SEX EDUCATION – SÉRIE DA NETFLIX (CRÍTICA)

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SINOPSE
137_04Otis é um garoto bem diferente da maioria dos jovens com que convive, vindo de uma criação pouco convencional na qual seus pais não conseguem se desligar de suas carreiras como terapeutas sexuais, o que fazia com que o rapaz desde muito jovem ficasse exposto a todo tipo de conhecimento sobre o assunto. A decoração da sua casa é repleta de ornamentos fálicos e todo tipo de objetos que remetiam a sexualidade. Para quem não conhecia o entusiasmo da sua mãe pelo trabalho, aquilo era uma total loucura. Na escola era introspectivo e pouco notado, e em seu íntimo se sentia para trás na corrida por alcançar a vida adulta, o que para ele se traduzia em: fazer sexo. Em outras palavras, perder a virgindade. Se por um lado ele se sentia perdido com as próprias ações na busca disso, de outro ele era um oráculo de conhecimento sobre tudo relacionado a comportamento sexual. Como eu disse, a vida dele era louca. Tinha acesso a intermináveis estantes repletas de livro sobre o tema, e sua mãe fazia de sua vida um reflexo das sessões com seus pacientes. Definitivamente sexo não era um tabu para Otis e, é quando ele se junta a Maeve, uma colega de classe que ele sempre observava de longe com certa admiração, e que agora lhe deu brecha para um melhor contato, fazendo sua imaginação começar a se desenvolver em atração por ela. Mas aquele era um mero acordo comercial, onde a menina conseguia clientes com problemas em suas vidas sexuais, e Otis orientava individualmente em breves reuniões sigilosas. No entanto essa feliz parceria vai se desenvolvendo, e inconscientemente o jovem vai aflorando uma nova realidade para Maeve, ao mesmo tempo que ela o faz se sentir mais confiante do próprio potencial.

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COMENTÁRIOS
Na juventude é natural nossa ansiedade maior por avançar em nossa própria sexualidade, e isso pode se tornar um verdadeiro caos dependendo da nossa bagagem de vida até o fatídico momento de interesse por essas descobertas. São infinitos fatores e combinações que podem desencadear uma vida sexual sem brilho e satisfação, e é com uma enorme sensibilidade e respeito que Sex Education (2019) aborda esse tópico tão delicado. Sempre inteligente e com humor elevado, são escritos os mais variados tipo de cenários e situações. É surpreende a ousadia e a assertividade do tato de Laurie Nunn, criadora e uma das idealizadoras da série em conjunto com Ben Taylor. Gostaria muito que esta série pudesse alcançar todo mundo, pois desmonta paradigmas espinhosos e remonta de forma clara, para que independente da sua origem cultural, consiga entender a simplicidade que é a complexidade de como as pessoas enxergam suas próprias realidades. Recebemos projeções da vida dos nosso amigos, familiares, aquele outro desconhecido por qual temos empatia, e obviamente, sobre nós mesmos. E não existe nada mais esclarecedor e útil do que vermos nossos próprios demônios serem fragmentados em pedaços na nossa frente, e ter as opções de deixarmos as coisas seguirem como estão indo ou decidirmos atualizar. No fim sempre temos o livre arbítrio.

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Comentando um pouco sobre os aspectos gerais, Sex Education é uma série muito leve e confortável de assistir. Sua fotografia é belíssima e explora as belezas naturais da Wye Valley, patrimônio internacional da humanidade que se estende pela fronteira da Inglaterra com o País de Gales, sendo uma das paisagens cênicas mais inspiradoras de toda Grã-Bretanha. Seu enredo é bem amarrado e traz discussões precisas sobre temas triviais para o nosso entendimento sobre o quanto é importante nos colocarmos na posição do outro. As vezes o que nos causa graça ou repulsa pelo mero capricho de um julgamento imaturo, é motivo de muita dor e sofrimento para o alheio. Tudo isso é bem explorado com compaixão e nunca abandonando a honestidade. A trilha sonora é feita para abraçar a geração dos trinta, com Billy Idol, A-Ha, The Cure, The Smiths, UB40, INXS e muitos mais! Meu chapa, tem até Love Missile F1-11 do Sigue Sigue Sputnik, mais anos oitenta é impossível!

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PERSONAGENS! Sei que não vou conseguir destrinchar todos os que merecem atenção, mas vou citar ao menos os mais constantes na série.

  • Otis Milburn, é interpretado por Asa Butterfield, um jovem de carisma fenomenal! Um personagem complexo que mescla introspectividade com desinibição de uma maneira muito singular. Fechado para seus próprios dilemas e limitações, é uma caixinha de surpresa quando se trata de solucionar seus problemas.
  • Maeve Wiley recebe vida de Emma Mackey, atriz de semblante natural conflituoso, com um ar misto de arrogância e doçura, e que foi capaz evocar uma jovem rebelde de personalidade bem emaranhada. Sempre inteligente, sagaz e de humor ácido, se enxerga uma pessoa melhor através dos olhos, para ela ingênuos, de um tolo e esperançoso Otis.
  • Eric Effiong é vivido por Ncuti Gatwa. É para mim o personagem mais carismático da série. Negro, gay, de família humilde e tradicional, é uma pessoa sempre extrovertida e que valoriza o apoio e carinho daqueles que mais importam. Seu melhor amigo é Otis, e quando digo amigo, é porque os dois são unha e carne. Eric tem suas quedas, mas está sempre evoluindo e buscando jogar a bola pra frente. Rancor não é com esse cara!
  • Aimee Gibbs é interpretada por “Aimee” Lou Wood. Ela fica situada no grupo das patricinhas da escola, e das garotas de sua mini bolha é a menos extrema ao interagir com quem é de fora. Cabeça de vento com tudo, literalmente é lenta para entender o óbvio, o que acaba fazendo com que suas amigas façam-na de gato e sapato. Nos relacionamentos é confusa, e combinado com seu desconhecimento sobre seu próprio corpo, precisa se esforçar para entender o que quer da vida.
  • Jackson Marchetti é o superastro da escola vivido por Kedar Williams-Stirling. Descolado, popular, entusiasta na natação e com notas elevadas, está sempre rodeado de admiradores e professores interessados em seu alto desempenho acadêmico. Mas por dentro Jackson sofre uma enorme pressão, afinal, na busca de seus ótimos resultados ele precisa se abdicar de uma série de distrações e prazeres que talvez só pudesse aproveitar nesta etapa da vida.
  • Adam Groff é interpretado por Connor Swindells, e é filho do diretor Michael Groff. Adam é o um dos personagens mais complicados para não dizer caóticos de Sex Education. Nitidamente fica claro que sua agressividade tem origem da criação ríspida que teve de um pai problemático e que não o orienta bem. Sempre perdido em suas atitudes, não consegue focar e mirar num objetivo claro, estando sempre a mercê do que surge no ambiente.
  • Dra. Jean F. Milburn é encarnada por Gillian Anderson, a eterna Scully de Arquivo-X. Sensacional! Se mostrando calculista e falsamente estável, é uma mulher inteligente, bem resolvida, mas que também quer ter tudo sob seu controle. Quebrando a ética em diversos momentos ao seu relacionar com pacientes, também faz da vida de Otis um curioso laboratório para suas pesquisas comportamentais, e claro, sem ele saber.

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ELENCO E FICHA TÉCNICA
Asa Butterfield, Gillian Anderson, Ncuti Gatwa, Emma Mackey, Connor Swindells, Kedar Williams-Stirling, Aimee Lou Wood, Alistair Petrie, Mimi Keene, Chaneil Kular, Simone Ashley, Tanya Reynolds, Mikael Persbrandt, Patricia Allison e Anne-Marie Duff compõem o elenco. Escrito por Laurie Nunn, Sex Education é uma série de drama, romance e comédia lançada em 2019 sob o selo de distribuição Netflix. A adaptação recebeu como roteiristas na primeira temporada Laurie Nunn, Sophie Goodhart, Laura Neal e Freddy Syborn, e a direção foi dividida entre Ben Taylor e Kate Herron. A produção executiva é de Jamie Campbell e Ben Taylor, o produtor é Jon Jennings, cinematografia de Jamie Cairney e Oli Russell, e edições de Steve Ackroyd, David Webb e Calum Ross. Os estúdios utilizados são da Eleven Film, enquanto a distribuição internacional é do serviço por assinatura stream Netflix. A série conta até 2020 com duas temporadas, cada uma contendo oito episódios de uma média de cinquenta minutos cada um.

CONCLUSÃO
Sex Education é uma das séries mais gostosas de divertidas de se assistir no catálogo da Netflix, porém ela tem um corte de audiência por motivos óbvios, a censura. Não existe nada explícito aqui, no entanto o linguajar é pesado e escrito pensando em causar efeito nos jovens adultos. Definitivamente não é conteúdo para crianças assistirem. Convide seu companheiro ou amigos da sua faixa de idade, e pode ter certeza que vocês terão ótimos momentos de diversão. A classificação indicativa para Sex Education é de 16 anos, e a série já tem disponibilizada duas temporadas na Netflix. Então lave as mãos, pegue a sua pipoca e bate aquela vitamina de mamão!

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BACURAU (CRÍTICA 1)

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No ano de 2019, houve diverso lançamentos muito bons no cinema. Um dos melhores, para mim, foi Bacurau com direção de Kleber Mendonça Filho (Aquarius, 2016) e Juliano Dornelles. O enredo se passa no interior do sertão nordestino, mais precisamente em Pernambuco, em um vilarejo que dá o nome à obra. Logo no início contemplamos como essa comunidade lida com a morte de uma moradora muito querida por todos, dona Carmelita, aos 94 anos.

O interessante que essa narrativa se passa em um futuro próximo, contudo a ambientação, à primeira vista, parece retratar um tempo muito antigo. Nesse aspecto me lembrou outro filme maravilhoso que é Narradores de Javé (2004) e, ao adentrarmos na atmosfera de Bacurau, percebemos seus telefones, tablets e telões de LED que dão o tom moderno à um local rústico.

Outro aspecto pitoresco diz respeito ao funcionamento da dinâmica entre os moradores. Se por um lado é Tereza (Barbara Colen) quem traz remédios da cidade grande, é a médica Domingas (Sonia Braga) que os distribui para todos e atende a qualquer pessoa que venha ao seu consultório.

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COMENTÁRIOS COM SPOILERS
Durante uma aula, o professor Plínio e seus alunos, percebem que Bacurau simplesmente “sumiu” do mapa e partir daí que as coisas se complicam. A população descobre que está sendo caçada, contudo não sabe por quem. Os algozes são, na verdade, um grupo de estrangeiros sádicos que resolvem exterminar aquela população e, para isso, contam com a ajuda de dois brasileiros do Sul/Sudeste para obter tal êxito.

Para mim, uma das cenas mais geniais diz respeito à reunião desse grupo em que um dos brasileiros “brancos” se vê como muito mais parecidos com os estrangeiros do que com seu povo. E um dos assassinos rebate que apesar da cor clara, seus traços denunciam sua origem, que “ no máximo são mexicanos brancos”. Isso demonstra bem como vivemos o racismo em nosso país: muitos renegam sua ancestralidade para fingir ser alguém que realmente não é.

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Na segunda parte do filme é que se passa o conflito em si. O sinal de comunicação é bloqueado e então toda a dinâmica de Bacurau é abalada. Há assim algumas mortes entre os cidadãos, mas inflamados por Lunga (Silverio Pereira) resolvem se armar e se defender do inimigo invisível que os espreita.

O filme é uma celebração, uma ode à população brasileira, sobretudo nordestina que luta contra as adversidades tanto estrangeiras quando dos seus compatriotas. É notável que no filme e no restante do país, o clima é de completo caos social, e que aquele pequeno oásis no sertão é uma forma de resistência às injustiças.

A trilha também conta com duas musicas especialmente tocantes: Não Identificado de Gal Costa e Réquiem para Matraga de Geraldo Vandré, ricas por seu valor simbólico em cada momento do filme. O final é violento e ao mesmo tempo sensível. No entanto, ao chegar ao desfecho, todo aquele assistir, que “ ♪ não entendeu, não perde por esperar… ♪ ”, literalmente.

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ELENCO E FICHA TÉCNICA
Sônia Braga, Udo Kier, Bárbara Colen, Silvero Pereira, Thomás Aquino, Karine Teles, Antonio Saboia, Lia de Itamaracá e Wilson Rabelo compõem o elenco. Coprodução entre França e Brasil, Bacurau, filme de 2019 é escrito tanto escrito como dirigido por Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, e tem produção de Emilie Lesclaux, Saïd Ben Saïd e Michel Merkt. Conquistou o Prêmio do Júri no Festival de Cannes de 2019, tornando-se o segundo longa brasileiro da história a ser laureado no certame geral, após O Pagador de Promessas (1962) de Anselmo Duarte. Além de premiado em diversos festivais de cinema, Bacurau foi selecionado para mostras principais de festivais não competitivos prestigiados mundialmente, como o Festival de Nova York (NYFF).

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DON’T F**K WITH CATS: UMA CAÇADA ONLINE – DOCUMENTÁRIO NETFLIX (CRÍTICA)

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SINOPSE
Quando um homem misterioso publica um vídeo em que aparece torturando e matando dois gatinhos, usuários indignados da internet ao redor do mundo entram em ação para encontrar esse sádico. Isso começa um jogo de “gato e rato” (há!) aonde, satisfeito com a atenção recebida, nosso matador passa a postar vídeos cada vez mais perturbadores. Dos produtores de “O Impostor” e “Silk Road”, Don’t F**k With Cats: Uma Caçada Online estreou em 18 de dezembro, na plataforma de streaming Netflix e relembra o caso de Luka Rocco Magnotta, utilizando dos acontecimentos para questionar sobre os limites do conteúdo que algumas pessoas compartilham na web, e o papel de quem dá audiência a isso.

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A SÉRIE (SPOILERS)
Dividida em 3 capítulos de aproximadamente 60 minutos de duração cada, a mini série é um documentário em sua forma mais tradicional, mas que não foca as entrevistas nas autoridades da lei responsáveis pela investigação do caso (pelo menos não em um primeiro momento), mas sim nas pessoas que tiveram um papel ativo desde o começo do caso: usuários de internet. Pessoas simples, como eu e você, que possuem seus empregos e vivem suas vidas, mas que eventualmente dedicam algum tempo a “passear” pelas redes sociais. Pessoas como Deanna Thompson, analista de dados de um cassino em Las Vegas; e John Green, nome fictício de um homem que não quis se identificar (apesar de aparecer abertamente no vídeo). Eles recapitulam passo a passo a investigação feita até encontrarem Luka, o responsável pelas atrocidades com os gatinhos – e que viria a se tornar um criminoso procurado pela Interpol após assassinar o estudante chinês Jun Lin.

Em 2010, vídeos foram publicados por um perfil anônimo e causaram a indignação de diversas pessoas nas redes sociais. Neles, um homem não identificado aparece assassinando filhotes de gato de diferentes maneiras, sem esboçar nenhuma reação. Espantados com a frieza do protagonista, alguns usuários do Facebook criam um grupo na rede para localizar esse indivíduo capaz de cometer e filmar crimes tão perversos.

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O primeiro vídeo é investigado à exaustão, e é interessante acompanhar a reconstrução da busca e os resultados conquistados por pessoas obstinadas, apenas com base em detalhes observados nos vídeos. Cada frame é uma pista para descobrir em qual país reside o culpado. De um maço de cigarros a um aspirador de pó identificado por um fórum na internet, Deanna e os outros se aproveitam de todas as ferramentas disponíveis na internet para se aproximar cada vez mais do assassino. A cada novo vídeo de assassinato animal, novas pistas são captadas, e fica claro que a intenção desse “monstro” é que continuem lhe dando atenção, forjando pistas falsas e chegando a provocar o grupo. Quando finalmente os pontos vão se ligando e os “detetives virtuais” finalmente o identificam, é que o diretor e roteirista Mark Lewis apresenta quem, de fato, é a pessoa por trás dos vídeos macabros: Luka Rocco Magnota.

Aqui entendemos que o criminoso possui uma mente perturbada ao conhecermos o conteúdo das imagens divulgadas. Toda a montagem dos vídeos é feita minuciosamente por Magnotta, que já os planejava prevendo a repercussão que causariam. O texto de Lewis reproduzido na boca de Deanna e Green alerta o público diversas vezes sobre a busca por atenção, sempre espelhado em cenas da cultura pop ou em casos antigos de serial killers. Narcisista extremo, ele queria ser o centro das atenções, chegando a editar digitalmente seu rosto em várias fotos, e criar inúmeros perfis falsos para comentar nas fotos, validando essa persona inventada. A escalada de atenção de Luka culmina com ele cometendo e filmando um homicídio.

O que antes era apenas uma caçada virtual com milhares de internautas procurando um doente que maltratava animais, se torna então um caso internacional de investigação atrás de um homicida, que vivia como um andarilho viajando entre países e mudando de identidade para escapar das autoridades. Sendo assim, ele se tornou alguém muito instigante para mídia, conseguindo cada vez mais e mais atenção, saindo da internet para os noticiários internacionais. A caçada culmina com Magnotta sendo preso em um cyber café na Rússia, enquanto pesquisava sobre seu próprio status no site da Interpol.

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CONSIDERAÇÕES
A série apresenta lacunas que poderiam ser melhor preenchidas, falta um estudo mais aprofundado sobre o aspecto psicológico do assassino; um claro narcisista psicótico, mitômano e quem mais sabe que outros distúrbios Luka Rocco Magnotta poderia ter. O texto de Lewis reproduzido na boca de Deanna e Green alerta ao público diversas vezes sobre a busca por atenção, sempre espelhado em cenas da cultura pop ou em casos antigos de serial killers. Ele queria ser o centro das atenções e um profissional analisando suas atitudes, esclarecendo alguns aspectos de distúrbios psicológicos tornaria a proposta do documentário talvez mais completa e enriquecedora.

Apesar de contar com os entrevistados mais importantes na história do caso, trazer pessoas comuns como o espectador, inserindo-o na história, o documentário obviamente exagera na dramatização dos envolvidos. Parece que até os policiais da investigação revivem cada detalhe, como se estivessem representando a si mesmos. Infelizmente, para mim, essa representação acaba retirando muito da importância do questionamento principal que o diretor levanta para o espectador. Sabendo que Luka buscava por atenção desesperadamente com seus vídeos assustadores, teriam eles (todos que se mobilizaram nessa caçada; e aqui incluo a nós, espectadores) se tornado cúmplices da morte de Jun Lin? Afinal, saber que estava sendo procurado alimentava o jovem a continuar com suas atitudes doentias, buscando mais e mais atenção e reconhecimento.

Diante da polêmica, a Netflix lançou um vídeo com quase dez minutos, no qual explica o motivo de ter produzido Don’t F**k With Cats. A explicação foi feita pelo próprio diretor Mark Lewis. “É uma história de rato e gato, mas acima de tudo, tem algo muito importante a dizer, sobre a internet, sobre a cultura da internet”, relatou o cineasta. Veja o vídeo abaixo.

“Don’t F**k With Cats: Uma Caçada Online” é um documentário que começa com uma premissa diferenciada, e consegue não ser óbvio, reservando boas doses de surpresa no decorrer de sua história. Mas perde ao não saber explorar o gosto amargo que fica na boca ao confrontar o fato de que nós podemos ser tão culpados quanto o próprio assassino nesse caso.

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NERDCOMET AWARDS 2019

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Como imaginado por muita gente mesmo antes do lançamento, Coringa (Joker) superou as expectativas até mesmo dos mais otimistas. O escolhido para encarnar o perturbado inimigo mortal de Batman, não foi ninguém menos que Joaquim Phoenix, conhecido por sua excentricidade em ser extremo quando topa pegar um papel. Mas desta vez não foram exatamente seus atos como vilão que predominaram na trama, Coringa conta como o mítico personagem se fez, numa combinação de problemas mentais patológicos, com a exposição a atos insanos de crueldade vindos de uma sociedade tão doente quanto ele. Até o momento Coringa já levou o Leão de Ouro, prêmio máximo do  76º Festival Internacional de Cinema de Veneza, mas é certeza que a maior agremiação de cinema do mundo também irá distribuir estatuetas do carequinha para o filme. Tendo um orçamento de até modestos US$ 70.000.000, a produção chegou nos US$ 1.062.994.002, fazendo a Warner chorar de felicidade!

Em segundo lugar na nossa pesquisa ficou Vingadores: Ultimato (Avengers: Engame), e Toy Story 4 na terceira posição. Uma coisa é fácil de afirmar, 2019 teve foi filme bom!

 

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Segundo ano de Perdidos no Espaço (Lost in Space) custou a chegar, mas finalmente deu as caras e chegou atropelando tudo! Até mesmo The Witcher no entendimento da gente! Existiram muitas outras boas séries que mereciam ter um espaço aqui, mas devido a não se enquadrarem exatamente na temática ‘nerd’, preferimos usar isso como argumento para enxugar as dezenas de opções. Mas falando do vencedor da categoria, Perdidos no Espaço voltou, e voltou fazendo bonito. Com um início morno, a série vai ganhando gás e desbanca num climax ainda mais empolgante do que sua primeira parte, deixando mais uma vez em aberto a continuidade. O que quer dizer que provavelmente será um outro enorme ano de espera por mais conteúdo.

Em segundo lugar na nossa pesquisa ficou The Witcher, enquanto a série coreana Retaliação (Vagabond) ficou com o bronze. As duas primeiras imagino que quase todos já conhecem, mas dou a dica, se deem a oportunidade de assistir Retaliação, ela está disponível no Netflix.

 

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The Promised Neverland (Yakusoku no Neverland) é um show da arte de se fazer uma boa história, além é claro, de reunir elementos técnicos muito a frente de sua concorrência esse ano. Geralmente são os animes de ação ou de apelo muito dramático os que mais se destacam, então é curioso se ver surpreendido por uma obra de suspense e terror. Seu clima é de atmosfera pesada e tensão total, sendo valorizados por uma ambientação detalhada das coisas, pelas inovações na forma de enquadrar, no dinamismo dos movimentos, e no seu ritmo constante de qualidade ao longo de 12 episódios.

Demon Slayer (Kimetsu no Yaiba) levou a prata, e a mais nova versão do clássico adaptado diversas vezes, Dororo, ficou com o bronze.

 

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O Relógio do Juízo Final (DC), minissérie ainda em andamento que introduz os personagens de Watchmen no mundo DC. E porque esse é um ano para o Watchmen (30 anos da série original, eu acho). Fora que isso, ainda consegue respeitar o conceito visual original, e a linguagem já desenvolvida por Alan Moore.

Em segundo temos Noite de Trevas – Metal (DC), onde Batman investiga o multiverso e se depara com sete versões malignas dele mesmo lideradas pelo deus das trevas conhecido como Barbatos, que planeja desencadear trevas em toda a Terra. Material bem obscuro e que já inspirou a minissérie o Batman Que Ri. Já o terceiro lugar ficou com O Retorno de Wolverine (Marvel)! O cara voltou dos mortos, ressuscitado por uma vilã com nome de deusa grega, Perséfone. Ele pode energizar suas garras e enquanto estava supostamente morto fez uma verdadeira carnificina a serviço de uma organização chamada Soteria.

 

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Nós do NerdComet procuramos manter um certo distanciamento de assuntos políticos ou de opiniões delicadas, mas muito diferente do que dizem por aí, não existe discurso 100% livre de ideologia. Quando alguém vir com essa retórica, pode ter certeza, ele não quer eliminar ideologias, ele quer impor a dele. E é nesse cenário que retrata nossa realidade no Brasil, e porque não, em algumas outras partes do mundo, que se faz necessário mergulharmos nesse assunto nebuloso. Partindo do princípio de quem almeja brigar contra o revisionismo histórico, a desonestidade intelectual, ou mesmo tirar da inércia aqueles que se colocam ingenuamente como massa de manobra, surge o livro Tudo o que você precisou desaprender para virar um idiota, da dupla do canal do YouTube Meteoro Brasil. Obviamente se você for minimamente antenado, saberá a qual outro livro este que vos digo faz paródia em seu título. O Brasil não é para amadores, e se você sobreviveu a esse 2019, parabéns!

Como compromisso civilizatório, pois você pode não ter notado ainda, mas nossa situação realmente é grave, escolhemos como segundo lugar Escravidão, de Laurentino Gomes, e em terceiro Sobre o Autoritarismo Brasileiro, de Lilia M. Schwarcz.

 

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O sangrento Período Sengoku do Japão serve de cenário para Sekiro: Shadows Die Twice, jogo que traz a essência soulslike de uma forma mais madura que suas inspirações, ao mesmo tempo que mostra mecânicas originais e identidade própria. Desenvolvido pela FromSoftware e distribuído pela Activision, o game chegou em março para o PlayStation 4, Xbox One e PC, e de lá para cá veio arrecadando uma legião de fãs. Sua beleza estética aliada a sua dificuldade empolgante, fez deste uma evolução natural de jogos como o renomado Dark Souls. Sekiro: Shadows Die Twice já recebeu o título de Jogo do Ano no The Game Awards 2019 que ocorreu em Los Angeles, e aqui no NerdComet a escolha não é diferente.

Control é outro jogo maravilhoso que não poderia ficar de fora, e leva o segundo lugar na nossa premiação, enquanto Resident Evil 2 Remake fica com o bronze.

 

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Se tem uma coisa foi comentada sem parar, e ainda estão comentando desde que O Mandaloriano saiu, é o equivocado Bebê Yoda. Qual motivo de ser equivocado? Ele não é o Yoda, ora essa! O próprio CEO da Disney, Bob Iger, diz que pequeno Gremlim tem um nome, ao mesmo tempo que não o revela. Na série, por enquanto, ele é retratado apenas como “A Criança”. Na prática isso não faz a mínima diferença, o que a Waldisney mais quer neste momento ela já está tendo, atenção máxima para seu novo personagem qual vai encher os cofres com vendas de todo tipo de brinquedos. Enquanto isso vamos espalhando memes e mais memes do parente genético do Yoda, e nos estressando. Sim, eu estou me estressando com esse boneco orelhudo. Não aguento mais!

Em segundo lugar temos o frustrante Stadia da Google, que prometeu mudar a forma de se jogar, e no fim das contas mostrou-se uma plataforma bem instável. Vai melhorar? Não sei, mas com o hype que a Google fez, deveriam ter caprichado mais nos testes antes de trazer para o grande público. Por enquanto está sendo tão bom quanto o Google Glass foi. Já em terceiro lugar temos a tão esperada conclusão da franquia Star Wars, que se iniciou a mais de 40 anos atrás. Por mais que Star Wars: Episódio IX – A Ascensão Skywalker não tenha enchido tanto nossos olhos como gostaríamos, ainda assim é um importante marco para o mundo nerd, e um provável novo início de ciclo.

 

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Aparecida Mota, Bianca Ben, Carlos Magno “Coxa”, Cláudio Almeida, Dan Pereira, Daniel Castro, Daniel Santos, Débora Sales, Felipe Pires, Flávio W. S. Lins, Graciela M. Lopes, Gustavo Henry Gabriel, Isaias Sales, João Paulo Oliveira, Julianna Sant’Ana, Júlio Cesar, Kylo Ren, Leandro Araújo, Leandro “Alucard”, Marco Lima, Maria Luíza, Maurício “Vash The Stampede”, Milena Sousa, Moisés Marques, Neto Novais, Rafael Cavalcanti, Regina Rodrigues, Rosangela Rodrigues, Simba, Pablo, Victor Silva, Wanderson, e você, que participou acompanhando nossas postagens durante todo esse primeiro ano de existência.

THE WITCHER – SÉRIE DA NETFLIX (CRÍTICA)

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SINOPSE
Não importa em que mundo você esteja, ele sempre será bastante perverso com o diferente ou com o que não compreende. E num lugar assim, como qualquer outro, que Geralt de Rívia vive, um caçador de monstros que vaga solitariamente buscando conhecer a si mesmo para encontrar seu lugar num mundo onde as pessoas podem ser muito mais cruéis que as mais terríveis bestas que enfrenta. Seu destino o leva a conhecer Yennefer de Vengerberg, uma poderosa feiticeira e, Cirilla Fiona Elen Riannon, uma jovem princesa sobrevivente de uma chacina, e detentora de um perigoso segredo. Juntos esse incomum trio precisa aprender a conviver e caminhar por este inóspito continente habitado por todo tipo de perigosas criaturas.

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COMENTÁRIOS
Aguardadíssimo por uma legião de fãs, mais da série de jogos eletrônicos do que dos livros originais de Andrzej Sapkowski, The Witcher chegou arrebentando tudo na Netflix nesse finzinho de 2019. Muito diferente do que alguns jornalistas do ramo vinham alimentando como ideia, a série em nada tem métrica para se comparar a Game of Thrones. Os conceitos são diferentes, a linguagem é outra, e o público alvo não exatamente é compatível. Enquanto a obra de George R. R. Martin aborda de forma pesada os conflitos pelo poder, quase como num House of Cards, The Witcher está mais preocupado (ao menos nesta primeira temporada) em trazer uma aventura fantástica num ambiente onde a politização tem outra natureza. Racismo e atritos entre diferenças sociais são os elementos mais comuns, e nesse canário vamos compreendendo o alinhamento moral de Geralt, herói desta história.

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Um dos principais méritos de The Witcher são suas imponentes tomadas de lutas coreografadas, geralmente em grandes planos sequências, sincronia impecável, velocidade, e muito vigor, mostrando o altíssimo nível de dedicação de Henry Cavill aos treinos para o papel. Todo os conceitos, que até então eram graficamente exclusivo dos jogos The Witcher, foram acolhidos e muito bem explorados pela equipe de design artístico. Trazendo belíssimas e convincentes paisagens digitalizadas e, uma elaboração bastante realista de grandes salões de castelos, calabouços, e vielas detalhadas de reinados de todos os tamanhos e tipos. A produção é muito bonita e confortável, com uma saturação sóbria que contribui bem para a atmosfera de mistério por trás de um universo que se revela aos pouquinhos. Aqui não existem grandes linhas de diálogos para te inserir artificialmente na ‘main story’, você terá de ter paciência e atenção para entender onde o roteiro quer te levar. O universo de The Witcher é vasto e muito rico em detalhes, não devendo em nada aos contos de Tolkien, ou mesmo a George R. R. Martin. Sua linguagem não é das mais simples, e ao mesmo tempo que acelera com vigor em momentos de ação, também traz alguns grandes e inconsistentes intervalos de tempo entre eles. O que no meu ver não é motivo algum para qualquer coisa ser taxada como bom ou ruim, neste caso considero o roteiro sendo o que é, já que ele não almeja ser obrigado a manter um dinamismo artificial.

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Vou ser franco aqui, eu conheço consideravelmente os games da franquia, mas não sou um exato fã. Não me identifico muito com a mecânica de RPG mais voltada para ação hack ‘n slash, fui doutrinado a viver em cativeiro com jRPG’s baseados em turno que as vezes duram centenas de horas, mas reconheço a grandeza que é The Witcher, e o quanto sua fanbase estava ansiosa pela série. E de forma mais do que merecida eu preciso parabenizar a comunidade de adeptos pela qualidade do presente de natal que receberam, e The Witcher é simplesmente fantástico! Não encontrei pontos para dizer o que poderia ser melhor, e imagino que essa será uma produção que ficará marcada como uma excelente adaptação de jogo para a TV. E sim, eu sei que existe o livro, mas é indiscutível que o que fez The Witcher ser o que é hoje, foi o estrondoso sucesso da CD Projekt RED em 2007.

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ELENCO E FICHA TÉCNICA
Henry Cavill, Freya Allan, Anya Chalotra, Jodhi May, Björn Hlynur Haraldsson, Adam Levy, MyAnna Buring, Mimi Ndiweni, Therica Wilson-Read e Emma Appleton. Adaptado por Lauren Schmidt Hissrich, que se baseia na saga literária Wiedźmin (2011~2019) de contos e romances de fantasia do polonês Andrzej Sapkowski, a série The Witcher original da Netflix estreou no dia 20 de dezembro de 2019. A superprodução coproduzida nos Estados Unidos, Hungria e Polônia, é dirigida na parceria de Tomasz Bagiński e Alik Sakharov, e tem como produtores executivos Sean Daniel, Jason Brown, Tomasz Bagiński (também diretor), Jarosław Sawko, e a própria roteirista Lauren Schmidt Hissrich. A primeira temporada possui um total de 8 episódios, com cerca de 60 minutos de duração cada.

CONCLUSÃO
Seja você um fã dos jogos, consumidor dos contos originais de Andrzej Sapkowski, ou mesmo os dois, não importa, eu tenho certeza que ficará bastante satisfeito com essa adaptação muito respeitosa de The Witcher. Diferente de Game of Thrones, a pegada aqui é outra, temos um cenário de conflitos e problemas sociais, onde um herói e duas outras personagens ascendem em suas histórias pessoais até o instante onde o destino os unirá. Não, isso não é spoiler, está na própria sinopse oficial, que é até tímida na retratação do plot. Essa aventura dramática de fantasia medieval tem potencial de agradar qualquer tipo de público. Embora seu enredo inicial exija uma atenção dedicada para não se perder, sua fluidez permite uma fácil assimilação. Curte aventura de fantasia medieval e estava procurando o que assistir? The Witcher é obrigatório para você! Classificado como recomendado para maiores de 16 anos, a série está disponível oficialmente no serviço por assinatura Netflix.

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O ESCOLHIDO – SÉRIE DA NETFLIX (CRÍTICA)

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SINOPSE
ATENÇÃO:
Irei me basear pelas impressões da primeira temporada, então esta resenha é destinada ao público iniciante na série.

Lúcia, Enzo e Damião são médicos enviados para Águazul, um vilarejo remoto no Pantanal Matogrossense para vacinar os moradores contra uma nova mutação do virus da zika. Chegando no lugar o trio é hostilizado pela população, que rejeita violentamente a presença não só deles, mas de qualquer profissional de saúde. Todos os moradores seguem uma obscura seita, onde alguém, ou alguma coisa, conhecida como Escolhido, dita todas as regras. Decididos em cumprir suas tarefas de vacinar toda aquela pessoas, os três precisarão enfrentar coisas mistérios inimagináveis.

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COMENTÁRIOS
Atraído por um curioso trailer decidi dar uma chance ao O Escolhido (Para exportação: The Chosen One), série tupiniquim com uma abordagem bem diferente do que estamos acostumados nos produtos nacionais. A produção se trata de uma adaptação da série mexicana Niño Santo (2011), criada por Mauricio Katz e Pedro Peirano. Apresentando um drama com altas doses de suspense paranormal, somos obrigados a nos acostumar com seu tenebroso ponto fraco, as fraquíssimas atuações, e passamos a focar no que realmente é interessante, sua trama. Não que este último faça o roteiro ser uma obra prima, mas seu plot inicial é bastante intrigante para nos prender a atenção. Mas retomo um pouco mais a conversa para as atuações, e recobro que ela não é de toda ruim. São muitos os personagens de O Escolhido, e ironicamente são os principais os que se mostram menos íntimos dos holofotes. Em certos momentos até rola um bom entrosamento entre os três, mas não precisam muitas linhas de diálogo para coisa desabar na artificialidade, parecendo ter sido escrito por quem não tem mesmo o tino pra coisa. E para completar a estranheza, os personagens secundários são bem melhor interpretados, com desenvolvimentos interessantes e bastante convincentes.

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A série conta com apenas seis episódios na primeira temporada, e para mim, mesmo sendo algo curto, foi complicado manter o interesse. O que eu falei sobre ignorar as más atuações e se entregar à trama, acaba não se sustentando por muito tempo. Quando você está envolvido o suficiente, surge um anticlímax pesado, fruto de um interpretação catastrófica, que te faz ter vontade de voar no ator para exigir que ele faça seu trabalho direito. Foram apenas quatro as atuações que me convenceram, e que infelizmente não eram o suficiente para sustentar a qualidade. Mariano Mattos Martins como Mateus, Renan Tenca como ‘O Escolhido’, Lourinelson Vladmir como Santiago, e Francisco Gaspar, como o homem simples Silvino, foram os que deram alguma sobrevida para a série. Mas os três principais atores, pelo menos neste trabalho, definitivamente não foram nada felizes. Considero uma pena o resultado final, e fiquei até curioso em assistir Niño Santo (2011), já que o plot original me pareceu bem bacana.

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ELENCO E FICHA TÉCNICA
Paloma Bernardi, Pedro Caetano, Gutto Szuster, Renan Tenca, Mariano Mattos Martins, Alli Willow, Tuna Dwek, Francisco Gaspar, Lourinelson Vladmir, Kiko Vianello, Bruna Anauate, Alexandre Paro, Cintia Rosa, Paulo Azevedo, Laerte Késsimos, Paulo Marcello, Fafá Rennó, Tsupto Xavante, Tião D’Ávila, Maria do Carmo Soares, Fernando Teixeira, Adriano Paixão, Cesar Pezzuoli, Ana Nero, Cesar Pezzuoli, João Carlos Andreazza, Laura Chevi, MC Choice, Brian Castro, Astrea Lucena e Aury Porto compõem o elenco. Adaptado da série mexicana Niño Santo (2011) por Raphael Draccon e Carolina Munhóz para o mercado nacional, a série O Escolhido de 2019 é dirigida por Michel Tikhomiroff, e é produzida pelo estúdio Mixer Films sob a produção executiva dos próprios roteiristas Raphael Draccon e Carolina Munhóz, em parceria com Lanna Marcondes. A produção original distribuída pela Netflix, hoje conta com duas temporadas de seis episódios cada.

CONCLUSÃO
Com um roteiro bastante interessante, O Escolhido é capaz de prender nossa atenção ao menos nos seus dois primeiros episódios, mas creio que dificilmente alguém não vá torcer o nariz e começar a se sentir ainda mais incomodado pelas atuações pouco convincentes. Alguns atores estão muito bem, enfatizando o próprio ‘Escolhido’, que cria um personagem de psicológico complexo que nos gera uma confusão agradável sobre qual é seu real alinhamento moral, no entanto o trio principal parece completamente perdido, fazendo a série descer ladeira a baixo em qualidade. Agora estou curiosos para assistir Niño Santo (2011), já que a O Escolhido ofereceu uma bala doce por fora, mas bem amarga por dentro. A série é recomenda para maiores de 16 anos, e está disponível com suas duas atuais temporadas no serviço por assinatura Netflix.

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NINGUÉM TÁ OLHANDO – SÉRIE DA NETFLIX (CRÍTICA)

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SINOPSE
As pessoas não estão tão abandonadas assim, escondido num plano invisível existe o Sistema Angelus de Proteção aos Humanos, uma grande rede que se espalha pelo mundo inteiro. No 5511º Distrito um novo membro chegava, era Ulisses, um angelus muito questionador, e que diferente de todos os outros, contestava pontualmente cada uma das regras. Após receber a Ordem do Dia enviada pelo Chefe, um angelus deve se dirigir ao seu protegido para acompanhá-lo por todo expediente, enquanto o livra dos perigos sem ser notado. Ao fim do período trabalhado, o angelus deve fazer seu relatório e entregar ao supervisor para que o mesmo seja arquivado. Ulisses entendia o processo mas não conseguia controlar seus impulsos, decidia por si só ajudar os humanos que sentia realmente estar precisando de socorro. Sempre bem intencionado, mas ainda assim quebrando sequências de tradições milenares, Ulisses começava a alterar muito mais a ordem das coisas do que imaginava ser capaz.

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COMENTÁRIOS
Simplesmente por ser uma produção brasileira, muita gente já fica pé atrás. “Ah, vai ser mais uma produçãozinha com cara de novela das nove.” Aí que você se engana, Ninguém Tá Olhando (Para exportação: Nobody’s Looking) possui uma estética, tanto visual quanto de linguagem, muito peculiar. Com um humor ácido e bastante inteligente, arranca gargalhadas até mesmo em situações dramáticas apenas por seus cenários criados absurdos. Ulisses que é interpretado por Victor Lamoglia, é engraçadíssimo nos seus atos atrapalhados e nas expressões quando descobre mais uma vez ter feito besteira. E admito ter me surpreendido muito, quando noto Kéfera Buchmann fazendo um excelente trabalho como atriz. De verdade, eu não consumo o trabalho dela, e o pouco o que eu imaginava era sim baseado apenas em preconceitos dos estereótipos formados pela youtuber teen. Quebrei a cara, e gostei bastante disso.

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Esquetes, stand-up comedy, sitcom, enfim, nada muito focado assim na comédia prende muito minha atenção. Pelo menos não por muito tempo.  Mas assistindo ao trailer de Ninguém Tá Olhando na própria Netflix, senti que aquela ideia tinha um potencial muito bom. Marquei o interesse de assistir quando a série estivesse liberada, e percebendo que eram apenas oito episódios de poucos minutos, decidi conferir. E foi uma experiência sensacional! Excelentes atuações num roteiro muito bem elaborado, e uma produção bem bacana. Com direito a computação gráfica de qualidade e tudo mais! Te dou uma dica, caso ainda esteja de nariz torcido, abandone o preconceito e dê oportunidades a coisas diferentes do que está acostumado a consumir. O único risco é o de você gostar bastante e precisar ocultar de seus amigos trevosinhos que curtiu uma parada brasileira onde estrelam aquela celebridades que todo mundo curte zoar. E o pior, na maioria das vezes pelo mesmo motivo, imaturidade e preconceito besta. Deixei o trailer aí para que dê uma conferida, e gostaria de saber sua opinião nos comentários. Fechado?

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ELENCO E FICHA TÉCNICA
Victor Lamoglia, Kéfera Buchmann, Júlia Rabello, Projota, Danilo de Moura, Augusto Madeira, Leandro Ramos e Telma Souza compõem o elenco. Criada pro Daniel Rezende, Carolina Markowicz, Teodoro Poppovic, Ninguém Tá Olhando é uma série do gênero sitcom lançada exclusivamente para o serviço por assinatura Netflix no fim de 2019. A direção ficou a cargo de Daniel Rezende, diretor também de Turma da Mônica: Laços (2019), conhecido por sua participação em grandes sucessos brasileiros como Cidade de Deus (2002), Tropa de Elite (2007), e até mesmo o estadunidense Robocop (2014) atuando como editor de José Padilha.

CONCLUSÃO
Juntando a galera do Porta dos Fundos, Parafernalha, Julinho da Van, outros bons comediantes, e até mesmo o compositor Projota, Ninguém Tá Vendo foi uma aposta acertadíssima de seus idealizadores! Seu humor é inteligente, original e absolutamente nada pedante. Os diálogos fluem com naturalidade e as situações mais absurdas possíveis arrancariam risadas até mesmo do Chef Érick Jacquin. Pode perguntar pra ele. O sitcom está disponível na Netflix tendo apenas oito episódios de uns vinte minutos cada, e certamente terá uma segunda temporada, já que a história ficou em aberto. Sua classificação etária é de 16 anos, então tire as crianças da sala porque rolam alguns palavrões e pagações de peitinho. Estava sem nada para assistir, então cai dentro desta série que é garantia de sucesso no fim de semana.

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BOHEMIAN RHAPSODY (CRÍTICA)

 

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SINOPSE
Brian May, Roger Taylor e Tim Staffell formavam o Smile, uma boa banda londrina mas sem muita identidade. Só que as coisas tomaram rumos inimagináveis quando o atirado Freddie Mercury ofereceu sua única e potente voz para o grupo. Tim Staffell sai, e junto de Freddie, John Deacon entra para assumir o baixo. Nascia assim o Queen, uma das maiores e mais importantes bandas de todos os tempos! Junto da fama também veio muito luxo e portas abertas, e as coisas começam a sair do controle quando o estilo de vida extravagante de Freddie passa a afetar a rotina do grupo.

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COMENTÁRIOS
Sendo centralizado pela ótica de Freddie Mercury, Bohemian Rhapsody traz uma certa polêmica. Assim como eu, acredito que muitas pessoas se perguntaram se aqueles triviais eventos comportamentais foram honestamente bem retratados no drama. Te seria justo que uma briga entre você e um amigo fosse contada apenas pela versão dele? É, Freddie Mercury não estava aqui para palpitar no roteiro. Mas deixemos a treta de lado e vamos ficar com a licença poética da coisa, afinal, a história não foi tão cruel assim com o músico. Vamos ao que importa, dissecar um pouquinho este fabuloso filme.

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Bohemian Rhapsody é simplesmente fantástico! Esteticamente bonito e bem roteirizado, possui duas coisas importantíssimas e que empatam no meu entendimento, uma é a qualidade absurda da edição de som, e outra a atuação brilhante de Rami Malek. O verdadeiro Freddie era levemente mais parrudo, mas é impossível não aceitar a verdade do personagem retratado. Malek literalmente incorporou Freddie, demonstrando todos os seu trejeitos e expressões. É possível sentir a dedicação do ator com o trabalho que topou fazer, e tanto esforço lhe garantiu merecidamente uma estatueta do Óscar. Em pensar que o papel quase ficou para Sacha Baron Cohen, o caricato Borat. Tudo em Bohemian Rhapsody é ousado, o filme não se trata de um musicas e muito menos um documentário, mas consegue um sucesso incrível do roteiro por incorporar muito bem as duas coisas. A trilha sonora, seu principal elemento, é brutal e seleciona os melhores hits da banda. Somebody to Love, Keep Yourself Alive, Now I’m Here, Killer Queen, Don’t Stop Me Now, e obviamente We Will Rock You e Bohemian Rhapsody são só algumas das músicas do filme.

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UM POUCO DA HISTÓRIA DE FREDDIE
Demonstrando desde muito cedo ter tino para arte, Freddie com apenas oito anos já se interessava pela música de Lata Mangeshkar, uma cantora e compositora indiana que naquele momento era sua maior inspiração. Aos doze montou uma banda, The Hectics, e mesmo com um invejável talento, era alvo do bullying das crianças da sua idade por causa de sua personalidade afeminada. Freddie então se recolheu na própria realidade, se tornando uma pessoa bastante introspectiva e tímida com os desconhecidos. Aos dezessete Freddie se mudou para Londres com sua família, fugindo dos perigos da Revolução Civil de Zanzibar em 1964. Se graduou como designer gráfico numa escola politécnica, e no início da vida adulta foi trabalhar como vendedor em uma loja de roupas, fato esse alterado no roteiro de Bohemian Rhapsody. De qualquer forma foi lá que conheceu Mary Austin, aquela que se tornara sua namorada e fiel amiga por toda vida.

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Freddie integrou algumas bandas, o Wreckage que não durou muito, e depois o grupo Sour Milk Sea. Mas foi em abril de 1970 que Freddie se junto ao Smile, banda do guitarrista Brian May e do baterista Roger Taylor, época em que Freddie, apelidado assim por seus na infância, adotou a alcunha de Mercury, baseado na letra de uma de suas primeiras canções. Farrokh Bulsara, era esse o nome de batismo do proeminente astro do rock, e claro, Smile era bacana mas não soava tão bem ao ponto de combinar com a imponência de um Freddie Mercury, então porque não trocarmos para algo mais glamouroso? Queen pareceu ótimo! Uma coisa precisa ser contada, nada da infância de Freddie é retratada em Bohemian Rhapsody. Na realidade o filme inicia no momento onde o Smile estava em decadência, e Freddie chegou para se unir ao grupo. Então porque eu contar tudo isso? Bem, o longa não é um documentário, mas pedaço da jornada de um personagem complexo que merece ter sua personalidade minimamente explicada. E tanto seu trajeto com o Queen quanto seu passado anterior à banda, tem iguais importâncias para quem queira tirar o máximo proveito do filme.

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ELENCO E FICHA TÉCNICA
Rami Malek, Ben Hardy, Gwilym Lee, Joseph Mazzello, Allen Leech, Lucy Boynton, Mike Myers, Aaron McCusker, Aidan Gillen, Tom Hollander, Dermot Murphy, Meneka Das, Ace Bhatti, Dickie Beau, Neil Fox-Roberts, Philip Andrew e Matthew Houston compõem o elenco. Bohemian Rhapsody foi dirigido por Bryan Singer e Dexter Fletcher, esse último que não é creditado no filme. O roteiro ficou a cargo de Anthony McCarten, e foi produzido por Graham King e Jim Beach. Esse é praticamente um filme musical, portanto é importante dizer que as músicas e edições sonoras ficaram na conta de John Ottman. O longa foi distribuído pela 20th Century Fox, e teve um orçamento de 52 milhões de dólares, com uma receita final de mais de 900 milhões.

CONCLUSÃO
Bohemian Rhapsody conta o trajeto da vida de Freddie Mercury ao ingressar naquela que se tornaria uma das maiores e influentes bandas de rock do mundo. Sempre eclética, o Queen fez nascer com a voz de Freddie, músicas que agradavam todas as idades e classes sociais. Não é segredo para ninguém, Freddie Mercury morreu devido a complicações causadas pelo vírus da AIDS, mas sua força de vontade aliada à sua influência, o tornou no maior símbolo do mundo de elucidação da doença. Mas Bohemian Rhapsody não é apenas isso, ele tem seus dramas e conflitos, mas em essência é um filme muito divertido e empolgante que deve ser visto numa reunião de família. We Will Rock You!

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NÓS SOMOS A ONDA – SÉRIE DA NETFLIX (CRÍTICA)

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SINOPSE
Tristan é o novo garoto a ingressar numa escola, e logo de cara atrai a curiosidade de outros alunos, afinal, sua forma de falar e agir era bem diferente das pessoas daquele ambiente. Convenções sociais era algo que ele não dava a mínima, em contrapartida não aceitava ver pessoas sofrendo bullying e não tomar partido. E de que forma você acha que ele fazia isso? Acredite, das formas mais inusitadas possíveis! Tristan não tarda em cativar amigos na classe, e eles não são muitos.. na realidade apenas quatro. Lea, uma patricinha que tem um insight realmente libertador, e mais outros três desajustados com problemas sociais distintos, Zazie, Hagen e Rahim, este último um rapaz árabe. O grupo nada ortodoxo de adolescente mostra um sentimento em comum, a raiva pelos rumos que a sociedade vem tomando. O descaso com o meio ambiente, as políticas sociais injustas, e a até mesmo os movimentos neonazistas da vizinhança pesavam na consciência deles. Mas e aí, até com quanto de força se pode bater no establishment?

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COMENTÁRIOS
Nós Somos a Onda (Alemão: Wir sind die Welle / Inglês: We are the Wave) é uma série de televisão alemã que acompanha o drama de um grupo de adolescentes, jovens de origens e classes sociais diferentes que compartilham um mesmo ideal, o de um futuro melhor. Em essência essa é sua premissa, e para darmos continuidade é necessário termos em mente que essa produção tem seu exato público alvo. Harry Potter por exemplo é para o público infantojuvenil, no entanto qualquer adulto é capaz de assistir sem entrar no mérito da maturidade de seu conteúdo. E esse é um conflito no qual entramos e somos expelidos algumas vezes nesta série alemã supostamente adolescente. Inicialmente eu tive uma sensação quase frustrante de estar assistindo algo completamente destinado ao público teen, porém os personagens se desenvolvem e expõem um background maduro o suficiente para interromper esse entendimento. Só que isso é um processo lento, precisando pelo menos alcançar a metade dos seus seis episódios para ser descoberto. O que me leva a impressão que muita gente vai abandonar o barco antes de chegar ao destino.

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Aí eu sou obrigado a voltar na afirmação de que esta série tem seu público alvo. E qual seria ele então? Obrigatoriamente sua audiência precisa ser paciente, ter apreço por um ativismo visualmente anárquico (que se desenvolve à frente (e isso não é spoiler)) e, obviamente não se incomodar com o combate ao conservadorismo (que aqui evolui para um literal fascismo (e isso também não é spoiler)). Quem se enquadra nisso? Bem, eu acho que qualquer pessoa verdadeiramente desconstruída. E já que joguei a semente, então eu explico. Ser alguém desconstruído é você ser tão seguro de si, num ponto onde não se incomoda mais com as diferenças dos outros, e nem mesmo em se expor à julgamentos. Não é o caso de não se importar com nada ou com os outros, mas se importar com o que realmente faz sentido. De que melhor maneira, você, um homem, provoca um outro homem, tão inseguro de si, que maltrata pessoas por sua cor, por seu gênero ou sua etnia, do que lhe dando um beijo na boca? Lhe dando um soco? Não, uma pessoa desconstruída usa a criatividade e tem a ousadia de fazê-lo sem medo de ser julgado. Afinal, para um homem desconstruído o ato de beijar um outro homem não o torna menos viril, mas para um oponente inseguro, este é o maior nocaute que se pode dar. E é exatamente com esse ato que o personagem principal de Nós Somos a Onda mostra o que a série reserva.

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ELENCO E FICHA TÉCNICA
Ludwig Simon, Luise Befort, Michelle Barthel, Daniel Friedl, Mohamed Issa, Milena Tscharntke, Leon Seidel, Bela Lenz, Robert Schupp, Stephan Grossmann, Kristin Hunold, Sarah Mahita, Luis Pintsch, Bianca Hein, Christian Erdmann, Jascha Baum, Nicole Johannhanwahr, Stefan Lampadius, Livia Matthes, Daniel Faust e Leander Paul Gerdes compõem o elenco. Dirigida por Anca Miruna Lăzărescu e Mark Monheim, Nós Somos a Onda de 2019, é uma série dramática que se baseia na novela The Wave de Morton Rhue. A adaptação é compartilhada entre os roteirista Jan Berger, Ipek Zübert, Kai Hafemeister, Thorsten Wettcke e Christine Heinlein. Produzida por Christian Becker e Dennis Gansel, a série fez uso dos estúdios da Rat Pack Filmproduktion e da Sony Pictures Film und Fernseh Produktion. A série chegou ao Brasil sob o selo Netflix.

CONCLUSÃO
Brigar contra o sistema na intenção de fazer do futuro um lugar melhor. E qual melhor época para se fazer isso do que a adolescência? Período onde construímos nossos conceitos morais e temos disposição para seguir os ideais mais ambiciosos. Em Nós Somos a Onda temos um grupo que se encaixa exatamente nisso, e liderados por um rapaz extremamente inteligente e bem intencionado, se veem no clássico dilema de nem sempre saberem ao certo se os fins justificam os meios. Bem, se quer saber que rumos essa história toma, dê aquela conferida. A série é bem curta, contendo apenas seis episódios de uns cinquenta minutos cada. Recomendada para maiores de dezesseis anos, a série tem o selo Netflix e já pode ser encontrada em seu catálogo.

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O DATE PERFEITO – FILME DA NETFLIX (CRÍTICA)

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SINOPSE
A maior ambição na vida de Brooks é ter sucesso no seu ingresso em Yale, uma das melhores universidade dos Estados Unidos. E após a brincadeira de um amigo, o jovem bem educado e despojado, decide criar um aplicativo de namoro de aluguel para faturar uma grana, assim podendo financiar seus estudos. O serviço é personalizado, isso quer dizer que Brooks assume a personalidade que a cliente quiser. Então se alguém precisar causar ciúmes no ex-namorado, ele estará lá. A necessidade é de um entusiasta que lhe acompanhe numa elitizada mostra de arte? É só escrever no pedido, e pronto! Inteligente, espirituoso e bonitão, logo progride em seu empreendimento, porém viver essa vida sem uma identidade própria, lhe faz perceber quais são realmente importantes as coisas na vida.

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COMENTÁRIOS
Eu adoro distopias de ficção científica, suspenses com tramas complexas, dramas de guerra, thrillers com bastante ação, épicos sanguinolentos, e veja você, também curto filmes de comédia romântica que as vezes inicia de forma diferente, mas sempre acaba da mesmíssima forma clichê. Daqueles que logo de cara você já sabe com quem fulano irá terminar junto. Deixe-me explicar, afinal, já que estou me expondo revelando algo que a maioria dos machos alfas levariam para o túmulo, deem-me ao menos a oportunidade de justificar. Eu odeio do fundo do meu âmago (não sei nem onde fica isso) dramas românticos melosos, romances formais almofadinhas (esses estão em extinção, oh glória), e aquelas comédias infantiloides de paixonite adolescente. Tem coisas que realmente não dá! No entanto, não compreendo a razão,  mas acho divertido as histórias de situações onde alguém com algum complexo existencial precisa se superar. Vide uma comédia na qual um maluco é obcecado para entrar em uma universidade, não tem grana pra isso, usa seu poder de seduzência para tal, acaba se enrolando com quem menos imaginaria, e nós, do lado de fora da tela, tínhamos absoluta certeza de quem seria. E vamos ser sinceros, nenhum destes filmes tenciona ocultar isso, é uma convenção que faz parte, até sendo obrigatória para o gênero. Ótimo, consegui explicar a base. Só que isso por si só não basta, ele ainda assim precisa ser um filme inteligente. Como assistindo qualquer outro gênero, eu não quero ser tratado como idiota pelo roteiro. Prezo muito pela qualidade dos diálogos e na coerência dos mesmos. Comédia no meu gosto se trata de um besteirol assumido como Monty Python, ou um humor inteligente com piadas honestas. E O Date Perfeito (The Perfect Date), filme que eu não dava absolutamente nada, e só decidi conferir porque descobri ser um dos mais vistos na Netflix, é exatamente isso!

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ELENCO E FICHA TÉCNICA
Noah Centineo, Laura Marano, Odiseas Georgiadis, Camila Mendes, Matt Walsh, Joe Chrest, Carrie Lazar, Alex Biglane, Blaine Kern III, Zak Steiner, Ty Parker e Wayne Péré compõem o elenco. Dirigido por Chris Nelson, a comédia romântica adolescente de 2019, é baseada na obra The Stand-In de Steve Bloom, que teve adaptação feita pelo próprio Bloom em parceria com Randall Green. A produção norte-americana é de Matt Kaplan e John Tomko, sob os selos dos estúdios Ace Entertainment e AwesomenessFilms. O Date Perfeito é um produto original Netflix, e já está disponível em seu catálogo.

CONCLUSÃO
Se estruturando bastante nas comédias românticas da década de oitenta, O Date Perfeito é uma comédia inteligente e divertida. Não espere um romance adolescente bobo como seu título insinua ser, aqui teremos piadas ácidas, e tiradas bastante inesperadas. A fórmula é aquela clássica, tem mais de trinta e lembra de Namorada de Aluguel (1987) que repetiu centenas de vezes na Sessão da Tarde? Ou seja, na prática é sim um filme romântico, mas daqueles que a gente assiste escondido dos amigos para não admitir que gostou. E olha que quem está falando é um homem hétero que tem John Rambo como inspiração! Quem me conhece sabe o quanto não aceito brincadeiras quanto minha sexualidade, afinal, tenho algumas cuecas vermelhas e rosas sim, e daí?! Enfim, deixe o preconceito bobo de lado, convide seus amigos de infância do colégio, e assistam juntos essa bela história de amor de um rapaz por uma rapariga. E claro, deixe lenços disponíveis para que limpem o suor de suas vistas. Com classificação etária de 12 anos, O Date Perfeito está disponível no serviço por assinatura Netflix.

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CONTATO VISCERAL – FILME DA NETFLIX (CRÍTICA)

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SINOPSE
Will cobria um dos turnos num bar de cidade pequena onde as mesmas figuras carimbadas de sempre se reuniam, porém certa noite um público diferente do cotidiano apareceu. Eram quatro adolescentes que o barman decidiu fazer vista grossa, afinal, pareciam decentes e só queriam tomar umas cervejas. E em meio aos flertes velados de Will à Alicia, que estava acompanhada do novo namorado, uma briga violenta se iniciou entre quem jogava sinuca. Eric, um brutamontes encrenqueiro já conhecido, contra um tal de Marvin, um gigante marombado. A quebradeira foi feia, e um dos garotos que estava lá começou a gravar com o celular, quando Eric foi ferido gravemente no rosto por uma garrafa quebrada. As pessoas conseguiram separar os dois antes que algo pior acontecesse, e com a chamada da polícia, todos fugiram com medo de se meter em mais encrenca. Will olhando o estrago em seu bar nota que o telefone de um dos garotos caiu durante a confusão, e disposto a entregar, coloca no bolso. Chegado em casa, procura uma maneira de desbloquear a tela do aparelho, e tem a ideia de tentar ver o desenho que a marcas de dedo teriam feito. Will responde a mensagem de alguém para aquele celular, se identifica como sendo o barman e que no dia seguinte deveriam ir no bar buscar o objeto perdido. Mas a conversa não para por aí, mensagens e fotos cada vez mais estranhas começam a chegar, desencadeando uma série de situações bizarras.

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COMENTÁRIOS
Não sei como iniciar uma crítica sobre esse filme omitindo tê-lo detestado! Primeiramente ele se vende como um terror, e assim como em Midsommar (2019), outro filme do gênero do mesmo diretor, usa como base o relacionamento conturbado de um casal. Mas diferente do qual eu citei, Contato Visceral (Wounds), não tem nada de assustador ou mesmo aquela estranheza que causa desconforto. O filme com ar de drama em boa parte do seu tempo, acompanha os passos de um homem que vai se revelando cada vez mais problemático, mostrando sua infidelidade, seus vícios, e porque não colocar assim, sua chatura. Will tenta ser engraçado mas não é, e nem essa tentativa de ser, tem alguma graça. Sua esposa não é muito diferente, sempre desconfiada e certamente insatisfeita com o marido, Carrie é colocada em segundo plano na trama. Serve exclusivamente como âncora para embasar o entendimento de Will ser um completo mau-caráter, e é cansativa a artificialidade da comunicação entre os dois. Logo no início do filme, numa situação onde o casal discute sobre a procedência daquele celular, ele simplesmente trava como se admitisse culpa por algo que não fez. E essa incoerência é o que mais incomoda na trama. Quanto ao terror, ele tenta ser algo mais metafórico. E não me levem à mal, essa conversa típica de que se você não entendeu o simbolismo da obra é porque não entrou no clima, ou não teve intelecto para tanto definitivamente não funciona para mim. Basicamente eu vi um filme lento, enfadonho, que o vilão não passava de baratas que se multiplicavam, e o herói deveria ser um dedetizador! Quanto ao seu final, nossa, prefiro nem fazer comentários. Enfim, ainda vale a regra de ouro, você não precisa concordar comigo e nem deve, assista você mesmo e tire suas conclusões.

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ELENCO E FICHA TÉCNICA
Armie Hammer, Dakota Johnson, Zazie Beetz, Karl Glusman, Brad William Henke, Jim Klock, Luke Hawx, Kerry Cahill, Terrence Rosemore e Ben Sanders compõem o elenco. Escrito e dirigido por Babak Anvari, Contato Visceral é um filme de terror lançado em 2019 produzido por Christopher Kopp e Lucan Toh. A obra se baseia no livro The Visible Filth de Nathan Ballingrud. A estrutura de produção é da Annapurna Pictures e da AZA Films, e sua distribuição ficou a cargo do Hulu para os Estados Unidos, e da Netflix para o restante do mundo.

CONCLUSÃO
A percepção que eu tenho, é que chega num determinado ponto em que certos diretores ficam tão confortáveis e seguros das próprias capacidades, que perdem a régua do que pode funcionar. Contato Visceral tem um início enfadonho, com linhas de diálogo tediosas, e que quando culmina no seu elemento central, que deveria ser o terror, já se perdeu totalmente. Fica parecendo que estou pegando no pé, mas não consegui encontrar um elemento ao menos qual pudesse dizer: não, isso aí é legal! Enfim, esse é mais uma péssima produção que a Netflix teve a infelicidade de colocar seu selo de distribuidora. Mas o lance é aquele de sempre, a melhor forma de sabermos se algo é ruim, é conferirmos nós mesmos. Contato Visceral tem classificação etária de 16 anos, e está disponível no serviço por assinatura Netflix.

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RETALIAÇÃO – SÉRIE DA NETFLIX (CRÍTICA)

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SINOPSE
Cha Dal-gun é um entusiasta das artes marciais que ganha a vida trabalhando como dublê de produções de ação, e após a morte de seu irmão, acabou ficando com a guarda do sobrinho. Devido à uma festividade no Marrocos, o menino é convidado junto com seu grupo de taekwondo, a representar a Coreia do Sul no evento, porém o avião onde ele estava cai, matando mais de duzentas pessoas. Desnorteado e junto dos outros familiares dos mortos, Cha Da-gun viaja para Marrocos na intenção de fazer uma última homenagem ao amado sobrinho, mas acaba deparando com segredos que nunca deveria descobrir.

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COMENTÁRIOS
Para quem gosta de ação com perseguições frenéticas, explosões, conspirações, espionagem, e muitas reviravoltas, Retaliação (Vagabond) é o que há de melhor no momento quando o formato é série! Não há como não notar sua inspiração em franquias como Missão Impossível, filmes policiais orientais dos anos oitenta, e até mesmo a série Bourne. A superprodução sul-coreana consegue unir tudo isso, superar os óbvios clichês, e ainda assim construir uma identidade própria cheia de personalidade. O mais interessante em Retaliação, é que a série não te dá espaço para respirar. A sucessão de eventos é contínua, com sequências vigorosas de ação uma atrás da outra. E o mais bacana de tudo, é que isso não parte de um roteiro cheio de conveniências apenas para forçar uma adrenalina engessada, como vemos em produções de séries ou filmes de qualidade duvidosa.

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Juro que pensava já ter visto de tudo em se tratando das tradicionais séries de ação sul-coreanas, mas nada chegou perto desta quando o assunto é qualidade de produção. As costumeiras atuações de altíssimo nível estão lá, isso nem me presto mais em detalhar para não soar repetitivo. O elenco inteiro destrói e fim de papo. Acha que estou sendo exagerado? Estão dá um confere e depois me diz. A produção sempre procura manter o uso de efeitos práticos nas cenas de ação, com saltos de prédios com dublês, carros reais colidindo em alta velocidade, explosões com cheirinho de pólvora, enfim, não tem economia e falta de inventividade. Seu visual esplendoroso conta com ruas do centro de Lisboa, o exótico subúrbio e região costeira de Marrocos, bem como as zonas urbanas da Coreia do Sul. Para somar e completar tudo isso, temos uma trilha sonora original inspiradíssima, que aproveita temas tradicionais da cultura de cada região por onde passa. Se Retaliação fosse um filme curto de uns noventa minutos, eu já acharia tudo isso que eu comentei, mas quando entendemos que isso se trata de uma série de dezesseis episódios com cerca de uma hora cada, nossa, não há palavras que possam descrever com fidelidade a experiência. Ainda não viu? Se dê esse presente. Assista ao menos o primeiro episódio, e se achar que eu rasguei seda demais para algo que não é lá tudo isso, volte aqui com toda sua fúria me dar bronca.

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ELENCO E FICHA TÉCNICA
Lee Seung-gi, Bae Suzy, Shin Sung-rok, Baek Yoon-sik, Moon Sung-keun, Kim Min-jong, Lee Ki-young, Jung Man-sik, Hwang Bo-ra, Lee Geung-young, Moon Jeong-hee, Choi Kwang-il, Park Ah-in, Yoon Na-moo, Lee Hwang-Ui e Moon Woo-jin compõem o elenco. Escrita por Jang Young-chul e Jung Kyung-soon, Retaliação (Vagabond), é uma série sul-coreana de 2019 dirigida por Yoo In-sik. Tendo como produtor executivo Park Jae-sam, foram utilizadas as estruturas da Celltrion Entertainment e Sony Pictures Television. Foi televisionada no canal aberto SBS na Coreia do Sul, distribuída internacionalmente pela Sony Pictures Television, e o serviço por assinatura Netflix.

CONCLUSÃO
Retaliação é um K-drama carregado de adrenalina de um jeito que eu nunca tinha visto antes, misturando altas doses de ação quase ininterrupta, além de conseguir com sutileza encaixar divertidos alívios cômicos, e um pouco de romance. Sua produção procurou se concentrar bastante nos efeitos práticos, proporcionando um realismo pouco visto em séries. Então se você é fã de John Woo, pode ir tranquilo, pois tenho certeza absoluta de que você se identificará. Com classificação etária de 16 anos, Retaliação está disponível no Brasil através do serviço por assinatura Netflix. Então prepare o fôlego, pois se você começar, certamente vai querer maratonar! Bom divertimento!

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PROJETO LIVRO AZUL – SÉRIE DO HISTORY (CRÍTICA)

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ENTENDENDO MELHOR A SINOPSE
O que foi o Projeto Livro Azul (Project Blue Book)? Em março de 1952 a Força Aérea dos Estados Unidos (USAF), sediada na Base Aérea Wright-Patterson, iniciou um projeto secreto com a finalidade de investigar objetos voadores não identificados, os OVNI’s. Esse seria o quarto estudo feito sobre o fenômeno, e foi antecedido pelo Projeto Sinal, pelo Projeto Rancor e pelo Novo Projeto Rancor. Sua intenção era determinar se os OVNI’s seriam ou não uma ameaça real à segurança nacional dos Estados Unidos. Foram recolhidos, analisados e catalogados milhares de informações e evidências sobre OVNI’s. O Projeto Livro Azul foi o último projeto público da USAF relacionado ao assunto, e foi oficialmente encerrado em janeiro de 1970. As informações que antes eram classificadas como confidenciais, hoje estão disponíveis sob a Lei de Liberdade de Informação, porém os nomes dos testemunhos e outras informações pessoais foram censuradas.

E do que se trata a série? A alta cúpula da USAF não queria que o fenômeno OVNI fosse tratado com seriedade pela mídia, e planejando ridicularizar o assunto com ceticismo, contrata um renomado professor universitário de astrofísica, o brilhante Dr. J. Allen Hynek, para acompanhar e assinar aquelas pesquisas então clandestinas. Hynek começa a receber e estudar os casos, e como um bom cientista, não se fecha à nenhuma possibilidade. Enquanto o Capitão Michael Quinn, parceiro de pesquisas de campo e intermediário entre a cúpula militar, faz de tudo para ser tendencioso e sabotar a conclusão final de Hynek, o doutor fica mais desconfiado que aqueles fenômenos possuem interpretações bem mais complexas do que aparentavam ser.

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COMENTÁRIOS
Para quem é fã de séries sobre esses assuntos e já assistiu Arquivo-X, fica impossível não comparar. A mecânica de relação entre o Dr. J. Allen Hynek e Capitão Michael Quinn, é bem parecida com a que há entre Dana Scully e Fox Mulder. Porém diferente de Arquivo-X, em Projeto Livro Azul não tem ninguém fazendo questão de ‘acreditar’. Da mesma forma que Scully é convocada para ser uma cética estraga prazeres à fim de desmoralizar Mulder, Hynek é recrutado para ridicularizar o assunto OVNI, e os dois no decorrer do processo vão indo na exata contramão do que seus superiores esperavam.

A série contém 10 episódios, e em cada um é evidenciado um diferente caso inspirado nos documentos reais do Projeto Livro Azul. Embora ainda que seja episódico tudo é interligado numa trama principal, dramas familiares vão ocorrendo, e a relação entre os dois colegas de pesquisa vai se modificando conforme as coisas acontecem.

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A produção de Robert Zemeckis esbanja qualidade na escolha do elenco e em seu tratamento visual. Aidan Gillen, que encarna o Dr. J. Allen Hynek, parece ter nascido para o papel. É humilde quando deve e simpaticamente arrogante em momentos chaves, mas nunca abandona seu humor ácido e zombeteiro. E não intimidado pela desenvoltura do colega, Michael Malarkey, o Capitão Michael Quinn, é incrivelmente sagaz e igualmente bem humorado. Embora faça o papel de quase um vilão, é impossível não considerar sua habilidade em criar situações que irão se virar contra ele e não achar graça. Tecnicamente Projeto Livro Azul é uma produção muito polida, mostrando efeitos especiais com resultados muito superiores a maioria das séries. Sua trilha sonora é bonita e combina muito bem com sua premissa, contribuindo para criar a atmosfera de mistério e tensão que se espera.

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CURIOSIDADE
Após o fechamento do Projeto Livro Azul em 1970, Dr. J. Allen Hynek começou a considerar continuar os estudos sobre o fenômeno por conta própria, e em 1973 fundou o Centro de Estudos de OVNI (CUFOS), onde foi seu diretor científico até sua morte, em 1986. O CUFOS ainda existe e mantém o legado de Hynek em praticar pesquisas ufológicas com rigor científico e senso de responsabilidade.

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ELENCO E FICHA TÉCNICA
Aidan Gillen, Michael Malarkey, Laura Mennell, Ksenia Solo, Michael Harney, Neal McDonough, Robert John Burke, Ian Tracey, Matt O’Leary, Nicholas Holmes, Currie Graham e Jill Morrison compõem o elenco. Criado por David O’Leary, Projeto Livro Azul é uma série dramática histórica de 2019 que se baseia no projeto homônimo, mantido como secreto pela Força Aérea dos Estados Unidos (USAF) desde o ano de 1952. Produzido por Brad Van Arragon, tem com os produtores executivos, Robert Stromberg, Barry Jossen, Robert Zemeckis, Jack Rapke, Jacqueline Levine e Sean Jablonski. As gravações se passaram em Vancouver, e na Columbia Britânica, no Canadá, sendo produzida pelo A&E Studios e Compari Entertainment ImageMovers. Projeto Livro Azul é distribuído no Brasil pelo canal por assinatura History.

CONCLUSÃO
Quem é órfão de Arquivo-X e nunca mais achou algo parecido no gênero (eu sei que existe Sobrenatural, mas finge que não sabe e entra no meu jogo), Projeto Livro Azul veio para tampar esse rombo no seu coração. Está certo que um vazio de Arquivo-X dificilmente seria coberto por uma série que brotou do nada, mas acredite, esta produção do canal History tem muitíssima qualidade e precisa ser conferida. Com classificação etária de 14 anos, Projeto Livro Azul está disponível no canal History dos principais serviços de TV por assinatura.

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FRATURA – FILME DA NETFLIX (CRÍTICA)

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SINOPSE
Ray procura dirigir com extremo cuidado quando está com sua família no carro, e isso irrita Joanne, pois sempre faz com que atrasem nas reuniões familiares. O casamento entre os dois não vai bem, ela acha que os dois estão cada vez mais afastados e que não há diálogo na relação. Ray se sente pressionado, mas admite que talvez esteja realmente numa fase ruim, mas que irá se esforçar mais. Enquanto isso Peri, uma pequena menina no banco traseiro, estava com fone distraída ouvindo música em seu radinho, quando reclama com os pais que o aparelho parou de funcionar. Acreditando ser faltas de pilhas, o pai decide parar num posto de beira de estrada. Joanne vai ao banheiro, e Peri fica com o pai. Num momento de distração, um cachorro aparece, e Peri muito assustada, começa a se afastar lentamente andando de costas, sem perceber que atrás havia um buraco de uma área em construção. Ray ainda tenta acalmar a filha e impedir que o pior aconteça, mas a menina cai com o pai também se jogando para tentar ajudar.

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Joanne volta do banheiro e não encontra os dois, então procura ao redor e os vê caídos no fundo daquele poço. Ray desmaiou após bater a cabeça no concreto, e acorda atordoado, se esforçando para recobrar a visão e consciência. De pé novamente, verifica que a filha parece bem, mas sentindo uma forte dor no braço. Toma-a no colo, e voltam depressa para estrada, lembrando que poucos quilômetros atrás tinham passado por um hospital. Ray dá entrada para o atendimento da filha e, há um pouco de desentendimento por conta da demora, mas finalmente Peri é atendida. É pedido ao pai que aguarde um pouco, porém horas se passam e ele estranha a demora. Retorna à recepção para entender o motivo de tanta demora, e lhe é contado que nenhuma criança com aquele nome havia dado entrado para atendimento. Não acreditando no que acabara de ouvir, passa a desconfiar que aquele hospital tivesse feito algo com a sua família.

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COMENTÁRIOS
Filmão! É sensacional quando aparece uma pérola tão valiosa assim e sabemos que custou tão barato. Fratura (Fractured) é um filme que consegue explorar de forma muito criativa, umas mil maneiras de subverter segundo à segundo nosso julgamento da narrativa. Utilizando de um conta gotas para soltar informações, vamos precisando de unhas e mais unhas alheias para ter o que roer enquanto não descobrimos a real verdade verdadeira. Está rindo? Você não riria se já tivesse assistido. Escrito por Alan B. McElroy, é Brad Anderson, responsável por O Operário (2004), que dirige e consegue criar essa atmosfera intrincada de mistério. Em Fratura não tem calmaria, nosso cérebro fica numa constante caótica se esforçando para não ser enganado. É Sam Worthington, o Perseu de Fúria de Titãs (2010), que se supera e entrega, na minha opinião, a melhor atuação de sua carreira. Sua atuação esbanja personalidade e convencimento, transformando-se no principal ingrediente desta magnífica receita.  Se gosta de ter sua sagacidade desafiada por complexos mistérios, cai dentro, Fratura é o filme perfeito para você! É ver para crer!

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ELENCO E FICHA TÉCNICA
Sam Worthington, Lily Rabe, Stephen Tobolowsky, Adjoa Andoh, Stephanie Sy, Lucy Capri, Lauren Cochrane, Crystal Magian, Derek James Trapp, Dennis Scullard, Natalie Malaika, Will Woytowich, Erik Athavale, Megan Best, Chris Sigurdson e Ernesto Griffith compõem o elenco. Escrito por Alan B. McElroy, Fratura, filme original da Netflix de 2019, é dirigido por Brad Anderson. A produção de Neal Edelstein, Mike Macari e Paul Schiff, se dá pelas produtoras Koji Productions, Crow Island Films, Macari/Edelstein e Paul Schiff Productions.

CONCLUSÃO
De um tempo pra cá a Netflix vem trazendo produções bem melhores que as bombas que estava soltando um tempo atrás, e Fratura não é só um filme honesto para o catálogo, é definitivamente excelente! O drama e suspense é repleto de quebra-cabeças para nos distrair do começo ao fim, não há descanso, ficamos tão compenetrados na trama que nem notamos quando acaba. Esse é um trabalho em trio, do roteirista Alan B. McElroy, do diretor Brad Anderson e de Sam Worthington, que deu uma enorme qualidade para um personagem complicadíssimo. Assistir Fratura me fez ter um sentimento nostálgico da época em que o Supercine da Globo só passava coisa realmente boa. Geralmente não eram superproduções, mas tinham roteiros bacanas e com uma com uma ótima história cheia de mistérios para contar. Com classificação etária de 14 anos, Fratura está disponível no serviço por assinatura Netflix.

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ELI – FILME DA NETFLIX (CRÍTICA)

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SINOPSE
Eli é um menino de 11 anos portador de uma doença autoimune que o leva a ter uma vida difícil, precisando sempre se manter em locais hermeticamente descontaminados para continuar a viver. Toda vez que se expõe, sua pele apresenta uma vermelhidão alérgica, machucando-o como uma grave queimadura. Seus pais, Paul e Rose, descobrem uma clínica que oferece um procedimento experimental, e investem todas suas economias para poder dar uma vida melhor ao filho. O local é uma enorme mansão isolada numa distante região rural, um imóvel enorme e inteiramente protegido dos contaminantes do exterior. Lá a criança é submetida a dolorosos procedimentos médicos, enquanto paralelamente a isso, uma série de fenômenos sobrenaturais começam a acontecer, e se tornando cada vez mais bizarro, Eli começa a questionar se realmente pode confiar  naquelas pessoas.

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COMENTÁRIOS
Enquanto em Jimmy Bolha (2001), Jake Gyllenhaal traz uma visão otimista e divertida das complicações de ser uma criança que precisa viver dentro de uma bolha, em Eli (2019), as coisas não são tão simples e positivas assim. Eli é um menino bastante inteligente que compreende sua própria situação, mas mesmo assim sofre demais com suas limitações. Como uma criança normal, ele gostaria de poder sair de casa para aproveitar as coisas simples sem se preocupar, e o fato de não poder fazer isso, lhe gera muita angústia. Não bastando as dificuldades que lhe atormentavam a vida, ainda sofre com a falta de empatia daqueles que o veem com estranheza devido ao curioso traje plástico que precisa vestir quando está fora de casa. O sadismo e deboche dos outros tiram-no do sério, fazendo com que precise ser acalmado pelos pais, de quem é totalmente dependente para tudo.

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Eli tem uma atmosfera pesada e instigante, começando tímido, vai moldando ambientes e plantando cada vez mais confusão na audiência. Elementos aparentemente desconexos são gradualmente inseridos, e causam cada vez mais estranheza. A trama que se inicia como um drama, toma rumos no suspense e no terror, e até o último minuto sustenta mistérios inimagináveis. Seu roteiro é bastante criativo, e junto com Fratura (2019), lançado quase simultaneamente, ambos pela Netflix, conseguem convencer numa trama extremamente bem escrita. Esse é daquele filmes que é muito perigoso fazer comentários acerca de seu decorrer, mas o que ainda dá para ser dito, é que em certos momentos aparenta que estamos assistindo apenas mais um filme de terror bobo e cheio de jogos de iluminação e jump scares, e de certa forma ele parece não ocultar querer parecer ser isso. Não seja ingênuo, aqui temos um diretor perspicaz e experiente em filmes de terror com mistério, esta é uma obra que vai te surpreender bem mais do que imagina. Digo isso assumindo ser um cara chato e exigente com filmes de terror, quando a coisa não tem conteúdo e é só baboseira, já sento o malho sem pena. Deixo um alerta, não recomendo procurar muita coisa sobre este filme na internet, sejam críticas, material promocionais, e nem mesmo imagens em sites de buscas, acredite, o potencial é enorme de você estragar sua experiência com spoilers não intencionais.

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Charlie Shotwell está excelente interpretando Eli, onde atua com muita naturalidade, conseguindo convencer em momentos de medo, dúvida ou raiva. Já Sadie Sink, a menina ruiva de Stranger Things, é mais do mesmo, e não traz grandes feitos. Kelly Reilly e Max Martini, os pais de Eli, fazem uma boa atuação, assim como a chefe médica Lili Taylor. A direção de Ciarán Foy é inteligentíssima, o cara realmente sabe induzir com que pense exatamente o que ele quer. Você vai ter certeza de que está confortável com uma ideia, e como um um guindaste de demolição, o roteiro faz desabar todas suas convicções quando você menos imaginar.

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ELENCO E FICHA TÉCNICA
Kelly Reilly, Sadie Sink, Lili Taylor, Max Martini, Charlie Shotwell, Deneen Tyler, Katia Gomez, Austin Fox, Kailia Posey, Parker Lovein, Lou Beatty Jr., Jared Bankens, Nathaniel Woolsey e Mitchell De Rubira compõem o elenco. Escrito por David Chirchirillo, Ian Goldberg e Richard Naing, Eli é um filme de drama e terror de 2019 dirigido pelo experiente Ciarán Foy, responsável também por A Entidade (2012) e Citadel (2012). A produção é dividida com Trevor Macy e John Zaozirny, utilizando os estúdios produtores Paramount Players, MTV Films, Intrepid Pictures e Bellevue Productions. Distribuído pela Paramount Pictures, e pela Netflix, o longa teve um orçamento modesto de 11 milhões de dólares. Eli está disponível através do serviço por assinatura Netflix.

CONCLUSÃO
Flertando com o drama mas descambando para o terror, Eli lida com seu gênero principal de forma bem peculiar. Não é o tipo de filme que se diz que com segurança ser capaz de agradar qualquer público, seu formato, e principalmente sua conclusão, tem potencial enorme de trazer desconforto à algumas pessoas. Seu roteiro inteligente e seus plot twists, são seus principais atrativos, mas não se pode afirmar que seu desfecho seja surpreendente. Como disse antes, eu sou uma pessoa exigente com filmes desse gênero, e esse acertou em cheio para mim! Mas como gosto é algo muito pessoal, recomendo muito que você assista e tire as próprias conclusões. Lembrando, a surpresa eu garanto que você terá! Recomendado para maiores de 16 anos, Eli é uma produção original Netflix, e já está disponível. Tenha um ótimo filme!

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HANNA – SÉRIE DA AMAZON (CRÍTICA)

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SINOPSE
Baseada no longa-metragem de 2011 de mesmo nome, Hanna acompanha a singular jornada de um jovem criada nos rigores da floresta europeia por um homem misterioso que a mantém isolada do mundo. Mas a curiosidade da adolescente, cuja única pessoa com qual se relaciona é o pai, Erick, fará com que a menina se aventure fazendo contato com o mundo exterior. A simples e rápida amizade com um jovem desenterrará segredos do passado ligados ao impiedoso programa de treinamento da CIA para formar agentes de campo perfeitas psicológica e biologicamente.

A jornada de Hanna com iguais partes de drama da maioridade, suspense e espionagem, volta-se para origem da menina e seu pai. É no decorrer dos acontecimentos que a jovem tentará se encaixar em um mundo ao qual sempre estivera alheia e todas suas certezas entrarão em xeque. Mas a história da menina recrutada ainda no ventre materno para ser inigualável assassina não seja única e, talvez, Hanna não esteja tão sozinha no mundo.

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OUTRA HISTÓRIA DE ESPIÃ… (Análise)
Tudo bem que a proposta da Amazon de surfar na onda de um filme com quase 10 anos de atraso é batida. Mas a série possui seus encantos: consegue em boa medida abarcar as contradições da adolescência, de hormônios à flor da pele, extravasados em meio a razoáveis e coreografadas cenas de ação. Gosto bastante do gênero espionagem. Assisti senão todos, ou quase isso, aos filmes de 007 e lembro-me dos festivais da Rede Globo que certa vez exibiram na Sessão da Tarde todos as películas do James Bond. Ainda assisti a algumas séries toscas como Chuck (2017-2012), por exemplo; ou decepcionantes como Alias (2001-2006), que deslizou no final, mas revelou o talento de Jennifer Garner e contou com a mão de J.J. Abrams. Porém persisto no gênero, sempre, como um esperançoso.

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Desta forma a história de Hanna é muito típica no que se refere a alguns de seus elementos básicos: um protagonista de passado obscuro, um “programa de super-soldado”, a presença inescrupulosa da CIA e motivações para lá de questionáveis. Nesse sentido, o que chama atenção é justamente o caráter juvenil (não é uma série só para crianças) que oscila entre a candura da infância perdida da menina isolada na floresta e vivendo primitivamente com seu pai; e a história violenta da organização que os persegue e que não respeita a moralidade ao matar tantos inocentes e até bebês… para não entrar em mais detalhes.

Erik (Joel Kinnaman), veterano da Guerra do Afeganistão, envolto com problemas de bebidas alcoólicas e distúrbio pós-traumáticos se torna um recrutador especial da CIA, alistado pela figura enigmática de Marissa Veigler (Mireille Enos). Ele deveria interceptar mães que quisessem abortar, convencê-las a continuar a gestação e entregar suas filhas, sim somente meninas, para o projeto Ultrax. Nele, os bebês seriam melhorados geneticamente e desde cedo receberiam treinamento especial para se tornarem agentes badass!

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No entanto Erik apaixona-se por uma das mães, Johanna Petruscus (Joanna Kulig), a mesma que se arrepende depois do parto de ter aberto mão da guarda de se sua filha, Hanna (Esme Creed-Miles). Assim ambos empreendem uma invasão à base para resgatar a recém-nascida. Mas as consequências são trágicas: a mãe da menina morre, o projeto aparentemente é encerrado (ou incinerado) e Erik se exila na floresta e passa a criar e treinar a garota, mantendo-a sempre oculta do resto do mundo.

Nesse meio tempo, Marissa Viegler, mesmo adquirindo em certa medida uma vida normal depois de ter cometido atrocidades em nome da CIA, nunca perdeu a esperança de reaver a menina e eliminar Erik. E com certeza não deixará os vacilos adolescentes de Hanna passarem batido e seguirá o rastro da menina, desacostumada com o mundo fora da floresta e, devido às reviravoltas, afastada do pai.

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ASPECTOS TÉCNICOS (algumas observações)
No aspecto visual, além da arte conceitual do nome da série, com um toque geométrico e minimalista, é preciso enfatizar a beleza das locações na Europa em países que vão da Alemanha à Romênia. Isso faz com que a série supere o regionalismo estadunidense e mostre paisagens belíssimas.

A trilha sonora possui músicas mais calmas que enfatizam o caráter leve nas cenas da menina envolta em doçura cujo exemplo maior é “Anti-lullaby” de Karen-O que permeia vários momentos de inocência da jovem assassina. Mas estão lá os estilos musicais que são tendências entre os jovens para embalar as festas e as cenas de ação: hip-hop, trance, rock…

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Quanto a unidade, às vezes deixam a deseja ao fazer a passagem pouco sutil entre o drama da menina e a ótica de seus perseguidores. Essa passagem é pouco orgânica e em vários momentos pouco acabada.

No que se refere as atuações, parece faltar dramaticidade expressiva. Quando falamos de Esme Creed-Miles, que vive a protagonista, é justificável sua personagem ser mal interpretada, às vezes, afinal ela vive uma menina fria por natureza e pouco socialiazada. Mas os outros dois vértices desse triângulo, Joel Kinnaman and Mireille Enos, parecem pouco expressivos e cativantes. Afinal é preciso catarse: que o telespectador se identifique emocionalmente com mocinhos e bandidos. O casal de atores, que já trabalhou juntos em The Killing (2011), parecem ter evoluído pouco. No caso de Kinnaman, conhecido aqui por Robocop (2014) de José Padilha e pela série Altered Carbon da Netflix, parece ter somente a mesma feição para demonstrar todos os sentimentos, mas se salva pela cenas de ação muito bem coreografas. Já Mireille Enos, possui um sorriso meio perturbador, mas parece igualmente inexpressiva. Mas deixo o benefício da dúvida: será que não é assim pelo histórico da vilã?

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ELENCO E FICHA TÉCNICA
Esme Creed-Miles, Mireille Enos, Joel Kinnaman, Khalid Abdalla, Justin Salinger, Andy Nyman, Yasmin Monet Prince, Rhianne Barreto, Stefan Rudoph, Katharina Heyer, Peter Ferdinando, Benno Fürmann e Joanna Kulig compõem o elenco. Hanna é uma série norte americana inspirada no filme homônimo de Seth Lochhead & David Farr, lançado em 2017. David Farr retorna, agora em parceria com Ingeborg Topsoe para escrever esta nova versão, que é produzida por Hugh Warren e tem como produtores executivos David Farr, JoAnn Alfano, Tom Coan, Andrew Woodhead, Tim Bevan, Eric Fellner, Marty Adelstein, Becky Clements e Scott Nemes. Os compositores da música tema são Ben Salisbury e Geoff Barrow. A produção ficou por conta dos estúdios NBCUniversal International Studios, Working Title Television, Focus Features e Amazon Studios. A série é distribuída e está disponível pelo serviço por assinatura Amazon Prime.

CONCLUSÃO (devagar e sempre…)
Se você é fã de espionagem em alto nível, a história de Hanna terá poucos atrativos e surpresas. É, até certo ponto previsível, e pouco inovadora, exceto pela questão da perda infância e o drama da maturidade da personagem. Adolescentes podem gostar da série principalmente por abordar problemas comuns dessa faixa etária, no entanto a galera mais experiente às vezes perderá a paciência com os trechos infantis e pela demora para desenvolver o enredo.

Talvez o aspecto mais interessante a enfocar nessa conclusão seja justamente as reviravoltas na trama e a espera, bem recompensada, das cenas em que a pequena agente entra em ação. É sempre bom ver uma garotinha empoderada nocautear uma bando marmanjo mal-encarado. A primeira temporada é curta, apenas 8 episódios, e deixa o gostinho de curiosidade visto que Hanna terá que se virar sozinha. Mas não vou falar demais, deixo para vocês saírem da floresta junto com a menina ou deixá-la exilada na sua lista de streaming da Amazon.

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CRIANDO DION – SÉRIE DA NETFLIX (CRÍTICA)

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SINOPSE
Após a morte de Mark, seu marido, Nicole precisa criar sozinha o pequeno Dion, uma criança inteligente, imaginativa e cheia de energia. Tentando superar a perda familiar, mãe e filho se mudam para um novo bairro, onde o menino de apenas oito anos é matriculado numa nova escola. Lá a maioria das crianças são de pele branca e, nesse ambiente ele precisa aprender a lidar com o racismo de um professor, e o bulliyng dos colegas de classe. Não bastando apenas os problemas de adaptação do filho, Nicole se surpreende quando o menino passa a desenvolver poderes inexplicáveis. Dion começa com pequenos feitos, como levitar objetos leves, mas a coisa vai ser mostrando mais assustadora, ao ponto dele arrancar árvores inteiras apenas com o poder da mente. Pat, melhor amigo de Mark e padrinho de Dion, acaba descobrindo as habilidades do garoto, e então para ajudar Nicole, os dois se unem para dar o máximo de normalidade a vida do garoto, ao mesmo tempo que uma gigantesca ameaça começa a se moldar.

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COMENTÁRIOS
Criando Dion (Raising Dion) é uma série que explora dilemas familiares ao mesmo tempo que desenvolve um super herói. Baseado no HQ de mesmo nome criado por Dennis Liu em 2015, o roteiro traz o estilo bem parecido com o visto nas histórias da franquia X-Men, no qual uma pessoa até então comum precisa esconder seus novos dons dos julgamentos da sociedade. Numa primeira vista eu fiquei bastante cético, o texto inicial não me capturou de imediato e a atuação do menino também não convenceu, pelo menos no primeiro episódio. Já no segundo a coisa muda, a trama toma um gás legal e, não sei se foi eu que me acostumei, ou se atuação da criança realmente melhorou um pouco. A série ganha mais solidez e passa a não ser algo tão estranho de se digerir.

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A fotografia é interessante, mostrando ambientes urbanos e rurais, embora sua atmosfera passe por bastante instabilidade, e imagino que a causa disso se deva ao enorme número de envolvidos dando pitacos em como as coisas deveriam ser. Acaba que o resultado não traz uma doa direção, levado a total falta de identidade. A trilha sonora é boa, mas faz apenas corretamente o seu papel sem surpreender. Tecnicamente a produção como um todo visa o pouco gasto, e isso eu achei bem estranho. Parece que tem muita gente querendo comercializar (e lucrar com) um produto utilizando os ingredientes mais baratos. O resultado pode ser bom? Talvez sim. Mas poderia não precisar passar por esse tipo de julgamento caso houvesse mais bom senso dos participantes.

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Mark, interpretado por Michael B. Jordan, é o pai de Dion, e é mais do que óbvio que sua presença na série tem o único objetivo de aproveitar a boa fase do ator. Eu mesmo dei maior atenção quando soube que o cara participava do elenco. Mas sua importância é quase como a de Marlon Brando no filme Superman de 1978, ele está mais para um ‘mentor espiritual’ do que qualquer outra coisa. De qualquer forma o atual ‘superastro’ de Hollywood cumpre bem seu papel e dá um pouco mais de energia a produção, mesmo sejam poucas aparições.

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ELENCO E FICHA TÉCNICA
Alisha Wainwright, Ja’Siah Young, Jazmyn Simon, Sammi Haney, Jason Ritter, Michael B. Jordan, Gavin Munn, Ali Ahn, Donald Paul, Matt Lewis, Marc Menchaca, Moriah Brown, Diana Chiritescu e Kylen Davis. Baseado no HQ Raising Dion de Dennis Liu, a série norte americana de 2019 foi escrita por Carol Barbee e, produzida por Charles D. King, Kim Roth, Poppy Hanks, Kenny Goodman, Dennis Liu, Seith Mann, Michael Green, Michael B. Jordan, Robert F. Phillips, Edward Ricourt e Juanita Diana Feeney. Uma produção das companhias Fixed Mark Productions, MACRO e Outlier Society Productions, a série foi distribuída através da network Netflix.

CONCLUSÃO
Criando Dion começa tímido, não convencendo muito de que vai entregar bem sua proposta, mas superando ao menos o primeiro episódio, a série ganha ritmo, adquirindo assim mais harmonia. A atuação do pequeno Dion não é das melhores, e não acho que eu esteja sendo cruel com uma criança tão jovem, visto que já assistimos a pequena irmã de Lucas da série Stranger Things, que dá show mesmo sendo apenas um personagem secundária. Ou mesmo Esperanza, a amiguinha de Dion na escola. Provavelmente essa vá ser a coisa que mais incomode, porque todo o restante está em conformidade com o básico para uma boa produção. Eu particularmente enxerguei desse jeito, e mesmo assim consegui curtir bastante. Criando Dion tem classificação etária de 10 anos e, é uma aventura dramática interessante para juntar a família no sofá para aprender sobre a vida enquanto se diverte. A série é distribuída pelo serviço por assinatura Netflix.

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CAMPO DO MEDO – FILME DA NETFLIX (CRÍTICA)

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SINOPSE
Dois irmãos, Becky e Cal, dirigem numa longa viagem para San Diego. A moça está grávida e começa a sentir um pouco de enjoo, então pede para que Cal pare o carro na borda da pista. Ao lado esquerdo há uma antiga igreja e alguns veículos estacionados, e do direito uma extensa e alta plantação que se perdia no horizonte. Subitamente um grito de socorro vem de dentro da mata, é uma voz de criança. Ele diz estar tentando voltar para estrada, mas não consegue encontrar o caminho. Então uma segunda voz surge, de uma aparente mulher adulta, pedindo para que o garoto não chamasse. Cal então decide ir em busca do menino e entra na vegetação sem hesitar, sendo logo seguido pela sua irmã. Agora dentro daquela mata de mais de dois metros de altura, ele tenta encontrar a criança pedindo para que ele fale alto para que possa seguir o som. Algo estava muito estranho, por mais que ele seguisse a voz, parecia que nunca o encontrava. Começou a duvidar que aquilo não fosse uma brincadeira do garoto, então decidiu se comunicando com a irmão, que iriam pular os dois ao mesmo tempo para basearem suas posições. Fizeram isso, um viu o outro. Ficaram aliviados, não estavam distantes, talvez uns dez metros. Pularam novamente, e para surpresa dos dois algo não estava apenas estranho, estava na verdade muito errado. A distância que antes era curta aumentou umas cinco vezes. Aquilo não fazia sentido!

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COMENTÁRIOS
Stephen King tem o dom de criar histórias fantásticas sempre cheias de muito mistério, e seu trabalho de mais prestígio na atualidade é a segunda parte de It: A Coisa – Capítulo 2. Mas como no próprio filme do palhaço Pennywise, onde ele se sacaneia ao deixar subentendido que também é um autor de péssimos finais, talvez, assim como eu, você possa ter mais uma amostra disso em Campo do Medo (In the Tall Grass, 2019), filme lançado sem nenhum alvoroço no Netflix. O longa é uma produção sem grandes investimentos, basicamente as filmagens se passam num mesmo ambiente do começo ao fim. As atuações não causam grande espanto, tirando Patrick Wilson, ninguém brilha um pouco mais que o mínimo. A direção de Vincenzo Natali consegue efeitos até interessantes, onde mescla alguma computação gráfica nos movimentos em meio a mata com cenas de filmagens reais. A trilha sonora é do compositor canadense Mark Korven, que traz uma boa atmosfera em suas composições que são exploradas apenas em específicos momentos. Campo do Medo para mim foi um filme bem mediano, que após assistido se torna bem esquecível. Uma pena, pois a premissa é interessante e tinha pano para coisas bem bacanas.

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COMENTÁRIOS COM SPOILERS
Com sua produção não exigindo grandes pirotecnias cinematográficas, Campo do Medo traz um mistério que te prende bastante na primeira metade. A sensação claustrofóbica de estar sendo engolido por uma densa vegetação incomoda, ainda mais quando é descoberto que existem ameaças piores além do labirinto em si. Se escondendo atrás de um simbolismo não muito claro, aquela pode ser uma rocha “mágica” vinda do espaço e que foi adorada por antigos nativos, ou mesmo uma simples pedra que passou por um ritual e se tornou “possuída”. Nesse trecho não há muita discussão, as coisas são como são sem necessário um motivo, uma das características  de Stephen King.

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O que percebemos, ao menos nós nerds, o público que está acostumado com histórias de viagens no tempo, é que das duas uma: ou estão se formando novas linhas temporais onde repetidos personagens possam coexistir, ou a natureza temporal está sendo violada e criando paradoxos proibidos. Geralmente nessas tramas existem regras próprias para a eliminação desse desequilíbrio criado, porém neste filme isso também não é claro, e é nesse ponto que isso me incomodou. Não temos uma linha base para nos segurarmos e formularmos nossas teorias, e assim nos engajarmos mais no quebra-cabeça. Em certo ponto é entendido que a rocha é muito antiga e cultuada por ancestrais nativos, e que a mata em si é apenas uma armadilha para trazer novos sacrifícios para os espíritos que existiam ainda ali. Continuando o raciocínio, a rocha causava uma perturbação temporal ao mesmo tempo que define portais que direcionavam para pontos específicos em outro canto da mata. Ao ser tocada, a pessoa adquire o conhecimento de como funciona todo aquele labirinto, em compensação sua humanidade também é afetada. Ross, o pai do menino, já era uma pessoa excessivamente crédula em dogmas religiosos, portanto uma mente bastante suscetível (e aberta) a receber todo tipo de realidade. Sendo assim, ele abraçou com todas as forças a função de “seguidor” daquela ideia, e agia como aquele quem traria mais sangue para ofertar ao seu novo objeto de culto. Quando Travis decide que não tinha mais nada a perder, o efeito foi diferente. Ele aprendeu todo o mapa de posicionamento naquele labirinto, mas não perdeu totalmente sua humanidade. Então ele toma Tobin pela mão e o leva para fora da mata no instante de tempo que Becky e Cal chegavam ali de carro, e pediu para que o menino fizesse de tudo para impedi-los de entrar. Temos então uma conclusão paradoxal. Travis impediu os irmãos de entrarem na vegetação, desta forma os dois não se perderam para que ele fosse atrás dois meses depois. O meu entender particular não é nada bom, enquanto naquela realidade criada no fim estava tudo bem, as outras não eram anuladas, e as pessoas continuavam mortas ou perdidas. Obrigado Stephen King, você fechou um filme com o pião rodando. Deixa o Nolan ver isso.

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ELENCO E FICHA TÉCNICA
Patrick Wilson, Laysla De Oliveira, Harrison Gilbertson, Avery Whitted, Rachel Wilson, Will Buie Jr. e Tiffany Helm compõem o elenco. O Campo do Medo é baseado no romance dividido em duas partes de Stephen King em parceria com Joe Hill, In the Tall Grass, de 2012. A adaptação em filme teve sua estreia mundial no Fantastic Fest, no Texas, e uma semana depois chegou ao grande público com o selo de distribuição Netflix. Vincenzo Natali roteirizou e dirigiu o longa, que foi produzido por Steve Hoban, Jimmy Miller e M. Riley.

CONCLUSÃO
Campo do Medo me trouxe de volta a antiga sensação das adaptações de Stephen King, de não ter certeza se achei a experiência boa ou ruim. Seu começo atrai nossa atenção, e faz com que passemos a sofrer de agonia com aquelas pessoas. O problema é que isso insiste um pouco, até o ponto que passa a ficar cansativo. Então eventos fora da curva começam a acontecer. Você começa a entender algumas coisas ao mesmo tempo que não entende nada. Achou confuso? Então assiste e tente compreender o que ficou totalmente nublado para mim. Posso te assegurar que você não saíra revoltado após terminar de assistir, ainda mais por esse ser um filme de apenas noventa minutos. Curte suspense, terror e mistério? Então não liga para meus comentários e confere você aí. Mas depois volta aqui e leia meus comentários com spoilers para gente trocar uma ideia. A classificação indicativa de Campo do Medo é de dezesseis anos, e ele está disponível no serviço Netflix.

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7 MOTIVOS PARA ASSISTIR CORINGA!

Sob a ótica de alguém que não fazia a menor ideia do que esperar do filme…

Comecei a me inteirar sobre o mundo da Marvel e da DC Comics em 2012, quando iniciei um namoro com um nerd assumido, aficionado por Histórias em Quadrinhos (HQ’s). Desde então, sempre fui a todas as estreias como acompanhante, sem ter grande conhecimento acerca das histórias e dos personagens que iriam se apresentar em sagas gigantescas (pelo menos para o meu gosto).

Confesso que em vários filmes eu cheguei até a dormir: “Vingadores: Guerra Infinita” é um exemplo. Mas ao longo desses sete anos, eu nunca – NUN-CA! – achei um filme da DC tão espetacular, intrigante e emocionante, como foi o Coringa (2019), estrelado pelo talentosíssimo ator Joaquin Phoenix.

Talvez eu não seja a pessoa ideal para escrever sobre esse filme se você espera ler uma resenha crítica embasada nas HQ’s. Porém, se assim como eu, você só conhece o Coringa por meio dos filmes do Batman, e está na dúvida se vale a pena ir ao cinema para conferir com os próprios olhos se esse filme é mesmo tudo isso que estão dizendo, então lhe apresentarei alguns motivos para que você dê uma chance para o Coringa te conquistar!

1. CORINGA (2019) É UM FILME EXTREMAMENTE REFLEXIVO

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Talvez possa soar meio “estranho” para alguns, mas esse filme despertou em mim um sentimento de empatia. Arthur Fleck é um homem que aparenta ter pelo menos uns 40 anos. Ele vive com a mãe, Penny Fleck, em um apartamento sombrio e bagunçado, tal qual a personalidade deles. Ela está debilitada, dependendo do auxílio do filho para tarefas básicas, como comer e tomar banho. Ele, por sua vez, é extremamente atencioso e delicado no trato com sua mãe. Um é a companhia do outro, e ambos encontram na TV uma espécie de refúgio e de inspiração.

Arthur, que ganha a vida como palhaço, sonha em ser um comediante de stand-up comedy. Seu grande ídolo é Murray Franklin, apresentador de TV aos moldes do Jô Soares, interpretado por Robert De Niro.

A fixação em se tornar comediante vem desde a infância, pois ele cresceu ouvindo sua mãe dizer que ele veio ao mundo para fazer os outros sorrirem. E, por ironia do destino, Arthur tem uma doença neurológica que o faz rir descontroladamente em situações que o deixam nervoso ou ansioso.

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Achei extremamente tocante a cena em que ele está viajando sozinho dentro de um ônibus e uma criança começa a encará-lo. Com uma inocência pueril, ele começa a brincar com o menino, entretendo-o e garantindo uma risada muito gostosa. Aquele, talvez, tenha sido o único sorriso verdadeiramente espontâneo e sincero que Arthur recebeu em sua vida. A única risada com sentido de alegria, e não de “zombação”.

Mas em meio àquela pequena alegria e satisfação, eis que o pobre homem solitário e renegado pela sociedade recebe um balde de água fria da mãe do menino, como se ele estivesse perturbando a criança ao invés de diverti-la. E então a risada descontrolada toma conta da situação… Mesmo apresentando um cartão que explica sobre sua doença, as pessoas não querem entender/aceitar que ele não se encaixa nos moldes de normalidade impostos pela sociedade.

Esse é apenas um dos exemplos apresentados ao longo do filme que me fizeram refletir sobremaneira como nós, como sociedade, lidamos com pessoas que apresentam alguma necessidade especial.

Será que eu e você compreendemos a singularidade de cada indivíduo, aceitando verdadeiramente suas limitações? Será que estamos preparados para lidar com as diferenças para além do discurso ativista e progressista que muitos apresentam, sobretudo nas redes sociais? O Governo realmente se importa com a saúde pública, favorecendo tratamento digno àqueles que necessitam de assistência contínua?

Não encontraremos no filme as respostas para essas perguntas, mas, definitivamente, somos capazes de buscar enxergar a trama apresentada sob um olhar mais humanizado. E aí Coringa acabará nos dando uma lição de vida sobre saúde mental, demonstrando que, na realidade, a nossa sociedade se encontra tão louca e doente como aqueles que são diagnosticados com problemas neurológicos.

2. A NECESSIDADE DE ACEITAÇÃO E DE BUSCA PELA NORMALIDADE É ENFATIZADA DURANTE TODA A TRAMA

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É possível perceber a cada cena a tentativa de Arthur em ser se encaixar no padrão de normalidade socialmente aceito. Ele, que já passou uma temporada no sanatório, segue se encontrando esporadicamente com uma assistente social, que o faz perguntas frequentes sobre seu estado. Parece que tais encontros não surtem os efeitos esperados, pois ele não consegue “parar de se sentir mal o tempo todo”, mas é graças a eles que os seus sete remédios diários são garantidos.

No trabalho, ele procura fazer o que é sua obrigação, mas todos o tratam como um palhaço louco, estranho, que não tem crédito em suas afirmações. E é assim, colecionando situações insustentáveis a sua condição mental, que Arthur vai se perturbando e se transformando cada vez mais em um ser frio, magro, insensível a dor alheia e sem a menor graça.

São pequenas situações, somadas dia a dia, que fazem com que esse homem depressivo, que tenta com seus próprios braços alcançar a felicidade, acabe encontrando outras formas de expressar suas insatisfações e frustrações.

Não seria isso o que acontece com tantas pessoas que, diariamente, expressam gritos de socorro velados, disfarçados em frases ou ações que passam despercebidos ou, pior, são banalizados?

Acredito que se você assistir a esse filme pensando não no conhecido e até mesmo caricato vilão de Gotham City, mas sim na transformação do homem comum, doente, excluído e incompreendido, que se torna a principal ameaça a ser combatida pelo Homem-Morcego, então você perceberá que corremos o risco de ter muitos Arthurs em nosso meio, que só precisam que seja acionado um gatilho mental para se transformar no sociopata Coringa…

3. O DIÁRIO DE ARTHUR É TRADUZIDO EM PORTUGUÊS

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Uma coisa que eu achei sensacional nesse filme foi a tradução do diário do Arthur em Português. Assisti ao filme dublado e esperava que nas cenas em que aparecem as páginas do seu diário (que também serve de anotação de ideias para seu futuro show de stand-up), as frases fossem aparecer em Inglês, traduzidas em forma de legenda, para o nosso idioma. Porém, o que vemos são as páginas escritas em Português.

O que isso tem de tão interessante? Ao meu ver, pareceu bem mais realista. E para um bom observador, aquelas páginas já indicavam traços de toda a confusão mental do personagem, cheia de rasuras, palavras escritas com erros gráficos, rabiscos e afins. Se mais alguém teve o interesse em tentar ler o que estava escrito, certamente identificou uma das frases mais impactantes do filme: “a pior parte de ter uma doença mental é que as pessoas esperam que você se comporte como se não tivesse”.

4. O FILME NÃO É REPLETO DE EFEITOS ESPECIAIS

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Para alguém que há sete anos está assistindo filmes de heróis e de vilões cheio de ação e de efeitos especiais, com muito barulho de tiro, p* e bomba, o filme Coringa foi um deleite! Nada de efeitos, nada de barulho, muito pelo contrário: que trilha sonora maravilhosa!

A interpretação de Joaquin Phoenix é brilhante, magnífica, conseguindo demonstrar durante suas crises de riso o quanto aquele gesto estava, na realidade, inundado de drama, de dor e de lágrimas. Uma observação mais atenta é capaz de captar nitidamente que apesar do sorriso na cara, o olhar demonstrava total tristeza, um pedido de socorro sempre eminente, mas nunca atendido.

Fico me perguntando como Phoenix conseguiu, com tanta maestria, associar sentimentos tão distintos ao mesmo tempo… Suas danças são um show à parte! Na mesma hora eu lembrei do Ney Matogrosso. Todas as danças são embaladas com músicas super pertinentes e agradáveis de se ouvir, contrastando com as cenas que de agradáveis não têm nada.

5. O CORPO FALA

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A expressão corporal do ator, especialmente durante as danças e as crises de riso, demonstra o quanto o corpo fala, o quanto o corpo grita, mas que para interpretá-lo, é necessário se despir de preconceitos em busca de toda a subjetividade que carregamos nesse conjunto de ossos e músculos que, para alguns, é uma máquina orgânica, mas que essencialmente, é a tradução do que somos no mundo.

Se tomássemos posse de que não temos um corpo, mas que somos um corpo, seria bem mais fácil detectar que as expressões dizem muito sobre quem somos e quem podemos nos tornar se não temos a dignidade que todo ser humano merece.

6. SOBRE A VIOLÊNCIA

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Eu quase não assisti ao Coringa nos cinemas por ter ouvido muita gente falar que o filme era extremamente violento. A classificação etária é de dezesseis anos e eu concordei plenamente que tenha sido determinada assim. Achei um absurdo encontrar crianças com cerca de dez anos na minha sessão. Fico me perguntando o que há na cabeça de pais que não respeitam a classificação indicativa de filmes, pois, definitivamente, este é um filme para adultos.

E ainda diria mais: este é um filme para adultos que querem assistir uma trama envolvente, e não caricata. Que esperam descobrir a origem e a transformação de um homem que se torna um vilão emerso da sombria e desigual Gotham City, e não apenas a história do Palhaço do Crime quem tem cabelo verde e um sorriso escancarado. Mas enfim, comentários à parte, voltemos ao ponto principal: a violência presente nessa preciosidade de filme.

Primeiramente, as cenas de violência em Coringa são fichinhas frente às de Logan (2017) ou Deadpool (2016). Existem cenas pesadas? Sim. Mas são infinitamente mais leves que as dos filmes supracitados. Diria até que só existe uma cena que realmente é bem sanguinolenta. As demais já são comuns em séries bem populares na Netflix.

Para quem já assistiu Narcos, Orange Is the New Black ou Vis a Vis, as cenas de Coringa não irão surpreender ao ponto de serem “intragáveis”. Penso que em Vis a Vis, por exemplo, o requinte de crueldade do psiquiatra (ou seria psicopata?) Sandoval é muito mais impactante.

Mas no meio disso tudo, o que mais me admirou é que justamente na cena mais violenta, em que quase foi possível respingar sangue na plateia, foi o momento em que todos riram. Que loucura!

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Depois da morte de sua mãe, Arthur volta para casa e inicia seu processo de maquiagem como palhaço, assumindo, definitivamente, sua versão assassina. Ele é convidado a ir ao seu tão querido programa de TV, tendo a oportunidade de conhecer seu grande ídolo Murray Franklin, e, por isso, resolve se caracterizar dessa forma.

Cabe dizer que participar desse programa era um grande sonho, mas não sob as circunstâncias apresentadas: Arthur só é convidado porque um trecho da sua apresentação de stand-up foi passado no programa, de forma banalizada, sem sua autorização. Devido ao aumento da audiência, resolvem chamá-lo para participar ao vivo, e com isso ele vê a chance de mostrar ao mundo sua verdadeira personalidade. É aí que ele percebe que, no fundo, sua vida, que sempre foi uma tragédia, na realidade estava sendo vista pelo mundo como uma grande piada.

Porém, antes de sair de casa para tal compromisso, ele recebe a visita de dois ex-colegas de trabalho, devido ao falecimento de sua mãe. Um deles é quem lhe deu a arma utilizada em seu primeiro crime, o outro, um anão que sempre lhe tratou muito bem. Para se vingar daquele que, ainda que indiretamente, favoreceu sua entrada no mundo do crime, Arthur pega uma tesoura e mata o homem com golpes letais em várias partes do corpo.

O anão presencia tudo, e quando ele abre a boca para questionar o porquê daquilo tudo, é quando a plateia começa a rir, pois a cena foi friamente calculada para ter esse tom sarcástico, cômico, ainda que numa situação extremamente trágica. Foi então que fiquei me perguntando como nós pudemos rir depois daquele crime horrível, como foi possível que a morte tenha sido tão banalizada.

Daí pra frente, vemos a transformação de uma pessoa com problemas mentais que, estando sem seus remédios e sofrendo uma enxurrada de agressões, decepções e revelações imprevisíveis, vai se tornando um homem frio, agressivo e calculista. Que sofre uma metamorfose profunda, compreendendo, enfim, sua personalidade, e nos revelando que, como diz o ditado, de médico e louco, todo mundo tem um pouco.

7.  SOBRE A LUTA DE CLASSES

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É interessante perceber como surge uma mobilização política crescente em Gotham City ao mesmo tempo em que a vida de Arthur parece decair cada vez mais. Seus crimes acabam sendo a motivação para uma revolução dos menos favorecidos, que já não aguentam mais viver em uma cidade em que os ricos têm espaço e os pobres não.

Chega a ser meio “assustador” pensar que em nossa sociedade isso não é muito diferente. Quantos são aqueles que se identificam com os que matam, que fazem justiça com as próprias mãos?

É triste constatar que, infelizmente, Arthur só foi visto pela sociedade quando ele se transformou num psicopata. De certa forma, ele só foi querido e admirado por muitos depois que seus atos extremos foram reconhecidos como algo motivador para uma resposta agressiva do povo, que viu nesse contexto a oportunidade perfeita para incendiar a cidade em busca de melhores condições de vida.

CONCLUSÃO

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Espero que com a análise desses sete pontos você tenha sentido curiosidade em tirar as suas próprias conclusões acerca desse personagem que conseguiu me cativar. A atuação do Joaquin Phoenix foi impecável, tal qual a direção de Todd Phillips. Eles certamente receberão algumas estatuetas por esse filme que, na minha opinião, pode ser considerado como o filme do ano. Sem dúvida, o melhor filme da DC. Vale a pena conferir!

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CORINGA (CRÍTICA)

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Coringa gira em torno de uma origem para o icônico arqui-inimigo do Batman, herói clássico da DC Comics. Desde sua primeira aparição lá pelos anos 1940, o vilão foi intensamente revisitado e muitos atores o viveram: Cesar Romero (na série clássica dos ano 1960), Mark Hamill, o eterno Luke Skywalker que o dublou em Batman: The Animated Series, Jack Nicholson (Batman, 1989), o vencedor do Oscar póstumo Heath Legder (O Cavaleiro das Trevas, 2008) e o fiasco de Jared Leto (Esquadrão Suicida, 2016).

Todavia esta é uma história original e independente, nunca vista antes na tela grande. A exploração de Arthur Fleck (Joaquin Phoenix) por Todd Phillips, é a de um homem desconsiderado pela sociedade. Não é apenas um estudo de caráter corajoso, mas também um conto de advertência mais amplo para os perigos do isolamento, da solidão e da invisibilidade social. Ao acompanhar a trajetória de Arthur Fleck, um homem esquecido pela sociedade, investigamos até que ponto o palhaço de Gotham City é fruto da incapacidade de todos nós de acolhermos o outro.

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Título original: Joker
Direção: Todd Phillips
Roteiro: Todd Phillips, Scott Silver
Duração: 2h 1min
Lançamento: 03 de outubro de 2019, no Brasil

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Elenco: Joaquin Phoenix (Arthur Fleck/Coringa), Robert De Niro (Murray Franklin), Zazie Beetz (Sophie Dumond), Frances Conroy (Penny Fleck), Brett Cullen (Thomas Wayne)

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A VIDA É UM TEATRO DO ABSURDO
Não é um filme de herói. Não espere um filme caricato e colorido como se saltasse dos quadrinhos. Não. É um filme sobre loucura, sobre ser invisível no mundo e uma investigação da insanidade por parte do próprio louco. Na moda atual de criar filmes sobre vilões (como Esquadrão Suicida, 2016; e Venom, 2018) ou sobre anti-heróis (Deadpool, 2016; e Logan, 2017 ), Coringa nos brinda com uma releitura adulta de um dos vilões mais conhecidos das Histórias em Quadrinhos (HQs). É uma história de origem que nos lembra muito a versão de Alan Moore, mas somente na abordagem psicológica; como também a de Christopher Nolan (O Cavaleiro das Trevas, 2008) eternizado por Heath Legde, também amigo de Joaquin Phoenix, o vilão deste longa. Mas as semelhanças param por aí. O Coringa de Joaquin oscila entre o riso, o choro e o grito contido daqueles que, em sociedade, nunca são ouvidos.

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Conhecemos, então, a história de Arthur Fleck, em reabilitação após uma temporada no sanatório, diagnosticado com problemas cerebrais e com uma ideia fixa plantada por sua mãe: que ele nascera para fazer o mundo rir. Joaquin Phoenix, ao falar sobre Arthur, define o personagem como “um cara que busca uma identidade que por engano se torna um símbolo. Seu objetivo é genuinamente fazer as pessoas rirem e trazer alegria ao mundo”.

“Quando eu era menino e dizia às pessoas que seria comediante, todo mundo ria de mim. Bem, ninguém está rindo agora”

Desta forma, Arthur Fleck ganha a vida sendo palhaço, ora como garoto propaganda nas calçadas, ora como animador em hospital no maior estilo Path Adams de Robin Wiliams. Alterna com suas idas à assistência social e seus cuidados para com a mãe. Nas horas vagas, escreve um diário e rascunha, toma notas para compor seu próprio stand-up, seja assistindo a outros comediantes, seja vendo o programa de Murray Franklin, seu grande ídolo.

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Com uma fotografia que lembra muito Taxi Driver (1976), o que vemos desfilar pela tela não é uma Gotham City atual ou futurística. O intensamente magro, esquelético Coringa tenta sobreviver à cidade opressiva da década de 1980. Gotham é violenta nas pequenas coisas: na paisagem deteriorada, na elite (aqui representada pela família Wayne) que vive melhor que a população comum, no trato humano diário e tantas outras instâncias da sociedade. E a cidade ao mesmo tempo que não enxerga, não perdoa àqueles que não se enquadram nos padrões. A atriz Zazie Beetz, que já vivera a heroína Dominó (Deadpool 2, 2018), afirma sobre o Coringa:

“É uma espécie de empatia em relação ao isolamento”, disse Beetz, “e uma empatia em relação ao que é nosso dever como sociedade, de abordar as pessoas que escapam de alguma maneira pelas brechas. Há muita cultura disso no momento. Por isso, empatia ou apenas uma observação sobre personalidades que lutam?”

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Quanto a Arthur Fleck, não é o simples vilão que enlouqueceu caindo em recipiente de produtos químicos. Lá nas HQs, a Origem do Coringa, faz com que sua peles esbranquiçada seja fruto da deterioração cerebral causada pelos produtos da Indústria Ace. O Coringa se pinta e se veste de palhaço. Ele protagoniza sua composição que evidencia sua insanidade.

A maquiagem do Coringa é muito parecida com a de John Wayne Gacy, um verdadeiro serial killer que costumava entreter crianças enquanto estava vestido como Pogo, o Palhaço. Um estilo de maquiagem que foi evitado pelos palhaços que trabalhavam na época, pois proibiam estritamente pontas “afiadas” na composição, como aparece nos olhos, pois isso assustava às crianças.

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O palhaço tão pouco é mero reflexo do heroísmo do Batman, mas sim do poder da família Wayne. Sua loucura é herdada, sua loucura é fruto de agressão, sua loucura é fisiológica, sua loucura é a não aceitação. Assim o vilão sintetiza tantas causas para a falta da sanidade que, em uma sociedade insana, acaba sendo o gatilho para a barbárie.

Mas se você olhar com atenção, ainda encontrará aquelas referências aos quadrinhos como a fixação do vilão pelos holofotes, prenunciada desde 1940 (Bob Kane) com sua aparição no rádio ou em 2005, na sua obsessão pela TV (Ed Brubaker). Lançará alguma luz sobre a origem do Batman, no entanto, já avisamos, é um filme cujo protagonista é o Coringa, o bobo da corte que de uma hora para outra pode desestabilizar o sistema.

CONCLUSÃO: Eis a questão…
Se você se pergunta se é um longa-metragem que merece ser assistido, digo que não. Merece ser degustado. A trilha sonora, pontual e complementar ao enredo, com a presença de “Smile” (composta por Chaplin para Tempos Modernos, 1936); e “Send the clowns” de Frank Sinatra, encaixam-se perfeitamente no enredo. Ainda, pelo aspecto sonoro, a risada frenética quebra esse momentos de lirismo e a seriedade de certas cenas, contudo não de um jeito cômico. É uma risada, mescla de choro, que não diverte, mas que causa nervoso. O riso de nervoso de Joaquim Phoenix é a vírgula, é o eco do silêncio e é o ponto final. O diretor descreveu para Phoenix como “algo quase doloroso, parte dele que está tentando emergir” e o resultado ficou surpreendente.

Por isso não espere aqui que a história desse filme se alinhe com os novos planos da DC para o Batman interpretado por Robert Pattinson. “Não vejo o Coringa se conectando a nada no futuro”, disse o diretor Todd Phillips. E completa: “Este é apenas um filme.” E nisso concordamos. Coringa é um filme único e não merece continuação porque é uma obra totalmente acabada em si mesmo, mas com questões imperecíveis.

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