BATES MOTEL: ORDEM DOS FATORES

Bates Motel psycho

O santo da vizinha fofoqueira morta havia baixado em mim.

Mergulhei na escuridão quando decidi pela espontaneidade iniciar uma nova série. Sou do tipo exigente com as coisas, não necessariamente pela quantidade de qualidade, mas pela solidez da proposta. Mesmo mais simples que ela possa se mostrar ser de vez em quando. Eu não conhecia absolutamente nada da série Bates Motel, quando um amigo revelou ser um derivado do original Psicose, de 1960, qual também nunca tinha assistido. Resolvi então tomar o rumo de conferir a renomada obra-prima de Alfred Hitchcock, que advinha, nunca havia me atentado a nada em particular. A maioria dos cultuados clássicos estão ainda fora da minha estante de consumidos. A Lista de Schindler, O Poderoso Chefão, Um Corpo que Cai, Doutor Jivago, …E o Vento Levou, Casablanca, e muitos outros, todos na minha sentença de passagem direto ao inferno, caso não assista enquanto encarnado. Então fiz o que me pareceu ser o mais correto para entender a amplitude de intenção daquele seriado, que eu já devia ter assistido uns três episódios. Procurei pela internet e dei de cara com algumas refilmagens não muito convincentes, queria o original. E depois de uma pequena dificuldade, ainda assim bem maior que imaginava, consegui acesso ao clássico descolorido.

Madrugada à dentro parto eu, que geralmente cético, me sentia obrigado a ter absolutamente respeito em não supor que aquele poderia ser um caso de exagero da crítica. No meu subconsciente aquele filme tinha uma aura, fazia parte dos meus preferidos sem nunca ter sido visto. Confuso, não? Pipoca? Não, peguei Cheetos. Cheetos Lua. Com Mate Leão. Sabor limão.

Sentei, me acomodei e dei plei. Uma leve sensação de deslocamento temporal pela película envelhecida, mas muito bem, e entramos pela janela daquele apartamento. É preciso ser dito, tudo era muito bem escrito. Cada simples diálogo parecia ter surgido de improviso. Parecia real que eu tinha entrado pela janela de alguém e me intrometido na intimidade de conversas intrigantes que não eram da minha conta. Eu queria mais. O santo da vizinha fofoqueira morta havia baixado em mim. Aquele filme mal tinha começado e me sugava para um vouyerismo doentio, mas e daí, ninguém estava vendo. Só eu. A coisa progride junto com uma tensão que não lembro ter notado em nenhum outro filme. Hitchcock não só tinha uma aura de gênio, parecia ser um caso verídico de genialidade. Meme de mãozinha no queixo. Sentia estar me filiando à Seleta Ordem dos Críticos Cults de Cinema, isso não me cheirava digno de orgulho. Medo de partir numa odisseia de querer organizar os DVDs e VHSs por ordem de diretores e envergonhar a família Pereira.

Aquela pessoa de caráter duvidoso que seduzia minha simpatia precisava ser desmascarada. Meus olhos sangravam em cumplicidade e repulsa, me sentia invisível e amordaçado de carona naquele carro. Impossível um cara tão insistente também ser tão complacente, olha o carona! Me pergunta que eu digo o que essa ignóbil fez! Era sufocante ver o quanto a gentileza impedia aquele maluco de dar uma dura naquela suspeita e arrancar dela seu segredinho recente. Não importa, éramos parceiros e ela precisava se safar. Continuando a se aventurar pela tempestade do julgamento da própria consciência, Janet chega ao Motel Bates. Onde logo é atendida por um simpático jovem adulto que lhe dispõe onde se alojar. Daí é ladeira à baixo na estranheza das motivações que levam uma mulher se expor da maneira que o faz, bem como se comporta um gerente de hotelaria com seus inquilinos. Ou aquilo fugia a curva do habitual para ambos? O grand finale não tarda muito à vir. E não, não darei spoiler desse recém lançamento.

Como dito no começo, não importa o quanto algo é complexo ou nada complexo, à mim a consistência do como é feito que é relevante. Poucos personagens, poucas locações, pouca trama e poucos elementos, no entanto muita veracidade em narrativa e construção de personagem. Um filme de quase sessenta anos e com rostinho de bebê. Uma belíssima linguagem atemporal que causa estranheza de tão realista.

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Lincando as duas obras, o original de Psicose com a série Bates Motel, abre-se um dilema. O que assistir primeiro, a construção lenta e profunda do personagem central, ou seu resultado caótico como adulto? Antes de tomar a decisão de voltar no tempo e presenciar a obra que tantos admiravam, qual não imaginava o porquê, estava bastante receoso de talvez estar sabotando minha própria experiência. Mas agora estando próximo à quinta temporada, e ter assistido o filme primeiro, a sensação é de que tanto faria. Nenhuma das ordens é errada e nenhuma é certa, as duas gerarão crescente expectativa do observador atento. As duas obras funcionam perfeitamente bem isoladas ao mesmo tempo que funcionam de forma excelente em conjunto. Sendo como for, vai fundo.

Agora me resta concluir a série e assistir as sequências do filme. Estou temeroso com essas continuações, definitivamente é complicado fazer jus à obra de arte que é o primeiro. Como me conheço um pouco, estou seguro de que a curiosidade falará mais alto.

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Atari 2600

É em 1984 que tudo começa, pelo menos pra mim foi assim. Não sei em que ano você nasceu, mas pelo menos no meu caso esse é o número. Quando você é criança a sua percepção de mundo se resume apenas em sou pequeno mas um dia irei crescer, então não sei precisar exatamente em que momento da minha infância se passa o começo dessa história nos videogames. Acredito que entre meus três ou quatro anos, mas isso não importa tanto, a graça maior fica com o como foi.

Lembro de um dia que meu falecido tio, irmão da minha mãe, que morava com a minha vó, e qual eu frequentemente visitava, ter pegado do alto daquele já antigo guarda-roupas de dezoito metros de altura, uma grande caixa mágica. Dentro tinha algo peculiar e que eu nunca havia visto parecido. Não lembro se foi movido do seu esconderijo para ser mostrado à mim, ou se havia sido pego para ser usado por aquele adulto que eu admirava tanto. Mas é certeza de aquilo ter sido pego apenas para minha pessoa, afinal, não vejo razão melhor pra tanto esforço. Após assistir aquela triunfal conquista de alcançar o inalcançável e misterioso pico daqueles dezenove metros, fomos com muita curiosidade e perplexidade para sala. O ambiente comum à mim estava lá, sofá, mesinha com o telefone azul claro de discar, uma TV Telefunken de vinte polegadas, imagino, e aquele jogo de sofás feitos de bambu envernizado. Tudo sobre um carpete verde escuro e áspero que se expandia por toda a casa, tirando a cozinha e o banheiro, óbvio.

Ele sentou-se no chão, abriu a caixa, foi tirando coisas pretas aos poucos, e desembolando fios. Eu assistia com atenção aquele ritual, vai que eu precisaria repetir algum dia e não pudesse contar com o auxílio do meu auxiliar. Coisas pretas espalhadas no chão, e ele escolhe um fio para levar para trás da TV, levando junto uma ferramenta de girar coisas. Alguns segundos e amarrou aquele fio. Dali partiu para um outro fio, qual levou até uma tomada. Sim, tomada eu tinha consciência do que era, era o lugar onde você não colocava chaves (de portas) para não tomar choques. Mas meu tio parecia ser responsável e eu imaginava que ele sabia disso também. Ele colocou aquele fio naquela tomada, sem tomar choque, claro, ele não levou junto uma chave, já em seguida foi para frente da TV. Ligou e escolheu o canal que não passava nada além de chiado. Veio em minha direção e se sentou ao meu lado, no carpete mesmo. Mexeu em um saco plástico, que até então eu não havia notado, e tirou vários quadrados pretos com adesivos coloridos. Peguei um e encarei aquele homem de óculos. A imagem daquele homem me assusta até hoje. Está carimbado no meu consciente e subconsciente. Não me assusta por medo, me assusta por ter sido minha descoberta do fogo, da roda, e do videogame, tudo ao mesmo tempo. Minha vida se divide no a.D. e d.D., antes daquilo, e depois daquilo.

Meu tio remexeu entre várias daquelas coisas e olhou pra mim, essa fita, deixa eu ver. Dei à ele aquela preciosa fita. Olhou com atenção pra ela, virou de um lado e pro outro, levou até próximo à boca, e assoprou. Encaixou a fita na parte preta maior e mexeu num botão, isso causou um pequeno estalo. Ele olhou pra TV e eu quis ver também. O que era aquilo? Pequenas coisinhas se moviam de um lado à outro com um som que invadiu a minha mente. Ele se acomodou melhor de pernas cruzadas, pegou uma caixa preta não muito grande com um cabinho, essa qual também tinha um botão vermelho. Era aquele homem! O homem da fita que via de forma aterradora aquelas pequenas coisas descendo freneticamente pela tela enquanto a navezinha sofria para impedir de ser comida!

Olhando de forma mais atenta eu pude ver que não era só isso. Quer dizer, que não era bem isso. Não era o homem da fita que pilotava a nave, era meu próprio tio! Era isso! Eu entendi tudo!

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