O CONTO DA AIA – LIVRO (CRÍTICA)

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I- SINOPSE

Depois de uma revolução teocrática no século XXI, que estabeleceu uma sociedade estratificada, conservadora com bases nas raízes puritanas do século XVII, o que conhecemos como Estados Unidos foi destruído. As políticas racistas foram um dos combustíveis emocionais da revolução e agora impera a República de Gilead, um estado totalitário que, embasado em uma interpretação moral e segregadora do Antigo Testamento, restabelece uma sociedade patriarcal na qual a mulher não tem voz ativa nenhuma.

Uma sociedade envelhecida, assolada por doenças e reflexos da contaminação nuclear, fez como que a taxa de natalidade caísse a níveis muito pequenos. Há uma esterilidade generalizada entre mulheres e homens (por mais que eles neguem isso). Assim a elite, com forte teor militar, estabelece que suas esposas (recatadas e do lar) lhe sejam submissas, não tenham acesso à leitura, instrução ou beleza. Incapacitados de conceber filhos, tem como última esperança as Aias: barrigas de aluguel que geram os filhos para a elite de Gilead.

No entanto as Aias, sempre de vermelho e antolhos, não exercem tal função de bom grado e espontaneamente, pelo menos a maioria. São obrigadas, doutrinadas a procriar contra sua vontade e tem seus filhos arrancados de si desde muito cedo. É nesse contexto que seguimos de perto as memórias da Aia Offred, de 33 anos, e sua liberdade vigiada de ser usada como objeto reprodutivo de uma família e uma sociedade que diz agir em nome de Deus e dos bons costumes. Ela precisa conceber de seu Comandante (chefe da casa), senão pode ter um destino bem pior: ser prostituta ou ir para as colônias radioativas e ter uma morte lenta e dolorosa. Tudo isso sem amor, afeição, ou liberdade de expressão, pois tais atos, às vezes, podem significar a tortura e a morte.

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Título original: The Handmaid’s Tale
Autora: Margareth Eleanor Atwood
Tradução: Ana Deiró
Gênero: Romance canadense.
Editora e ano: Rocoo, 2017.
Páginas: 366
Referência bibliográfica: ATWOOD, M.E. O conto da aia. Rio de Janeiro: Rocco, 2017.

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II – PERSONAGENS

  1. OFFRED (JUNE) – Narradora-personagem, ao menos a segunda Aia enviada à residência dos Waterford a fim de dar um filho a família. É pelo olhar dela que conhecemos os costumes da República de Gilead e os rumos que a sociedade teocrática tomou. O nome June remete a deusa romana do casamento Juno e não é à toa!
  2. O COMANDANTE (FRED) – Oficial importante de Gilead e o patriarca da família Waterford. É velho e possui acesso a muitos itens proibidos naquela sociedade, desde revistas femininas a livros, além de livre acesso aos espaço de Gilead.
  3. SERENA JOY (a Esposa) – Senhora decrépita que se reduz a tricotar e cuidar de seu jardim. Antes da revolução, fora uma celebridade televisiva que pregava sobre a santidade do lar e como as mulheres deveriam ficar em casa, mas que agora não passa de um Esposa à espera de um filho. É amarga para com Offred e fará de tudo ao seu alcance para que sua Aia possa engravidar.
  4. TIA LYDIA – A instrutora, tutora, carcereira do Centro Vermelho responsável pela doutrinação das mulheres férteis e pela sua adequada servidão na casa dos Comandantes. É acessada por meio de flashbacks de Offred ao longo da narrativa. É a voz na mente da narradora. Só aparece no livro como personagem durante a cerimônia de Salvamento.
  5. OFFGLEN – Companheira de caminhada e ida às compras de Offred. É integrante de uma rede clandestina de fuga de mulheres da República de Gilead. Pouco se sabe sobre a identidade da moça e suas conexões, mas percebe-se que era ativa na luta pelo restabelecimento da liberdade das mulheres.
  6. MOIRA – Melhor amiga de Offred em seus tempos de faculdade quando a narradora ainda era June. Lésbica e muito determinada, é o ideal de Offred de resistência e luta sendo extremamente arredia em relação ao Centro Vermelho e sua doutrinação. Também é vastamente acessada pelas divagações de Offred e aparecendo somente como personagem ativa em um capítulo.
  7. NICK (o motorista) – chofer da família Waterford, silencioso e contido. Pouco se sabe de seu passado além das suspeitas de ser ou um agente da resistência (Mayday) ou um dos Olhos (agentes repressores de Gilead). Desenvolve certa afeição por Offred.
  8. OUTROS PERSONAGENS – Outros personagens são também acessados pelo fluxo da memória de Offred como Janine, uma Aia extremamente bajuladora e submissa. Mas essa visita às memórias são ainda mais fortes quando envolvem a vida de Offred antes de se tornar uma Aia do regime teocrático de Giliead. Por meio de flasbacks conhecemos a mãe de June, militante política pelos direitos femininos, seu marido Luke (e a incerteza dele ter sobrevivido à tentativa de fuga para o Canadá) e sua filha (retirada da mãe ainda muito cedo e mandada para alguma família de Gilead).

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III-  ESTRUTURA DO LIVRO

A narrativa é feita em primeira pessoa (narrador-personagem) e conta as memórias de Offred como Aia na casa do Waterford. Usa o discurso indireto livre: ou seja a voz da personagem e o fluxo de sua consciência se misturam a narração dando ares psicológicos aos fatos. Somente em dois momentos essa dinâmica não é obedecida ao pé da letra: quando Moira narra sua história, a qual June tenta reproduzir com o máximo de fidelidade; e ao final do livro, no discurso dos pesquisadores sobre Gilead.

Por obedecer o fluxo das memória de June, tornada Offred pelo regime teocrático, acompanhamos os acontecimentos por meio de dois planos: o do acontecimento em si e as reflexões da narradora com base em sua memória afetiva. Tais memórias não são organizadas linearmente, mas se mostram a medida que as situações acontecem. A própria Offred se justifica:

Isso é uma reconstrução. Tudo, cada detalhe é uma reconstrução. É uma reconstrução agora, em minha cabeça, enquanto estou deitada estendida em minha cama de solteiro, ensaiando o que deveria ou não deveria ter dito, o que deveria ou não deveria ter feito, como deveria ter feito meu jogo.

A descrição é de extrema importância e pode, por vezes, cansar o leitor mais cru. No entanto são responsáveis por pintar a sociedade de Gilead em todas as suas feiúras, maldades e obscenidades. Despertará em quem lê muita indignação em certos aspectos a que um regime totalitário religioso por chegar.

O livro possui ao todo 46 capítulos, simplesmente numerados com algarismos romanos. A ausência de título por capítulo é compensada  pela organização do romance em 15 blocos (ou partes), como por exemplo o inicial que se chama “I – Noite” e possui apenas um capítulo; e o “II – Compras” que abarca cinco. Ao final do livro temos as “Notas Históricas”, um capítulo à parte da narração propriamente dita.

Em cada bloco, há um acontecimento central no qual a narradora tece comentários ao mesmo tempo que se lembra de fatos marcantes que antecedem a sociedade de Gilead ou que remonta aos primeiros tempos da mesma. A história prossegue sempre nessa perspectiva: o acontecimento em si, o retrato da sociedade como ela se tornou e a reflexão de Offred sobre si e sobre o mundo. Há ainda diversos momentos metalinguísticos nos quais a narradora reflete sobre o próprio ato de narrar e a “quebra da terceira parede” ao conversar diretamente com o leitor.

Tudo que é silenciado clamará para ser ouvido ainda que silenciosamente. (p.183)

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IV – O ENREDO / SPOILERS

1. APRESENTAÇÃO INICIAL

Nos primórdios da sociedade de Gilead, Estado formado após uma revolução teocrática que instaurou um regime totalitário nos EUA, acompanhamos a adaptação de June, tornada a Aia da família do Comandante Waterford. Além dos resquícios da guerra nuclear, escassez de alimentos, de peixes no oceano, a revolução é principalmente de cunho moral e conservador e em parte motivada pelo caos que os níveis de esterilidade alcançaram: uma população cada vez mais envelhecida e em que novas crianças não nascem mais. As informações são omitidas ou falseadas para a população que se resume a acompanhar aquilo que é noticiado na TV estatal. Mas June nos oferece um quadro de como as coisas chegaram a esse ponto:

As mulheres tomavam medicamentos, comprimidos, os homens pulverizavam árvores, as vacas comiam a relva, todo esse mijo com a força comprimida fluía para os rios. Para não mencionar  a explosão de usinas de energia atômica, ao longo da falha de San Andreas, não por culpa de ninguém, durante terremotos, e a cepa mutante de sífilis que nenhum tipo de mofo  conseguia tocar. (p.137)

Nesse contexto, a proteção à vida do feto se torna sagrada (nos dois sentidos): poucas mulheres engravidam e, se conseguem, muitas vezes não são donas do próprio corpo ou de suas crianças. Até o parto é natural é sem anestésicos, pois enfatizavam a dor como fonte geradora dos filhos. Assim são instituídas as aias: mulheres sem liberdade e que cuja função são meramente reprodutivas.

Somos para fins de procriação: não somos concubinas, garotas gueixas, cortesãs. […] Somo úteros de duas pernas, apenas isso: receptáculos sagrados, cálices ambulantes. (p.165)

Esta sociedade, cujo valor central é a reprodução, tem seu fundamento na ética e moral do texto bíblico, principalmente no Velho Testamento. Gilead é divida conforme a função e as cores de seus entes sociais: os Comandantes (chefes de família) sempre de terno escuro, as Esposas de azul, as Econoesposas (de classe mais baixa), as Martas (empregadas domésticas), o aparelho repressivo do estados são jovens e adolescentes de cara lisa e prontos a puxar sua pistola e por aí vai. E claro as Aias, sempre trajando vermelho e com antolhos para que não olhem o mundo ao seu redor, nem que sua faces sejam vistas.

Doutrinadas totalmente no Centro Vermelho (claro que nem todas) essa mulheres, quando chegavam em seu período fértil, eram obrigadas a ter relações sexuais com o patriarca da família sem o consentimento, prazer ou amor das mesmas. Não poderia haver luxúria, a Esposa presenciava tudo, gélida. Um estupro. Tudo fundamentado em uma passagem bíblica:

Vendo Raquel que não dava filhos a Jacó, teve inveja de sua irmã, e disse a Jacó: Dá-me filhos, se não morro. Então se acendeu a ira de Jacó contra Raquel, e disse: Estou eu no lugar de Deus, que te impediu o fruto de teu ventre? E ela disse: Eis aqui minha serva Bila; coabita com ela, para que dê à luz sobre meus joelhos, e eu assim receba filhos por ela. (Gênesis 30: 1-3)

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Essa sociedade estratificada, fundamentava ainda sua visão deturpada de acordo com uma releitura machista de Karl Marx, recitada como slogan pelas aias no Centro Vermelho: “Que cada um dê de acordo com sua capacidade; para cada um de acordo com suas necessidades” (p.143). No entanto ainda havia Esposas que podiam procriar e nem todo Comandante precisava de uma aia, mas principalmente os de alta patente. Mas quando havia esterilidade, a culpa era das mulheres:

Isto não existe mais, um homem estéril existe, não oficialmente. Existem mulheres que são fecundas e mulheres que são estéreis, essa é a lei. (p.75)

Quando June, assume o nome Offred, por pertencer a Fred Waterford, ela precisa ser inseminada para dar um filho à família. Para ele e Serena, sua Esposa, ambos envelhecidos, é uma necessidade social, alcançar um status, sedimentar seu poder e influência. Para June é uma questão vital, visto que aias inférteis ou insurgentes poderiam ter uma prostituição forçada (em uma Casa de Jezebel) ou serem condenadas à Colônia (expostas à radioatividade fazendo trabalho de limpeza de resíduos). Assim teria que dar à luz e ter sua criança retirada para sobreviver.

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2. COMPLICAÇÃO

Em uma sociedade voltada para reprodução humana, pela ótica distorcida dos costumes judaico-cristãos, o drama de June, tornada Offred, é justamente corresponder as expectativas dos Waterfords. Não é uma mera questão de fé visto que até as orações são terceirizadas nos quais os fiéis as mandavam imprimir em vez de orarem por si mesmos.

Serena nutre uma aversão a Aia ao passo que seu marido começa a desenvolver uma relação “antinatural” para a sociedade de Gilead. Primeiro permite que June o faça companhia, em particular, em jogos de tabuleiro, como também permite que a mesma leia (impossível para qualquer mulher, pois só escutavam a Bíblia recitada pelo marido e até o comércio usava figura ao invés de palavras), além de conseguir itens contrabandeados como loção para mãos e revistas de moda. Pois todo item que evidenciava a estética e a sexualidade feminina era vedado.

Aliado à postura do Comandante Waterford, as tentativas infrutíferas de gravidez colocam em xeque a capacidade moral e status social junto àquela sociedade e o próprio futuro de June. Fred parece não ser fértil e é preciso encontrar uma solução para o caso. Offred se vê no impasse de ser ser inseminada em segredo por um médico ginecologista (sugestão de Offglen) ou a solução estapafúrdia de Serena Joy: usar Nick (o motorista), em segredo para fazer sexo e dar um filho a família.

A primeira alternativa é descartada por June, mas a segunda lhe cai muito bem, afinal já nutria uma certa afeição à distância e uma tensão sexual com o jovem motorista. Em contrapartida em qualquer uma das opções seu destino seria a morte por enforcamento (o tal “Salvamento”). Sentindo as esperanças de uma vida melhor lhe escaparem das mãos, sem possibilidade de ver sua filha, crendo seu marido Luke morto e sua mãe vista pela última vez na Colônia e provavelmente morta. Resta-lhe, desesperada, ecoar a oração ensinada por Tia Lídia no Centro Vermelho:

Ó Deus, Rei do universo, obrigada por não ter me criado homem. Ó Deus, oblitera-me. Torna-me fecunda. Mortifica minha carne; para que eu possa ser multiplicada. Permita-me ser preenchida… (p. 232)

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3. CLÍMAX

A narrativa parece ter vários momentos reflexivos problematizando mais os rumos controversos da sociedade teocrática do que um momento ímpar de tensão. Eles estão diluídos ao longo da narrativa como por exemplo a execução daqueles que vão contra o sistema ou cometem crimes, principalmente, ligados à sexualidade. São justamente aqueles ligados ao sexo os momentos mais dramáticos do Conto da Aia.

O primeiro é quando se dá justamente a Cerimônia com o Comandante Waterford: um estupro com a presença da Esposa. Isso em volta de orações em um ritual que mescla o sagrado e o profano. Impessoal, sem sentimentos alguns entre os atores. A passividade de June. A frequência ofegante de Fred. Nada sensual, mas automático. Não há  como fazer uma omelete sem quebrar os ovos, era o melhor para o Comandante:

Melhor nunca significa  melhor para todo mundo, diz ele. Sempre significa pior, para alguns. (p.251)

O segundo envolve justamente Nick. Algo mais perto do amor, mais consentido, sem deixar de ser imposto pela urgência de gerar um herdeiro para os Waterford. Algo confuso para narradora-personagem. Isso se demonstra pela múltiplas versões do ato amoroso, difícil de ser lembrado e exposto ao leitor. Toda relação dos dois é mais fantasiada por ela que anseia um lampejo e carinho do que por Nick que deixa transparecer pouco em sua capa de frieza. São tempos perigosos para um mulher sentir amor ou prazer ou ser dona de si.

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4. DESFECHO

O fim é abrupto e lida com as consequências de tantas transgressões às leis de Gilead. O artifício de Serena para dar um filho ao seu Comandante e a situação em que June se coloca não denunciando os Waterfords os coloca em terrível perigo.

Há uma quebra drástica e o fim é imposto sem aviso. O que se estabelece é antes de tudo é uma frágil felicidade que se instala no coração de June que vive um romance idealizado ao passo que realista com Nick. Vê o mundo desmoronar a sua volta, mas encontra no sexo às escuras, na casa do motorista, uma espécie de “porto seguro”.

No fim Nick a resgata ou a condena? Essa tensão permeia o fim da narrativa que só vem a ser melhor explicada nas “Notas Históricas” no qual pesquisadores analisam a sociedade de Gilead distanciados no tempo que entre os muitos documentos se focam nas gravações em aúdio de June, transcritas no livro que o leitor acabou de ler. Isso se torna claro na afirmação de Offred:

Conto, em vez de escrever, porque não tenho nada com que escrever e, de todo modo, escrever é proibido. Mas se for uma história, mesmo em minha cabeça, devo estar contando-a para alguém.

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V – A AUTORA

Nascida em Ottawa, Canadá, Margaret Eleanor Atwood é romancista, poeta e roteirista premiada além de seus trabalhos humanitários e como ambientalista. Enquanto cursava o doutorado em Havard, por ser muito prolíxa, nunca terminou sua dissertação, embora colecione mais de vinte diplomas honorários, inclusive da própria faculdade recebido no ano de 2004. Nesta violenta distopia passada no ano de 2195, no qual a taxa de natalidade caiu drasticamente e as mulheres servem de aia com o propósito de reprodução das elites, percebe-se a clara inspiração em outros romances do mesmo tipo como 1984 de George Orwell e Admirável Mundo Novo de Aldous Hurley.

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VI – CONCLUSÃO

Fiz o caminho inverso e acho que muitos leitores agirão como eu: primeiramente se apaixonarão pela série e depois lerão o livro. Mas sou defensor do seguinte ponto de vista: não há como equiparar dois objetos artísticos totalmente diferentes. O livro de Atwood tem sua relevância e sedução na medida que acompanhamos a mente de uma mulher angustiada e oprimida pelo sistema. Tudo bem que a série, também roteirizada pela escritora, tenha seus momentos em que ouvimos os questionamentos e a consciência de Offred, no entanto acompanhar sua narrativa claustrofóbica e reconstruída é uma experiência sem igual.

Não espere dessa obra esclarecimentos sobre os ações futuras da série. Ela abarca um curto período da trajetória de June, no entanto o poder e profundidade da narrativa da heroína, sua tensão entre a passividade e a possibilidade de se rebelar, reflete a dinâmica de cada um de nós. Frente à iniquidade, ao fanatismo religioso dos políticos, à postura machista, qual é a nossa capacidade, sejamos homens ou mulheres, de sair de nossa zona de conforto ou de nosso cárcere para buscar uma vida mais justa?

June, tornada Offred, pode ser um testemunho claro de que a não ação é tão perigosa quanto os atos de injustiça. Em tempos como esse em que o conservadorismo reage a evolução e revolução das questões de gênero, da geração da vida e de seu extermínio, e se fecha em soluções messiânicas, o livro de Atwood é um chamado para o despertar. E então, em qual parte do Conto da Aia o Brasil está? Leia e descubra! Boa leitura.

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TUDO É EVENTUAL – STEPHEN KING (CRÍTICA)

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SINOPSE
São catorze histórias de suspense, surpresas e terror, certeiras na arte de prender o leitor na poltrona e não soltá-lo mais, até a última frase. “Andando na bala” conta a história de Alan Parker, que pede carona na estrada, tentando visitar a mãe moribunda, mas entra no carro errado e acaba indo mais longe do que imaginou. Em “Almoço no Café Gotham”, a briga de um casal no restaurante tem uma reviravolta sangrenta. Em “1.408”, um autor famoso por escrever sobre cemitérios e casas assombradas visita um quarto rodeado de mistérios no Hotel Dolphin, esse já gerou até filme. Seja escrevendo sobre encontros com os mortos, ou sobre medos mais cotidianos, Stephen King cria em Tudo é eventual uma coletânea de suas melhores obras. Intensos, sinistros e envolventes, esses contos são uma prova da imaginação fértil do autor de terror mais famoso da atualidade.

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COMENTÁRIOS
Tudo é Eventual
de Stephen King traz um compilado de contos do autor em sua maioria terror e suspense. Os contos são ambientados em épocas e contextos completamente diferentes tendo como norte o terror. O livro possui uma coleção muito competente de narrativas. Dentre todos os contos, um em especial me chamou atenção: “A Teoria de L.T. sobre Animais de Estimação”, pois essa narrativa foge as suas habituais histórias. O que esse conto faz a mais para merecer tal lugar de destaque? Desvendaremos ao longo dos próximos parágrafos.

A história de Lulubbelle e LT tem foco na rotina familiar do casal, explorando principalmente sua convivência com seus animais de estimação de forma nada convencional. Stephen King aborda o assunto de maneira tragicômica. Não será incomum ter crises de risos durante a leitura, da mesma forma que pode ser pego por um sentimento de tristeza. Usando as palavras do próprio autor que antes da história começar, afirma:

Quero fazer você rir ou chorar ao ler uma história, quem sabe as duas coisas ao mesmo tempo. Em outras palavras quero seu coração. Se a sua intenção é aprender algo, vá para o colégio.

Ao julgar pela minha experiência ao ler, posso afirmar sem medo de errar que suas pretensões foram alcançadas. A história de LT me pegou de surpresa e me divertiu bastante com seu humor mais leve, algo que se distância bastante do habitual senso mórbido do autor. Normalmente o escritor americano é muito mais sombrio. Contudo não se iluda, ainda é um conto do mestre do terror. Logo o final ainda lhe reserva surpresas que podem ser desagradáveis para parte do público. A Teoria de L.T. sobre Animais de Estimação é um conto leve, curto, descontraído, muito bem-humorado, divertido, que possui um final surpreendente, uma leitura rápida e gostosa que tem todos os ingredientes perfeitos para ser guardado na memória.

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Ainda aqui? O que espera pra se acomodar próximo a uma árvore numa bela tarde de verão com uma água de coco gelada, ou se deitar numa noite fria e chuvosa acompanhado de sua bebida quente de preferência? Em suma: não importa quando ou onde leia essa humilde resenha apenas aproveite seu tempo na companhia de um bom livro. Quanto ao livro para este momento, aqui fica nossa recomendação. Boa leitura.

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OS SETE MELHORES LIVROS POLICIAIS DE AGATHA CHRISTIE

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QUEM É A DAMA DO CRIME?

Bem, eu não sabia que Agatha Christie, escritora britânica (1890-1976), era assim conhecida: Rainha ou Dama do Crime (“Queen/Lady of Crime”, no original em inglês). Meu primeiro contato com essa mestra do romance policial foi justamente com o livro “O Caso dos Dez Negrinhos” ou “E não sobrou nenhum”, como hoje é mais conhecido.

Lembro que este livro, de capa amarela e com uma estátua de um negrinho, me fascinou. Estava em um biblioteca de escola de Ensino Fundamental em João Pessoa (PB). Estava no meu oitavo ano do ensino fundamental e ninguém frequentava aquele lugar cheio de bagunça e de paredes branquíssimas. A bibliotecária me recebeu toda educada e admirada de ter gente fuçando as pilhas de livros. Mas Agatha Christie estava lá.

Levei o romance para casa e devorei cada página. Final surpreendente. “O caso dos dez negrinhos”, e prefiro chamá-lo assim, foi meu primeiro surto de leitura. Li 29 livros da autora adquiridos por meio de sebos, livreiros, fazendo trocas e negócios.

Mas por que Agatha Christie é uma leitura tão esplêndida? Porque as pistas dos crimes estão ao longo da narrativa. A autora faz questão de “esfregar” na nossa cara a resolução, os indícios que deixamos passar. Eu me sentia desafiado a descobrir junto com os detetives da autora, com Hercule Poirot principalmente, o criminoso e suas motivações. Por isso me decepcionei tanto ao ler Arthur Conan Doyle e seu Sherlock Holmes que aparecia com uma solução pronta, de surpresa e dada para o leitor. Agatha Christie constrói junto com quem lê, já Doyle é fast food: tudo esta solucionado de antemão. Chegou um tempo, ao longo de tantos livros lidos da Dama do Crime, em que eu descobria junto com ela o assassino e sentia-me muito inteligente e observador.

Nas linhas abaixo selecionei as histórias da autora que mais me marcaram. Estão colocados em ordem cronológica e não afetiva. Alguns deles foram adaptados para outras mídias e fizeram tanto sucesso quanto o romance escrito. Mas confesso-lhes que nada nos tira o sabor de se sentir um ás da observação e solucionar crimes. Leia Agatha Christie e tenha essa sensação.

 

The Murder of Roger Ackroyd, 1926

SINOPSE
Na pequena vila inglesa de King’s Abbott, o passatempo são justamente as fofocas. E não poderia deixar de ser diferente, as pessoas da elite local são o principal alvo dos comentários maldosos. No centro das discussões está um abastado senhor, Roger Ackroyd, que acaba sendo alvo de um grupo de fofoqueiras que tem em Caroline Sheppard sua representante mais ferina. Os boatos ficam ainda mais exagerados quando a recente viúva, Miss Ferrars, é acusada de ter um relacionamento com Ackroyd. Isso acarreta o suicídio da mulher.

A fim de se abrir a cerca dos acontecimentos recentes, Ackroyd convida o médico James Sheppard, irmão de Caroline e amigo, para jantar e revela fatos desconcertantes. Miss Ferrars matara o próprio marido e era chantageada. Ackroyd recebeu uma carta que revelava quem era o chantagista, mas não tivera tempo de descobrir. A morte também chegou a sua porta.

O caso ficaria insolúvel se por pura coincidência o detetive Hercule Poirot não estivesse passando uma temporada de férias a cuidar de seu jardim de abóboras na pequena vila. Ele se junta ao Doutor Sheppard para tentar descobrir a trama por trás da morte de Roger Ackroyd.

COMENTÁRIOS
Quando fora lançado, este livro vendeu cerca de 5 mil exemplares, o sétimo livro mais vendido da autora. A narração é do Doutor Sheppard que termina sendo auxiliar de Poirot nas investigações. Funciona como o Watson de Sherlock Holmes, mas a comparação para por aí. Aqui as falas dos personagens são extremamente reveladoras assim como aquilo que não é dito.

 

Murder on the Orient Express, 1934

SINOPSE
Considerado o maior caso do detetive Hercule Poirot, o cenário é o luxuoso trem Expresso do Oriente que em sua época áurea ligava Paris a Constantinopla (atual Istambul). Pouco depois da meia-noite o trem fica preso e parado na neve devido ao mal tempo. Surpreendentemente cheio para aquela época do ano, na manhã seguinte um passageiro é encontrado morto com doze facadas. Isolados  no trem “encalhado” no gelo, Hercule Poirot terá que usar de toda a sua perspicácia para descobrir o assassino.

COMENTÁRIOS
O livro é baseado no verdadeiro caso de um sequestro ocorrido nos Estados Unidos, em 1932 e vendeu três milhões de cópias em seu ano de lançamento. A narrativa revolucionou o gênero devido ao seu final dramático e dilema moral. É uma das obras de Agatha Christie mais adaptadas para televisão e cinema. Há duas versões cinematográficas que merecem destaque. A primeira, de 1974, é a mais famosa, tem Albert Finney como Hercule Poirot e a direção de Sidney Lumet; já a última é de 2017 com Kenneth Branagh dirigindo o filme e também interpretando o famoso detetive da trama.

 

The A.B.C. Murders, 1936

SINOPSE
Neste romance, Hercule Poirot e o Capitão Hastings, companheiro de muitas aventuras, se deparam com um assassino em série que desafiará as capacidades dedutivas e observadoras do detetive belga e do oficial inglês.

Após retornar da América do Sul, o Capitão Hastings se encontra com seu velho amigo, Hercule Poirot, em seu novo apartamento em Londres. Nessa ocasião o belga lhe apresenta uma carta misteriosa que recebeu, assinada com “A.B.C.”. Nela está detalhada um crime que deve ser cometido muito em breve, que Poirot suspeita ser um assassinato.

Duas outras cartas de mesmo teor chegam logo a seu apartamento, cada uma antes de um assassinato sendo realizado por A.B.C. Elas estão em ordem alfabética: Alice Ascher, morta em sua tabacaria em Andover; Elizabeth “Betty” Barnard, uma garçonete sedutora morta na praia de Bexhill; e Sir Carmichael Clarke, um homem rico morto em sua casa em Churston. Em cada assassinato, um guia ferroviário da ABC é encontrado ao lado da vítima.

COMENTÁRIOS
Esta é uma obra para entender as referências. Claro que você não precisa ser um especialista em Agatha Christie, mas isso traz um gosto a mais para imersão nesse romance policial. Por exemplo, Poirot cita sua tentativa infrutífera de se aposentar plantando abóboras, como aparece em o Assassinato de Roger Ackroyd, ou adianta o enredo de Cai o pano (1975), seu último caso. Então:

“Não seria de admirar que terminasse investigando sua própria morte”, comentou Japp, rindo gostosamente. “Eis uma boa ideia, sim, senhores. Devia ser ser tema de um livro.” “Hastings é quem poderá fazer isso”, observou Poirot, piscando o olho para mim. “Seria realmente divertido”, disse Japp, rindo de novo.

Outro ponto chave desse livro é a mistura muito bem-vinda que combina uma narrativa em primeira pessoa e em terceira pessoa, algo já abordado por Charles Dickens. Uma narrativa em terceira pessoa que é reconstituída pelo Capitão Hastings, narrador-personagem da história.

Recentemente fora filmada uma minissérie justamente embasada neste romance. Poirot, interpretado pelo genial John Malkovich, conta com a direção de Sarah Phelps, nesta obra de 2018 empreendida pela BBC One. Além disso inspirou um jogo, point-and-click para consoles e computadores de mesa desenvolvido pela Artefacts Studios: Agatha Christie – The ABC Murders (2016).

 

Death on the Nile, 1937

SINOPSE
A trama gira em torno do casal Linnet Ridgeway e Simon Doyle. Ela é bonita, amada e rica; ele, ex-namorada de da melhor amiga, Jacqueline de Bellefort. Ao irem passa sua lua de mel no Egito, são seguidos pela enfurecida Jacqueline que se mostra presente em todos os momentos. Mas quando um dos lados do triângulo amoroso é assassinado, cabe a Poirot, que está de férias, descobrir quem cometeu o crime. O que poderia parecer óbvio pode resultar em uma tarefa hercúlea para o detive belga, afinal há muitos indivíduos incomuns entre os viajantes: senhoras idosas, escritora de romances eróticos, médico, um jovem de ideais comunistas, entre outros.

COMENTÁRIOS
Esta obra parte de um cenário semelhante ao Assassinato no Expresso do Oriente: o crime se dá em um meio de transporte, um cruzeiro. O livro foi adaptado para o teatro em 1949, (não pela própria autora), mas não tinha Hercule Poirot como protagonista. É outro grande sucesso de adaptações e, para o cinema, a mais famosa é a de 1978 com direção de John Guillermin tendo Peter Ustinov atuando como Poirot. No entanto, dado o sucesso da versão de Kenneth Branagh com o Assassinato no Expresso do Oriente (2018), o diretor e ator pretende fazer uma “continuação” (se é que podemos chamar assim) da trama com A Morte no Nilo tendo um elenco de peso, inclusive com Gal Gadot, a Mulher Maravilha, em um dos papéis principais.

Cabe ressaltar, ainda, que há um jogo Agatha Christie: Death on the Nile, para computador que é inspirado da obra e no qual o jogador precisa procurar pistas no cenário com base em dicas (jogo do ano de 2007 na categoria “Seek and Find” adventure). Com 12 níveis e diversos mini-games.

 

Ten Little Niggers, 1939

SINOPSE
Oito pessoas, aparentemente sem conexão entre si, são convidadas à intrigante “Ilha do Soldado”, na costa de Devon, pelo desconhecido U. N. (Ulick Norman) Owen e sua esposa. Mesmo sob diferentes pretextos, e não conhecendo os anfitriões, a atração de serem convidados para um lugar tão badalado pela mídia é mais forte que a desconfiança. Recebido por um casal de criados, os convidados precisam esperar pela chegada dos donos do lugar, uma ilha inóspita, cujo acesso só é possível por meio de um barco.

Isolados por uma terrível tempestade, na noite da chegada, um gramofone é ouvido. A voz tece acusações severas aos convidados, responsáveis direta ou indiretamente pela morte de alguém. Seus destinos passam a seguir, precisamente ou em parte, o que diz um poema sinistro emoldurado nos quartos da mansão, uma cantiga infantil que narra a sequência de mortes que acontecerão ao longo dos capítulos.

COMENTÁRIOS
É o livro, um dos mais famosos da autora (e minha primeira paixão). É a narrativa de mistério mais vendida no mundo com 100 milhões de cópias e um dos livros mais vendidos de todos os tempos, o sexto título de acordo com a Publications International.

Seu título original, Ten Little Niggers (Dez negrinhos, em tradução livre), é baseado em uma cantiga tradicional inglesa. Acusado em solo estadunidense de ser um título racista, acabou em alguns lugares recebendo o nome And Then There Were None (E Não Sobrou Nenhum)o que termina sendo um terrível spoiler. Dessa forma versões atuais no mercado editorial brasileiro imitaram essa postura e trocaram o nome da obra.

Como mais de treze adaptações televisivas ou cinematográficas, desde produções inglesas, americanas e até indianas (Bollywood), tem na versão de 1945, And Then There Were None, dirigido por René Clair a mais famosa. Inspirou ainda a minissérie britânica de 2015 da BBC One, além de ter sido referência para jogo japonês (Umineko no Naku Koro ni), episódios de Family Guy (primeiro e segundo episódio da 9ª temporada), entre outros.

 

The Labours of Hercules, 1947

SINOPSE
Depois de uma conversa com um amigo, Poirot constata que os pais deveriam ter mais cuidado na escolha do nome de seus filhos. Seu nome Hercule, por exemplo, faz referência ao herói grego de enorme estatura, força descomunal e filho de Zeus. Isso em nada reflete o baixinho bigodudo, gorducho de cabeça oval e calva que é o próprio Poirot. Então o detetive se sente tentado a buscar cumprir 12 desafios ao altura do herói grego que lhe deu nome, seus próprios Doze trabalhos. Assim passa a escolher a dedo os casos para cumprir esta árdua tarefa ao logo de doze contos com os mais diversos crimes, alguns mais complexos, outros mais simples. Todos com uma solução genial.

COMENTÁRIOS
Esta é uma obra sem muita complexidade da autora. É uma boa coletânea de contos leves e por sua própria natureza, de resolução rápida. Vale a pena, para quem curte mitologia grega (como esse cara que vos escreve), ver como a autora dá uma roupagem ou interpretação moderna para os monstros clássicos, aqui transformados em situações ou criminosos monstruosos. Ao final a Dama do Crime atualiza o herói moderno mostrando valores que sintetizam a atualidade: Poirot tem seus próprios dons divinos muito mais ligados ao intelecto do que à força bruta.

 

Curtain, 1975

SINOPSE
Este é último caso de Hercule Poirot. E como anunciado em Os Crimes ABC, o próprio detetive está no centro do mistério. Já bastante velho, o detetive belga volta ao local de seu primeiro caso, O Misterioso Caso de Styles (1920), à procura de um assassino. Para ajudá-lo, contará com seu fiel amigo, o Capitão Arthur Hastings, já viúvo. Hercule Poirot conseguiu reunir cinco crimes que, aparentemente, tiveram a participação do mesmo assassino que se encontra na mansão de Styles. O título faz referência ao final de um peça de teatro: cai o pano, fecham-se as cortina e eis o fim de tudo.

COMENTÁRIOS
Esta obra foi publicada pouca antes da morte de Agatha Christie, no entanto ela já se encontrava escrita desde a década de 1940 e mantida trancada em um cofre em um banco. A autora temia que não sobrevivesse à II Guerra Mundial, como também visava a resguardar de alguém se apropriar de seu personagem após sua morte e fazer uso de forma indevida. Claro, ainda havia a praticidade de garantir uma fonte de renda para seu esposo e sua filha. Por isso a obra só foi autorizada para publicação quando a autora não podia mais escrever.

O fato fora tão marcante que em 6 de agosto de 1975, o jornal New York Times publicou um obituário de Poirot na primeira página (com fotografia) para assinalar a sua morte (desculpa, não deu para poupar-lhe desse spoiler). Mas ler esse romance, de final igualmente surpreendente, é apreciar o “canto do cisne”: uma obra magistral antes de fechar os olhos!

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WATCHMEN: QUEM VIGIA OS VIGILANTES? (HQ)

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O MENINO QUE TROCAVA GIBIS
Sou um cara de sorte, não tenho dúvidas. Não em tudo, é claro. Mas quando o assunto é vasculhar livrarias, sebos, feiras de livros, consigo encontrar verdadeiros tesouros da escrita. Faz parte de minha formação como pessoa, afinal desde muito cedo aprendi a comprar e, sobretudo, trocar muitos gibis. Família com pouca grana, então tinha que me virar para conseguir ler quadrinhos ainda no formatinho vendido na década de 1990. Tudo eram histórias incompletas, porque eu adquiria números aleatórios devido a impossibilidade de comprar na ordem.

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Mas essa é uma crítica de um desses achados: a minissérie Watchmen (1988) escrita por Alan Moore e com os desenhos de Dave Gibbons. São seis edições que, pasmem, encontrei lacradinhas (pelo próprio vendedor). Era, e ainda é aqui em minhas mãos, uma “Mini-série de Luxo” publicada pela Editora Abril que custava Cz$ 950,00 (novecentos e cinquenta cruzados), moeda da época e que nas últimas edições já eram Cruzados Novos, uma testemunha da fragilidade e mudanças dos planos monetários.

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Voltando ao assunto, é uma das obras mais queridas de meu acervo de 9ª arte (Histórias em Quadrinhos) não só pela história que apresentarei nas próximas linhas, mas por ser mais uma HQ de Alan Moore, argumentista de V de Vingança (1988-1989) e Batman – A piada mortal (1988), do qual curto muito o trabalho.

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Meu primeiro contato com Watchmen não foi pelos quadrinhos, mas pela adaptação cinematográfica de 2009 feita por Zack Snyder. Arrisco-me a dizer que foi a única adaptação da DC Comics que ele acertou, contudo não entrarei no mérito da questão. O importante é que novamente o universo de Alan Moore vem à tona com a série da HBO e, aproveitando a onda revolucionária e o questionamento do sistema no últimos tempos, a ótica do argumentista inglês parece se encaixar perfeitamente neste mundo incerto em que vivemos.

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1. O ENREDO DE WATCHMEN
Estamos no ápice da Guerra Fria. Estados Unidos e União Soviética lutam por zonas de influência e a ameaça de um conflito nuclear paira no ar. O fantasma do comunismo, a degradação da sociedade, é uma escolha das pessoas. Rorschach, em seu diário, afirma que “o mundo inteiro está a beira do precipício, olhando para baixo, pro inferno sangrento. Todos aqueles intelectuais e gente de fala mansa… De repente, mais ninguém tem nada a dizer.”

É nesse contexto que o Comediante, “herói” se assim podemos dizer, é encontrado morto, sob circunstâncias misteriosas, e Rorschach, o anti-herói que acredita ter sido assassinado. Nesta época, os heróis não são mais comuns como era nas décadas anteriores: foram suprimidos pelo governo. Alguns ainda atuam na clandestinidade, ou se socializaram e lucraram com o sucesso ou mesmo estão em asilos, ou morreram em acidentes ou causas naturais. Assim, o heroísmo anda restrito e ter heróis sendo assassinados é acabar com todo um legado de ajuda a população.

Desde que o primeiro herói mascarado surgiu em 1938, Hollis Mason (Coruja Notuna, Nite Owl), “os super-heróis  haviam escapado de seu mundo colorido e invadido o horrível mundo preto e branco das manchetes”. Mas eram heróis defeituosos, nada virtuosos e pouco organizados: “todos nós procurávamos expressar de modo infantil, a noção do Bem e do Mal”. O próprio Coruja Noturna original constata: “Estávamos tentando, através de esforços pessoais, tornar nosso país um lugar mais seguro e com melhores condições de vida”. Mesmo que a opinião pública não aceitasse amplamente o heroísmo mascarado, Rorschach não deixaria um serial killer de heróis a solta: era seu compromisso com a justiça.

O que importa a morte de uma pessoa contra tantas? Porque há os bons e os maus, e os maus devem ser punidos. Mesmo em face do armagedon, não farei concessões. (Rorschach)

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2. A HISTÓRIA: PERSONAGEM A PERSONAGEM
A cada edição de Watchmen fica claro que acompanhamos a perspectiva de alguns heróis e a trama vai se construindo sob ótica de vários personagens. É a técnica de múltiplos enredos e narradores que hoje é amplamente conhecida entre os leitores de George Martin, autor das Crônicas de Gelo e Fogo que deu origem a série da HBO, Games of Throne. Logo, faremos nossa análise a partir da história singular de cada um deles na ordem cronológica das edições.

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I – COMEDIANTE (nada divertido)

Este anti-herói (imperfeito ao extremo) é o estopim da história. Sua morte não é relevante para opinião pública como era antigamente. O povo não se importa. Em seu enterro, os poucos heróis existentes estão lá para prestar as suas últimas homenagens, ao passo que se lembram de fatos marcantes da vida desse aspirante a psicopata.

Edward Blake, o Comediante, lutou na Guerra do Vietnã, onde foi um carrasco e abandonou a máscara. Não tinha escrúpulos para matar inclusive uma mulher que afirmava estar grávida dele. Ele tira vida da moça na frente do Dr. Manhattan, que passa a racionalizar a vida humana após esse fato. Foi nessa ocasião que Blake adquiriu uma cicatriz na face. Agir com violência para com mulheres era normal para ele. Antes disso ele havia estuprado Sally Júpiter, heroína conhecida como Silk Espectre (Espectral). Dessa violência sexual nasceria uma filha.

Assim, o Comediante, acostumado aos atos mais hediondos, antes de morrer procura um ex-vilão, Moloch e confessa sentir muito medo. Que até ele, que era capaz de atos horríveis, que matou até crianças no Vietnã, que alcançou fama em cima das mortes e era adorado pelo governo americano, mas que ele sentia um medo terrível daquilo que acontecera em uma ilha. Mas o quê e onde?

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II – DOUTOR MANHATTAN (deus americano)

Talvez dentre os heróis de Watchmen mais próximo de um SUPER-herói é justamente o Doutor Manhattan. John Osterman, filho de um relojoeiro,  apesar de ter o mesmo dom que seu pai com os relógios, seu velho nunca quis que o filho tivesse uma vida medíocre. Ajudou-o e cobrou-o ao extremo nos estudos até que ingressasse na universidade para ser um novo Einstein.

Mas é justamente o relógio de seu pai o catalisador de seus poderes. Ao ficar preso em uma câmara de campo intrínseco, sofre uma experiência nuclear, adquire poderes superiores em que o espaço-tempo se sobrepõe. Ele é onisciente, onipresente, teletransporta-se, molda a realidade, lê pensamentos. É quase um deus. Ou nas palavras de Laurie Juspeczyk, sua companheira, deus ex machina (ἀπὸ μηχανῆς θεός, em grego, uma solução inesperada, improvável para terminar uma obra ficcional). Ele sabe do passado de todos, antecipa o fim da série (laconicamente), prediz o futuro porque para o Doutor, o tempo é cíclico.

Todo nós somos marionetes, Laurie. A diferença  é que eu vejo os barbantes.

Sua história é contada sobre múltiplos planos: a consciência do Dr. Manhattan e o que se passa no mundo; os flashbacks e os acontecimentos presentes e futuros. Essa consciência múltipla para além do tempo e do espaço, faz com que cada vez mais ele se afaste do amor de Laurie (filha de Sally Júpiter).

Mas quanto mais o Doutor entende as engrenagens do universo, mais se distancia da humanidade e sua pequeneza. Ele é frio demais, racional ao extremo e alheio ao sentimento amoroso (pelo menos na superfície). Tais fatos fazem com que ela acabe rompendo com o relacionamento de anos e subordinando a salvação do mundo aos reveses de sua história com Laurie.

Eu leio os átomos, Laurie. Posso ver o antigos espetáculo que fez nascer as rochas. Comparada a isso, a vida humana é breve e mundana.

Mesmo que o Dr. Manhattan não se importe com a humanidade em geral, quem dirá com o assassino do Comediante, ele é a grande arma nuclear do governo estadunidense. Mantém afastados os inimigos soviéticos e propaga a harmonia global. No livro do Dr. Milton Glass sobre o SUPER-herói, o cientista afirma:

“O homem nunca falou tanto em buscar a harmonia global, embora armazene armas de efeito devastador. […] As guerras para acabar com as guerras e as armas para acabar com as armas falharam. Mas nós não podemos falhar.”

É nesse sentido que o Dr. Manhattan é essencial para a paz mundial. A ideia que “Deus existe, e é americano” fez com que os inimigos dos Estados Unidos ficassem impotentes ante ao poder de um ser tão supremo. Assim o Dr. Manhattan sempre fora usado (ele permitia conscientemente isso) para sustentar a paz armada estadunidense e manter a hegemonia global.

Logo por mais que para os outros heróis e para a população, o heroísmo (sem superpoderes) tenha sido uma moda passageira, para o Dr. Manhattan e para o Comediante era diferente. Este último ganhava ainda mais espaço por causa de seu desempenho sádico e extremista no Vietnã.

Entretanto, muitos heróis desaparecem misteriosamente antes da morte do Comediante, mas ninguém os investigou. Assim quando o presidente Nixon trapaceia e assume, ilegalmente, seu terceiro mandato, ocorrem eventos catastróficos contra os mascarados. O senador Keene, então, decreta que o vigilantismo se tornava ilegal. É o fim de uma era: muitos heróis desistem, poucos ainda agem na ilegalidade.

Depois que o Comediante é morto, a vida do Dr. Manhattan sofre um abalo: em plena rede televisão, ao vivo, testemunhas afirmam ter perdido entes querido que teriam contraído câncer simplesmente por entrar em contato com o super-herói. Aliado ao seu rompimento com Laurie, ele decide se isolar em Marte. Abandona a humanidade. Assim, os soviéticos avançam em seu esforço para acabar com o domínio americano sobre o mundo. Surge a ameaça, com a ausência do Doutor, de uma Terceira Guerra Mundial e o planeta caminha para o caos.

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III –  RORSCHACH (profeta do destino)

A narrativa de Rorschach, alterego de Walter Kovacs, dispõe de dois aspectos interessantes. O primeiro, é claro, é a acidez de seu diário que nos dá mostra de suas opiniões e pensamentos, um hábito adquirido desde sua infância em institutos de correção como o Lar Charlton. O segundo é que a história do justiceiro mascarado se divide com a história de um pirata náufrago, herói de uma história em quadrinhos. À medida que a história prossegue, vemos os acontecimentos envolvendo Kovacs, o que acontece no mundo (por meio da opinião do jornaleiro) e a história em quadrinhos do pirata. Parece confuso? Aparentemente, sim, mas revela a riqueza das entrelinhas da história. Assim conhecemos o reflexo dos acontecimentos (a morte do Comediante e o exílio do Dr. Manhattan) na população nova-iorquina e percebemos que Rorschach e o pirata são os sobreviventes que farão de tudo para chegar ao final da história.

Rorschach é, ao meu ver, o protagonista de Watchmen. Ele é, para opinião pública e até para seus colegas de heroísmo, um louco e homicida, todavia é o único que vigia os vigilantes e que está desperto e disposto a enfrentar a maré dos acontecimentos. É ele que inicia o questionamento: a quem interessaria destruir os grandes “patriotas” americanos, o Comediante, herói do Vietnã, e o Dr. Manhattan, o bastião da paz?

Durante várias entrevistas feitas a um psicanalista na prisão, descobrimos, através de flashbacks, a história de Walter Kovacs, uma criança fruto de um lar sem pai e uma mãe prostituta. Ele sempre fora introspectivo, sofrera violência doméstica e bullying. Decide, depois de passar a juventude em instituto correcional devido a agredir um colega, que se tornaria um vigilante. Assim nasce Rorschach: uma personalidade criada por Kovacs diante das atrocidades feitas por um assassino sádico, uma dissociação de personalidade. Ele perde a fé na humanidade. Usa a máscara por vergonha de pertencer a essa espécie. Máscara confeccionada com tecido especial adquirido de sua época como operário em indústria têxtil. Ele assim narra seu momento de auto descobrimento, após incinerar o assassino de criança e vê-lo junto com sua casa a queimar:

Olhei para o céu, através da fumaça espessa e Deus não estava lá. O frio. A escuridão sufocante. Estamos todos sozinhos. Vamos viver nossas vidas, na falta de algo melhor para fazer. Nascer do esquecimento. Aturar crianças destinadas ao inferno, como nós. Não há nada mais. Existimos ao acaso. Não há um padrão, exceto o que nós imaginamos. Nenhum significado, exceto aquele que nós impomos. Este mundo sem direção não é delineado por forças metafísicas. Não é Deus que mata crianças. Nem é a sorte que as esquarteja ou o destino que as dá de comida aos cães. Somos nós. Só nós. As ruas estavam tomadas pelo fogo. O vácuo dentro de mim lembrava gelo quebrando. E ele renascia livre para cria sua própria forma neste mundo moralmente vazio. Era Rorschach.”

Culpabilizado pela morte de Moloch, vilão aposentado, foi convenientemente preso. Fica óbvia a tentativa de retirá-lo de circulação. Sua investigação ameaça os planos por trás da morte do Comediante, o exílio do Dr. Manhattan e o recente atentado a Ozymandias, herói e empresário de sucesso que lucra com a própria imagem. Solitário, parecia que Rorschach estava destinado a apodrecer na cadeia, lutando contra criminosos que ele mesmo mandou para lá. Até que sua iniciativa acaba tirando dois heróis da inércia: Laurie Júpiter e o segundo Coruja Noturna.

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IV – CORUJA NOTURNA E LAURIE JUSPECZYK

Eis dois heróis que são o último legado da geração de ouro de Watchmen, quando os Minutemen, grupo liderado pelo Capitão Metropólis e Silk Espectre (Sally Júpiter), estavam na ativa e eram uma equipe pronta para o combate ao crime na década de 1940. O primeiro Coruja Noturna, Holis Mason, passou seu manto a Dan Dreiberg, jovem rico, intelectual, solitário e especialista em tecnologia. É ele que junta as peças do quebra-cabeça e descobre o vilão por trás da trama.

Já Laurie é filha de Sally Júpiter, a primeira Silk Spectre, e do Comediante e sua violência sexual. Por livre e espontânea pressão da mãe, a primeira a lucrar financeiramente com o heroísmo como atriz, Laurie seguira os passos dela como heroína. “Mamãe estragou minha adolescência, tentando fazer de mim o que ela seria se eu não tivesse nascido”, confessa Juspeczyk ao Dr. Manhattan. Já o pai, o Comediante, ela o odiava desde que soubera que tinha estuprado sua mãe. Por outro lado Sally, sua mãe, “amou um homem que tinha todos os motivos para odiar”.

À medida que a história prossegue, eles vão se tornando mais próximos e desenvolvem um romance. Eles relutam em acreditar em Rorschach, um psicótico que vê conspiração em toda parte e que acreditava em um matador de mascarados. Mas começa a fazer sentido a sua teoria: “Comediante assassinado… Jon exilado… alguém tentar matar Adrian (Ozymandias) e o próprio Rorschach levado pela polícia…”, afirma o segundo Coruja Noturna.

Enquanto Dan Dreiberg, apático e afastado da luta de crimes, tenta sair de seu casulo e engrenar um romance com Laurie, esta oscila entre evoluir a friendzone com o Coruja Noturna ao passo que ainda nutre sentimentos pelo exilado Dr. Manhattan. Enquanto Rorschach forja uma rebelião para fugir do presídio, a tensão social cresce, fica clara a intenção de que tudo não passa de uma forma de fazer estourar um conflito de proporções gigantescas.

Ronda o fantasma da ameaça nuclear, a imprensa é tida como comunista por sua postura contra o governo e a opinião pública se divide: heróis salvam ou são criminosos da nação? Veículos de comunicação destroem ainda mais a imagem do heróis. Na ausência do Dr. Manhattan, o trunfo tático do governo americano, a situação de medo e desconfiança de uma Terceira Guerra Mundial faz com que a população se rebele contra o heroísmo, tanto na mídia como nas ruas. O primeiro Coruja Noturna, Holis Mason, é espancado até a morte.

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V – OZYMANDIAS (Rei dos Reis)

É um personagem construído aos poucos ao longo de todas as edições. É também um heróis com superpoderes, o último a surgir. Diríamos que a inteligência é seu poder, apesar de também ser um exímio atleta e um aventureiro que largou a fortuna da família e conheceu o mundo. Influente nos meios midiáticos, gentil e um empresário de sucesso por sua próprias mãos, pois abdicou do dinheiro de seus pais, parece pouco interessado naquilo que acontecera ao Comediante, mesmo que ele reconheça sua contribuição a nação americana. Talvez, em parte, isso se deva ao fato de ter sido derrotado por ele no início da carreira ou mesmo por outro motivo secreto. Rorschach assim o define ao ver as coisas que ele guarda em seu escritório:

Um espelho de sua vaidade. Quadros dele mesmo, peças egípcias, gráficos de vendas impressionantes…

Nota-se um teor narcisista em seus atos. Mas Adrian Veidt, alterego de Ozymandias, é considerado um “santo” pela população. Um homem caridoso, que revelou sua identidade secreta prontamente, pois não tinha nada a esconder. Passou a acreditar que os crimes, “Tais males são apenas sintomas de uma enfermidade geral do espírito humano, e eu não acredito que se possa curar a doença acabando com os sintomas”.

Ele, então, sofre um atentado, contudo seu atacante morde a própria língua e morre antes de revelar o mandante do crime. Por mais que se omita em tomar atitudes drásticas em relação ao acontecimentos e prefira permanecer isolado em sua fortaleza na Antártida, Adrian Veidt se organiza para intervir na economia e lucrar com o caos que tomou conta da população amedrontada pela possibilidade de um holocausto nuclear. Ele é um vencedor:

Os meios para atingir a capacidade muito maior do que a das chamadas pessoas comuns estão ao alcance de qualquer um, se seu desejo e vontade forem fortes os suficiente.

3. MÚLTIPLOS OLHARES

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QUESTÕES DE GÊNERO – Um dos pontos mais espantosos de Watchmen é justamente sua desconcertante atualidade. Já em fins da década de 1980, Alan Moore abordava temas importantes e constantemente debatidos hoje como as questões de gênero. Seja a homoafetividade, quando um simples cartaz “Lésbicas contra o estupro” é recusado de ser afixado por um senhor conservador ou na suposição de uma heroína homoafetiva e confirmada indiretamente por Sally Júpiter como algo normal no meio heroico.

Há ainda o papel da mulher-objeto na sociedade e nos quadrinhos. Essa última, estereotipada na visão de Sally Júpiter (Silk Espectre), heroína com roupas sexy, desejada por vilões e heróis e que acaba sendo estuprada por outro herói. O quadrinho deixa em aberto se ela sofreu violência sexual por causa de suas roupas e postura sensual. Ainda evidencia a ótica machista se ela teria gostado do ato, visto que termina se apaixonando pelo agressor e dizendo que ela pode ter provocado tal ato. Uma discussão bem atual.

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ESQUERDA E DIREITAWatchmen se passa durante a Guerra Fria e o fantasma do comunismo. Hoje os EUA vivem com o medo alimentado pelo terrorismo ou pela destruição dos valores morais. Na obra de Alan Moore é o duelo entre a ordem estabelecida liderada pelo capitalismo contra a ameaça esquerdista. Atual não? Inclusive, já na década de 1980, expressões como “direitista” e “esquerdista” eram intensamente usadas. Alan Moore nos apresenta justamente a seguinte tese: em uma sociedade que perde seus valores basilares, a sensação de instabilidade social faz renascer velhas ideologias, receios e autoritarismos.

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CONTRACULTURA – A narrativa se passa em uma época efervescente para a juventude que contestava o sistema, o militarismo e provava substâncias entorpecentes ao som da música hippie. Adrian Veidt, Ozymandias, fala que sua vida mudou após provar haxixe no deserto: “Um resultado foi uma visão que me transformou”.

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RACISMO – Além de acenar para a questão da supremacia branca defendida por jornais, mostra o cotidiano de pessoas comuns segregando e julgando negro, principalmente na figura de um jornaleiro que é ao mesmo tempo conservador, misógino e preconceituoso. Enquanto outros heróis e americanos talentosos desaparecem, a mídia defende, inclusive, a supremacia racial vem a tona com o elogio a Ku Klux Klan (também conhecida como KKK ou simplesmente “o Klan”).

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NARRADOR – Um dos pontos mais interessantes de Watchmen é justamente a narração, a consciência de cada personagem. Ler o Diário de Rorschach e conhecer as opiniões ácidas do personagem é um dos pontos altos da HQ. O Diário só aparece quando ele protagoniza a história. Quando outro personagem é o foco, muda-se o estilo de escrita. Por exemplo, a narração (o fluxo da consciência) do Dr. Manhattan é azulado como sua pele e com cenas sobrepostas do passado, do presente e do futuro. E por aí vai, dando um caráter muito pessoal e uma vivacidade para cada herói.

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4. TIPOLOGIA TEXTUAL E CITAÇÕES
A cada edição, o leitor mergulha não só na arte sequencial, mas também precisa ler diversos tipos de texto ao final de cada parte. Assim, cada edição é composta por dois atos (ou capítulos) e segue de perto algum personagem e sua perspectiva. Ao término de cada ato, podemos ler autobiografias, relatórios, recortes de jornal, reportagens. Há uma prosa extremamente vasta que complementa as partes obscuras da HQ. São os extras, tão comuns em DVDs e Blue-Rays.

Outro ponto interessante é que cada ato é fechado, geralmente, por uma citação famosa que é a cereja do bolo e sintetiza os acontecimentos de cada parte da história ou faz referência ao título do capítulo em questão. Abaixo, segue uma lista dos extras e citações que aparecem na minissérie. Saliento que por mais que você se sinta tentado a desconsiderá-los, leia-os. Deixará sua experiência em Watchmen ainda mais completa. Se for música, coloco o link para apreciação.

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Edição 1
EXTRA – Trechos da Autobiografia de Hollis Mason, “Sob a Máscara”, enfocando o período no qual ele se tornou o aventureiro mascarado Nite Ownl (Coruja Noturna I).

CITAÇÕES:
Ato 1: À meia-noite, todos os agentes… À meia-noite, todos os agentes e super-homens saem à procura daqueles que sabem mais do que eles próprios. (Bob Dylan, Desolation Row)
Ato 2: Amigos ausentes E eu desperto enquanto o amanhecer está surgindo, apesar de meu coração está dolorido. Eu devia estar bebendo em honra aos inimigos ausentes, ao invés destes comediantes. (Elvis Costello, The Comedians)

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Edição 2
EXTRA: Mais alguns trechos da autobiografia de Hollis Mason, “Sob a Máscara”, mostrando o declínio do heroísmo. Há ainda o início da obra “Dr. Manhattan: superpoderes e as superpotências” do professor Milton Glass que avalia a importância deste herói científica e socialmente.

CITAÇÕES:
Ato 1: O Juiz de toda a Terra Não deve o juiz de toda a terra agir com justiça? (Gênesis, capítulo 18, versículo 25)
Ato 2: Relojoeiro A liberação da bomba atômica mudou tudo, exceto nosso modo de pensar. A solução para esse problema está na cabeça da humanidade. Se eu soubesse, teria me tornado um relojoeiro. (Albert Einstein)

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Edição 3
EXTRA: Capítulo 5 da Ilha do Tesouro, extraído da Coleção Tesouro em Quadrinho (Flint Editions, Nova Iorque, 1984). Essa narrativa de pirata, lida por um jovem na banca de jornal, alterna entre os eventos de Watchmen que tem Rorschach como protagonista.
A parte 2 ainda conta com a análise preliminar do processo de Walter Kovacs, Rorschach, além do relatório do Hospital Psiquiátrico do Estado de Nova Iorque e cartas e desenhos ainda da infância do herói no Lar Charlton.

CITAÇÕES:
Ato 1: Espantosa simetria
Tigre, Tigre, brilho flamejante nas florestas da escuridão. Que imortais olhos ou mão poderiam criar tão espantosa simetria? (William Blake)
Ato 2: O abismo olhará Não combata os monstros, temendo tornar-se um deles. Se você olhar dentro do abismo, o abismo olhará dentro de você. (Friedrich Wilhelm Nietzche)

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Edição 4
EXTRA:
Primeiro o artigo científico, “Sangue do ombro de Pallas”, publicado no Jornal da Sociedade Ornitológica Americana (1983) no qual Daniel Dreiberg (Coruja Noturna II) mostra seu conhecimentos sobre pássaros, sua predileção pela coruja como símbolo de sabedoria e justiça, avatar da própria deusa Atena.
Já o segundo extra é a edição de 31 de outubro de 1985 do jornal New Frontiersman, considerado por seu opositores como periódico conservador. Mostra a paranoia comunista da mídia em torno dos acontecimentos de Watchmen.

CITAÇÕES:
Ato 1: Um irmão para os dragões
Sou um irmão para os dragões, e um companheiro para as corujas. Minha pele está negra, e meus ossos ardem com o calor. (Jó, capítulo 30, versículos 29-30)
Ato 2: Velhos fantasmas No Halloween, os velhos fantasmas aparecem, mas eles só falam para alguns; para outro, são mudos. (Halloween, Eleanor Farjeon)

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Edição 5
EXTRA:
Recortes do jornal Mundo Diário que falam sobre a carreira de Sally Júpiter. Heróis e vilões desejavam possuí-la e ela resolve levar sua sensualidade para o cinema. Há bilhetes e cartas com o pessoal da produção do filme e como este fora um fracasso de crítica. Além de uma entrevista, com ela já mais velha, concedida a revista Perfil na qual revela seus sentimentos em relação ao estupro.
Já o segundo extra revela as transações comerciais de Adrian Veidt: sua linha de figuras de ação e de cosméticos. E não poderia faltar um anúncio de seu curso coaching, o Método Veidt, para melhorar a autoconfiança, ser um herói e vencer na vida.

CITAÇÕES:
Ato 1: Uma luz nas trevas
Pelo que podemos perceber, o único propósito da existência humana é acender uma luz nas trevas da mera sobrevivência. (C.G. Jung, Memórias, Sonhos e Reflexões).
Ato 2: Dois cavaleiros se aproximam Lá fora, nem longe, um gato ruge, dois cavaleiros se aproximam e o vento começa a soprar. (Bob Dylan, All Along the Watchtower)

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Edição 6
Extra:
Uma entrevista que Adrian Veidt, Ozymandias, concede a Nova Express. O título “Depois do Mascarado” parece ser o contraponto com a autobiografia de Hollis Mason “Sobe a Máscara”. Aqui conhecemos a filosofia e a cabeça do último dos heróis. Este é também o último conteúdo extra da minissérie.

CITAÇÕES:
Ato 1: Veja minha obra, ó poderoso…
Meu nome é Ozymandias, rei dos reis: Veja minha obra, ó poderoso, e perca a esperanaça! (Percy Byshee Shelley, Ozymandias)
Ato 2: Um mundo forteSeria um mundo forte e adorável para se morrer.  (John Cale, Sanities)

5. CURIOSIDADES

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I. Referências Marvel e DC – Sem dúvidas os personagens de Watchmen são inspirados nos quadrinhos de ambas as empresas, não só pelo fato de Alan Moore ter sido colaborador das mesmas, mas também para inserir sua crítica e problematizar. Assim o Comediante possui elementos do Pacificador (DC) e Nick Fury (Marvel). O Dr Manhattan lembra o Capitão Átomo (DC) por sua capacidade de manipular a física quântica. Se o Coruja Notuna lembra o primeiro Besouro Azul e o Batman (DC); Ozymandias parece inspirado em Thunderbolt e Laurie, Silk Espectre, foi inspirada na Lady Fantasma da extinta editora Quality Comics e na Canário Negro (DC). Por fim, claro, Rorschach que se percebe traços do Questão (DC) e do Mr. A da Chalton Comics.

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II. Vamos jogar um jogo… A ideia do filme Jogos Mortais (2004) de fazer um criminoso serrar a própria perna para poder se salvar possui, justamente, um antecedente em Watchmen (1988). Rorschach oferece ao assassino de uma menininha uma solução: morrer queimado ou serrar sua própria perna para sobreviver. Bem, como se ele tivesse tanta escolha.

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III. Senhor presidente! Apesar de ser uma obra e ficção, há um personagem real na trama: o presidente Nixon. Ele é retratado como governante autoritário e que teria dado um golpe para governar um terceiro mandato consecutivo, algo proibido pela Constituição Americana. Ele está à frente da guerra travada com o Afeganistão e aparece na quinta edição da minissérie, no capítulo Dois cavaleiros se aproximam.

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IV. O nó górdio – Ozymandias é um personagem cujo nome já remete ao epíteto de Ramsés II, faraó egípcio do Reino Novo ‎(1279 a 1213 a.C.) e pertencente a XIX dinastia. Mas suas motivações são inspiradas nos feitos de Alexandre, o Grande, conquistador grego da Ásia (332 a.C. – 323 a.C.). Sua juventude e determinação inspiraram Adrian Veidt, inclusive na história do nó górdio, um desafio proposto pelo Rei da Frígia. Era um nó impossível de desatar e um monumento à força babilônica. O rei grego desatou com um golpe de espada. Assim, “Adotando o nome grego de ‘Ramsés Segundo’ e o espírito aventureiro de Alexandre, resolvi aplicar os ensinamentos da Antiguidade no mundo de hoje. E assim começou a minha trilha para a conquista dos demônios que perseguem os homens…”

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V. Até o Brasil? A questão da dívida externa do Brasil, sim, daqui, aparece na história de Watchmen e nos coloca em perspectiva com os confrontos armados da Guerra Fria: “Despesas com armamento fomentam elevadas taxas de juros para empréstimos internacionais. Deste modo, países como o Brasil estão em dificuldade para saldarem suas dívidas”. Parece que as coisas não mudaram muito desde a década de 1980.

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6. O UNIVERSO ESTENDIDO
Envolvendo e ampliando o universo da clássica minissérie de Alan Moore, há a ótima adaptação de Zack Snyder, já mencionada nesta crítica. Foi por meio do filme Watchmen (2009) que conheci o mundo criado por Alan Moore. Até onde me lembro, extremamente fiel a história em quadrinhos. Para quem não tem ainda a HQ em mãos, o longa-metragem pode ser uma obra introdutória.

Há ainda o controverso arco de histórias pequel (pré-sequência) lançado pela DC e repudiada pelo próprio Alan Moore: Before Watchmen (Antes de Watchmen). Nela podemos acompanhar as histórias das origens e acontecimentos pertinentes dos heróis e vilões que permeiam a minissérie clássica. Assim cada edição possui como foco um personagem, exceto as duas últimas. Em ordem de publicação, temos edições de: Coruja, Espectral, Rorschach, Dr. Manhattan, Comediante, Ozymandias, Dollar Bill & Moloch e, por fim, os Minutemen.

Ainda no campo dos quadrinhos, o universo de Watchmen termina por se integrar ao mundo da DC. Isso se mostra a partir da minissérie Doomsday Clock. Nela o Dr. Manhattan é responsável por alterar a realidade do Universo DC. Pistas já foram deixadas desde a edição 50 da HQ da Liga da Justiça como o estranho método de desintegrar os inimigos. Muitos pensaram que o Dr. Manhattan fosse o criador do multiverso DC, mas ele só foi responsável por alterá-lo.

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E, claro, há a recente série televisiva da HBO que “apresenta uma visão atualizada do mundo, onde justiceiros mascarados transitam constantemente pela delicada linha que separa o bem do mal em uma sociedade que os despreza” (sinopse oficial). Almejamos, analisar estes universos estendidos no devido tempo. Afinal, é meio difícil se despedir do mundo criado por Alan Moore.

7. CONCLUSÃO (Quem vigia os vigilantes?)
Quando nos deparamos com o Watchmen nossos conceitos sobre heroísmo e as motivações para a prática do mal são atualizadas e questionadas. Para além de uma simples paródia do mundo heroico, investigando seus estereótipos e enredos recorrentes, a obra de Alan Moore lança luz sobre a própria condição humana frente as adversidades. A certa altura, Ozymandias, teoriza sobre a humanidade:

“Creio que certas pessoas realmente querem, mesmo que no subconsciente, o fim do mundo. Elas querem se livrar da responsabilidade de manter este mundo, querem se livrar do esforço necessário para realizar tal futuro. E, naturalmente, há outras que querem muito viver. Eu vejo a sociedade do século vinte como uma espécie de raça entre o esclarecimento e a extinção.”

Outro ponto marcante é que Watchmen situa a arte sequencial (HQ) como lugar para crítica e reflexão para além dos simples meio de diversão juvenil. É um quadrinho adulto e filosófico. Não espere cenas de ação repletas de onomatopeias e frases de efeito. A obra de Alan Moore se presta a analisar o fator humano e desmascarar os heróis ideais que povoam o imaginário atual. Em uma época de blockbusters Marvel, das rendas milionárias que a indústria de quadrinhos arrecada no cinema, Watchmen se fixa como objeto artístico da mais elevada magnitude.

Claro que algumas soluções da trama são dadas rápidas de mais e não estão à altura do suspense que a história evoca, no entanto a jornada, meus amigos, é brilhante. E se cada capítulo de Alan Moore fecha com uma citação, as vezes musical, finalizo a crítica com versos que acho que resumem o que podemos esperar de Watchmen:

Quem ocupa o trono tem culpa
Quem oculta o crime também
Quem duvida da vida tem culpa
Quem evita a dúvida também tem

(Engenheiros do Hawaii, Somos quem podemos ser)

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A ORIGEM DO CORINGA (HQ)

Analisamos três momentos dos quadrinhos em que o palhaço de Gotham City revela um pouco de seu passado. Será mesmo?

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1. BATMAN E ROBIN, O MENINO PRODÍGIO (1940)
A primeira edição de Batman, na primavera de 1940, com arte de Bob Kane, é fundamentada na perseguição ao Coringa. Um vilão sem pudores de matar para conseguir alcançar seus objetivos. Naquela época o grande meio de comunicação era, justamente, o rádio. E é por ele que o palhaço de Gotham City anuncia que à meia noite assassinará o milionário Henry Claridge. O primeiro de muitos que ele cometerá por meio de sua toxina cuja marca é afetar os músculos da face formando um sorriso macabro.

Há uma origem na origem? (Spoilers)
Descobrimos que a motivação dos sucessivos assassinatos são para roubar joias a não ser por uma das vítimas: o juiz Drake. O Coringa sentencia pelo rádio  que “O juiz Drake, um dia você me mandou  para a prisão e por isso morrerá! Sua morte chegará às dez horas! Eu sou o Coringa”. E este é o único dado relevante sobre o passado do vilão.

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Para o leitor mais moderno, esse quadrinho da década de 1940 vai parecer pouco empolgante, tanto pelo traço como pelo enredo e roteiro. Não parece uma aventura digna do Coringa no que se refere a muitos aspectos. Podemos citar o fato do Batman demorar muito para agir e meramente escutar pelo rádio os anúncios dos crimes. Outro ponto é o fato da história ser repleta de piadas pastelão que nos lembram muito o seriado protagonizado por Adam West na década de 1960 tais como: “Você pode ser o Coringa, mas eu sou Rei de Paus”. Mas é aqui que é cunhado tanto o gosto sádico do palhaço pela violência como a famosa frase indignada contra o Batman:

Morra… Maldito… Morra! Por que você não morre?

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2. A PIADA MORTAL (1988)
Sem sombra de dúvidas quando falamos da HQ mais clássica estrelada pelo Coringa, todo admirador da arte sequencial considera a obra de Alan Moore a mais significativa. Não só pelo tom sombrio com que o roteirista costuma abordar os heróis, como assim o faz em Watchmen (1986-1987), mas por ainda contar com o fantástico traço de Brian Bolland.

A narrativa parte da pergunta inicial feita pelo próprio Batman: qual será o fim do eterno embate entre ele e o Coringa? Eles acabarão por se destruir? Mas para o palhaço de Gotham City, talvez isso não seja a grande raiz do problema. O importante é investigar em que momento a loucura nasce em alguém. O Coringa entende que basta um dia ruim para transformar qualquer um em um louco de máscara de morcego ou vestido de palhaço.

Assim ele foge da prisão e a fim de testar sua teoria com o íntegro comissário Gordon. Enquanto trama seus atos maldosos, relembra o dia em que se tornou o arqui-inimigo do homem-morcego à medida que raciocina sobre sua própria condição insana. Caberá ao Batman levar a lucidez ou a loucura para frustrar os planos do Coringa.

O atentado a Bárbara Gordon (spoiler)
Batman resolve visitar o Asilo Arkhan para questionar o Coringa sobre como seria o fim de ambos, se no final acabariam por matarem-se. Ele não estava mais lá. Alegremente, o palhaço comprava um parque de diversões caindo aos pedaços. Na verdade matava seu dono que sorriria para sempre devido a toxina do Coringa. A partir daí o foco da história passa a ser o Coringa e assim temos acesso às suas memórias em flashbacks em preto e branco como um filme antigo.

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Após anos de conflitos, Bruce Wayne conversando com seu mordomo Alfred, admite que não sabe nada sobre o Coringa, que um não da sabe nada sobre o outro e cultivam esse ódio recíproco. Longe dali, enquanto recorta notícias de jornais, entre elas a da primeira aparição do palhaço, o comissário conversa com sua filha Bárbara. “Quando você descreveu o rosto branco e os cabelos verdes eu era criança e fiquei morrendo de medo.”, afirma a jovem indo atender à porta. Era o Coringa. Um tiro. A garota atingida na cintura cai sobre uma mesa de centro de vidro.

O comissário, pego de surpresa, é nocauteado. Com a garota provavelmente paraplégica, sangrando, o palhaço segura um copo de uísque e lentamente começa a despir a garota “Pra provar um coisa. Que o crime compensa”.

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Sabemos que ele fotografa Bárbara nua e em posições sugestivas. Ela chora. Tem sangue por todos os lados. Ele a estuprou? A HQ não deixa claro, mas só essa sugestão fez com que essa história ficasse censurada por um bom tempo (leia aqui). O plano de palhaço era com o pai acorrentado, no trem fantasma do parque de diversões, exibir sua filha em desgraça e assim enlouquecer o brando comissário Gordon. Não conseguiu. Quando o Batman o salva, o policial evidencia que a lei está acima de tudo e qualquer coisa. Quer que o herói o prenda, que não o mate. Será que o comissário não foi íntegro demais? Será que isso, em si, não é também loucura?

Na batalha final contra o morcego de Gotham City, enfim o Coringa resume sua teoria sobre a loucura:

“Sabe, eu estou pouco ligando se vai me levar de volta para o asilo… Gordon enlouqueceu mesmo… minha teoria está provada. Demonstrei que não há diferença entre mim e outro qualquer! Só é preciso um dia ruim pra reduzir o mais são dos homens a um lunático. É essa a distância que me separa do mundo. Apenas um dia ruim. Você teve um dia ruim uma vez, não é? Eu sei como é. A gente tem um dia dia ruim e tudo muda. Senão, porque você se vestiria como um rato voador?”

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A origem por Alan Moore (spoiler)
Depois de pedir demissão do emprego de assistente de laboratório (o que explica sua habilidade química), resolveu seguir a carreira do humor. Pelos flashbacks, descobrimos que o Coringa era um comediante sem sucesso, de piadas que ninguém ria.  Sua vida era envolta em dívidas e estava prestes a ser despejado. Sua esposa, então grávida, parecia ser a única acreditar no talento dele.

Desesperado, faz um trato para ajudar mafiosos a invadir uma fábrica de baralhos passando pela Indústria Química ACE que o Coringa trabalhava. Era uma forma de fazer um dinheiro rápido para Jeannie e se futuro filho. Para seus comparsas, a melhor forma de não chamar atenção era fantasiar o comediante fracassado como se ele fosse o Capuz Vermelho, e assim colocar a culpa nesse bandido caso fossem pegos.

Mas a esposa do Coringa morre em um acidente doméstico. Sem mulher e sem filho, prestes a desistir de invadir a fábrica de baralhos, ele é obrigado por seus comparsas. Naquele dia ruim, palhaço não tinha mais nada a perder, a não ser prosseguir com o plano.

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Naquela fatídica noite, as coisas saem de controle: os seguranças da indústria química frustram os três criminosos. Um dos comparsas, morre de imediato. Um agoniza e enquanto morre, acusa o Capuz Vermelho de ser o líder. E assim o palhaço disfarçado corre, foge, até ser perseguido pelo próprio Batman. Assustado pula em dos tanques químicos. Salva a vida, perde a sanidade. Mas isso é envolto em incertezas, não sabemos se os flashbacks são memórias genuínas. O Coringa então em longo discurso, na batalha final contra o Batman, diz:

Se eu vou ter um passado, prefiro que seja de múltipla escolha! Ah, ah, ah!

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3. O HOMEM QUE RI (2005)
Com o relançamento do universo DC após os eventos Crise nas Infinitas Terras de 1987 em diante, tornou-se necessário atualizar as origens do palhaço de Gotham, trazer o personagem para o mundo de Batman – Ano Um de Frank Miller. Em busca de uma origem mais realista para o Coringa, o roteirista Ed Brubaker e o traço de Doug Mahnke, mostram o maior desafio do Batman depois de um ano desde sua chegada à caótica cidade. Os malucos mascarados ainda estavam só no início e seu embate mais rigoroso, até aquele momento, tinha sido contra o Capuz Vermelho.

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O Coringa de Doug Mahnke é intensamente inspirado no ator Conrad Veidt, do filme clássico expressionista alemão O homem que ri (The Man Who Laughs, 1928), o que explica, também, o título desta Graphic Novel. No longa-metragem alemão, Conrad vive um homem desfigurado que passa o tempo todo rindo e por fim torna-se uma atração de circo.

Mas voltando ao quadrinho, após fazer uma chacina utilizando a toxina, que literalmente, faz morrer de rir, o misterioso palhaço começa a interromper a programação televisiva e, aparentemente, escolher suas vítimas entre os figurões de Gotham City de forma aleatória. A única pista é um poema pichado nas paredes de um banheiro:

Um de cada vez eles vão ouvir o meu gemido, e então esta cidade suja irá cair comigo.

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A narração dos eventos oscila entre as do, ainda capitão, James Gordon (assustado com o rumo da criminalidade que assola a cidade) e Bruce Wayne, intrigado e surpreso por combater um criminoso que é, ao mesmo tempo, insano e genial. Enquanto Batman anseia por respostas (“Mal posso imaginar o que se passa na cabeça dele.”), Gordon parece ser mais preciso em sua análise:

Está cada vez mais claro que lidamos com alguém cuja motivação se restringe a causar terror.

A origem por Ed Brubaker (spoiler)
Na verdade, Batman não estava preparado para a complexidade do Coringa. Afinal, quem estaria? Após Wayne ser ameaçado como uma das possíveis vítimas da fúria assassina do Coringa, Bruce injeta levemente a toxina para frustrar parte dos planos do seu arqui-inimigo e antecipar seus passos.

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Contudo, os assassinatos da high society de Gothan eram a distração. A ideia era colocar em prática  o plano macabro de matar todos os habitantes da cidade espalhando a toxina no sistema de abastecimento de água. Fazia parte da vingança insana do Coringa por ter se tornado o que se tornou. Batman, então, elucida a origem do palhaço de Gotham City:

“Eu acertei sobre as intenções do Coringa, só não entendi a natureza de seus desejos. Por outro lado, o poema explica tudo perfeitamente… Ele quer se vingar pessoalmente das pessoas que fizeram dele o que é. Em seguida, a cidade cairá com ele. O Coringa caiu em um tanque de substâncias tóxicas que foram derramadas em uma baia que deveria estar limpa. Agora, ele quer envenenar o suprimento de água de Gotham para que todos morram às gargalhadas. Em sua mente doentia, a população inteira é culpada simplesmente por estar viva.”

Para os fãs mais saudosistas, a queda em um tanque tóxico é justamente a versão da origem para o Coringa de Jack Nicholson na primeira adaptação cinematográfica do vilão lá no filme de 1989, Batman. Esta aventura ainda mostra o estreitamento dos laços entre o futuro comissário Gordon e como surgiu o famoso Bat-sinal.

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CONCLUSÃO: o famoso desconhecido
É inegável que há muito mais momentos em que descobrimos dados sobre o passado do Coringa, mas sempre será um tanto nebuloso. Podemos inferir de suas palavras a condenação injusta por parte de um juiz ou sua ligação com o dia em que se fantasiou de Capuz Vermelho e acabou caindo uma baia ou rio cheio de substâncias químicas que afetaram permanentemente sua sanidade. Nesse evento singular também foi forjada sua obsessão pelo Batman: ele fora responsável, mesmo que indiretamente, pelo que aconteceu ao Coringa. Se não fosse o homem-morcego tê-lo perseguido, o Coringa não teria fugido de forma tão desesperada e inconsequente. Pelo menos é isso que o palhaço acredita.

As histórias aqui analisadas conversam entre si, ou seja, possuem uma intertextualidade. A versão de Alan Moore não parece ter muita ligação com a origem de Bob Kane, mas nos mostra a psicologia do Coringa, extremamente rica por ele ser o protagonista da história. Tanto expõe a mente insana do palhaço disposto a tudo como, por meio de flashbacks (se reais), também conhecemos um pouco do homem que existiu antes do Coringa.

Nesse ponto, O homem que ri (2005) parece surfar na onda destes dois clássicos para revitalizar o arqui-inimigo do Batman. Nessa última HQ, o palhaço anuncia seus crimes pela televisão (e não pelo rádio) e assassina o mesmo Henry Claridge. Mas não por dinheiro e sim por prazer e vingança. Também nos mostra de forma indireta a origem do Coringa ligado ao fatídico mergulho nos produtos da Indústria Química Ace, fatos relatados nos flashbacks de Alan Moore em A piada mortal (1988).

Seja devido a um dia ruim, seja por vingança, isso acabou ou deturpou os valores morais do palhaço e o ligou a figura aterradora do Batman, o monstro que invade seus pensamentos. Talvez a grande piada de sua vida: um futuro desgraçado por um homem que se disfarça de morcego. O próprio Coringa entendeu que de todas as piadas contadas, o mundo era a pior. Assim, fechamos esta análise com a justificativa que o palhaço dá nas páginas de Alan Moore:

Mas o que eu quero dizer é… eu fiquei louco. Quando vi que piada de mal gosto era este mundo, preferi  ficar louco. Eu admito! E você?

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2019: A CENSURA NAS HISTÓRIAS EM QUADRINHOS

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O BISPO E O BEIJO
Nos últimos dias da Bienal de 2019, na Semana da Pátria, pipocou nas redes sociais a decisão da Prefeitura do Rio de Janeiro de vetar e retirar uma edição em brochura de Os Vingadores por, supostamente, possuir conteúdo impróprio para menores sendo vendido sem as devidas especificações da lei. Segundo o prefeito Marcelo Crivella, afirmou em suas redes sociais:

“A decisão de recolher gibis na Bienal do Livro teve apenas um objetivo: cumprir a lei e defender a família. De acordo com o ECA, as obras deviam estar lacradas, identificadas quanto ao seu conteúdo. No caso em questão, não havia nenhuma advertência sobre o conteúdo abordado.”

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A questão gira em torno de um beijo gay entre os personagens homoafetivos Wiccano e Hulkling, em uma história em quadrinhos de 2010, Vingadores: A Cruzada das Crianças. Assim, o recolhimento da HQ foi anunciado após o discurso do vereador Alexandre Isquierdo (DEM) na Câmara Municipal do Rio (04/09/119). Na declaração o político atacava a publicação como uma “covardia” às crianças e chama os colegas de Câmara a assinarem uma carta de repúdio contra Marvel, Panini e Salvat, editoras responsáveis pela publicação da história em diferentes momentos.

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Em busca do suposto material impróprio, funcionários vasculharam a feira. O gibi em questão já havia se esgotado uma hora após a polêmica vir à tona. Ao final da fiscalização, o subsecretário operacional da Seop (Secretaria Municipal de Ordem Pública), Wolney Dias, declarou em O Globo:

“— A prefeitura tem poder de polícia para isso — disse Wolney à imprensa presente no local. — Se o material não estiver seguindo as recomendações, ele será recolhido. Estamos seguindo a orientação da procuradoria da prefeitura. Eu não entendo que haja censura. Se for material pornográfico, oferecido sem as normas, será recolhido. ” (Leia na íntegra aqui.)

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UM BEIJO GAY É PORNOGRAFIA? COM A PALAVRA, O AUTOR
Fui surpreendido hoje ao descobrir que o prefeito do Rio de Janeiro decidiu banir a venda da minha HQ com Allan Heinberg, Vingadores: A Cruzada das Crianças, por supostamente conter material inapropriado.

Para aqueles que não estão familiarizados com a obra de 2010, a controvérsia envolve um beijo entre dois personagens masculinos. Não sei o que motivou o prefeito a buscar um material de mais de uma década e que esteve à venda durante todos os esses anos, mas posso dizer com honestidade que não houve motivações escondidas ou ideologias por trás do trabalho, que não promove nenhum estilo de vida em particular, e nem mira em um único tipo de público. A cena meramente mostra um momento carinhoso entre dois personagens que estão em um relacionamento estabelecido”, falou o artista sobre Wiccano e Hulkling.

O fato de que esta HQ, de mais de uma década atrás, só agora está sendo alvo de críticas pelo prefeito apenas destaca como ele está atrasado. A comunidade LGBTQ está aqui para ficar, e não tenho nada além de amor e apoio por aqueles que lutam por validez e uma voz a ser ouvida. Torço para que o belo povo do Brasil, uma nação diversificada e orgulhosa, veja além do ruído político e se foquem na luz e em formas de se unir, ao invés de ajudar a semear conflito e divisão.
(Tradução do Omelete, mas você pode acessar a publicação do autor no Instagram, aqui.)

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A CENSURA DE ONTEM: GOVERNO MILITAR
Inevitavelmente, quando o assunto é censura, relembramos nossas aulas de História (se você for jovem) ou aos eventos vividos durante os governo militares (1964-1985). Podemos definir censura como:

“análise, feita por censor, de trabalhos artísticos, informativos etc., ger. com base em critérios morais ou políticos, para julgar a conveniência de sua liberação à exibição pública, publicação ou divulgação.”

Eu nasci já no fim deste período e vivi minha infância na abertura política que culminaria com o Movimento Diretas Já. Não é preciso ser um expert em historiografia para saber que era comum a censura da produção artística e não falo só das músicas de Chico Buarque (que a gente aprende na escola). Segundo o jornalista Zuenir Ventura, enquanto vigorou o AI-5 (Ato Institucional 5), em seus 10 anos (1968-1978), cerca de 500 filmes, 450 peças, 200 livros e mais de 500 letras de música foram proibidas.

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“Os critérios eram obscuros: cenas de sexo, palavrões e a sugestão de propaganda política eram as justificativas mais comuns, mas pretextos vagos, como “atentado à moral e aos bons costumes” e “conteúdo subversivo”, também eram usados. O órgão responsável era a Divisão de Censura de Diversões Públicas, que durou até 1988, ano em que a Assembleia Nacional Constituinte pôs fim à censura.” (Superinteressante, acesse aqui)

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No que se refere aos quadrinhos, muitas obras sofreram censura devido a conteúdos políticos (na maioria dos casos) ou morais. O semanário O Pasquim (1969-1991), com um jeitão de jornal sério e paródia, contava com nomes como Jaguar e Ziraldo, sofreu por diversas vezes censura prévia e teve alguns de seus colaboradores presos na década de 1970.

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As histórias em quadrinhos e cartuns de Carlos Zéfiro e Henfil também sofreram perseguição. O primeiro, publicando sua obra em total anonimato até de seus familiares, só teve sua identidade revelada em 1991, um ano após a sua morte. Ele abordava histórias eróticas que desafiavam o conservadorismo vigente. Já Henfil, um dos principais opositores ao Golpe (ou Revolução para alguns) de 1964, viveu no exílio, nos EUA, devido ao conteúdo social e político de suas obras. Lá continuou com seu trabalho em periódicos estadunidenses.

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Um último exemplo, é o quadrinho Rango de Edgar Vasquez, que apareceu pela primeira vez na Revista Grilus do diretório acadêmico da Faculdade de Arquitetura da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em que o artista estudava. A partir de 1973, ocupava espaços em alguns jornais como O Pasquim e Folha da Manhã.

“Criado em 1970, Rango é um desempregado barrigudo, sem dinheiro e que vive num depósito de lixo, numa crítica às desigualdades sociais do Brasil. Os quadrinhos do Rango, um anti-herói das tiras nacionais, simbolizaram a resistência à ditadura militar e, passados mais de 30 anos, continuam modernas em sua crítica à desigualdade social.” (Universo HQ)

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A CENSURA DE ONTEM: EUA E A “SEDUÇÃO DO INOCENTE”
Se por ou um lado, por aqui, a temática que movimentava os censores era política, pois se opunham ao poder militar vigente, nos Estados Unidos o principal alvo de críticas era justamente a violência e a sexualidade presentes nas HQs. Na década de 1950, a publicação de Seduction of the Innocent (Sedução do Inocente), do psiquiatra Fredric Wertham, ao logo de seus 14 capítulos, responsabilizava a indústria de quadrinhos pelos graves problemas da juventude da época. Ele alegava que os quadrinhos daqueles tempos (voltados principalmente para histórias policiais e de terror) influenciavam a problemática do desvio do comportamento sexual e o aumento da criminalidade e da delinquência. Em tom histérico e exagerado, empreendia uma “caça as bruxas” aos moldes do Senador Joseph McCarthy, que o fizera anos antes sob o pretexto de acusar de traição e subversão sob pretexto anticomunista tudo quanto era arte.

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Dentre as ideias desenvolvidas por Wertham, por exemplo, estava a de que havia insinuação de uma relação homossexual latente entre Batman e Robin, de que o Super-Homem era fascista e antiamericano e que a independência e força da Mulher-Maravilha fazia dela uma lésbica, dentre outros. O livro nunca fora publicado no Brasil, mas suas quase 400 páginas estão disponíveis por aí na rede.

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Com base nas análises do psiquiatra, a ação censora, liderada pela CMAA (Comics Magazine Association of America), fez com que aos poucos se desenvolvesse um selo de censura chamado Comics Code Authority. “O código era absurdamente específico em relação a certos aspectos e temas, era demasiado moralista, reacionário e se dizia proteger instituições sagradas da sociedade, como o casamento”, afirma Alexandre Callari, escritor e tradutor.

O código era uma iniciativa privada e não tinha qualquer autoridade legal, sendo que os quadrinhos poderiam continuar sendo legalmente publicados. Todavia devido a polêmica e repercussão pública, muitas distribuidoras se recusavam a comercializar produtos com os selos, o que inviabilizavam as vendas.

Durante décadas, o “Comic Code Authority”, criado pela Associação Americana de Revistas em Quadrinhos, minou a outrora lucrativa indústria das HQs pornográficas e de terror. “A partir daí, os quadrinhos, que sempre tiveram histórias densas, se infantilizaram, criando uma ‘pecha’ que perdura até hoje”, explica a cineasta Gabriela Franco, criadora do portal Minas Nerds. (via MSN)

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O código só perdeu força quando em 1971 o Departamento de Saúde do governo estadunidense encomendou uma história em quadrinhos, solicitou a Stan Lee uma HQ do Homem-Aranha que envolvesse o problema do uso de drogas. Mesmo com a negação de John Goldwater, responsável pela publicações na época, Stan Lee seguiu em frente e resolveu publicar sem o selo de autorização já que tinha sido contratado pelo próprio governo. Assim a história saiu de maio a julho de 1971, na revista Amazing Spider Man 96-98, tornando-se um grande sucesso vendas e fazendo com que o Comics Code Authority perdesse sua força depois décadas de perseguição.

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A CENSURA NOSSA DE CADA DIA
Não se deixe enganar: não estamos livres hoje de viver um paraíso da liberdade de expressão na arte sequencial. Lá na terra o Tio Sam ainda se sentem os reflexos de anos de repressão a liberdade no quadrinhos. A graphic novel A piada mortal (1988) de Alan Moore, sofreu censura por insinuar em sua páginas, um suposto estupro da filha do comissário Gordon pelo Coringa. Já Neil Gaiman também sofreu com seu clássico Sandman:

Primeira HQ a entrar na lista de best-sellers do New York Times, a saga de Sonho, criada pelo roteirista britânico Neil Gaiman, sempre foi vista como subversiva. Desde seu lançamento, em 1989, a obra enfrentou problemas nas bibliotecas americanas, por conter linguagem ofensiva e ideias “contra a família”. Então, em 2010 a American Library Association (ALA) chegou a listar Sandman como a “mais frequentemente banida e desafiadora graphic novel de todos os tempos”. (via MSN)

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Além de Elektra, da Marvel, publicações como Persepolis (2000), a venda também na Bienal de 2019, que conta a história da jovem iraniana Marjane Satrapi e sua infância marcada pela revolução em seu país, foram vetadas recentemente nos EUA. Em 2013, o governo de Chicago ordenou que as escolas públicas recolhessem todos os exemplares de Persepolis. No ano seguinte, no Texas, a obra foi banida por ser considerada “literatura iraniana” – embora a proposta da trama seja, justamente, denunciar os movimentos fundamentalistas islâmicos.

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Atualmente o Brasil, não só com a questão Crivella, parece flertar com a ideia da censura dos quadrinhos. Além do caso da Bienal do Rio, em 2019, a arte que ilustra capa do romance gráfico Castanha do Pará, vencedor do Prêmio Jabuti, teve sua divulgação vetada em uma exposição em Belém. Os espectadores se sentiram incomodados pela imagem retratar um policial militar perseguindo o protagonista nas ruas, pois afirmavam que “se sentiram incomodados com a cena de violência, no espaço que é frequentado por crianças”. O autor, Gidalti Oliveira Moura Júnior, afirmou ao Nexo:

“A obra é ficcional, tem caráter lúdico e expõe situações rotineiras nas metrópoles brasileiras. Quem a compreendeu como apologia ao crime e/ou a desmoralização da polícia militar, o faz de forma leviana e sem ao menos ler o livro”.

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HOJE, O QUE A CONSTITUIÇÃO FEDERAL BRASILEIRA E A LEI DIZEM?
Quando analisamos a nossa Constituição em comparação a outras ao redor do mundo, ela é recente e data do ano de 1988, período de abertura política quando saíamos da Ditadura Militar (ou Regime para alguns). Sim, é uma Constituição jovem se tivermos como a parâmetro a Americana, a mesma desde 17 de setembro de 1787. E nem é nossa primeira, mas a sétima versão desde que o Brasil se tornou independente em 1822 (Confira aqui todas as versões). Após décadas de repressão, sobre a produção artística seja ela de oposição aos militares, seja no que se refere a sexualidade, a Carta Magna (a CF) tenta primar por caminhos mais democráticos na expressão ou construção do pensamento do povo. Dois parágrafos são extremamente importantes nesse contexto:

“é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença” (art. 5º, inciso IX);
“é vedada toda e qualquer censura de natureza política, ideológica e artística” (art. 220, § 2º).

Assim, nenhuma legislação reconhecida pelo Direito brasileiro poderá instituir qualquer tipo de censura. Quando falamos, por sua vez, de classificação indicativa, muito comum em filmes, séries, programas de TV (materiais audiovisuais), o próprio Estado se preocupa em não vetar, mas mostrar a importância da família em escolher o conteúdo, como nos mostra a cartilha CLASSIFICAÇÃO INDICATIVA – Informação e Liberdade de Escolha (2009):

“Classificação Indicativa não é censura e não substitui a decisão da família. A classificação é um processo democrático, com o direito à escolha garantido e preservado. O Ministério da Justiça não proíbe a transmissão de programas, a apresentação de espetáculos ou a exibição de filmes. Cabe ao Ministério informar sobre as faixas etárias e horárias às quais os programas não se recomendam.” (Leia aqui na íntegra)

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O amigo leitor pode me questionar: mas quando o assunto são livros e quadrinhos, onde que toda essa ideia de censura ou classificação indicativa entra? Quando a questão envolve as crianças e adolescentes, precisamos prestar atenção no que diz o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente, legislação de 1990), que aborda o tema nos artigos 74 a 80. Destaco:

“As revistas e publicações contendo material impróprio ou inadequado a crianças e adolescentes deverão ser comercializadas em embalagem lacrada, com advertência de seu conteúdo. […] As editoras cuidarão para que as capas que contenham mensagens pornográficas ou obscenas sejam protegidas com embalagem opaca.” (Lei aqui o ECA)

Porém ainda segundo o Estatuto da Criança e do Adolescente, sobre aquilo que pode ou não estar presente em uma publicação além das determinações explícitas (não ter anúncios de bebidas alcoólicas, armas, munição), há aquelas de caráter subjetivo como conta no artigo 79: “deverão respeitar os valores éticos e sociais da pessoa e da família”.

Segundo o Pedro Hartung, coordenador do programa Prioridade Absoluta do Instituto Alana, em entrevista concedida a BBC (lei aqui),

“A lógica protetiva está sendo capturada para fundamentar visões subjetivas e pessoais sobre a realidade. Sobre a produção de conteúdo, o ECA também deve ser lido dentro de outros parâmetros, como a liberdade de expressão e o direito das crianças e adolescentes de viver em um ambiente plural, com acesso à cultura, à informação e às liberdades.”

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CONCLUSÃO: O superpoder (de decisão) é seu!
Quando se trata de Histórias em Quadrinhos (HQs), a Constituição Federal permite que sejam resguardados os direitos de liberdade de expressão e que não haja censura de natureza política, ideológica ou artística. No entanto caso a obra aborde um conteúdo violento ou pornográfico, além de possuir uma classificação indicativa, é preciso proteger a embalagem e lacrá-la de acordo com a lei. Mas acima de tudo, tratando-se de material audiovisual ou escrito e ilustrado, cabe a família, em âmbito privado, decidir aquilo que suas crianças e adolescentes podem consumir. Esses critérios podem ser pessoais (subjetivos) que vão desde uma suposta orientação política, ou doutrina religiosa, entre outros. Mas sempre resguardando que é algo privado, uma decisão própria. Assim desde que não haja pornografia ou outro tipo de violência, ou que obedeça classificações indicativas, você compra uma HQ se você quiser. Se não concorda com o conteúdo, simplesmente procure algo que lhe agrade.

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UM FIM PARA O BATMAN? (HQ)

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A morte não é o fim. Pelo menos quando se trata de heróis ou vilões de histórias em quadrinhos (HQs). O ciclo de renascimentos de protagonistas e antagonistas confere sempre uma renovação, um retorno às origens ou mesmo uma guinada totalmente surpreendente nos rumos da história. Por vezes o fim da vida de um herói pode se prestar a reflexões filosóficas não só do próprio personagem, mas refletir nossa própria forma de ver o mundo e a tensão entre o bem e o mal. Nesse sentido, Neil Gaiman parece realizar a proeza de filosofar em torno do personagem da DC mais sombrio (para mim o melhor, também). O que aconteceria se o homem-morcego de Gothan City tivesse morrido?

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O QUE ACONTECEU AO CAVALEIRO DAS TREVAS?

Para o escritor e roteirista inglês Neil Gaiman, ter a chance de escrever sobre a morte do Batman culminou o fechamento de um ciclo, tanto pessoal como profissional. Não que ele fosse um roteirista comum da revista Detective Comics: ele fora convidado para criar a última história dessa tiragem de quadrinhos. “Eu poderia realmente escrever a última de todas as histórias”, afirmou empolgado, Gaiman. Para o roteirista era ter em mãos o personagem que primeiro lhe inspirou a carreira nos quadrinhos, visto que sua paixão inicial fora o Batman de Adam West, da série da década de 1960.

022_02Quando o editor Dan DiDio entrou em contato com Neil Gaiman, o quadrinista viu a oportunidade de fazer aquilo que Alan Moore fizera com o Super-Homem em O Que Aconteceu ao Homem de Aço?, que funcionou como uma espécie de fechamento tanto das HQs Superman quanto da Action Comics. Mas a abordagem de Gaiman tinha que ser fiel à trajetória do Cavaleiro das Trevas e foi essa reflexão que guiou as linhas de O que aconteceu ao Cavaleiro das Trevas?

“As histórias do Batman não terminam com sorrisos e piscar de olhos. Batman sobreviveu a muitas eras e irá, certamente, sobreviver a muitas outras. Se você estiver pensando em contar a última história do Batman, tem de ser algo que sobreviverá à morte ou desaparecimento atual do Batman, algo que continuará sendo a última história do Batman pelos próximos vinte ano, ou cem”, afirmou quadrinista inglês. Ele ainda completa:

“Por que se tem uma coisa que Batman é, é um sobrevivente. Ele ficará rondando por aí depois que todos nós partirmos. Então, o que poderia ser mais apropriado do que a história de sua morte?”

Assim, com o traço primoroso de Andy Kubert, Gaiman intentou contar a última de todas histórias do Batman. Um projeto que ao mesmo tempo filosofa sobre a ligação intrínseca entre o Cavaleiro das Trevas e Gothan City, sua gênese e seu fim, ao mesmo tempo que homenageia grandes artistas que fizeram a história de Batman ao longo dos anos.

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BAT-VELÓRIO (Spoilers!)

Por meio da consciência do Batman (ou alma, entidade ou sei lá) somos conduzidos ao seu funeral. O local é o Beco do Crime, no fundos do bar, caindo ao pedaços, do morto Joe Chill que recebe Seline Kyle, a Mulher-Gato, com trajes da década de 1960. No entanto ela não é a única convidada. Aos poucos outros personagens chegam para o velório e assim se misturam não só os traços de outros desenhistas, imitados com maestria por Kubert, mas também enredos de histórias célebres do Homem-Morcego. Aqui aparece o Charada do seriado de Adam West, a Bárbara Gordon paraplégica e o Coringa da Piada Mortal de Alan Moore (1988), Arlequina da série animada da Warner (1992-1995), entre outros. Aqui, percebe-se o tom do enredo: os tempos, as realidades, os diversos Batmans e seus vilões, que desfilaram ao longo dos tempos e prestam suas condolências.

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Esta graphic novel é dividida em duas partes. Vemos, na primeira sessão, dois contos para a morte de Batman. Inicialmente, Selina Kyle sobe ao púlpito e conta suas memórias de como o herói teria morrido. O Conto da Mulher-Gato é narrado como uma história de amor malsucedida e, à medida que a narrativa evolui, dos traços de seus criadores Bill Finger e Bob Kane, até seus representantes mais modernos, conhecemos as idas e vindas do casal. A causa da morte, segundo Selina, fora sua omissão de socorro ao receber Batman em sua loja. Ressentida de não ter sido amada, deixou-o morrer após ter sido baleado.

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Já Alfred, o fiel e talvez ator-mordomo, toma a palavra e mostra como teria arquitetado todas as aventuras do Batman. Com a ajuda de uma trupe de atores, teria forjado todos os episódios a fim de ajudar o jovem e depois adulto Bruce Wayne a superar a morte de seus pais. Em O conto do cavalheiro de um cavalheiro, Neil Gaiman homenageia a série de TV que alegrara sua infância ao enfatizar que a história do heróis não passaria de uma fantasia do teatro ou televisão. Nesta versão, Batman teria morrido ao descobrir que toda sua vida fora uma grande ilusão. Ao tentar resgatar crianças sequestradas pelo Charada, desafiou o vilão a atirar nele. Pensava que era mais uma grade farsa de Alfred, mas não era. Morreu com um tiro no rosto, à queima-roupa.

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A versão de Selina remete ao fim de Robin Hood na literatura e, a de Alfred, a uma farsa motivacional. Mas qual a versão verdadeira? Nenhuma. Eis o fim da primeira parte. Fecha-se com o tiro do Charada, o maior enigma permanece: o que aconteceu ao Cavaleiro das Trevas?

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PARA ALÉM DA MORTE (ainda tem spoilers, viu?!)

O fluxo da consciência, a voz interior do Batman, observa seu funeral e o desfile de inúmeras versões para a sua morte contadas por inimigos e aliados. Robin (do ator Burt Ward), a certa altura, diz que “… ele era santo. Nunca desistia, haja o que houvesse, e fazia um milagre atrás do outro… até finalmente morrer por nós”. O messias de Gothan (uma clara alusão ao cristianismo) é também uma referência ao homem-morcego que escapava ao final de cada bat-episódio e que o jovem Gaiman deveria esperar para ver a conclusão na semana seguinte.

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Batman se reconhece nestas narrativas, discorda, entre em conflito consigo e trava diálogo com outra voz misteriosa. A porta se abre e se vê conversando com sua mãe, Martha Wayne. Questiona-se se está morto, racionaliza se não é uma Experiência de Quase Morte (EQM), e experimenta sua vida passar diante dos seus olhos, como o amor das mulheres ou a ruína pelas mãos de Bane. A luta, a jornada é o que interessa. “O final da história do Batman é sua morte“, conclui o herói, “Pois, se o Batman não morresse no fim, o que mais iria fazer? Aposentar-se e jogar golfe? Não é assim que funciona, não pode. Eu luto até cair. E um dia vou cair“.

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CONCLUSÃO: NIRVANA IMPERFEITO

Não, não tocará o som violento da banda de Kurt Cobain ao final da história. É o termo “nirvana” que nos interessa para fechar essa resenha crítica. Nas palavras de Buda:

“É um lugar que está perto, mas difícil de alcançar. Neste lugar não há velhice, morte, sofrimento, doenças. Libertação da morte ou perfeição, é o que chamamos de Nirvana. É este um lugar feliz, pacífico, que alcançam os grandes sábios. É um lugar eterno, mas difícil de alcançar. Os sábios que aí chegarem estão livres das penas; no Nirvana, os sábios chegaram ao termo do curso de sua existência.”

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Assim Batman nasceu para Gotham. Nasceu para a luta constante que a cidade violenta e febril encerra. Desde o útero esteve predestinado ao bat-sinal. E no final, não a morte, mas o nascimento. Um novo ciclo se inicia para Cavaleiro das Trevas ressurgir e lutar pela justiça. Ele não alcança o nirvana, não quebra o ciclo das reencarnações. Seu lugar de paz, junto a sua mãe, é a possibilidade de retorno. Pois como o próprio Gaiman disse, linhas acima, o morcego de Gothan continuará a voar, salvar o dia, fazer milagres quando nós não mais estivermos aqui.

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WOLVERINE: O HERÓI DESAGRADÁVEL

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QUE WOLVERINE É ESSE?

Agora é fácil para as novas gerações gostarem de Wolverine: ele é um anti-herói cinematográfico. Não sou daqueles que acha que o cinema acabou por enterrar de vez os heróis ao usarem a licença poética para criar blockbusters milionários e que muitas vezes fogem à adaptação literal das Histórias em Quadrinhos (HQ). Creio que toda arte tem sua forma de ser e ver o objeto artístico. E assim, recebi com o entusiasmo a primeira aparição nas telonas do Wolverine de Hugh Jackman no filme X-Men (2000).

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Não estou aqui para analisar o filme, mas duas coisas me chamaram a atenção (e de qualquer bom fã do canadense pavio curto): 1. Hugh Jackman é um grandalhão de 1,88m, nada a ver com o baixinho que estava acostumado; 2. e cadê a ação sanguinária, ágil e sem meias-palavras do herói? Claro que o herói sofreria ao longo dos anos uma evolução vertiginosa nas telonas até ser o Logan de minhas leituras na adolescência, até ser velho e morto no seu derradeiro (até que se prove o contrário) filme: Logan (2017). Ainda é preciso levar em conta que os efeitos especiais ainda não eram sofisticados para deixar esse herói ainda mais “foderoso”.

013_02Mas o processo de humanização da fera interior de Wolverine, tensão que perpassa cada ato desse herói nos quadrinhos, ao contrário do que aconteceu nos cinemas, foi um processo demorado e que ainda é latente no Logan até em suas histórias atuais. Ele sempre lutará contra seu lado animalesco, como todos nós lutamos contra nossos instintos mais primitivos. Mas enquanto Wolverine, como fera brutal, nasce como inimigo do Hulk no gibi Incredible Hulk 180 (1974); Logan, seu alterego atormentado e desmemoriado, tem sua gênese humana ligada à minissérie Wolverine (1982). É justamente sobre última obra que falaremos.

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013_13A capacidade de catarse, a identificação com o personagem, quando se é adolescente é bem clara: todo jovem é, em seu íntimo, uma pessoa solitária e, principalmente, os nerds; como também o adolescente gostaria de responder com fúria a tudo aquilo que não concorda em sua família ou na sociedade. Mas Wolverine não é jovem. Ele já nasce velho no quadrinhos, se comprado aos demais X-Men da formação original (Ciclope, Jean Grey, Fera e Homem de Gelo) ou mesmo a formação dos Uncanny X-Men da edição Giant-Size 1 (1975), edição em que o canadense estreia na escola para “jovens mutantes” de Charles Xavier. Quando ingressa na turma do Professor X, divide as missões com Tempestade, Colossus, Noturno, Apache e Ciclope. No entanto ainda é o vovô da turma, desajustado, sem sentimento de equipe e de um passado envolto em mistério. Mas sua primeira minissérie mudaria o rumo das abordagens do herói nanico.

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DO CARCAJU AO “NINJA”

A ideia para a criação de Wolverine viera justamente de um animal baixinho e abusado. O editor Roy Thomas, responsável pela primeira aparição do canadense enfrentando o Hulk, revela a origem do nome do herói: “O personagem veio de minhas pesquisas sobre os carcajus (wolverines)… Eles são animais pequenos e selvagens, de garras afiadas, que não se incomodam de enfrentar animais bem maiores. Achei que isso daria um bom personagem”.

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Quando a dupla Chris Claremont e Frank Miller tem nas mãos um projeto de aventura solo do Wolvie, ele já era um herói peculiar há oito anos, já era um X-Men e conhecera, em uma das missões da equipe no Japão, Mariko Yoshida, por quem desenvolveu uma afeição instantânea. O romance começou com o medo da japonesa devido a aparência selvagem de Logan, mas aos poucos essa barreira era vencida e, entre idas e vindas de Mariko aos EUA, o amor entre os dois só cresceria.

013_06“É uma chance de mergulhar no background dele, na herança japonesa, nos conflitos entre a fera, o guerreiro e o homem, de descobrir o que o define, o que é verdadeiro para ele. Foi apresentando essa visão a Frank e vendo se era algo com o qual ele podia se relacionar que a usamos como ponto de partida para a história”, afirmou Chris Claremont sobre sua perspectiva de história.

A ideia da dupla sempre fora ter uma abordagem inovadora daquela apresentada normalmente nos número regulares de X-Men. Em colaboração com o artista John Byrne, Chris e Miller resolveram explorar, na minissérie Wolverine (1982), a psique conflituosa do carcaju da Marvel. “Nós apresentamos esta percepção de Logan. Para John, ele era um assassino com dedo no gatilho, contudo, após a morte de Jean (Grey, a Fênix, mostrada em 1980 na clássica X-Men 167), Wolverine pareceu abraçar Mariko com bastante naturalidade. O que o atraiu à ela? O que o atraiu à ele? O que fez com que Charlie (o líder dos X-men, Professor X) sentisse que aquele sujeito podia se misturar com a galera-X?”, revela Chris Claremont.

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EM BUSCA DA HONRA (Spoilers!)

“Sou o melhor no que faço, mas o que eu faço melhor não é nada agradável.”

Essa é a fala badass com a qual se inicia a minissérie em quatro edições: Wolverine (1982). Falta bastante humildade, mas tem muita verdade nessa citação. Ela acaba por sintetizar quem é Logan. É um cara que dá conta do recado, mesmo que isso lhe tire toda chance de felicidade.

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Depois de uma temporada no Canadá caçando um urso assassino, fera versus fera, ao retornar a Nova York se deparar com todas cartas enviadas à Mariko devolvidas pelos correio. Após ter seus telefonemas não atendidos, decide ir ao Japão para investigar. Descobre que com o retorno do desaparecido pai da moça, muita coisa mudou na vida de sua amada. O pai, Shigen Yoshida, tinha uma dívida de honra e a deu em casamento a um crápula que a espancava. E como se não bastasse, Shigen possui uma sede de poder para dominar tanto o submundo quanto o alto escalão do imperador japonês.

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Após invadir a mansão, dopado por um veneno desconhecido que lhe privava de seus sentidos mais aguçados, acaba por ser derrotado e humilhado pelo pai de Mariko e ainda revelando seu lado animal e desonroso aos olhos da amada. Deixado na sarjeta, é salvo pela misteriosa, independente e sensual Yukio. A afinidade entre os dois é imediata: ambos são independentes, indomáveis e tem uma fúria mortal. Desenvolvem, então, uma relação: possessiva por ela; superficial para ele que ainda ama Mariko.

013_12Para salvar sua nova companheira, Logan decide livrá-la de uma suposta ameaça. Na verdade Yukio trabalhava para Shigen e incitou Wolverine a eliminar um rival nos negócios do pai de Mariko em pleno teatro. Mais uma vez, Mariko presencia o lado selvagem e assassino de Logan e o abismo entre os dois se intensifica.

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Com a morte de Asano Kimura, policial e amigo, pelas mãos de Yukio, Wolverine resolve restabelecer sua honra. Descobre que o veneno misterioso, que dera vantagem a Shigen na primeira luta entre os dois, partira das lâminas de Yukio. Assim o carcaju começa a sabotar os negócios mafiosos de Yoshida, até o momento final no qual, com a ajuda inesperada de Yukio, salva Mariko e enfrenta Shigen em uma luta justa e honrada. No desfecho, sua amada descobre as trapaças do pai, Yukio desaparece e Wolvie envia um convite de casamento aos amigos mutantes.

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HAPPY END (Conclusões)

Tudo bem que o final é folhetinesco e os escritores românticos do século XIX adorariam ou mesmo os autores de novelas das oito. Mas não é só o final que nos lembra a prosa romântica: a cada edição da minissérie, os autores nos atualizam dos poderes e astúcias do herói fazendo com que, mesmo que não tenha a história completa à disposição, não deixe de aproveitar a trama. Na conclusão das três primeiras edições, fica sempre um gosto de “quero mais”.

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A minissérie explora o lado mais humano de Logan, mostrando sentimentos tenros e de carinho e seu grande paradoxo: uma fera capaz de amar e matar sem limites. Também revela que o caminho para a honra é tortuoso, muitas vezes atormentado, mas que a superação é sempre a melhor recompensa. O caminho nem sempre será agradável, mas é preciso ser o melhor naquilo que se faz. E Wolverine é o melhor.

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CONAN, O BÁRBARO: QUE BARBARIDADE

Sebo

Entrar num sebo era uma experiência sem igual, principalmente quando se tinha uma pequena fortuna no bolso. Entenda como quiser o que seria essa grande quantia, mas te garanto, tendo uns poucos trocados, na década de 90, e dentro de um sebo, era como fazer compras numa loja de 1,99 após ganhar na loto. Você podia comprar pelo menos um item caro da loja, ou vários do mais barato, com todos, sem exceção, trazendo o cheirinho grátis de coisa velha pra impregnar sua estante pelo resto da eternidade. Façamos uma narração para dispor melhor a sublimidade da coisa.

Você tem na faixa dos quinze anos, é um homenzinho que já pode sair na rua sozinho, e se sente imponente com seus 20 Reais ganhados da avó no bolso. Entra no sebo, vira pro vendedor dizendo que ele pode fechar a loja só pra você, o dia da balbúrdia chegou, e claro, o vendedor olha pra sua cara, com um misto de pena e desprezo, enquanto indiferente continua lixando a unha ouvindo seu CD do Wanderley Alves dos Reis, vulgo Wando.

A Espada Selvagem

Você está dentro daquela loja onde as paredes são feitas de pura celulose pré mofada, onde até o teto serviu de estante para acumular livros, revistas e poeira, muita poeira. Olha pra lá, olha pra ali, disfarça não ter visto umas Ele&Ela, e fica desconcertado com o tio do bigode te olhando de forma esquisita. Aquele ambiente é pequeno e estreito demais pra que qualquer movimento não seja notado, nem mesmo músculos, nervos e bombear de vasos sanguíneos dos olhos passam despercebidos. Percebe que precisará de sorte pra encontrar algo que verdadeiramente valha sua grana, afinal, tinha muita coisa ali, e você não sabe por onde começar. Você decide tirar nos dados. Sua pontuação de sorte não é grande coisa, visto que distribuiu a maior parte em inteligência, e força. Então você rola o dado e tira um vinte! Nossa! Você encontrou uma pilha de revistas da banda Manowar! Olha com mais atenção e percebe que não, na verdade era o quadrinho do Conan, precisamente a série A Espada Selvagem de Conan. Sendo uma pessoa com uma sagaz ficha de personagem, não percebe, e nem leva à mal o excelente título. Então pega a revista e folheia, na intenção de descobrir do que ela se tratava. Até então você nunca tinha notado sua existência. As páginas eram todas em preto e branco, sendo apenas a capa colorida. O tio vira pra você e diz “cinquenta centavos”.

Conan

Você olha pro tio, vira pra revista, retorna pro tio, e diz, mas hein? Como assim custava míseros cinquenta centavos? A natureza primitiva humana do não poder ver uma vantagem surge, e você já contabiliza em poucos nanossegundos. 40! Cara, onde que com 20 Reais você consegue comprar tantos quadrinhos?!

Não teve jeito, fui escolhendo sem muito critério as que mais me atraíram pela capa, quando o tio disse “à cada quatro que você comprar, pode pegar mais uma”. Buguei. Olhei meio de lado procurando o cérebro pra me ajudar a fazer as contas. Bem, se xis elevado à hipotenusa de pi é igual ao cateto de Bhaskara, então o cosseno da tangente só poderia dar 50! Ainda mais acelerado eu continuei a escavação atrás daquela papelada, e se antes eu escolhia com calma tirando até a poeira, agora eu não queria nem saber, eu já ia tacando tudo num saco com aquela poeira vulcânica e tudo. Antes que ele se arrependesse. Faço o checkout da loja e vou eu pra casa, à pé, tinha torrado até o dinheiro do ônibus.

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Na estante da sala tinha o meu cantinho, que não era nada mais que uma porta onde eu guardava as supostas tralhas que minha mãe não queria ver espalhadas pela casa. Lá tinham alguns VHS gravados em EP, um Playstation tijolão com uns controles, e uns poucos gibis do Homem-Aranha e da série Superaventuras Marvel, que ganhei de alguém mas não me recordo quem. Já cheguei na sala com uma pequena bacia, um pedaço de pano molhado, e liguei o ventilador de teto. A ideia era tirar aquele excesso de poeira, colocar pra secar no vento, e ir organizando. Conforme terminava a limpeza de uma eu pegava outra. Aquelas artes incríveis das capas, e seu interior num simples preto e branco, conseguiam uma brutal expressividade e personalidade, isso me deixava hipnotizado. A imersividade daquilo era fantástica, exatamente o tipo de universo fictício que me atraia. Uma jornada épica, onde um solitário guerreiro andarilho enfrentava inimigos brutais, e isso num mundo sem tanta firula fantasiosa. Talvez fosse pelo quadrinho não ter cor mesmo, só sei que não sou muito fã de grandes alegorias fantásticas mescladas ao medievalismo excessivamente purpurinado. Facilitando o entendimento do que quero dizer, não curto tanto assim O Senhor dos Anéis. Gosto sim, mas não me considero um fã da franquia.

Basil

Conhecia os dois filmes, Conan, O Bárbaro, e Conan, O Destruidor, ambos com Arnold Schwarzenegger. Quer dizer, acho que qualquer um que tivesse uma TV conhecia. Repetia tanto quanto Curtindo a Vida Adoidado nos canais abertos. O que mais me impressionava nos filmes eram as trilhas sonoras incríveis de Basil Poledouris, compositor greco-americano que conseguia belíssimos resultados misturando orquestra com coros sistinos. O cara é famoso não só por Conan, mas também trabalhou nas trilhas de sucessos como RoboCop, Os Miseráveis, e no hoje controverso, A Lagoa Azul. Essas músicas lindíssimas ficavam na memória e completavam a leitura dos quadrinhos de um jeito inexplicável. Poledouris descansou após enfrentar um câncer em 2006, mas deixou de presente uma extensa obra que vaga em ondas de rádio pelo infinito universo. Confiram essas duas faixas e me digam se estou sendo exagerado nas palavras.

Cimmeria

Robert E. Howard é a mente por trás de Ciméria, uma região fictícia, terra natal de Conan. E todo esse fantástico universo surgiu em 1932, quando Howard estava em Mission, Estado do Texas, escrevendo o poema Cimmeria, enquanto rememorava sobre as áreas montanhosas acima de Fredricksburg, vista em aos nevoeiros das chuvas de inverno. Ciméria é descrita no poema como terra de trevas e de noites profundas, um local melancólico com florestas negras, silêncio sombrio, e um céu turvo e de aspecto plúmbeo. Embora o mundo hiboriano seja criação de Robert E. Howard, o nome original e a descrição de Ciméria são de A Odisséia, de Homero, Livro 11, linhas 12-18.

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Nem só de Conan o quadrinho se faz, em suas aventuras ele conhece e é ajudado por alguns companheiros. Tudo bem que algumas dessas personagens sejam totais falsianes, mas com uma de principal destaque o destemido bárbaro sempre pode contar, a imponente e belíssima ruiva, Red Sonja. Juntos eles tocam o zaralho e riscam o mapa da Era Hiboriana. Se a franquia Conan é taxada como machista por muita gente, é Sonja quem aparece pra mostrar que as mulheres não são meros objetos à serem subjugadas por trogloditas, ela senta o sarrafo em quem pisar no calo dela, e nem mesmo Conan se livra de ter os bagos pisoteados por conta de suas piadinhas vez ou outra. A personagem hircaniana é criação conjunta de Roy Thomas e Barry Windsor-Smith, responsáveis pelo quadrinho através da Marvel Comics. Além de Sonja, também contracena no quadrinho a dançarina Jenna, que tem um final bem trágico, o espadachim de Turan, Mikhal Oglu, o feiticeiro Zukala, a pirata Bêlit, Thoth-Amon, Yezdigerd, Valeria, cara, é uma penca de gente. Não sei nem porque tentei listar, enfim.

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Mas o principal atrativo dos quadrinhos de Conan é obviamente a brutalidade gráfica, ingrediente principal pra atrair o público infantojuvenil. Embora seja um quadrinho destinado ao público adulto, você sabe né? O mais interessante é que toda a sanguinolência expressada nas páginas em preto e branco não sentem sede por cores pra enfatizar qualquer coisa. O dinamismo dos traços de Barry Windsor-Smith eram incríveis e conseguiam se mostrar caótico de um jeito muito à frente dos outros quadrinista de sua época, ele não precisava de Bangs! ou Pows!, seus traços falavam por si só. Confesso que me adaptei tanto aos quadrinhos da série A Espada Selvagem de Conan que pra mim o estranho são os quadrinhos colorizados. Conan pra mim até hoje é o que existe de mais legal no mundos quadrinhos, não tem X-Men, Homem-Aranha, ou mesmo Batman, Conan é meu camarada, e por Crom, espero um dia nascer novas séries tão boas da Era Hiboriana como foram as lançadas na década de 80.

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