo; e o “II – Compras” que abarca cinco. Ao final do livro temos as “Notas Históricas”, um capítulo à parte da narração propriamente dita.

Em cada bloco, há um acontecimento central no qual a narradora tece comentários ao mesmo tempo que se lembra de fatos marcantes que antecedem a sociedade de Gilead ou que remonta aos primeiros tempos da mesma. A história prossegue sempre nessa perspectiva: o acontecimento em si, o retrato da sociedade como ela se tornou e a reflexão de Offred sobre si e sobre o mundo. Há ainda diversos momentos metalinguísticos nos quais a narradora reflete sobre o próprio ato de narrar e a “quebra da terceira parede” ao conversar diretamente com o leitor.

Tudo que é silenciado clamará para ser ouvido ainda que silenciosamente. (p.183)

131_04


IV – O ENREDO / SPOILERS

1. APRESENTAÇÃO INICIAL

Nos primórdios da sociedade de Gilead, Estado formado após uma revolução teocrática que instaurou um regime totalitário nos EUA, acompanhamos a adaptação de June, tornada a Aia da família do Comandante Waterford. Além dos resquícios da guerra nuclear, escassez de alimentos, de peixes no oceano, a revolução é principalmente de cunho moral e conservador e em parte motivada pelo caos que os níveis de esterilidade alcançaram: uma população cada vez mais envelhecida e em que novas crianças não nascem mais. As informações são omitidas ou falseadas para a população que se resume a acompanhar aquilo que é noticiado na TV estatal. Mas June nos oferece um quadro de como as coisas chegaram a esse ponto:

As mulheres tomavam medicamentos, comprimidos, os homens pulverizavam árvores, as vacas comiam a relva, todo esse mijo com a força comprimida fluía para os rios. Para não mencionar  a explosão de usinas de energia atômica, ao longo da falha de San Andreas, não por culpa de ninguém, durante terremotos, e a cepa mutante de sífilis que nenhum tipo de mofo  conseguia tocar. (p.137)

Nesse contexto, a proteção à vida do feto se torna sagrada (nos dois sentidos): poucas mulheres engravidam e, se conseguem, muitas vezes não são donas do próprio corpo ou de suas crianças. Até o parto é natural é sem anestésicos, pois enfatizavam a dor como fonte geradora dos filhos. Assim são instituídas as aias: mulheres sem liberdade e que cuja função são meramente reprodutivas.

Somos para fins de procriação: não somos concubinas, garotas gueixas, cortesãs. […] Somo úteros de duas pernas, apenas isso: receptáculos sagrados, cálices ambulantes. (p.165)

Esta sociedade, cujo valor central é a reprodução, tem seu fundamento na ética e moral do texto bíblico, principalmente no Velho Testamento. Gilead é divida conforme a função e as cores de seus entes sociais: os Comandantes (chefes de família) sempre de terno escuro, as Esposas de azul, as Econoesposas (de classe mais baixa), as Martas (empregadas domésticas), o aparelho repressivo do estados são jovens e adolescentes de cara lisa e prontos a puxar sua pistola e por aí vai. E claro as Aias, sempre trajando vermelho e com antolhos para que não olhem o mundo ao seu redor, nem que sua faces sejam vistas.

Doutrinadas totalmente no Centro Vermelho (claro que nem todas) essa mulheres, quando chegavam em seu período fértil, eram obrigadas a ter relações sexuais com o patriarca da família sem o consentimento, prazer ou amor das mesmas. Não poderia haver luxúria, a Esposa presenciava tudo, gélida. Um estupro. Tudo fundamentado em uma passagem bíblica:

Vendo Raquel que não dava filhos a Jacó, teve inveja de sua irmã, e disse a Jacó: Dá-me filhos, se não morro. Então se acendeu a ira de Jacó contra Raquel, e disse: Estou eu no lugar de Deus, que te impediu o fruto de teu ventre? E ela disse: Eis aqui minha serva Bila; coabita com ela, para que dê à luz sobre meus joelhos, e eu assim receba filhos por ela. (Gênesis 30: 1-3)

131_05

Essa sociedade estratificada, fundamentava ainda sua visão deturpada de acordo com uma releitura machista de Karl Marx, recitada como slogan pelas aias no Centro Vermelho: “Que cada um dê de acordo com sua capacidade; para cada um de acordo com suas necessidades” (p.143). No entanto ainda havia Esposas que podiam procriar e nem todo Comandante precisava de uma aia, mas principalmente os de alta patente. Mas quando havia esterilidade, a culpa era das mulheres:

Isto não existe mais, um homem estéril existe, não oficialmente. Existem mulheres que são fecundas e mulheres que são estéreis, essa é a lei. (p.75)

Quando June, assume o nome Offred, por pertencer a Fred Waterford, ela precisa ser inseminada para dar um filho à família. Para ele e Serena, sua Esposa, ambos envelhecidos, é uma necessidade social, alcançar um status, sedimentar seu poder e influência. Para June é uma questão vital, visto que aias inférteis ou insurgentes poderiam ter uma prostituição forçada (em uma Casa de Jezebel) ou serem condenadas à Colônia (expostas à radioatividade fazendo trabalho de limpeza de resíduos). Assim teria que dar à luz e ter sua criança retirada para sobreviver.

131_06

2. COMPLICAÇÃO

Em uma sociedade voltada para reprodução humana, pela ótica distorcida dos costumes judaico-cristãos, o drama de June, tornada Offred, é justamente corresponder as expectativas dos Waterfords. Não é uma mera questão de fé visto que até as orações são terceirizadas nos quais os fiéis as mandavam imprimir em vez de orarem por si mesmos.

Serena nutre uma aversão a Aia ao passo que seu marido começa a desenvolver uma relação “antinatural” para a sociedade de Gilead. Primeiro permite que June o faça companhia, em particular, em jogos de tabuleiro, como também permite que a mesma leia (impossível para qualquer mulher, pois só escutavam a Bíblia recitada pelo marido e até o comércio usava figura ao invés de palavras), além de conseguir itens contrabandeados como loção para mãos e revistas de moda. Pois todo item que evidenciava a estética e a sexualidade feminina era vedado.

Aliado à postura do Comandante Waterford, as tentativas infrutíferas de gravidez colocam em xeque a capacidade moral e status social junto àquela sociedade e o próprio futuro de June. Fred parece não ser fértil e é preciso encontrar uma solução para o caso. Offred se vê no impasse de ser ser inseminada em segredo por um médico ginecologista (sugestão de Offglen) ou a solução estapafúrdia de Serena Joy: usar Nick (o motorista), em segredo para fazer sexo e dar um filho a família.

A primeira alternativa é descartada por June, mas a segunda lhe cai muito bem, afinal já nutria uma certa afeição à distância e uma tensão sexual com o jovem motorista. Em contrapartida em qualquer uma das opções seu destino seria a morte por enforcamento (o tal “Salvamento”). Sentindo as esperanças de uma vida melhor lhe escaparem das mãos, sem possibilidade de ver sua filha, crendo seu marido Luke morto e sua mãe vista pela última vez na Colônia e provavelmente morta. Resta-lhe, desesperada, ecoar a oração ensinada por Tia Lídia no Centro Vermelho:

Ó Deus, Rei do universo, obrigada por não ter me criado homem. Ó Deus, oblitera-me. Torna-me fecunda. Mortifica minha carne; para que eu possa ser multiplicada. Permita-me ser preenchida… (p. 232)

131_07

3. CLÍMAX

A narrativa parece ter vários momentos reflexivos problematizando mais os rumos controversos da sociedade teocrática do que um momento ímpar de tensão. Eles estão diluídos ao longo da narrativa como por exemplo a execução daqueles que vão contra o sistema ou cometem crimes, principalmente, ligados à sexualidade. São justamente aqueles ligados ao sexo os momentos mais dramáticos do Conto da Aia.

O primeiro é quando se dá justamente a Cerimônia com o Comandante Waterford: um estupro com a presença da Esposa. Isso em volta de orações em um ritual que mescla o sagrado e o profano. Impessoal, sem sentimentos alguns entre os atores. A passividade de June. A frequência ofegante de Fred. Nada sensual, mas automático. Não há  como fazer uma omelete sem quebrar os ovos, era o melhor para o Comandante:

Melhor nunca significa  melhor para todo mundo, diz ele. Sempre significa pior, para alguns. (p.251)

O segundo envolve justamente Nick. Algo mais perto do amor, mais consentido, sem deixar de ser imposto pela urgência de gerar um herdeiro para os Waterford. Algo confuso para narradora-personagem. Isso se demonstra pela múltiplas versões do ato amoroso, difícil de ser lembrado e exposto ao leitor. Toda relação dos dois é mais fantasiada por ela que anseia um lampejo e carinho do que por Nick que deixa transparecer pouco em sua capa de frieza. São tempos perigosos para um mulher sentir amor ou prazer ou ser dona de si.

131_08

4. DESFECHO

O fim é abrupto e lida com as consequências de tantas transgressões às leis de Gilead. O artifício de Serena para dar um filho ao seu Comandante e a situação em que June se coloca não denunciando os Waterfords os coloca em terrível perigo.

Há uma quebra drástica e o fim é imposto sem aviso. O que se estabelece é antes de tudo é uma frágil felicidade que se instala no coração de June que vive um romance idealizado ao passo que realista com Nick. Vê o mundo desmoronar a sua volta, mas encontra no sexo às escuras, na casa do motorista, uma espécie de “porto seguro”.

No fim Nick a resgata ou a condena? Essa tensão permeia o fim da narrativa que só vem a ser melhor explicada nas “Notas Históricas” no qual pesquisadores analisam a sociedade de Gilead distanciados no tempo que entre os muitos documentos se focam nas gravações em aúdio de June, transcritas no livro que o leitor acabou de ler. Isso se torna claro na afirmação de Offred:

Conto, em vez de escrever, porque não tenho nada com que escrever e, de todo modo, escrever é proibido. Mas se for uma história, mesmo em minha cabeça, devo estar contando-a para alguém.

131_09


V – A AUTORA

Nascida em Ottawa, Canadá, Margaret Eleanor Atwood é romancista, poeta e roteirista premiada além de seus trabalhos humanitários e como ambientalista. Enquanto cursava o doutorado em Havard, por ser muito prolíxa, nunca terminou sua dissertação, embora colecione mais de vinte diplomas honorários, inclusive da própria faculdade recebido no ano de 2004. Nesta violenta distopia passada no ano de 2195, no qual a taxa de natalidade caiu drasticamente e as mulheres servem de aia com o propósito de reprodução das elites, percebe-se a clara inspiração em outros romances do mesmo tipo como 1984 de George Orwell e Admirável Mundo Novo de Aldous Hurley.

131_10


VI – CONCLUSÃO

Fiz o caminho inverso e acho que muitos leitores agirão como eu: primeiramente se apaixonarão pela série e depois lerão o livro. Mas sou defensor do seguinte ponto de vista: não há como equiparar dois objetos artísticos totalmente diferentes. O livro de Atwood tem sua relevância e sedução na medida que acompanhamos a mente de uma mulher angustiada e oprimida pelo sistema. Tudo bem que a série, também roteirizada pela escritora, tenha seus momentos em que ouvimos os questionamentos e a consciência de Offred, no entanto acompanhar sua narrativa claustrofóbica e reconstruída é uma experiência sem igual.

Não espere dessa obra esclarecimentos sobre os ações futuras da série. Ela abarca um curto período da trajetória de June, no entanto o poder e profundidade da narrativa da heroína, sua tensão entre a passividade e a possibilidade de se rebelar, reflete a dinâmica de cada um de nós. Frente à iniquidade, ao fanatismo religioso dos políticos, à postura machista, qual é a nossa capacidade, sejamos homens ou mulheres, de sair de nossa zona de conforto ou de nosso cárcere para buscar uma vida mais justa?

June, tornada Offred, pode ser um testemunho claro de que a não ação é tão perigosa quanto os atos de injustiça. Em tempos como esse em que o conservadorismo reage a evolução e revolução das questões de gênero, da geração da vida e de seu extermínio, e se fecha em soluções messiânicas, o livro de Atwood é um chamado para o despertar. E então, em qual parte do Conto da Aia o Brasil está? Leia e descubra! Boa leitura.

Barra Divisória

assinatura_marco

HALO 3 – ODST (CRÍTICA)

129_00

SINOPSE
No ano de 2552, a cidade de Nova Mombasa, no Quênia, se encontra sob o domínio da raça alienígena COVENANT, que busca algo misterioso nas entranhas da cidade. O jogador será o Novato da ODST (Tropa de Choque de Desembarque Orbital), divisão de elite da UNSC (Comando Espacial das Nações Unidas) que terá de recompor os passos de seus amigos e reencontrar seu pelotão e, por fim, escapar da cidade dominada pela guerra.

Alternando entre os eventos presentes, nos quais o Novato procura pistas de seus amigos, e os flashbacks, que contam a história de cada companheiro após o pouso e dispersão do pelotão, o jogador terá que controlar diversos soldados com recursos mínimos alternando entre a furtividade e a ferocidade para se reagrupar e ainda descobrir um segredo que pode mudar os rumos da guerra.

129_01

O JOGADOR E A HISTÓRIA (Análise)
Uma pequena busca pela rede e você terá de detonados a análises muito mais completas das que eu aqui proponho. As minhas impressões se centram em aspectos simples: o fato de não jogar em console já há bastante tempo (finalizei esse game no Xbox 360 de um amigo) e, por ser professor de literatura, abordar os aspectos do enredo com mais ênfase. Não terá super dicas ou spoilers, mas impressões que lhes podem ser úteis ou não.

Quanto a jogabilidade de alguém que voltou aos consoles recentemente, jogos de tiro em primeira pessoa (FPS) sempre foram os que mais me chamaram a atenção. Sou herdeiro de uma geração de Goldeneye 007 do Nintendo 64 (já resenhados aqui) e lá nos primórdios de meu vício no gênero também curti lutar contra raças extraterrestres em outros games do mesmo console como toda sequência de Turok e Perfect Dark (2000). Este último com alguma semelhança com Halo no que diz respeito ao conceito e design das armas, o  radar de combate e o espaço. Então no geral, tirando minha debilidade em coordenar movimentos no joystick, considerei uma ótima experiência.

129_02

No Modo Campanha, fonte de minha análise, a história possui certas peculiaridades e clichês que são comuns a qualquer enredo de guerra. No entanto aqui são abordados de forma empolgante e é preciso muita capacidade de adaptação por parte do jogador mais inexperiente (como eu). Seguimos de perto múltiplas narrativas. Cinco companheiros preencherão as lacunas por trás da missão em Nova Mombasa: o Novato, Edward Buck, Veronica Dare (líder da missão), Taylor “Dutch” Miles, Kojo “Romeo” Agu e Michael “Mickey” Crespo. O ritmo se torna diferente quando o jogador assume o controle de cada um dos amigos. Por exemplo as missões do Novato exigem mais furtividade e menos tiros, as dos amigos são mais ferozes e podem contar com a ajuda de veículos especiais como tanques e caminhonetes ou até mesmo planadores do inimigo. Eu me senti mais à vontade pilotando do que sendo pilotado (como no tanque) e acho que deve ser o mais fácil para um cara com pouca habilidade como eu.

129_03

Enquanto o Novato precisa de esgueirar pela cidade escapando dos alienígenas (ao meu ver pouco diversificados e quase sempre os mesmos), mas também encontrar pistas de seus amigos. Cada detalhe encontrado ao final de cada missão é um gatilho para um flashback e a partir desse momento encarnamos a perspectiva de um dos outros colegas de pelotão. O Novato (que não possui fala alguma e representa você) executa uma investigação e os flashbacks reconstroem a história. Assim alternamos entre a tensão silenciosa e a ação frenética do fronte de batalha.

O enredo enfoca a sobrevivência (tá na cara né?), contudo ainda há espaço para fortalecimento dos vínculos de amizade e amor (tem um romance no meio) bem dosados além de um resgate improvável. São poucas as reviravoltas na trama e por mais que o enredo não seja linear (com as constantes voltas ao passado), a história em si é, visto que se trata de uma chegada, uma complicação e uma saída do combate em Nova Mombasa.

129_04

CURIOSIDADES

  1. Linha do tempo: O jogo nasceu para integrar a lacuna de tempo entre Halo 3 e Halo: Reach, mas acabou situando-se temporalmente entre Halo e Halo 3. Assim, o diretor de história, Joseph Staten, escreveu uma espécie de narrativa de detetive utilizando elementos de design filme noir em cujas músicas, Martin O’Donnell, impôs um ritmo mais leve que lembra o jazz.
  2. Top de vendas: Mesmo tendo alcançado boas críticas em relação ao enredo e trilha sonora, Halo 3 – ODST foi questionado por suas missões de campanha curtas e poucos extras. Porém conseguiu ser top de vendas do Xbox 360 no ano de 2009, somando mais de 2 milhões de cópias mundiais vendidas nas primeiras 24 horas.
  3. Recursos limitados e inovações: O jogador não possuirá os radares de movimento e escudos tão comuns a série (exceto em ocasiões especiais), mas somente um sistema mais tradicional de barra de vitalidade e kits médicos, além de não poder manusear duas armas ao mesmo tempo. Isso combina com o clima de sobrevivência que o jogo imprime. Todavia o esquadrão possui duas novas armas, a M7S Submachine Gun e a M6C/SOCOM, além do limite de carregamento de granadas aumentado para três de cada tipo.

129_05

FICHA TÉCNICA
Desenvolvido pela Bungie e publicado pela Microsoft Game Studios, Halo 3: ODST é um game de ação de tiro em primeira pessoa lançado em 22 de setembro de 2009. Seu roteiro é escrito por Joseph Staten, responsável pela direção das cinemáticas de todos os jogos da franquia até aquele momento. As composições são de Martin O’Donnell e Michael Salvatori, dois experientes compositores de trilhas sonoras. Trazendo tanto o modo campanha quanto o multiplayer online, Halo 3: ODST foi lançado com exclusividade para o Xbox 360, e há previsão de que venha a ser lançado um dia para PC.

CONCLUSÃO
Para os jogadores veteranos, Halo 3 ODST (2009) pode apresentar algumas limitações para quem está habituado à franquia, mas para um iniciante ou velha-guarda enferrujado como eu, pode ser uma experiência prazerosa por possuir uma jogabilidade simples e bem dosada. Confesso que é fácil de gostar da ação frenética e a troca constante de armas para se adequar as mais diversas situações de combate.

Essa é a chave de Halo 3 ODST: adaptação. Tanto as armas humanas ou adquiridas dos cadáveres dos COVENANTs como o controle dos diversos veículos (tanque Scorpion ou Wartogs), exigirão muito julgamento e habilidade por parte do jogador. Cada item possui suas características e conhecê-las fazem a diferença na imersão e êxito da campanha.

Outro ponto relevante são os diálogos não só nas cenas CG (computação gráfica) e filmes entre as missões, como também nas fases em que o jogador contará com a ajuda de seus companheiros de pelotão. No meio do combate eles dão dicas importantes, alertam ou mesmo tem uma piada ou ironia a ser feita. Eles não morrem, então não se preocupe em protegê-los, eles dão conta do recado.

No mais aproveitem para metralhar muitos Brutes, salvar seus amigos e descobrir um valioso segredo. Este jogo curto de dificuldade moderada fará com que as horas passadas diante da tela sejam pura diversão e tensão. Lembre-se: “Há um trunfo prioritário na cidade”. E resgatar é preciso, Novato!

Barra Divisória

assinatura_marco

O MANDALORIANO – SÉRIE DA DISNEY+ (CRÍTICA)

123_00

SINOPSE
Após cinco anos desde a queda do Império Galáctico, após a morte de Palpatine e Darth Vader bem como a destruição da segunda Estrela da Morte (Episódio VI – O retorno do jedi, 1983), os Caçadores de Recompensa sobrevivem por meio de escassos trabalhos nos confins da galáxia, longe da autoridade da Nova República. Nesta época, em que os remanescentes do Império Galáctico não passam de senhores da guerra e mercenários, um hábil caçador mandaloriano precisar restaurar sua própria honra, construir sua armadura e fazer fortuna.

Ao aceitar um trabalho fora dos registros habituais da guilda de caçadores de recompensa no planeta Nevarro para um oficial Imperial, Mando vence piratas espaciais que tinham em sua posse um curioso prêmio: um bebê de 50 anos da mesma espécie que o mestre Yoda. A partir daí, o Mandaloriano terá que rever seus conceitos morais, revisitar o passado e traçar novos rumos como pistoleiro galáctico e guerreiro de Mandalore.

123_01

O QUE É UM MANDALORIANO?
O destino da Galáxia parece sempre se misturar a história do Mandalorianos. Quando nos remetemos aos filmes (do Episódio I ao VI), dois nos são extremamente importantes: Jango e Bobba Fett (pai e filho, respectivamente). O primeiro, presente na trilogia prequela (pré-sequência), esta por trás da tentativa de assassinato da Senadora Amidala de Naboo e seu código genético foi usado para criar o exército de de clones da República Galáctica (Episódio II – O Ataques dos Clones, 2002).

Já Bobba Fett, filho de Jango, é marcante por ter sido o líder dos Caçadores de Recompensas que terminaram por aprisionar Han Solo em Império Contra-Ataca (1980) e entregá-lo, ainda petrificado em carbonita, para líder mafioso de Tatooine, Jabba, o Hutt. Foi derrotado por Luke Skywalker e companhia na épica luta no deserto, no grande poço de Carkoon, Mar das Dunas, onde vivia a criatura Sarlacc. Fora o fato de muitas vezes serem mercenários ou caçadores de recompensa, e que são oponentes perigosíssimos para forças do bem (ou do mal), o que se sabe sobre os Mandalorianos?

123_02

Mando, em um dado momento da série revela que o termo “mandaloriano” não se refere a um povo, do ponto de vista racial, mas que é uma filosofia. Não necessariamente se nasce Mandaloriano, mas se torna um. No livro O Código do Caçador de Recompensa (Bertrand Brasil, 2014), revela que os Progenitores Mandalorianos (os Tsaungs, Guerreiros das Sombras) originalmente eram um povo que habitava Coruscant (planeta que foi a capital da República e posteriormente do Império Galáctico). No entanto esse povo original acabou sendo expulso por inimigos para a Orla Exterior. Chegaram a Mandalore há 7 mil anos e 4 mil anos depois foram derrotados, durante a Cruzada da Grande Sombra (Grande Guerra Sith), na qual “foram traídos pelos Jedi e pelos Sith, que agiram como irmãos”, segundo Tor Vizla, líder dos Sentinelas da Morte (p.131).

Foi somente com o Mandalore, o Supremo,  que abriu os clãs para que todos os que os mostrassem valor no campo de batalha. Foram esses novos guerreiros, os Neocruzados, que entraram em batalha contra as forças da República, posteriormente, nas chamadas Guerras Mandalorianas. Os intuito deles não era conquistar a Galáxia, mas fortalecer a unidade e continuar os conflitos iniciados pelos Progenitores. No entanto eles foram duramente derrotados e forçados a se dispersarem pela galáxia.

123_03

Diante da prosperidade dos Mandalorianos sob a liderança de Mandalore, o Unificador, que retornaram a seu planeta, segundo Tor Vizla, a República resolveu aniquilar definitivamente estes guerreiros como se fossem “um tecido canceroso a ser cortado da galáxia” (p.134). Desta forma tanto os Sith quanto os Jedi e a própria República já lutaram, se aliaram ou traíram os Mandalorianos que sempre tentaram resgatar sua honra ancestral, apesar de muitos Caçadores de Recompensa evidenciarem o problema da honra:

A honra é o que os poderosos usam para convencer os tolos a se sacrificarem. (Aurra Sing, mestra de Bobba Fett, p.135)

Assim os Mandalorianos que antigamente eram uma raça de Coruscant, acabaram por se tornar uma tribo aberta a todos os guerreiros valorosos na qual todo aquele que se destaque em bravura poderia ter uma posição de destaque. Tor Vizla, em seu relato no Código dos Caçadores de Recompensa, afirma:

Lembre-se de que alguns dos maiores Mandalores nasceram e cresceram fora do nosso planeta natal. (p.149).

No entanto o relato de honra que Tor Vizla revela é, em verdade, contraditório. Durante as Guerras Clônicas, Mandalore preferiu uma posição neutra no conflito não se aliando nem a República nem aos Separatista. Mas o grupo liderado por Vizla, o Olho da Morte, praticava o terrorismo tanto contra às Força de Dookan (por vingança pessoal) como contra os Jedis (devido ao histórico de luta contra estes últimos). Vemos Tor Vizla recrutar o príncipe órfão, Lux, e empunhar um sabre negro, artefato Jedi em sua origem. Tudo isso é perceptível na série animada Clone Wars (2008), no episódio 14 da 4ª temporada do desenho.

123_04

A ARMADURA
Logo nos primeiros momentos da série, nos deparamos com Mando resgatando sua recompensa e a importância do Beskar, que inicialmente se pensa ser um moeda, mas que se trata de um metal importante e raríssimo para confecção de sua armadura. Foi o Beskar que levou os Progenitores ao sistema Mandalore, pois estava presente em seus planetas e luas. O Beskar é extremamente forte, capaz de desviar de tiros de blaster até de parar lâminas de sabre de luz. Portanto é um item muito difícil de ser conseguido e quando Mando recebe uma placa provinda das forjas do Império, trata logo de confeccionar uma Bes’marbur (espaldar ou ombreira).

O guerreiro mandaloriano, desde os Sentinelas da Morte de Mandalore, o Unificador, tem total de liberdade  para personalizar sua armadura “adaptando-a, assim, às suas responsabilidades e ao seu estilo de luta” (p.141). Porém dois itens são os que mais chamam a atenção: o capacete e o jetpak. No Código do Caçador de Recompensas, Tor Vizla afirma que o buy’ce (barbute ou capacete, cujo designer homenageia a face dos Progenitores) é, “ao mesmo tempo, o símbolo dos Mando’ade e o item mais importante de qualquer conjunto” (p.142), mas não expõe a regra de nunca pode ser retirado na frente de outro ser vivo. Isso não deixa claro se todos os Mandolorianos seguiam essa regra. Se pensarmos no clã dos Fetts, Jango mostrou sua face a Obin Wan Kenobi, no entanto a face de Bobba, adulta, nunca fora revelada na trilogia clássica.

Se o capacete é rico em tecnologia de rastreamento e amplia a visão do mandaloriano a ponto de enxergar 360º, o jetpak é, simultaneamente, a última parte do traje, a arma definitiva e a última parte o treinamento. Essa mochila de voo permite atacar com rapidez e pode ser equipada com mísseis dos mais diversos tipos. É um recurso escasso: só tem autonomia de um minuto de combustível e arsenal de um míssil, pelo menos de acordo com sua versão mais clássica.

123_05

BEBÊ YODA? / LEVE SPOILER!
Apesar do furor das redes sociais chamar a criança encontrada por Mando como “Bebê Yoda”, pouco se sabe sobre ela. Assim como Yoda, o maior Jedi de todos os tempos, a Criança (assim que iremos mencioná-la), parece não só se assemelhar fisicamente ao mestre de Luke Skywalker na aparência, mas também na longevidade e poderes. Essa espécie, desconhecida e rara, tem alta longevidade. Yoda, por exemplo, morreu aos 900 anos de idade em Dagobah, como nos mostra em O Retorno do Jedi (1983). Então a Criança, de 50 anos de idade, não se trata de Yoda ou sua reencarnação visto que a série se passa 5 anos após o Episódio VI e nesse mesmo longa vemos o velho mestre Jedi como fantasma da Força que ajuda Luke.

Quanto aos poderes da Criança, são mostrados aos poucos como telecinese (movimento de objetos com por meio da Força), repulsão de ataque, cura e até um estrangulamento da Força, técnica de Darth Vader. Mas no mais, nada que demonstre mais sobre sua identidade e origem. Nem Mando sabe como explicar tais poderes. Mas uma fato fica claro com relação aos Mandalorianos e os “bruxos” manipuladores da Força: a eterna desconfiança. O Código do Caçador de Recompensa, afirma, por meio de Tor Vizla:

Esses feiticeiros têm interferido nos nossos assuntos há milênios. Os antigos Jedi demoliram o império de Mandalore, o Supremo, e acabaram com nossos clãs na Ani’la Akaan, e seus descendentes supervisionaram a Aniquilação. […] Os Sith não são melhores, iludindo repetidamente os Mando’ade a servi-los como tropas de choque. (p.156)

Para finalizar, não é a primeira vez que vemos alguém da raça de Yoda. A mestre Yaddle, presente no Conselho Jedi durante o Episódio I – A Ameaça Fantasma, possuía 477 anos e estava a frente da Assembleia dos Bibliotecários no Templo Jedi. Era versada na técnica Morichro (um possível método de matar sem usar o lado sombrio da Força). Morreu em Mawan tentando levar a paz a uma guerra civil.

123_06

ANÁLISE DA PRODUÇÃO
O que torna o enredo da primeira temporada de O Mandaloriano tão cativante é que ela não segue uma temática tão inovadora assim.A dinâmica reside em uma série de ingredientes clássicos como o assassino profissional que se relaciona com uma criança em seu trabalho. Se pensamos por esse lado, a série do Caçador de Recompensas segue de perto os passos de O Profissional (1994), filme de Luc Besson, que tem no assassino de aluguel Léon (Jean Reno) como protagonista. Ele se envolve com a filha de seu vizinho, uma garota de 12 anos, que quer vingança pela morte de seu pai, envolvido no tráfico de drogas.

No entanto a Criança (o bebê Yoda), por mais que tenha 50 anos, ainda é muito jovem para nutrir sentimentos de vingança (ao menos é o que parece) como no filme de Besson. Esta relação entre um homem solitário de uma criança abandonada, contudo, está no âmago de muitas histórias do imaginário ocidental, desde comédias Sessão da Tarde como Três Solteirões e um bebê (1987) e o filme de Adam Sandler, O Paizão (1999), por exemplo; passando por filmes de ação caricatos como Mandando bala (2007) ou séries como atual Hanna da Amazon. Isso só para citar alguns exemplos.

Ao revisitar o tema “assassino/adulto anti-herói que adota uma criança”, o produtor Jon Favreau o reveste da mítica por trás dos Caçadores de Recompensa, tão pouco explorados nos filmes, apesar de serem tão fundamentais na história da trilogia prequela (pré-sequência) como para trilogia clássica. Isso se soma ao fato de abarcar um período de tempo pouco abordado: o que acontecera à Galáxia após Luke Skywalker vencer o Imperador Palpatine.

123_07

Outro ponto impactante é justamente a trilha sonora. Sabemos que os filmes tem o toque magistral de John Williams, responsável por clássicos da franquia como, por exemplo, a The Imperial March de O Império Contra-Ataca (1980). Longe de mim, a Força não me perdoaria, de comparar o trabalho desse mestre como de Ludwig Göransson, porém a trilha de O Mandaloriano consegue manter o tom épico da franquia, em um estilo clássico e retrô, principalmente na música tema.

Ainda mantendo os ares clássico da trilogia, ao final de cada episódio os créditos mostram a arte conceitual que inspirou o episódio. Para um fã Star Wars é a oportunidade de ver como a produção acabou tornando realidade uma ilustração e claro fazer comparações entre aquilo que foi idealizado e o que foi concretizado. Cada ilustração nos lembra cartazes de filme antigo ou os desenhos repletos de cor de Frank Frazetta, mestre de ilustração sci-fi.

123_08

ELENCO E FICHA TÉCNICA
Pedro Pascal, Gina Carano, Giancarlo Esposito, Carl Weathers, Taika Waititi, Nick Nolte, Emily Swallow, Omid Abtahi, Werner Herzog, Bill Burr, Mark Boone Jr., Ming-Na Wen, Natalia Tena, Ismael Cruz Cordova e Julia Jones compõem o elenco. Jon Favreau atuou como roteirista, criador, showrunner e, foi o produtor executivo junto de Dave Filoni, Kathleen Kennedy e Colin Wilson. O Mandaloriano (The Mandalorian), é uma série norte-amaericana lançada em 2019 baseada na franquia Star Wars, originalmente criada por George Lucas. Ao total são 8 episódios nesta primeira temporada, e o conteúdo está disponível pelo serviço por assinatura, ainda não disponível no Brasil até a conclusão desta resenha, Disney+.

CONCLUSÃO: O Caminho
A todo momento da série, a filosofia mandaloriana repete a seguinte frase “como deve ser”, na tradução para nossa língua. Gosto do original: The Way (O Caminho). O caminho da série (com letra minúscula) parece ser promissor. Há muitas referências ao mundo Star Wars sem atrapalhar a imersão daqueles que poucos sabem sobre a franquia. O público comum suspirará e sorrirá com cada cena da Criança (Bebê Yoda), mas o fã conseguirá rir de uma piada sobre Gungas, droides de Taooine ou o gosto alimentício peculiar dos Jawas, catadores de ferro-velho. Nesse ponto a produção da Disney é super fiel ao que de melhor foi feito na trilogia clássica: de locações a interpretações.

Quanto à atuação, uma especial menção a Pedro Pascal (Narcos), que está muito à vontade no papel de Mando, Nick Nolte como um fazendeiro ugnaught e a surpresa: Gina Carano, lutadora de MMA que convence no papel de uma ex-Soldado de choque rebelde.

Já no enredo, o Caminho de Mando se revela atípico. Não é só sobre honra, sobre alcançar seu lugar de respeito na Galáxia. O “Enjeitado”, órfão, que se tornou Caçador de Recompensas terá que rever seu código moral e a todo momento, sua verdades serão postas à prova. Parece que o mundo não é somente o bem e o mal. Há uma linha tênue entre essas duas fronteiras. Tais certezas serão abaladas com a chegada da Criança que deverá ser abandonada ou reconduzida às suas origens. É nesse processo que Din Djarin (o Mandaloriano), nesse Caminho, que encontrará sua própria transformação. O série vale a recompensa por assistir e aguardamos com ansiedade a próxima temporada. Fiquem fortes, por Mandalore!

Barra Divisória

assinatura_marco

TUDO É EVENTUAL – STEPHEN KING (CRÍTICA)

122_00

SINOPSE
São catorze histórias de suspense, surpresas e terror, certeiras na arte de prender o leitor na poltrona e não soltá-lo mais, até a última frase. “Andando na bala” conta a história de Alan Parker, que pede carona na estrada, tentando visitar a mãe moribunda, mas entra no carro errado e acaba indo mais longe do que imaginou. Em “Almoço no Café Gotham”, a briga de um casal no restaurante tem uma reviravolta sangrenta. Em “1.408”, um autor famoso por escrever sobre cemitérios e casas assombradas visita um quarto rodeado de mistérios no Hotel Dolphin, esse já gerou até filme. Seja escrevendo sobre encontros com os mortos, ou sobre medos mais cotidianos, Stephen King cria em Tudo é eventual uma coletânea de suas melhores obras. Intensos, sinistros e envolventes, esses contos são uma prova da imaginação fértil do autor de terror mais famoso da atualidade.

122_01

COMENTÁRIOS
Tudo é Eventual
de Stephen King traz um compilado de contos do autor em sua maioria terror e suspense. Os contos são ambientados em épocas e contextos completamente diferentes tendo como norte o terror. O livro possui uma coleção muito competente de narrativas. Dentre todos os contos, um em especial me chamou atenção: “A Teoria de L.T. sobre Animais de Estimação”, pois essa narrativa foge as suas habituais histórias. O que esse conto faz a mais para merecer tal lugar de destaque? Desvendaremos ao longo dos próximos parágrafos.

A história de Lulubbelle e LT tem foco na rotina familiar do casal, explorando principalmente sua convivência com seus animais de estimação de forma nada convencional. Stephen King aborda o assunto de maneira tragicômica. Não será incomum ter crises de risos durante a leitura, da mesma forma que pode ser pego por um sentimento de tristeza. Usando as palavras do próprio autor que antes da história começar, afirma:

Quero fazer você rir ou chorar ao ler uma história, quem sabe as duas coisas ao mesmo tempo. Em outras palavras quero seu coração. Se a sua intenção é aprender algo, vá para o colégio.

Ao julgar pela minha experiência ao ler, posso afirmar sem medo de errar que suas pretensões foram alcançadas. A história de LT me pegou de surpresa e me divertiu bastante com seu humor mais leve, algo que se distância bastante do habitual senso mórbido do autor. Normalmente o escritor americano é muito mais sombrio. Contudo não se iluda, ainda é um conto do mestre do terror. Logo o final ainda lhe reserva surpresas que podem ser desagradáveis para parte do público. A Teoria de L.T. sobre Animais de Estimação é um conto leve, curto, descontraído, muito bem-humorado, divertido, que possui um final surpreendente, uma leitura rápida e gostosa que tem todos os ingredientes perfeitos para ser guardado na memória.

122_02

Ainda aqui? O que espera pra se acomodar próximo a uma árvore numa bela tarde de verão com uma água de coco gelada, ou se deitar numa noite fria e chuvosa acompanhado de sua bebida quente de preferência? Em suma: não importa quando ou onde leia essa humilde resenha apenas aproveite seu tempo na companhia de um bom livro. Quanto ao livro para este momento, aqui fica nossa recomendação. Boa leitura.

Barra Divisória

assinatura_felipe

HAN SOLO: UMA HISTÓRIA STAR WARS (CRÍTICA)

121_00

Situado 9 anos depois da ascensão do Império Galáctico (A Vingança dos Sith, 2005) e 10 anos antes da Batalha de Yavin, na qual a Estrela da Morte é destruída (Uma Nova Esperança, 1977), Han Solo: Um história Star Wars (2018) encara a tarefa de traçar as origens do famoso contrabandista e piloto da Millennium Falcon que foi eternizado pelo ator Harrison Ford na trilogia original.

Han, um órfão que cresceu pelas ruas de Corellia, vê-se obrigado a trabalhar para as gangues locais em companhia de seu amor de infância, Qi’ra. De posse do valioso coaxium, combustível espacial que quando refinado torna possível o salto no hiperespaço, o rapaz pretende subornar, enganar a tudo e a todos para fugir do planeta (sob domínio do Império e das máfias) para começar uma vida nova com Qi’ra. No entanto o destino os separa levando a caminhos diferentes: ele ingressa no Império, ela é presa pela máfia de Corellia.

Han Solo almeja voltar e resgatar sua amada, mas a sua jornada exigirá muita coragem e astúcia até reencontrar Qi’ra. Formará amizades eternas, como a de Chewbacca, e a rivalidade com Lando Calrissian, além de encontrar e pilotar pela primeira vez a Millennium Falcon. Han descobrirá que não pode ficar alheio à injustiça na Galáxia e a medida que foge das responsabilidades, mais perto estará de se opor ao Império Galáctico.

121_01

Título original: Solo: A Star Wars Story
Direção: Ron Howard
Roteiro: Jonathan Kasdan e Lawrence Kasdan
Duração: 2h 15min
Lançamento: 24 de maio de 2018

121_02

Elenco: Alden Ehrenreich (Han Solo), Woody Harrelson (Tobias Beckett), Emilia Clarke (Qi’Ra), Donald Glover (Lando Calrissian), Thandie Newton (Val), Phoebe Waller-Ponte (L3-37), Joonas Suotamo (Chewbacca) e Paul Bettany (Dryden Vos).

121_03

SOLO UMA ORIGEM
Qualquer fã fervoroso da franquia ficou apreensivo com um filme sobre Han Solo, o personagem mais célebre de Star Wars que não é nem jedi nem sith. Aliás é o primeiro filme em que os jedis não são sequer mencionados.

A fenomenal atuação de Harrison Ford na trilogia inicial é um daqueles bastiões da sétima arte quase impossíveis de ultrapassar ou manchar. O próprio Ford sabia disso e, mesmo adorando o novo filme, escolheu não participar da premiere com o resto do elenco a fim de deixar o jovem Han Solo, Alden Ehrenreich, brilhar. Então, ao se aventurar por este longa-metragem, encare como duas atuações diferentes, mas que o jovem Solo introduz a genialidade daquele que será essencial para a vitória Rebelde ao lado de Luke e Leia.

Como um filme de origem, o longa propõe elucidar uma série de fatos em torno da dupla Han Solo e Chewbacca que são aludidos a todo momento nos episódios IV a VI da franquia. Se o contrabandista tem muito de seu passado demonstrado nesse filme, mostrando uma infância e adolescência entre meninos de rua de Corellia, fato que o tornou um trapaceiro nato; o wookie (nome da raça do Chewie) já havia aparecido na saga. Durante A Vingança dos sith (2005) estava na frente de batalha contra a invasão clônica de Kashyyyk. Depois que Chewbacca ajuda o Grande Mestre Yoda a fugir, depois da ordem 66, pouca se sabe do grandalhão peludo.

121_04

Após fugir de Corellia, deixando sua amada nas garras de Lady Proxima, mafiosa local, Han Solo (que ganha esse nome de um oficial do Império pelo fato de ser “sozinho” e sem família) entra para academia militar para ser “o melhor piloto que já existiu”. Todavia é expulso por insubordinação e torna-se soldado da infantaria do Império em Mimbam. É no fronte, entre os Stormtroopers que Han conhecerá o bando de Tobias Beckett e na prisão militar, condenado a morrer pela “fera”, que lutará contra Chewbacca. Estão lançados aí os ingredientes básicos para a dupla Han e Chewie: ambos viram contrabandistas de Beckett para se salvar dos Imperiais, e Solo trava amizade com o wookie por ser o único a entender o idioma do grandalhão, pois aprendera enquanto vivia nas ruas de Corellia.

A última peça do quebra-cabeça é justamente a mitologia envolvendo a Millennium Falcon, prêmio de um jogo de cartas. Ao fracassarem em um roubo de coaxium, combustível espacial valiosíssimo, Beckett se vê me apuros pois deve a Dryden Vos, chefão da organização denominada Aurora Escarlate. Ao travar contato com o vilão, reencontra Qi’Ra, agora braço direito do mafioso. Para roubar o produto bruto, precisa ir as minas de Kessel e levar rapidamente a um refinaria no planeta Savareen. Para isso Qi’Ra sugere usar Lando Calrissian, contrabandista veterano e dono da Millennium Falcon, nave que ele já tinha conseguido por meio de trapaça durante uma partida de Sabacc, um jogo de cartas. Entre Han e Lando, rivalidade à primeira vista; com a Falcon, amor.

Por fim, não menos importante, conhecemos a famosa narrativa de Han Solo e Chewie para fuga de Kessel em 12 parsecs (uma rota de distância fixa dentro de uma nebulosa que leva normalmente 20 parsecs), algo que só foi possível por uma turbinada de coaxium com direto a fugir de uma fera espacial (Mandíbula) e um buraco negro. Uma das cenas mais eletrizantes do longa-metragem.

121_05

REFERÊNCIAS CINEMATOGRÁFICAS
A produção de Han Solo: Uma história Star Wars, ao longo da trama, presta homenagem a algumas cenas clássicas do cinema aqui revisitadas pela ficção científica. Claro que uma das mais icônicas é justamente o olhar de despedida de Han e Qi’ra que muito se deve ao filme Casablanca (1942). Isso me chamou a atenção de imediato, mas outras referências estão ali. Leia algumas!

  1. 121_06Perseguição de “carros”Não é uma grade novidade em filmes estadunidenses, mas aqui é feita por speeders (planadores), algo visto também no Episódio II – O ataque dos clones (2002). Contudo a rápida perseguição a Han por Moloch, capanga de Lay Proxima, teve como inspirações as enormes docas industriais de Long Beach (Califórnia) e a icônica corrida de carros em Grease (1978), grande clássico de John Travolta.
  2. 121_07Guerra de trincheiraAs cenas em que Han experimenta o combate Imperial em Mimvan foram inspiradas pela guerra de trincheiras na Primeira Guerra Mundial e muito comum em filmes que retratam esse período como, por exemplo, a releitura do longa-metragem da Mulher Maravilha (2017) ou o clássico Pelo Rei e Pela Pátria (1964).
  3. 121_08Serviço Secreto em Ação (1967) – Ao desmontar um rifle, transformar na blaster clássica e jogar para Han Solo, Tobias Beckett faz referência ao filme de Frank Sinatra. Nele, o ator clássico desmonta um rifle baseado em uma Mauser C96 (designer que influenciou a confecção do blaster de Han). Aliás, ainda em relação ao armamento,  a pistola de Qi’ra é inspirada ligeiramente em uma obscura pistola da Segunda Guerra Mundial, a Mannlicher M1905.
  4. 121_09Butch Cassidy (1969)O filme de George Roy Hill serviu de inspiração para o assalto ao trem de Vandor. No clássico filme, Butch Cassidy e The Sundance Kid são os líderes de um bando de criminosos que depois de um assalto a um trem que dá errado, eles se veem em fuga com uma legião de perseguidores em seu encalço.
  5. 121_11Faroeste nas estrelasVandor representa a viagem em direção à nova fronteira, tipicamente vista no gênero faroeste. As Montanhas Rochosas, Chile, Patagônia e Dolomitas na Itália serviram de inspiração para a paisagem gelada do planeta. Mas não para por aí. A sequência do roubo do trem foi concebida, inicialmente, como um clássico filmes western, com o bando de Beckett (que tem um visual de cowboy) entrando no trem por meio de uma manada de kod’yak’s. No entanto a cena foi suprimida por causa do tempo de execução. Claro, e não podemos deixar der ver a cena da partida de baralho com trapaça em um saloon. Ao contrário de Maverick (1994) com Mel Gibson,  em Han Solo o pôquer é substituído por uma partida de Sabacc, mas contexto é semelhante.
  6. 121_12Cinemataca São muitos os ganchos para outros sucessos de Hollywood que são referidos nesse longa-metragem. Filmes como Profissão: Ladrão (1981), Fogo Contra Fogo (1995), O Homem que Burlou a Máfia (1973), O Salário do Medo (1953), O Comboio do Medo (1977), Fuga do Passado (1947), Os Implacáveis (1972), Meu Ódio Será Sua Herança (1969), O Paraíso Infernal (1939), Sete Homens e um Destino (1960), O Poderoso Chefão II (1974) e O Tesouro da Sierra Madre (1948) tiveram influência da história e do estilo no roteiro final de Lawrence e Jonathan Kasdan.

CURIOSIDADES

  • 121_13Antes da Nova EsperançaA cena de abertura em Corellia e a de Rogue One: Uma História Star Wars (2016), na qual Krennic leva Galen Erso, engenheiro chefe da Estrela da Morte, acontecem 13 anos antes dos eventos de Star Wars, Episódio IV: Uma Nova Esperança (1977).
  • 121_14A idade de ChewbaccaEste é o primeiro filme Star Wars em que Chewbacca revela sua idade: 190 anos. Isso significa que ele tem 200 anos em Episódio IV: Uma Nova Esperança (1977).
  • 121_15Caçadores de recompensaHá muitas referências aos Caçadores de Recompensa clássicos. Em uma conversa com sua esposa Val, Tobias Beckett discute sobre a possibilidade da ajuda de profissionais como a irmãs Zan (a mais conhecida tentou matar Padmé Amigdala no Episódio II – O Ataque dos Clones, 2002) ou Bossk, mercenário tradoshiano (recorrente na série animada Clone Wars, 2008) bem como um dos bandidos que treze anos depois seria contratado para rastrear a Millennium Falcon e seu piloto em O Império Contra-Ataca (1980). Lando menciona, ainda, que Tobias Beckett matou Aurra Sing, empurrando-a para a morte. Cabe lembrar que Aurra Sing foi uma caçadora de recompensas que apareceu pela primeira vez assistindo à corrida de pods no Episódio I: A Ameaça Fantasma (1999) e que se tornou a mestra de Jango Fett como apareceu na série animada Star Wars: The Clone Wars (2008).
  • 121_16Indiana JonesNa nave de Dryden Vos, há mostruários de exibição e, entre todos os tesouros, alguns que podem ser reconhecidos por outra franquia de filmes: “Indiana Jones”. Há as Pedras Sankara de Indiana Jones e o Templo da Perdição (1984), o ídolo da fertilidade de  Os Caçadores da Arca Perdida (1981) e também o próprio Santo Graal. Existem, também, relíquias da franquia Star Wars como uma armadura mandaloriana, holocron sith, entre outras.
  • 121_17Jabba, o HuttPor duas vezes, é mencionado o fato de Han se juntar a um grande chefe do crime em Tatooine para “um trabalho”. Provavelmente esta é uma referência a Jabba, o Hutt, que perseguirá o herói em O Império Contra-Ataca (1980) e será morto em O Retorno do Jedi (1983).
  • 121_18No capacete de Enfys Nest, líder dos Cloud Riders, está escrito um poema em Aubesh (idioma introduzido em O Retorno do Jedi, ). Sua tradução: “Até chegarmos à última borda, a última abertura, a última estrela, e não pode subir mais”.
  • 121_19BenthicOs Rebeldes que aparecem no final do filme incluem um guerreiro alienígena com uma máscara preta no rosto e dois tubos saindo de seu rosto. Este é Benthic, o segundo em comando de Saw Gerrera em Rogue One: Uma História Star Wars (2016). O personagem também apareceu em alguns quadrinhos após os eventos de Rogue One como tendo ocupado o lugar de líder Rebelde em Jedha e termina conhecendo os principais heróis trilogia clássica.

CONCLUSÃO: “Tudo que você ouviu sobre mim é verdade”
Apesar dos problemas de produção e troca de diretores, apesar da tensão e audácia de revirar e revelar a vida de um dos personagens mais amados do mundo Star Wars, Han Solo: Uma história Star Wars acaba sendo uma agradável surpresa.

O fato do filme não estar alicerçado, diretamente, na tensão mítica entre os Lado da Luz e o Lado Negro da Força, faz com que a história transcreva de forma leve, cheia de ação e com boa tiradas de humor. Não podemos comparar o humor irônico de Harrison Ford com o do jovem fã Alden Ehrenreich. O jovem Han Solo consegue preservar a nossa memória do herói da trilogia clássica, sem deixar de ter uma boa pitada de inovação.

Considero, desde que a Disney assumiu a franquia, um dos melhores filmes da nova fase perdendo apenas para Rogue One: Uma história Star Wars (2016). Claro que não podemos abstrair fato de que o filme em si é uma grande colcha de retalhos cinematográficos com muitas referências a história do cinema. No entanto isso não tira o mérito de modificar o nosso olhar e contextualizar as gerações atuais para um dos heróis mais queridos de Star Wars.

Para quem gosta da franquia, esse spin-off (produção derivada) não deixa a desejar no sentido que se conecta em muitos sentidos a toda mitologia “Guerra nas Estrelas” desde mostrar origens em torno de Han Solo e Chewie, como conectar a trilogia prequela (Episódios I, II e III) à trilogia clássica (IV, V e VI). Agora se você não é um fã, assistirá a esse longa como um bom filme de ação futurística e quem sabe até seja conquistado. Tudo vai depender SOLAmente de você, se vai querer conhecer ou não o maior piloto da galáxia e que fez o percurso de Kessel em apenas 12 parsecs.

Barra Divisória

assinatura_marco

OS SETE MELHORES LIVROS POLICIAIS DE AGATHA CHRISTIE

119_00

QUEM É A DAMA DO CRIME?

Bem, eu não sabia que Agatha Christie, escritora britânica (1890-1976), era assim conhecida: Rainha ou Dama do Crime (“Queen/Lady of Crime”, no original em inglês). Meu primeiro contato com essa mestra do romance policial foi justamente com o livro “O Caso dos Dez Negrinhos” ou “E não sobrou nenhum”, como hoje é mais conhecido.

Lembro que este livro, de capa amarela e com uma estátua de um negrinho, me fascinou. Estava em um biblioteca de escola de Ensino Fundamental em João Pessoa (PB). Estava no meu oitavo ano do ensino fundamental e ninguém frequentava aquele lugar cheio de bagunça e de paredes branquíssimas. A bibliotecária me recebeu toda educada e admirada de ter gente fuçando as pilhas de livros. Mas Agatha Christie estava lá.

Levei o romance para casa e devorei cada página. Final surpreendente. “O caso dos dez negrinhos”, e prefiro chamá-lo assim, foi meu primeiro surto de leitura. Li 29 livros da autora adquiridos por meio de sebos, livreiros, fazendo trocas e negócios.

Mas por que Agatha Christie é uma leitura tão esplêndida? Porque as pistas dos crimes estão ao longo da narrativa. A autora faz questão de “esfregar” na nossa cara a resolução, os indícios que deixamos passar. Eu me sentia desafiado a descobrir junto com os detetives da autora, com Hercule Poirot principalmente, o criminoso e suas motivações. Por isso me decepcionei tanto ao ler Arthur Conan Doyle e seu Sherlock Holmes que aparecia com uma solução pronta, de surpresa e dada para o leitor. Agatha Christie constrói junto com quem lê, já Doyle é fast food: tudo esta solucionado de antemão. Chegou um tempo, ao longo de tantos livros lidos da Dama do Crime, em que eu descobria junto com ela o assassino e sentia-me muito inteligente e observador.

Nas linhas abaixo selecionei as histórias da autora que mais me marcaram. Estão colocados em ordem cronológica e não afetiva. Alguns deles foram adaptados para outras mídias e fizeram tanto sucesso quanto o romance escrito. Mas confesso-lhes que nada nos tira o sabor de se sentir um ás da observação e solucionar crimes. Leia Agatha Christie e tenha essa sensação.

 

The Murder of Roger Ackroyd, 1926

SINOPSE
Na pequena vila inglesa de King’s Abbott, o passatempo são justamente as fofocas. E não poderia deixar de ser diferente, as pessoas da elite local são o principal alvo dos comentários maldosos. No centro das discussões está um abastado senhor, Roger Ackroyd, que acaba sendo alvo de um grupo de fofoqueiras que tem em Caroline Sheppard sua representante mais ferina. Os boatos ficam ainda mais exagerados quando a recente viúva, Miss Ferrars, é acusada de ter um relacionamento com Ackroyd. Isso acarreta o suicídio da mulher.

A fim de se abrir a cerca dos acontecimentos recentes, Ackroyd convida o médico James Sheppard, irmão de Caroline e amigo, para jantar e revela fatos desconcertantes. Miss Ferrars matara o próprio marido e era chantageada. Ackroyd recebeu uma carta que revelava quem era o chantagista, mas não tivera tempo de descobrir. A morte também chegou a sua porta.

O caso ficaria insolúvel se por pura coincidência o detetive Hercule Poirot não estivesse passando uma temporada de férias a cuidar de seu jardim de abóboras na pequena vila. Ele se junta ao Doutor Sheppard para tentar descobrir a trama por trás da morte de Roger Ackroyd.

COMENTÁRIOS
Quando fora lançado, este livro vendeu cerca de 5 mil exemplares, o sétimo livro mais vendido da autora. A narração é do Doutor Sheppard que termina sendo auxiliar de Poirot nas investigações. Funciona como o Watson de Sherlock Holmes, mas a comparação para por aí. Aqui as falas dos personagens são extremamente reveladoras assim como aquilo que não é dito.

 

Murder on the Orient Express, 1934

SINOPSE
Considerado o maior caso do detetive Hercule Poirot, o cenário é o luxuoso trem Expresso do Oriente que em sua época áurea ligava Paris a Constantinopla (atual Istambul). Pouco depois da meia-noite o trem fica preso e parado na neve devido ao mal tempo. Surpreendentemente cheio para aquela época do ano, na manhã seguinte um passageiro é encontrado morto com doze facadas. Isolados  no trem “encalhado” no gelo, Hercule Poirot terá que usar de toda a sua perspicácia para descobrir o assassino.

COMENTÁRIOS
O livro é baseado no verdadeiro caso de um sequestro ocorrido nos Estados Unidos, em 1932 e vendeu três milhões de cópias em seu ano de lançamento. A narrativa revolucionou o gênero devido ao seu final dramático e dilema moral. É uma das obras de Agatha Christie mais adaptadas para televisão e cinema. Há duas versões cinematográficas que merecem destaque. A primeira, de 1974, é a mais famosa, tem Albert Finney como Hercule Poirot e a direção de Sidney Lumet; já a última é de 2017 com Kenneth Branagh dirigindo o filme e também interpretando o famoso detetive da trama.

 

The A.B.C. Murders, 1936

SINOPSE
Neste romance, Hercule Poirot e o Capitão Hastings, companheiro de muitas aventuras, se deparam com um assassino em série que desafiará as capacidades dedutivas e observadoras do detetive belga e do oficial inglês.

Após retornar da América do Sul, o Capitão Hastings se encontra com seu velho amigo, Hercule Poirot, em seu novo apartamento em Londres. Nessa ocasião o belga lhe apresenta uma carta misteriosa que recebeu, assinada com “A.B.C.”. Nela está detalhada um crime que deve ser cometido muito em breve, que Poirot suspeita ser um assassinato.

Duas outras cartas de mesmo teor chegam logo a seu apartamento, cada uma antes de um assassinato sendo realizado por A.B.C. Elas estão em ordem alfabética: Alice Ascher, morta em sua tabacaria em Andover; Elizabeth “Betty” Barnard, uma garçonete sedutora morta na praia de Bexhill; e Sir Carmichael Clarke, um homem rico morto em sua casa em Churston. Em cada assassinato, um guia ferroviário da ABC é encontrado ao lado da vítima.

COMENTÁRIOS
Esta é uma obra para entender as referências. Claro que você não precisa ser um especialista em Agatha Christie, mas isso traz um gosto a mais para imersão nesse romance policial. Por exemplo, Poirot cita sua tentativa infrutífera de se aposentar plantando abóboras, como aparece em o Assassinato de Roger Ackroyd, ou adianta o enredo de Cai o pano (1975), seu último caso. Então:

“Não seria de admirar que terminasse investigando sua própria morte”, comentou Japp, rindo gostosamente. “Eis uma boa ideia, sim, senhores. Devia ser ser tema de um livro.” “Hastings é quem poderá fazer isso”, observou Poirot, piscando o olho para mim. “Seria realmente divertido”, disse Japp, rindo de novo.

Outro ponto chave desse livro é a mistura muito bem-vinda que combina uma narrativa em primeira pessoa e em terceira pessoa, algo já abordado por Charles Dickens. Uma narrativa em terceira pessoa que é reconstituída pelo Capitão Hastings, narrador-personagem da história.

Recentemente fora filmada uma minissérie justamente embasada neste romance. Poirot, interpretado pelo genial John Malkovich, conta com a direção de Sarah Phelps, nesta obra de 2018 empreendida pela BBC One. Além disso inspirou um jogo, point-and-click para consoles e computadores de mesa desenvolvido pela Artefacts Studios: Agatha Christie – The ABC Murders (2016).

 

Death on the Nile, 1937

SINOPSE
A trama gira em torno do casal Linnet Ridgeway e Simon Doyle. Ela é bonita, amada e rica; ele, ex-namorada de da melhor amiga, Jacqueline de Bellefort. Ao irem passa sua lua de mel no Egito, são seguidos pela enfurecida Jacqueline que se mostra presente em todos os momentos. Mas quando um dos lados do triângulo amoroso é assassinado, cabe a Poirot, que está de férias, descobrir quem cometeu o crime. O que poderia parecer óbvio pode resultar em uma tarefa hercúlea para o detive belga, afinal há muitos indivíduos incomuns entre os viajantes: senhoras idosas, escritora de romances eróticos, médico, um jovem de ideais comunistas, entre outros.

COMENTÁRIOS
Esta obra parte de um cenário semelhante ao Assassinato no Expresso do Oriente: o crime se dá em um meio de transporte, um cruzeiro. O livro foi adaptado para o teatro em 1949, (não pela própria autora), mas não tinha Hercule Poirot como protagonista. É outro grande sucesso de adaptações e, para o cinema, a mais famosa é a de 1978 com direção de John Guillermin tendo Peter Ustinov atuando como Poirot. No entanto, dado o sucesso da versão de Kenneth Branagh com o Assassinato no Expresso do Oriente (2018), o diretor e ator pretende fazer uma “continuação” (se é que podemos chamar assim) da trama com A Morte no Nilo tendo um elenco de peso, inclusive com Gal Gadot, a Mulher Maravilha, em um dos papéis principais.

Cabe ressaltar, ainda, que há um jogo Agatha Christie: Death on the Nile, para computador que é inspirado da obra e no qual o jogador precisa procurar pistas no cenário com base em dicas (jogo do ano de 2007 na categoria “Seek and Find” adventure). Com 12 níveis e diversos mini-games.

 

Ten Little Niggers, 1939

SINOPSE
Oito pessoas, aparentemente sem conexão entre si, são convidadas à intrigante “Ilha do Soldado”, na costa de Devon, pelo desconhecido U. N. (Ulick Norman) Owen e sua esposa. Mesmo sob diferentes pretextos, e não conhecendo os anfitriões, a atração de serem convidados para um lugar tão badalado pela mídia é mais forte que a desconfiança. Recebido por um casal de criados, os convidados precisam esperar pela chegada dos donos do lugar, uma ilha inóspita, cujo acesso só é possível por meio de um barco.

Isolados por uma terrível tempestade, na noite da chegada, um gramofone é ouvido. A voz tece acusações severas aos convidados, responsáveis direta ou indiretamente pela morte de alguém. Seus destinos passam a seguir, precisamente ou em parte, o que diz um poema sinistro emoldurado nos quartos da mansão, uma cantiga infantil que narra a sequência de mortes que acontecerão ao longo dos capítulos.

COMENTÁRIOS
É o livro, um dos mais famosos da autora (e minha primeira paixão). É a narrativa de mistério mais vendida no mundo com 100 milhões de cópias e um dos livros mais vendidos de todos os tempos, o sexto título de acordo com a Publications International.

Seu título original, Ten Little Niggers (Dez negrinhos, em tradução livre), é baseado em uma cantiga tradicional inglesa. Acusado em solo estadunidense de ser um título racista, acabou em alguns lugares recebendo o nome And Then There Were None (E Não Sobrou Nenhum)o que termina sendo um terrível spoiler. Dessa forma versões atuais no mercado editorial brasileiro imitaram essa postura e trocaram o nome da obra.

Como mais de treze adaptações televisivas ou cinematográficas, desde produções inglesas, americanas e até indianas (Bollywood), tem na versão de 1945, And Then There Were None, dirigido por René Clair a mais famosa. Inspirou ainda a minissérie britânica de 2015 da BBC One, além de ter sido referência para jogo japonês (Umineko no Naku Koro ni), episódios de Family Guy (primeiro e segundo episódio da 9ª temporada), entre outros.

 

The Labours of Hercules, 1947

SINOPSE
Depois de uma conversa com um amigo, Poirot constata que os pais deveriam ter mais cuidado na escolha do nome de seus filhos. Seu nome Hercule, por exemplo, faz referência ao herói grego de enorme estatura, força descomunal e filho de Zeus. Isso em nada reflete o baixinho bigodudo, gorducho de cabeça oval e calva que é o próprio Poirot. Então o detetive se sente tentado a buscar cumprir 12 desafios ao altura do herói grego que lhe deu nome, seus próprios Doze trabalhos. Assim passa a escolher a dedo os casos para cumprir esta árdua tarefa ao logo de doze contos com os mais diversos crimes, alguns mais complexos, outros mais simples. Todos com uma solução genial.

COMENTÁRIOS
Esta é uma obra sem muita complexidade da autora. É uma boa coletânea de contos leves e por sua própria natureza, de resolução rápida. Vale a pena, para quem curte mitologia grega (como esse cara que vos escreve), ver como a autora dá uma roupagem ou interpretação moderna para os monstros clássicos, aqui transformados em situações ou criminosos monstruosos. Ao final a Dama do Crime atualiza o herói moderno mostrando valores que sintetizam a atualidade: Poirot tem seus próprios dons divinos muito mais ligados ao intelecto do que à força bruta.

 

Curtain, 1975

SINOPSE
Este é último caso de Hercule Poirot. E como anunciado em Os Crimes ABC, o próprio detetive está no centro do mistério. Já bastante velho, o detetive belga volta ao local de seu primeiro caso, O Misterioso Caso de Styles (1920), à procura de um assassino. Para ajudá-lo, contará com seu fiel amigo, o Capitão Arthur Hastings, já viúvo. Hercule Poirot conseguiu reunir cinco crimes que, aparentemente, tiveram a participação do mesmo assassino que se encontra na mansão de Styles. O título faz referência ao final de um peça de teatro: cai o pano, fecham-se as cortina e eis o fim de tudo.

COMENTÁRIOS
Esta obra foi publicada pouca antes da morte de Agatha Christie, no entanto ela já se encontrava escrita desde a década de 1940 e mantida trancada em um cofre em um banco. A autora temia que não sobrevivesse à II Guerra Mundial, como também visava a resguardar de alguém se apropriar de seu personagem após sua morte e fazer uso de forma indevida. Claro, ainda havia a praticidade de garantir uma fonte de renda para seu esposo e sua filha. Por isso a obra só foi autorizada para publicação quando a autora não podia mais escrever.

O fato fora tão marcante que em 6 de agosto de 1975, o jornal New York Times publicou um obituário de Poirot na primeira página (com fotografia) para assinalar a sua morte (desculpa, não deu para poupar-lhe desse spoiler). Mas ler esse romance, de final igualmente surpreendente, é apreciar o “canto do cisne”: uma obra magistral antes de fechar os olhos!

Barra Divisória

assinatura_marco

WATCHMEN: QUEM VIGIA OS VIGILANTES? (HQ)

100_00

O MENINO QUE TROCAVA GIBIS
Sou um cara de sorte, não tenho dúvidas. Não em tudo, é claro. Mas quando o assunto é vasculhar livrarias, sebos, feiras de livros, consigo encontrar verdadeiros tesouros da escrita. Faz parte de minha formação como pessoa, afinal desde muito cedo aprendi a comprar e, sobretudo, trocar muitos gibis. Família com pouca grana, então tinha que me virar para conseguir ler quadrinhos ainda no formatinho vendido na década de 1990. Tudo eram histórias incompletas, porque eu adquiria números aleatórios devido a impossibilidade de comprar na ordem.

100_01

Mas essa é uma crítica de um desses achados: a minissérie Watchmen (1988) escrita por Alan Moore e com os desenhos de Dave Gibbons. São seis edições que, pasmem, encontrei lacradinhas (pelo próprio vendedor). Era, e ainda é aqui em minhas mãos, uma “Mini-série de Luxo” publicada pela Editora Abril que custava Cz$ 950,00 (novecentos e cinquenta cruzados), moeda da época e que nas últimas edições já eram Cruzados Novos, uma testemunha da fragilidade e mudanças dos planos monetários.

100_02

Voltando ao assunto, é uma das obras mais queridas de meu acervo de 9ª arte (Histórias em Quadrinhos) não só pela história que apresentarei nas próximas linhas, mas por ser mais uma HQ de Alan Moore, argumentista de V de Vingança (1988-1989) e Batman – A piada mortal (1988), do qual curto muito o trabalho.

100_03

Meu primeiro contato com Watchmen não foi pelos quadrinhos, mas pela adaptação cinematográfica de 2009 feita por Zack Snyder. Arrisco-me a dizer que foi a única adaptação da DC Comics que ele acertou, contudo não entrarei no mérito da questão. O importante é que novamente o universo de Alan Moore vem à tona com a série da HBO e, aproveitando a onda revolucionária e o questionamento do sistema no últimos tempos, a ótica do argumentista inglês parece se encaixar perfeitamente neste mundo incerto em que vivemos.

100_04

1. O ENREDO DE WATCHMEN
Estamos no ápice da Guerra Fria. Estados Unidos e União Soviética lutam por zonas de influência e a ameaça de um conflito nuclear paira no ar. O fantasma do comunismo, a degradação da sociedade, é uma escolha das pessoas. Rorschach, em seu diário, afirma que “o mundo inteiro está a beira do precipício, olhando para baixo, pro inferno sangrento. Todos aqueles intelectuais e gente de fala mansa… De repente, mais ninguém tem nada a dizer.”

É nesse contexto que o Comediante, “herói” se assim podemos dizer, é encontrado morto, sob circunstâncias misteriosas, e Rorschach, o anti-herói que acredita ter sido assassinado. Nesta época, os heróis não são mais comuns como era nas décadas anteriores: foram suprimidos pelo governo. Alguns ainda atuam na clandestinidade, ou se socializaram e lucraram com o sucesso ou mesmo estão em asilos, ou morreram em acidentes ou causas naturais. Assim, o heroísmo anda restrito e ter heróis sendo assassinados é acabar com todo um legado de ajuda a população.

Desde que o primeiro herói mascarado surgiu em 1938, Hollis Mason (Coruja Notuna, Nite Owl), “os super-heróis  haviam escapado de seu mundo colorido e invadido o horrível mundo preto e branco das manchetes”. Mas eram heróis defeituosos, nada virtuosos e pouco organizados: “todos nós procurávamos expressar de modo infantil, a noção do Bem e do Mal”. O próprio Coruja Noturna original constata: “Estávamos tentando, através de esforços pessoais, tornar nosso país um lugar mais seguro e com melhores condições de vida”. Mesmo que a opinião pública não aceitasse amplamente o heroísmo mascarado, Rorschach não deixaria um serial killer de heróis a solta: era seu compromisso com a justiça.

O que importa a morte de uma pessoa contra tantas? Porque há os bons e os maus, e os maus devem ser punidos. Mesmo em face do armagedon, não farei concessões. (Rorschach)

100_05

2. A HISTÓRIA: PERSONAGEM A PERSONAGEM
A cada edição de Watchmen fica claro que acompanhamos a perspectiva de alguns heróis e a trama vai se construindo sob ótica de vários personagens. É a técnica de múltiplos enredos e narradores que hoje é amplamente conhecida entre os leitores de George Martin, autor das Crônicas de Gelo e Fogo que deu origem a série da HBO, Games of Throne. Logo, faremos nossa análise a partir da história singular de cada um deles na ordem cronológica das edições.

100_06

I – COMEDIANTE (nada divertido)

Este anti-herói (imperfeito ao extremo) é o estopim da história. Sua morte não é relevante para opinião pública como era antigamente. O povo não se importa. Em seu enterro, os poucos heróis existentes estão lá para prestar as suas últimas homenagens, ao passo que se lembram de fatos marcantes da vida desse aspirante a psicopata.

Edward Blake, o Comediante, lutou na Guerra do Vietnã, onde foi um carrasco e abandonou a máscara. Não tinha escrúpulos para matar inclusive uma mulher que afirmava estar grávida dele. Ele tira vida da moça na frente do Dr. Manhattan, que passa a racionalizar a vida humana após esse fato. Foi nessa ocasião que Blake adquiriu uma cicatriz na face. Agir com violência para com mulheres era normal para ele. Antes disso ele havia estuprado Sally Júpiter, heroína conhecida como Silk Espectre (Espectral). Dessa violência sexual nasceria uma filha.

Assim, o Comediante, acostumado aos atos mais hediondos, antes de morrer procura um ex-vilão, Moloch e confessa sentir muito medo. Que até ele, que era capaz de atos horríveis, que matou até crianças no Vietnã, que alcançou fama em cima das mortes e era adorado pelo governo americano, mas que ele sentia um medo terrível daquilo que acontecera em uma ilha. Mas o quê e onde?

100_07

II – DOUTOR MANHATTAN (deus americano)

Talvez dentre os heróis de Watchmen mais próximo de um SUPER-herói é justamente o Doutor Manhattan. John Osterman, filho de um relojoeiro,  apesar de ter o mesmo dom que seu pai com os relógios, seu velho nunca quis que o filho tivesse uma vida medíocre. Ajudou-o e cobrou-o ao extremo nos estudos até que ingressasse na universidade para ser um novo Einstein.

Mas é justamente o relógio de seu pai o catalisador de seus poderes. Ao ficar preso em uma câmara de campo intrínseco, sofre uma experiência nuclear, adquire poderes superiores em que o espaço-tempo se sobrepõe. Ele é onisciente, onipresente, teletransporta-se, molda a realidade, lê pensamentos. É quase um deus. Ou nas palavras de Laurie Juspeczyk, sua companheira, deus ex machina (ἀπὸ μηχανῆς θεός, em grego, uma solução inesperada, improvável para terminar uma obra ficcional). Ele sabe do passado de todos, antecipa o fim da série (laconicamente), prediz o futuro porque para o Doutor, o tempo é cíclico.

Todo nós somos marionetes, Laurie. A diferença  é que eu vejo os barbantes.

Sua história é contada sobre múltiplos planos: a consciência do Dr. Manhattan e o que se passa no mundo; os flashbacks e os acontecimentos presentes e futuros. Essa consciência múltipla para além do tempo e do espaço, faz com que cada vez mais ele se afaste do amor de Laurie (filha de Sally Júpiter).

Mas quanto mais o Doutor entende as engrenagens do universo, mais se distancia da humanidade e sua pequeneza. Ele é frio demais, racional ao extremo e alheio ao sentimento amoroso (pelo menos na superfície). Tais fatos fazem com que ela acabe rompendo com o relacionamento de anos e subordinando a salvação do mundo aos reveses de sua história com Laurie.

Eu leio os átomos, Laurie. Posso ver o antigos espetáculo que fez nascer as rochas. Comparada a isso, a vida humana é breve e mundana.

Mesmo que o Dr. Manhattan não se importe com a humanidade em geral, quem dirá com o assassino do Comediante, ele é a grande arma nuclear do governo estadunidense. Mantém afastados os inimigos soviéticos e propaga a harmonia global. No livro do Dr. Milton Glass sobre o SUPER-herói, o cientista afirma:

“O homem nunca falou tanto em buscar a harmonia global, embora armazene armas de efeito devastador. […] As guerras para acabar com as guerras e as armas para acabar com as armas falharam. Mas nós não podemos falhar.”

É nesse sentido que o Dr. Manhattan é essencial para a paz mundial. A ideia que “Deus existe, e é americano” fez com que os inimigos dos Estados Unidos ficassem impotentes ante ao poder de um ser tão supremo. Assim o Dr. Manhattan sempre fora usado (ele permitia conscientemente isso) para sustentar a paz armada estadunidense e manter a hegemonia global.

Logo por mais que para os outros heróis e para a população, o heroísmo (sem superpoderes) tenha sido uma moda passageira, para o Dr. Manhattan e para o Comediante era diferente. Este último ganhava ainda mais espaço por causa de seu desempenho sádico e extremista no Vietnã.

Entretanto, muitos heróis desaparecem misteriosamente antes da morte do Comediante, mas ninguém os investigou. Assim quando o presidente Nixon trapaceia e assume, ilegalmente, seu terceiro mandato, ocorrem eventos catastróficos contra os mascarados. O senador Keene, então, decreta que o vigilantismo se tornava ilegal. É o fim de uma era: muitos heróis desistem, poucos ainda agem na ilegalidade.

Depois que o Comediante é morto, a vida do Dr. Manhattan sofre um abalo: em plena rede televisão, ao vivo, testemunhas afirmam ter perdido entes querido que teriam contraído câncer simplesmente por entrar em contato com o super-herói. Aliado ao seu rompimento com Laurie, ele decide se isolar em Marte. Abandona a humanidade. Assim, os soviéticos avançam em seu esforço para acabar com o domínio americano sobre o mundo. Surge a ameaça, com a ausência do Doutor, de uma Terceira Guerra Mundial e o planeta caminha para o caos.

100_08

III –  RORSCHACH (profeta do destino)

A narrativa de Rorschach, alterego de Walter Kovacs, dispõe de dois aspectos interessantes. O primeiro, é claro, é a acidez de seu diário que nos dá mostra de suas opiniões e pensamentos, um hábito adquirido desde sua infância em institutos de correção como o Lar Charlton. O segundo é que a história do justiceiro mascarado se divide com a história de um pirata náufrago, herói de uma história em quadrinhos. À medida que a história prossegue, vemos os acontecimentos envolvendo Kovacs, o que acontece no mundo (por meio da opinião do jornaleiro) e a história em quadrinhos do pirata. Parece confuso? Aparentemente, sim, mas revela a riqueza das entrelinhas da história. Assim conhecemos o reflexo dos acontecimentos (a morte do Comediante e o exílio do Dr. Manhattan) na população nova-iorquina e percebemos que Rorschach e o pirata são os sobreviventes que farão de tudo para chegar ao final da história.

Rorschach é, ao meu ver, o protagonista de Watchmen. Ele é, para opinião pública e até para seus colegas de heroísmo, um louco e homicida, todavia é o único que vigia os vigilantes e que está desperto e disposto a enfrentar a maré dos acontecimentos. É ele que inicia o questionamento: a quem interessaria destruir os grandes “patriotas” americanos, o Comediante, herói do Vietnã, e o Dr. Manhattan, o bastião da paz?

Durante várias entrevistas feitas a um psicanalista na prisão, descobrimos, através de flashbacks, a história de Walter Kovacs, uma criança fruto de um lar sem pai e uma mãe prostituta. Ele sempre fora introspectivo, sofrera violência doméstica e bullying. Decide, depois de passar a juventude em instituto correcional devido a agredir um colega, que se tornaria um vigilante. Assim nasce Rorschach: uma personalidade criada por Kovacs diante das atrocidades feitas por um assassino sádico, uma dissociação de personalidade. Ele perde a fé na humanidade. Usa a máscara por vergonha de pertencer a essa espécie. Máscara confeccionada com tecido especial adquirido de sua época como operário em indústria têxtil. Ele assim narra seu momento de auto descobrimento, após incinerar o assassino de criança e vê-lo junto com sua casa a queimar:

Olhei para o céu, através da fumaça espessa e Deus não estava lá. O frio. A escuridão sufocante. Estamos todos sozinhos. Vamos viver nossas vidas, na falta de algo melhor para fazer. Nascer do esquecimento. Aturar crianças destinadas ao inferno, como nós. Não há nada mais. Existimos ao acaso. Não há um padrão, exceto o que nós imaginamos. Nenhum significado, exceto aquele que nós impomos. Este mundo sem direção não é delineado por forças metafísicas. Não é Deus que mata crianças. Nem é a sorte que as esquarteja ou o destino que as dá de comida aos cães. Somos nós. Só nós. As ruas estavam tomadas pelo fogo. O vácuo dentro de mim lembrava gelo quebrando. E ele renascia livre para cria sua própria forma neste mundo moralmente vazio. Era Rorschach.”

Culpabilizado pela morte de Moloch, vilão aposentado, foi convenientemente preso. Fica óbvia a tentativa de retirá-lo de circulação. Sua investigação ameaça os planos por trás da morte do Comediante, o exílio do Dr. Manhattan e o recente atentado a Ozymandias, herói e empresário de sucesso que lucra com a própria imagem. Solitário, parecia que Rorschach estava destinado a apodrecer na cadeia, lutando contra criminosos que ele mesmo mandou para lá. Até que sua iniciativa acaba tirando dois heróis da inércia: Laurie Júpiter e o segundo Coruja Noturna.

100_09

IV – CORUJA NOTURNA E LAURIE JUSPECZYK

Eis dois heróis que são o último legado da geração de ouro de Watchmen, quando os Minutemen, grupo liderado pelo Capitão Metropólis e Silk Espectre (Sally Júpiter), estavam na ativa e eram uma equipe pronta para o combate ao crime na década de 1940. O primeiro Coruja Noturna, Holis Mason, passou seu manto a Dan Dreiberg, jovem rico, intelectual, solitário e especialista em tecnologia. É ele que junta as peças do quebra-cabeça e descobre o vilão por trás da trama.

Já Laurie é filha de Sally Júpiter, a primeira Silk Spectre, e do Comediante e sua violência sexual. Por livre e espontânea pressão da mãe, a primeira a lucrar financeiramente com o heroísmo como atriz, Laurie seguira os passos dela como heroína. “Mamãe estragou minha adolescência, tentando fazer de mim o que ela seria se eu não tivesse nascido”, confessa Juspeczyk ao Dr. Manhattan. Já o pai, o Comediante, ela o odiava desde que soubera que tinha estuprado sua mãe. Por outro lado Sally, sua mãe, “amou um homem que tinha todos os motivos para odiar”.

À medida que a história prossegue, eles vão se tornando mais próximos e desenvolvem um romance. Eles relutam em acreditar em Rorschach, um psicótico que vê conspiração em toda parte e que acreditava em um matador de mascarados. Mas começa a fazer sentido a sua teoria: “Comediante assassinado… Jon exilado… alguém tentar matar Adrian (Ozymandias) e o próprio Rorschach levado pela polícia…”, afirma o segundo Coruja Noturna.

Enquanto Dan Dreiberg, apático e afastado da luta de crimes, tenta sair de seu casulo e engrenar um romance com Laurie, esta oscila entre evoluir a friendzone com o Coruja Noturna ao passo que ainda nutre sentimentos pelo exilado Dr. Manhattan. Enquanto Rorschach forja uma rebelião para fugir do presídio, a tensão social cresce, fica clara a intenção de que tudo não passa de uma forma de fazer estourar um conflito de proporções gigantescas.

Ronda o fantasma da ameaça nuclear, a imprensa é tida como comunista por sua postura contra o governo e a opinião pública se divide: heróis salvam ou são criminosos da nação? Veículos de comunicação destroem ainda mais a imagem do heróis. Na ausência do Dr. Manhattan, o trunfo tático do governo americano, a situação de medo e desconfiança de uma Terceira Guerra Mundial faz com que a população se rebele contra o heroísmo, tanto na mídia como nas ruas. O primeiro Coruja Noturna, Holis Mason, é espancado até a morte.

100_10

V – OZYMANDIAS (Rei dos Reis)

É um personagem construído aos poucos ao longo de todas as edições. É também um heróis com superpoderes, o último a surgir. Diríamos que a inteligência é seu poder, apesar de também ser um exímio atleta e um aventureiro que largou a fortuna da família e conheceu o mundo. Influente nos meios midiáticos, gentil e um empresário de sucesso por sua próprias mãos, pois abdicou do dinheiro de seus pais, parece pouco interessado naquilo que acontecera ao Comediante, mesmo que ele reconheça sua contribuição a nação americana. Talvez, em parte, isso se deva ao fato de ter sido derrotado por ele no início da carreira ou mesmo por outro motivo secreto. Rorschach assim o define ao ver as coisas que ele guarda em seu escritório:

Um espelho de sua vaidade. Quadros dele mesmo, peças egípcias, gráficos de vendas impressionantes…

Nota-se um teor narcisista em seus atos. Mas Adrian Veidt, alterego de Ozymandias, é considerado um “santo” pela população. Um homem caridoso, que revelou sua identidade secreta prontamente, pois não tinha nada a esconder. Passou a acreditar que os crimes, “Tais males são apenas sintomas de uma enfermidade geral do espírito humano, e eu não acredito que se possa curar a doença acabando com os sintomas”.

Ele, então, sofre um atentado, contudo seu atacante morde a própria língua e morre antes de revelar o mandante do crime. Por mais que se omita em tomar atitudes drásticas em relação ao acontecimentos e prefira permanecer isolado em sua fortaleza na Antártida, Adrian Veidt se organiza para intervir na economia e lucrar com o caos que tomou conta da população amedrontada pela possibilidade de um holocausto nuclear. Ele é um vencedor:

Os meios para atingir a capacidade muito maior do que a das chamadas pessoas comuns estão ao alcance de qualquer um, se seu desejo e vontade forem fortes os suficiente.

3. MÚLTIPLOS OLHARES

100_11

QUESTÕES DE GÊNERO – Um dos pontos mais espantosos de Watchmen é justamente sua desconcertante atualidade. Já em fins da década de 1980, Alan Moore abordava temas importantes e constantemente debatidos hoje como as questões de gênero. Seja a homoafetividade, quando um simples cartaz “Lésbicas contra o estupro” é recusado de ser afixado por um senhor conservador ou na suposição de uma heroína homoafetiva e confirmada indiretamente por Sally Júpiter como algo normal no meio heroico.

Há ainda o papel da mulher-objeto na sociedade e nos quadrinhos. Essa última, estereotipada na visão de Sally Júpiter (Silk Espectre), heroína com roupas sexy, desejada por vilões e heróis e que acaba sendo estuprada por outro herói. O quadrinho deixa em aberto se ela sofreu violência sexual por causa de suas roupas e postura sensual. Ainda evidencia a ótica machista se ela teria gostado do ato, visto que termina se apaixonando pelo agressor e dizendo que ela pode ter provocado tal ato. Uma discussão bem atual.

100_12

ESQUERDA E DIREITAWatchmen se passa durante a Guerra Fria e o fantasma do comunismo. Hoje os EUA vivem com o medo alimentado pelo terrorismo ou pela destruição dos valores morais. Na obra de Alan Moore é o duelo entre a ordem estabelecida liderada pelo capitalismo contra a ameaça esquerdista. Atual não? Inclusive, já na década de 1980, expressões como “direitista” e “esquerdista” eram intensamente usadas. Alan Moore nos apresenta justamente a seguinte tese: em uma sociedade que perde seus valores basilares, a sensação de instabilidade social faz renascer velhas ideologias, receios e autoritarismos.

100_13

CONTRACULTURA – A narrativa se passa em uma época efervescente para a juventude que contestava o sistema, o militarismo e provava substâncias entorpecentes ao som da música hippie. Adrian Veidt, Ozymandias, fala que sua vida mudou após provar haxixe no deserto: “Um resultado foi uma visão que me transformou”.

100_14

RACISMO – Além de acenar para a questão da supremacia branca defendida por jornais, mostra o cotidiano de pessoas comuns segregando e julgando negro, principalmente na figura de um jornaleiro que é ao mesmo tempo conservador, misógino e preconceituoso. Enquanto outros heróis e americanos talentosos desaparecem, a mídia defende, inclusive, a supremacia racial vem a tona com o elogio a Ku Klux Klan (também conhecida como KKK ou simplesmente “o Klan”).

100_15

NARRADOR – Um dos pontos mais interessantes de Watchmen é justamente a narração, a consciência de cada personagem. Ler o Diário de Rorschach e conhecer as opiniões ácidas do personagem é um dos pontos altos da HQ. O Diário só aparece quando ele protagoniza a história. Quando outro personagem é o foco, muda-se o estilo de escrita. Por exemplo, a narração (o fluxo da consciência) do Dr. Manhattan é azulado como sua pele e com cenas sobrepostas do passado, do presente e do futuro. E por aí vai, dando um caráter muito pessoal e uma vivacidade para cada herói.

100_16

4. TIPOLOGIA TEXTUAL E CITAÇÕES
A cada edição, o leitor mergulha não só na arte sequencial, mas também precisa ler diversos tipos de texto ao final de cada parte. Assim, cada edição é composta por dois atos (ou capítulos) e segue de perto algum personagem e sua perspectiva. Ao término de cada ato, podemos ler autobiografias, relatórios, recortes de jornal, reportagens. Há uma prosa extremamente vasta que complementa as partes obscuras da HQ. São os extras, tão comuns em DVDs e Blue-Rays.

Outro ponto interessante é que cada ato é fechado, geralmente, por uma citação famosa que é a cereja do bolo e sintetiza os acontecimentos de cada parte da história ou faz referência ao título do capítulo em questão. Abaixo, segue uma lista dos extras e citações que aparecem na minissérie. Saliento que por mais que você se sinta tentado a desconsiderá-los, leia-os. Deixará sua experiência em Watchmen ainda mais completa. Se for música, coloco o link para apreciação.

100_17

Edição 1
EXTRA – Trechos da Autobiografia de Hollis Mason, “Sob a Máscara”, enfocando o período no qual ele se tornou o aventureiro mascarado Nite Ownl (Coruja Noturna I).

CITAÇÕES:
Ato 1: À meia-noite, todos os agentes… À meia-noite, todos os agentes e super-homens saem à procura daqueles que sabem mais do que eles próprios. (Bob Dylan, Desolation Row)
Ato 2: Amigos ausentes E eu desperto enquanto o amanhecer está surgindo, apesar de meu coração está dolorido. Eu devia estar bebendo em honra aos inimigos ausentes, ao invés destes comediantes. (Elvis Costello, The Comedians)

100_18

Edição 2
EXTRA: Mais alguns trechos da autobiografia de Hollis Mason, “Sob a Máscara”, mostrando o declínio do heroísmo. Há ainda o início da obra “Dr. Manhattan: superpoderes e as superpotências” do professor Milton Glass que avalia a importância deste herói científica e socialmente.

CITAÇÕES:
Ato 1: O Juiz de toda a Terra Não deve o juiz de toda a terra agir com justiça? (Gênesis, capítulo 18, versículo 25)
Ato 2: Relojoeiro A liberação da bomba atômica mudou tudo, exceto nosso modo de pensar. A solução para esse problema está na cabeça da humanidade. Se eu soubesse, teria me tornado um relojoeiro. (Albert Einstein)

100_19

Edição 3
EXTRA: Capítulo 5 da Ilha do Tesouro, extraído da Coleção Tesouro em Quadrinho (Flint Editions, Nova Iorque, 1984). Essa narrativa de pirata, lida por um jovem na banca de jornal, alterna entre os eventos de Watchmen que tem Rorschach como protagonista.
A parte 2 ainda conta com a análise preliminar do processo de Walter Kovacs, Rorschach, além do relatório do Hospital Psiquiátrico do Estado de Nova Iorque e cartas e desenhos ainda da infância do herói no Lar Charlton.

CITAÇÕES:
Ato 1: Espantosa simetria
Tigre, Tigre, brilho flamejante nas florestas da escuridão. Que imortais olhos ou mão poderiam criar tão espantosa simetria? (William Blake)
Ato 2: O abismo olhará Não combata os monstros, temendo tornar-se um deles. Se você olhar dentro do abismo, o abismo olhará dentro de você. (Friedrich Wilhelm Nietzche)

100_20

Edição 4
EXTRA:
Primeiro o artigo científico, “Sangue do ombro de Pallas”, publicado no Jornal da Sociedade Ornitológica Americana (1983) no qual Daniel Dreiberg (Coruja Noturna II) mostra seu conhecimentos sobre pássaros, sua predileção pela coruja como símbolo de sabedoria e justiça, avatar da própria deusa Atena.
Já o segundo extra é a edição de 31 de outubro de 1985 do jornal New Frontiersman, considerado por seu opositores como periódico conservador. Mostra a paranoia comunista da mídia em torno dos acontecimentos de Watchmen.

CITAÇÕES:
Ato 1: Um irmão para os dragões
Sou um irmão para os dragões, e um companheiro para as corujas. Minha pele está negra, e meus ossos ardem com o calor. (Jó, capítulo 30, versículos 29-30)
Ato 2: Velhos fantasmas No Halloween, os velhos fantasmas aparecem, mas eles só falam para alguns; para outro, são mudos. (Halloween, Eleanor Farjeon)

100_21

Edição 5
EXTRA:
Recortes do jornal Mundo Diário que falam sobre a carreira de Sally Júpiter. Heróis e vilões desejavam possuí-la e ela resolve levar sua sensualidade para o cinema. Há bilhetes e cartas com o pessoal da produção do filme e como este fora um fracasso de crítica. Além de uma entrevista, com ela já mais velha, concedida a revista Perfil na qual revela seus sentimentos em relação ao estupro.
Já o segundo extra revela as transações comerciais de Adrian Veidt: sua linha de figuras de ação e de cosméticos. E não poderia faltar um anúncio de seu curso coaching, o Método Veidt, para melhorar a autoconfiança, ser um herói e vencer na vida.

CITAÇÕES:
Ato 1: Uma luz nas trevas
Pelo que podemos perceber, o único propósito da existência humana é acender uma luz nas trevas da mera sobrevivência. (C.G. Jung, Memórias, Sonhos e Reflexões).
Ato 2: Dois cavaleiros se aproximam Lá fora, nem longe, um gato ruge, dois cavaleiros se aproximam e o vento começa a soprar. (Bob Dylan, All Along the Watchtower)

100_22

Edição 6
Extra:
Uma entrevista que Adrian Veidt, Ozymandias, concede a Nova Express. O título “Depois do Mascarado” parece ser o contraponto com a autobiografia de Hollis Mason “Sobe a Máscara”. Aqui conhecemos a filosofia e a cabeça do último dos heróis. Este é também o último conteúdo extra da minissérie.

CITAÇÕES:
Ato 1: Veja minha obra, ó poderoso…
Meu nome é Ozymandias, rei dos reis: Veja minha obra, ó poderoso, e perca a esperanaça! (Percy Byshee Shelley, Ozymandias)
Ato 2: Um mundo forteSeria um mundo forte e adorável para se morrer.  (John Cale, Sanities)

5. CURIOSIDADES

100_23

I. Referências Marvel e DC – Sem dúvidas os personagens de Watchmen são inspirados nos quadrinhos de ambas as empresas, não só pelo fato de Alan Moore ter sido colaborador das mesmas, mas também para inserir sua crítica e problematizar. Assim o Comediante possui elementos do Pacificador (DC) e Nick Fury (Marvel). O Dr Manhattan lembra o Capitão Átomo (DC) por sua capacidade de manipular a física quântica. Se o Coruja Notuna lembra o primeiro Besouro Azul e o Batman (DC); Ozymandias parece inspirado em Thunderbolt e Laurie, Silk Espectre, foi inspirada na Lady Fantasma da extinta editora Quality Comics e na Canário Negro (DC). Por fim, claro, Rorschach que se percebe traços do Questão (DC) e do Mr. A da Chalton Comics.

100_25

II. Vamos jogar um jogo… A ideia do filme Jogos Mortais (2004) de fazer um criminoso serrar a própria perna para poder se salvar possui, justamente, um antecedente em Watchmen (1988). Rorschach oferece ao assassino de uma menininha uma solução: morrer queimado ou serrar sua própria perna para sobreviver. Bem, como se ele tivesse tanta escolha.

100_26

III. Senhor presidente! Apesar de ser uma obra e ficção, há um personagem real na trama: o presidente Nixon. Ele é retratado como governante autoritário e que teria dado um golpe para governar um terceiro mandato consecutivo, algo proibido pela Constituição Americana. Ele está à frente da guerra travada com o Afeganistão e aparece na quinta edição da minissérie, no capítulo Dois cavaleiros se aproximam.

100_27

IV. O nó górdio – Ozymandias é um personagem cujo nome já remete ao epíteto de Ramsés II, faraó egípcio do Reino Novo ‎(1279 a 1213 a.C.) e pertencente a XIX dinastia. Mas suas motivações são inspiradas nos feitos de Alexandre, o Grande, conquistador grego da Ásia (332 a.C. – 323 a.C.). Sua juventude e determinação inspiraram Adrian Veidt, inclusive na história do nó górdio, um desafio proposto pelo Rei da Frígia. Era um nó impossível de desatar e um monumento à força babilônica. O rei grego desatou com um golpe de espada. Assim, “Adotando o nome grego de ‘Ramsés Segundo’ e o espírito aventureiro de Alexandre, resolvi aplicar os ensinamentos da Antiguidade no mundo de hoje. E assim começou a minha trilha para a conquista dos demônios que perseguem os homens…”

100_28

V. Até o Brasil? A questão da dívida externa do Brasil, sim, daqui, aparece na história de Watchmen e nos coloca em perspectiva com os confrontos armados da Guerra Fria: “Despesas com armamento fomentam elevadas taxas de juros para empréstimos internacionais. Deste modo, países como o Brasil estão em dificuldade para saldarem suas dívidas”. Parece que as coisas não mudaram muito desde a década de 1980.

100_29

6. O UNIVERSO ESTENDIDO
Envolvendo e ampliando o universo da clássica minissérie de Alan Moore, há a ótima adaptação de Zack Snyder, já mencionada nesta crítica. Foi por meio do filme Watchmen (2009) que conheci o mundo criado por Alan Moore. Até onde me lembro, extremamente fiel a história em quadrinhos. Para quem não tem ainda a HQ em mãos, o longa-metragem pode ser uma obra introdutória.

Há ainda o controverso arco de histórias pequel (pré-sequência) lançado pela DC e repudiada pelo próprio Alan Moore: Before Watchmen (Antes de Watchmen). Nela podemos acompanhar as histórias das origens e acontecimentos pertinentes dos heróis e vilões que permeiam a minissérie clássica. Assim cada edição possui como foco um personagem, exceto as duas últimas. Em ordem de publicação, temos edições de: Coruja, Espectral, Rorschach, Dr. Manhattan, Comediante, Ozymandias, Dollar Bill & Moloch e, por fim, os Minutemen.

Ainda no campo dos quadrinhos, o universo de Watchmen termina por se integrar ao mundo da DC. Isso se mostra a partir da minissérie Doomsday Clock. Nela o Dr. Manhattan é responsável por alterar a realidade do Universo DC. Pistas já foram deixadas desde a edição 50 da HQ da Liga da Justiça como o estranho método de desintegrar os inimigos. Muitos pensaram que o Dr. Manhattan fosse o criador do multiverso DC, mas ele só foi responsável por alterá-lo.

100_30

E, claro, há a recente série televisiva da HBO que “apresenta uma visão atualizada do mundo, onde justiceiros mascarados transitam constantemente pela delicada linha que separa o bem do mal em uma sociedade que os despreza” (sinopse oficial). Almejamos, analisar estes universos estendidos no devido tempo. Afinal, é meio difícil se despedir do mundo criado por Alan Moore.

7. CONCLUSÃO (Quem vigia os vigilantes?)
Quando nos deparamos com o Watchmen nossos conceitos sobre heroísmo e as motivações para a prática do mal são atualizadas e questionadas. Para além de uma simples paródia do mundo heroico, investigando seus estereótipos e enredos recorrentes, a obra de Alan Moore lança luz sobre a própria condição humana frente as adversidades. A certa altura, Ozymandias, teoriza sobre a humanidade:

“Creio que certas pessoas realmente querem, mesmo que no subconsciente, o fim do mundo. Elas querem se livrar da responsabilidade de manter este mundo, querem se livrar do esforço necessário para realizar tal futuro. E, naturalmente, há outras que querem muito viver. Eu vejo a sociedade do século vinte como uma espécie de raça entre o esclarecimento e a extinção.”

Outro ponto marcante é que Watchmen situa a arte sequencial (HQ) como lugar para crítica e reflexão para além dos simples meio de diversão juvenil. É um quadrinho adulto e filosófico. Não espere cenas de ação repletas de onomatopeias e frases de efeito. A obra de Alan Moore se presta a analisar o fator humano e desmascarar os heróis ideais que povoam o imaginário atual. Em uma época de blockbusters Marvel, das rendas milionárias que a indústria de quadrinhos arrecada no cinema, Watchmen se fixa como objeto artístico da mais elevada magnitude.

Claro que algumas soluções da trama são dadas rápidas de mais e não estão à altura do suspense que a história evoca, no entanto a jornada, meus amigos, é brilhante. E se cada capítulo de Alan Moore fecha com uma citação, as vezes musical, finalizo a crítica com versos que acho que resumem o que podemos esperar de Watchmen:

Quem ocupa o trono tem culpa
Quem oculta o crime também
Quem duvida da vida tem culpa
Quem evita a dúvida também tem

(Engenheiros do Hawaii, Somos quem podemos ser)

100_31

Barra Divisória

assinatura_marco

MINDHUNTER – SÉRIE DA NETFLIX (CRÍTICA)

090_00

SINOPSE
Ambientada no anos 1970, Mindhunter (Caçador de Mente, em tradução livre) segue a trajetória, inicialmente, de dois agentes do FBI: Holden Ford e Bill Tench. Encarregados do setor de Ciência Comportamental, eles tentam inovar os métodos para detectar e analisar suspeitos e condenados por crimes violentos. Enquanto a agência de investigação se atém ao modelo obsoleto MMO (Meio, Motivo e Oportunidade), Ford e Tench tentam mudar essa linha de abordagem que parece não mais se aplicar ao mundo abalado após a contracultura e dos crimes violentos como os influenciados por Charles Manson.

Desta forma, Holden e Bill teorizam aplicar uma avaliação psicológica mais profunda que acarretará novas questões. Mesclando ciências humanas, como a sociologia e antropologia, eles empreendem diversas entrevistas com indivíduos violentos encarcerados: de assassinos e estupradores até criminosos em série. Para isso, simplesmente perguntando o porquê, seus atos, seu passado familiar os levará a desvendar e analisar cada suspeito. Assim, Mindhunter concentra-se no desenvolvimento de dois homens, dois agentes, e de um novo campo criminal através de histórias que visitam à mente psicopatas e sociopatas.

090_01

ABERTA A TEMPORADA DE CAÇA (análise da 1ª temporada)
Sou um aficionado por série e filme que envolvam serial killers (assassinos em série), paixão que surgiu justamente depois de assistir a O silêncio dos inocentes (1991), o qual nos apresenta a figura icônica de Hannibal Lecter, e Seven – Os Sete Crimes Capitais (1995). Quanto ao primeiro, li a romantização do longa-metragem (1988), também do livro Dragão Vermelho (1981) que fora transformado em filme (2002). Depois de ficar obcecado pelo criador de Hannibal, Thomas Harris, assisti de True Detective (2014-2019), a Hannibal (2013-2015)  e Bates Motel (2013-2016), só para citar as narrativas que mais me chamaram a atenção.

Quando nos deparamos com Mindhunter, percebemos não algo acabado do ponto de vista investigativo. Os métodos não existem ainda. Só temos um jovem agente, Holden Ford, especializado em negociação de reféns que possui a ideia insistente de que é necessário conhecer e preservar a vida de criminosos e vítimas. De que é preciso conhecer a psique do crime em uma época em que todos achavam que mente maldosa e sinistra era algo nato e a loucura encarnada. Sua ideias inovadoras se tornam um fardo para seu chefe, Shepard, que o designa para área de setor comportamental de Bill Tench.

090_02

Por mais que Bill tenha criado a unidade (somente ele trabalhava nela), não havia evoluído muito mais do modelo MMO (Meio, Motivo e Oportunidade). Com um casamento em ebulição devido a adoção de um menino silencioso, rodava os EUA dando palestras aos policiais e ensinando o modos operante do FBI na caça de criminosos violentos. A chegada de Holden, motivado pelas constantes dicas de sua namorada estudante de sociologia, Debbie, faz com que eles acabem entrevistando o primeiro de uma série de assassinos. É analisando os traumas, as motivações e os sentimentos desses “maníacos” que eles se empenharão para montar um modelo a fim de se antecipar e evitar que crimes violentos como aqueles aconteçam.

Para fechar a equipe, a Dr. Wendy, especialista em psicologia criminal de grandes empresários, abandona seu relacionamento lésbico pela certeza de por em prática em situações reais seus estudos e, enfim, fazer a diferença.

Mesmo com os entraves do chefe da unidade, Shepard, Holden e seus métodos nada convencionais e improvisos fazem com que a dupla consiga suas primeiras prisões e alcance certa notoriedade, inclusive angariando fundos do Congresso para um estudo aprofundado. Mas é aí que, talvez, o estrelismo de Ford faz com que seja visto com desconfiança pelos amigos e se distancie de sua namorada. Parece que até os gênios têm seu limite.

090_03

ENFIM, CHARLES MANSON (análise da 2ª temporada)
Depois de Holden ter chegado ao seu limite psicológico, depois de passada a sensação inicial de Super-Homem que não se abatia, não tinha sentimentos diante de tantos assassinos múltiplos, ele se vê confrontado pelo pânico e já não é mais o mesmo. Perdeu o feeling para sondar, interpretar e entrar na mente dos criminosos violentos.

Sua unidade também mudou. A ascensão dos métodos da Ciência Comportamental empreendidas por Ford e Tench causam o afastamento de seu principal opositor: Shepard. Em compensação, o novo diretor quer eficiência nos trabalhos e pesquisas porque anseia por colocar em prática a divulgação dos novos procedimentos de estudo da mente violenta. A pressão é constante e se sobrepõe-se muitas frentes de investigação ao mesmo tempo e abre-se espaço para atuação de todos. Até da Dra. Wendy, que sai de sua zona de conforto, vai a campo entrevistar assassinos.

090_04

O trio de protagonistas tem suas tramas individuais expandidas. Holden nos passa a insegurança de que pode entrar em pane a qualquer momento. Sua mente ainda é brilhante, mas à medida que tem seus métodos apoiados pelo novo chefe da unidade, não encontrar total apoio entre seus amigos. Envolve-se com o um caso de muita relevância nacional: o assassino múltiplo de Atlanta que mata garotos negros de comunidades carentes.

Bill Tench vive em torno de preocupações familiares em relação ao seu filho introspectivo demais. O garoto se envolve com um assassinato culposo (sem intenção de matar). Devido a sua inocência ou premeditação? Essa dúvida permeia a vida de Bill que tem isso como estopim para uma crise no casamento: sua mulher exige sua presença. Já o trabalho necessita de seu dom de relações públicas com os figurões do FBI e ainda precisa fiscalizar o Holden. Uma das cenas mais bem feitas da série é a entrevista com Charles Manson, um dos bandidos mais famosos da contracultura. Interrogar o homem que influenciou jovens da classe média sem antecedentes criminais a cometer uma terrível chacina sempre foi um desejo de Ford. Ele é quase um fã e ainda pega um autógrafo. Mas a cena vale por cada minuto de provocação de Manson em relação a Tench e como as palavras encarcerado mexem com Bill. Notamos como isso reflete nos acontecimentos de sua vida pessoal.

090_05

Wendy, assumindo de vez sua nova vida em Quântico, sai do campo da teoria e, na prática, percebe que há muito que aprender no modos operante de Holden de interrogar os assassinos. Oscila entre os questionamentos acadêmicos, seu novo romance com uma bartender e o fato de ter que esconder de todos que é lésbica. Em um trabalho altamente sexista, machista e que a homoafetividade é vista como comportamento desviante, ela andará na corda bamba continuar seu trabalho ao passo que oculta sua vida privada. Sua amizade com Bill cresce e de certa forma se sente acolhida nessa conjuntura hostil.

Desta forma a 2ª temporada parte muito mais para esfera prática, algo somente ensaiado na primeira que contou somente com a resolução de dois casos sem grande esforço para os agentes. Assim, nesta temporada, vemos a ascensão de um estrangulador de crianças negras, mais um pouco do mistério em torno do assassino BTK, casos que despertarão e exigirão muita perspicácia para chegarem a um ponto final. E, para além da solução mágica que a ficção de serial killers enfoca, nosso agentes terão problemas simplórios como a burocracia e política que impedirão um resultado mais satisfatório.

CURIOSIDADES (bem reiais)

  1. 090_06A série é baseada em dois agentes reais, John Douglas e Robert K. Ressler, que faziam perfis criminais na década de 1970 e que escreveram o livro Mind Hunter: Inside the FBI’s Elite Serial Crime Unit. Assim, as cenas das entrevistas são baseadas nas entrevistas reais com os ditos serial killers, às vezes quase palavra por palavra.
  2. 090_07Um distúrbio que combina com os sintomas que o filho de Bill Tench supostamente exibe é chamado de “mutismo seletivo”. É classificado como um transtorno de ansiedade que afeta até 0,8% de todas as pessoas em algum momento de suas vidas, mais comumente na escola e / ou em ambientes sociais.
  3. 090_08Na Austrália, as duas fabricantes de automóveis históricas e mais competitivas são Holden (marca General Motors) e Ford. O nome do personagem principal é Holden Ford (Jonathan Groff). No episódio 3 da segunda temporada, quando Holden faz check-in no Omni International Hotel, em Atlanta, ele precisa esclarecer à recepcionista que seu sobrenome é Ford, acrescentando: “É uma piada de mau gosto na Austrália. Como aqui”.
  4. 090_09Há um serial killer ativo sendo aludido na série em trechos muito rápidos. Este é Dennis Rader, mais conhecido como O Assassino “BTK”, que matou dez pessoas no Condado de Sedgwick, Kansas, entre 1974 e 1991.
  5. 090_10Em um dos episódios, a Dra. Wendy Carr (Anna Torv) pode ser ouvida perguntando: “O que há na caixa”? Possivelmente uma referência ao filme de David Fincher, Seven: Os Sete Crimes Capitais (1995), no qual o personagem de Brad Pitt faz a mesma pergunta na cena mais famosa do filme. David Fincher também dirigiu quatro episódios da primeira temporada desta série.

090_11

ELENCO E FICHA TÉCNICA
Jonathan Groff, Holt McCallany, Anna Torv, Hannah Gross, Cotter Smith, Stacey Roca, Joe Tuttle, Michael Cerveris, Lauren Glazier, Albert Jones, Sierra McClain e June Carryl  compõem o elenco. Criada por Joe Penhall, a série de 2017, Mindhunter, é baseada no livro Mindhunter: Inside the FBI’s Elite Serial Crime Unit, escrito pelos reais investigadores John Douglas e Mark Olshaker. Seus produtores executivos são Beth Kono, Charlize Theron, Joe Penhall, Ceán Chaffin, Joshua Donen, David Fincher e Courtenay Miles. Seus produtores são Jim Davidson, Mark Winemaker e Liz Hannah, e as gravações ocorreram no Estado da Pennsylvania, nos EUA. Mindhunter é da produtora Denver and Delilah Productions, e é distribuída pelo serviço de assinatura Netflix.

CONCLUSÃO
O importante é ficar de olho nos detalhes e conversas. Como na ciência forense, cada detalhe, cada cena aparentemente desconexa da trama principal acaba por se entrelaçar em algum momento da história: seja um comentário de um entrevistado ou na visão de um homem fazendo nós rápidos. Aliás, as entrevistas, para quem não gosta de diálogos será um entrave, no entanto se conectam com os dramas pessoais do trio Holden, Tench e Wendy e mostram a evolução dos métodos investigativos da Ciência Comportamental.

Se você curte, como eu, os jogos geniais de palavras, a mente dos assassino que beira a naturalização do crime, a banalização do atos homicidas e a confusão serão momentos de pura empolgação. Como li muito Agatha Christie (36 livros para ser exato), a pegada da série me lembra muito dos métodos de Hercule Poirot ao interrogar seus suspeito a procura de pistas. A diferença, claro, é que não falamos da Inglaterra, mas prisões estadunidenses em que os criminosos possuem sempre uma conexão sexual e o dinheiro lhes é pouco relevante. Estão em busca de uma satisfação sádica para seus impulsos primitivos.

Outro ponto interessante é o estilo retrô. Não só porque a ambientação da série se dá na década de 1970, mas porque a fotografia muitas vezes imita a da época e a qualidade da filmagem, as vezes defeituosa ou nebulosa, típica de películas antigas. Isso está presente em vários momentos da série desde uma festa até um passeata pelas ruas de Atlanta.

Como é uma série inspiradas em fatos, o telespectador tem uma sensação ímpar de estar mergulhado em uma “verdadeira” investigação criminal, até onde a ficção pode alcançar. Mindhunter é uma série inteligente e merece mais temporadas, contudo ainda aguarda o sinal verde da Netflix para continuar. São previstas cinco temporadas e já lhe rendeu 5 indicações variadas e o prêmio de melhor ator de drama para Jonathan Groff, pela Satellite Awards. Aventure-se por mentes criminosas e para quem gosta de roteiros precisos, está é uma atração para você matar (ou maratonar) em série. Trocadilho ruim, mas eu deixo assim. Boa diversão!

Barra Divisória

assinatura_marco

HANNA – SÉRIE DA AMAZON (CRÍTICA)

087_00

SINOPSE
Baseada no longa-metragem de 2011 de mesmo nome, Hanna acompanha a singular jornada de um jovem criada nos rigores da floresta europeia por um homem misterioso que a mantém isolada do mundo. Mas a curiosidade da adolescente, cuja única pessoa com qual se relaciona é o pai, Erick, fará com que a menina se aventure fazendo contato com o mundo exterior. A simples e rápida amizade com um jovem desenterrará segredos do passado ligados ao impiedoso programa de treinamento da CIA para formar agentes de campo perfeitas psicológica e biologicamente.

A jornada de Hanna com iguais partes de drama da maioridade, suspense e espionagem, volta-se para origem da menina e seu pai. É no decorrer dos acontecimentos que a jovem tentará se encaixar em um mundo ao qual sempre estivera alheia e todas suas certezas entrarão em xeque. Mas a história da menina recrutada ainda no ventre materno para ser inigualável assassina não seja única e, talvez, Hanna não esteja tão sozinha no mundo.

087_01

OUTRA HISTÓRIA DE ESPIÃ… (Análise)
Tudo bem que a proposta da Amazon de surfar na onda de um filme com quase 10 anos de atraso é batida. Mas a série possui seus encantos: consegue em boa medida abarcar as contradições da adolescência, de hormônios à flor da pele, extravasados em meio a razoáveis e coreografadas cenas de ação. Gosto bastante do gênero espionagem. Assisti senão todos, ou quase isso, aos filmes de 007 e lembro-me dos festivais da Rede Globo que certa vez exibiram na Sessão da Tarde todos as películas do James Bond. Ainda assisti a algumas séries toscas como Chuck (2017-2012), por exemplo; ou decepcionantes como Alias (2001-2006), que deslizou no final, mas revelou o talento de Jennifer Garner e contou com a mão de J.J. Abrams. Porém persisto no gênero, sempre, como um esperançoso.

087_02

Desta forma a história de Hanna é muito típica no que se refere a alguns de seus elementos básicos: um protagonista de passado obscuro, um “programa de super-soldado”, a presença inescrupulosa da CIA e motivações para lá de questionáveis. Nesse sentido, o que chama atenção é justamente o caráter juvenil (não é uma série só para crianças) que oscila entre a candura da infância perdida da menina isolada na floresta e vivendo primitivamente com seu pai; e a história violenta da organização que os persegue e que não respeita a moralidade ao matar tantos inocentes e até bebês… para não entrar em mais detalhes.

Erik (Joel Kinnaman), veterano da Guerra do Afeganistão, envolto com problemas de bebidas alcoólicas e distúrbio pós-traumáticos se torna um recrutador especial da CIA, alistado pela figura enigmática de Marissa Veigler (Mireille Enos). Ele deveria interceptar mães que quisessem abortar, convencê-las a continuar a gestação e entregar suas filhas, sim somente meninas, para o projeto Ultrax. Nele, os bebês seriam melhorados geneticamente e desde cedo receberiam treinamento especial para se tornarem agentes badass!

087_03

No entanto Erik apaixona-se por uma das mães, Johanna Petruscus (Joanna Kulig), a mesma que se arrepende depois do parto de ter aberto mão da guarda de se sua filha, Hanna (Esme Creed-Miles). Assim ambos empreendem uma invasão à base para resgatar a recém-nascida. Mas as consequências são trágicas: a mãe da menina morre, o projeto aparentemente é encerrado (ou incinerado) e Erik se exila na floresta e passa a criar e treinar a garota, mantendo-a sempre oculta do resto do mundo.

Nesse meio tempo, Marissa Viegler, mesmo adquirindo em certa medida uma vida normal depois de ter cometido atrocidades em nome da CIA, nunca perdeu a esperança de reaver a menina e eliminar Erik. E com certeza não deixará os vacilos adolescentes de Hanna passarem batido e seguirá o rastro da menina, desacostumada com o mundo fora da floresta e, devido às reviravoltas, afastada do pai.

087_04

ASPECTOS TÉCNICOS (algumas observações)
No aspecto visual, além da arte conceitual do nome da série, com um toque geométrico e minimalista, é preciso enfatizar a beleza das locações na Europa em países que vão da Alemanha à Romênia. Isso faz com que a série supere o regionalismo estadunidense e mostre paisagens belíssimas.

A trilha sonora possui músicas mais calmas que enfatizam o caráter leve nas cenas da menina envolta em doçura cujo exemplo maior é “Anti-lullaby” de Karen-O que permeia vários momentos de inocência da jovem assassina. Mas estão lá os estilos musicais que são tendências entre os jovens para embalar as festas e as cenas de ação: hip-hop, trance, rock…

087_05

Quanto a unidade, às vezes deixam a deseja ao fazer a passagem pouco sutil entre o drama da menina e a ótica de seus perseguidores. Essa passagem é pouco orgânica e em vários momentos pouco acabada.

No que se refere as atuações, parece faltar dramaticidade expressiva. Quando falamos de Esme Creed-Miles, que vive a protagonista, é justificável sua personagem ser mal interpretada, às vezes, afinal ela vive uma menina fria por natureza e pouco socialiazada. Mas os outros dois vértices desse triângulo, Joel Kinnaman and Mireille Enos, parecem pouco expressivos e cativantes. Afinal é preciso catarse: que o telespectador se identifique emocionalmente com mocinhos e bandidos. O casal de atores, que já trabalhou juntos em The Killing (2011), parecem ter evoluído pouco. No caso de Kinnaman, conhecido aqui por Robocop (2014) de José Padilha e pela série Altered Carbon da Netflix, parece ter somente a mesma feição para demonstrar todos os sentimentos, mas se salva pela cenas de ação muito bem coreografas. Já Mireille Enos, possui um sorriso meio perturbador, mas parece igualmente inexpressiva. Mas deixo o benefício da dúvida: será que não é assim pelo histórico da vilã?

087_06

 

ELENCO E FICHA TÉCNICA
Esme Creed-Miles, Mireille Enos, Joel Kinnaman, Khalid Abdalla, Justin Salinger, Andy Nyman, Yasmin Monet Prince, Rhianne Barreto, Stefan Rudoph, Katharina Heyer, Peter Ferdinando, Benno Fürmann e Joanna Kulig compõem o elenco. Hanna é uma série norte americana inspirada no filme homônimo de Seth Lochhead & David Farr, lançado em 2017. David Farr retorna, agora em parceria com Ingeborg Topsoe para escrever esta nova versão, que é produzida por Hugh Warren e tem como produtores executivos David Farr, JoAnn Alfano, Tom Coan, Andrew Woodhead, Tim Bevan, Eric Fellner, Marty Adelstein, Becky Clements e Scott Nemes. Os compositores da música tema são Ben Salisbury e Geoff Barrow. A produção ficou por conta dos estúdios NBCUniversal International Studios, Working Title Television, Focus Features e Amazon Studios. A série é distribuída e está disponível pelo serviço por assinatura Amazon Prime.

CONCLUSÃO (devagar e sempre…)
Se você é fã de espionagem em alto nível, a história de Hanna terá poucos atrativos e surpresas. É, até certo ponto previsível, e pouco inovadora, exceto pela questão da perda infância e o drama da maturidade da personagem. Adolescentes podem gostar da série principalmente por abordar problemas comuns dessa faixa etária, no entanto a galera mais experiente às vezes perderá a paciência com os trechos infantis e pela demora para desenvolver o enredo.

Talvez o aspecto mais interessante a enfocar nessa conclusão seja justamente as reviravoltas na trama e a espera, bem recompensada, das cenas em que a pequena agente entra em ação. É sempre bom ver uma garotinha empoderada nocautear uma bando marmanjo mal-encarado. A primeira temporada é curta, apenas 8 episódios, e deixa o gostinho de curiosidade visto que Hanna terá que se virar sozinha. Mas não vou falar demais, deixo para vocês saírem da floresta junto com a menina ou deixá-la exilada na sua lista de streaming da Amazon.

Barra Divisória

assinatura_marco

 

EL CAMINO – FILME DA NETFLIX (CRÍTICA)

081_00

A série Breaking Bad (2008-2013), ao longo dos anos, acumulou timidamente (no início) uma legião de fãs, dentre os quais me incluo. Sendo assim, comentar qualquer derivado da obra de Vince Gilligan é um empreitada delicada.Mas El Camino (2019) não é a única história envolvendo o universo de Jess Pinkman e Walter White. A série Better Caul Saul (desde 2015 e com última temporada confirmada) também explora ainda mais os detalhes dos personagens secundários da história do professor de química que se torna produtor e traficante de metanfetamina (cristal).

Entretanto, ao final de Breaking Bad, fica o gosto amargo da morte de um anti-herói e a fuga desesperada de Jesse, barbudo, lacerado, com lágrima nos olhos depois de ter sido feito de escravo e morado em um buraco no chão. O que acontecera ao rapaz que se envolveu com produção de cristal, primeiro para saciar seu próprio vício, e que, depois, só queria viver, quem sabe, uma vida simples e em família? Nesse sentido El Camino é um fechamento para um dos personagens mais cativantes da série e que rendeu fama a Aaraon Paul.

Jesse precisa fugir de Albuquerque, pois uma grande caçada policial é empreendida atrás do rapaz após uma batida no laboratório de metanfetamina no qual era escravizado. Com a morte do Sr. White, as autoridades precisam por as mãos no último elo solto dessa organização criminosa. Pinkman tem um plano, mas será preciso muito dinheiro para executá-lo. Para isso terá que revirar seu passado e traumas para seguir seu próprio caminho.

081_01

Título original: El Camino: A Breaking Bad Movie
Direção: Vince Gilligan
Roteiro: Vince Gilligan
Duração: 2h 2min
Lançamento: 11 de outubro de 2019.

081_02

Elenco: Aaron Paul (Jesse Pinkman), Jesse Plemons (Todd), Jonathan Banks (Mike), Matt Jones (Badger), Charles Baker (Skinny Pete), Robert Foster (Ed).

081_03

O FIM DE EL CAMINO
Vamos começar nossa análise justamente pelo título original:  El Camino: A Breaking Bad Movie. O termo El Camino refere-se à pick-up (caminhonete) da Chevrolet, automóvel clássico da década de 1970. É nele que ao final da série, tendo abandonado Walter White a própria sorte, Jesse acelera para a liberdade. Aqui o duplo sentido é claro: esta é a história do caminho da liberdade de Pinkman para sair de Albuquerque. E as memórias de Jesse relacionadas ao dono do carro, o sociopata Todd, permearão a narrativa do filme.

081_04

O subtítulo, Breaking Bad Movie (um filme de Breaking Bad), pode ser um limitador. É um filme da série e, talvez por isso, tenha sido omitido na forma reduzida para o público brasileiro. Então você pode se perguntar: eu preciso ver a série antes? Sim e não. Por um lado o filme é o universo expandido, uma continuação do último episódio (2013), e, mesmo alguns atores tendo mudado muito como o Jesse Plemons (Todd) que não é mais um jovem e já um pouco gordinho, parece que o tempo parou. Conhecer a série fará com que sua imersão seja completa e entenda todas as referências.  Em contrapartida, o enredo de El Camino é independente e se sustenta, ao longo da trama, esclarecendo pontos da história para aqueles que não assistiram à série. Claro que a Netflix deu aquela mãozinha e deixou um resumo no capricho para quem não saca nada de Breaking Bad.

081_05

Os eventos do filme tem início na fatídica noite em que Walter liberta Jesse da gangue de Todd. Fragilizado e coberto de cicatrizes, sujo e andrajoso, o jovem busca abrigo de seus colegas de vício e tráfico: Badger e Skinny. Nota-se que o psicológico de Jesse está destruído. O presente se mistura as lembranças do cárcere e das torturas.

É em um desse momentos que relembra de Todd, sociopata a citar constantemente seu tio, e que oscila sua conversa branda, com a frieza de seus atos. Toda hora que ele falava, eu tinha vontade de xingá-lo, confesso. Lembra-se de Mike, antigo parceiro de crime, e idealiza uma fuga para o Alasca. Mas como? Precisava de uma vida totalmente nova e para isso, dinheiro. É nesse momento que entra em cena o cara: Ed.

081_06

Ed, vivido por Robert Forster que viera a falecer no mesmo dia da estreia desse longa-metragem, é o grande trunfo de Jesse. Facilitador da fuga de Walter White e do advogado Saul, o vendedor de aspirador de pó (profissão que o ator realmente exerceu) tem um rígido código de conduta e não aceita de cara o trabalho. Pinkman terá que enfrentar seus medos para conseguir o que precisa para fugir e começar de novo, quem sabe fazer faculdade, como lembra em um flashback de uma de suas conversas com o Sr. White.

081_07

Dois pontos, há de se salientar, antes de finalizar esta análise. A fotografia do filme é intensamente quente, como esperamos de Albuquerque. Por vezes é possível sentir a aridez do clima pela tela. Assim como alguns ângulos de câmeras são incríveis como a de Jesse escondido no apartamento de Todd. Ainda em relação a Pinkman, a cena no qual o protagonista brinca com um besouro revela que Jesse ainda tem um alma gentil. Essa parte ecoa a própria série na qual também brincou com um inseto rastejando lentamente no chão e sorriu para ele antes de pousar. Esta é a dualidade da série e aqui nitidamente explícita: Pinkman que tinha tudo para ser mal e viciado e ganancioso, alcança sua redenção ao passo que Walter, íntegro, destruiu sua própria vida.

081_08

UMA PEQUENA PARTICIPAÇÃO
A aventura da fuga de Jesse é permeada caras conhecidas da série original, entre elas está Mike (único personagem que aparece em todas as tramas do universo Breaking Bad) e Jane, grande amor de Pinkman. Mas como todo fã da série, ansiava por alguma participação de Bryan Cranston, revivendo Walter White. E ela acontece em um tocante flashback quando Jesse ainda cuidava de seu antigo professor com uma afeição de filho.

Na cena, em questão, Jesse e Walt ficam em um hotel e conversam em uma lanchonete. Ela é ambientada no episódio 4 Days Out, no qual ambos ficam presos no deserto e quase morrem. No hotel, Jesse está conversando com Jane ao telefone, pois ela ainda está viva durante o período deste episódio. Jesse também faz uma referência a “eletrólitos”, que faz parte do roteiro do episódio no qual os dois quase morrem devido à desidratação.

CONCLUSÃO
Não é dos filmes mais alucinantes de ação, pois nunca foi essa a pegada da série da qual El Camino derivou. Estamos falando de drama e reviravoltas de roteiro como Vince Gilligan, que já contribuiu com a série de Chris Carter, Arquivo-X, já se mostrou capaz de fazer. O longa-metragem de Jesse Pinkman dá um fim honroso para a história do ex-viciado e traficante de metanfetamina que foi reduzido a uma condição sub-humana, perdeu quem mais amava e foi traído por seu pai postiço, Walter White.

É tocante ver esse garoto fragilizado sendo ajudado por seus amigos próximos, personagens coadjuvantes como Badger e Skinny, mas que se veem imbuídos de um lirismo, de uma amizade leal que venceu as barreiras do dinheiro e da decência. Ver que muitas feridas de Jesse estão ali e permanecerão com ele. Que as maiores cicatrizes não são aquelas da pele, porém aquelas frutos da saudade do que foi e do que teria sido.

Barra Divisória

assinatura_marco

CORINGA (CRÍTICA)

076_00

Coringa gira em torno de uma origem para o icônico arqui-inimigo do Batman, herói clássico da DC Comics. Desde sua primeira aparição lá pelos anos 1940, o vilão foi intensamente revisitado e muitos atores o viveram: Cesar Romero (na série clássica dos ano 1960), Mark Hamill, o eterno Luke Skywalker que o dublou em Batman: The Animated Series, Jack Nicholson (Batman, 1989), o vencedor do Oscar póstumo Heath Legder (O Cavaleiro das Trevas, 2008) e o fiasco de Jared Leto (Esquadrão Suicida, 2016).

Todavia esta é uma história original e independente, nunca vista antes na tela grande. A exploração de Arthur Fleck (Joaquin Phoenix) por Todd Phillips, é a de um homem desconsiderado pela sociedade. Não é apenas um estudo de caráter corajoso, mas também um conto de advertência mais amplo para os perigos do isolamento, da solidão e da invisibilidade social. Ao acompanhar a trajetória de Arthur Fleck, um homem esquecido pela sociedade, investigamos até que ponto o palhaço de Gotham City é fruto da incapacidade de todos nós de acolhermos o outro.

076_01

Título original: Joker
Direção: Todd Phillips
Roteiro: Todd Phillips, Scott Silver
Duração: 2h 1min
Lançamento: 03 de outubro de 2019, no Brasil

076_02

Elenco: Joaquin Phoenix (Arthur Fleck/Coringa), Robert De Niro (Murray Franklin), Zazie Beetz (Sophie Dumond), Frances Conroy (Penny Fleck), Brett Cullen (Thomas Wayne)

076_03

A VIDA É UM TEATRO DO ABSURDO
Não é um filme de herói. Não espere um filme caricato e colorido como se saltasse dos quadrinhos. Não. É um filme sobre loucura, sobre ser invisível no mundo e uma investigação da insanidade por parte do próprio louco. Na moda atual de criar filmes sobre vilões (como Esquadrão Suicida, 2016; e Venom, 2018) ou sobre anti-heróis (Deadpool, 2016; e Logan, 2017 ), Coringa nos brinda com uma releitura adulta de um dos vilões mais conhecidos das Histórias em Quadrinhos (HQs). É uma história de origem que nos lembra muito a versão de Alan Moore, mas somente na abordagem psicológica; como também a de Christopher Nolan (O Cavaleiro das Trevas, 2008) eternizado por Heath Legde, também amigo de Joaquin Phoenix, o vilão deste longa. Mas as semelhanças param por aí. O Coringa de Joaquin oscila entre o riso, o choro e o grito contido daqueles que, em sociedade, nunca são ouvidos.

076_04

Conhecemos, então, a história de Arthur Fleck, em reabilitação após uma temporada no sanatório, diagnosticado com problemas cerebrais e com uma ideia fixa plantada por sua mãe: que ele nascera para fazer o mundo rir. Joaquin Phoenix, ao falar sobre Arthur, define o personagem como “um cara que busca uma identidade que por engano se torna um símbolo. Seu objetivo é genuinamente fazer as pessoas rirem e trazer alegria ao mundo”.

“Quando eu era menino e dizia às pessoas que seria comediante, todo mundo ria de mim. Bem, ninguém está rindo agora”

Desta forma, Arthur Fleck ganha a vida sendo palhaço, ora como garoto propaganda nas calçadas, ora como animador em hospital no maior estilo Path Adams de Robin Wiliams. Alterna com suas idas à assistência social e seus cuidados para com a mãe. Nas horas vagas, escreve um diário e rascunha, toma notas para compor seu próprio stand-up, seja assistindo a outros comediantes, seja vendo o programa de Murray Franklin, seu grande ídolo.

076_05

Com uma fotografia que lembra muito Taxi Driver (1976), o que vemos desfilar pela tela não é uma Gotham City atual ou futurística. O intensamente magro, esquelético Coringa tenta sobreviver à cidade opressiva da década de 1980. Gotham é violenta nas pequenas coisas: na paisagem deteriorada, na elite (aqui representada pela família Wayne) que vive melhor que a população comum, no trato humano diário e tantas outras instâncias da sociedade. E a cidade ao mesmo tempo que não enxerga, não perdoa àqueles que não se enquadram nos padrões. A atriz Zazie Beetz, que já vivera a heroína Dominó (Deadpool 2, 2018), afirma sobre o Coringa:

“É uma espécie de empatia em relação ao isolamento”, disse Beetz, “e uma empatia em relação ao que é nosso dever como sociedade, de abordar as pessoas que escapam de alguma maneira pelas brechas. Há muita cultura disso no momento. Por isso, empatia ou apenas uma observação sobre personalidades que lutam?”

076_06

Quanto a Arthur Fleck, não é o simples vilão que enlouqueceu caindo em recipiente de produtos químicos. Lá nas HQs, a Origem do Coringa, faz com que sua peles esbranquiçada seja fruto da deterioração cerebral causada pelos produtos da Indústria Ace. O Coringa se pinta e se veste de palhaço. Ele protagoniza sua composição que evidencia sua insanidade.

A maquiagem do Coringa é muito parecida com a de John Wayne Gacy, um verdadeiro serial killer que costumava entreter crianças enquanto estava vestido como Pogo, o Palhaço. Um estilo de maquiagem que foi evitado pelos palhaços que trabalhavam na época, pois proibiam estritamente pontas “afiadas” na composição, como aparece nos olhos, pois isso assustava às crianças.

076_07

O palhaço tão pouco é mero reflexo do heroísmo do Batman, mas sim do poder da família Wayne. Sua loucura é herdada, sua loucura é fruto de agressão, sua loucura é fisiológica, sua loucura é a não aceitação. Assim o vilão sintetiza tantas causas para a falta da sanidade que, em uma sociedade insana, acaba sendo o gatilho para a barbárie.

Mas se você olhar com atenção, ainda encontrará aquelas referências aos quadrinhos como a fixação do vilão pelos holofotes, prenunciada desde 1940 (Bob Kane) com sua aparição no rádio ou em 2005, na sua obsessão pela TV (Ed Brubaker). Lançará alguma luz sobre a origem do Batman, no entanto, já avisamos, é um filme cujo protagonista é o Coringa, o bobo da corte que de uma hora para outra pode desestabilizar o sistema.

CONCLUSÃO: Eis a questão…
Se você se pergunta se é um longa-metragem que merece ser assistido, digo que não. Merece ser degustado. A trilha sonora, pontual e complementar ao enredo, com a presença de “Smile” (composta por Chaplin para Tempos Modernos, 1936); e “Send the clowns” de Frank Sinatra, encaixam-se perfeitamente no enredo. Ainda, pelo aspecto sonoro, a risada frenética quebra esse momentos de lirismo e a seriedade de certas cenas, contudo não de um jeito cômico. É uma risada, mescla de choro, que não diverte, mas que causa nervoso. O riso de nervoso de Joaquim Phoenix é a vírgula, é o eco do silêncio e é o ponto final. O diretor descreveu para Phoenix como “algo quase doloroso, parte dele que está tentando emergir” e o resultado ficou surpreendente.

Por isso não espere aqui que a história desse filme se alinhe com os novos planos da DC para o Batman interpretado por Robert Pattinson. “Não vejo o Coringa se conectando a nada no futuro”, disse o diretor Todd Phillips. E completa: “Este é apenas um filme.” E nisso concordamos. Coringa é um filme único e não merece continuação porque é uma obra totalmente acabada em si mesmo, mas com questões imperecíveis.

Barra Divisória

assinatura_marco

STAR WARS: EPISÓDIO III – A VINGANÇA DOS SITH (CRÍTICA)

073_00

Guerra! A República está desmoronando sob o ataque do impiedoso Lorde Sith, Conde Dookan. Há heróis de ambos os lados. O Mal está por toda parte.
Em uma manobra surpreendente, o perverso líder droide, General Grievous, invadiu a capital da República e sequestrou o Chanceler Palpatine, líder do Senado Galáctico.
Enquanto o Exército Separatista de Droides tenta escapar da capital sitiada com seu valioso refém, dois Cavaleiros Jedi lideram uma missão desesperada para resgatar o Chanceler preso…

Três anos de passaram desde a Batalha de Geonosis (Star Wars: Episódio II – O Ataque dos Clones, 2002), onde teve início a grande guerra que envolveu diversos sistemas planetários.  A galáxia oscila entre as duas facções que lutam pela hegemonia. De um lado a fragilizada democracia, liderada pela figura dúbia do Chanceler Palpatine, cujas forças se concentram no auxílio do Conselho Jedi e nas tropas de soldados-clones; do outro, a Aliança Separatista, cujo líder, o ex mestre jedi Conde Dookan, deseja não pertencer mais a República e tem no exército droide sua grande força de batalha.

Mas enquanto a República está em crise, a Ordem Jedi questiona as intenções da guerra. Desconfiam do Chanceler que não tenciona deixar o cargo após conflito e ainda quer aumentar a militarização da República. A guerra caminha bem para o lado da republicano, mas os sentimentos conflituosos de Anakin Skywalker o fazem se tornar um agente duplo entre o Conselho Jedi e o plano de poder de Palpatine. Os jedis desconfiam do Chanceler Supremo. Parece que a passos firmes o antigo garoto de Tatooine, o escolhido para trazer equilíbrio à Força (Star Wars: Episódio I – A Ameaça Fantasma, 1999), começa a sucumbir diante da ameaça sith, do medo e da cobiça.

073_01

Título original: Star Wars: Episode III – Revenge of the Sith
Direção: George Lucas
Roteiro: George Lucas
Duração: 2h 20min
Lançamento: 19 de maio de 2005

073_02

Elenco: Ewan McGregor (Obi-Wan Kenobi), Natalie Portman (Padmé), Hayden Christensen (Anakin Skywalker), Christopher Lee (Conde Dookan / Darth Tyranus), Samuel L. Jackson (Mace Windu), Frank Oz (Yoda) e Ian McDiarmid (Chanceler Supremo Palpatine).

073_03

DE ANAKIN A DARTH VADER
Já analisamos nos dois outros filmes da trilogia prequela (pré-sequência), a Ameaça Fantasma (1999) e Ataque dos Clones (2002), como a pequenos passos o garotinho escravo de Tatooine trilhava um caminho dúbio. Apesar da fé cega de Qui-Gon Jinn de acreditar que Anakin seria o Escolhido, aquele que traria equilíbrio para a Força, o menino fora descoberto muito velho para um treinamento jedi convencional. Fora descoberto velho porque cresceu na Orla Exterior, fora da jurisdição da República e do Conselho Jedi. Alia-se a isso sua ligação fortíssima a mãe e por ter se tornado discípulo de Obin Wan Kenobi, ainda jovem cavaleiro e, portanto, não tão experiente.

Anakin parece crescer em poder, mas não em sabedoria. Aquela arrogância meiga de quando era criança de se achar o melhor piloto de pods, faz com que atravesse a adolescência achando-se o melhor jedi existente (o que, de certa forma, era verdade). Mas mesmo com os conselhos equilibrados de Obi Wan, Anakin se deixa seduzir pelos sentimentos passionais humanos: o amor por Padmé Amidala, fixação desde criança, os sonhos premonitórios de morte de sua mãe e o crescente desgosto por não se achar valorizado o bastante pela Ordem Jedi. E ao final do do Episódio II, Skywalker se casa às escondidas (algo proibido a um jedi), tenta salvar sua mãe (que perece em seus braços), assassina uma aldeia inteira por pura vingança e se torna cada vez mais íntimo de Palpatine, um homem ambicioso e alterego de Darth Sidious.

073_04

Quando o Episódio III tem início, sabemos logo de cara o quanto a influência de Palpatine já estava sedimentada: Anakin executa Conde Dookan na frente do Chanceler que calmamente assiste. Obin Wan desacordado, não vê seu antigo aprendiz se vingar do homem que lhe decepara a mão. A partir desse momento, o Chanceler Supremo, que claramente havia arquitetado o próprio sequestro, tendo se livrado de seu antigo aprendiz Darth Tiranus (Dookan), começa o processo de conversão definitiva de Anakin Skywalker.

A estratégia do Chanceler se dá por duas vias: o medo e a desconfiança. Anakin passa a ter sonhos premonitórios nos quais Padmé morre no parto. Sonhos que o atormentam semelhantes àqueles que prenunciavam a morte de sua mãe pelos povos da areia. Nesse ponto, Darth Sidious acaba demonstrando que o Lado Negro possui as ferramentas para evitar que alguém morra. Um processo antinatural para a filosofia jedi, porque quem morre se torna um com a Força. Assim o Chanceler Supremo conta a história de Darth Plagueis, que fora assassinado dormindo por seu aprendiz (pressupomos ser Darth Sidous), mas que antes de morrer passara ao aluno o segredo para imortalidade.

073_05

Enquanto medo de morrer é enfatizado e possui a solução antinatural, a desconfiança de Anakin cresce em relação ao Conselho, alimentada pela falsidade das palavras do lorde sombrio. Prevendo cada passo dos jedis, ele incita Anakin a pleitear um lugar no conselho, mesmo sendo muito jovem para isso. Isso é negado prontamente por Yoda e Mace, tornando-o meramente um ouvinte do conselho. Em seguida ainda solicitam que Anakin espione o Chanceler, para ele uma traição à República. Enquanto os jedis desconfiam (tarde demais) das intenções de Palpatine, esse continua a sustentar que na verdade o Conselho quer tirar seu cargo para assumirem o poder da Galáxia.

É essa trilha do medo e da desconfiança que serão armas sedutoras do Lado Negro. Alie-se a isso a crescente ânsia de Anakin em se tornar cada mais poderoso e temos os ingredientes que formarão Darth Vader.

073_06

PODER ILIMITADO
Durante o este último episódio da trilogia prequela, finalmente vemos a ascensão definitiva de Darth Sidious e a formação do Império Galáctico, o governo tirânico contra o qual lutarão os Rebeldes de Uma nova esperança (1977).

A estratégia do chanceler Palpatine para manter o poder é conhecida pelos cientistas políticos e é chamada de Guerra Perpétua. Ele chega ao poder através de conflitos com a Federação do Comércio, obtém maiores privilégios através da Guerra dos Clones e solidifica sua posição através da guerra contra os Jedi.

Cabe relembrar a trajetória o plano foi minuciosamente trabalhado através dos anos:

  • 073_07(Episódio I) Como Senador de Naboo, incita a Federação de Comércio a um bloqueio comercial, o que faz com que a própria Senadora Amidala proponha um voto de desconfiança ao antigo Chanceler Supremo. Palpatine termina por ocupar o lugar deste na chefia do Senado Galáctico e descobre o potencial do garotinho Anakin;
  • 073_08Com poderes imediatos, encomenda em nome do conselho um exército de clones para República, ao passo que auxilia os Separatistas, na sua rebelião contra a democracia. Enquanto se torna conselheiro de Anakin, ainda padawan, o Chanceler começa a militarizar ambos os lados da guerra contando com o apoio de seu aprendiz, Conde Dookan;
  • 073_09(Episódio II) Usa então um senador patético, Jar Jar Binks que ocupa o lugar de Padmé, afastada do Senado devido a um atentado, para propor que ele obtenha poderes emergenciais e a criação de um exército da República (os clones). De acordo com Ahmed Best, houve uma cena deletada em que, antes de ele se coroar Imperador, Palpatine agradeceu Jar Jar Binks por ter concedido os poderes emergenciais que lhe permitiram dominar a Galáxia;
  • 073_10(Episódio III) Com a suposta traição do Conselho Jedi, propõe que a República se torne um Império Galáctico, e executa Ordem 66: uma programação embutida nos clones que visava à execução de todo e qualquer jedi;
  • 073_11Por fim converte Anakin em Darth Vader, seu aprendiz e um poderoso manipulador da Força. Um jedi caído, cego pelo ódio e pelo desespero por achar ter assassinado seu grande amor em um momento de fúria.

E talvez a citação mais icônica e irônica é justamente quando Padmé Amidala, na plenária que deu origem a formação do Império Galáctico, constata o fim da República. Ela que sempre defendera a desmilitarização, a solução diplomática para o conflito, com os olhos marejados diante a aprovação unânime do Senado, enfim, diz:

Então é assim que a liberdade morre: com um estrondoso aplauso.

073_12

UMA NOVA ESPERANÇA
A ascensão dos sith é o declínio da influência jedi na Galáxia. Mesmo que Mace Windu desconfiasse desde sempre do Chanceler e sua relação com Anakin; mesmo que Yoda percebesse a perturbação na Força e tivesse seus medos em relação a Skywalker; mesmo que Obi Wan visse a arrogância de Anakin e a relevasse por achar que era coisa da juventude e que a meditação e a experiência o curariam; os jedi estavam cegos pelo orgulho e pelo conflito no qual estavam inseridos.

E o jovem Vader, ainda sem sua armadura característica, empreende a chacina até de crianças aprendizes do templo e de toda alta cúpula Separatista. Perde duramente para Obin Wan em uma batalha de sabres de luz de tirar o fôlego. Aqui duas cenas se sobrepõe: Kenobi versus Anakin, Yoda versus Imperador. Anakin e Yoda perdem pelo mesmo motivo: seus adversários estão em nível superior, desvantagem. O fim dos duelos é o fim trágico da liberdade na Galáxia.

Este filme se passa 19 anos antes de Uma Nova Esperança (1977). Então o Episódio III lanças as sementes para o próximo filme e, até certo ponto, elucida para os fãs algumas pontas soltas que marcam a história da trilogia clássica das décadas de 1970 e 1980. Alguns pontos são esclarecidos e merecem destaque:

  • 073_13Darth Vader usa aquela armadura altamente tecnológica e como vilão é muito mais robótico que humano. Isso são reflexos da ultima batalha contra Kenobi no Planeta Mustafa (palavra que vem do árabe, “o escolhido”). Seu andar cambaleante, devido ao peso extra colocado no traje, faz com que ele seja semelhante a um Frankenstein;
  • 073_14Após a morte de Padmé, mas por tristeza do que por causas médicas, vemos como Leia e Luke são separados em seu nascimento. A primeira destinada a família Organa, grande aliada de Naboo desde muito tempo; o último para a terra árida de Tatooine para ser criado por seu meio irmão e vigiado, ao longe, por Obin Wan Kenobi;
  • 073_15O termo “Rebelde” é usado primeiramente neste filme para se referir aos jedis que se opõem a tirania do Império e mais tarde se estenderá para toda a oposição galáctica;
  • 073_16Percebemos que o exílio de Obi Wan tem relação com a vida após a morte, pois ele treinará com o espírito de Qui Gon. Isso explica a voz interior do mestre Kenobi que fala com Luke e sua posterior aparição para o jovem na trilogia clássica. O mesmo para Yoda que se retira para Dagobah, após a derrota para o Imperador, para entender os desígnios da Força;
  • 073_17Cabe lembrar que alguns personagens da franquia tem sua presença explicada neste loga como o motivo para C3PO e R2D2 não se lembrarem dos acontecimentos das Guerras Clônicas. Respectivamente, o droide de protocolo termina com Luke e o astrodoide com a família Organa. Também Chewbacca, como veterano de guerra, que lutou ao lado de Yoda em seu planeta natal Kashyyyk, estreia nesse longa e nos mostra seu passado guerreiro;
  • 073_18Por fim, e não menos importante, os planos da Estrela da Morte, que estavam de posse dos Separatistas em Geonosis (final do Episódios II), revelam-se a todo vapor, primeiro na cena que Palpatine estuda em seu gabinete, em uma rápida projeção, depois, no final do filme, como arma está sendo construída.

CURIOSIDADES

  1. 073_19Ewan McGregor e Hayden Christensen treinaram por dois meses em esgrima e condicionamento físico, em preparação para sua batalha épica. Como resultado de sua prática, a velocidade com que Kenobi e Vader se envolvem no duelo é a velocidade em que foi filmada e não foi acelerada digitalmente.
  2. 073_20Em 2007, o Dr. Eric Bui, psiquiatra francês, coescreveu um estudo que diagnosticou Anakin Skywalker como tendo Transtorno da Personalidade Borderline. Quando os autores relataram suas descobertas na reunião anual da Associação Americana de Psiquiatria, declararam que Skywalker se enquadra nos critérios de diagnóstico: dificuldade em controlar a raiva, rupturas relacionadas ao estresse com a realidade, impulsividade, obsessão pelo abandono e um “padrão de relacionamentos interpessoais instáveis e intensos caracterizado pela alternância entre extremos de ideação e desvalorização “.
  3. 073_21No duelo com o Conde Dookan, o Palpatine aprisionado, originalmente, teve mais diálogos. Uma de suas falas revelava algo obscuro do Episódio II: Ataque dos Clones (2002): Dookan teria pagado aos Tusken Raiders (Povo da Areia) para sequestrar, torturar e matar Shmi Skywalker (mãe de Anakin).
  4. 073_22A história deste filme está em ordem inversa de Star Wars: Episódio IV – Uma Nova Esperança (1977). O primeiro ato deste filme começa com uma batalha espacial, prossegue com uma missão de resgate, continua com Anakin percebendo seu destino na vida e termina com o Império assumindo. O episódio IV começa com o Império assumindo o controle, prossegue com Luke percebendo seu destino na vida, continua com uma missão de resgate e termina com uma batalha espacial.
  5. 073_23A sequência em que Palpatine anuncia o Império, enquanto Darth Vader mata os líderes separatistas, foi modelada após a famosa “Sequência de Batismo” em O Poderoso Chefão (1972).

CONCLUSÃO
Para apreciar plenamente esse filme, só acompanhando toda a trajetória. No entanto você consegue saber o básico dos motivos que formaram Darth Vader e ascensão do Imperador somente por esse longa-metragem. Assistindo aos dois primeiros episódios você verá esse processo com bastantes detalhes para apreciar a jornada do apogeu do Lado Sombrio, mas consegue digerir esse filme sem precisar de todo esse esforço.

Novamente não chama atenção o trabalho de Hayden Christensen (Anakin), que atua muito mal, nem de Natalie Portman (Padmé), totalmente apagada e submissa, uma desconstrução da mulher forte dos filmes anteriores.

Considero, dessa trilogia prequela, o melhor filme. Podemos destacar, claro, a ótima atuação de Ewan McGregor (Obin Wan) compensando os deslizes dos dois filmes anteriores e literalmente arrasando tanto na batalha contra o General Grievous, como no seu conflito com Anakin.

Claro que Yoda novamente se mostra um dos personagens CG (computação gráfica) mais bem trabalhado e parece envelhecer muito mais nesse filme devido aos rumos negativos dos acontecimentos da guerra. Sua batalha contra o Imperador vale cada minuto de seu tempo.

Enfim, as cenas de batalha do filme estão impecáveis: desde ao rufar de tambores na primeira sequência, como na chacina empreendida pela ordem 66 e a batalha de Kashyyyk. Vale muito a pena para as novas gerações entenderem o fim da época Jedi e o que isso prenuncia, além de lançar o clima para os eventos da trilogia original. Mas a história Star Wars está apenas começando. Não se engane, a Força ainda nos revelará muito e ainda falta bastante para o equilíbrio. Por mais que as coisas estejam ruins, sempre haverá Uma nova Esperança para a Galáxia. Que a Força esteja com vocês!

Barra Divisória

assinatura_marco

A ORIGEM DO CORINGA (HQ)

Analisamos três momentos dos quadrinhos em que o palhaço de Gotham City revela um pouco de seu passado. Será mesmo?

067_00

1. BATMAN E ROBIN, O MENINO PRODÍGIO (1940)
A primeira edição de Batman, na primavera de 1940, com arte de Bob Kane, é fundamentada na perseguição ao Coringa. Um vilão sem pudores de matar para conseguir alcançar seus objetivos. Naquela época o grande meio de comunicação era, justamente, o rádio. E é por ele que o palhaço de Gotham City anuncia que à meia noite assassinará o milionário Henry Claridge. O primeiro de muitos que ele cometerá por meio de sua toxina cuja marca é afetar os músculos da face formando um sorriso macabro.

Há uma origem na origem? (Spoilers)
Descobrimos que a motivação dos sucessivos assassinatos são para roubar joias a não ser por uma das vítimas: o juiz Drake. O Coringa sentencia pelo rádio  que “O juiz Drake, um dia você me mandou  para a prisão e por isso morrerá! Sua morte chegará às dez horas! Eu sou o Coringa”. E este é o único dado relevante sobre o passado do vilão.

067_01

Para o leitor mais moderno, esse quadrinho da década de 1940 vai parecer pouco empolgante, tanto pelo traço como pelo enredo e roteiro. Não parece uma aventura digna do Coringa no que se refere a muitos aspectos. Podemos citar o fato do Batman demorar muito para agir e meramente escutar pelo rádio os anúncios dos crimes. Outro ponto é o fato da história ser repleta de piadas pastelão que nos lembram muito o seriado protagonizado por Adam West na década de 1960 tais como: “Você pode ser o Coringa, mas eu sou Rei de Paus”. Mas é aqui que é cunhado tanto o gosto sádico do palhaço pela violência como a famosa frase indignada contra o Batman:

Morra… Maldito… Morra! Por que você não morre?

067_02

2. A PIADA MORTAL (1988)
Sem sombra de dúvidas quando falamos da HQ mais clássica estrelada pelo Coringa, todo admirador da arte sequencial considera a obra de Alan Moore a mais significativa. Não só pelo tom sombrio com que o roteirista costuma abordar os heróis, como assim o faz em Watchmen (1986-1987), mas por ainda contar com o fantástico traço de Brian Bolland.

A narrativa parte da pergunta inicial feita pelo próprio Batman: qual será o fim do eterno embate entre ele e o Coringa? Eles acabarão por se destruir? Mas para o palhaço de Gotham City, talvez isso não seja a grande raiz do problema. O importante é investigar em que momento a loucura nasce em alguém. O Coringa entende que basta um dia ruim para transformar qualquer um em um louco de máscara de morcego ou vestido de palhaço.

Assim ele foge da prisão e a fim de testar sua teoria com o íntegro comissário Gordon. Enquanto trama seus atos maldosos, relembra o dia em que se tornou o arqui-inimigo do homem-morcego à medida que raciocina sobre sua própria condição insana. Caberá ao Batman levar a lucidez ou a loucura para frustrar os planos do Coringa.

O atentado a Bárbara Gordon (spoiler)
Batman resolve visitar o Asilo Arkhan para questionar o Coringa sobre como seria o fim de ambos, se no final acabariam por matarem-se. Ele não estava mais lá. Alegremente, o palhaço comprava um parque de diversões caindo aos pedaços. Na verdade matava seu dono que sorriria para sempre devido a toxina do Coringa. A partir daí o foco da história passa a ser o Coringa e assim temos acesso às suas memórias em flashbacks em preto e branco como um filme antigo.

067_03

Após anos de conflitos, Bruce Wayne conversando com seu mordomo Alfred, admite que não sabe nada sobre o Coringa, que um não da sabe nada sobre o outro e cultivam esse ódio recíproco. Longe dali, enquanto recorta notícias de jornais, entre elas a da primeira aparição do palhaço, o comissário conversa com sua filha Bárbara. “Quando você descreveu o rosto branco e os cabelos verdes eu era criança e fiquei morrendo de medo.”, afirma a jovem indo atender à porta. Era o Coringa. Um tiro. A garota atingida na cintura cai sobre uma mesa de centro de vidro.

O comissário, pego de surpresa, é nocauteado. Com a garota provavelmente paraplégica, sangrando, o palhaço segura um copo de uísque e lentamente começa a despir a garota “Pra provar um coisa. Que o crime compensa”.

067_04

Sabemos que ele fotografa Bárbara nua e em posições sugestivas. Ela chora. Tem sangue por todos os lados. Ele a estuprou? A HQ não deixa claro, mas só essa sugestão fez com que essa história ficasse censurada por um bom tempo (leia aqui). O plano de palhaço era com o pai acorrentado, no trem fantasma do parque de diversões, exibir sua filha em desgraça e assim enlouquecer o brando comissário Gordon. Não conseguiu. Quando o Batman o salva, o policial evidencia que a lei está acima de tudo e qualquer coisa. Quer que o herói o prenda, que não o mate. Será que o comissário não foi íntegro demais? Será que isso, em si, não é também loucura?

Na batalha final contra o morcego de Gotham City, enfim o Coringa resume sua teoria sobre a loucura:

“Sabe, eu estou pouco ligando se vai me levar de volta para o asilo… Gordon enlouqueceu mesmo… minha teoria está provada. Demonstrei que não há diferença entre mim e outro qualquer! Só é preciso um dia ruim pra reduzir o mais são dos homens a um lunático. É essa a distância que me separa do mundo. Apenas um dia ruim. Você teve um dia ruim uma vez, não é? Eu sei como é. A gente tem um dia dia ruim e tudo muda. Senão, porque você se vestiria como um rato voador?”

067_05

A origem por Alan Moore (spoiler)
Depois de pedir demissão do emprego de assistente de laboratório (o que explica sua habilidade química), resolveu seguir a carreira do humor. Pelos flashbacks, descobrimos que o Coringa era um comediante sem sucesso, de piadas que ninguém ria.  Sua vida era envolta em dívidas e estava prestes a ser despejado. Sua esposa, então grávida, parecia ser a única acreditar no talento dele.

Desesperado, faz um trato para ajudar mafiosos a invadir uma fábrica de baralhos passando pela Indústria Química ACE que o Coringa trabalhava. Era uma forma de fazer um dinheiro rápido para Jeannie e se futuro filho. Para seus comparsas, a melhor forma de não chamar atenção era fantasiar o comediante fracassado como se ele fosse o Capuz Vermelho, e assim colocar a culpa nesse bandido caso fossem pegos.

Mas a esposa do Coringa morre em um acidente doméstico. Sem mulher e sem filho, prestes a desistir de invadir a fábrica de baralhos, ele é obrigado por seus comparsas. Naquele dia ruim, palhaço não tinha mais nada a perder, a não ser prosseguir com o plano.

067_06

Naquela fatídica noite, as coisas saem de controle: os seguranças da indústria química frustram os três criminosos. Um dos comparsas, morre de imediato. Um agoniza e enquanto morre, acusa o Capuz Vermelho de ser o líder. E assim o palhaço disfarçado corre, foge, até ser perseguido pelo próprio Batman. Assustado pula em dos tanques químicos. Salva a vida, perde a sanidade. Mas isso é envolto em incertezas, não sabemos se os flashbacks são memórias genuínas. O Coringa então em longo discurso, na batalha final contra o Batman, diz:

Se eu vou ter um passado, prefiro que seja de múltipla escolha! Ah, ah, ah!

067_07

3. O HOMEM QUE RI (2005)
Com o relançamento do universo DC após os eventos Crise nas Infinitas Terras de 1987 em diante, tornou-se necessário atualizar as origens do palhaço de Gotham, trazer o personagem para o mundo de Batman – Ano Um de Frank Miller. Em busca de uma origem mais realista para o Coringa, o roteirista Ed Brubaker e o traço de Doug Mahnke, mostram o maior desafio do Batman depois de um ano desde sua chegada à caótica cidade. Os malucos mascarados ainda estavam só no início e seu embate mais rigoroso, até aquele momento, tinha sido contra o Capuz Vermelho.

067_08

 

O Coringa de Doug Mahnke é intensamente inspirado no ator Conrad Veidt, do filme clássico expressionista alemão O homem que ri (The Man Who Laughs, 1928), o que explica, também, o título desta Graphic Novel. No longa-metragem alemão, Conrad vive um homem desfigurado que passa o tempo todo rindo e por fim torna-se uma atração de circo.

Mas voltando ao quadrinho, após fazer uma chacina utilizando a toxina, que literalmente, faz morrer de rir, o misterioso palhaço começa a interromper a programação televisiva e, aparentemente, escolher suas vítimas entre os figurões de Gotham City de forma aleatória. A única pista é um poema pichado nas paredes de um banheiro:

Um de cada vez eles vão ouvir o meu gemido, e então esta cidade suja irá cair comigo.

067_09

A narração dos eventos oscila entre as do, ainda capitão, James Gordon (assustado com o rumo da criminalidade que assola a cidade) e Bruce Wayne, intrigado e surpreso por combater um criminoso que é, ao mesmo tempo, insano e genial. Enquanto Batman anseia por respostas (“Mal posso imaginar o que se passa na cabeça dele.”), Gordon parece ser mais preciso em sua análise:

Está cada vez mais claro que lidamos com alguém cuja motivação se restringe a causar terror.

A origem por Ed Brubaker (spoiler)
Na verdade, Batman não estava preparado para a complexidade do Coringa. Afinal, quem estaria? Após Wayne ser ameaçado como uma das possíveis vítimas da fúria assassina do Coringa, Bruce injeta levemente a toxina para frustrar parte dos planos do seu arqui-inimigo e antecipar seus passos.

067_10

Contudo, os assassinatos da high society de Gothan eram a distração. A ideia era colocar em prática  o plano macabro de matar todos os habitantes da cidade espalhando a toxina no sistema de abastecimento de água. Fazia parte da vingança insana do Coringa por ter se tornado o que se tornou. Batman, então, elucida a origem do palhaço de Gotham City:

“Eu acertei sobre as intenções do Coringa, só não entendi a natureza de seus desejos. Por outro lado, o poema explica tudo perfeitamente… Ele quer se vingar pessoalmente das pessoas que fizeram dele o que é. Em seguida, a cidade cairá com ele. O Coringa caiu em um tanque de substâncias tóxicas que foram derramadas em uma baia que deveria estar limpa. Agora, ele quer envenenar o suprimento de água de Gotham para que todos morram às gargalhadas. Em sua mente doentia, a população inteira é culpada simplesmente por estar viva.”

Para os fãs mais saudosistas, a queda em um tanque tóxico é justamente a versão da origem para o Coringa de Jack Nicholson na primeira adaptação cinematográfica do vilão lá no filme de 1989, Batman. Esta aventura ainda mostra o estreitamento dos laços entre o futuro comissário Gordon e como surgiu o famoso Bat-sinal.

067_11

CONCLUSÃO: o famoso desconhecido
É inegável que há muito mais momentos em que descobrimos dados sobre o passado do Coringa, mas sempre será um tanto nebuloso. Podemos inferir de suas palavras a condenação injusta por parte de um juiz ou sua ligação com o dia em que se fantasiou de Capuz Vermelho e acabou caindo uma baia ou rio cheio de substâncias químicas que afetaram permanentemente sua sanidade. Nesse evento singular também foi forjada sua obsessão pelo Batman: ele fora responsável, mesmo que indiretamente, pelo que aconteceu ao Coringa. Se não fosse o homem-morcego tê-lo perseguido, o Coringa não teria fugido de forma tão desesperada e inconsequente. Pelo menos é isso que o palhaço acredita.

As histórias aqui analisadas conversam entre si, ou seja, possuem uma intertextualidade. A versão de Alan Moore não parece ter muita ligação com a origem de Bob Kane, mas nos mostra a psicologia do Coringa, extremamente rica por ele ser o protagonista da história. Tanto expõe a mente insana do palhaço disposto a tudo como, por meio de flashbacks (se reais), também conhecemos um pouco do homem que existiu antes do Coringa.

Nesse ponto, O homem que ri (2005) parece surfar na onda destes dois clássicos para revitalizar o arqui-inimigo do Batman. Nessa última HQ, o palhaço anuncia seus crimes pela televisão (e não pelo rádio) e assassina o mesmo Henry Claridge. Mas não por dinheiro e sim por prazer e vingança. Também nos mostra de forma indireta a origem do Coringa ligado ao fatídico mergulho nos produtos da Indústria Química Ace, fatos relatados nos flashbacks de Alan Moore em A piada mortal (1988).

Seja devido a um dia ruim, seja por vingança, isso acabou ou deturpou os valores morais do palhaço e o ligou a figura aterradora do Batman, o monstro que invade seus pensamentos. Talvez a grande piada de sua vida: um futuro desgraçado por um homem que se disfarça de morcego. O próprio Coringa entendeu que de todas as piadas contadas, o mundo era a pior. Assim, fechamos esta análise com a justificativa que o palhaço dá nas páginas de Alan Moore:

Mas o que eu quero dizer é… eu fiquei louco. Quando vi que piada de mal gosto era este mundo, preferi  ficar louco. Eu admito! E você?

Barra Divisória

assinatura_marco

STAR WARS: A GUERRA DOS CLONES (CRÍTICA)

065_00

SINOPSE E FICHA TÉCNICA

Uma galáxia dividida. Em um veloz contra-ataque após a batalha de Geonesis, o exército droide de Conde Dookan conquistou o controle das principais rotas do hiperespaço separando a República da maior parte do Exército Clone.
Com poucos clones, os generais jedis não conseguem uma posição segura na Orla Exterior, enquanto mais planetas se juntam ao Separatistas de Conde Dookan. Com os jedis ocupados com a guerra, não sobra ninguém para manter a paz. A desordem e o crime tomam conta e os inocentes tornam-se reféns de uma galáxia sem lei.
O filho do chefe do crime Jabba, o Hutt, foi sequestrado por um bando rival de piratas. Desesperado em salvar seu filho, Jabba pede ajuda.

Após a batalha de Geonosis, eventos contados em Star Wars: Episódio II – O ataque dos clones (2002), os conflitos contra os Separatistas se intensificam. Na frente de batalha no planeta Christophsi, o cavaleiro jedi Obi Wan Kenobi e o agora também cavaleiro, Anakin Skywalker, lideram as forças clônicas. Acuados no planeta Christophsi e em menor número, as forças da República são auxiliadas por uma nova padawan, Ahsoka Tano, que é designada como aprendiz de Skywalker.

Mas logo a trama muda de foco e passar a girar em torno do sequestro do filho de Jabba, o Hutt, mafioso intergalático que reside em Tatooine. Ele controla as rotas da Orla Exterior, essenciais tanto para a República quanto para os Separatistas que necessitam delas para movimentar suas tropas. Na sua busca por ajuda, o Hutt requisitará o auxílio jedi, ao mesmo tempo que Conde Dookan se oferece para o serviço de resgate. Começa assim um corrida contra o tempo entre mestres e aprendizes. Enquanto Anakin precisa se acostumar com a padawan Asooka; Assaj Ventress, aprendiz do Conde Dookan, precisa mostrar seu valor e cumprir os obscuros planos do mentor.

065_01

Título original: Star Wars: The Clone Wars
Direção: Dave Filoni
Roteiro: Henry Gilroy, Steven Melching
Duração: 1h 38min
Lançamento:
15 de agosto de 2008

065_02

Elenco (vozes): Matt Lanter (Anakin Skywalker), Ashley Eckstein (Ahsoka Tano), James Arnold Taylor (Obi-Wan Kenobi), Dee Bradley Baker (Capitão Rex / Cody), Tom Kane (Yoda), Nika Futterman (Asajj Ventress) Catherine Taber (Padmé Amidala) e Christopher Lee (Conde Dookan).

065_03

ISSO É UM FILME MESMO?
Sendo um filme spin-off (derivado) da franquia Star Wars, surge a dúvida sobre a organização da trama que por vezes parece fragmentada para o observador mais atento. Na verdade este longa é composto por quatro episódios originalmente produzidos para a primeira temporada da série animada Star Wars: The Clone Wars (2008). Desta forma o longa foi concebido para ser o episódio piloto que daria início a série animada, porém tomou o rumo das telonas.

Por isso parece que o enredo tem pelo menos dois momentos: a crise no planeta Christophsi e o rapto de filho de Jabba, o Hutt. Não que isso atrapalhe a trama geral, mas explica a ligação com dois outros episódios do desenho animado que precedem os eventos do filme e terminam lançando luz sobre alguns aspectos da batalha em Christophsi. De forma resumida e na ordem cronológica, tratam-se dos seguintes episódios:

065_04

2×16 – Brincando de gato e rato (Cat and Mouse)
Nesta aventura prólogo, mostra a chegada de Anakin e Obin Wan a frente de batalha no planeta Christophsi, importante por seus recursos destinados a República. O senador Organa (aquele que criará a princesa Leia) está em apuro e precisa de apoio e suprimentos. Porém, Skywalker e Kenobi devem enfrentar um veterano e astuto almirante de guerra: Trench. Impedidos de chegar ao planeta, a batalha espacial seria decidida pela coragem e estratégia de Anakin e seus subordinados  à bordo de uma nave com camuflagem especial.

065_05

1×16 – O inimigo escondido (Hidden Enemy)
Já neste episódio, ainda mais próximo do eventos do filme, observamos Anakin e Obiwan às voltas com um espião dentro da tropa de clones que está informando as posições das forças da República aos separatistas. A trama apresenta um dos personagens clones mais importantes de toda série animada: Rex, um cara durão e disciplinado. Também nos mostra que Asajj Ventress está por trás da sabotagem entre os clones. Além de elucidar como as forças da Repúblicas ficaram sem ajuda e quase sem munição, situação que aparece no início do filme, chama à atenção para um problema moral: será que a República não é tão má quanto os Separatistas, visto que cria seres humanos em laboratório para morrer em batalha?

065_06

SURGE AHSOKA TANO, A PADAWAN!
O ponto chave desse longa fica realmente por conta de Ahsoka Tano, uma padawan destemida e indomável. Partindo da perspectiva de que Anakin sai da condição de padawan (como aparece em Star Wars – Episódio II) e se torna cavaleiro jedi, nada mais natural do que passar seus conhecimentos à nova geração. E os dois são imprudentes e fazem o que bem entendem. Esta simetria (Anakin e Ahsoka) é que marcará afinidade entre os dois jedis  ao longo deste filme e e depois na série animada.

Por outro lado, é aqui que também temos a estreia da aprendiz sith, Assajj Ventress. Neste longa, ela está extremamente insinuante e, arquitetando fake news junto com Conde Dookan, seu mestre Darth Tyranus, tenciona incriminar os jedis pelo rapto do filho de Jabba, o Hutt.

065_07

Tudo culmina para o planeta Tatooine, sede da organização de Jabba. Na corrida contra o tempo, é preciso devolver a criança ao pai. Estar no deserto desperta lembranças recentes de Anakin: ele estivera aqui, tentara salvar sua mãe, mas acabou por dizimar toda uma aldeia de povos da areia (eventos presentes no Episódio II). A certa altura Anakin observa com tristeza:

O deserto é impiedoso, tira tudo de você.

Isso se mostra ainda mais latente na primeira batalha de sabres de luz contra o Conde Dookan. Anakin perdeu a mão no combate de Geonosis (Episódio II – O ataques dos clones) sendo substituída por uma prótese robótica, caso semelhante se dará com seu filho no Episódio VI: O retorno do Jedi (1983). Assim durante a luta, Conde Dookan sente a dor da perda em Skywalker. Nada mais natural estando em Tatooine, local de morte de sua mãe e a chacina do povo da areia. Isso ecoa a fala de Ashoka Tano, parafraseando Yoda:

Erros antigos projetam grandes sombras.

ALGUMAS CURIOSIDADES

  1. 065_08Este foi o primeiro filme de Star Wars a não ter um texto introdutório durante a sequência do título. Em vez disso, a premissa da história é estabelecida pela narração de um locutor descrevendo cenas de fundo. Deixamos a transliteração dessa fala no início dessa crítica.
  2. 065_09O clone Capitão Rex tem uma cicatriz no queixo, inspirada na de Harrison Ford. O símbolo “Jaig Eyes” em seu capacete foi originalmente concebido por Joe Johnston como decoração para o capacete de Boba Fett.
  3. 065_10De acordo com Dave Filoni, Ashoka Tano foi inspirado em San, o personagem-título da princesa Mononoke (1997).

CONCLUSÃO: Skyfora é melhor que Skywalker!
O mais interessante do Star Wars: The Clone Wars é conseguir o que o Episódio II não conseguiu: cativar pela força que cada personagem possui. Longe da atuação pífia de Hayden Christensen, no segundo filme da trilogia prequela (pré-sequência), o Anakin Skywalker da animação é mais carismático e expressivo, assim como Obin Wan. Além de introduzir personagens novos (Ahsoka Tano e Asajj Ventress), o longa-metragem é o pontapé inicial para quem quiser acompanhar a série animada. Sem sombra de dúvidas, este filme e o desenho animado (aqui exibido pela Cartoon Network) são as produções derivadas mais bem trabalhadas da franquia, expandindo e explicando lacunas de toda a saga dos três primeiro episódios.

Além disso, compensa por abranger, ainda que de forma branda, questões de gênero (como um Hutt homoafetivo e mulheres empoderadas com sabre de luz ou um blaster), um romance (bem contido) e batalhas épicas ao som de uma trilha sonora bem rock. Nunca foi tão fácil seguir o Lado Bom da Força. Bom filme!

Barra Divisória

assinatura_marco

“YESTERDAY” E OS BEATLES NO CINEMA (CRÍTICA)

064_00

Desde a primeira aparição do Beatles na TV americana, em 9 de fevereiro de 1964, na época programa de Ed Sullivan, no qual entre as canções mostrava-se dados biográficos do então jovens prodígios, a banda inglesa expandiu e conquistou tanto o mercado estadunidense, como também o mundo. Naquela playlist já constavam sucessos inesquecíveis como All My Loving, Till There Was You, She Loves You, I Saw Her Standing There e a icônica I Want to Hold Your Hand.

Imaginar a história da música, quiçá do mundo, sem a presença da banda Liverpool seria algo impensável, mas não para o diretor Danny Boyle, vencedor do Oscar 2008 (Quem quer ser um milionário?). 

Está é a premissa do enredo do filme Yesterday (2019): depois de um apagão em escala mundial, a existência dos Beatles é deletada da história humana, exceto para algumas pessoas, entre elas: Jack Malik. Mesmo com todos os esforços de sua amiga e produtora Ellie Appleton, sua carreira ia de mal a pior. Não é visto com seriedade pelos amigos e nem pela família. Somente Ellie, que nunca esquecera da performance de Jack fazendo cover de Wonderwall do Oasis em um concurso da escola quando era criança, parece acreditar no talento do rapaz. Até que a vida de Jack muda após um acidente de bicicleta.

064_01

Título original: Yesterday
Direção:
Danny Boyle
Roteiro:
Jack Barth, Richard Curtis
Duração:
1h 56min
Lançamento:
29 de agosto de 2019

064_02

Elenco: Himesh Patel (Jack Malik), Lily James (Ellie Appleton), Sophia Di Martino (Carol), Joel Fry (Rocky) e Ed Sheeran (Ed Sheeran).

064_03

BEATLES E MICHAEL JACKSON?
Qualquer fã da banda sabe que ter as músicas da banda de Liverpool no cinema ou em qualquer obra artística era, até certo tempo atrás, uma raridade. Parte desse problema se deve justamente ao fato de nada mais, nada menos, do que Michael Jackson era o dono dos direitos autorais das músicas dos Beatles.

Na década de 1980 muitos empresários com o ideal de fundar um grande conglomerado de entretenimento acabaram por criar uma organização: a Michael Jackson, Inc. Esta empresa acabou por adquirir a ATV, empresa que hospedava o catálogo musical dos Beatles. Entre as obras, a empresa detinha os direitos autorais da maioria dos maiores sucessos da banda, incluindo “Yesterday”, “Come Together”, “Hey Jude”, e muitas outras.

064_04

Depois do próprio Paul McCartney e Yoko Ono abdicarem de comprar o catálogo simplesmente porque o rei do pop ansiava por ele, alguns meses mais tarde Michael Jackson comprou a ATV por um preço de 47,5 milhões dólares. Hoje, a Sony/ATV, que detém os selos de cantores como Taylor Swift e Eminem, vale cerca de US$ 2 bilhões. Para Joe Jackson, embora pudesse comprar facilmente o catálogo, o comportamento de McCartney era justificável:

“O comportamento de Paul foi muito, muito mais estruturado financeiramente. A única razão para Michael comprar o catálogo era porque estava à venda! Paul McCartney e Yoko poderiam ter comprado, mas não quiseram.”

064_05

Já para Martin Bandier, o diretor-executivo Sony/ATV Music Publishing, havia também uma explicação para a falta de vontade de McCartney: “Eu nunca pensei que Paul McCartney iria comprá-lo, porque é muito difícil para um criador comprar o que é seu. Seria como Picasso passar um dia fazendo uma pintura, para comprá-la, vinte anos, depois por US $ 5 milhões. Não seria uma coisa que Paul faria.”

O fato é que por muito tempo, era quase impossível usar o acervo dos Beatles seja em outras obras artísticas, seja em peças publicitárias. Isso só passou a mudar a partir de 2008 quando houve a abertura para uso em publicidade. Mesmo não precisando do aval do integrantes ainda vivos da banda, Bandier acreditava que havia uma “obrigação moral” de analisar o uso dos catálogos com McCartney, Starr, Yoko Ono (viúva de Lennon) e a família de George Harrison (que morreu em 2001).

064_06

BEATLES NO CINEMA
Um marco para o uso de canções da Beatles no cinema é sem dúvida o longa-metragem de Jessie Nelson, I am Sam (2001), que por aqui recebeu o título açucarado de Uma lição de amor. Neste filme que premiou com os Oscar de melhor ator Sean Penn, conta a história de Sam, uma homem com atraso intelectual (uma mente de uma criança de 7 anos), que com ajuda de outros deficientes cuida de sua filhinha Lucy Diamonds (Lucy in the sky with the diamonds). Há cenas que remetem à Abbey Road, citações feitas pelo protagonistas de frases de Lennon e McCartney e, claro, as diversas músicas dos Beatles interpretadas por covers. São ao todo 19 versões que contam com as vozes de Ben Harper, Wallflowers, Stereophonics e Sheryl Crown. Uma saída inteligente, pois na época  era algo extremamente raro ter documentários, filmes ou clipes desde que Michael Jackson adquirira os direitos autorais da banda na década de 1980.

Usar a obra dos Beatles como fio condutor de uma trama inteira foi a proposta de Across the Universe (2007) de Julie Taymor. O casal protagonista Jude e Lucy, nomes retirados das canções da banda inglesa, vivem toda sua história de amor, ambientada pela músicas dos Beetles, no período de contracultura, da psicodelia e protestos contra a Guerra do Vietnã da década de 1960. Época tão bem retratada no documentário 1967: O verão do amor (2017).

064_07

UM TRILHA FANTÁSTICA, UMA HISTÓRIA PREVISÍVEL
Longe de ser uma obra-prima, Yesterday tem uma história simples e comum para uma comédia romântica. O longa parte de um acontecimento fantástico, um apagão em escala mundial que parece ter sido provocado por uma erupção solar (como se pesca de uma manchete de jornal). Isso causa uma reviravolta na vida do aspirante a cantor, Jack Malik. Um looser (perdedor) em todos os sentidos da palavra. Sempre auxiliado pela carismática e linda Ellie, professora de matemática e produtora amadora que vive uma friendzone e reprime seus sentimentos por Jack.

A ideia de um cantor que terá que escolher entre o amor e o sucesso musical está na raiz de filmes como Rock Star (2001), com Mark Wahlberg interpretando um vocalista de rock anos 80; ou Nasce uma Estrela (2018), com a Lady Gaga. Ou seja, é um tema batido. O que chama a atenção, claro é vasto uso do Beatles como pano de fundo da trama.

064_09

A partir blackout mundial, Jack se vê como a memória da existência dos Beatles. Por mais que mais duas pessoas, no enredo, lembrem-se da existência da banda inglesa, somente Jack tem o talento para cantar e tocar as músicas. Nesta realidade, John Lennon não morreu em um atentado: vive uma vida pacata a beira do mar, alheio à música. Nesta realidade Oasis (banda influenciada pelos Beatles) não existe, assim como a Coca-Cola (só a Pepsi, em um merchã escandaloso) e Harry Potter.

Então, auxiliado por Ellie (no início) e pelo cantor Ed Sheeran (que interpreta ele mesmo), Jack se torna uma celebridade na Internet, abre turnês, vai a shows de entrevista, faz tudo que sua empresária chique Carol lhe ordena.

064_08

No final, ele escolhe uma vida simples ao lado de sua admiradora de infância. O mundo não volta ao normal (juro que esperei isso). As músicas da banda são doadas gratuitamente e Jack abdica de lucrar com uma arte que nunca foi sua. Volta a ser professor e constitui família em um final simples que agradará ao noveleiro mais aficionado.

QUATRO CURIOSIDADES (entre tantos easter eggs)

  1. 064_10No filme, Jack foi atingido quando estava de bicicleta, quebrou os dentes da frente e feriu os lábios. Isso realmente aconteceu com Paul McCartney em 1966 que caiu do ciclomotor e lascou um dente da frente em Liverpool. 
  2. 064_11Legalmente, os cineastas precisavam apenas da permissão da Sony ATV para usar as músicas dos Beatles, sendo a Sony detentora dos direitos de publicação. Em princípio, eles também buscaram as bênçãos de Paul McCartney, Ringo Starr, Yoko Ono e Olivia Harrison para o filme. Assim os Beatles não tiveram contribuição criativa, exceto pela aprovação de seu repertório para uso no filme.
  3. 064_12A história original do filme foi escrita por Jack Barth. Nela tudo era muito mais sombrio, com o protagonista lutando como músico na nova linha do tempo e a premissa do universo alternativo explorada com mais profundidade. Quando Richard Curtis reescreveu, ele fez o tom muito mais alegre, colocou menos ênfase na premissa de uma nova linha do tempo sem os Beatles e mais foco no romance entre Jack e Ellie.
  4. 064_13Alguns dos personagens têm seus nomes inspirados nas músicas dos Beatles: Rocky, o roady temporário, é nomeado por causa de “Rocky Raccoon”; Ellie,  é nomeada em homenagem a  “Eleanor Rigby” (a única música que Jack tem dificuldade de lembrar); e a colega de quarto de Ellie, Lucy, claramente, “Lucy in the sky with the diamonds”.

CONCLUSÃO: TODAY, ASSISTA!
Yesterday não é a última bolacha (ou biscoito) do pacote no que se refere a uma comédia romântica ou mesmo de tributo musical. A história é leve, sem vilões, pois nem Jack Malik é um mal caráter. Ele é um sonhador e se deixará levar pelos rumos dos acontecimentos. Uma salva de palmas para Ellie (Lily James) que é aquela mocinha fofa e apaixonada e de sorriso cativante, a melhor em cena.

Se o leitor nerd deseja um filme leve e é fã dos Beatles, cantará do início ao fim as músicas do grupo, mesmo com a desafinada de Help durante o show de lançamento de Jack (embora o ator, Hamish Patel tenha feito aula de canto e violão). Para além das piadas bem colocadas e em momentos precisos, vai até esquecer que Ed Sheeran não é lá um ator, mas vale pelo desconcerto do rapaz em frente as telas na sua “amizade” com o protagonista. Veja o longa de Boyle como distração de um dia estressante. Afinal não deixe para Yesterday o que pode fazer Today. Essa foi muito ruim! Fui galera!

Barra Divisória

assinatura_marco

2019: A CENSURA NAS HISTÓRIAS EM QUADRINHOS

062_00

O BISPO E O BEIJO
Nos últimos dias da Bienal de 2019, na Semana da Pátria, pipocou nas redes sociais a decisão da Prefeitura do Rio de Janeiro de vetar e retirar uma edição em brochura de Os Vingadores por, supostamente, possuir conteúdo impróprio para menores sendo vendido sem as devidas especificações da lei. Segundo o prefeito Marcelo Crivella, afirmou em suas redes sociais:

“A decisão de recolher gibis na Bienal do Livro teve apenas um objetivo: cumprir a lei e defender a família. De acordo com o ECA, as obras deviam estar lacradas, identificadas quanto ao seu conteúdo. No caso em questão, não havia nenhuma advertência sobre o conteúdo abordado.”

062_01

A questão gira em torno de um beijo gay entre os personagens homoafetivos Wiccano e Hulkling, em uma história em quadrinhos de 2010, Vingadores: A Cruzada das Crianças. Assim, o recolhimento da HQ foi anunciado após o discurso do vereador Alexandre Isquierdo (DEM) na Câmara Municipal do Rio (04/09/119). Na declaração o político atacava a publicação como uma “covardia” às crianças e chama os colegas de Câmara a assinarem uma carta de repúdio contra Marvel, Panini e Salvat, editoras responsáveis pela publicação da história em diferentes momentos.

062_02

Em busca do suposto material impróprio, funcionários vasculharam a feira. O gibi em questão já havia se esgotado uma hora após a polêmica vir à tona. Ao final da fiscalização, o subsecretário operacional da Seop (Secretaria Municipal de Ordem Pública), Wolney Dias, declarou em O Globo:

“— A prefeitura tem poder de polícia para isso — disse Wolney à imprensa presente no local. — Se o material não estiver seguindo as recomendações, ele será recolhido. Estamos seguindo a orientação da procuradoria da prefeitura. Eu não entendo que haja censura. Se for material pornográfico, oferecido sem as normas, será recolhido. ” (Leia na íntegra aqui.)

062_03

UM BEIJO GAY É PORNOGRAFIA? COM A PALAVRA, O AUTOR
Fui surpreendido hoje ao descobrir que o prefeito do Rio de Janeiro decidiu banir a venda da minha HQ com Allan Heinberg, Vingadores: A Cruzada das Crianças, por supostamente conter material inapropriado.

Para aqueles que não estão familiarizados com a obra de 2010, a controvérsia envolve um beijo entre dois personagens masculinos. Não sei o que motivou o prefeito a buscar um material de mais de uma década e que esteve à venda durante todos os esses anos, mas posso dizer com honestidade que não houve motivações escondidas ou ideologias por trás do trabalho, que não promove nenhum estilo de vida em particular, e nem mira em um único tipo de público. A cena meramente mostra um momento carinhoso entre dois personagens que estão em um relacionamento estabelecido”, falou o artista sobre Wiccano e Hulkling.

O fato de que esta HQ, de mais de uma década atrás, só agora está sendo alvo de críticas pelo prefeito apenas destaca como ele está atrasado. A comunidade LGBTQ está aqui para ficar, e não tenho nada além de amor e apoio por aqueles que lutam por validez e uma voz a ser ouvida. Torço para que o belo povo do Brasil, uma nação diversificada e orgulhosa, veja além do ruído político e se foquem na luz e em formas de se unir, ao invés de ajudar a semear conflito e divisão.
(Tradução do Omelete, mas você pode acessar a publicação do autor no Instagram, aqui.)

062_04

A CENSURA DE ONTEM: GOVERNO MILITAR
Inevitavelmente, quando o assunto é censura, relembramos nossas aulas de História (se você for jovem) ou aos eventos vividos durante os governo militares (1964-1985). Podemos definir censura como:

“análise, feita por censor, de trabalhos artísticos, informativos etc., ger. com base em critérios morais ou políticos, para julgar a conveniência de sua liberação à exibição pública, publicação ou divulgação.”

Eu nasci já no fim deste período e vivi minha infância na abertura política que culminaria com o Movimento Diretas Já. Não é preciso ser um expert em historiografia para saber que era comum a censura da produção artística e não falo só das músicas de Chico Buarque (que a gente aprende na escola). Segundo o jornalista Zuenir Ventura, enquanto vigorou o AI-5 (Ato Institucional 5), em seus 10 anos (1968-1978), cerca de 500 filmes, 450 peças, 200 livros e mais de 500 letras de música foram proibidas.

062_06

“Os critérios eram obscuros: cenas de sexo, palavrões e a sugestão de propaganda política eram as justificativas mais comuns, mas pretextos vagos, como “atentado à moral e aos bons costumes” e “conteúdo subversivo”, também eram usados. O órgão responsável era a Divisão de Censura de Diversões Públicas, que durou até 1988, ano em que a Assembleia Nacional Constituinte pôs fim à censura.” (Superinteressante, acesse aqui)

062_05

No que se refere aos quadrinhos, muitas obras sofreram censura devido a conteúdos políticos (na maioria dos casos) ou morais. O semanário O Pasquim (1969-1991), com um jeitão de jornal sério e paródia, contava com nomes como Jaguar e Ziraldo, sofreu por diversas vezes censura prévia e teve alguns de seus colaboradores presos na década de 1970.

062_07

As histórias em quadrinhos e cartuns de Carlos Zéfiro e Henfil também sofreram perseguição. O primeiro, publicando sua obra em total anonimato até de seus familiares, só teve sua identidade revelada em 1991, um ano após a sua morte. Ele abordava histórias eróticas que desafiavam o conservadorismo vigente. Já Henfil, um dos principais opositores ao Golpe (ou Revolução para alguns) de 1964, viveu no exílio, nos EUA, devido ao conteúdo social e político de suas obras. Lá continuou com seu trabalho em periódicos estadunidenses.

062_08

Um último exemplo, é o quadrinho Rango de Edgar Vasquez, que apareceu pela primeira vez na Revista Grilus do diretório acadêmico da Faculdade de Arquitetura da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em que o artista estudava. A partir de 1973, ocupava espaços em alguns jornais como O Pasquim e Folha da Manhã.

“Criado em 1970, Rango é um desempregado barrigudo, sem dinheiro e que vive num depósito de lixo, numa crítica às desigualdades sociais do Brasil. Os quadrinhos do Rango, um anti-herói das tiras nacionais, simbolizaram a resistência à ditadura militar e, passados mais de 30 anos, continuam modernas em sua crítica à desigualdade social.” (Universo HQ)

062_09

A CENSURA DE ONTEM: EUA E A “SEDUÇÃO DO INOCENTE”
Se por ou um lado, por aqui, a temática que movimentava os censores era política, pois se opunham ao poder militar vigente, nos Estados Unidos o principal alvo de críticas era justamente a violência e a sexualidade presentes nas HQs. Na década de 1950, a publicação de Seduction of the Innocent (Sedução do Inocente), do psiquiatra Fredric Wertham, ao logo de seus 14 capítulos, responsabilizava a indústria de quadrinhos pelos graves problemas da juventude da época. Ele alegava que os quadrinhos daqueles tempos (voltados principalmente para histórias policiais e de terror) influenciavam a problemática do desvio do comportamento sexual e o aumento da criminalidade e da delinquência. Em tom histérico e exagerado, empreendia uma “caça as bruxas” aos moldes do Senador Joseph McCarthy, que o fizera anos antes sob o pretexto de acusar de traição e subversão sob pretexto anticomunista tudo quanto era arte.

062_10

Dentre as ideias desenvolvidas por Wertham, por exemplo, estava a de que havia insinuação de uma relação homossexual latente entre Batman e Robin, de que o Super-Homem era fascista e antiamericano e que a independência e força da Mulher-Maravilha fazia dela uma lésbica, dentre outros. O livro nunca fora publicado no Brasil, mas suas quase 400 páginas estão disponíveis por aí na rede.

062_11

Com base nas análises do psiquiatra, a ação censora, liderada pela CMAA (Comics Magazine Association of America), fez com que aos poucos se desenvolvesse um selo de censura chamado Comics Code Authority. “O código era absurdamente específico em relação a certos aspectos e temas, era demasiado moralista, reacionário e se dizia proteger instituições sagradas da sociedade, como o casamento”, afirma Alexandre Callari, escritor e tradutor.

O código era uma iniciativa privada e não tinha qualquer autoridade legal, sendo que os quadrinhos poderiam continuar sendo legalmente publicados. Todavia devido a polêmica e repercussão pública, muitas distribuidoras se recusavam a comercializar produtos com os selos, o que inviabilizavam as vendas.

Durante décadas, o “Comic Code Authority”, criado pela Associação Americana de Revistas em Quadrinhos, minou a outrora lucrativa indústria das HQs pornográficas e de terror. “A partir daí, os quadrinhos, que sempre tiveram histórias densas, se infantilizaram, criando uma ‘pecha’ que perdura até hoje”, explica a cineasta Gabriela Franco, criadora do portal Minas Nerds. (via MSN)

062_12

O código só perdeu força quando em 1971 o Departamento de Saúde do governo estadunidense encomendou uma história em quadrinhos, solicitou a Stan Lee uma HQ do Homem-Aranha que envolvesse o problema do uso de drogas. Mesmo com a negação de John Goldwater, responsável pela publicações na época, Stan Lee seguiu em frente e resolveu publicar sem o selo de autorização já que tinha sido contratado pelo próprio governo. Assim a história saiu de maio a julho de 1971, na revista Amazing Spider Man 96-98, tornando-se um grande sucesso vendas e fazendo com que o Comics Code Authority perdesse sua força depois décadas de perseguição.

062_13

A CENSURA NOSSA DE CADA DIA
Não se deixe enganar: não estamos livres hoje de viver um paraíso da liberdade de expressão na arte sequencial. Lá na terra o Tio Sam ainda se sentem os reflexos de anos de repressão a liberdade no quadrinhos. A graphic novel A piada mortal (1988) de Alan Moore, sofreu censura por insinuar em sua páginas, um suposto estupro da filha do comissário Gordon pelo Coringa. Já Neil Gaiman também sofreu com seu clássico Sandman:

Primeira HQ a entrar na lista de best-sellers do New York Times, a saga de Sonho, criada pelo roteirista britânico Neil Gaiman, sempre foi vista como subversiva. Desde seu lançamento, em 1989, a obra enfrentou problemas nas bibliotecas americanas, por conter linguagem ofensiva e ideias “contra a família”. Então, em 2010 a American Library Association (ALA) chegou a listar Sandman como a “mais frequentemente banida e desafiadora graphic novel de todos os tempos”. (via MSN)

062_14

Além de Elektra, da Marvel, publicações como Persepolis (2000), a venda também na Bienal de 2019, que conta a história da jovem iraniana Marjane Satrapi e sua infância marcada pela revolução em seu país, foram vetadas recentemente nos EUA. Em 2013, o governo de Chicago ordenou que as escolas públicas recolhessem todos os exemplares de Persepolis. No ano seguinte, no Texas, a obra foi banida por ser considerada “literatura iraniana” – embora a proposta da trama seja, justamente, denunciar os movimentos fundamentalistas islâmicos.

062_15

Atualmente o Brasil, não só com a questão Crivella, parece flertar com a ideia da censura dos quadrinhos. Além do caso da Bienal do Rio, em 2019, a arte que ilustra capa do romance gráfico Castanha do Pará, vencedor do Prêmio Jabuti, teve sua divulgação vetada em uma exposição em Belém. Os espectadores se sentiram incomodados pela imagem retratar um policial militar perseguindo o protagonista nas ruas, pois afirmavam que “se sentiram incomodados com a cena de violência, no espaço que é frequentado por crianças”. O autor, Gidalti Oliveira Moura Júnior, afirmou ao Nexo:

“A obra é ficcional, tem caráter lúdico e expõe situações rotineiras nas metrópoles brasileiras. Quem a compreendeu como apologia ao crime e/ou a desmoralização da polícia militar, o faz de forma leviana e sem ao menos ler o livro”.

062_16

HOJE, O QUE A CONSTITUIÇÃO FEDERAL BRASILEIRA E A LEI DIZEM?
Quando analisamos a nossa Constituição em comparação a outras ao redor do mundo, ela é recente e data do ano de 1988, período de abertura política quando saíamos da Ditadura Militar (ou Regime para alguns). Sim, é uma Constituição jovem se tivermos como a parâmetro a Americana, a mesma desde 17 de setembro de 1787. E nem é nossa primeira, mas a sétima versão desde que o Brasil se tornou independente em 1822 (Confira aqui todas as versões). Após décadas de repressão, sobre a produção artística seja ela de oposição aos militares, seja no que se refere a sexualidade, a Carta Magna (a CF) tenta primar por caminhos mais democráticos na expressão ou construção do pensamento do povo. Dois parágrafos são extremamente importantes nesse contexto:

“é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença” (art. 5º, inciso IX);
“é vedada toda e qualquer censura de natureza política, ideológica e artística” (art. 220, § 2º).

Assim, nenhuma legislação reconhecida pelo Direito brasileiro poderá instituir qualquer tipo de censura. Quando falamos, por sua vez, de classificação indicativa, muito comum em filmes, séries, programas de TV (materiais audiovisuais), o próprio Estado se preocupa em não vetar, mas mostrar a importância da família em escolher o conteúdo, como nos mostra a cartilha CLASSIFICAÇÃO INDICATIVA – Informação e Liberdade de Escolha (2009):

“Classificação Indicativa não é censura e não substitui a decisão da família. A classificação é um processo democrático, com o direito à escolha garantido e preservado. O Ministério da Justiça não proíbe a transmissão de programas, a apresentação de espetáculos ou a exibição de filmes. Cabe ao Ministério informar sobre as faixas etárias e horárias às quais os programas não se recomendam.” (Leia aqui na íntegra)

062_18

O amigo leitor pode me questionar: mas quando o assunto são livros e quadrinhos, onde que toda essa ideia de censura ou classificação indicativa entra? Quando a questão envolve as crianças e adolescentes, precisamos prestar atenção no que diz o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente, legislação de 1990), que aborda o tema nos artigos 74 a 80. Destaco:

“As revistas e publicações contendo material impróprio ou inadequado a crianças e adolescentes deverão ser comercializadas em embalagem lacrada, com advertência de seu conteúdo. […] As editoras cuidarão para que as capas que contenham mensagens pornográficas ou obscenas sejam protegidas com embalagem opaca.” (Lei aqui o ECA)

Porém ainda segundo o Estatuto da Criança e do Adolescente, sobre aquilo que pode ou não estar presente em uma publicação além das determinações explícitas (não ter anúncios de bebidas alcoólicas, armas, munição), há aquelas de caráter subjetivo como conta no artigo 79: “deverão respeitar os valores éticos e sociais da pessoa e da família”.

Segundo o Pedro Hartung, coordenador do programa Prioridade Absoluta do Instituto Alana, em entrevista concedida a BBC (lei aqui),

“A lógica protetiva está sendo capturada para fundamentar visões subjetivas e pessoais sobre a realidade. Sobre a produção de conteúdo, o ECA também deve ser lido dentro de outros parâmetros, como a liberdade de expressão e o direito das crianças e adolescentes de viver em um ambiente plural, com acesso à cultura, à informação e às liberdades.”

062_17

CONCLUSÃO: O superpoder (de decisão) é seu!
Quando se trata de Histórias em Quadrinhos (HQs), a Constituição Federal permite que sejam resguardados os direitos de liberdade de expressão e que não haja censura de natureza política, ideológica ou artística. No entanto caso a obra aborde um conteúdo violento ou pornográfico, além de possuir uma classificação indicativa, é preciso proteger a embalagem e lacrá-la de acordo com a lei. Mas acima de tudo, tratando-se de material audiovisual ou escrito e ilustrado, cabe a família, em âmbito privado, decidir aquilo que suas crianças e adolescentes podem consumir. Esses critérios podem ser pessoais (subjetivos) que vão desde uma suposta orientação política, ou doutrina religiosa, entre outros. Mas sempre resguardando que é algo privado, uma decisão própria. Assim desde que não haja pornografia ou outro tipo de violência, ou que obedeça classificações indicativas, você compra uma HQ se você quiser. Se não concorda com o conteúdo, simplesmente procure algo que lhe agrade.

Barra Divisória

assinatura_marco