CRIANDO DION – SÉRIE DA NETFLIX (CRÍTICA)

082_00

SINOPSE
Após a morte de Mark, seu marido, Nicole precisa criar sozinha o pequeno Dion, uma criança inteligente, imaginativa e cheia de energia. Tentando superar a perda familiar, mãe e filho se mudam para um novo bairro, onde o menino de apenas oito anos é matriculado numa nova escola. Lá a maioria das crianças são de pele branca e, nesse ambiente ele precisa aprender a lidar com o racismo de um professor, e o bulliyng dos colegas de classe. Não bastando apenas os problemas de adaptação do filho, Nicole se surpreende quando o menino passa a desenvolver poderes inexplicáveis. Dion começa com pequenos feitos, como levitar objetos leves, mas a coisa vai ser mostrando mais assustadora, ao ponto dele arrancar árvores inteiras apenas com o poder da mente. Pat, melhor amigo de Mark e padrinho de Dion, acaba descobrindo as habilidades do garoto, e então para ajudar Nicole, os dois se unem para dar o máximo de normalidade a vida do garoto, ao mesmo tempo que uma gigantesca ameaça começa a se moldar.

082_01

COMENTÁRIOS
Criando Dion (Raising Dion) é uma série que explora dilemas familiares ao mesmo tempo que desenvolve um super herói. Baseado no HQ de mesmo nome criado por Dennis Liu em 2015, o roteiro traz o estilo bem parecido com o visto nas histórias da franquia X-Men, no qual uma pessoa até então comum precisa esconder seus novos dons dos julgamentos da sociedade. Numa primeira vista eu fiquei bastante cético, o texto inicial não me capturou de imediato e a atuação do menino também não convenceu, pelo menos no primeiro episódio. Já no segundo a coisa muda, a trama toma um gás legal e, não sei se foi eu que me acostumei, ou se atuação da criança realmente melhorou um pouco. A série ganha mais solidez e passa a não ser algo tão estranho de se digerir.

082_02

A fotografia é interessante, mostrando ambientes urbanos e rurais, embora sua atmosfera passe por bastante instabilidade, e imagino que a causa disso se deva ao enorme número de envolvidos dando pitacos em como as coisas deveriam ser. Acaba que o resultado não traz uma doa direção, levado a total falta de identidade. A trilha sonora é boa, mas faz apenas corretamente o seu papel sem surpreender. Tecnicamente a produção como um todo visa o pouco gasto, e isso eu achei bem estranho. Parece que tem muita gente querendo comercializar (e lucrar com) um produto utilizando os ingredientes mais baratos. O resultado pode ser bom? Talvez sim. Mas poderia não precisar passar por esse tipo de julgamento caso houvesse mais bom senso dos participantes.

082_03

Mark, interpretado por Michael B. Jordan, é o pai de Dion, e é mais do que óbvio que sua presença na série tem o único objetivo de aproveitar a boa fase do ator. Eu mesmo dei maior atenção quando soube que o cara participava do elenco. Mas sua importância é quase como a de Marlon Brando no filme Superman de 1978, ele está mais para um ‘mentor espiritual’ do que qualquer outra coisa. De qualquer forma o atual ‘superastro’ de Hollywood cumpre bem seu papel e dá um pouco mais de energia a produção, mesmo sejam poucas aparições.

082_04.png

ELENCO E FICHA TÉCNICA
Alisha Wainwright, Ja’Siah Young, Jazmyn Simon, Sammi Haney, Jason Ritter, Michael B. Jordan, Gavin Munn, Ali Ahn, Donald Paul, Matt Lewis, Marc Menchaca, Moriah Brown, Diana Chiritescu e Kylen Davis. Baseado no HQ Raising Dion de Dennis Liu, a série norte americana de 2019 foi escrita por Carol Barbee e, produzida por Charles D. King, Kim Roth, Poppy Hanks, Kenny Goodman, Dennis Liu, Seith Mann, Michael Green, Michael B. Jordan, Robert F. Phillips, Edward Ricourt e Juanita Diana Feeney. Uma produção das companhias Fixed Mark Productions, MACRO e Outlier Society Productions, a série foi distribuída através da network Netflix.

CONCLUSÃO
Criando Dion começa tímido, não convencendo muito de que vai entregar bem sua proposta, mas superando ao menos o primeiro episódio, a série ganha ritmo, adquirindo assim mais harmonia. A atuação do pequeno Dion não é das melhores, e não acho que eu esteja sendo cruel com uma criança tão jovem, visto que já assistimos a pequena irmã de Lucas da série Stranger Things, que dá show mesmo sendo apenas um personagem secundária. Ou mesmo Esperanza, a amiguinha de Dion na escola. Provavelmente essa vá ser a coisa que mais incomode, porque todo o restante está em conformidade com o básico para uma boa produção. Eu particularmente enxerguei desse jeito, e mesmo assim consegui curtir bastante. Criando Dion tem classificação etária de 10 anos e, é uma aventura dramática interessante para juntar a família no sofá para aprender sobre a vida enquanto se diverte. A série é distribuída pelo serviço por assinatura Netflix.

Barra Divisória

assinatura_dan

 

EL CAMINO – FILME DA NETFLIX (CRÍTICA)

081_00

A série Breaking Bad (2008-2013), ao longo dos anos, acumulou timidamente (no início) uma legião de fãs, dentre os quais me incluo. Sendo assim, comentar qualquer derivado da obra de Vince Gilligan é um empreitada delicada.Mas El Camino (2019) não é a única história envolvendo o universo de Jess Pinkman e Walter White. A série Better Caul Saul (desde 2015 e com última temporada confirmada) também explora ainda mais os detalhes dos personagens secundários da história do professor de química que se torna produtor e traficante de metanfetamina (cristal).

Entretanto, ao final de Breaking Bad, fica o gosto amargo da morte de um anti-herói e a fuga desesperada de Jesse, barbudo, lacerado, com lágrima nos olhos depois de ter sido feito de escravo e morado em um buraco no chão. O que acontecera ao rapaz que se envolveu com produção de cristal, primeiro para saciar seu próprio vício, e que, depois, só queria viver, quem sabe, uma vida simples e em família? Nesse sentido El Camino é um fechamento para um dos personagens mais cativantes da série e que rendeu fama a Aaraon Paul.

Jesse precisa fugir de Albuquerque, pois uma grande caçada policial é empreendida atrás do rapaz após uma batida no laboratório de metanfetamina no qual era escravizado. Com a morte do Sr. White, as autoridades precisam por as mãos no último elo solto dessa organização criminosa. Pinkman tem um plano, mas será preciso muito dinheiro para executá-lo. Para isso terá que revirar seu passado e traumas para seguir seu próprio caminho.

081_01

Título original: El Camino: A Breaking Bad Movie
Direção: Vince Gilligan
Roteiro: Vince Gilligan
Duração: 2h 2min
Lançamento: 11 de outubro de 2019.

081_02

Elenco: Aaron Paul (Jesse Pinkman), Jesse Plemons (Todd), Jonathan Banks (Mike), Matt Jones (Badger), Charles Baker (Skinny Pete), Robert Foster (Ed).

081_03

O FIM DE EL CAMINO
Vamos começar nossa análise justamente pelo título original:  El Camino: A Breaking Bad Movie. O termo El Camino refere-se à pick-up (caminhonete) da Chevrolet, automóvel clássico da década de 1970. É nele que ao final da série, tendo abandonado Walter White a própria sorte, Jesse acelera para a liberdade. Aqui o duplo sentido é claro: esta é a história do caminho da liberdade de Pinkman para sair de Albuquerque. E as memórias de Jesse relacionadas ao dono do carro, o sociopata Todd, permearão a narrativa do filme.

081_04

O subtítulo, Breaking Bad Movie (um filme de Breaking Bad), pode ser um limitador. É um filme da série e, talvez por isso, tenha sido omitido na forma reduzida para o público brasileiro. Então você pode se perguntar: eu preciso ver a série antes? Sim e não. Por um lado o filme é o universo expandido, uma continuação do último episódio (2013), e, mesmo alguns atores tendo mudado muito como o Jesse Plemons (Todd) que não é mais um jovem e já um pouco gordinho, parece que o tempo parou. Conhecer a série fará com que sua imersão seja completa e entenda todas as referências.  Em contrapartida, o enredo de El Camino é independente e se sustenta, ao longo da trama, esclarecendo pontos da história para aqueles que não assistiram à série. Claro que a Netflix deu aquela mãozinha e deixou um resumo no capricho para quem não saca nada de Breaking Bad.

081_05

Os eventos do filme tem início na fatídica noite em que Walter liberta Jesse da gangue de Todd. Fragilizado e coberto de cicatrizes, sujo e andrajoso, o jovem busca abrigo de seus colegas de vício e tráfico: Badger e Skinny. Nota-se que o psicológico de Jesse está destruído. O presente se mistura as lembranças do cárcere e das torturas.

É em um desse momentos que relembra de Todd, sociopata a citar constantemente seu tio, e que oscila sua conversa branda, com a frieza de seus atos. Toda hora que ele falava, eu tinha vontade de xingá-lo, confesso. Lembra-se de Mike, antigo parceiro de crime, e idealiza uma fuga para o Alasca. Mas como? Precisava de uma vida totalmente nova e para isso, dinheiro. É nesse momento que entra em cena o cara: Ed.

081_06

Ed, vivido por Robert Forster que viera a falecer no mesmo dia da estreia desse longa-metragem, é o grande trunfo de Jesse. Facilitador da fuga de Walter White e do advogado Saul, o vendedor de aspirador de pó (profissão que o ator realmente exerceu) tem um rígido código de conduta e não aceita de cara o trabalho. Pinkman terá que enfrentar seus medos para conseguir o que precisa para fugir e começar de novo, quem sabe fazer faculdade, como lembra em um flashback de uma de suas conversas com o Sr. White.

081_07

Dois pontos, há de se salientar, antes de finalizar esta análise. A fotografia do filme é intensamente quente, como esperamos de Albuquerque. Por vezes é possível sentir a aridez do clima pela tela. Assim como alguns ângulos de câmeras são incríveis como a de Jesse escondido no apartamento de Todd. Ainda em relação a Pinkman, a cena no qual o protagonista brinca com um besouro revela que Jesse ainda tem um alma gentil. Essa parte ecoa a própria série na qual também brincou com um inseto rastejando lentamente no chão e sorriu para ele antes de pousar. Esta é a dualidade da série e aqui nitidamente explícita: Pinkman que tinha tudo para ser mal e viciado e ganancioso, alcança sua redenção ao passo que Walter, íntegro, destruiu sua própria vida.

081_08

UMA PEQUENA PARTICIPAÇÃO
A aventura da fuga de Jesse é permeada caras conhecidas da série original, entre elas está Mike (único personagem que aparece em todas as tramas do universo Breaking Bad) e Jane, grande amor de Pinkman. Mas como todo fã da série, ansiava por alguma participação de Bryan Cranston, revivendo Walter White. E ela acontece em um tocante flashback quando Jesse ainda cuidava de seu antigo professor com uma afeição de filho.

Na cena, em questão, Jesse e Walt ficam em um hotel e conversam em uma lanchonete. Ela é ambientada no episódio 4 Days Out, no qual ambos ficam presos no deserto e quase morrem. No hotel, Jesse está conversando com Jane ao telefone, pois ela ainda está viva durante o período deste episódio. Jesse também faz uma referência a “eletrólitos”, que faz parte do roteiro do episódio no qual os dois quase morrem devido à desidratação.

CONCLUSÃO
Não é dos filmes mais alucinantes de ação, pois nunca foi essa a pegada da série da qual El Camino derivou. Estamos falando de drama e reviravoltas de roteiro como Vince Gilligan, que já contribuiu com a série de Chris Carter, Arquivo-X, já se mostrou capaz de fazer. O longa-metragem de Jesse Pinkman dá um fim honroso para a história do ex-viciado e traficante de metanfetamina que foi reduzido a uma condição sub-humana, perdeu quem mais amava e foi traído por seu pai postiço, Walter White.

É tocante ver esse garoto fragilizado sendo ajudado por seus amigos próximos, personagens coadjuvantes como Badger e Skinny, mas que se veem imbuídos de um lirismo, de uma amizade leal que venceu as barreiras do dinheiro e da decência. Ver que muitas feridas de Jesse estão ali e permanecerão com ele. Que as maiores cicatrizes não são aquelas da pele, porém aquelas frutos da saudade do que foi e do que teria sido.

Barra Divisória

assinatura_marco

TÚNEL – A SÉRIE (CRÍTICA)

080_00

SINOPSE
Park Kwang Ho é um detetive de polícia linha dura da cidade de Seul no ano de 1986. Investigando uma série de assassinatos, o dedicado policial acaba localizando um potencial suspeito, que foge correndo por um extenso túnel após ser notado. Em perseguição naquele escuro lugar, Park o perde de vista, quando é surpreendido com um pedrada na cabeça e cai desnorteado. Sem demora recobra as forças e se levanta para continuar no encalço do indivíduo. Chegado ao fim do túnel, o detetive não percebe mais ninguém, e não apenas isso, tudo ao seu redor está completamente diferente! A modesta cidade que conhecia agora contava com enormes e iluminados edifícios, as vias estavam muito diferentes e cheias de carros nada parecidos com os que ele estava acostumado. Sem muitas explicações, definitivamente ele tinha viajado ao futuro de 2017! Ele não sabia como e nem o motivo, mas estava convencido de que precisava encontrar aquele assassino. E ao que tudo indicava, tinha atravessado o tempo junto com ele.

080_02

COMENTÁRIOS
Repleta de mistérios e casos sinistros, Túnel – A Série (터널), é um K-drama policial com elementos de ficção científica bastante inteligente. Mesmo seguindo fórmulas conhecidas de séries de investigação ocidental, consegue personalidade própria se sustentando no carisma de um grande elenco. Choi Jin-hyuk, que faz o papel de Park Kwang Ho, é jovem, porém veterano em novelas sul-coreanas, e mostra uma grande versatilidade atuando de forma espetacular em momentos de drama pesado, quanto nos momentos mais cômicos. Yoon Hyun-min e Lee Yoo-young, o casal de atores ao lado de Choi, também se destacam pela seriedade que enfrentam seus papéis, sem perder a qualidade em nenhum instante. Citei os personagens principais, mas saiba que o elenco inteiro, incluindo os convidados para pontas, todos mostram um grande realismo em suas atuações.

080_02

A produção é de uma série sem muito luxo, se apoiando muito mais na qualidade da sua história do que em grandes recursos cinematográficos. A Seul recriada de 1986 é bacana e consegue convencer, já o figurino oitentista da época eu não saberia dizer, mas não creio que dariam um vacilo bobo. Gostei bastante da direção de Shin Yong-hwi, que traz um visual ao mesmo tempo que sombrio e ‘quase noir’, consegue mesmo assim que ele seja leve e confortável de assistir. Deixo a dica caso já tenha superado o preconceito e deixado de desconfiar da qualidade das produções da Coreia do Sul, a maioria das produções vinda do Studio Dragon são excelentes! The K2 (2016), Black (2017) e Stranger (2017), são outros K-dramas obrigatórios para quem gosta de thrillers como este. E não ache que os sul-coreanos são bons apenas em gêneros mais sérios, as séries de comédias também são muito divertidas e viciantes. Mas este já é assunto para um outro dia.

080_03

ELENCO E FICHA TÉCNICA
Choi Jin-hyuk, Yoon Hyun-min, Lee Yoo-young, Jo Hee-bong, Kim Byung-chul, Kang Ki-young, Kim Min-sang, Mun Suk e Lee Yong-nyeo compõem o elenco. Escrito por Lee Eun-mi, Túnel – A Série, é uma produção de Choi Jin-hee e do Studio Dragon de 2017 que dirigido por Shin Yong-hwi. O K-drama sul-coreano tem Choi Kyung-sook e Kim Jin-yi como produtores executivos, e Kim Sung-min e Park Ji-young como produtores. A série possui um total de 16 episódios com tempo médio de 65 minutos cada, distribuído pela Orion Cinema Network (OCN) na Coreia do Sul, e pelo serviço Netflix no restante do mundo.

CONCLUSÃO
Túnel – A Série, é uma produção sul-coreana bastante empolgante e que monta uma trama sensacional capaz de te prender numa maratona ferrenha! Seus formato são de episódios longos, todos passando os 60 minutos, mas cada um deles muito gratificantes. Então suba no bonde para acompanhar o detetive Park Kwang Ho numa caçada frenética através do tempo por um brutal assassino em série! Classificado como para maiores de 16 anos, a série é distribuída pelo serviço por assinatura Netflix. Prepare a pipoca e tenha bastante unhas para roer, porque esta é uma puta série! Recomendadíssima!

Barra Divisória

assinatura_dan

CAMPO DO MEDO – FILME DA NETFLIX (CRÍTICA)

079_00

SINOPSE
Dois irmãos, Becky e Cal, dirigem numa longa viagem para San Diego. A moça está grávida e começa a sentir um pouco de enjoo, então pede para que Cal pare o carro na borda da pista. Ao lado esquerdo há uma antiga igreja e alguns veículos estacionados, e do direito uma extensa e alta plantação que se perdia no horizonte. Subitamente um grito de socorro vem de dentro da mata, é uma voz de criança. Ele diz estar tentando voltar para estrada, mas não consegue encontrar o caminho. Então uma segunda voz surge, de uma aparente mulher adulta, pedindo para que o garoto não chamasse. Cal então decide ir em busca do menino e entra na vegetação sem hesitar, sendo logo seguido pela sua irmã. Agora dentro daquela mata de mais de dois metros de altura, ele tenta encontrar a criança pedindo para que ele fale alto para que possa seguir o som. Algo estava muito estranho, por mais que ele seguisse a voz, parecia que nunca o encontrava. Começou a duvidar que aquilo não fosse uma brincadeira do garoto, então decidiu se comunicando com a irmão, que iriam pular os dois ao mesmo tempo para basearem suas posições. Fizeram isso, um viu o outro. Ficaram aliviados, não estavam distantes, talvez uns dez metros. Pularam novamente, e para surpresa dos dois algo não estava apenas estranho, estava na verdade muito errado. A distância que antes era curta aumentou umas cinco vezes. Aquilo não fazia sentido!

079_01

COMENTÁRIOS
Stephen King tem o dom de criar histórias fantásticas sempre cheias de muito mistério, e seu trabalho de mais prestígio na atualidade é a segunda parte de It: A Coisa – Capítulo 2. Mas como no próprio filme do palhaço Pennywise, onde ele se sacaneia ao deixar subentendido que também é um autor de péssimos finais, talvez, assim como eu, você possa ter mais uma amostra disso em Campo do Medo (In the Tall Grass, 2019), filme lançado sem nenhum alvoroço no Netflix. O longa é uma produção sem grandes investimentos, basicamente as filmagens se passam num mesmo ambiente do começo ao fim. As atuações não causam grande espanto, tirando Patrick Wilson, ninguém brilha um pouco mais que o mínimo. A direção de Vincenzo Natali consegue efeitos até interessantes, onde mescla alguma computação gráfica nos movimentos em meio a mata com cenas de filmagens reais. A trilha sonora é do compositor canadense Mark Korven, que traz uma boa atmosfera em suas composições que são exploradas apenas em específicos momentos. Campo do Medo para mim foi um filme bem mediano, que após assistido se torna bem esquecível. Uma pena, pois a premissa é interessante e tinha pano para coisas bem bacanas.

079_02

COMENTÁRIOS COM SPOILERS
Com sua produção não exigindo grandes pirotecnias cinematográficas, Campo do Medo traz um mistério que te prende bastante na primeira metade. A sensação claustrofóbica de estar sendo engolido por uma densa vegetação incomoda, ainda mais quando é descoberto que existem ameaças piores além do labirinto em si. Se escondendo atrás de um simbolismo não muito claro, aquela pode ser uma rocha “mágica” vinda do espaço e que foi adorada por antigos nativos, ou mesmo uma simples pedra que passou por um ritual e se tornou “possuída”. Nesse trecho não há muita discussão, as coisas são como são sem necessário um motivo, uma das características  de Stephen King.

079_03

O que percebemos, ao menos nós nerds, o público que está acostumado com histórias de viagens no tempo, é que das duas uma: ou estão se formando novas linhas temporais onde repetidos personagens possam coexistir, ou a natureza temporal está sendo violada e criando paradoxos proibidos. Geralmente nessas tramas existem regras próprias para a eliminação desse desequilíbrio criado, porém neste filme isso também não é claro, e é nesse ponto que isso me incomodou. Não temos uma linha base para nos segurarmos e formularmos nossas teorias, e assim nos engajarmos mais no quebra-cabeça. Em certo ponto é entendido que a rocha é muito antiga e cultuada por ancestrais nativos, e que a mata em si é apenas uma armadilha para trazer novos sacrifícios para os espíritos que existiam ainda ali. Continuando o raciocínio, a rocha causava uma perturbação temporal ao mesmo tempo que define portais que direcionavam para pontos específicos em outro canto da mata. Ao ser tocada, a pessoa adquire o conhecimento de como funciona todo aquele labirinto, em compensação sua humanidade também é afetada. Ross, o pai do menino, já era uma pessoa excessivamente crédula em dogmas religiosos, portanto uma mente bastante suscetível (e aberta) a receber todo tipo de realidade. Sendo assim, ele abraçou com todas as forças a função de “seguidor” daquela ideia, e agia como aquele quem traria mais sangue para ofertar ao seu novo objeto de culto. Quando Travis decide que não tinha mais nada a perder, o efeito foi diferente. Ele aprendeu todo o mapa de posicionamento naquele labirinto, mas não perdeu totalmente sua humanidade. Então ele toma Tobin pela mão e o leva para fora da mata no instante de tempo que Becky e Cal chegavam ali de carro, e pediu para que o menino fizesse de tudo para impedi-los de entrar. Temos então uma conclusão paradoxal. Travis impediu os irmãos de entrarem na vegetação, desta forma os dois não se perderam para que ele fosse atrás dois meses depois. O meu entender particular não é nada bom, enquanto naquela realidade criada no fim estava tudo bem, as outras não eram anuladas, e as pessoas continuavam mortas ou perdidas. Obrigado Stephen King, você fechou um filme com o pião rodando. Deixa o Nolan ver isso.

079_04

ELENCO E FICHA TÉCNICA
Patrick Wilson, Laysla De Oliveira, Harrison Gilbertson, Avery Whitted, Rachel Wilson, Will Buie Jr. e Tiffany Helm compõem o elenco. O Campo do Medo é baseado no romance dividido em duas partes de Stephen King em parceria com Joe Hill, In the Tall Grass, de 2012. A adaptação em filme teve sua estreia mundial no Fantastic Fest, no Texas, e uma semana depois chegou ao grande público com o selo de distribuição Netflix. Vincenzo Natali roteirizou e dirigiu o longa, que foi produzido por Steve Hoban, Jimmy Miller e M. Riley.

CONCLUSÃO
Campo do Medo me trouxe de volta a antiga sensação das adaptações de Stephen King, de não ter certeza se achei a experiência boa ou ruim. Seu começo atrai nossa atenção, e faz com que passemos a sofrer de agonia com aquelas pessoas. O problema é que isso insiste um pouco, até o ponto que passa a ficar cansativo. Então eventos fora da curva começam a acontecer. Você começa a entender algumas coisas ao mesmo tempo que não entende nada. Achou confuso? Então assiste e tente compreender o que ficou totalmente nublado para mim. Posso te assegurar que você não saíra revoltado após terminar de assistir, ainda mais por esse ser um filme de apenas noventa minutos. Curte suspense, terror e mistério? Então não liga para meus comentários e confere você aí. Mas depois volta aqui e leia meus comentários com spoilers para gente trocar uma ideia. A classificação indicativa de Campo do Medo é de dezesseis anos, e ele está disponível no serviço Netflix.

Barra Divisória

assinatura_dan

7 MOTIVOS PARA ASSISTIR CORINGA!

Sob a ótica de alguém que não fazia a menor ideia do que esperar do filme…

Comecei a me inteirar sobre o mundo da Marvel e da DC Comics em 2012, quando iniciei um namoro com um nerd assumido, aficionado por Histórias em Quadrinhos (HQ’s). Desde então, sempre fui a todas as estreias como acompanhante, sem ter grande conhecimento acerca das histórias e dos personagens que iriam se apresentar em sagas gigantescas (pelo menos para o meu gosto).

Confesso que em vários filmes eu cheguei até a dormir: “Vingadores: Guerra Infinita” é um exemplo. Mas ao longo desses sete anos, eu nunca – NUN-CA! – achei um filme da DC tão espetacular, intrigante e emocionante, como foi o Coringa (2019), estrelado pelo talentosíssimo ator Joaquin Phoenix.

Talvez eu não seja a pessoa ideal para escrever sobre esse filme se você espera ler uma resenha crítica embasada nas HQ’s. Porém, se assim como eu, você só conhece o Coringa por meio dos filmes do Batman, e está na dúvida se vale a pena ir ao cinema para conferir com os próprios olhos se esse filme é mesmo tudo isso que estão dizendo, então lhe apresentarei alguns motivos para que você dê uma chance para o Coringa te conquistar!

1. CORINGA (2019) É UM FILME EXTREMAMENTE REFLEXIVO

078_01

Talvez possa soar meio “estranho” para alguns, mas esse filme despertou em mim um sentimento de empatia. Arthur Fleck é um homem que aparenta ter pelo menos uns 40 anos. Ele vive com a mãe, Penny Fleck, em um apartamento sombrio e bagunçado, tal qual a personalidade deles. Ela está debilitada, dependendo do auxílio do filho para tarefas básicas, como comer e tomar banho. Ele, por sua vez, é extremamente atencioso e delicado no trato com sua mãe. Um é a companhia do outro, e ambos encontram na TV uma espécie de refúgio e de inspiração.

Arthur, que ganha a vida como palhaço, sonha em ser um comediante de stand-up comedy. Seu grande ídolo é Murray Franklin, apresentador de TV aos moldes do Jô Soares, interpretado por Robert De Niro.

A fixação em se tornar comediante vem desde a infância, pois ele cresceu ouvindo sua mãe dizer que ele veio ao mundo para fazer os outros sorrirem. E, por ironia do destino, Arthur tem uma doença neurológica que o faz rir descontroladamente em situações que o deixam nervoso ou ansioso.

078_09

Achei extremamente tocante a cena em que ele está viajando sozinho dentro de um ônibus e uma criança começa a encará-lo. Com uma inocência pueril, ele começa a brincar com o menino, entretendo-o e garantindo uma risada muito gostosa. Aquele, talvez, tenha sido o único sorriso verdadeiramente espontâneo e sincero que Arthur recebeu em sua vida. A única risada com sentido de alegria, e não de “zombação”.

Mas em meio àquela pequena alegria e satisfação, eis que o pobre homem solitário e renegado pela sociedade recebe um balde de água fria da mãe do menino, como se ele estivesse perturbando a criança ao invés de diverti-la. E então a risada descontrolada toma conta da situação… Mesmo apresentando um cartão que explica sobre sua doença, as pessoas não querem entender/aceitar que ele não se encaixa nos moldes de normalidade impostos pela sociedade.

Esse é apenas um dos exemplos apresentados ao longo do filme que me fizeram refletir sobremaneira como nós, como sociedade, lidamos com pessoas que apresentam alguma necessidade especial.

Será que eu e você compreendemos a singularidade de cada indivíduo, aceitando verdadeiramente suas limitações? Será que estamos preparados para lidar com as diferenças para além do discurso ativista e progressista que muitos apresentam, sobretudo nas redes sociais? O Governo realmente se importa com a saúde pública, favorecendo tratamento digno àqueles que necessitam de assistência contínua?

Não encontraremos no filme as respostas para essas perguntas, mas, definitivamente, somos capazes de buscar enxergar a trama apresentada sob um olhar mais humanizado. E aí Coringa acabará nos dando uma lição de vida sobre saúde mental, demonstrando que, na realidade, a nossa sociedade se encontra tão louca e doente como aqueles que são diagnosticados com problemas neurológicos.

2. A NECESSIDADE DE ACEITAÇÃO E DE BUSCA PELA NORMALIDADE É ENFATIZADA DURANTE TODA A TRAMA

078_02

É possível perceber a cada cena a tentativa de Arthur em ser se encaixar no padrão de normalidade socialmente aceito. Ele, que já passou uma temporada no sanatório, segue se encontrando esporadicamente com uma assistente social, que o faz perguntas frequentes sobre seu estado. Parece que tais encontros não surtem os efeitos esperados, pois ele não consegue “parar de se sentir mal o tempo todo”, mas é graças a eles que os seus sete remédios diários são garantidos.

No trabalho, ele procura fazer o que é sua obrigação, mas todos o tratam como um palhaço louco, estranho, que não tem crédito em suas afirmações. E é assim, colecionando situações insustentáveis a sua condição mental, que Arthur vai se perturbando e se transformando cada vez mais em um ser frio, magro, insensível a dor alheia e sem a menor graça.

São pequenas situações, somadas dia a dia, que fazem com que esse homem depressivo, que tenta com seus próprios braços alcançar a felicidade, acabe encontrando outras formas de expressar suas insatisfações e frustrações.

Não seria isso o que acontece com tantas pessoas que, diariamente, expressam gritos de socorro velados, disfarçados em frases ou ações que passam despercebidos ou, pior, são banalizados?

Acredito que se você assistir a esse filme pensando não no conhecido e até mesmo caricato vilão de Gotham City, mas sim na transformação do homem comum, doente, excluído e incompreendido, que se torna a principal ameaça a ser combatida pelo Homem-Morcego, então você perceberá que corremos o risco de ter muitos Arthurs em nosso meio, que só precisam que seja acionado um gatilho mental para se transformar no sociopata Coringa…

3. O DIÁRIO DE ARTHUR É TRADUZIDO EM PORTUGUÊS

078_03

Uma coisa que eu achei sensacional nesse filme foi a tradução do diário do Arthur em Português. Assisti ao filme dublado e esperava que nas cenas em que aparecem as páginas do seu diário (que também serve de anotação de ideias para seu futuro show de stand-up), as frases fossem aparecer em Inglês, traduzidas em forma de legenda, para o nosso idioma. Porém, o que vemos são as páginas escritas em Português.

O que isso tem de tão interessante? Ao meu ver, pareceu bem mais realista. E para um bom observador, aquelas páginas já indicavam traços de toda a confusão mental do personagem, cheia de rasuras, palavras escritas com erros gráficos, rabiscos e afins. Se mais alguém teve o interesse em tentar ler o que estava escrito, certamente identificou uma das frases mais impactantes do filme: “a pior parte de ter uma doença mental é que as pessoas esperam que você se comporte como se não tivesse”.

4. O FILME NÃO É REPLETO DE EFEITOS ESPECIAIS

078_04

Para alguém que há sete anos está assistindo filmes de heróis e de vilões cheio de ação e de efeitos especiais, com muito barulho de tiro, p* e bomba, o filme Coringa foi um deleite! Nada de efeitos, nada de barulho, muito pelo contrário: que trilha sonora maravilhosa!

A interpretação de Joaquin Phoenix é brilhante, magnífica, conseguindo demonstrar durante suas crises de riso o quanto aquele gesto estava, na realidade, inundado de drama, de dor e de lágrimas. Uma observação mais atenta é capaz de captar nitidamente que apesar do sorriso na cara, o olhar demonstrava total tristeza, um pedido de socorro sempre eminente, mas nunca atendido.

Fico me perguntando como Phoenix conseguiu, com tanta maestria, associar sentimentos tão distintos ao mesmo tempo… Suas danças são um show à parte! Na mesma hora eu lembrei do Ney Matogrosso. Todas as danças são embaladas com músicas super pertinentes e agradáveis de se ouvir, contrastando com as cenas que de agradáveis não têm nada.

5. O CORPO FALA

078_05

A expressão corporal do ator, especialmente durante as danças e as crises de riso, demonstra o quanto o corpo fala, o quanto o corpo grita, mas que para interpretá-lo, é necessário se despir de preconceitos em busca de toda a subjetividade que carregamos nesse conjunto de ossos e músculos que, para alguns, é uma máquina orgânica, mas que essencialmente, é a tradução do que somos no mundo.

Se tomássemos posse de que não temos um corpo, mas que somos um corpo, seria bem mais fácil detectar que as expressões dizem muito sobre quem somos e quem podemos nos tornar se não temos a dignidade que todo ser humano merece.

6. SOBRE A VIOLÊNCIA

078_06

Eu quase não assisti ao Coringa nos cinemas por ter ouvido muita gente falar que o filme era extremamente violento. A classificação etária é de dezesseis anos e eu concordei plenamente que tenha sido determinada assim. Achei um absurdo encontrar crianças com cerca de dez anos na minha sessão. Fico me perguntando o que há na cabeça de pais que não respeitam a classificação indicativa de filmes, pois, definitivamente, este é um filme para adultos.

E ainda diria mais: este é um filme para adultos que querem assistir uma trama envolvente, e não caricata. Que esperam descobrir a origem e a transformação de um homem que se torna um vilão emerso da sombria e desigual Gotham City, e não apenas a história do Palhaço do Crime quem tem cabelo verde e um sorriso escancarado. Mas enfim, comentários à parte, voltemos ao ponto principal: a violência presente nessa preciosidade de filme.

Primeiramente, as cenas de violência em Coringa são fichinhas frente às de Logan (2017) ou Deadpool (2016). Existem cenas pesadas? Sim. Mas são infinitamente mais leves que as dos filmes supracitados. Diria até que só existe uma cena que realmente é bem sanguinolenta. As demais já são comuns em séries bem populares na Netflix.

Para quem já assistiu Narcos, Orange Is the New Black ou Vis a Vis, as cenas de Coringa não irão surpreender ao ponto de serem “intragáveis”. Penso que em Vis a Vis, por exemplo, o requinte de crueldade do psiquiatra (ou seria psicopata?) Sandoval é muito mais impactante.

Mas no meio disso tudo, o que mais me admirou é que justamente na cena mais violenta, em que quase foi possível respingar sangue na plateia, foi o momento em que todos riram. Que loucura!

078_09

Depois da morte de sua mãe, Arthur volta para casa e inicia seu processo de maquiagem como palhaço, assumindo, definitivamente, sua versão assassina. Ele é convidado a ir ao seu tão querido programa de TV, tendo a oportunidade de conhecer seu grande ídolo Murray Franklin, e, por isso, resolve se caracterizar dessa forma.

Cabe dizer que participar desse programa era um grande sonho, mas não sob as circunstâncias apresentadas: Arthur só é convidado porque um trecho da sua apresentação de stand-up foi passado no programa, de forma banalizada, sem sua autorização. Devido ao aumento da audiência, resolvem chamá-lo para participar ao vivo, e com isso ele vê a chance de mostrar ao mundo sua verdadeira personalidade. É aí que ele percebe que, no fundo, sua vida, que sempre foi uma tragédia, na realidade estava sendo vista pelo mundo como uma grande piada.

Porém, antes de sair de casa para tal compromisso, ele recebe a visita de dois ex-colegas de trabalho, devido ao falecimento de sua mãe. Um deles é quem lhe deu a arma utilizada em seu primeiro crime, o outro, um anão que sempre lhe tratou muito bem. Para se vingar daquele que, ainda que indiretamente, favoreceu sua entrada no mundo do crime, Arthur pega uma tesoura e mata o homem com golpes letais em várias partes do corpo.

O anão presencia tudo, e quando ele abre a boca para questionar o porquê daquilo tudo, é quando a plateia começa a rir, pois a cena foi friamente calculada para ter esse tom sarcástico, cômico, ainda que numa situação extremamente trágica. Foi então que fiquei me perguntando como nós pudemos rir depois daquele crime horrível, como foi possível que a morte tenha sido tão banalizada.

Daí pra frente, vemos a transformação de uma pessoa com problemas mentais que, estando sem seus remédios e sofrendo uma enxurrada de agressões, decepções e revelações imprevisíveis, vai se tornando um homem frio, agressivo e calculista. Que sofre uma metamorfose profunda, compreendendo, enfim, sua personalidade, e nos revelando que, como diz o ditado, de médico e louco, todo mundo tem um pouco.

7.  SOBRE A LUTA DE CLASSES

078_07

É interessante perceber como surge uma mobilização política crescente em Gotham City ao mesmo tempo em que a vida de Arthur parece decair cada vez mais. Seus crimes acabam sendo a motivação para uma revolução dos menos favorecidos, que já não aguentam mais viver em uma cidade em que os ricos têm espaço e os pobres não.

Chega a ser meio “assustador” pensar que em nossa sociedade isso não é muito diferente. Quantos são aqueles que se identificam com os que matam, que fazem justiça com as próprias mãos?

É triste constatar que, infelizmente, Arthur só foi visto pela sociedade quando ele se transformou num psicopata. De certa forma, ele só foi querido e admirado por muitos depois que seus atos extremos foram reconhecidos como algo motivador para uma resposta agressiva do povo, que viu nesse contexto a oportunidade perfeita para incendiar a cidade em busca de melhores condições de vida.

CONCLUSÃO

078_08

Espero que com a análise desses sete pontos você tenha sentido curiosidade em tirar as suas próprias conclusões acerca desse personagem que conseguiu me cativar. A atuação do Joaquin Phoenix foi impecável, tal qual a direção de Todd Phillips. Eles certamente receberão algumas estatuetas por esse filme que, na minha opinião, pode ser considerado como o filme do ano. Sem dúvida, o melhor filme da DC. Vale a pena conferir!

assinatura_aparecida

OS 10 MELHORES JOGOS DE RPG DE TODOS OS TEMPOS (VIDEOGAMES)

ATENÇÃO! Esta é uma lista baseada nas minhas experiências e gostos pessoais! Muito provavelmente várias pessoas discordarão de alguns jogos citados, da ordem em que coloquei, ou até mesmo de tudo. E a ideia é esta mesmo, discordar, trocar ideia e se posicionar. Não gostou da minha lista? Então comenta aí qual é a sua, e os motivos de ter escolhido tais games. Então vamos ao que interessa!

10. VANDAL HEARTS II
Konami (PS / 1999)

077_00

Imagino que seja consenso considerar o final dos anos 90 como a Era de Ouro dos RPG’s, afinal, o que não faltava era uma enxurrada de títulos do gênero para Super Nintendo e principalmente o PlayStation. Final Fantasy Tactics era o queridinho da galera quando se falava de RPG Tático, e é inegável, esse é um puta jogão! Mas particularmente eu fui seduzido por um jogo esquecido por bastante gente, Vandal Hearts II (ヴァンダルハーツ II 天上の門). Dentro do gênero esse foi o jogo que eu mais gostei, gastei horas e me diverti. Seu visual era meio saturado e tinha um enredo mais maduro que os demais jogos da época. Seu antecessor fez um grande sucesso e se tornou um clássico cult. Esse inicia a minha lista, e é o meu décimo RPG favorito.

9. FALLOUT 4
Bethesda Game Studio (PC, PS4, XOne / 2015)

077_01

Jogos com os mapas gigantes! E não só isso, jogos com mapas gigantes e com uma altíssima densidade de coisas para fazer e explorar! A Bethesda é mestra nisso, embora uma tal de CD Projekt RED surgiu para brigar pelo pódio. Comecei tarde na franquia, meu primeiro foi Fallout 3, e cara, que jogaço! Depois experimentei os antecessores, até o primeiro eu joguei. E é bom? É espetacular! E se engana quem acha que por ter gráficos simples e uma visão isométrica, o jogo não traz imersão. Acredite, aquele joguinho de 1997 atropela como um rolo compressor muita coisa moderna. Mas meu coração ficou com Fallout 4! Depois de ter jogado centenas de horas seu antecessor, eu não imaginava que o novo game poderia ultrapassar suas qualidade tão bem assim. Fallout 4 é um jogo controverso que em seu lançamento sofreu muito com problemas técnicos, sofrendo muito bullying por isso, mas particularmente jogando no PC eu nunca tive problemas sérios. Já conhece a franquia né? Caso não, corre atrás que esse é obra de arte!

8. TALES OF VESPERIA
Namco Tales Studio (X360, PC / 2008)

077_02

Final Fantasy é uma franquia renomada, dificilmente exista um jogador de videogames que não conheça. Mas Tales Of também é uma clássica série que começou lá atrás, no Super Nintendo, e que possui muitos títulos de altíssima qualidade. Famosa por seu visual colorido e batalhas frenéticas, é em Tales of Vesperia (テイルズ オブ ヴェスペリア) que a coisa fica bonita de verdade. Trazendo um enredo fenomenal, o game também conta com o melhor e mais criativo desenvolvimento de heróis de todos os jogos da série. Seu design e trilha sonora são de cair o queixo, e fazem com que as horas passadas jogando sejam as mais agradáveis possíveis. Mergulhe nesse mundo de fantasia e veja como seu tempo é drenado da sua vida sem que você nem perceba!

7. DEUS EX: HUMAN REVOLUTION
Eidos Montréal (PC, OS X, PS3, Wii U, X360 / 2011)

077_03

Deus Ex: Human Revolution é um RPG de Ação que combina elementos de jogos de tiro com stealth. Sua jogabilidade riquíssima, possibilita que você possa desfrutar da jogatina de várias formas possíveis, podendo ser uma sombra para os inimigos e minimizar sua letalidade, ou simplesmente sair como o Rambo destruindo tudo que se mover na sua frente. Outra coisa muito interessante nesse game cyberpunk, é seu sistema de diálogo e negociações contra os vilões. Devida sua robusta mecânica, você pode usar sua lábia, negociar de forma inteligente com o inimigo, e liberar um refém por  exemplo. Ou pode simplesmente agir como um anarquista e tacar o zaralho em tudo. Deus Ex: Human Revolution é isso, ter liberdade quase total em como jogar. Seu enredo mistura conspirações industriais, organizações secretas, golpes de governos, ou seja, você é mergulhado numa trama onde está sozinho e não deve confiar em ninguém!

6. MASS EFFECT 2
BioWare (PC, PS3, X360 / 2010)

077_04

Star Trek nunca teve uma representação tão boa quanto essa! Tá, eu sei que isso não é Star Trek, mas estou falando sério, a franquia Mass Effect tem exatamente essa inspiração. O primeiro game é um jogaço, mas possui muitos pontos fracos. Sua mecânica não é tão boa, o level design, principalmente no início, é bem fraco, possui muitas linhas de diálogos “opcionais”, mas que não alteram em bulhufas, enfim, não é nem de longe um jogo perfeito. Mas Mass Effect 2 é outra história. Todas as falha e pontos fracos do antecessor foram contornados. A mecânica de combate que antes broxava a adrenalina, agora te lança em combates frenéticos onde não é mais necessário esperar sua arminha esfriar. Mas o foco de Mass Effect 2 não é gameplay, e sim seu enredo. E quanto a isso, é um dos melhores textos escritos para um jogo ocidental. Não se trata de nada absurdo em complexidade, mas a forma como é roteirizado faz tudo ser muito natural. A sensação do começo ao fim é de realmente estar inserido num filme de ação e ficção científica de primeira qualidade!

5. CHRONO TRIGGER
SquareSoft (SNES, PS, DS, Android, PC / 1995)

077_05

Para a grande maioria dos consumidores do gênero, este é o melhor jogo de RPG de todos os tempos, se não o melhor jogo de todos. Não quero desrespeitar quem pensa diferente, mas ele só alcança o quinto lugar no meu ranking pessoal. Chrono Trigger (クロノ・トリガー) é um jogo único que reuniu os melhores de sua época. A princípio o game seria mais um Final Fantasy, mas começou a ganhar identidade própria e se tornou uma nova franquia. Até mesmo porque conflitaria com as vendas de Final Fantasy VI. Akira Toriyama, Hironobu Sakaguchi e Yuji Horii, são só alguns dos gigantes envolvidos no desenvolvimento de Chrono Trigger. Me perdoem os saudosistas, mas nem o enredo maravilhoso com sua alta carga emocional, os personagens cativantes, as viagens no tempo, a trilha sonora épica, as artes maravilhosa, e tudo mais que gira ao redor de Chrono Trigger, me impedem de considerar os próximos quatro jogos ainda melhores.

4. THE ELDER SCROLLS IV: OBLIVION
Bethesda Game Studio (PC, PS3, X360 / 2006)

077_06

Eu já falei sobre Fallout 4, então, The Elder Scrolls IV: Oblivion é a mesma coisa só que medieval. Então é isso, está tudo explicado. Bem, essa é a impressão de muita gente com relação a comparação entre as duas franquias, porém as coisas não são tão simples assim. O estúdio desenvolvedor é o mesmo, a engine costuma ser a mesma, os dois possuem enormes mundos abertos, mas não, os dois jogos não são nem de longe diferentes apenas visualmente. Eu já havia jogado The Elder Scrolls III: Morrowind, e esse até então era o meu prefiro. Mas aí saiu o quarto episódio da série, Oblivion. E eu mastiguei. Mastiguei muito! Acredito ter depositado mais de mil horas nessa obra de arte. Esse para mim é o mundo de fantasia medieval mais encantador e imersivo dos videogames (embora eu tenha jogado no PC), e a sensação de explorar cada milímetro do mapa era algo sem igual. Skyrim é maravilhoso, mas quando você conhece intimamente os dois bem de perto, você vê que faltou um ‘tchan’ a mais para ele superar Oblivion. A inserção de enormes dragões não foi suficiente. Vamos ver no sexto jogo que está por sair. Isso se a Bethesda não estragar tudo, já que ultimamente tem se mostrado uma empresa despreocupada demais em agradar seu público. Espero estar equivocado.

3. STAR OCEAN: THE SECOND STORY
Tri-Ace (PS, PSP, PS3, PS4 / 1998)

077_07

Você tem algum jogo qua quase ninguém se importa, mas você acha fodão ao ponto de voltar a jogar várias e várias vezes? Bem, esse aqui é o dito cujo para mim. Eu nem sabia de sua existência na época, peguei em meio a vários outros jogos de PlayStation. Deve ter ficado na estante quase um mês até chegar a vez de ser experimentado. Eu só sei que foi amor a primeira vista! Tudo, absolutamente tudo em Star Ocean: The Second Story (スターオーシャン セカンドストーリー) me cativa! Um jogo de longos diálogos que assusta muita gente, mas que se você realmente se atentar, vai ver que cada conversa trocada alimenta ainda mais essa empolgante história do lendário ‘Warrior of Light’. Seu conceito é lindíssimo, tem personagens carismáticos, uma trilha sonora matadora, um número sem fim de itens para encontrar ou forjar, e acredite, Star Ocean: The Second Story possui 87 fucking finais!

2. SUIKODEN II
Konami (PS / 1998)

077_08

Pelotão, preparar! Atenção! Segurem!! Atacar!!! Guerra! Um épico sem precedentes, e que até hoje não foi superado por nada com proposta parecida! Suikoden II (幻想水滸伝II) poderia estar em primeiro lugar nessa lista. Só não está por uma pequena faísca a mais de amor por seu concorrente direto, Final Fantasy VII. Se você diz gostar de jRPG, e não conhece este game, eu tenho de te falar, você só tem comido o papel e jogado a bala fora. Suikoden II é brutal! Começar a falar sobre ele é correr o risco de escrever durante o dia inteiro. Vamos começar com algumas informações instigantes. Curte Game of Thrones e acha aquelas guerras por poder legais? Suikoden II tem (e no antecessor também). Gosta de muitos personagens para recrutar em RPG? Suikoden II tem mais de 100. E sim, você leu certo, mais de 100 (cem). A jogabilidade é igual aos outros jRPG’s? Em Suikoden II você combate na maneira tradicional da franquia tendo até seis aliados contra seis inimigos, também existe o modo de duelo, e por que não, você pode pegar a sua centena de personagens recrutados e selecionar quem vai ser carne de canhão para a guerra! Lembrando, se ele morrer no conflito, adeus amiguinho! Ah, agora eu te pego! Você pode ter um castelo, aparelhar todo ele, e colocar toda essa galera dentro? Sim. Te garanto, não adianta o quanto eu fale, este é um jogo que precisa ser jogado, e não apenas lido a respeito.

1. FINAL FANTASY VII
SquareSoft (PS, PC / 1997)

077_09

Quando se fala de um melhor Final Fantasy, a briga sempre gira em torno de Final Fantasy VI e Final Fantasy VII, e tem alguns que até evocam Final Fantasy IX. Final Fantasy VII (ファイナルファンタジーVII) foi o primeiro jogo da franquia a utilizar modelos poligonais por cima de cenários pré-renderizados. O sétimo jogo do principal produto da SquareSoft causou um frenesi mundial, sendo aclamado pela crítica especializada e conseguindo uma nota média mundial de 92,35% no GameRanking e 92% no Metacritic. Quebrou recordes de vendas mundialmente, e se tornou o jogo que alavancou o sucesso do PlayStation. Tamanho sucesso é justificado pelo seu maravilhoso enredo, e por possuir os personagens mais carismáticos da história dos RPG’s. Os conflitos internos de Cloud, a busca pela verdade, e sua odisseia na companhia de seus amigos contra um formidável inimigo, fez nascer Sephiroth como o Darth Vader do mundo dos videogames. Tudo em Final Fantasy VII é maravilhoso, e se fosse diferente disso, não veríamos seu remake anunciado para 2020 como uma das mais ambiciosas produções da indústria do jogos eletrônicos. Então é isso, o meu melhor RPG de todos os tempos, definitivamente é Final Fantasy VII!

Barra Divisória

assinatura_dan

CORINGA (CRÍTICA)

076_00

Coringa gira em torno de uma origem para o icônico arqui-inimigo do Batman, herói clássico da DC Comics. Desde sua primeira aparição lá pelos anos 1940, o vilão foi intensamente revisitado e muitos atores o viveram: Cesar Romero (na série clássica dos ano 1960), Mark Hamill, o eterno Luke Skywalker que o dublou em Batman: The Animated Series, Jack Nicholson (Batman, 1989), o vencedor do Oscar póstumo Heath Legder (O Cavaleiro das Trevas, 2008) e o fiasco de Jared Leto (Esquadrão Suicida, 2016).

Todavia esta é uma história original e independente, nunca vista antes na tela grande. A exploração de Arthur Fleck (Joaquin Phoenix) por Todd Phillips, é a de um homem desconsiderado pela sociedade. Não é apenas um estudo de caráter corajoso, mas também um conto de advertência mais amplo para os perigos do isolamento, da solidão e da invisibilidade social. Ao acompanhar a trajetória de Arthur Fleck, um homem esquecido pela sociedade, investigamos até que ponto o palhaço de Gotham City é fruto da incapacidade de todos nós de acolhermos o outro.

076_01

Título original: Joker
Direção: Todd Phillips
Roteiro: Todd Phillips, Scott Silver
Duração: 2h 1min
Lançamento: 03 de outubro de 2019, no Brasil

076_02

Elenco: Joaquin Phoenix (Arthur Fleck/Coringa), Robert De Niro (Murray Franklin), Zazie Beetz (Sophie Dumond), Frances Conroy (Penny Fleck), Brett Cullen (Thomas Wayne)

076_03

A VIDA É UM TEATRO DO ABSURDO
Não é um filme de herói. Não espere um filme caricato e colorido como se saltasse dos quadrinhos. Não. É um filme sobre loucura, sobre ser invisível no mundo e uma investigação da insanidade por parte do próprio louco. Na moda atual de criar filmes sobre vilões (como Esquadrão Suicida, 2016; e Venom, 2018) ou sobre anti-heróis (Deadpool, 2016; e Logan, 2017 ), Coringa nos brinda com uma releitura adulta de um dos vilões mais conhecidos das Histórias em Quadrinhos (HQs). É uma história de origem que nos lembra muito a versão de Alan Moore, mas somente na abordagem psicológica; como também a de Christopher Nolan (O Cavaleiro das Trevas, 2008) eternizado por Heath Legde, também amigo de Joaquin Phoenix, o vilão deste longa. Mas as semelhanças param por aí. O Coringa de Joaquin oscila entre o riso, o choro e o grito contido daqueles que, em sociedade, nunca são ouvidos.

076_04

Conhecemos, então, a história de Arthur Fleck, em reabilitação após uma temporada no sanatório, diagnosticado com problemas cerebrais e com uma ideia fixa plantada por sua mãe: que ele nascera para fazer o mundo rir. Joaquin Phoenix, ao falar sobre Arthur, define o personagem como “um cara que busca uma identidade que por engano se torna um símbolo. Seu objetivo é genuinamente fazer as pessoas rirem e trazer alegria ao mundo”.

“Quando eu era menino e dizia às pessoas que seria comediante, todo mundo ria de mim. Bem, ninguém está rindo agora”

Desta forma, Arthur Fleck ganha a vida sendo palhaço, ora como garoto propaganda nas calçadas, ora como animador em hospital no maior estilo Path Adams de Robin Wiliams. Alterna com suas idas à assistência social e seus cuidados para com a mãe. Nas horas vagas, escreve um diário e rascunha, toma notas para compor seu próprio stand-up, seja assistindo a outros comediantes, seja vendo o programa de Murray Franklin, seu grande ídolo.

076_05

Com uma fotografia que lembra muito Taxi Driver (1976), o que vemos desfilar pela tela não é uma Gotham City atual ou futurística. O intensamente magro, esquelético Coringa tenta sobreviver à cidade opressiva da década de 1980. Gotham é violenta nas pequenas coisas: na paisagem deteriorada, na elite (aqui representada pela família Wayne) que vive melhor que a população comum, no trato humano diário e tantas outras instâncias da sociedade. E a cidade ao mesmo tempo que não enxerga, não perdoa àqueles que não se enquadram nos padrões. A atriz Zazie Beetz, que já vivera a heroína Dominó (Deadpool 2, 2018), afirma sobre o Coringa:

“É uma espécie de empatia em relação ao isolamento”, disse Beetz, “e uma empatia em relação ao que é nosso dever como sociedade, de abordar as pessoas que escapam de alguma maneira pelas brechas. Há muita cultura disso no momento. Por isso, empatia ou apenas uma observação sobre personalidades que lutam?”

076_06

Quanto a Arthur Fleck, não é o simples vilão que enlouqueceu caindo em recipiente de produtos químicos. Lá nas HQs, a Origem do Coringa, faz com que sua peles esbranquiçada seja fruto da deterioração cerebral causada pelos produtos da Indústria Ace. O Coringa se pinta e se veste de palhaço. Ele protagoniza sua composição que evidencia sua insanidade.

A maquiagem do Coringa é muito parecida com a de John Wayne Gacy, um verdadeiro serial killer que costumava entreter crianças enquanto estava vestido como Pogo, o Palhaço. Um estilo de maquiagem que foi evitado pelos palhaços que trabalhavam na época, pois proibiam estritamente pontas “afiadas” na composição, como aparece nos olhos, pois isso assustava às crianças.

076_07

O palhaço tão pouco é mero reflexo do heroísmo do Batman, mas sim do poder da família Wayne. Sua loucura é herdada, sua loucura é fruto de agressão, sua loucura é fisiológica, sua loucura é a não aceitação. Assim o vilão sintetiza tantas causas para a falta da sanidade que, em uma sociedade insana, acaba sendo o gatilho para a barbárie.

Mas se você olhar com atenção, ainda encontrará aquelas referências aos quadrinhos como a fixação do vilão pelos holofotes, prenunciada desde 1940 (Bob Kane) com sua aparição no rádio ou em 2005, na sua obsessão pela TV (Ed Brubaker). Lançará alguma luz sobre a origem do Batman, no entanto, já avisamos, é um filme cujo protagonista é o Coringa, o bobo da corte que de uma hora para outra pode desestabilizar o sistema.

CONCLUSÃO: Eis a questão…
Se você se pergunta se é um longa-metragem que merece ser assistido, digo que não. Merece ser degustado. A trilha sonora, pontual e complementar ao enredo, com a presença de “Smile” (composta por Chaplin para Tempos Modernos, 1936); e “Send the clowns” de Frank Sinatra, encaixam-se perfeitamente no enredo. Ainda, pelo aspecto sonoro, a risada frenética quebra esse momentos de lirismo e a seriedade de certas cenas, contudo não de um jeito cômico. É uma risada, mescla de choro, que não diverte, mas que causa nervoso. O riso de nervoso de Joaquim Phoenix é a vírgula, é o eco do silêncio e é o ponto final. O diretor descreveu para Phoenix como “algo quase doloroso, parte dele que está tentando emergir” e o resultado ficou surpreendente.

Por isso não espere aqui que a história desse filme se alinhe com os novos planos da DC para o Batman interpretado por Robert Pattinson. “Não vejo o Coringa se conectando a nada no futuro”, disse o diretor Todd Phillips. E completa: “Este é apenas um filme.” E nisso concordamos. Coringa é um filme único e não merece continuação porque é uma obra totalmente acabada em si mesmo, mas com questões imperecíveis.

Barra Divisória

assinatura_marco

BLACK – SÉRIE DA NETFLIX (CRÍTICA)

075_00

SINOPSE
Kang Ha-ram é uma jovem mulher que desde a infância sofre bastante com um infeliz dom. Capaz de ver espíritos por todos os lados, precisa estar sempre de óculos escuros para camuflar os vultos espectrais e não acabar enlouquecendo. Em outro canto da cidade está Han Moo-gang, um detetive extrovertido e dedicado ao trabalho que acaba morrendo durante o cumprimento do seu dever. Seu corpo então é levado ao necrotério, e lá ele é possuído pelo Ceifador Nº 444, uma entidade implacável e sem compaixão que encaminha os vivos para o mundo do morto. Assumindo o corpo de Han Moo-gang, ele procura manter o disfarce como detetive, enquanto parte no encalço de seu pupilo renegado, do qual é responsável, e que também se apossou de um corpo humano morto.

075_01

COMENTÁRIOS
Black (블랙) é uma produção sul-coreana que mistura elementos como drama, romance, policial, mistério, fantasia, comédia e ação, e por todos os gêneros por onde transita, o faz com muita presteza e originalidade narrativa, mesmo englobando tantas categorias. Por incrível que pareça o senso de humor dos sul-coreanos não é muito diferente de nós brasileiros, eles estão sempre rindo, sempre solícitos, algo bem diferente do que faria sentido, uma vez que o recebe forte influência cultural norte americana, um povo bem introspectivo. Isso é algo que sempre acho bacana de observar, seja em qual tipo de mídia for, a expressão natural de humanidade de uma cultura, e os sul-coreanos não se preocupam com isso. Fazem suas graças seja onde for, estando seguros de não dever satisfação por seus comportamentos a ninguém. Do jeito que realmente deve ser!

075_02

Explicado um pouco sobre esse grau de naturalidade com o qual esse povo tão distante se mostra, fica mais fácil dizer que tudo em Black é fluído. As atuações e diálogos são impressionantes. Esse é o tipo de série que verdadeiramente te distrai, sendo capaz de te empurrar para uma maratona sem nem perceber. Divertidíssimo, porém de bastante tato quando há necessidade de mais seriedade, a narrativa traz muito sobre dilemas familiares, lutos, superações e, sempre que o faz, somos afetados pela emoção que esse elenco consegue transbordar. São profissionais que realmente encarnam seus personagens e dão o máximos de si. O roteiro de Black consegue se manter firme pelos seus dezoito episódios, onde cada um deles tem entre 68 e 87 minutos. Achou longo? Acredite, você nem consegue notar que esse tempo todo passou.

075_03

Com uma produção polida, o ‘K-drama’ (produções sul-coreanas lançadas em série para TV), que erroneamente é chamado por muito gente de ‘dorama’ (produções japonesas), não apresenta muitas falhas. Seu roteiro bem amarrado tem uma direção competente, executando cenas de ação bastante empolgantes. As lutas e perseguições são bem coreografadas, mesmo com as rígidas normas de trânsito do país, o que traz uma boa dose de adrenalina. Acho que é óbvio, mas digo tudo isso considerando esta ser uma série, e não um filme, que é bem mais compacto e fácil de editar.

075_04

ELENCO E FICHA TÉCNICA
Song Seung-heon, Go Ara, Jae-young Kim, Kim Dong-jun, Lee El, Won-hae Kim, Jo Jae-yoon, Choi Min-chul, Park Doo-sik, Kim Tae Woo, Chul-min Lee, Jae-Ho Heo, Seok-yong Jeong e Choi Won-hong compõem o elenco. Com roteiro de Choi Ran, a série é dirigida por Kim Hong-sun. Obra do sul-coreano Studio Dragon, tem produção executiva de Kim Jong-sik e Song Jae-joon. Estúdio esse também responsável por outras séries já resenhadas aqui, como The K2 (2016), Tunnel (2017) e Stranger (2017). Na Coreia do sul, Black, foi distribuída pela Orion Cinema Network, mais conhecida como OCN, e foi internacionalizada pelo serviço de assinatura Netflix. Lançada em 2017, a série, que de forma correta deve ser tratada como um K-drama, possui dezoito episódios, e até onde se compreende, tem sua história concluída, dificultando a possibilidade de continuação.

CONCLUSÃO
Embora eu ainda não tivesse feito a resenha sobre nenhuma produção sul-coreana até o momento, já assisti muitas coisas do país, e estou seguro em afirmar, esta é uma das melhores e mais divertidas séries daquelas bandas. Tendo uma história muito intrigante, ela te prende em assistir sequencias de episódios de mais de uma hora cada sem nem perceber. Uma produção muito boa que acertou em cheio em seu roteiro e direção, e que fez mais bonito ainda na escolha de seu elenco. Black tem drama, romance, policial, mistério, fantasia, comédia e ação, e não se engane achando que uma série com tantos gêneros misturados não tem condições de ser bom em tudo que propõe. Muito pelo contrário, os caras acertaram e fizeram bonito em tudo! Duvida? Te desafio a assistir pelo menos o primeiro episódio e não se apaixonar por este K-drama. A série é recomendada para maiores de dezesseis anos e está disponível no serviço por assinatura Netflix.

Barra Divisória

assinatura_dan

GLITCH – SÉRIE DA NETFLIX (CRÍTICA)

074_00

SINOPSE
A polícia da pequena e pacata cidade Yoorana recebe um chamado de perturbação no cemitério, então o Sargento James Hayes parte a caminho. Sete pessoas por conta própria simplesmente saíram de seus respectivos túmulos, não com os corpos em decomposição ou coisa do tipo, mas com plena saúde. O policial então sem compreender exatamente o que estava acontecendo imagina que aquelas pessoas estavam sob efeito de drogas ou participando de algum ritual esquisito. James encontra cinco deles, e os leva para a clínica Elishia McKellar, os outros dois tomaram rumos diferentes pela cidade sem que ele notasse.

074_01

Havia algo ainda mais estranho do que gente nua cheia de terra num cemitério, após todos serem atendidos e limpos na clínica, James reconhece um deles como sua falecida esposa, Kate Willis. Incrédulo e nervoso, fica atônito diante daquela situação, no entanto o sentimento da saudade faz com que ignore toda a estranheza e aceite aquilo como um milagre. A noite caótica exigia que James pensasse rápido, as autoridades não podiam tomar ciência de nada, sabe-se lá o que fariam com eles. Aquelas pessoas aos poucos iam recobrando algumas memórias, e era descoberto que cada um morreu em épocas bem diferentes. Tornou-se pessoal, ele precisava entender porque aquilo estava acontecendo, ao mesmo tempo que precisava fazer de tudo para mantê-los protegidos.

074_02

COMENTÁRIOS
Glitch é uma série australiana que estreou em 2015 pelo serviço de assinatura Netflix, e se concluiu com três temporadas de seis episódios cada. Com uma temática de drama, paranormal e muito mistério, a produção mostra muita qualidade e personalidade em seu desenvolvimento como história. Não espere nada assustador ou sombrio, a temperatura aqui é outra, e foca muito mais nos mistérios do porque aquilo tudo aconteceu, e em repentinos flashbacks de cada um daqueles indivíduos para que recordem suas memórias. O que mais me surpreendeu em Glitch foi o entrosamento excepcional dos atores. Não existe elo fraco, todos se saem bem e conseguem entregar uma performance sem máculas.

074_03

O roteiro do trio de escritores, Louise Fox, Kris Mrksa e Giula Sandler, é bem fechado, mantendo a coerência por todas as três temporadas, e combinado à excelente direção de Emma Freemanm, faz ser muito merecido os vários prêmios que a série recebeu. A trilha original de Cornel Wilczek é um espetáculo à parte, e também foi premiada. A fotografia australiana traz ainda mais autenticidade e identidade para a produção, com tomada aéreas muito bonitas e cenas panorâmicas espetaculares. A cidade de Yoorana é fictícia, e suas gravações ocorreram em Victoria, sudeste da Austrália. Glitch finalizou nesta terceira temporada lançada em 2019, e uma coisa incomodou muitos os fãs, a Netflix não deu ênfase alguma. O que se passa na cabeça dos executivos que não valorizam nem seus trabalhos originais? Ainda mais se tratando de uma série muito bem aceita pelo público. Enfim, esmiuçar esse assunto fica para outra hora, mas realmente é revoltante.

074_04

COMENTÁRIOS COM SPOILERS
Mistérios e mais mistérios! Fiquei com a pulga atrás da orelha pelos dezoito episódios, e queria muito um décimo nono para me desenhar que raios eu preciso entender! Sou o tipo de pessoa ansiosas que precisa sim da visão conceitual do autor, por mais que ele considere ‘o charme’ deixar algumas questões em aberto. Mágica? Ciência? Cadê o outro lado? Tem um outro lado? Quem ou o que orquestrava e definia todas as regras para a sinfonia da natureza? Deus? Fiquei agoniado querendo essas explicações e acreditava até o último segundo que as teria. E não tive! Tem dois dias que terminei de assistir e ainda estou arrancando cabelos. Fiquei por um fio de chutar o balde e praguejar pelos quatro cantos do mundo o quanto essa série é horrorosa, mas seria mentira. Seria apenas eu putaço querendo minhas respostas. Me diz você aí que já assistiu, o que achou do final? Tem sua teoria? Ajuda aí esse cara que não tem religião, é cético pra cacete com tudo, mas quer um ‘ah, é isso’ para se agarrar. Essa série é horrível! Não vê não! mentira, é boa. Saco!

074_05

ELENCO E FICHA TÉCNICA
Patrick Brammall, Genevieve O’Reilly, Emma Booth, Hannah Monson, Sean Keenan, Daniela Farinacci, Ned Dennehy, Rodger Corser, Emily Barclay, Andrew McFarlane, Aaron McGrath, Rob Collins, Pernilla August, Luke Arnold, James Monarski, John Leary, Anni Finsterer, Lisa Flanagan, Leila Gurruwiwi, Robert Menzies e Greg Stone compõem parte do elenco. Escrito por Louise Fox, Kris Mrksa e Giula Sandler, Glitch foi dirigido por Emma Freeman. A produção fica por conta de Noah Burnett e Noah Fox, com Tony Ayres servindo como produtor executivo. A série recebeu o Prêmio AACTA nas categorias Melhor Série de Drama e Melhor Trilha Sonora Original. Também recebeu dois Prêmios Logie nas categorias Melhor Série de Drama e Melhor Direção em Série de Drama.

CONCLUSÃO
Se gosta de um mistério, não pense duas vezes, cai dentro porque Glitch é conteúdo para você! A série te prende com naturalidade, fazendo com que tenha disposição, e caso tenha tempo também, maratone seus dezoito episódios rapidinho. Já concluída na terceira temporada, a obra está disponível com exclusividade no serviço por assinatura Netflix. Sua classificação é de dezesseis anos, aborda alguns temas delicados e tem cenas de nudez, mas tudo sem recorrer a extremos. Portanto se tem um moleque de uns doze anos, consciente dos paranauês básicos da vida, pode colocar ele do seu lado no sofá e curtir de boa. Boa série para você!

Barra Divisória

assinatura_dan

STAR WARS: EPISÓDIO III – A VINGANÇA DOS SITH (CRÍTICA)

073_00

Guerra! A República está desmoronando sob o ataque do impiedoso Lorde Sith, Conde Dookan. Há heróis de ambos os lados. O Mal está por toda parte.
Em uma manobra surpreendente, o perverso líder droide, General Grievous, invadiu a capital da República e sequestrou o Chanceler Palpatine, líder do Senado Galáctico.
Enquanto o Exército Separatista de Droides tenta escapar da capital sitiada com seu valioso refém, dois Cavaleiros Jedi lideram uma missão desesperada para resgatar o Chanceler preso…

Três anos de passaram desde a Batalha de Geonosis (Star Wars: Episódio II – O Ataque dos Clones, 2002), onde teve início a grande guerra que envolveu diversos sistemas planetários.  A galáxia oscila entre as duas facções que lutam pela hegemonia. De um lado a fragilizada democracia, liderada pela figura dúbia do Chanceler Palpatine, cujas forças se concentram no auxílio do Conselho Jedi e nas tropas de soldados-clones; do outro, a Aliança Separatista, cujo líder, o ex mestre jedi Conde Dookan, deseja não pertencer mais a República e tem no exército droide sua grande força de batalha.

Mas enquanto a República está em crise, a Ordem Jedi questiona as intenções da guerra. Desconfiam do Chanceler que não tenciona deixar o cargo após conflito e ainda quer aumentar a militarização da República. A guerra caminha bem para o lado da republicano, mas os sentimentos conflituosos de Anakin Skywalker o fazem se tornar um agente duplo entre o Conselho Jedi e o plano de poder de Palpatine. Os jedis desconfiam do Chanceler Supremo. Parece que a passos firmes o antigo garoto de Tatooine, o escolhido para trazer equilíbrio à Força (Star Wars: Episódio I – A Ameaça Fantasma, 1999), começa a sucumbir diante da ameaça sith, do medo e da cobiça.

073_01

Título original: Star Wars: Episode III – Revenge of the Sith
Direção: George Lucas
Roteiro: George Lucas
Duração: 2h 20min
Lançamento: 19 de maio de 2005

073_02

Elenco: Ewan McGregor (Obi-Wan Kenobi), Natalie Portman (Padmé), Hayden Christensen (Anakin Skywalker), Christopher Lee (Conde Dookan / Darth Tyranus), Samuel L. Jackson (Mace Windu), Frank Oz (Yoda) e Ian McDiarmid (Chanceler Supremo Palpatine).

073_03

DE ANAKIN A DARTH VADER
Já analisamos nos dois outros filmes da trilogia prequela (pré-sequência), a Ameaça Fantasma (1999) e Ataque dos Clones (2002), como a pequenos passos o garotinho escravo de Tatooine trilhava um caminho dúbio. Apesar da fé cega de Qui-Gon Jinn de acreditar que Anakin seria o Escolhido, aquele que traria equilíbrio para a Força, o menino fora descoberto muito velho para um treinamento jedi convencional. Fora descoberto velho porque cresceu na Orla Exterior, fora da jurisdição da República e do Conselho Jedi. Alia-se a isso sua ligação fortíssima a mãe e por ter se tornado discípulo de Obin Wan Kenobi, ainda jovem cavaleiro e, portanto, não tão experiente.

Anakin parece crescer em poder, mas não em sabedoria. Aquela arrogância meiga de quando era criança de se achar o melhor piloto de pods, faz com que atravesse a adolescência achando-se o melhor jedi existente (o que, de certa forma, era verdade). Mas mesmo com os conselhos equilibrados de Obi Wan, Anakin se deixa seduzir pelos sentimentos passionais humanos: o amor por Padmé Amidala, fixação desde criança, os sonhos premonitórios de morte de sua mãe e o crescente desgosto por não se achar valorizado o bastante pela Ordem Jedi. E ao final do do Episódio II, Skywalker se casa às escondidas (algo proibido a um jedi), tenta salvar sua mãe (que perece em seus braços), assassina uma aldeia inteira por pura vingança e se torna cada vez mais íntimo de Palpatine, um homem ambicioso e alterego de Darth Sidious.

073_04

Quando o Episódio III tem início, sabemos logo de cara o quanto a influência de Palpatine já estava sedimentada: Anakin executa Conde Dookan na frente do Chanceler que calmamente assiste. Obin Wan desacordado, não vê seu antigo aprendiz se vingar do homem que lhe decepara a mão. A partir desse momento, o Chanceler Supremo, que claramente havia arquitetado o próprio sequestro, tendo se livrado de seu antigo aprendiz Darth Tiranus (Dookan), começa o processo de conversão definitiva de Anakin Skywalker.

A estratégia do Chanceler se dá por duas vias: o medo e a desconfiança. Anakin passa a ter sonhos premonitórios nos quais Padmé morre no parto. Sonhos que o atormentam semelhantes àqueles que prenunciavam a morte de sua mãe pelos povos da areia. Nesse ponto, Darth Sidious acaba demonstrando que o Lado Negro possui as ferramentas para evitar que alguém morra. Um processo antinatural para a filosofia jedi, porque quem morre se torna um com a Força. Assim o Chanceler Supremo conta a história de Darth Plagueis, que fora assassinado dormindo por seu aprendiz (pressupomos ser Darth Sidous), mas que antes de morrer passara ao aluno o segredo para imortalidade.

073_05

Enquanto medo de morrer é enfatizado e possui a solução antinatural, a desconfiança de Anakin cresce em relação ao Conselho, alimentada pela falsidade das palavras do lorde sombrio. Prevendo cada passo dos jedis, ele incita Anakin a pleitear um lugar no conselho, mesmo sendo muito jovem para isso. Isso é negado prontamente por Yoda e Mace, tornando-o meramente um ouvinte do conselho. Em seguida ainda solicitam que Anakin espione o Chanceler, para ele uma traição à República. Enquanto os jedis desconfiam (tarde demais) das intenções de Palpatine, esse continua a sustentar que na verdade o Conselho quer tirar seu cargo para assumirem o poder da Galáxia.

É essa trilha do medo e da desconfiança que serão armas sedutoras do Lado Negro. Alie-se a isso a crescente ânsia de Anakin em se tornar cada mais poderoso e temos os ingredientes que formarão Darth Vader.

073_06

PODER ILIMITADO
Durante o este último episódio da trilogia prequela, finalmente vemos a ascensão definitiva de Darth Sidious e a formação do Império Galáctico, o governo tirânico contra o qual lutarão os Rebeldes de Uma nova esperança (1977).

A estratégia do chanceler Palpatine para manter o poder é conhecida pelos cientistas políticos e é chamada de Guerra Perpétua. Ele chega ao poder através de conflitos com a Federação do Comércio, obtém maiores privilégios através da Guerra dos Clones e solidifica sua posição através da guerra contra os Jedi.

Cabe relembrar a trajetória o plano foi minuciosamente trabalhado através dos anos:

  • 073_07(Episódio I) Como Senador de Naboo, incita a Federação de Comércio a um bloqueio comercial, o que faz com que a própria Senadora Amidala proponha um voto de desconfiança ao antigo Chanceler Supremo. Palpatine termina por ocupar o lugar deste na chefia do Senado Galáctico e descobre o potencial do garotinho Anakin;
  • 073_08Com poderes imediatos, encomenda em nome do conselho um exército de clones para República, ao passo que auxilia os Separatistas, na sua rebelião contra a democracia. Enquanto se torna conselheiro de Anakin, ainda padawan, o Chanceler começa a militarizar ambos os lados da guerra contando com o apoio de seu aprendiz, Conde Dookan;
  • 073_09(Episódio II) Usa então um senador patético, Jar Jar Binks que ocupa o lugar de Padmé, afastada do Senado devido a um atentado, para propor que ele obtenha poderes emergenciais e a criação de um exército da República (os clones). De acordo com Ahmed Best, houve uma cena deletada em que, antes de ele se coroar Imperador, Palpatine agradeceu Jar Jar Binks por ter concedido os poderes emergenciais que lhe permitiram dominar a Galáxia;
  • 073_10(Episódio III) Com a suposta traição do Conselho Jedi, propõe que a República se torne um Império Galáctico, e executa Ordem 66: uma programação embutida nos clones que visava à execução de todo e qualquer jedi;
  • 073_11Por fim converte Anakin em Darth Vader, seu aprendiz e um poderoso manipulador da Força. Um jedi caído, cego pelo ódio e pelo desespero por achar ter assassinado seu grande amor em um momento de fúria.

E talvez a citação mais icônica e irônica é justamente quando Padmé Amidala, na plenária que deu origem a formação do Império Galáctico, constata o fim da República. Ela que sempre defendera a desmilitarização, a solução diplomática para o conflito, com os olhos marejados diante a aprovação unânime do Senado, enfim, diz:

Então é assim que a liberdade morre: com um estrondoso aplauso.

073_12

UMA NOVA ESPERANÇA
A ascensão dos sith é o declínio da influência jedi na Galáxia. Mesmo que Mace Windu desconfiasse desde sempre do Chanceler e sua relação com Anakin; mesmo que Yoda percebesse a perturbação na Força e tivesse seus medos em relação a Skywalker; mesmo que Obi Wan visse a arrogância de Anakin e a relevasse por achar que era coisa da juventude e que a meditação e a experiência o curariam; os jedi estavam cegos pelo orgulho e pelo conflito no qual estavam inseridos.

E o jovem Vader, ainda sem sua armadura característica, empreende a chacina até de crianças aprendizes do templo e de toda alta cúpula Separatista. Perde duramente para Obin Wan em uma batalha de sabres de luz de tirar o fôlego. Aqui duas cenas se sobrepõe: Kenobi versus Anakin, Yoda versus Imperador. Anakin e Yoda perdem pelo mesmo motivo: seus adversários estão em nível superior, desvantagem. O fim dos duelos é o fim trágico da liberdade na Galáxia.

Este filme se passa 19 anos antes de Uma Nova Esperança (1977). Então o Episódio III lanças as sementes para o próximo filme e, até certo ponto, elucida para os fãs algumas pontas soltas que marcam a história da trilogia clássica das décadas de 1970 e 1980. Alguns pontos são esclarecidos e merecem destaque:

  • 073_13Darth Vader usa aquela armadura altamente tecnológica e como vilão é muito mais robótico que humano. Isso são reflexos da ultima batalha contra Kenobi no Planeta Mustafa (palavra que vem do árabe, “o escolhido”). Seu andar cambaleante, devido ao peso extra colocado no traje, faz com que ele seja semelhante a um Frankenstein;
  • 073_14Após a morte de Padmé, mas por tristeza do que por causas médicas, vemos como Leia e Luke são separados em seu nascimento. A primeira destinada a família Organa, grande aliada de Naboo desde muito tempo; o último para a terra árida de Tatooine para ser criado por seu meio irmão e vigiado, ao longe, por Obin Wan Kenobi;
  • 073_15O termo “Rebelde” é usado primeiramente neste filme para se referir aos jedis que se opõem a tirania do Império e mais tarde se estenderá para toda a oposição galáctica;
  • 073_16Percebemos que o exílio de Obi Wan tem relação com a vida após a morte, pois ele treinará com o espírito de Qui Gon. Isso explica a voz interior do mestre Kenobi que fala com Luke e sua posterior aparição para o jovem na trilogia clássica. O mesmo para Yoda que se retira para Dagobah, após a derrota para o Imperador, para entender os desígnios da Força;
  • 073_17Cabe lembrar que alguns personagens da franquia tem sua presença explicada neste loga como o motivo para C3PO e R2D2 não se lembrarem dos acontecimentos das Guerras Clônicas. Respectivamente, o droide de protocolo termina com Luke e o astrodoide com a família Organa. Também Chewbacca, como veterano de guerra, que lutou ao lado de Yoda em seu planeta natal Kashyyyk, estreia nesse longa e nos mostra seu passado guerreiro;
  • 073_18Por fim, e não menos importante, os planos da Estrela da Morte, que estavam de posse dos Separatistas em Geonosis (final do Episódios II), revelam-se a todo vapor, primeiro na cena que Palpatine estuda em seu gabinete, em uma rápida projeção, depois, no final do filme, como arma está sendo construída.

CURIOSIDADES

  1. 073_19Ewan McGregor e Hayden Christensen treinaram por dois meses em esgrima e condicionamento físico, em preparação para sua batalha épica. Como resultado de sua prática, a velocidade com que Kenobi e Vader se envolvem no duelo é a velocidade em que foi filmada e não foi acelerada digitalmente.
  2. 073_20Em 2007, o Dr. Eric Bui, psiquiatra francês, coescreveu um estudo que diagnosticou Anakin Skywalker como tendo Transtorno da Personalidade Borderline. Quando os autores relataram suas descobertas na reunião anual da Associação Americana de Psiquiatria, declararam que Skywalker se enquadra nos critérios de diagnóstico: dificuldade em controlar a raiva, rupturas relacionadas ao estresse com a realidade, impulsividade, obsessão pelo abandono e um “padrão de relacionamentos interpessoais instáveis e intensos caracterizado pela alternância entre extremos de ideação e desvalorização “.
  3. 073_21No duelo com o Conde Dookan, o Palpatine aprisionado, originalmente, teve mais diálogos. Uma de suas falas revelava algo obscuro do Episódio II: Ataque dos Clones (2002): Dookan teria pagado aos Tusken Raiders (Povo da Areia) para sequestrar, torturar e matar Shmi Skywalker (mãe de Anakin).
  4. 073_22A história deste filme está em ordem inversa de Star Wars: Episódio IV – Uma Nova Esperança (1977). O primeiro ato deste filme começa com uma batalha espacial, prossegue com uma missão de resgate, continua com Anakin percebendo seu destino na vida e termina com o Império assumindo. O episódio IV começa com o Império assumindo o controle, prossegue com Luke percebendo seu destino na vida, continua com uma missão de resgate e termina com uma batalha espacial.
  5. 073_23A sequência em que Palpatine anuncia o Império, enquanto Darth Vader mata os líderes separatistas, foi modelada após a famosa “Sequência de Batismo” em O Poderoso Chefão (1972).

CONCLUSÃO
Para apreciar plenamente esse filme, só acompanhando toda a trajetória. No entanto você consegue saber o básico dos motivos que formaram Darth Vader e ascensão do Imperador somente por esse longa-metragem. Assistindo aos dois primeiros episódios você verá esse processo com bastantes detalhes para apreciar a jornada do apogeu do Lado Sombrio, mas consegue digerir esse filme sem precisar de todo esse esforço.

Novamente não chama atenção o trabalho de Hayden Christensen (Anakin), que atua muito mal, nem de Natalie Portman (Padmé), totalmente apagada e submissa, uma desconstrução da mulher forte dos filmes anteriores.

Considero, dessa trilogia prequela, o melhor filme. Podemos destacar, claro, a ótima atuação de Ewan McGregor (Obin Wan) compensando os deslizes dos dois filmes anteriores e literalmente arrasando tanto na batalha contra o General Grievous, como no seu conflito com Anakin.

Claro que Yoda novamente se mostra um dos personagens CG (computação gráfica) mais bem trabalhado e parece envelhecer muito mais nesse filme devido aos rumos negativos dos acontecimentos da guerra. Sua batalha contra o Imperador vale cada minuto de seu tempo.

Enfim, as cenas de batalha do filme estão impecáveis: desde ao rufar de tambores na primeira sequência, como na chacina empreendida pela ordem 66 e a batalha de Kashyyyk. Vale muito a pena para as novas gerações entenderem o fim da época Jedi e o que isso prenuncia, além de lançar o clima para os eventos da trilogia original. Mas a história Star Wars está apenas começando. Não se engane, a Força ainda nos revelará muito e ainda falta bastante para o equilíbrio. Por mais que as coisas estejam ruins, sempre haverá Uma nova Esperança para a Galáxia. Que a Força esteja com vocês!

Barra Divisória

assinatura_marco

SOMBRA LUNAR – FILME DA NETFLIX (CRÍTICA)

072_00

SINOPSE
Thomas Lockhart é um policial comum da Filadélfia, mas está determinado em ser um detetive. Pró ativo, está sempre quebrando protocolos hierárquicos e tomando frente nas investigações além de suas atribuições. Numa certa noite recebe o chamado de uma ocorrência, e ele com seu parceiro, Maddox, chegam mais rápido que o detetive responsável. Locke, como Thomas é apelidado, é um ótimo observador, e logo compreende como aquela morte ocorreu. Um acidente de ônibus onde aparentemente a motorista teve um derrame, e veio perder o controle não era exatamente o que parecia ser, e logo toda a polícia local parte na busca de um misterioso serial killer responsável por essa e outras várias mortes.

072_01

COMENTÁRIOS
Sombra Lunar (In the Shadow of the Moon, 2019) inicia propondo um filme policial de mistério, mas assim como os materiais promocionais se adiantam em revelar, se trata também de uma ficção científica. Característica essa que no meu entendimento deveria ser ocultada nos materiais de divulgação, enfim. O plot é direto e reto, te inserindo em intrincadas investigações e frenéticas perseguições. O roteiro começa bem mas não consegue manter um ritmo interessante após o primeiro arco, tornando o desenvolvimento repetitivo e arrastado. Recupera um pouco o fôlego próximo à sua conclusão, mas após tanta lentidão e falta de desenvolvimento de certos personagens apresentados, já se torna um pouco desgastado.

072_02

Na busca de uma resolução para alcançar aquele serial killer, Locke transporta a narrativa para um tom de suspense e drama, no qual por conta de sua obsessão em solucionar o caso, vai se transformando numa pessoa cada vez mais paranoica. Temos então essa interessante construção de personagem, qual considero o ponto alto do filme. Boyd Holbrook está bastante inspirado em dar vida ao policial traumatizado que se perde no tempo de suas internas caçadas por realidade.

A produção é competente e entrega um filme agradável visualmente, com boas locações, bonitas cenas aéreas e um trabalho de contra regra impecável. A trilha sonora também faz bonito, criando uma atmosfera densa e caótica que se mistura ao conceito visual tornando tudo bastante homogêneo e real. No fim das contas eu fiquei dividido e sem saber dar um decreto final, o roteiro verdadeiramente me incomodou, mas a experiência conceitual, principalmente se tratando das transições estéticas, me surpreenderam bastante.

072_03

FINAL EXPLICADO (SPOILERS)
Após as várias repetições de perseguições, ficamos na expectativa de uma explicação satisfatória do motivo de sua neta voltar no tempo para eliminar certos personagens. Rya consegue voltar no tempo em ciclos de nove anos, quando a Lua está mais próxima da Terra, na conhecida como ‘Lua de Sangue’, instante onde há uma alteração magnética que permite uma máquina do tempo levá-la ao passado. Seu objetivo é impedir o movimento de supremacistas brancos conhecido como True America Movement, que em 2024 bombardeou a Filadélfia iniciando uma guerra civil americana.

072_04

Rya utiliza uma injeção, que serve para inserir cápsulas no pescoço dos membros do movimento supremacista, e que serão ativadas no futuro pelo Dr. Naveen Rao, também responsável pela construção da máquina do tempo. As viagens são limitadas aos períodos de Lua de Sangue, e devido a Locke ter matado acidentalmente Rya em 1988 no incidente do metrô, os dois ficaram limitados aos ciclos lunares posteriores. Locke então compreende que matou a própria neta e ainda complicou sua causa, porém ela ainda tinha aquele ciclo para concluir sua missão e salvar o futuro.

Reflexões surgem e é compreendido que a morte da sua esposa em troca da vida de sua filha, possibilitou que mais a frente Rya pudesse existir. Seu luto que durava anos se torna mais leve, e num recomeço ele consegue o perdão dos amigos, família e, conclui sua história com a neta no colo.

072_05

ELENCO E FICHA TÉCNICA
Boyd Holbrook, Cleopatra Coleman, Bokeem Woodbine, Rudi Dharmalingam, Rachel Keller e Michael C. Hall compõem o elenco. A produção norte americana foi escrita por Gregory Weidman e Geoff Tock, e dirigida por Jim Mickle. Produzido por Brian Kavanaugh-Jones, Ben Pugh, Rian Cahill, Linda Moran e Jim Mickle, o longa de 2019 é distribuído pelo serviço Netflix.

CONCLUSÃO
Sombra Lunar é um filme com aspectos interessantes, embora vendido como um policial com elementos de ficção científica, consegue explorar muito bem o drama. Uma produção coesa com excelente estética visual e sonora, que traz um elenco muito bem afinado. A obra tem sim suas falhas, mas nada que comprometa a experiência final. Particularmente considerei o ritmo um pouco lento, até repetitivo do meio até próximo ao final, no entanto é bem possível que isso não seja notado e nem incomode muita gente. O longa exclusivo da Netflix já está disponível, e certamente vai agradar fãs de sci-fi e mistério. Bom filme!

Barra Divisória

assinatura_dan

OS JOVENS BAUMANN (CRÍTICA)

071_00

COMENTÁRIOS
O cinema brasileiro nos últimos tempos tem se debruçado principalmente nas comédias, dramas e, até mesmo, um pouco de ação. Foi devido a essa realidade entediante que, ao assistir o trailer de Os Jovens Baumann, resolvi apreciar esse suspense com ares de documentários no estilo Bruxa de Blair (1999). Para minha sorte não pude ficar indiferente.

Em 1992, oito primos da maior família de uma cidadezinha de Minas Gerais chamada Santa Rita do Oeste somem misteriosamente na fazenda na qual passavam as férias. É por meio das fitas VHS encontradas muito tempo depois que é dado o teor da narrativa.

071_01

As filmagens são de cenas cotidianas de jovens de férias. A técnica é amadora e as cores, já desbotadas, são um retrato da década de 1990. Os primos brincam, nadam, exploram e apreciam a natureza de maneira trivial e ao mesmo tempo tensa. A impressão é que a qualquer momento poderemos ter alguma pista sobre o mistério que ronda a história.

A narradora (Isabela Mariotto) alterna entre imagens do local atualmente e as do período do sumiço. É esta nostalgia que permeia o filme e com esse sentimento que ela percebe como o caso foi sendo esquecido durante todos estes anos.

071_02

A imagem dos primos são como fantasmas: pouco se sabe sobre cada um, os nomes são ditos a ermo. É como se não fosse importante para o espectador saber a identidade de cada um já que foram esquecidos em um passado distante. Assim, já no fim de 1992, ninguém mais tinha interesse em saber o que aconteceu com a última geração da Família Baumann. Isso tudo já não mais importava.

071_03

ELENCO E FICHA TÉCNICA
Julio Barga, Cainã Vidor, Marília Fabbro de Moraes, Eduardo Azevedo, Anna Santos, Daniel Mazzarolo, Julia Burnier, Isabela Mariotto, Julia Moretti compõem o elenco. O filme é roteirizado por Bruna Carvalho Almeida, Larissa Kurata e dirigido por Bruna Carvalho Almeida. A produção ficou por conta de Julia Alves, Michael Wahrmann, Ana Júlia Travia e Eduardo Azevedo, e as composições musicais por Luis Felipe Labaki. A produção é distribuída internacionalmente pela Sancho&Punta, e Vitrine Filmes no Brasil.

CONCLUSÃO
Ao meu ver, vale assistir “Os Jovens Baumann”, pois além de ser um tipo de filme pouco explorado no terreno nacional, é uma obra para repensar a questão de como muitos mistérios, no final de tudo, nunca possuirão uma explicação. O longa lançado em 2019 está disponível no YouTube, e na Google Play Filmes.

Barra Divisória

assinatura_julianna

 

PERDIDOS NO ESPAÇO – SÉRIE DA NETFLIX (CRÍTICA)

070_00

SINOPSE
A bordo da Jupiter 2, uma das naves da Frota Jupiter, a Família Robinson acidentalmente entra na rota de uma fenda espaço-temporal, indo parar nas proximidades de planeta completamente desconhecido. Aquela situação faz com que todos tenham de trabalhar em conjunto, já que o ambiente daquele lugar era uma total incógnita. John, o pai da família, é um ex-fuzileiro experiente, e sua esposa Maureen, uma engenheira aeroespacial de altíssimo nível. A decisão pela expedição partiu dela, visto que a Terra de 2046 estava em vias de um colapso por causa da superpopulação. Não havia outra forma, o planeta precisava ser evacuado. E na iniciativa de preservar sua família, decretou que era momento de partir na busca de um novo lar. Judy, a filha mais velha, Penny, a do meio, e Will, o mais novo, somavam a equipe, e também possuíam cada um suas especializações para cooperar nessa perigosa jornada pelo espaço.

070_01

COMENTÁRIOS
Perdidos no Espaço (Lost in Space), é um remake de uma série homônima para televisão de 1965, que embora tivesse grande prestígio na época, precisou ser finalizada devido a CBS estar bastante endividada com prejuízos de outras produções mal sucedidas. E trinta anos depois, em 1998, numa comemoração atrasada em um ano, no qual a nave Jupiter 2 seria lançada na obra original, foi entregue um bem sucedido longa metragem, também de mesmo nome. A franquia Perdidos no Espaço desde o início arrecada um grande número de fiéis fãs, e havia tempo que esperavam por um retorno da Família Robinson. Tardou um pouco, porém em maio de 2018, a Netflix entregou com bastante orgulho, e com bons motivos, o presente aos saudosistas do clássico.

070_02

Atualizando a versão original, nova versão traz um roteiro coerente muito bem fechado, sendo tudo bem aproveitado pela direção, que consegue excelentes resultados nas cenas de ação com efeitos práticos combinados com as edições em computação gráfica. O elenco trabalha bem e está bem sincronizado por todos os episódios (ao menos da primeira temporada), possuindo vilões convincentes e bem inspirados. Na parte artística, temos uma fotografia de tirar o fôlego, mostrando um planeta com ambientes diversificados e tomadas de panoramas deslumbrantes. A música tema é do indiscutível gênio John Williams, e o restante da trilha original é de ninguém menos que Christopher Lennertz, genial compositor apadrinhado por magos como Michael Kamen e Basil Poledouris.

070_03

NOTAS BAIXAS DA CRÍTICA
Para todo tipo de arte existem os ‘curadores’, que são críticos formados na sua especialidade, ou mesmo autodenominados. E essa nova versão de Perdidos no Espaço parece não ter agrado tanto essa exigente audiência. Não costumo comentar opiniões de terceiros, mas achei relevante falar que considero bastante injusta as notas que a série recebeu de sites como Rotten Tomatoes, que aprovou com 68%, ou do Metacritic, que pontuou como 58 de 100. Esta é uma produção como poucas, onde reúne um bom conteúdo original, roteiro, direção e elenco. Uma série que tem sim suas falhas, mas que jamais mereceria receber uma nota abaixo dos 75 em 100. Não digo essas coisas por ser um fã saudosista ou coisa do tipo, eu conhecia sim a série original através de comentários de amigos mais velhos e familiares, ou seja, não sou tiete de nada para ter sido contaminado por qualquer tipo de hype e agora ter uma opinião exageradamente favorável.

070_04

ELENCO E FICHA TÉCNICA
Toby Stephens, Molly Parker, Ignacio Serricchio, Taylor Russell, Mina Sundwall, Maxwell Jenkins e Parker Posey compõem o elenco. Perdidos no Espaço foi criado por Irwin Allen, premiado autor, diretor e produtor, também responsável por O Mundo Perdido (The Lost World, de 1960), Viagem ao Fundo do Mar (Voyage to the Bottom of the Sea, de 1961), e muitas outras obras. A série norte americana conta com uma temporada de dez episódios até agora, sendo que a segunda acabou de ter as gravações finalizadas. Portanto é esperarmos um pouco mais para termos disponíveis novos episódios.

CONCLUSÃO
Perdidos no Espaço é uma série de ficção científica e aventura que aborda os problemas da Família Robinson em sobreviver num planeta desconhecido e cheio de surpresas. Envolvente e cheio de aventura, é uma produção de altíssima qualidade, que pode ser vista sem problema algum com toda a família reunida. Uma obra inteligente que prova que a Netflix tem capacidade de entregar algo muito bom quando tem os produtores certos envolvidos. Como dito no decorrer da resenha, eu conhecia a série original, mas nunca fui um exatamente um fã, mas essa produção de 2018 me fez virar um! Ponto para a Netflix! Série recomendadíssima!

Barra Divisória

assinatura_dan

MARIANNE – SÉRIE DA NETFLIX (CRÍTICA)

069_00

SINOPSE
Emma Larsimon é uma escritora de livros de terror mundialmente famosa, e certo dia decide concluir o ciclo onde Lizzie, a personagem de seus contos, derrota a bruxa Marianne. Esta seria apenas uma história como muitas outras, se não fosse pelo fato de todo o universo criado por Emma, ser uma extensão de seus pesadelos e conflitos pessoais do passado. E agora, tendo decidido fechar sua saga literária, seus demônios vieram à tona cobrar que não sejam esquecidos. Na busca por entender os eventos macabros que sua vida vem tomando, a jovem escritora junto com sua assistente pessoal, retornam a sua cidade natal atrás de respostas. Lá ela vai passar por momentos inimagináveis de dor e angústia para tentar solucionar aquilo que lhe traz tanta aflição.

069_01

COMENTÁRIOS
Quais são os motivos que te levam a procurar um filme ou série de terror para assistir? Existem várias formas de se entreter com uma obra desse gênero que pode ter aspecto tão variados, e Marianne, a nova obra francesa com o selo Netflix, faz isso fugindo com originalidade da maioria dos clichês. A princípio eu fiquei apreensivo quanto ao que tinha escolhido assistir, a série engana, ficamos com a impressão de estarmos vendo um produto específico para o público adolescente, porém terminado o primeiro episódio, percebemos que nada condiz com o ensaio inicial. O enfoque aqui é na estranheza e no como isso gera incômodo. Logo na cena de abertura da série temos mãe e filha, uma mais esquisita que a outra, numa situação pra lá de estranha. Dentro de uma casa escura e sinistra, a filha vai no encontro da mãe, que está debruçada na pia da cozinha, onde se esforça para extrair de forma sanguinária um dente da própria boca, enquanto encara a filha com um olhar maquiavélico de indiferença e ironia.

069_02

Um dos maiores méritos de Marianne fica para o elenco, que de forma muito convincente traz uma aura verdadeiramente macabra aos personagens. E quando digo isso, não reduzo apenas aos óbvios vilões, mas a cada personagem que oculta algum mistério ou traço da personalidade. Elden, a cidade de Emma, tem uma atmosfera própria, e até as ruas vazias e litorais de ar gélido causam estranheza.

069_03

Trazendo esmero pela estética, a produção traz fotografias e cenários inspiradíssimos, ora em tons saturados e nublados nas cenas externas, ora no amarelado sépia para  ambientes fechados com o ar mais pesado. Tais elementos nos transporta para uma imersão incrível! Quando as tomadas são em áreas abertas, a sensação é de exposição e vulnerabilidade e, nas fechadas reina a claustrofobia com um alto contraste de jogo de sombra e iluminação que drena nosso fôlego. Marianne acerta em cheio com uma produção de qualidade e uma direção que consegue extrair o melhor de cada ator. É uma série que não passa despercebida pela Netflix, e com certeza irá angariar muitos fãs.

069_04

ELENCO E FICHA TÉCNICA
Victoire Du Bois, Lucie Boujenah, Tiphaine Daviot, Ralph Amoussou, Bellamine Abdelmalek, Mehdi Meskar, Alban Lenoir, Mireille Herbstmeyer, Corinne Valancogne, Patrick d’Assumçao, Pierre Aussedat, Luna Lou, Charlie Loiselier, Bruni Makaya, Adam Amara e Anna Lemarchand. A série francesa foi criada e dirigida por Samuel Bodin e, escrita em com conjunto com Quoc Dang Tran. A produção da Empreinte Digitale and Federation foi distribuída em oito episódios pelo serviço Netflix.

CONCLUSÃO
Se você curte um terror barra pesada, essa série é para você. Marianne não tem papas na língua, coloca pra fora sem pudor seu linguajar sujo, cenas fortes e situações de fazer sentir alfinetadas na espinha. Seu ponto forte fica nas atuações, com personagens envolventes e criativos, que em momento algum vai ter fazer ter dúvidas de realmente estar vendo o capiroto. Recomendo fortemente que não deixem crianças assistirem esta série, questões como suicídio, nudez total, palavrões pesados, enfim, tem um pouco de tudo. Portanto não é um tema nada apropriado para os mais jovens, tenham bastante cautela. Feitas as ressalvas, boa sorte em sobreviver à essa série! Mantenha as luzes acesas.

Barra Divisória

assinatura_dan

SPECIAL – SÉRIE DA NETFLIX (CRÍTICA)

068_00

COMÉDIA SEM GARGALHADA OU APELO A REPRESENTATIVIDADE?
COMENTÁRIOS COM SPOILERS

A série Special da Netflix ingressa com uma proposta que tem tudo para dar certo, mas será que deu? Parecendo intencionar a atração de espectadores pertencentes à grupos de diversidade étnica, de gênero, de classe social, de estereótipos e por aí vai, a trama conta com tudo que é socialmente colocado em pauta ano após ano no que diz respeito à alvos de críticas preconceituosas.

068_01

Só pra começar, nosso personagem principal consegue unir as seguintes características: deficiente motor com paralisia cerebral, gay, nerd, virgem, imaturo, dependente da mãe e auto-comiserativo (coitadinho de mim, não sou um “ganhador de bolinhos de graça” – Free Cupcakes – um termo bem bobinho para chamar alguém de “sortudo”). Um personagem desses podia ter muita história pra contar, não acham? Pois é, mas não tem. Pasmem, o personagem parece diretamente saído de uma bolha de oxigênio e cuspido na “vida real” por si próprio. E a “vida real” está entre aspas porque eu estou até agora tentando descobrir quem vive daquele jeito.

068_02

Aí encontramos a personagem que se torna a melhor amiga do protagonista: A latina curvilínea que vive para manter a aparência de amor próprio (no Instagram e nos artigos que escreve para a agência que trabalha) e que está falida por causa das roupas caras e salão de cabeleireiro que frequenta para poder manter sua pose de rica. Sim, eu não usei nenhuma palavra que não tenha sido expressa pela personagem, a própria se define desse jeito. De longe sacamos uma referência com a famosa Kim Kardashian, homônima da personagem, consegue acreditar? Pois é verdade. E não termina por aí.

068_03

Ainda temos a famosa personagem “mãe solteira cinquentona carente sem namorado há uns 20 anos”. Sério. Abordaram essa temática da pior forma possível, mostrando a mulher como uma infeliz por não ter tido relacionamento para cuidar do filho deficiente, que abdicou de muita coisa para sustentar a cria – acreditem, eu sei do que estou falando. E quando é que ela acha que tirou a sorte grande??? Claro que vocês vão adivinhar, ela se deparou com um (outro estereótipo, lá vamos nós) “cinquentão gato branco de cabelo estiloso e olhos azuis, bombeiro aposentado e maconheiro”. Uau que mistura incrível né? Até mostrar que por trás da “beleza de príncipe” é um cara autoritário, que gosta de fazer as coisas do jeito dele e que (pasmem de novo) não consegue aceitar as crises de histeria da mãezona e dá um pé nela porque “não quer namorar o filho babaca” da mesma. Sim, foi uma fala também. Dá pra acreditar? – pausa para náuseas.

068_04

Entre tantos clichês ainda temos a “loira arrogante metida rica socialite solteirona maluca extravagante insensível”, outra “loira burra retardada abortista” e o “negro gay gostoso crossfiteiro” ou ainda um “gay loiro nórdico marombeiro” – tem pra todos os gostos. Gente, é uma lástima. Não dá pra dizer que existe enredo, e se existe, é completamente fútil. As piadas são fracas, os personagem são caricatos e parece uma tentativa de paródia de uma vida real que nem faz sentido. Conseguem entender?

É uma série que tenta te transmitir alguma emoção (nem tenho tanta certeza assim), mas que a piada não é engraçada, o drama não é comovente, a raiva, o tesão e a identificação passam batidos. Dá pra dizer que a série foi feita por um cérebro sem mente para mentes sem cérebro. E olha que com tanta diversidade poderia ter rendido muito mais conteúdo. Não foi o que aconteceu. Decepcionante. E sim, a temporada inteira é água com aspartame – nem açúcar rola ali.

068_05

NOTAS SOBRE A SÉRIE
Classificada como comédia, foi baseada no livro I’m Special: And Other Lies We Tell Ourselves (2015) de memórias do próprio protagonista, que escreve e atua como produtor executivo da série, Ryan O’Connell. Ou seja, segundo ele, é baseado em fatos reais.

068_06

ELENCO
Ryan O’Connell, Jessica Hecht, Punam Patel, Marla Mindelle, Augustus Prew, Patrick Fabian, Kat Rogers, Jason Michael Snow, Brian Jordan Alvarez e Gina Hughes.

Barra Divisória

assinatura_bianca

A ORIGEM DO CORINGA (HQ)

Analisamos três momentos dos quadrinhos em que o palhaço de Gotham City revela um pouco de seu passado. Será mesmo?

067_00

1. BATMAN E ROBIN, O MENINO PRODÍGIO (1940)
A primeira edição de Batman, na primavera de 1940, com arte de Bob Kane, é fundamentada na perseguição ao Coringa. Um vilão sem pudores de matar para conseguir alcançar seus objetivos. Naquela época o grande meio de comunicação era, justamente, o rádio. E é por ele que o palhaço de Gotham City anuncia que à meia noite assassinará o milionário Henry Claridge. O primeiro de muitos que ele cometerá por meio de sua toxina cuja marca é afetar os músculos da face formando um sorriso macabro.

Há uma origem na origem? (Spoilers)
Descobrimos que a motivação dos sucessivos assassinatos são para roubar joias a não ser por uma das vítimas: o juiz Drake. O Coringa sentencia pelo rádio  que “O juiz Drake, um dia você me mandou  para a prisão e por isso morrerá! Sua morte chegará às dez horas! Eu sou o Coringa”. E este é o único dado relevante sobre o passado do vilão.

067_01

Para o leitor mais moderno, esse quadrinho da década de 1940 vai parecer pouco empolgante, tanto pelo traço como pelo enredo e roteiro. Não parece uma aventura digna do Coringa no que se refere a muitos aspectos. Podemos citar o fato do Batman demorar muito para agir e meramente escutar pelo rádio os anúncios dos crimes. Outro ponto é o fato da história ser repleta de piadas pastelão que nos lembram muito o seriado protagonizado por Adam West na década de 1960 tais como: “Você pode ser o Coringa, mas eu sou Rei de Paus”. Mas é aqui que é cunhado tanto o gosto sádico do palhaço pela violência como a famosa frase indignada contra o Batman:

Morra… Maldito… Morra! Por que você não morre?

067_02

2. A PIADA MORTAL (1988)
Sem sombra de dúvidas quando falamos da HQ mais clássica estrelada pelo Coringa, todo admirador da arte sequencial considera a obra de Alan Moore a mais significativa. Não só pelo tom sombrio com que o roteirista costuma abordar os heróis, como assim o faz em Watchmen (1986-1987), mas por ainda contar com o fantástico traço de Brian Bolland.

A narrativa parte da pergunta inicial feita pelo próprio Batman: qual será o fim do eterno embate entre ele e o Coringa? Eles acabarão por se destruir? Mas para o palhaço de Gotham City, talvez isso não seja a grande raiz do problema. O importante é investigar em que momento a loucura nasce em alguém. O Coringa entende que basta um dia ruim para transformar qualquer um em um louco de máscara de morcego ou vestido de palhaço.

Assim ele foge da prisão e a fim de testar sua teoria com o íntegro comissário Gordon. Enquanto trama seus atos maldosos, relembra o dia em que se tornou o arqui-inimigo do homem-morcego à medida que raciocina sobre sua própria condição insana. Caberá ao Batman levar a lucidez ou a loucura para frustrar os planos do Coringa.

O atentado a Bárbara Gordon (spoiler)
Batman resolve visitar o Asilo Arkhan para questionar o Coringa sobre como seria o fim de ambos, se no final acabariam por matarem-se. Ele não estava mais lá. Alegremente, o palhaço comprava um parque de diversões caindo aos pedaços. Na verdade matava seu dono que sorriria para sempre devido a toxina do Coringa. A partir daí o foco da história passa a ser o Coringa e assim temos acesso às suas memórias em flashbacks em preto e branco como um filme antigo.

067_03

Após anos de conflitos, Bruce Wayne conversando com seu mordomo Alfred, admite que não sabe nada sobre o Coringa, que um não da sabe nada sobre o outro e cultivam esse ódio recíproco. Longe dali, enquanto recorta notícias de jornais, entre elas a da primeira aparição do palhaço, o comissário conversa com sua filha Bárbara. “Quando você descreveu o rosto branco e os cabelos verdes eu era criança e fiquei morrendo de medo.”, afirma a jovem indo atender à porta. Era o Coringa. Um tiro. A garota atingida na cintura cai sobre uma mesa de centro de vidro.

O comissário, pego de surpresa, é nocauteado. Com a garota provavelmente paraplégica, sangrando, o palhaço segura um copo de uísque e lentamente começa a despir a garota “Pra provar um coisa. Que o crime compensa”.

067_04

Sabemos que ele fotografa Bárbara nua e em posições sugestivas. Ela chora. Tem sangue por todos os lados. Ele a estuprou? A HQ não deixa claro, mas só essa sugestão fez com que essa história ficasse censurada por um bom tempo (leia aqui). O plano de palhaço era com o pai acorrentado, no trem fantasma do parque de diversões, exibir sua filha em desgraça e assim enlouquecer o brando comissário Gordon. Não conseguiu. Quando o Batman o salva, o policial evidencia que a lei está acima de tudo e qualquer coisa. Quer que o herói o prenda, que não o mate. Será que o comissário não foi íntegro demais? Será que isso, em si, não é também loucura?

Na batalha final contra o morcego de Gotham City, enfim o Coringa resume sua teoria sobre a loucura:

“Sabe, eu estou pouco ligando se vai me levar de volta para o asilo… Gordon enlouqueceu mesmo… minha teoria está provada. Demonstrei que não há diferença entre mim e outro qualquer! Só é preciso um dia ruim pra reduzir o mais são dos homens a um lunático. É essa a distância que me separa do mundo. Apenas um dia ruim. Você teve um dia ruim uma vez, não é? Eu sei como é. A gente tem um dia dia ruim e tudo muda. Senão, porque você se vestiria como um rato voador?”

067_05

A origem por Alan Moore (spoiler)
Depois de pedir demissão do emprego de assistente de laboratório (o que explica sua habilidade química), resolveu seguir a carreira do humor. Pelos flashbacks, descobrimos que o Coringa era um comediante sem sucesso, de piadas que ninguém ria.  Sua vida era envolta em dívidas e estava prestes a ser despejado. Sua esposa, então grávida, parecia ser a única acreditar no talento dele.

Desesperado, faz um trato para ajudar mafiosos a invadir uma fábrica de baralhos passando pela Indústria Química ACE que o Coringa trabalhava. Era uma forma de fazer um dinheiro rápido para Jeannie e se futuro filho. Para seus comparsas, a melhor forma de não chamar atenção era fantasiar o comediante fracassado como se ele fosse o Capuz Vermelho, e assim colocar a culpa nesse bandido caso fossem pegos.

Mas a esposa do Coringa morre em um acidente doméstico. Sem mulher e sem filho, prestes a desistir de invadir a fábrica de baralhos, ele é obrigado por seus comparsas. Naquele dia ruim, palhaço não tinha mais nada a perder, a não ser prosseguir com o plano.

067_06

Naquela fatídica noite, as coisas saem de controle: os seguranças da indústria química frustram os três criminosos. Um dos comparsas, morre de imediato. Um agoniza e enquanto morre, acusa o Capuz Vermelho de ser o líder. E assim o palhaço disfarçado corre, foge, até ser perseguido pelo próprio Batman. Assustado pula em dos tanques químicos. Salva a vida, perde a sanidade. Mas isso é envolto em incertezas, não sabemos se os flashbacks são memórias genuínas. O Coringa então em longo discurso, na batalha final contra o Batman, diz:

Se eu vou ter um passado, prefiro que seja de múltipla escolha! Ah, ah, ah!

067_07

3. O HOMEM QUE RI (2005)
Com o relançamento do universo DC após os eventos Crise nas Infinitas Terras de 1987 em diante, tornou-se necessário atualizar as origens do palhaço de Gotham, trazer o personagem para o mundo de Batman – Ano Um de Frank Miller. Em busca de uma origem mais realista para o Coringa, o roteirista Ed Brubaker e o traço de Doug Mahnke, mostram o maior desafio do Batman depois de um ano desde sua chegada à caótica cidade. Os malucos mascarados ainda estavam só no início e seu embate mais rigoroso, até aquele momento, tinha sido contra o Capuz Vermelho.

067_08

 

O Coringa de Doug Mahnke é intensamente inspirado no ator Conrad Veidt, do filme clássico expressionista alemão O homem que ri (The Man Who Laughs, 1928), o que explica, também, o título desta Graphic Novel. No longa-metragem alemão, Conrad vive um homem desfigurado que passa o tempo todo rindo e por fim torna-se uma atração de circo.

Mas voltando ao quadrinho, após fazer uma chacina utilizando a toxina, que literalmente, faz morrer de rir, o misterioso palhaço começa a interromper a programação televisiva e, aparentemente, escolher suas vítimas entre os figurões de Gotham City de forma aleatória. A única pista é um poema pichado nas paredes de um banheiro:

Um de cada vez eles vão ouvir o meu gemido, e então esta cidade suja irá cair comigo.

067_09

A narração dos eventos oscila entre as do, ainda capitão, James Gordon (assustado com o rumo da criminalidade que assola a cidade) e Bruce Wayne, intrigado e surpreso por combater um criminoso que é, ao mesmo tempo, insano e genial. Enquanto Batman anseia por respostas (“Mal posso imaginar o que se passa na cabeça dele.”), Gordon parece ser mais preciso em sua análise:

Está cada vez mais claro que lidamos com alguém cuja motivação se restringe a causar terror.

A origem por Ed Brubaker (spoiler)
Na verdade, Batman não estava preparado para a complexidade do Coringa. Afinal, quem estaria? Após Wayne ser ameaçado como uma das possíveis vítimas da fúria assassina do Coringa, Bruce injeta levemente a toxina para frustrar parte dos planos do seu arqui-inimigo e antecipar seus passos.

067_10

Contudo, os assassinatos da high society de Gothan eram a distração. A ideia era colocar em prática  o plano macabro de matar todos os habitantes da cidade espalhando a toxina no sistema de abastecimento de água. Fazia parte da vingança insana do Coringa por ter se tornado o que se tornou. Batman, então, elucida a origem do palhaço de Gotham City:

“Eu acertei sobre as intenções do Coringa, só não entendi a natureza de seus desejos. Por outro lado, o poema explica tudo perfeitamente… Ele quer se vingar pessoalmente das pessoas que fizeram dele o que é. Em seguida, a cidade cairá com ele. O Coringa caiu em um tanque de substâncias tóxicas que foram derramadas em uma baia que deveria estar limpa. Agora, ele quer envenenar o suprimento de água de Gotham para que todos morram às gargalhadas. Em sua mente doentia, a população inteira é culpada simplesmente por estar viva.”

Para os fãs mais saudosistas, a queda em um tanque tóxico é justamente a versão da origem para o Coringa de Jack Nicholson na primeira adaptação cinematográfica do vilão lá no filme de 1989, Batman. Esta aventura ainda mostra o estreitamento dos laços entre o futuro comissário Gordon e como surgiu o famoso Bat-sinal.

067_11

CONCLUSÃO: o famoso desconhecido
É inegável que há muito mais momentos em que descobrimos dados sobre o passado do Coringa, mas sempre será um tanto nebuloso. Podemos inferir de suas palavras a condenação injusta por parte de um juiz ou sua ligação com o dia em que se fantasiou de Capuz Vermelho e acabou caindo uma baia ou rio cheio de substâncias químicas que afetaram permanentemente sua sanidade. Nesse evento singular também foi forjada sua obsessão pelo Batman: ele fora responsável, mesmo que indiretamente, pelo que aconteceu ao Coringa. Se não fosse o homem-morcego tê-lo perseguido, o Coringa não teria fugido de forma tão desesperada e inconsequente. Pelo menos é isso que o palhaço acredita.

As histórias aqui analisadas conversam entre si, ou seja, possuem uma intertextualidade. A versão de Alan Moore não parece ter muita ligação com a origem de Bob Kane, mas nos mostra a psicologia do Coringa, extremamente rica por ele ser o protagonista da história. Tanto expõe a mente insana do palhaço disposto a tudo como, por meio de flashbacks (se reais), também conhecemos um pouco do homem que existiu antes do Coringa.

Nesse ponto, O homem que ri (2005) parece surfar na onda destes dois clássicos para revitalizar o arqui-inimigo do Batman. Nessa última HQ, o palhaço anuncia seus crimes pela televisão (e não pelo rádio) e assassina o mesmo Henry Claridge. Mas não por dinheiro e sim por prazer e vingança. Também nos mostra de forma indireta a origem do Coringa ligado ao fatídico mergulho nos produtos da Indústria Química Ace, fatos relatados nos flashbacks de Alan Moore em A piada mortal (1988).

Seja devido a um dia ruim, seja por vingança, isso acabou ou deturpou os valores morais do palhaço e o ligou a figura aterradora do Batman, o monstro que invade seus pensamentos. Talvez a grande piada de sua vida: um futuro desgraçado por um homem que se disfarça de morcego. O próprio Coringa entendeu que de todas as piadas contadas, o mundo era a pior. Assim, fechamos esta análise com a justificativa que o palhaço dá nas páginas de Alan Moore:

Mas o que eu quero dizer é… eu fiquei louco. Quando vi que piada de mal gosto era este mundo, preferi  ficar louco. Eu admito! E você?

Barra Divisória

assinatura_marco

THE I-LAND – SÉRIE DA NETFLIX (CRÍTICA)

066_00

SINOPSE
Dez pessoas acordam numa praia sem saber os próprios nomes ou lembrando de qualquer outra coisa, e sem tardar descobrem que aquela ilha esconde diversos mistérios e perigos. Será necessário que deem o melhor de si para resolver com seus enigmas, além de lidar com as intrigas do grupo. Todos precisarão dar o máximo para conseguir sobreviver aos extremos desafios físicos e psicológicos daquele lugar.

066_01

COMENTÁRIOS
Pensei em mil maneiras de pegar leve com esta série, mas realmente não tem condições. A vontade que dá é de só fazer uma lista e sair dizendo tudo que é ruim por esse e aqueles outros motivos. Mas vou procurar seguir o padrão das críticas.

Imediatamente nos minutos iniciais do primeiro episódio o que notamos é uma tentativa deslavada de reencarnação de Lost. Porém, a única coisa que podemos dizer que as duas séries tem claramente em comum, é uma ilha misteriosa. The I-Land não tem personagens inteligentes, não tem carisma, não tem coerência narrativa, e o principal e mais grave, as atuações são terríveis! Eu não consigo lembrar de nada tão horroroso quanto isso. Anthony Salter é o nome do criador, e me pergunto de onde ele tirou as péssimas ideias que arrumou. Você consegue imaginar alguém pegar uma concha marinha e utilizá-la como megafone ou “berrante”? Bem, Salter parece ter visto sentido nisso, porque é exatamente o que a Kate genérica decide fazer, e claro, deu certo. Errado somos nós que nunca pensamos em fazer isso com uma concha.

066_03

Persistindo ainda na comparação com o controverso Lost, o personagem de Alex Pettyfer, claramente faz referência ao Sawyer, bonitão, canastrão e de comportamento imprevisível. E qual motivo disso? Eu não sei. Só sei que o carinha do Eu Sou o Número Quatro já não é grande coisa atuando, e com um texto tão ruim quanto o que recebeu, eu senti um pouco até de pena. Sawyer era um pilantra, mas você enxergava o ser humano no personagem, mas em Brody você não nota nada. E o mais surreal, é o personagem ser um cara tão sem caráter, e mesmo assim conseguir convencer os outros de que é gente boa sem precisar de nenhum esforço para isso. Aliás, o único sentimento que eu tive era o de querer que aqueles dez personagens horríveis morressem logo para devolver a paz para a ilha.

A coisa é tão mal pensada que uma série de primeira temporada pequena, apenas sete episódios, possui em seu trailer oficial uma quantidade enorme de spoilers que frustra qualquer expectativa de reviravolta. Se a sinopse é pragmática em dizer que um grupo de dez pessoas sem memórias precisa sobreviver numa ilha misteriosa, faria sentido contar no trailer que aquilo tudo na verdade não passava de uma simulação? Faria sentido mostrar um grupo de pessoas dentro de uma sala de monitoramento acompanhando cada passo do grupo fazendo o uso de diversas câmeras escondidas pela ilha? O nome disso é pretensão. No fim das contas essa é apena uma série de baixa qualidade, sem personalidade alguma ao querer copiar outra. Tem conceitos ridículos, atuações deprimentes, e que força situações constantes que não fazem sentido algum.

066_02

ELENCO E FICHA TÉCNICA
Natalie Martinez, Kate Bosworth, Ronald Peet, Kyle Schmid, Sibylla Deen, Gilles Geary, Anthony Lee Medina, Kota Eberhardt, Michelle Veintimilla e Alex Pettyfer compõem o elenco. A série foi criada por Anthony Salter, e tem como produtores executivos Neil LaBute, Chad Oakes e Mike Frislev. A produção norte americana é de 2019, e foi lançada para o catálogo  de setembro da Netflix.

CONCLUSÃO
Quando assisti ao trailer fiquei curioso, afinal, era fã de Lost do tipo de perder tempo no Orkut olhando em fóruns sobre os mistérios daquela ilha. E daí pensei: “olha, essa série tem jeito de Lost, vou conferir”. Eu deveria ter ficado quieto na minha. Essa série é um total embuste! Antes de terminar o primeiro episódio eu já estava arrancando os cabelos de raiva. Tudo em The I-Land é terrível! Se o roteiro, conceito e atuações não prestam, o que sobra? Ah, já sei. A fotografia é muito bonita. Se você quiser assistir um cartão postal, vai fundo, porque de Lost só ficou a presunção mesmo. Não recomendo nem para meu pior inimigo.

Barra Divisória

assinatura_dan

STAR WARS: A GUERRA DOS CLONES (CRÍTICA)

065_00

SINOPSE E FICHA TÉCNICA

Uma galáxia dividida. Em um veloz contra-ataque após a batalha de Geonesis, o exército droide de Conde Dookan conquistou o controle das principais rotas do hiperespaço separando a República da maior parte do Exército Clone.
Com poucos clones, os generais jedis não conseguem uma posição segura na Orla Exterior, enquanto mais planetas se juntam ao Separatistas de Conde Dookan. Com os jedis ocupados com a guerra, não sobra ninguém para manter a paz. A desordem e o crime tomam conta e os inocentes tornam-se reféns de uma galáxia sem lei.
O filho do chefe do crime Jabba, o Hutt, foi sequestrado por um bando rival de piratas. Desesperado em salvar seu filho, Jabba pede ajuda.

Após a batalha de Geonosis, eventos contados em Star Wars: Episódio II – O ataque dos clones (2002), os conflitos contra os Separatistas se intensificam. Na frente de batalha no planeta Christophsi, o cavaleiro jedi Obi Wan Kenobi e o agora também cavaleiro, Anakin Skywalker, lideram as forças clônicas. Acuados no planeta Christophsi e em menor número, as forças da República são auxiliadas por uma nova padawan, Ahsoka Tano, que é designada como aprendiz de Skywalker.

Mas logo a trama muda de foco e passar a girar em torno do sequestro do filho de Jabba, o Hutt, mafioso intergalático que reside em Tatooine. Ele controla as rotas da Orla Exterior, essenciais tanto para a República quanto para os Separatistas que necessitam delas para movimentar suas tropas. Na sua busca por ajuda, o Hutt requisitará o auxílio jedi, ao mesmo tempo que Conde Dookan se oferece para o serviço de resgate. Começa assim um corrida contra o tempo entre mestres e aprendizes. Enquanto Anakin precisa se acostumar com a padawan Asooka; Assaj Ventress, aprendiz do Conde Dookan, precisa mostrar seu valor e cumprir os obscuros planos do mentor.

065_01

Título original: Star Wars: The Clone Wars
Direção: Dave Filoni
Roteiro: Henry Gilroy, Steven Melching
Duração: 1h 38min
Lançamento:
15 de agosto de 2008

065_02

Elenco (vozes): Matt Lanter (Anakin Skywalker), Ashley Eckstein (Ahsoka Tano), James Arnold Taylor (Obi-Wan Kenobi), Dee Bradley Baker (Capitão Rex / Cody), Tom Kane (Yoda), Nika Futterman (Asajj Ventress) Catherine Taber (Padmé Amidala) e Christopher Lee (Conde Dookan).

065_03

ISSO É UM FILME MESMO?
Sendo um filme spin-off (derivado) da franquia Star Wars, surge a dúvida sobre a organização da trama que por vezes parece fragmentada para o observador mais atento. Na verdade este longa é composto por quatro episódios originalmente produzidos para a primeira temporada da série animada Star Wars: The Clone Wars (2008). Desta forma o longa foi concebido para ser o episódio piloto que daria início a série animada, porém tomou o rumo das telonas.

Por isso parece que o enredo tem pelo menos dois momentos: a crise no planeta Christophsi e o rapto de filho de Jabba, o Hutt. Não que isso atrapalhe a trama geral, mas explica a ligação com dois outros episódios do desenho animado que precedem os eventos do filme e terminam lançando luz sobre alguns aspectos da batalha em Christophsi. De forma resumida e na ordem cronológica, tratam-se dos seguintes episódios:

065_04

2×16 – Brincando de gato e rato (Cat and Mouse)
Nesta aventura prólogo, mostra a chegada de Anakin e Obin Wan a frente de batalha no planeta Christophsi, importante por seus recursos destinados a República. O senador Organa (aquele que criará a princesa Leia) está em apuro e precisa de apoio e suprimentos. Porém, Skywalker e Kenobi devem enfrentar um veterano e astuto almirante de guerra: Trench. Impedidos de chegar ao planeta, a batalha espacial seria decidida pela coragem e estratégia de Anakin e seus subordinados  à bordo de uma nave com camuflagem especial.

065_05

1×16 – O inimigo escondido (Hidden Enemy)
Já neste episódio, ainda mais próximo do eventos do filme, observamos Anakin e Obiwan às voltas com um espião dentro da tropa de clones que está informando as posições das forças da República aos separatistas. A trama apresenta um dos personagens clones mais importantes de toda série animada: Rex, um cara durão e disciplinado. Também nos mostra que Asajj Ventress está por trás da sabotagem entre os clones. Além de elucidar como as forças da Repúblicas ficaram sem ajuda e quase sem munição, situação que aparece no início do filme, chama à atenção para um problema moral: será que a República não é tão má quanto os Separatistas, visto que cria seres humanos em laboratório para morrer em batalha?

065_06

SURGE AHSOKA TANO, A PADAWAN!
O ponto chave desse longa fica realmente por conta de Ahsoka Tano, uma padawan destemida e indomável. Partindo da perspectiva de que Anakin sai da condição de padawan (como aparece em Star Wars – Episódio II) e se torna cavaleiro jedi, nada mais natural do que passar seus conhecimentos à nova geração. E os dois são imprudentes e fazem o que bem entendem. Esta simetria (Anakin e Ahsoka) é que marcará afinidade entre os dois jedis  ao longo deste filme e e depois na série animada.

Por outro lado, é aqui que também temos a estreia da aprendiz sith, Assajj Ventress. Neste longa, ela está extremamente insinuante e, arquitetando fake news junto com Conde Dookan, seu mestre Darth Tyranus, tenciona incriminar os jedis pelo rapto do filho de Jabba, o Hutt.

065_07

Tudo culmina para o planeta Tatooine, sede da organização de Jabba. Na corrida contra o tempo, é preciso devolver a criança ao pai. Estar no deserto desperta lembranças recentes de Anakin: ele estivera aqui, tentara salvar sua mãe, mas acabou por dizimar toda uma aldeia de povos da areia (eventos presentes no Episódio II). A certa altura Anakin observa com tristeza:

O deserto é impiedoso, tira tudo de você.

Isso se mostra ainda mais latente na primeira batalha de sabres de luz contra o Conde Dookan. Anakin perdeu a mão no combate de Geonosis (Episódio II – O ataques dos clones) sendo substituída por uma prótese robótica, caso semelhante se dará com seu filho no Episódio VI: O retorno do Jedi (1983). Assim durante a luta, Conde Dookan sente a dor da perda em Skywalker. Nada mais natural estando em Tatooine, local de morte de sua mãe e a chacina do povo da areia. Isso ecoa a fala de Ashoka Tano, parafraseando Yoda:

Erros antigos projetam grandes sombras.

ALGUMAS CURIOSIDADES

  1. 065_08Este foi o primeiro filme de Star Wars a não ter um texto introdutório durante a sequência do título. Em vez disso, a premissa da história é estabelecida pela narração de um locutor descrevendo cenas de fundo. Deixamos a transliteração dessa fala no início dessa crítica.
  2. 065_09O clone Capitão Rex tem uma cicatriz no queixo, inspirada na de Harrison Ford. O símbolo “Jaig Eyes” em seu capacete foi originalmente concebido por Joe Johnston como decoração para o capacete de Boba Fett.
  3. 065_10De acordo com Dave Filoni, Ashoka Tano foi inspirado em San, o personagem-título da princesa Mononoke (1997).

CONCLUSÃO: Skyfora é melhor que Skywalker!
O mais interessante do Star Wars: The Clone Wars é conseguir o que o Episódio II não conseguiu: cativar pela força que cada personagem possui. Longe da atuação pífia de Hayden Christensen, no segundo filme da trilogia prequela (pré-sequência), o Anakin Skywalker da animação é mais carismático e expressivo, assim como Obin Wan. Além de introduzir personagens novos (Ahsoka Tano e Asajj Ventress), o longa-metragem é o pontapé inicial para quem quiser acompanhar a série animada. Sem sombra de dúvidas, este filme e o desenho animado (aqui exibido pela Cartoon Network) são as produções derivadas mais bem trabalhadas da franquia, expandindo e explicando lacunas de toda a saga dos três primeiro episódios.

Além disso, compensa por abranger, ainda que de forma branda, questões de gênero (como um Hutt homoafetivo e mulheres empoderadas com sabre de luz ou um blaster), um romance (bem contido) e batalhas épicas ao som de uma trilha sonora bem rock. Nunca foi tão fácil seguir o Lado Bom da Força. Bom filme!

Barra Divisória

assinatura_marco

“YESTERDAY” E OS BEATLES NO CINEMA (CRÍTICA)

064_00

Desde a primeira aparição do Beatles na TV americana, em 9 de fevereiro de 1964, na época programa de Ed Sullivan, no qual entre as canções mostrava-se dados biográficos do então jovens prodígios, a banda inglesa expandiu e conquistou tanto o mercado estadunidense, como também o mundo. Naquela playlist já constavam sucessos inesquecíveis como All My Loving, Till There Was You, She Loves You, I Saw Her Standing There e a icônica I Want to Hold Your Hand.

Imaginar a história da música, quiçá do mundo, sem a presença da banda Liverpool seria algo impensável, mas não para o diretor Danny Boyle, vencedor do Oscar 2008 (Quem quer ser um milionário?). 

Está é a premissa do enredo do filme Yesterday (2019): depois de um apagão em escala mundial, a existência dos Beatles é deletada da história humana, exceto para algumas pessoas, entre elas: Jack Malik. Mesmo com todos os esforços de sua amiga e produtora Ellie Appleton, sua carreira ia de mal a pior. Não é visto com seriedade pelos amigos e nem pela família. Somente Ellie, que nunca esquecera da performance de Jack fazendo cover de Wonderwall do Oasis em um concurso da escola quando era criança, parece acreditar no talento do rapaz. Até que a vida de Jack muda após um acidente de bicicleta.

064_01

Título original: Yesterday
Direção:
Danny Boyle
Roteiro:
Jack Barth, Richard Curtis
Duração:
1h 56min
Lançamento:
29 de agosto de 2019

064_02

Elenco: Himesh Patel (Jack Malik), Lily James (Ellie Appleton), Sophia Di Martino (Carol), Joel Fry (Rocky) e Ed Sheeran (Ed Sheeran).

064_03

BEATLES E MICHAEL JACKSON?
Qualquer fã da banda sabe que ter as músicas da banda de Liverpool no cinema ou em qualquer obra artística era, até certo tempo atrás, uma raridade. Parte desse problema se deve justamente ao fato de nada mais, nada menos, do que Michael Jackson era o dono dos direitos autorais das músicas dos Beatles.

Na década de 1980 muitos empresários com o ideal de fundar um grande conglomerado de entretenimento acabaram por criar uma organização: a Michael Jackson, Inc. Esta empresa acabou por adquirir a ATV, empresa que hospedava o catálogo musical dos Beatles. Entre as obras, a empresa detinha os direitos autorais da maioria dos maiores sucessos da banda, incluindo “Yesterday”, “Come Together”, “Hey Jude”, e muitas outras.

064_04

Depois do próprio Paul McCartney e Yoko Ono abdicarem de comprar o catálogo simplesmente porque o rei do pop ansiava por ele, alguns meses mais tarde Michael Jackson comprou a ATV por um preço de 47,5 milhões dólares. Hoje, a Sony/ATV, que detém os selos de cantores como Taylor Swift e Eminem, vale cerca de US$ 2 bilhões. Para Joe Jackson, embora pudesse comprar facilmente o catálogo, o comportamento de McCartney era justificável:

“O comportamento de Paul foi muito, muito mais estruturado financeiramente. A única razão para Michael comprar o catálogo era porque estava à venda! Paul McCartney e Yoko poderiam ter comprado, mas não quiseram.”

064_05

Já para Martin Bandier, o diretor-executivo Sony/ATV Music Publishing, havia também uma explicação para a falta de vontade de McCartney: “Eu nunca pensei que Paul McCartney iria comprá-lo, porque é muito difícil para um criador comprar o que é seu. Seria como Picasso passar um dia fazendo uma pintura, para comprá-la, vinte anos, depois por US $ 5 milhões. Não seria uma coisa que Paul faria.”

O fato é que por muito tempo, era quase impossível usar o acervo dos Beatles seja em outras obras artísticas, seja em peças publicitárias. Isso só passou a mudar a partir de 2008 quando houve a abertura para uso em publicidade. Mesmo não precisando do aval do integrantes ainda vivos da banda, Bandier acreditava que havia uma “obrigação moral” de analisar o uso dos catálogos com McCartney, Starr, Yoko Ono (viúva de Lennon) e a família de George Harrison (que morreu em 2001).

064_06

BEATLES NO CINEMA
Um marco para o uso de canções da Beatles no cinema é sem dúvida o longa-metragem de Jessie Nelson, I am Sam (2001), que por aqui recebeu o título açucarado de Uma lição de amor. Neste filme que premiou com os Oscar de melhor ator Sean Penn, conta a história de Sam, uma homem com atraso intelectual (uma mente de uma criança de 7 anos), que com ajuda de outros deficientes cuida de sua filhinha Lucy Diamonds (Lucy in the sky with the diamonds). Há cenas que remetem à Abbey Road, citações feitas pelo protagonistas de frases de Lennon e McCartney e, claro, as diversas músicas dos Beatles interpretadas por covers. São ao todo 19 versões que contam com as vozes de Ben Harper, Wallflowers, Stereophonics e Sheryl Crown. Uma saída inteligente, pois na época  era algo extremamente raro ter documentários, filmes ou clipes desde que Michael Jackson adquirira os direitos autorais da banda na década de 1980.

Usar a obra dos Beatles como fio condutor de uma trama inteira foi a proposta de Across the Universe (2007) de Julie Taymor. O casal protagonista Jude e Lucy, nomes retirados das canções da banda inglesa, vivem toda sua história de amor, ambientada pela músicas dos Beetles, no período de contracultura, da psicodelia e protestos contra a Guerra do Vietnã da década de 1960. Época tão bem retratada no documentário 1967: O verão do amor (2017).

064_07

UM TRILHA FANTÁSTICA, UMA HISTÓRIA PREVISÍVEL
Longe de ser uma obra-prima, Yesterday tem uma história simples e comum para uma comédia romântica. O longa parte de um acontecimento fantástico, um apagão em escala mundial que parece ter sido provocado por uma erupção solar (como se pesca de uma manchete de jornal). Isso causa uma reviravolta na vida do aspirante a cantor, Jack Malik. Um looser (perdedor) em todos os sentidos da palavra. Sempre auxiliado pela carismática e linda Ellie, professora de matemática e produtora amadora que vive uma friendzone e reprime seus sentimentos por Jack.

A ideia de um cantor que terá que escolher entre o amor e o sucesso musical está na raiz de filmes como Rock Star (2001), com Mark Wahlberg interpretando um vocalista de rock anos 80; ou Nasce uma Estrela (2018), com a Lady Gaga. Ou seja, é um tema batido. O que chama a atenção, claro é vasto uso do Beatles como pano de fundo da trama.

064_09

A partir blackout mundial, Jack se vê como a memória da existência dos Beatles. Por mais que mais duas pessoas, no enredo, lembrem-se da existência da banda inglesa, somente Jack tem o talento para cantar e tocar as músicas. Nesta realidade, John Lennon não morreu em um atentado: vive uma vida pacata a beira do mar, alheio à música. Nesta realidade Oasis (banda influenciada pelos Beatles) não existe, assim como a Coca-Cola (só a Pepsi, em um merchã escandaloso) e Harry Potter.

Então, auxiliado por Ellie (no início) e pelo cantor Ed Sheeran (que interpreta ele mesmo), Jack se torna uma celebridade na Internet, abre turnês, vai a shows de entrevista, faz tudo que sua empresária chique Carol lhe ordena.

064_08

No final, ele escolhe uma vida simples ao lado de sua admiradora de infância. O mundo não volta ao normal (juro que esperei isso). As músicas da banda são doadas gratuitamente e Jack abdica de lucrar com uma arte que nunca foi sua. Volta a ser professor e constitui família em um final simples que agradará ao noveleiro mais aficionado.

QUATRO CURIOSIDADES (entre tantos easter eggs)

  1. 064_10No filme, Jack foi atingido quando estava de bicicleta, quebrou os dentes da frente e feriu os lábios. Isso realmente aconteceu com Paul McCartney em 1966 que caiu do ciclomotor e lascou um dente da frente em Liverpool. 
  2. 064_11Legalmente, os cineastas precisavam apenas da permissão da Sony ATV para usar as músicas dos Beatles, sendo a Sony detentora dos direitos de publicação. Em princípio, eles também buscaram as bênçãos de Paul McCartney, Ringo Starr, Yoko Ono e Olivia Harrison para o filme. Assim os Beatles não tiveram contribuição criativa, exceto pela aprovação de seu repertório para uso no filme.
  3. 064_12A história original do filme foi escrita por Jack Barth. Nela tudo era muito mais sombrio, com o protagonista lutando como músico na nova linha do tempo e a premissa do universo alternativo explorada com mais profundidade. Quando Richard Curtis reescreveu, ele fez o tom muito mais alegre, colocou menos ênfase na premissa de uma nova linha do tempo sem os Beatles e mais foco no romance entre Jack e Ellie.
  4. 064_13Alguns dos personagens têm seus nomes inspirados nas músicas dos Beatles: Rocky, o roady temporário, é nomeado por causa de “Rocky Raccoon”; Ellie,  é nomeada em homenagem a  “Eleanor Rigby” (a única música que Jack tem dificuldade de lembrar); e a colega de quarto de Ellie, Lucy, claramente, “Lucy in the sky with the diamonds”.

CONCLUSÃO: TODAY, ASSISTA!
Yesterday não é a última bolacha (ou biscoito) do pacote no que se refere a uma comédia romântica ou mesmo de tributo musical. A história é leve, sem vilões, pois nem Jack Malik é um mal caráter. Ele é um sonhador e se deixará levar pelos rumos dos acontecimentos. Uma salva de palmas para Ellie (Lily James) que é aquela mocinha fofa e apaixonada e de sorriso cativante, a melhor em cena.

Se o leitor nerd deseja um filme leve e é fã dos Beatles, cantará do início ao fim as músicas do grupo, mesmo com a desafinada de Help durante o show de lançamento de Jack (embora o ator, Hamish Patel tenha feito aula de canto e violão). Para além das piadas bem colocadas e em momentos precisos, vai até esquecer que Ed Sheeran não é lá um ator, mas vale pelo desconcerto do rapaz em frente as telas na sua “amizade” com o protagonista. Veja o longa de Boyle como distração de um dia estressante. Afinal não deixe para Yesterday o que pode fazer Today. Essa foi muito ruim! Fui galera!

Barra Divisória

assinatura_marco

LEILA – SÉRIE DA NETFLIX (CRÍTICA)

063_00

SINOPSE
O ano é 2047, e o território da Índia agora é chamado de Aryavarta. Uma nação onde extensos muros dividem comunidades, separando castas consideradas puras das impuras, nas quais umas possuem mais privilégios do que outras. Nesse futuro distópico de desigualdade, a água limpa se tornou escassa, e cerceada pelo Estado, apenas os considerados puros tem melhor acesso. O Governo é regido por Dr Joshi, um totalitarista sádico que recebe denúncias de simpatizantes, e usa de violência física e psicológica para ‘purificar’ a sua idealizada Aryavarta.

Nesse cenário de tensão, Shalini, uma mulher comum mas de vida privilegiada, tem sua casa invadida, seu marido assassinado de forma brutal e, é levada à força, enquanto sua filha era deixada para trás. Segundos as regras estabelecidas por Dr Joshi, a mulher havia se casado com um muçulmano, e portanto havia se tornado impura. Assim como outras, Shalini é levada uma clínica de bem-estar feminino, local onde de forma cruel e covarde, sofre todo tipo de maus-tratos e humilhações. Elas abandonam suas individualidades e precisam se enquadrar no padrão comportamental de submissão, no qual um sistema misógino e tirano, às obrigam a obedecer vexatórios ritos até estarem aptas a oportunidade de provarem estar prontas para voltar a sociedade como mulheres puras.

Dois anos se passam e, Shalini nota que as crianças consideradas ‘mestiças’, as nascidas de relacionamentos inapropriados, eram levadas para um desconhecido paradeiro. Passa então a ficar bastante preocupada com o paradeiro de sua filha, e faz de tudo para conseguir sair daquele lugar.

063_01

COMENTÁRIOS
Logo de cara é impossível não fazer a comparação óbvia com a série norte americana O Conto de Aia (The Handmaid’s Tale, de 2017), principalmente pela semelhança estética e da atmosfera claustrofóbica e melancólica. Leila também conta sobre um futuro similarmente distópico, no qual um governo totalitário e opressor, subjuga mulheres para que se enquadrem nos padrões de dona de casa, submissa e procriadora. Mas diferentemente da série ocidental que foca muito no cenário estrutural político, esta prioriza o drama pessoal de Shalini, negligenciando explicar os fatores que levaram a sociedade chegar naquele formato ditatorial.

Uma  das coisas que me incomodou bastante nesse começo de série, é o fato daquele grupo de mulheres não oferecerem resistência alguma aos seus opressores. Não há uma gerência e muito menos união para planejar uma fuga. Faria sentido ao menos que conspirassem para melhorar aqueles períodos tortuosos de cárcere. Mas não, é pressuposto que todas cuidam apenas dos próprios interesses, e cada uma é responsável pela própria saúde física e mental. No início Shailini e Pooja ainda esboçam o ensaio para tal, mas logo a cumplicidade é abandonada voltando cada uma a cuidar do próprio nariz.

063_03

Ao mesmo tempo que esta é uma série endereçada ao público de O Conto de Aia, imagino que esse conceito praticamente copiado, deixe tal público bastante desconfortável. O romance do indiano Prayaag Akbar foi publicado originalmente em 2017, enquanto O Conto de Aia é uma obra de Margaret Atwood lançada em 1985. Me pergunto se os produtores de Leila não imaginavam que essa grande semelhança, junto com a oferta das série em datas tão próximas, não poderia prejudicar bastante o marketing da produção indiana. A repercussão não vem sendo nada favorável, visto que além da já citada comparação, Leila não traz grande qualidade de roteiro e direção. Seu ritmo é lento e cansativo, fazendo parecer os seis episódios com uns 40 minutos cada, parecem uma eternidade. As atuações também são apenas aceitáveis, não temos ninguém se destacando.

Na Índia existe um conflito ideológico e religioso muito grande entre muçulmanos e hinduístas e, Leila explora isso de forma muito arriscada, uma vez que deturpa uma série de elementos de ambas as religiões. Para uma nação tão ortodoxa assim, essa é uma série que se complica até para seu público doméstico. Fica a questão: Leila é bom? Eu particularmente tenho certa dificuldade em endossar obras embasadas em tons melancólicos, mas ao mesmo tempo gosto de conhecer conceitos distópicos diferentes. A pena fica por conta desse ponto não ser merecidamente explorado, e isso é uma pena. Então respondendo minha própria pergunta, eu acho que não sou fã desta série.

063_02

ELENCO E FICHA TÉNICA
Huma Qureshi, Siddharth, Leysha Mange, Seema Biswas, Rahul Khanna, Sanjay Suri, Arif Zakaria, Ashwath Bhatt, Pallavi Batra, Anupam Bhattacharya, Akash Khurana, Jagjeet Sandhu, Prasanna Soni e Neha Mahajan compõem o elenco. A obra indiana é baseada no livro homônimo de Prayaag Akbar, e foi adaptada em conjunto por Urmi Juvekar, Suhani Kanwar e Patrick Graham. A direção também é compartilhada entre Deepa Mehta, Shanker Raman e Pawan Kumar. Produzida pela Open Air Films LLP, Leila foi lançado e distribuído sob o selo Netflix.

CONCLUSÃO
A série indiana surgiu recentemente na Netflix com o objetivo claro de fisgar o mesmo público de O Conto de Aia, porém não tarda em criar uma identidade própria. A série aborda o drama de Shalini, uma mulher acostumado com uma vida confortável, que de uma hora para outra é subjugada por um regime covarde e hipócrita, quando ao mesmo tempo vive a angústia de não saber o paradeiro da própria filha. Uma obra cheia de melancolia e sofrimento, que por muitas vezes gera repulsa e raiva, pelas injustiças e abusos que aquelas mulheres são expostas. A série é curta, possuindo apenas seis episódios nessa segunda temporada, e até o momento não é confirmada continuação.

Barra Divisória

assinatura_dan