BACURAU (CRÍTICA 1)

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No ano de 2019, houve diverso lançamentos muito bons no cinema. Um dos melhores, para mim, foi Bacurau com direção de Kleber Mendonça Filho (Aquarius, 2016) e Juliano Dornelles. O enredo se passa no interior do sertão nordestino, mais precisamente em Pernambuco, em um vilarejo que dá o nome à obra. Logo no início contemplamos como essa comunidade lida com a morte de uma moradora muito querida por todos, dona Carmelita, aos 94 anos.

O interessante que essa narrativa se passa em um futuro próximo, contudo a ambientação, à primeira vista, parece retratar um tempo muito antigo. Nesse aspecto me lembrou outro filme maravilhoso que é Narradores de Javé (2004) e, ao adentrarmos na atmosfera de Bacurau, percebemos seus telefones, tablets e telões de LED que dão o tom moderno à um local rústico.

Outro aspecto pitoresco diz respeito ao funcionamento da dinâmica entre os moradores. Se por um lado é Tereza (Barbara Colen) quem traz remédios da cidade grande, é a médica Domingas (Sonia Braga) que os distribui para todos e atende a qualquer pessoa que venha ao seu consultório.

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COMENTÁRIOS COM SPOILERS
Durante uma aula, o professor Plínio e seus alunos, percebem que Bacurau simplesmente “sumiu” do mapa e partir daí que as coisas se complicam. A população descobre que está sendo caçada, contudo não sabe por quem. Os algozes são, na verdade, um grupo de estrangeiros sádicos que resolvem exterminar aquela população e, para isso, contam com a ajuda de dois brasileiros do Sul/Sudeste para obter tal êxito.

Para mim, uma das cenas mais geniais diz respeito à reunião desse grupo em que um dos brasileiros “brancos” se vê como muito mais parecidos com os estrangeiros do que com seu povo. E um dos assassinos rebate que apesar da cor clara, seus traços denunciam sua origem, que “ no máximo são mexicanos brancos”. Isso demonstra bem como vivemos o racismo em nosso país: muitos renegam sua ancestralidade para fingir ser alguém que realmente não é.

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Na segunda parte do filme é que se passa o conflito em si. O sinal de comunicação é bloqueado e então toda a dinâmica de Bacurau é abalada. Há assim algumas mortes entre os cidadãos, mas inflamados por Lunga (Silverio Pereira) resolvem se armar e se defender do inimigo invisível que os espreita.

O filme é uma celebração, uma ode à população brasileira, sobretudo nordestina que luta contra as adversidades tanto estrangeiras quando dos seus compatriotas. É notável que no filme e no restante do país, o clima é de completo caos social, e que aquele pequeno oásis no sertão é uma forma de resistência às injustiças.

A trilha também conta com duas musicas especialmente tocantes: Não Identificado de Gal Costa e Réquiem para Matraga de Geraldo Vandré, ricas por seu valor simbólico em cada momento do filme. O final é violento e ao mesmo tempo sensível. No entanto, ao chegar ao desfecho, todo aquele assistir, que “ ♪ não entendeu, não perde por esperar… ♪ ”, literalmente.

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ELENCO E FICHA TÉCNICA
Sônia Braga, Udo Kier, Bárbara Colen, Silvero Pereira, Thomás Aquino, Karine Teles, Antonio Saboia, Lia de Itamaracá e Wilson Rabelo compõem o elenco. Coprodução entre França e Brasil, Bacurau, filme de 2019 é escrito tanto escrito como dirigido por Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, e tem produção de Emilie Lesclaux, Saïd Ben Saïd e Michel Merkt. Conquistou o Prêmio do Júri no Festival de Cannes de 2019, tornando-se o segundo longa brasileiro da história a ser laureado no certame geral, após O Pagador de Promessas (1962) de Anselmo Duarte. Além de premiado em diversos festivais de cinema, Bacurau foi selecionado para mostras principais de festivais não competitivos prestigiados mundialmente, como o Festival de Nova York (NYFF).

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OS JOVENS BAUMANN (CRÍTICA)

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COMENTÁRIOS
O cinema brasileiro nos últimos tempos tem se debruçado principalmente nas comédias, dramas e, até mesmo, um pouco de ação. Foi devido a essa realidade entediante que, ao assistir o trailer de Os Jovens Baumann, resolvi apreciar esse suspense com ares de documentários no estilo Bruxa de Blair (1999). Para minha sorte não pude ficar indiferente.

Em 1992, oito primos da maior família de uma cidadezinha de Minas Gerais chamada Santa Rita do Oeste somem misteriosamente na fazenda na qual passavam as férias. É por meio das fitas VHS encontradas muito tempo depois que é dado o teor da narrativa.

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As filmagens são de cenas cotidianas de jovens de férias. A técnica é amadora e as cores, já desbotadas, são um retrato da década de 1990. Os primos brincam, nadam, exploram e apreciam a natureza de maneira trivial e ao mesmo tempo tensa. A impressão é que a qualquer momento poderemos ter alguma pista sobre o mistério que ronda a história.

A narradora (Isabela Mariotto) alterna entre imagens do local atualmente e as do período do sumiço. É esta nostalgia que permeia o filme e com esse sentimento que ela percebe como o caso foi sendo esquecido durante todos estes anos.

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A imagem dos primos são como fantasmas: pouco se sabe sobre cada um, os nomes são ditos a ermo. É como se não fosse importante para o espectador saber a identidade de cada um já que foram esquecidos em um passado distante. Assim, já no fim de 1992, ninguém mais tinha interesse em saber o que aconteceu com a última geração da Família Baumann. Isso tudo já não mais importava.

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ELENCO E FICHA TÉCNICA
Julio Barga, Cainã Vidor, Marília Fabbro de Moraes, Eduardo Azevedo, Anna Santos, Daniel Mazzarolo, Julia Burnier, Isabela Mariotto, Julia Moretti compõem o elenco. O filme é roteirizado por Bruna Carvalho Almeida, Larissa Kurata e dirigido por Bruna Carvalho Almeida. A produção ficou por conta de Julia Alves, Michael Wahrmann, Ana Júlia Travia e Eduardo Azevedo, e as composições musicais por Luis Felipe Labaki. A produção é distribuída internacionalmente pela Sancho&Punta, e Vitrine Filmes no Brasil.

CONCLUSÃO
Ao meu ver, vale assistir “Os Jovens Baumann”, pois além de ser um tipo de filme pouco explorado no terreno nacional, é uma obra para repensar a questão de como muitos mistérios, no final de tudo, nunca possuirão uma explicação. O longa lançado em 2019 está disponível no YouTube, e na Google Play Filmes.

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FESTIM DIABÓLICO (CRÍTICA)

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Festim Diábolico (Rope, no original) é uma película de 1948 de Alfred Hitchcock, um dos grandes nomes do cinema de suspense no século XX. O enredo trata do assassinato realizado por dois amigos: Brandon (John Dall) e Philip (Farley Granger), cuja vítima foi o colega de ambos, David Kentley (Dick Hogan).

Logo nas primeiras cenas é realizado o crime. Os dois matam o rapaz apenas pelo prazer de cometer o assassinato, o desejo do chamado “crime perfeito”. Esse é o tema que será abordado durante todo o longa-metragem. Para “brincar” com a ideia do perigo, eles têm a bizarra ideia de colocar o corpo dentro de uma arca, que será utilizada no mesmo dia para colocar uma mesa de um buffet.  Os assassinos dariam uma festa. Ambos a organizaram e convidaram os pais do morto, assim como a noiva e um amigo em comum. Para completar, chamaram, ainda, um ex-professor deles por quem o Brandon possuía muita admiração, devidoas suas ideias de superioridade.

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A festa inicia-se e é neste ambiente tenso que os convidados conversam sobre os mais diversos assuntos. A Sra. Artwater (Constance Collier), tia do rapaz falecido, com seus devaneios sobre Astrologia; a noiva Janet Walker (Joan Chandler) desconfortável pela presença do seu ex-noivo Kenneth (Douglas Dick); o pai Sr. Kentley (Cedric Hardwicke) a todo momento preocupado com a demora do filho David para chegar ao evento. Já o professor Rupert Cadell (James Stewart), observando atentamente o comportamento de todos.

O filme possui vários aspectos muito interessantes. Um deles diz respeito à ideia de ter a impressão de não haver cortes entre as cenas, o chamado Plano-Sequência. A história se passa entre dois cômodos e os cortes necessários são bem disfarçados ao focar em algum objeto.

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Outro ponto interessante de ressaltar é a questão de como os assassinos, principalmente, o Brandon se delicia e se sente excitado no assassinato. O jovem cita Nietzsche e sua ideia de Super-Homem (Übermensch) na qual haveria um ser superior aos demais e esse deveria ser o modelo ideal para elevar a humanidade. E, por isso, matar um ser humano inferior não é um crime e sim considerado uma obra de gênio. Toda essa Filosofia ele aprendeu com o Professor Cadell.

O professor, por sinal, é um personagem muito interessante, pois a todo momento ele percebe que algo está muito errado só não consegue identificar o motivo de suas suspeitas. Durante o jantar, ele interroga de maneira discreta Phillip que apresenta um comportamento apreensivo.

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A certa altura da festa, todos preocupados com David, resolvem que devem procurá-lo e, com isso, o evento se encerra. Cadell ao se despedir dos anfitriões repara em algo que será crucial para o desfecho da história. A partir daí deixo para os leitores assistirem e se deliciarem com essa obra que por muitos é considerada uma aula de cinema. Um filme obrigatório na lista de todo cinéfilo que se preze.

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1967: O VERÃO DO AMOR – DOCUMENTÁRIO (CRÍTICA)

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“One pill makes you larger, and one pill makes you small
And the ones that mother gives you, don’t do anything at all…”
(White Rabbit – Jeferson Airplane)

Com essa música emblemática inicio a crítica sobre o documentário “1967: o verão do amor” (1967: The Summer of Love, no original), obra de 2017 produzida por 3DD Productions e dirigida por Lyndy Saville, que também foi produtora de outras obras como Rock Legends: David Bowie (2013).

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A obra trata do ano 1967, um período de transformações sociais, políticas e culturais. Nas primeiras cenas são mostradas como eram as casas de show de Londres na época como, por exemplo, a UFO CLUB, onde Joe Boyd, produtor musical norte-americano, descobriu bandas como Pink Floyd, e que era um dos cenários europeus com maior efervescência deste período. Assim como também é mencionada a importância da cidade costeira da Riviera Francesa, Saint-Tropez, na qual não era difícil esbarrar em suas ruas com a diva Brigitte Bardot, fato que trazia um encanto a mais ao local paradisíaco.

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No que diz respeito à moda, toda garota londrina sonhava com as ultimas tendências da Boutique Feminina Biba, uma loja inovadora com preços acessíveis, mas cheia de charme. Sem contar com a modelo Twiggy, que revolucionou o padrão de beleza, com seu ar exótico e etéreo.

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O movimento de maior força nessa época foi o Hippie, com seus protestos contra as guerras, em especial a do Vietnã, citando os discursos do esportista Muhammad Ali. O boxeador, ao recusar o alistamento para servir na guerra, acarretou a perda do cinturão mundial e a cassação de sua licença por três anos.

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Ainda sobre esse período, também vem à tona a questão das “viagens” do subconsciente provocadas por drogas como LSD (Lysergsäurediethylamid, palavra alemã para a dietilamida do ácido lisérgico, uma das mais potentes substâncias alucinógenas conhecidas) e a maconha (cannabis sativa).

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No que diz respeito à indústria musical, também é mostrada a ascensão dos Long Plays (LPs ou discos de vinil) como objetos de arte e desejo, tendo como exemplo o álbum dos Beatles, Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band. Além da importância das rádios piratas como Rádio Caroline que funcionava em um navio e que foi uma das principais disseminadoras do rock no Reino Unido.

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Nomes como The Supremes e Marvin Gaye também são citados como grandes figuras do cenário musical da época. E, claro, a lembrança do Festival Internacional de Música Pop de Monterey (Monterey International Pop Music Festival), na Califórnia, no qual estiveram presentes artistas como Janis Joplin, Ottis Redding, assim como Jimi Hendrix. A lenda negra do rock fez sua apresentação magistral em queimou a guitarra e causou verdadeiro furor na multidão alucinada.

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CONCLUSÃO
Para os amantes de música, entretenimento e, até mesmo história, 1967: O Verão do Amor é uma obra bem leve e gostosa de assistir, além da oportunidade de curtir a maravilhosa trilha sonora que permeia o documentário.

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A MÁSCARA EM QUE VOCÊ VIVE – DOCUMENTÁRIO DA NETFLIX (CRÍTICA)

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A Máscara em que Você Vive (The Mask You Live In, 2015) da diretora Jennifer Siebel Newsom é um documentário produzido pela Netflix cujo título em inglês faz alusão à palavra mask, tanto como máscara quanto masculinidade (masculinity). É justamente esse o tema central da obra.

Através de relatos reais e observações feitas por acadêmicos, tanto na área de Educação quanto da Psicologia, é possível entender um pouco como funciona a criação dos meninos no EUA e, se pensarmos, em nossa realidade também.

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Ao longo do documentário nota-se através de depoimentos que é corrente, na criação dos garotos, a questão de não demonstrar qualquer sentimento. Quando criança, só é permitido chorar até a Primeira Infância (5 anos), assim como também demonstrar qualquer tipo de empatia deve ser podado ao máximo.

A obra de Jennifer Siebel Newsom expõe também como a indústria do entretenimento “alimenta” esse universo por meio de filmes, programas e músicas violentas. Também como tratam a figura feminina com inferioridade, que não merece respeito e como deve estar subjugada ao “macho-alfa” tal qual a sociedade, em sua totalidade, o construiu.

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No decorrer do documentário são levantadas questões de como, ao suprimir qualquer sentimento, esses meninos escondem, por detrás desta “máscara”, muitas vezes sintomas de depressão e que, no grau máximo, levam às tentativas de suicídio.

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Ao assistir uma obra dessas é impossível não refletir toda sua história e vê como essa construção social tão perversa atinge tanto nossos meninos quanto nossas meninas. É possível, assim, repensar a forma de entender as questões de gênero e poder em que estão imersas nossa sociedade.

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BORDER (CRÍTICA)

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Um filme que incomoda… esse é Border (Gräns – 2018), obra do iraniano Ali Abassi, conta a história de Tina (Eva Melander), uma policial que trabalha no aeroporto na área de segurança, “farejando“, literalmente, os passageiros que embarcam. O termo animalesco diz respeito a isso mesmo: ela identifica medo, culpa, terror… e até mesmo, auxiliando nas investigações contra redes de crime através de um olfato apuradíssimo.

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Devido a esse “dom” ela ganha certo respeito, contudo sua aparência um tanto grotesca faz com que cause certa repulsa nas pessoas. Nota-se que ela é muito sozinha e tem a necessidade de estar sempre em contato com a natureza. As cenas da heroína na floresta são lentas e com um certo ar poético. Contemplativo.

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Em meio a isso tudo conhece Vore (Eero Milonoff), um homem “indecifrável” para ela, pois escapa ao seu dom de investigação. Entende que há algo nele, mas por não conseguir identificar, fica obcecada pelo mesmo.

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A atuação de Eva Melander é um espetáculo à parte: os olhos profundos e rosto deformado, assim como a de Eero Milenoff. Ambos trazem em seus personagens a confrontação com o grotesco, numa das cenas de sexo mais pitorescas que já vi.

O filme aborda o diferente, acredito eu. As cenas são um tanto realistas. A questão da natureza é explorada de maneira suave e ao mesmo tempo brutal. Há também a fantasia, dos seres encantados que vivem nas florestas. Quase folclórico. Não é um filme fácil de digerir, contudo é um filme que te prende do inicio ao fim, e que após assisti-lo, não o deixará indiferente.

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