STAR WARS: EPISÓDIO II – O ATAQUE DOS CLONES (CRÍTICA)

058_00

Há apreensão no Senado Galáctico. Milhares de sistemas solares manifestam sua intenção de deixar a República.
Esse movimento separatista, sob a liderança do misterioso Conde Dookan, tornou difícil para o pequeno número de Cavaleiros Jedi manter a paz e a ordem na galáxia.
A senadora Amidala, ex-rainha de Naboo, está voltando ao Senado Galáctico para votar a delicada questão de criar um Exército da República para ajudar os combalidos Jedi.

Dez anos se passaram desde o bloqueio comercial e os conflitos em Naboo (Star Wars: Episódio I – A ameaça Fantasma, 1999). A República Galáctica e seus defensores da paz, os jedis, deparam-se com uma nova ameaça: o Movimento Separatista. A probabilidade de guerra é real, mas os Cavaleiros Jedi, pacifistas por excelência, são incapazes de sozinhos deterem a marcha dos acontecimentos.

Anakin Skywalker, agora com 19 anos, oscila entre a rebeldia, arrogância e amor pela agora senadora Amidala, sua fixação desde a infância. Está em desequilíbrio entre os ensinamentos de seu mestre, Obin Wan Kenobi, e a forte influência do Chanceler Supremo Palpatine.

Um atentado envolvendo a senadora Amidala, contrária à formação de um exército da República, fará com que Anakin confronte seus sentimentos e seu passado dando demonstrações que a fúria é forte no jovem padawan. Por outro lado, fará com que Obi Wan descubra tanto um exército secreto de clones como também um de droides, este último idealizado por Conde Dookan, o novo aprendiz sith.

058_01

Título original: Star Wars: Episode II – Attack of the Clones
Direção: George Lucas
Roteiro: George Lucas, Jonathan Hales
Duração: 2h 22min
Lançamento: 12 de maio de 2002

058_19

Elenco: Ewan McGregor (Obi-Wan Kenobi), Natalie Portman (Padmé), Hayden Christensen (Anakin Skywalker), Christopher Lee (Conde Dookan / Darth Tyranus), Samuel L. Jackson (Mace Windu), Frank Oz (Yoda) e Ian McDiarmid (Chanceler Supremo Palpatine).

058_02

ANAKIN E A SEDUÇÃO DO LADO NEGRO
Quando percebemos a transformação do garotinho escravo Anakin, repleto de perspicácia e bondade, no agressivo padawan (aprendiz jedi), parece algo muito forçado (perdoem-me o trocadilho). Mas não podemos esquecer que ele sempre foi muito emotivo, muito ligado à mãe. Isso é potencializado nesta sequência da história do futuro Darth Vader. Anakin é arrogante, convencido e não respeita integralmente o comando de seu mestre, Obi Wan Kenobi.

Anakin tem constantes pesadelos com a mãe. Projeta sua afeição em Padmé, a antiga rainha que durante os últimos 10 anos viveu em seu imaginário. Dormindo, tem pesadelos com a mãe, acordado sonha com Padmé. Mesmo no reencontro, quando é designado junto com seu mestre para protegê-la, ao receber um fora daqueles (“Ani, você sempre será o menininho que conheci em Tatooine.”), não desiste em sua sedução tosca e acaba conquistando o coração velha (porém super conservada) senadora de Naboo.

058_03

Enquanto seu coração sente a tentação amorosa e o medo da perda da mãe, dois sentimentos que não podem dominar o coração virtuoso e equilibrado de um jedi, o Chanceler Supremo Palpatine, pálido como um cadáver, revela-se como o segundo mestre de Anakin e que o aconselha nas sombras. Enfatiza o quanto o garoto é habilidoso, alimenta a ambição do padawan. Isso faz com que cresça a ideia do sentimento de superioridade acima de qualquer jedi e suas queixas em relação a Kenobi, acusado de não deixá-lo brilhar e ser invejoso.

O amor (uma fixação juvenil de um rapaz virgem), o medo (da perda da mãe), a influência de Palpatine (o capeta a sussurrar maldades no seu ombro) e a vaidade de seu domínio da Força que farão com que o antigo escravo de Tatooine dê passos decisivos em direção ao Lado Negro da Força. Duas circunstâncias nos mostram que definitivamente Anakin Skywalker está perdido. A mais aparente é o fato de voltar a Tatooine, como havia falado a sua mãe que faria. Ele não liberta todos os escravos, porém executa toda uma aldeia de povos da areia que haviam sequestrado sua mãe. Não poupa ninguém: nem mulheres nem crianças. Não é o escolhido (messias) salvador, é, somente, a mão furiosa da morte.

058_04

A segunda pista da perdição de Anakin Skywalker está em um diálogo em uma das cenas românticas mais mal feitas da trama: a cena do casal no campo florido. Em um dado momento Padmé interroga o jovem jedi que diz que não acreditava que o sistema político funcionasse. “E como isso funcionaria para você?”, pergunta a senadora. Anakin então explica:

“Precisamos de um sistema onde políticos se reúnam, discutam os problemas, concordem sobre o que é melhor para o povo e então façam.”
“Mas é exatamente isso o que fazemos, mas nem sempre as pessoas concordam”, diz a senadora de Naboo.
“Deveriam ser obrigadas, então”.
“Por quem? Quem poderia obrigá-las?”, pergunta Padmé.
“Não sei, alguém…”
“Você?” , interrompe a senadora.
Sem muita convicção, vacilando, Anakin então afirma:
“Claro que eu não… Alguém sábio.”
“Para mim, isso está parecendo mais uma ditadura”, constata Padmé.
Anakin confirma a possibilidade, eles sorriem e a cena segue entre sorrisos e brincadeiras.

Desta forma está sedimentado na alma do futuro Darth Vader as sementes do autoritarismo: a mão forte do Imperador sobre o futuro da galáxia. Mesmo que ele tenha esquecido das palavras da atual rainha de Naboo quando chegaram ao planeta:

Devemos manter nossa fé na República. O dia em que deixarmos de acreditar na democracia, será o dia em que ela cairá.

058_05

PALPATINE: O SENHOR DA GUERRA
Quando analisamos a escalada do pode do Senador Palpatine ao cargo de Chanceler Supremo da República, eventos narrados no Episódio I – Ameaça Fantasma (1999), descobrimos que ele age nas entrelinhas, controlando as fraquezas do sistema. Ainda havia hostilidade da Federação de Comércio que amargou uma dura derrota na invasão de Naboo, mas a ela se somaram outros sistemas que desejavam se separar da República. Os Separatistas estão em maior número e se torna cada vez mais difícil para os jedis manterem a paz. Claro que o desejo se desligar da República tem o dedo de Palpatine: ele enfraquece as instituições ao mesmo tempo que na surdina espalha a fragilidade do sistema e o medo generalizado. É assim que ele começa a arquitetar a guerra que se desenrola neste longa-metragem. Vamos entender passo a passo a estratégia de Darth Sidious:

  1. 058_06O atentado à senadora – Logo no início do longa-metragem, a senadora de Naboo sofre um atentado. A sósia de Padmé é morta na ocasião. A antiga rainha é a principal líder do movimento contra a militarização da República diante da ameaça Separatista. É necessário que ela saia do cenário para Palpatine não tenha ninguém contra a ideia da formação de um exército. Convenientemente sugere que a senadora retorne a Naboo sendo protegida por seus antigos salvadores: Anakin e Obi Wan Kenobi. Darth Sidious consegue alcançar três objetivos: deixar Padmé e Anakin bem próximos (decerto sabia da fixação de seu pupilo pela representante de Naboo); afastar a principal oposição à militarização; e, por fim, deixar Jar Jar Binks (sim, aquela desgraça do filme anterior) como representante de Naboo no Senado.
  2. 058_07O exército de clones – Obi Wan descobre um produção em massa de clones, uma força militar feita por encomenda para República em um planeta chamado Kamino. Segundo o primeiro-ministro, o exército teria sido encomendado há quase 10 anos. O que nos remete à época da invasão de Naboo, evento do Episódio I. Sabemos que Palpatine usou esta ocasião para se tornar Chanceler Supremo e, talvez, em uma de suas primeiras medidas, encomendar um exército de clones para República, pois os clonadores seguiram tanto o pedido do Senado como o de um antigo mestre jedi morto há muitos anos. Assim, enquanto a oposição e separatistas fortaleciam o exército de droides, nas sombras, Palpatine aparelhava a República para o futuro conflito.
  3. 058_08A corrupção política – A influência de Darth Sidious vai crescendo ao longo do tempo à frente do Senado. Por outro lado, os jedis, nas próprias palavras do Mestre Windu, sentiam a habilidade do Conselho de usar a Força diminuir. Nesse sentido, por mais que Yoda aconselhe Kenobi a limpar a mente para vislumbrar o verdadeiro vilão, o mestre de Anakin parece ser o único a estar atento. E após seu padawan defender o Chanceler Supremo, Obin Wan emenda: “Palpatine é um político. Tenho observado que ele é muito inteligente, aproveitando-se da convicção e dos erros de julgamentos do senadores”. Desta forma, sensível, de forma instintiva, o Mestre Kenobi estava alerta e desconfiava do lorde sombrio e de suas maquinações. Mas mesmo sob suspeitas, Palpatine manipulava as estruturas fragilizadas do poder debaixo das barbas do Conselho Jedi.
  4. 058_09Darth Tyranus – Com a morte de Darth Maul (Star Wars: Episódio I – A ameaça Fantasma, 1999), Palpatine precisava de um novo aprendiz sith. Quem ocupa esse lugar é um veterano idealista e desacreditado da República: Conde Dookan. Ele foi treinado pelo Mestre Yoda e por sua vez foi mestre de Qui-Gon Jin. Literalmente é um jedi seduzido pelo lado sombrio. Além de estar à frente dos Separatistas, articula-se com a Federação de Comércio. Poderia ter sido ele a apagar o sistema Kamino dos arquivos Jedi? Quando o lado Negro começou a seduzi-lo? Dookan nos mostra que com o tempo certo, qualquer jedi pode ser tentado. O conde também cumpre o papel de quase matar Anakin e suscitar outro sentimento passional no padawan, além do medo, do amor e da fúria: a vingança. A queda de Dookan marcará a transição inicial de Anakin para submissão total a Palpatine.
  5. 058_10A batalha de Geonosis – Com todas as peças do tabuleiros arrumadas, só restava colocar a guerra em curso. Diante da prisão de Obi Wan, Anakin e Padmé no planeta Geonosis, era preciso uma resposta imediata à ameaça. Por um lado os jedis se vêem incapazes de deter o exército gigantesco de droides criados nas entranhas do planeta. Por outro a oposição à militarização da República é vencida por ter sua líder presa nas mãos dos Separatistas. Sendo o sistema corrupto, só faltava que algum senador ou representante de um senador propusessem em plenária a formação do exército. Nesse ponto que Jar Jar Binks (personagem desgraçado!) é manobrado e faz a proposição. Assim, pelas mãos de um idiota e ingênuo, Palpatine recebeu poderes emergenciais e passou a liderar um exército de mais de um milhão de clones feitos do código genético um mercenário e caçador de recompensas Jango Fett, pai de Bobba Fett.

058_11

OBI WAN: PROFETA OU MESTRE JEDI DOS SPOILERS?
Tudo bem, sabemos que domínio forte é da Força em Yoda. Também sabemos que o Mestre Windu humilha com o sabre de luz roxo, mas talvez o mais atento ao lado negro, neste episódio da trilogia prequel (pré-sequência), seja Obi Wan Kenobi. A todo momento ele faz avaliações e observações sobre o momento em que ele e os demais jedis vivem. Talvez o mais sensitivo quanto aos eventos funestos que se abaterão sobre a galáxia. Primeiro, podemos destacar sua desconfiança sobre os políticos em geral e o próprio Chanceler Supremo Palpatine. Antes da perseguição a Zan Wesell, caçadora de recompensas, ele afirma em conversa com Anakin:

Pela minha experiência, os senadores se preocupam apenas em agradar aqueles que dão fundos para suas campanhas. E eles não demonstram escrúpulos quando esquecem do poder e da ordem para conseguir tais fundos.

Após a perseguição à caçadora de recompensas, quando ele devolve o sabre de luz a Anakin antes de entrar no bar e encurralar a assassina, ele prediz o que acontecerá no episódio IV da saga: “Por que tenho a impressão de que você ainda vai me matar?”.

058_12

Obi Wan Kenobi não sente firmeza e tem constantes ressalvas para sugerir que Anakin se torne mestre jedi. Ele tem habilidades magistrais, mas seu coração parece frágil. Kenobi aceitou a incumbência de treinar o menino de Tatooine de seu mestre Qui-Gon, porém aparenta não ter confiança na temperança de Anakin. E novamente estava certo. Anakin executaria toda uma aldeia ao voltar à terra natal, fato sentido de forma indireta por Yoda. E após o incidente, o jovem jedi expressa sua fúria:

“Eu deveria ser (onipotente). E algum dia eu vou ser. Eu vou ser o jedi mais poderoso que existiu. Eu prometo a você. Eu vou até aprender a impedir que as pessoas morram. […] Isso é tudo culpa do Obi-Wan. Ele é invejoso. Ele está me reprimindo. “

CURIOSIDADES

  1. 058_13O nome do Conde – Na tradução para nossa língua, o nome do Conde Dookan precisou sofrer uma ligeira alteração porque senão não iam faltar brasileiros zombando do nome do personagem Count Dooku (Sim, aquele lugar onde o sol não bate).
  2. 058_14O sabre de luz de Mace Windu – Foi ideia do ator Samuel L. Jackson. Motivo: simplesmente se destacar no meio do sabres azuis e verdes no meio das batalhas. Mas no material estendido, o sabre de luz roxo se refere aos usuários da Força que já foram do lado negro.
  3. 058_15As sementes do Império – A trilogia original é marcada pela hegemonia do Império Galáctico. Neste segundo filme da trilogia prequel temos algumas referências e percebemos que já fazia parte do plano geral a construção do poder imperial. Podemos ver o símbolo do Império na mesa de reuniões dos os futuros Líderes Separatistas (Wat Tambor, Nute Gunray, etc.). Momentos depois o arqueduque de Geonosis entrega os projetos de sua arma final, a Estrela da Morte, para que o Conde Dookan entregue ao Lorde Sith. Outro ponto é o armamento utilizado pelos clones, muito semelhantes aqueles que seriam usados pelos Stormtroopers, como os andadores.
  4. 058_16O clã Fett – Também podemos ver a origem de Boba Fett, o caçador de recompensas que colocará as mãos em Han Solo. Clone idêntico (fisicamente e mentalmente) de Jango Fett, feito em Kamino, cresceu naturalmente sob a tutela e treino direto do pai. Nós o vemos dar tiros de blaster na nave Escravo I e após a morte, segurar o capacete do pai, em uma espécie de legado passado.

CONCLUSÃO: Que Yoda é esse? OMG!
Bem, é totalmente dispensável as cenas de flerte e jogos amorosos entre Anakin e Padmé Amidala. Cheios de tiradas ultrapassadas e cenas românticas mais do que clichês. Não que a franquia não possa ter seus romances, afinal a tensão amorosa entre Han Solo e a Princesa Leia é uma das coisas mais legais na trilogia original. Mas percebemos que George Lucas (ou seu roteiro) podem ter tirado sua ideias de novelas brasileiras ou mexicanas para explicar tanta cafonice. Por mais que os casais de atores tenham desenvolvido um romance durante as filmagens, que Natalie Portman tenha largado o marido para ficar com Christensen, a química não rola e por vezes você vai querer adiantar o filme para não assistir às cenas piegas.

A única atuação digna de atenção é justamente de um personagem em CGI (computação gráfica): Yoda. Além de ser um sonho de muitos fãs da franquia de ver o diminuto e mais forte jedi lutar e ele o faz de forma fantástica. O mestre Yoda se mostra um líder nato, com capacidade analítica e boas expressões faciais. Ao meu ver é o ponto mais empolgante da trama.

Também, este longa, é uma ótima oportunidade pra ver a capacidade tecnológica tanto do enredo da história, quanto dos efeitos especiais da produção que teve um salto qualitativo em três anos, diferença entre o Episódio I e o II. Vale a pena pelas cenas da batalha da arena de Geonosis quanto da própria guerra em si.

Se você espera ver um filme com muita ação e com apogeu dos jedis e sua capacidade de batalha, esse filme empolga, mesmo com o romance piegas e as atuações nem sempre interessantes. Esse longa marca o início da fase mais belamente construída desde a trilogia inicial. Trata-se das Guerras Clônicas que foram amplamente adaptadas para a animação, Star Wars: A Guerra dos Clones (2008) e a série animada, Star Wars: The Clone Wars (2008-2020), que preenchem as lacunas deixadas pelos filmes prequel.

No mais, persista na Força, jovem padawan, o Lado Negro cresce na galáxia. Se queres paz, te prepara para a guerra! E bom filme!

Barra Divisória

assinatura_marco

STAR WARS: EPISÓDIO I – A AMEAÇA FANTASMA (CRÍTICA)

049_00

A desordem instalou-se na República Galáctica. A cobrança de impostos das rotas de comércio para sistemas remotos está sendo contestada. Esperando resolver a questão com um bloqueio de poderosas naves de guerra, a gananciosa Federação do comércio suspendeu toda remessa para o pequeno planeta Naboo.

Enquanto o Congresso da República discute indefinidamente essa alarmante sequência de eventos, o Chanceler Supremo enviou, secretamente, dois Cavaleiros Jedi, guardiões da paz e da justiça na galáxia, para porem fim ao conflito…

Exatamente 32 anos antes do domínio do Império Galáctico, o longa-metragem de George Lucas acompanha os passos do Mestre Jedi Qui-Gon Jinn e de seu aprendiz (padawan), Obi-Wan Kenobi. Inicialmente enviados como negociadores para por fim a um bloqueio comercial hostil às novas taxações impostas pelo Senado da República, acabam se tornando defensores dos interesses da Rainha Amidala do pacato planeta Naboo. Ambos os heróis na medida que se envolvem na ameaça de guerra contra o Exército Droide a serviço da Federação de Comércio, acabam por descobrir uma divergência na Força, alguém que possa trazer equilíbrio e paz para galáxia, na figura do garotinho Anakin Skywalker. Mas o que parece ser um simples conflito preste a ser resolvido pela ação pacificadora do Jedis, revelam o retorno dos misteriosos Siths.

049_01

Título original: Star Wars: Episode I – The Phantom Menace
Direção: George Lucas
Roteiro: George Lucas
Duração: 2h 16min
Lançamento: 19 de maio de 1999

049_13
Elenco: Liam Neeson (Qui-Gon Jinn), Ewan McGregor (Obi-Wan Kenobi), Natalie Portman, (Rainha Amidala / Padmé), Jake Lloyd (Anakin Skywalker), Ian McDiarmid (Senador Palpatine) e Ahmed Best (Jar Jar Binks).

049_02

A ORIGEM DO CLÃ SKYWALKER
Quando o enredo tem início, temos o auge da influência jedi sobre a galáxia: eles são uma força temida e respeitada. O Conselho Jedi, que tem no jovem Yoda (mas sempre velho), o principal representante dada a sua antiguidade, atua como suporte na manutenção da República e sua democracia. Os Jedis resguardam sua tradição, treinam novos aprendizes, mas tornaram-se desleixados para detectar as ameaças do Lado Negro da Força. Tudo está nebuloso, como o próprio Yoda diz a certa altura do filme.

Por mais que Qui-Gon Jinn, nos instantes iniciais da película, afirme que seu aprendiz precisa se preocupar somente com o “aqui e agora” e não pensar no futuro, por mais que isso pareça ser só a lição de um mestre ao seu aluno, foi assim que os Jedis ficaram cegos a ameaça do Lado Negro. Esse ensinamento, a filosofia de Qui-Gon, resume a queda que recairia sobre a hegemonia dos jedis sobre a galáxia: não dar uma atenção maior ao futuro.

Após o fracasso da negociação com o vice-rei Nute Gunray, o plano de invasão ao planeta Naboo é adiantado. Os Jedis, em fuga e já em terra, fazem amizade com um atrapalhado nativo Jar Jar Binks, apontado pela crítica e pelos fãs mais fervorosos (e me incluo nesse grupo), como a pior adição ao universo Star Wars. Porém, falarei da importância dele depois. Mas o fato é que o irritante personagem, após conduzir os heróis ao reino aquático de Gunga, serve de guia para que os Jedi cheguem a capital de Naboo, resgatem a rainha e fujam do planeta durante o início da invasão droide.

049_03

Depois da ajuda essencial do astrodroide R2D2, primeira aparição do robozinho mais famoso da franquia, que conserta avarias na nave em plena fuga, os jedis e a rainha precisam pousar em Tatooine, planeta desértico controlado pela facção criminosa dos Hutts. É que, devido ao ataque, fora danificado o hyperdrive: componente essencial da nave que a faz cruzar longas distância na velocidade da luz.

É em busca do conserto da nave que Qui-Gon, Padmé e Jar Jar vão conhecer o jovem Anakin Skywalker com apenas nove anos, escravo de um comerciante local de sucatas. Enquanto o mestre jedi negocia com Watoo, dono do comércio, Anakin mostra sua afeição, desde sempre, pela rainha disfarçada de aia: “Você é um anjo?”. O garoto acaba por ajudar aqueles forasteiros desde livrar Jar Jar de uma briga, passando por conceder abrigo durante uma tempestade de areia, até ganhar uma corrida pods (planadores).

049_04

O jovem Anakin se mostra um prodígio: hábil em mecânica, construtor de droides (C3PO é sua criação), um piloto nato com reflexos impressionantes. Tudo desperta o interesse de Qui-Gon que vê o potencial do rapaz e sua manifestação da Força. Mas a origem do menino é em si um mistério e em muito se deve a sua semelhança com a figura de Jesus, entre os cristãos. Anakin Skywalker teria sido gerado espontaneamente pela Força, sem nenhuma relação sexual da mãe. Segundo ela, o menino não conhecia a cobiça e acreditava que ele nasceu para acompanhá-los. Anakin, que descobre por conta própria que Qui-Gon era um jedi, diz em certo momento que sonhou que era um jedi e que voltava para Tatooine e libertava todos os escravos. Bem, o futuro mostraria que esse retorno não seria tão feliz.

O jovem Anakin Skywalker, fazendo jus a seu sobrenome (andarilho do céu, em tradução livre), conheceria todas as estrelas. Ele possuía uma quantidade absurda de midichlorians: uma espécie de vida simbionte no interior de cada célula vivente. Tais formas de vida se comunicam com a Força e falam seus desejos. A contagem midichlorians do menino era superior até do mestre Yoda. Isso significava que ele mesmo tão jovem, poderia ter um domínio da Força muito maior que qualquer jedi existente. Isso faz Qui-Gon acreditar que ele poderia ser o Escolhido: aquele que traria equilíbrio a Força.

049_05

Ao libertar o menino, consertar a nave e enfrentar um estranho oponente de sabre de luz vermelho, os cavaleiros jedi chegam ao planeta-cidade Coruscant. Anakin é submetido a avaliação do Conselho Jedi para saber seu potencial para se tornar padawan de Qui-Gon. Apesar da grande Força, Yoda percebe que o garoto é perigoso pelo excesso de medo e apego à mãe que Anakin possuía, pois:

“O medo caminho é para o Lado Escuro. Medo leva a raiva, raiva ao ódio leva, ódio leva ao sofrimento”.

É justamente este o caminho da decadência que levará o potencial positivo de Anakin Skywalker à ruína na sequência dos demais filmes. O medo caminhará com ele. Na ausência da mãe, projetará seu carinho em Padmé Amidala. Freudiano, isso. Mas Qui-Gon, que sempre fora arredio resolve que o treinará a qualquer custo e, com sua morte, a missão passará a Obi-Wan Kenobi, que cumpre o último desejo de seu mestre. A ascensão de Anakin é o início do declínio da era jedi na galáxia.

049_06

QUE AMEAÇA FANTASMA É ESSA?
A primeira impressão que temos que o “fantasma” do título é a aparência aterradora de Darth Maul, porém o que está por trás da verdadeira ameaça  é a ambição do senador Palpatine, alter-ego do lorde sith Darth Sidious.

O bloqueio da Federação de Comércio não passa de uma estratégia bem planejada por Palpatine. Era necessário pressionar a Rainha Amidala ao máximo e ele, como senador de Naboo, desejava se tornar Chanceler Supremo, tomar o lugar de Valorum. Este último, acusado de corrupção, manipulado por burocratas, subornado pela Federação, ao seu entender não estava mais apto a liderar a República Galáctica. Até que ponto estas informações eram verdadeiras, a Rainha não sabe, mas é induzida a acreditar nelas. E assim propõe um “voto de desconfiança” ao senado, o que faz com que haja novas eleições para o cargo. Em si, isso não muda nada e não auxilia Naboo que se encontra sitiado pelo vice-rei Nute Gunray, porém marca o início da escalada de poder de Darth Sidious. A rainha volta ao seu planeta, Palpatine fica na capital da República para vencer a eleição.

Palpatine se diz honesto e que “vai acabar com a corrupção”, mas no fundo a trama ou as informações podem ter sido falseadas pelo lorde sith. Mas fato é que os jedis se tornaram distraídos e a estrutura democrática estava fragilizada. Isso cedeu espaço para que, na escuridão das ruas de Coruscant, a ameaça fantasma Sith fosse crescendo. Se ao final Palpatine perde seu discípulo, Darth Maul, pelas mãos de Obin Wan Kenobi, por outro o senador alcança o degrau máximo do poder e ainda conhece um jovem com um potencial inimaginável na Força: Anakin Skywalker. Os dados foram lançados para o início da reviravolta Sith da história galáctica.

049_07

É MELHOR JAR JAR IR SE IRRITANDO
Com pouco mais de dez minutos de filme, surge Jar Jar Binks, para suplício de muitos. Ele é um Gunga, do povo aquático de Naboo, e que tinha sido expulso de sua terra (ou de sua água?) por ser extremamente desastrado. Ele é responsável por aquelas que deveriam ser as cenas engraçadas da história e fazer o riso da criançada com seu humor pastelão. Bem, a intenção saiu pela culatra: suas cenas são forçadas e desnecessárias. Não que o humor esteja proibido, afinal C3PO, na trilogia inicial, faz um bom trabalho. E pensar que, segundo o ator Ahmed Best, o intérprete dessa “beleza de personagem”, afirmou que Michael Jackson quase lhe roubou o papel!

Eu, Natalie Portman e os filhos de George estávamos em um show de Michael Jackson. Nós fomos levados ao backstage e conhecemos Michael. Seus filhos também estavam lá. George me apresentou como Jar Jar e eu não entendi o que estava acontecendo. Depois que Michael foi embora, nós fomos para uma festa. Eu estava tomando um drink com George e ele me disse que Michael queria o papel, mas gostaria de fazer com próteses e maquiagem, como em “Thriller”. George queria fazer em CGI. O meu palpite é que Michael Jackson acabaria sendo maior que o filme, e não acho que ele [George] queria isso“, disse o ator.

049_08

Mesmo que o interesse do rei do pop em dar vida ao personagem possa parecer um baita elogio e que talvez ele fosse muito melhor com Michael Jackson interpretando, Jar Jar decepciona não só por ser um personagem péssimo, mas por afetar o futuro da galáxia de forma desastrosa.

Assim que Qui-Gon conhece o Gunga, Binks afirma que sabe falar. Ao que o mestre jedi responde: “Capacidade de falar não é prova de inteligência”. Agora imagine isso aplicado a um político em um sistema democrático. Pensou? Pois bem, com suas trapalhadas, no início da trajetória de Jar Jar no universo de Star Wars, parece que tudo vai dar certo, mas aguardem até ele se tornar o senador representante de Naboo. Não quero adiantar a história, mas falaremos desse ódio nos outros filmes.

CURIOSIDADES

  1. 049_09Bloqueio Comercial – Para entender o contexto político deste filme, é necessário refrescar a memória das aulas de História do Brasil. Sério? Sim. Quando falamos de bloqueio comercial, retornamos a eventos muito ligados a nossa história. Quando, em 1806, Napoleão Bonaparte exigiu que Reino de Portugal se tornasse seu aliado contra a Inglaterra e os portugueses se negaram, o imperador francês instituiu um bloqueio comercial para que ninguém fizesse negócio com os ingleses. A corte portuguesa, como eram aliados da Inglaterra de longa data, resolveram não cortar laços e terminaram fugindo na surdina para sua colônia mais próspera: o Brasil. Diferentemente dos nem tão pouco corajosos portugueses que abandonaram seu lar, a Rainha Amidala, vendo que não resolveria nada simplesmente esperando a resolução do Senado e longe de sua pátria, retorna ao seu planeta para defendê-lo a todo custo.
  2. 049_10Cidade Aquática – Uma cidade submersa não é grande novidade quando falamos de ficção. Podemos pensar que isso se deve ao mito platônico da cidade Atlântida, descrita no seu diálogo Timeu (360 a.C.), como uma civilização avançada, um império de engenheiros e cientistas, tão ou mais avançados tecnologicamente que a nossa civilização. Diversas obras literárias ou cinematográficas usaram tal mito para falar de uma cidade aquática mágica ou alta tecnologia. Isso é possível constatar no Reino de Tritão (A pequena sereia, 1989), na Atlântida de Milo (O Reino Perdido, 2001) e dos quadrinhos de Aquaman (DC) ou Namor (Marvel).
  3. 049_11A mestre de Boba Fett – A corrida de pods é um dos eventos centrais e alguns personagens importantes para franquia aparecem. Jabba, o Hutt, mafioso alienígena asqueroso e obeso que fará negócios com Han Solo, é que está à frente da corrida. Durante a mesma, catadores de sucatas Jawas e os Tusken (povo da areia), seres importantes em Uma Nova Esperança (1977). E, claro, durante a primeira sequência da corrida, aparece do alto um rochedo Aurra Sing, que após a morte de Jango Fett, treinaria o impiedoso Boba Fett, caçador de recompensas que perseguiria Han Solo em O Império contra-ataca (1980). Aurra é importante no enredo da série animada Clone Wars.
  4. 049_14Cubo Azul e Vermelho – Watoo, dono do escravo Anakin Skywalker, convencido por Qui-Gon, resolve incluir o menino e sua mãe na aposta do final da corrida. Deixa a cargo da sorte no dado saber se libertaria o menino ou a mãe: face azul para ele, vermelha para ela. Não sei, mas me lembrou a associação de cores de Matrix (1999) que deixou entre uma pílula azul (voltar ao programa) ou vermelha (ser livre) a decisão do futuro de Neo, o escolhido. Enquanto o escolhido no filme de George Lucas é libertado pela cor azul (Qui-Gon manipula o lance de dados), o escolhido do longa de Lana Wachowski escolhe a pílula vermelha e se torna herói saindo da Matrix para liderar a resistência.

CONCLUSÃO: Um começo pouco empolgante
Este filme marca o início da trilogia prequel (pré-sequência) e que conta a origem de Darth Vader, o Imperador e seu poder. É imprescindível para quem quer assistir de forma cronológica à saga Star Wars. Nas gerações mais novas pode sugerir que todos os episódios sejam repletos de CGI (imagens geradas por computador) como este, o que faz a trilogia original, das décadas de 1970 e 1980, ser muito simplória e desinteressante.

Para aqueles mais old school, este episódio torna-se interessante por mostrar lutas com sabres de luz repletas de agilidade, fato incomum nos filmes mais antigos devido, em parte, a precariedade dos efeitos especiais. Também se destaca por mostrar a origem de personagens secundários para as ramificações da série: R2D2, C3PO, Obin Wan, um Yoda em plena ativa entre outros.

Mas do ponto de vista interpretativo dos atores, o destaque fica somente por conta de Liam Neeson (Qui-Gon Jinn), embora fique prejudicado, às vezes, por frases bobas (“Sempre há um peixe maior.”) ou que, ao interagir com personagens computadorizados, não saber realmente para onde está olhando.

Se você é um veterano na franquia, pode achar este filme pouco interessante e desconexo. Se você for novo no mundo de Star Wars, pode ser que ache melhor ir ver um filme da Marvel. Não os reprovo e acho compreensível. Mas se perseverar na Força, possa ser que você chegue a perdoar esse filme, pois afinal o que vale é a jornada. Opa, mas esse já é outro filme, outra história.

Barra Divisória

assinatura_marco

NEON GENESIS EVANGELION (CRÍTICA)

043_00

ANIME DE ROBÔ GIGANTE? SÉRIO!?
Minha paixão pelos programas de televisão japonesa nasceu na década de 1990. Contava as horas para que a extinta Rede Manchete exibisse Jaspion e o Esquadrão Relâmpago Changeman. Este último me apresentou seres mitológicos, afinal os heróis os representavam: Dragon (Vermelho), Griffon (Preto), Pegasus (Azul), Mermaid (Branco) e Fênix (Rosa). Nunca me dei conta até esse texto, amigo leitor, que talvez esse seriado possa ter sido uma de minhas primeiras influências para gostar tanto de mitologia.

Tokusatsu

Cabe lembrar, ainda, que Changeman é o pai de muitos seriados de esquadrões de heróis (super sentai), o qual o mais famoso, ao menos para os jovens brasileiros, é Power Rangers. Mas tanto Jaspion, como Changeman, Flashman (que o sucedeu) e o Power Rangers da TV Colosso possuíam batalhas épicas em que a equipe pilotava um robô gigante (mecha) e combatia um monstro descomunal (muitas vezes ampliado por algum artefato ou arma) dizimando as cidades, campos, florestas. Eram lutas com coreografias por vezes toscas, personagens de colan e efeitos especiais saídos de uma festa junina, mas a gente se divertia a valer.

Neon Genesis Evangelion

É nesse ponto que se deu minha curiosidade por Neon Genesis Evangelion. Anos 2000, já era universitário, vivendo no alojamento estudantil da UFRJ, usando a rede cheia de gambiarras, para nas folgas de pesquisas e trabalhos acadêmicos, fazer download de conteúdo que não passava na TV aberta. É anime de robô gigante e com um traço maravilhoso! Consegui três episódios. Vi o primeiro umas duas vezes, mas nunca prossegui: não tinha o anime completo. O tempo passou, esqueci. Até que a Netflix disponibilizou a animação completa em seus 26 episódios e dois filmes (OVA’s) com finais alternativos. Confesso que vi este anime no momento certo da minha vida.

Neon Genesis Evangelion

SINOPSE: ADÃO E EVA’s
O anime Neon Genesis Evangelion (Evangelho do Novo Gênesis, em uma tradução livre) criado e produzido pelos estúdios GAINAX e Tatsunoko e dirigido por Hideaki Anno, foi transmitido pela TV Tokyo de 4 de outubro de 1995 a 27 de março de 1996. Quando tive meu primeiro contato, ele já era um sucesso a aproximadamente nove anos. Esperei muito para assistir, ao contrário da garotada atual que vê seu anime simultaneamente com a exibição no Japão.

Lilith Evangelion

O enredo se passa em uma versão futurística da cidade de Tóquio, quinze anos após o evento chamado de Segundo Impacto. O Primeiro Impacto se trataria da colisão de um objeto esférico gigantesco (a Lua Negra) há quatro bilhões de anos e que em cujo núcleo haveria a Semente de Lilith, a fonte e origem de toda a humanidade. Já o Segundo Impacto teria acontecido do ano 2000, na Antártida, após uma grande explosão que gerou o derretimento de toda região, aumento do nível do mar e tsunamis que teriam varrido cidades costeiras. Tal explosão teria sido causada devido ao contato com o primeiro anjo, Adão.

Neon Genesis Evangelion

Chegamos a 2015. Uma organização, a NERV (nerv, nervo em alemão), projeta grandes robôs, os Evangelions ou EVA’s, para enfrentar o retorno desses monstros gigantescos denominados Anjos. Eles possuem um grande campo de força (AT, do original, “Absolute Terror Field”, abreviação de “Campo de Terror Absoluto”) nem sempre fácil de penetrar e que os protege dos principais ataques físicos de armas de fogo e bombas de hidrogênio. Para pilotar os mechas, a resposta humana a essa ameaça, são escolhidas crianças de 14 anos cujo padrão combine perfeitamente com a genética dos robôs. O que de início parece um simples motivo para termos lutas épicas na telinha, o ponto alto do anime se desloca para a complexidade da mente, sentimentos e história dos pilotos: crianças que se deparam com a tarefa de proteger a terra de seu apocalipse, mas que precisam, também, lidar com a solidão extrema. Então não espere episódios seguidos de violência e selvageria: eles são intercalados com aqueles que mergulham no drama das relações humanas.

Dilema do Ouriço

O DILEMA DO PORCO-ESPINHO
A história começa quando Shinji Ikari, um garoto de 14 anos, é convocado para ir a Tóquio-3 a pedido de seu pai, Gendo Ikari, comandante maior da organização NERV, que o abandonou, ainda criança, junto ao seu sensei. Órfão de mãe, viveu isolado e sem carinho de familiar nenhum. Uma vida melancólica e imutável até seu mundo ser sacudido pela possibilidade de contato com o exterior e de pilotar, sem nenhuma explicação, uma máquina gigantesca.

Shinji e Misato

Sim, você terá muita raiva de Shinji: seu medo, seus sentimentos reprimidos, seus questionamentos, seu choro insistente, afinal o que esperar de um garoto de 14 anos tão solitário cujo única razão para existir é pilotar um Evangelion? Ele é acolhido pela Major Misato, mulher atraente, sexy e destemida que se torna a tutora do garoto, visto que mesmo estando na mesma cidade, Shinji e o pai não moram juntos.

Rei e Asuka

As duas outras crianças-piloto também possuem seus traumas e a sensação de isolamento. Rei Ayanami é misteriosa, fria e em raros momentos exibe qualquer tipo de emoção a não ser pelo pai de Shinji. Vive sozinha em um apartamento sujo e sem cor na região devastada pelas batalhas entre EVAs e Anjos. Seus pais são desconhecidos: a menina vive sozinha. Já Asuka Langley Soryu, a terceira criança, cresceu na Alemanha e, também, órfã. É passional, agressiva, não se relaciona com o mundo, e a todos odeia.

Arthur Schopenhauer

Tanto as três crianças-piloto, como a major Misato Katsuragi e sua amiga Dra. Ritsuko Akagi, revelam esta dificuldade extrema de se relacionar com os outros. No quarto episódio (O Dilema do Ouriço) a própria tutora de Shinji, ao defini-lo, usa a parábola do porco-espinho, uma alusão ao filósofo existencialista Arthur Schopenhauer. Assim o filósofo narra:

Um número de porcos-espinhos ​​se amontoaram buscando calor em um dia frio de inverno; mas, quando começaram a se machucar com seus espinhos, foram obrigados a se afastarem. No entanto, o frio fazia com que voltassem a se reunir, porém, se afastavam novamente. Depois de várias tentativas, perceberam que poderiam manter certa distância uns dos outros sem se dispersarem.

Arthur SchopenhauerDo mesmo modo, as necessidades sociais, a solidão e a monotonia impulsionam os “homens porcos-espinho” a se reunirem, apenas para se repelirem devido às inúmeras características espinhosas e desagradáveis de suas naturezas. A distância moderada que os homens finalmente descobrem é a condição necessária para que a convivência seja tolerada; é o código de cortesia e boas maneiras. Aqueles que transgridem esse código são duramente advertidos, como se diz na Inglaterra: keep your distance! Com esse arranjo, a necessidade mútua de calor é apenas parcialmente satisfeita, mas pelo menos não se machucam.

Um homem que possui algum calor em si mesmo prefere permanecer afastado, assim ele não precisa ferir outras pessoas e também não é ferido. (SCHOPENHAUER, Arthur. Arte de escrever. Porto Alegre, L&PM: 2009)

043_11

Essa termina sendo a dinâmica que envolve os personagens: a dificuldade de se relacionar com o outro. O risco da decepção. É justamente a misteriosa quinta-criança, Kaworu Nagisa, que ao construir uma relação íntima com Shinji, acaba por analisar o amigo de forma profunda e resumir não só a personalidade do filho de Gendo, mas de muitos outros personagens:

“Eu sei que mantendo os outros a uma certa distância você evita uma traição da sua confiança. Por ora, você pode não se machucar dessa maneira, mas você não pode esquecer que tem que suportar a solidão. Os humanos não conseguem apagar essa dor porque todos são fundamentalmente sozinhos[…] Dor é algo que os humanos tem que suportar em seus corações […]”.

Sigmund Freud Evangelion

DEPRESSÃO, FREUD E SEXUALIDADE
Sem sombra de dúvidas, o anime é intensamente psicológico, visto que o próprio Hideaki Anno, diretor de Evangelion, passou por um período de isolamento e depressão. Quando no remetemos a Sigmund Freud (1856-1939), percebemos que a teoria da divisão da psique humana está no centro dos três protagonistas: Asuka, Rei e Shinji. Segundo o pensador alemão, nossa psique é dividida entre três partes: o id, o super-ego e o ego.

Asuka Neon Genesis Evangelion

Asuka sintetiza em suas características o que o id é para cada ser humano: inato, é a dinâmica do prazer, quer reconhecimento imediato e não se preocupa com as exigências externas. Age por impulso, apaixonada e apega-se a vaidade e o prazer da batalha.

Rei Neon Genesis Evangelion

Rei, por sua vez, assim como o super-ego, mantém o sentido da moralidade, segue as normas sociais cegamente (vide sua devoção por Gendo Ikari e ao cumprimento de toda e qualquer missão), não ultrapassa ou viola os tabus sendo o total oposto do id (e por extensão da Asuka).

Shinji Neon Genesis Evangelion

Shinji, por fim, é o ego. Está entre essas duas tensões opostas: Asuka e Rey. Ele tem que encontrar o equilíbrio entre os impulsos primitivos, a moral e a realidade. Ele vive a tensão em se enquadrar no que o mundo espera dele e sua capacidade de ceder aos seus instintos sexuais, raivosos.

043_16

Como dentro de cada um de nós o id, o ego e super-ego precisam coexistir e colaborar para que homem e/ou mulher possam enfrentar os desafios diários; também Asuka, Shinji e Rei precisam unir forças para enfrentar os Anjos. A relação entre as três crianças-piloto, bem como os demais personagem em maior ou menor medida, lutam contra os movimentos instintivos do Eros (impulso de amor), Libido (o impulso sexual), Thanatos (impulso de morte) e o Destrudo (impulso de destruição). Assim o anime aborda questões polêmicas como relações sexuais, orientação de gênero, o feminismo, a violência gratuita, a falta de respeito em relação a vida, entre outros muitos aspectos.

Evangelion Spolier

MAS NÃO CONSIGO ENTENDER O CONTEXTO! (Spoilers!)
Neon Genesis Evangelion tem sua mitologia própria, mas com uma intensa correlação com nossa realidade. Para entender quem são os Anjos e os Evangelions, é necessário conhecer a versão do anime para origem do universo e da vida na Terra.

Adão e Lilith

No princípio “a primeira raça ancestral”, viajantes do universo, criou “duas sementes”: Adão (a semente da vida, a Lua Branca); e Lilith (a semente do conhecimento, a Lua Negra). Para semear a vida nos diversos planetas, em alguns semearam Adão que deram origem aos seres gigantescos (Anjos), e em outros Lilith, que engendrou a vida humana. Nunca as duas sementes coexistiram no mesmo planeta.

Lança de Longinus

A Terra teria recebido Adão, mas antes dos Anjos se desenvolverem, a semente de Lilith chegou ao nosso planeta. Como ambos não podiam existir simultaneamente, Adão acabou sendo selado pela Lança de Longinus, Lilith fora destruída e isso gerou o que se chamou de Primeiro Impacto.

Evangelion Segundo Impacto

O Segundo Impacto se deu justamente quando, no ano 2000, uma expedição encabeçada pelo pai da Major Katsuragi, ao visitar o Polo Sul, deparou-se com Adão. Assim que um humano (que em sua essência é descendente de Lilith) entrou contato com o Primeiro Anjo (Adão) gerou uma gigantesca explosão em que quase toda vida na Terra foi extinta. A única sobrevivente da expedição é justamente Misato, tutora de Shinji e oficial da NERV.

Evangelion Terceiro Impacto

Então Gendo Ikari, a frente da NERV,  inicia o Projeto Evangelion que a partir das amostras retiradas de Adão desenvolve os EVAs à espera da chegada dos 17 Anjos que precederão o Terceiro Impacto e talvez o fim de tudo que conhecemos. Mas a motivação do pai de Shinji e da SEELE, organização que está acima da NERV, são aparentemente as mesmas… só aparentemente.

Evangelion Religion

MITO E BÍBLIA (tem mais spoilers!)
As referências as religiosas são inúmeras, todavia antes de tornar algo maçante, ficam nas entrelinhas da história e servem como curiosidade ou elucidam algumas conexões da série. Deixo algumas como curiosidade:

  • Velho TestamentoO nome do anime está intimamente ligado a Bíblia. Genesis, pode se referir ao primeiro livro do Velho Testamento (ou do Pentateuco para os judeus) e tem significado do grego Γένεσις (génesis, origem, nascimento, criação). Já Evangelion, Evangelho em português, diz respeito a doutrina de Jesus Cristo como princípio de salvação da humanidade. Em grego, ευαγγέλιον (euangelion) é a “boa notícia, ou mensagem”.
  • Adão e EvaOs Evangelions, ou simplesmente EVAs, são construídos a partir de Adão em uma clara referência ao mito de Adão e Eva. No texto bíblico, Eva teria sido criada a partir da costela (ou lado) de Adão (Gn 2,21-22). Os EVAs da série seriam a boa notícia ou os bons mensageiros nascidos a partir do caos provocado pelo contato com a Anjo Primordial e literalmente, de células de seu corpo.
  • Neon Genesis Evangelion TheoryO mito de Lilith, está embutido na série tanto na origem da vida na Terra, como na possibilidade do Terceiro Impacto. Na crença tradicional judaica, ela teria sido a primeira mulher de Adão, mas, segundo Ben Sira, ela se recusava a obedecer Adão cegamente e inclusive nas relações sexuais quando se negava a “ficar sempre por baixo”. Identificada com a noite e com a coruja, tal personagem não está presente na Bíblia a não ser por uma breve menção (Is 34,14), mas que, segundo amuletos medievais, era comum ser representada em esculturas dos três anjos (Sanvi, Sansavi e Samangelaf) que a perseguiram para fora do Éden. No anime, a ligação de Lilith com a noite é o fato dela ser a Lua Negra. Se o mito judaico diz que ela foi mães de demônios, após ser expulsa do paraíso, a série nos mostra anjos capazes de destruição e morte. Os humanos da realidade de Evangelion, seriam demônios? Essa é só mais uma das forma do animes subverter o mito comum.
  • Três Reis MagosO três Reis Magos, popular no Natal cristão quando aparecem, na Bíblia (Mt 2,1-12), para recepcionar Jesus Cristo, estão presentes no anime na forma das três bases que formam o programa de computador Magi (mago) da NERV e que gerencia todas as operações dos EVAs. São elas Melchior, Baltasar e Gaspar (que contém a essência da mãe da Dra. Ritsuko Akagi).
  • AdãoO próprio Adão é representado crucificado, com pregos nas mãos e tudo mais, e trespassado pela Lança de Longinus (Lança do Destino), referência ao legionário romano que feriu Jesus com haste abreviando sua morte (Jo 19,31-36).
  • NERV LeafNo símbolo da NERV, há a metade de uma folha de parreira ou videira. Tal escolha reflete uma analogia que o próprio Jesus, no Evangelho de João, faz dele mesmo: “Eu sou a videira verdadeira, e meu Pai é o agricultor.” (Jo 15, 1-8). E. desta forma, a organização é aquela que se arvora a ser a única detentora da verdade que pode salvar ou dizimar a humanidade.
  • Kabbalah EvangelionA Cabala, sistema filosófico-religioso judaico de origem medieval (séc. XII-XIII), está presente tanto no conceito do universo como emanação divina, como também na simbologia dos Anjos. A cada abertura vemos brilhar em azul representação da Kabbalah como a série assim interpreta. Afinal tanto Anjos como humanos emanaram de seres primordiais, no universo de Evangelion.
  • 043_30Por fim, há ainda o conceito de retorno a unicidade. O filósofo grego Parmênides acreditava que “O Universo constitui uma única entidade realmente imutável. Tudo é Um”. No fim do anime, o que se percebe é a tentativa da unidade, o retorno a divindade no que se assemelha ao bramanismo. Nesta religião hindu, haveria o retorno da alma a Braman, o Pai Universal, assim quebrando o ciclo de reencarnações não evolucionárias do ego. A série, principalmente no filme End of Evangelion, mostra que talvez Shinji, o ego, tenha que optar por aceitar sua individualidade, a felicidade ou desespero das relações humanas, ou perder-se para sempre na unicidade divina.

CONCLUSÃO: A BOA MENSAGEM
Se você vasculhar, não irá faltar análises detidas desse anime cult por aí na Internet, indicaria a do Canal Meteoro, por exemplo, se tiver maratonado os 26 episódios e visto os filmes. Tentei abordar aquilo que gerou dificuldade de entendimento e prazer ao ver essa série depois de tantos anos. Saber que, na esteira de tanto conservadorismo atual, um anime de meados da década de 1990 já abordava temas tão atuais e impactantes, que faziam a juventude e a galera mais madura pensar as relações humanas, enfrentar seus traumas. Quem diria?

Neon Genesis Evangelion

Se você quer somente um anime com cenas arrasadoras de combate, piadinhas pastelão ou caretinhas engraçadas, Neon Genesis Evangelion irá te decepcionar. Aqui a imersão nas contradições da alma é o teor predominante. Mais do que conflitos épicos, o espectador mais atento se encantará com personagens cativantes que compartilham sua solidão a cada cena. Vai ver que a depressão pode se esconder atrás de um sorriso, excesso de confiança ou jeito sexy de ser. Assim, ao final da boa mensagem (evangelion), descobrimos que muitas vezes, assim como os Anjos e humanos, temos vencer nossas barreiras, sermos tocados pelas pessoas que nos amam. Afinal, como diz Guimarães Rosa:

“A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem.”

Barra Divisória

assinatura_marco

“YEARS AND YEARS” – SÉRIE DA HBO (CRÍTICA)

034_00

A VIDA COMO ELA É…
Idealizada por Russell T. Davies, a série Years and Years (Anos após anos, em uma tradução livre), é uma série de apenas seis episódios da HBO e que segue os moldes de uma futuro distópico (estado imaginário em que se vive em condições de extrema opressão, desespero ou privação) à semelhança de Black Mirror (Netflix). O programa acompanha a vida da família Lyons, que reside em Manchester (Inglaterra), a partir do ano de 2019 ao longo de 15 anos. Durante esse tempo, a história segue os membros desta família que enfrenta os avanços políticos e tecnológicos de seu país e do mundo, ao mesmo tempo que lidam com o cotidiano, o amor e a criação dos filhos em realidades tão diferentes.

034_01

A série começa com debate na TV assistido pela família Lyons. O foco é uma mulher de fala ousada, evidenciando que não há mais posicionamento político de esquerda ou direita. Fala que tem medo dos rumos atuais. Fala que quer que a situação entre Israel e a Palestina se “foda”. Isso mesmo. Sem papas na língua. A audiência delira. A declaração vai para o trending topics de assuntos do Twitter. Parte da família se diverte ou se escandaliza. Falam-se por meio de uma espécie de telefone que faz videoconferência por um simples comando de voz. Estão integrados e online permanentemente. Vivienne Rook (Emma Thompson), o nome da debatedora e empreendedora, usa sua retórica sedutora: devemos nos preocupar com o povo inglês e seus problemas comuns. Aparentemente sua busca pelo poder político é mais perigoso que inicialmente se mostra.

034_02

FAMÍLIA PARA LÁ DE DIVERSIFICADA…
Os Lyons parecem sintetizar diversos segmentos da sociedade: os irmãos órfãos de mãe e afastados do pai, tem na vovó nonagenária Muryel (Anne Reid), que mora em uma residência isolada, a fonte de sabedoria e que não se furta a compartilhar sua opinião nem sempre agradável.

034_03

O branco Stephen Lyons, o pacifista da família, é vivido por Rory Kinnear (conhecido por sua atuação constrangedora em Black Mirror, aquela do porco) é casado com Celeste (T’Nia Miller), negra com um padrão estético único. Ele, analista financeiro; ela, contadora. Suas filhas são igualmente peculiares: Ruby (Jade Alleyne), desbocada e vegana, é quase latina em seus traços; e Bethany (Lydia West), que sonha ser transumana, não possuir mais corpo físico e se tornar inteiramente digital. Ela quer ser eterna.

034_04

Já Daniel (Russell Tovey), irmão mais novo de Stephen, é gay, casado e a serviço do governo na área de construção pública ligada aos refugiados que assolam o país. Enquanto que Rosie (Ruth Madeley), irmã caçula, é cadeirante devido a um mal congênito e mãe solteira de um menininho branco e outro de origem chinesa.

034_05

Finalizando a família, Edith (Jessica Hynes), a irmã mais velha, é ativista política e luta contra os desmandos dos poderosos em suas andanças a bordo de um navio pelo mundo afora.

034_06

A MARCHA PARA O FUTURO
Em certo momento, ao visitar a irmã no hospital após dar à luz, Daniel relembra:

“Tudo ia bem até uns anos atrás, antes de 2008. Lembram? Achávamos política um assunto chato. […] Agora me preocupo com tudo. Nem sei em que pensar primeiro. Nem é o governo, são os bancos. Eles me apavoram. E não só eles. As empresas, as marcas, as corporações que nos tratam como algoritmos enquanto envenenam o ar, a temperatura, a chuva. Nem vou fale do El [Niño]. E agora temos os Estados Unidos. Nunca achei que fosse ter medo deles, mas temos fake news, fatos falsos, nem sei mais o que é verdade. Em que tipo de mundo vivemos? Se está ruim agora, como vai ser para você?”, referindo-se ao recém-nascido em seus braços.

034_07

Essa é a premissa da série: pessoas que seguiam sua vida ordinária, alheios aos acontecimentos políticos, mas que se veem mergulhados no caos social da atualidade, sofrem seus reflexos e seus conflitos a cada ano que passa entre os avanços tecnológicos e os retrocessos sociais.

034_08

Enquanto, através dos anos, governos nada flexíveis se mantém no poder, como o de Trump, e outros líderes morrem, como a eterna Rainha Elisabeth; Viv Rook vai se mostrando uma saída política ousada para a Inglaterra. Inserida em um contexto de governos autoritários: ela quer ser primeira-ministra. Representando um partido novo, que, apesar de uma derrota inicial, vai ganhando espaço no cenário político. Baseia suas ações em sua representatividade na mídia e nas redes sociais com suas brincadeiras bonachonas e retórica agressiva contra tudo e todos (já vimos esse filme…).

034_09

A série parte de premissas e projeções da nossa atualidade para traçar um futuro distópico, nada idealizado, ocasionado pelos problemas que foram deixados de lado por cada um de nós e voltarão para nos assombrar. E se Trump e Putin se recusassem a sair do poder? Como será o emprego no futuro que cada vez mais se torna home office? E as profissões que inevitavelmente irão sumir? E a alimentação? O meio ambiente?

034_10

Assuntos sensíveis são tocados a todo momento como o fato de Daniel, mesmo casado, se apaixonar por refugiado ucraniano, Viktor Goraya (Maxim Baldry), que em seu país natal quase foi morto por sua orientação sexual. Esse romance e a questão dos regimes conservadores e autoritários, a questão de fronteiras, os limites da tecnologia na vida de todos, a guerra comercial entre EUA e China, a tensão de um possível conflito em escala mundial… tudo isso se passa vorazmente no decorrer de anos e anos (Years and Years).

034_11

A VIDA COMO ELA SERÁ…
No meio desses acontecimentos, tentando sobreviver a eles, a família Lyons enfrenta ameaça nuclear, falência de bancos, desemprego, escassez de dinheiro, morte. Suas vidas passam diante de nossos olhos. A tecnologia avança, a humanidade regride em seu raciocínio empático, científico (aqui o terraplanismo é discutido!) e o extremo conservadorismo. Líderes carismáticos de extrema esquerda ou direita chegam ao poder. O populismo é auxiliado pelas mídias sociais e a mídia convencional é taxada como inimiga de governantes. Tudo nos soa intensamente próximo de nosso cotidiano e a série, meus amigos, é inglesa! Assim como assistimos ao seriado passivamente, os Lyons parecem, inicialmente, somente acompanhar, não protagonizam história. A família fará, em suas limitações, algo para mudar a marcha dos acontecimentos no seu país? Em certo momento a vovó Muryel, resume tudo e os convida a sair da inércia. Em 2034, em um almoço de família ela profere o seguinte discurso:

“Absolutamente tudo que deu errado é culpa de vocês. […] Podemos ficar aqui o dia todo culpando os outros. Culpamos a economia, culpamos a Europa. A oposição. O clima. E culpamos os grandes acontecimentos da História. Como tudo está fora de controle, como somos desprotegidos, pequenos e frágeis. Mas ainda é culpa nossa. Vocês sabem por quê. É a camiseta de uma libra. A camiseta que custa uma libra. Não conseguimos resistir. Nenhum de nós. Vemos a camiseta de uma libra e achamos uma pechincha, adoramos e compramos. Não porque é melhor, mas é uma boa camiseta para o inverno, para usar por baixo. Serve. O dono da loja ganha cinco míseros centavos pela camiseta. E um camponês, em um campo qualquer, ganha 0,01 centavos. E achamos que está bom. Todos nós. Damos nosso dinheiro e participamos desse sistema a vida toda.”

A quase centenária velhinha alerta para o conformismo, para falta de vontade de fazer protestos ou a diferença no mundo. De como não temos mais empatia pelos mais pobres e não entendemos que culpa do mundo como está é totalmente nossa. Nós somos os responsáveis.

034_13

A SÉRIE TEM FUTURO?
Year and Years é uma série agradável e instigante de assistir. Será fácil maratonar, afinal é curta com apenas seis horas de duração. Todavia as questões que ela traz à tona, são extremamente desconcertantes e familiares (nos dois sentidos da palavra). A semelhança com nossa realidade é impactante e nos convida a um despertar. Ela fecha um arco completo e nenhuma temporada a mais fora confirmada ainda pelos produtores, mas confesso que seria desnecessário. Ela fecha filosoficamente raciocinando na maior questão humana: os limites da existência. No final, caro leitor, a pergunta não será o que esperamos do futuro, mas o que o futuro espera de nós.

Barra Divisória

assinatura_marco

UM FIM PARA O BATMAN? (HQ)

022_00

A morte não é o fim. Pelo menos quando se trata de heróis ou vilões de histórias em quadrinhos (HQs). O ciclo de renascimentos de protagonistas e antagonistas confere sempre uma renovação, um retorno às origens ou mesmo uma guinada totalmente surpreendente nos rumos da história. Por vezes o fim da vida de um herói pode se prestar a reflexões filosóficas não só do próprio personagem, mas refletir nossa própria forma de ver o mundo e a tensão entre o bem e o mal. Nesse sentido, Neil Gaiman parece realizar a proeza de filosofar em torno do personagem da DC mais sombrio (para mim o melhor, também). O que aconteceria se o homem-morcego de Gothan City tivesse morrido?

022_01

O QUE ACONTECEU AO CAVALEIRO DAS TREVAS?

Para o escritor e roteirista inglês Neil Gaiman, ter a chance de escrever sobre a morte do Batman culminou o fechamento de um ciclo, tanto pessoal como profissional. Não que ele fosse um roteirista comum da revista Detective Comics: ele fora convidado para criar a última história dessa tiragem de quadrinhos. “Eu poderia realmente escrever a última de todas as histórias”, afirmou empolgado, Gaiman. Para o roteirista era ter em mãos o personagem que primeiro lhe inspirou a carreira nos quadrinhos, visto que sua paixão inicial fora o Batman de Adam West, da série da década de 1960.

022_02Quando o editor Dan DiDio entrou em contato com Neil Gaiman, o quadrinista viu a oportunidade de fazer aquilo que Alan Moore fizera com o Super-Homem em O Que Aconteceu ao Homem de Aço?, que funcionou como uma espécie de fechamento tanto das HQs Superman quanto da Action Comics. Mas a abordagem de Gaiman tinha que ser fiel à trajetória do Cavaleiro das Trevas e foi essa reflexão que guiou as linhas de O que aconteceu ao Cavaleiro das Trevas?

“As histórias do Batman não terminam com sorrisos e piscar de olhos. Batman sobreviveu a muitas eras e irá, certamente, sobreviver a muitas outras. Se você estiver pensando em contar a última história do Batman, tem de ser algo que sobreviverá à morte ou desaparecimento atual do Batman, algo que continuará sendo a última história do Batman pelos próximos vinte ano, ou cem”, afirmou quadrinista inglês. Ele ainda completa:

“Por que se tem uma coisa que Batman é, é um sobrevivente. Ele ficará rondando por aí depois que todos nós partirmos. Então, o que poderia ser mais apropriado do que a história de sua morte?”

Assim, com o traço primoroso de Andy Kubert, Gaiman intentou contar a última de todas histórias do Batman. Um projeto que ao mesmo tempo filosofa sobre a ligação intrínseca entre o Cavaleiro das Trevas e Gothan City, sua gênese e seu fim, ao mesmo tempo que homenageia grandes artistas que fizeram a história de Batman ao longo dos anos.

022_03

BAT-VELÓRIO (Spoilers!)

Por meio da consciência do Batman (ou alma, entidade ou sei lá) somos conduzidos ao seu funeral. O local é o Beco do Crime, no fundos do bar, caindo ao pedaços, do morto Joe Chill que recebe Seline Kyle, a Mulher-Gato, com trajes da década de 1960. No entanto ela não é a única convidada. Aos poucos outros personagens chegam para o velório e assim se misturam não só os traços de outros desenhistas, imitados com maestria por Kubert, mas também enredos de histórias célebres do Homem-Morcego. Aqui aparece o Charada do seriado de Adam West, a Bárbara Gordon paraplégica e o Coringa da Piada Mortal de Alan Moore (1988), Arlequina da série animada da Warner (1992-1995), entre outros. Aqui, percebe-se o tom do enredo: os tempos, as realidades, os diversos Batmans e seus vilões, que desfilaram ao longo dos tempos e prestam suas condolências.

022_06

Esta graphic novel é dividida em duas partes. Vemos, na primeira sessão, dois contos para a morte de Batman. Inicialmente, Selina Kyle sobe ao púlpito e conta suas memórias de como o herói teria morrido. O Conto da Mulher-Gato é narrado como uma história de amor malsucedida e, à medida que a narrativa evolui, dos traços de seus criadores Bill Finger e Bob Kane, até seus representantes mais modernos, conhecemos as idas e vindas do casal. A causa da morte, segundo Selina, fora sua omissão de socorro ao receber Batman em sua loja. Ressentida de não ter sido amada, deixou-o morrer após ter sido baleado.

022_05

Já Alfred, o fiel e talvez ator-mordomo, toma a palavra e mostra como teria arquitetado todas as aventuras do Batman. Com a ajuda de uma trupe de atores, teria forjado todos os episódios a fim de ajudar o jovem e depois adulto Bruce Wayne a superar a morte de seus pais. Em O conto do cavalheiro de um cavalheiro, Neil Gaiman homenageia a série de TV que alegrara sua infância ao enfatizar que a história do heróis não passaria de uma fantasia do teatro ou televisão. Nesta versão, Batman teria morrido ao descobrir que toda sua vida fora uma grande ilusão. Ao tentar resgatar crianças sequestradas pelo Charada, desafiou o vilão a atirar nele. Pensava que era mais uma grade farsa de Alfred, mas não era. Morreu com um tiro no rosto, à queima-roupa.

022_07

A versão de Selina remete ao fim de Robin Hood na literatura e, a de Alfred, a uma farsa motivacional. Mas qual a versão verdadeira? Nenhuma. Eis o fim da primeira parte. Fecha-se com o tiro do Charada, o maior enigma permanece: o que aconteceu ao Cavaleiro das Trevas?

022_09

PARA ALÉM DA MORTE (ainda tem spoilers, viu?!)

O fluxo da consciência, a voz interior do Batman, observa seu funeral e o desfile de inúmeras versões para a sua morte contadas por inimigos e aliados. Robin (do ator Burt Ward), a certa altura, diz que “… ele era santo. Nunca desistia, haja o que houvesse, e fazia um milagre atrás do outro… até finalmente morrer por nós”. O messias de Gothan (uma clara alusão ao cristianismo) é também uma referência ao homem-morcego que escapava ao final de cada bat-episódio e que o jovem Gaiman deveria esperar para ver a conclusão na semana seguinte.

022_04

Batman se reconhece nestas narrativas, discorda, entre em conflito consigo e trava diálogo com outra voz misteriosa. A porta se abre e se vê conversando com sua mãe, Martha Wayne. Questiona-se se está morto, racionaliza se não é uma Experiência de Quase Morte (EQM), e experimenta sua vida passar diante dos seus olhos, como o amor das mulheres ou a ruína pelas mãos de Bane. A luta, a jornada é o que interessa. “O final da história do Batman é sua morte“, conclui o herói, “Pois, se o Batman não morresse no fim, o que mais iria fazer? Aposentar-se e jogar golfe? Não é assim que funciona, não pode. Eu luto até cair. E um dia vou cair“.

022_08

CONCLUSÃO: NIRVANA IMPERFEITO

Não, não tocará o som violento da banda de Kurt Cobain ao final da história. É o termo “nirvana” que nos interessa para fechar essa resenha crítica. Nas palavras de Buda:

“É um lugar que está perto, mas difícil de alcançar. Neste lugar não há velhice, morte, sofrimento, doenças. Libertação da morte ou perfeição, é o que chamamos de Nirvana. É este um lugar feliz, pacífico, que alcançam os grandes sábios. É um lugar eterno, mas difícil de alcançar. Os sábios que aí chegarem estão livres das penas; no Nirvana, os sábios chegaram ao termo do curso de sua existência.”

022_10

Assim Batman nasceu para Gotham. Nasceu para a luta constante que a cidade violenta e febril encerra. Desde o útero esteve predestinado ao bat-sinal. E no final, não a morte, mas o nascimento. Um novo ciclo se inicia para Cavaleiro das Trevas ressurgir e lutar pela justiça. Ele não alcança o nirvana, não quebra o ciclo das reencarnações. Seu lugar de paz, junto a sua mãe, é a possibilidade de retorno. Pois como o próprio Gaiman disse, linhas acima, o morcego de Gothan continuará a voar, salvar o dia, fazer milagres quando nós não mais estivermos aqui.

Barra Divisória

assinatura_marco

 

WOLVERINE: O HERÓI DESAGRADÁVEL

013_00

QUE WOLVERINE É ESSE?

Agora é fácil para as novas gerações gostarem de Wolverine: ele é um anti-herói cinematográfico. Não sou daqueles que acha que o cinema acabou por enterrar de vez os heróis ao usarem a licença poética para criar blockbusters milionários e que muitas vezes fogem à adaptação literal das Histórias em Quadrinhos (HQ). Creio que toda arte tem sua forma de ser e ver o objeto artístico. E assim, recebi com o entusiasmo a primeira aparição nas telonas do Wolverine de Hugh Jackman no filme X-Men (2000).

013_01

Não estou aqui para analisar o filme, mas duas coisas me chamaram a atenção (e de qualquer bom fã do canadense pavio curto): 1. Hugh Jackman é um grandalhão de 1,88m, nada a ver com o baixinho que estava acostumado; 2. e cadê a ação sanguinária, ágil e sem meias-palavras do herói? Claro que o herói sofreria ao longo dos anos uma evolução vertiginosa nas telonas até ser o Logan de minhas leituras na adolescência, até ser velho e morto no seu derradeiro (até que se prove o contrário) filme: Logan (2017). Ainda é preciso levar em conta que os efeitos especiais ainda não eram sofisticados para deixar esse herói ainda mais “foderoso”.

013_02Mas o processo de humanização da fera interior de Wolverine, tensão que perpassa cada ato desse herói nos quadrinhos, ao contrário do que aconteceu nos cinemas, foi um processo demorado e que ainda é latente no Logan até em suas histórias atuais. Ele sempre lutará contra seu lado animalesco, como todos nós lutamos contra nossos instintos mais primitivos. Mas enquanto Wolverine, como fera brutal, nasce como inimigo do Hulk no gibi Incredible Hulk 180 (1974); Logan, seu alterego atormentado e desmemoriado, tem sua gênese humana ligada à minissérie Wolverine (1982). É justamente sobre última obra que falaremos.

013_03

013_13A capacidade de catarse, a identificação com o personagem, quando se é adolescente é bem clara: todo jovem é, em seu íntimo, uma pessoa solitária e, principalmente, os nerds; como também o adolescente gostaria de responder com fúria a tudo aquilo que não concorda em sua família ou na sociedade. Mas Wolverine não é jovem. Ele já nasce velho no quadrinhos, se comprado aos demais X-Men da formação original (Ciclope, Jean Grey, Fera e Homem de Gelo) ou mesmo a formação dos Uncanny X-Men da edição Giant-Size 1 (1975), edição em que o canadense estreia na escola para “jovens mutantes” de Charles Xavier. Quando ingressa na turma do Professor X, divide as missões com Tempestade, Colossus, Noturno, Apache e Ciclope. No entanto ainda é o vovô da turma, desajustado, sem sentimento de equipe e de um passado envolto em mistério. Mas sua primeira minissérie mudaria o rumo das abordagens do herói nanico.

013_04

DO CARCAJU AO “NINJA”

A ideia para a criação de Wolverine viera justamente de um animal baixinho e abusado. O editor Roy Thomas, responsável pela primeira aparição do canadense enfrentando o Hulk, revela a origem do nome do herói: “O personagem veio de minhas pesquisas sobre os carcajus (wolverines)… Eles são animais pequenos e selvagens, de garras afiadas, que não se incomodam de enfrentar animais bem maiores. Achei que isso daria um bom personagem”.

013_05

Quando a dupla Chris Claremont e Frank Miller tem nas mãos um projeto de aventura solo do Wolvie, ele já era um herói peculiar há oito anos, já era um X-Men e conhecera, em uma das missões da equipe no Japão, Mariko Yoshida, por quem desenvolveu uma afeição instantânea. O romance começou com o medo da japonesa devido a aparência selvagem de Logan, mas aos poucos essa barreira era vencida e, entre idas e vindas de Mariko aos EUA, o amor entre os dois só cresceria.

013_06“É uma chance de mergulhar no background dele, na herança japonesa, nos conflitos entre a fera, o guerreiro e o homem, de descobrir o que o define, o que é verdadeiro para ele. Foi apresentando essa visão a Frank e vendo se era algo com o qual ele podia se relacionar que a usamos como ponto de partida para a história”, afirmou Chris Claremont sobre sua perspectiva de história.

A ideia da dupla sempre fora ter uma abordagem inovadora daquela apresentada normalmente nos número regulares de X-Men. Em colaboração com o artista John Byrne, Chris e Miller resolveram explorar, na minissérie Wolverine (1982), a psique conflituosa do carcaju da Marvel. “Nós apresentamos esta percepção de Logan. Para John, ele era um assassino com dedo no gatilho, contudo, após a morte de Jean (Grey, a Fênix, mostrada em 1980 na clássica X-Men 167), Wolverine pareceu abraçar Mariko com bastante naturalidade. O que o atraiu à ela? O que o atraiu à ele? O que fez com que Charlie (o líder dos X-men, Professor X) sentisse que aquele sujeito podia se misturar com a galera-X?”, revela Chris Claremont.

013_07

EM BUSCA DA HONRA (Spoilers!)

“Sou o melhor no que faço, mas o que eu faço melhor não é nada agradável.”

Essa é a fala badass com a qual se inicia a minissérie em quatro edições: Wolverine (1982). Falta bastante humildade, mas tem muita verdade nessa citação. Ela acaba por sintetizar quem é Logan. É um cara que dá conta do recado, mesmo que isso lhe tire toda chance de felicidade.

013_08

Depois de uma temporada no Canadá caçando um urso assassino, fera versus fera, ao retornar a Nova York se deparar com todas cartas enviadas à Mariko devolvidas pelos correio. Após ter seus telefonemas não atendidos, decide ir ao Japão para investigar. Descobre que com o retorno do desaparecido pai da moça, muita coisa mudou na vida de sua amada. O pai, Shigen Yoshida, tinha uma dívida de honra e a deu em casamento a um crápula que a espancava. E como se não bastasse, Shigen possui uma sede de poder para dominar tanto o submundo quanto o alto escalão do imperador japonês.

013_09

Após invadir a mansão, dopado por um veneno desconhecido que lhe privava de seus sentidos mais aguçados, acaba por ser derrotado e humilhado pelo pai de Mariko e ainda revelando seu lado animal e desonroso aos olhos da amada. Deixado na sarjeta, é salvo pela misteriosa, independente e sensual Yukio. A afinidade entre os dois é imediata: ambos são independentes, indomáveis e tem uma fúria mortal. Desenvolvem, então, uma relação: possessiva por ela; superficial para ele que ainda ama Mariko.

013_12Para salvar sua nova companheira, Logan decide livrá-la de uma suposta ameaça. Na verdade Yukio trabalhava para Shigen e incitou Wolverine a eliminar um rival nos negócios do pai de Mariko em pleno teatro. Mais uma vez, Mariko presencia o lado selvagem e assassino de Logan e o abismo entre os dois se intensifica.

013_11

Com a morte de Asano Kimura, policial e amigo, pelas mãos de Yukio, Wolverine resolve restabelecer sua honra. Descobre que o veneno misterioso, que dera vantagem a Shigen na primeira luta entre os dois, partira das lâminas de Yukio. Assim o carcaju começa a sabotar os negócios mafiosos de Yoshida, até o momento final no qual, com a ajuda inesperada de Yukio, salva Mariko e enfrenta Shigen em uma luta justa e honrada. No desfecho, sua amada descobre as trapaças do pai, Yukio desaparece e Wolvie envia um convite de casamento aos amigos mutantes.

013_14

HAPPY END (Conclusões)

Tudo bem que o final é folhetinesco e os escritores românticos do século XIX adorariam ou mesmo os autores de novelas das oito. Mas não é só o final que nos lembra a prosa romântica: a cada edição da minissérie, os autores nos atualizam dos poderes e astúcias do herói fazendo com que, mesmo que não tenha a história completa à disposição, não deixe de aproveitar a trama. Na conclusão das três primeiras edições, fica sempre um gosto de “quero mais”.

013_15

A minissérie explora o lado mais humano de Logan, mostrando sentimentos tenros e de carinho e seu grande paradoxo: uma fera capaz de amar e matar sem limites. Também revela que o caminho para a honra é tortuoso, muitas vezes atormentado, mas que a superação é sempre a melhor recompensa. O caminho nem sempre será agradável, mas é preciso ser o melhor naquilo que se faz. E Wolverine é o melhor.

assinatura_marco