A ORIGEM DO CORINGA (HQ)

Analisamos três momentos dos quadrinhos em que o palhaço de Gotham City revela um pouco de seu passado. Será mesmo?

067_00

1. BATMAN E ROBIN, O MENINO PRODÍGIO (1940)
A primeira edição de Batman, na primavera de 1940, com arte de Bob Kane, é fundamentada na perseguição ao Coringa. Um vilão sem pudores de matar para conseguir alcançar seus objetivos. Naquela época o grande meio de comunicação era, justamente, o rádio. E é por ele que o palhaço de Gotham City anuncia que à meia noite assassinará o milionário Henry Claridge. O primeiro de muitos que ele cometerá por meio de sua toxina cuja marca é afetar os músculos da face formando um sorriso macabro.

Há uma origem na origem? (Spoilers)
Descobrimos que a motivação dos sucessivos assassinatos são para roubar joias a não ser por uma das vítimas: o juiz Drake. O Coringa sentencia pelo rádio  que “O juiz Drake, um dia você me mandou  para a prisão e por isso morrerá! Sua morte chegará às dez horas! Eu sou o Coringa”. E este é o único dado relevante sobre o passado do vilão.

067_01

Para o leitor mais moderno, esse quadrinho da década de 1940 vai parecer pouco empolgante, tanto pelo traço como pelo enredo e roteiro. Não parece uma aventura digna do Coringa no que se refere a muitos aspectos. Podemos citar o fato do Batman demorar muito para agir e meramente escutar pelo rádio os anúncios dos crimes. Outro ponto é o fato da história ser repleta de piadas pastelão que nos lembram muito o seriado protagonizado por Adam West na década de 1960 tais como: “Você pode ser o Coringa, mas eu sou Rei de Paus”. Mas é aqui que é cunhado tanto o gosto sádico do palhaço pela violência como a famosa frase indignada contra o Batman:

Morra… Maldito… Morra! Por que você não morre?

067_02

2. A PIADA MORTAL (1988)
Sem sombra de dúvidas quando falamos da HQ mais clássica estrelada pelo Coringa, todo admirador da arte sequencial considera a obra de Alan Moore a mais significativa. Não só pelo tom sombrio com que o roteirista costuma abordar os heróis, como assim o faz em Watchmen (1986-1987), mas por ainda contar com o fantástico traço de Brian Bolland.

A narrativa parte da pergunta inicial feita pelo próprio Batman: qual será o fim do eterno embate entre ele e o Coringa? Eles acabarão por se destruir? Mas para o palhaço de Gotham City, talvez isso não seja a grande raiz do problema. O importante é investigar em que momento a loucura nasce em alguém. O Coringa entende que basta um dia ruim para transformar qualquer um em um louco de máscara de morcego ou vestido de palhaço.

Assim ele foge da prisão e a fim de testar sua teoria com o íntegro comissário Gordon. Enquanto trama seus atos maldosos, relembra o dia em que se tornou o arqui-inimigo do homem-morcego à medida que raciocina sobre sua própria condição insana. Caberá ao Batman levar a lucidez ou a loucura para frustrar os planos do Coringa.

O atentado a Bárbara Gordon (spoiler)
Batman resolve visitar o Asilo Arkhan para questionar o Coringa sobre como seria o fim de ambos, se no final acabariam por matarem-se. Ele não estava mais lá. Alegremente, o palhaço comprava um parque de diversões caindo aos pedaços. Na verdade matava seu dono que sorriria para sempre devido a toxina do Coringa. A partir daí o foco da história passa a ser o Coringa e assim temos acesso às suas memórias em flashbacks em preto e branco como um filme antigo.

067_03

Após anos de conflitos, Bruce Wayne conversando com seu mordomo Alfred, admite que não sabe nada sobre o Coringa, que um não da sabe nada sobre o outro e cultivam esse ódio recíproco. Longe dali, enquanto recorta notícias de jornais, entre elas a da primeira aparição do palhaço, o comissário conversa com sua filha Bárbara. “Quando você descreveu o rosto branco e os cabelos verdes eu era criança e fiquei morrendo de medo.”, afirma a jovem indo atender à porta. Era o Coringa. Um tiro. A garota atingida na cintura cai sobre uma mesa de centro de vidro.

O comissário, pego de surpresa, é nocauteado. Com a garota provavelmente paraplégica, sangrando, o palhaço segura um copo de uísque e lentamente começa a despir a garota “Pra provar um coisa. Que o crime compensa”.

067_04

Sabemos que ele fotografa Bárbara nua e em posições sugestivas. Ela chora. Tem sangue por todos os lados. Ele a estuprou? A HQ não deixa claro, mas só essa sugestão fez com que essa história ficasse censurada por um bom tempo (leia aqui). O plano de palhaço era com o pai acorrentado, no trem fantasma do parque de diversões, exibir sua filha em desgraça e assim enlouquecer o brando comissário Gordon. Não conseguiu. Quando o Batman o salva, o policial evidencia que a lei está acima de tudo e qualquer coisa. Quer que o herói o prenda, que não o mate. Será que o comissário não foi íntegro demais? Será que isso, em si, não é também loucura?

Na batalha final contra o morcego de Gotham City, enfim o Coringa resume sua teoria sobre a loucura:

“Sabe, eu estou pouco ligando se vai me levar de volta para o asilo… Gordon enlouqueceu mesmo… minha teoria está provada. Demonstrei que não há diferença entre mim e outro qualquer! Só é preciso um dia ruim pra reduzir o mais são dos homens a um lunático. É essa a distância que me separa do mundo. Apenas um dia ruim. Você teve um dia ruim uma vez, não é? Eu sei como é. A gente tem um dia dia ruim e tudo muda. Senão, porque você se vestiria como um rato voador?”

067_05

A origem por Alan Moore (spoiler)
Depois de pedir demissão do emprego de assistente de laboratório (o que explica sua habilidade química), resolveu seguir a carreira do humor. Pelos flashbacks, descobrimos que o Coringa era um comediante sem sucesso, de piadas que ninguém ria.  Sua vida era envolta em dívidas e estava prestes a ser despejado. Sua esposa, então grávida, parecia ser a única acreditar no talento dele.

Desesperado, faz um trato para ajudar mafiosos a invadir uma fábrica de baralhos passando pela Indústria Química ACE que o Coringa trabalhava. Era uma forma de fazer um dinheiro rápido para Jeannie e se futuro filho. Para seus comparsas, a melhor forma de não chamar atenção era fantasiar o comediante fracassado como se ele fosse o Capuz Vermelho, e assim colocar a culpa nesse bandido caso fossem pegos.

Mas a esposa do Coringa morre em um acidente doméstico. Sem mulher e sem filho, prestes a desistir de invadir a fábrica de baralhos, ele é obrigado por seus comparsas. Naquele dia ruim, palhaço não tinha mais nada a perder, a não ser prosseguir com o plano.

067_06

Naquela fatídica noite, as coisas saem de controle: os seguranças da indústria química frustram os três criminosos. Um dos comparsas, morre de imediato. Um agoniza e enquanto morre, acusa o Capuz Vermelho de ser o líder. E assim o palhaço disfarçado corre, foge, até ser perseguido pelo próprio Batman. Assustado pula em dos tanques químicos. Salva a vida, perde a sanidade. Mas isso é envolto em incertezas, não sabemos se os flashbacks são memórias genuínas. O Coringa então em longo discurso, na batalha final contra o Batman, diz:

Se eu vou ter um passado, prefiro que seja de múltipla escolha! Ah, ah, ah!

067_07

3. O HOMEM QUE RI (2005)
Com o relançamento do universo DC após os eventos Crise nas Infinitas Terras de 1987 em diante, tornou-se necessário atualizar as origens do palhaço de Gotham, trazer o personagem para o mundo de Batman – Ano Um de Frank Miller. Em busca de uma origem mais realista para o Coringa, o roteirista Ed Brubaker e o traço de Doug Mahnke, mostram o maior desafio do Batman depois de um ano desde sua chegada à caótica cidade. Os malucos mascarados ainda estavam só no início e seu embate mais rigoroso, até aquele momento, tinha sido contra o Capuz Vermelho.

067_08

 

O Coringa de Doug Mahnke é intensamente inspirado no ator Conrad Veidt, do filme clássico expressionista alemão O homem que ri (The Man Who Laughs, 1928), o que explica, também, o título desta Graphic Novel. No longa-metragem alemão, Conrad vive um homem desfigurado que passa o tempo todo rindo e por fim torna-se uma atração de circo.

Mas voltando ao quadrinho, após fazer uma chacina utilizando a toxina, que literalmente, faz morrer de rir, o misterioso palhaço começa a interromper a programação televisiva e, aparentemente, escolher suas vítimas entre os figurões de Gotham City de forma aleatória. A única pista é um poema pichado nas paredes de um banheiro:

Um de cada vez eles vão ouvir o meu gemido, e então esta cidade suja irá cair comigo.

067_09

A narração dos eventos oscila entre as do, ainda capitão, James Gordon (assustado com o rumo da criminalidade que assola a cidade) e Bruce Wayne, intrigado e surpreso por combater um criminoso que é, ao mesmo tempo, insano e genial. Enquanto Batman anseia por respostas (“Mal posso imaginar o que se passa na cabeça dele.”), Gordon parece ser mais preciso em sua análise:

Está cada vez mais claro que lidamos com alguém cuja motivação se restringe a causar terror.

A origem por Ed Brubaker (spoiler)
Na verdade, Batman não estava preparado para a complexidade do Coringa. Afinal, quem estaria? Após Wayne ser ameaçado como uma das possíveis vítimas da fúria assassina do Coringa, Bruce injeta levemente a toxina para frustrar parte dos planos do seu arqui-inimigo e antecipar seus passos.

067_10

Contudo, os assassinatos da high society de Gothan eram a distração. A ideia era colocar em prática  o plano macabro de matar todos os habitantes da cidade espalhando a toxina no sistema de abastecimento de água. Fazia parte da vingança insana do Coringa por ter se tornado o que se tornou. Batman, então, elucida a origem do palhaço de Gotham City:

“Eu acertei sobre as intenções do Coringa, só não entendi a natureza de seus desejos. Por outro lado, o poema explica tudo perfeitamente… Ele quer se vingar pessoalmente das pessoas que fizeram dele o que é. Em seguida, a cidade cairá com ele. O Coringa caiu em um tanque de substâncias tóxicas que foram derramadas em uma baia que deveria estar limpa. Agora, ele quer envenenar o suprimento de água de Gotham para que todos morram às gargalhadas. Em sua mente doentia, a população inteira é culpada simplesmente por estar viva.”

Para os fãs mais saudosistas, a queda em um tanque tóxico é justamente a versão da origem para o Coringa de Jack Nicholson na primeira adaptação cinematográfica do vilão lá no filme de 1989, Batman. Esta aventura ainda mostra o estreitamento dos laços entre o futuro comissário Gordon e como surgiu o famoso Bat-sinal.

067_11

CONCLUSÃO: o famoso desconhecido
É inegável que há muito mais momentos em que descobrimos dados sobre o passado do Coringa, mas sempre será um tanto nebuloso. Podemos inferir de suas palavras a condenação injusta por parte de um juiz ou sua ligação com o dia em que se fantasiou de Capuz Vermelho e acabou caindo uma baia ou rio cheio de substâncias químicas que afetaram permanentemente sua sanidade. Nesse evento singular também foi forjada sua obsessão pelo Batman: ele fora responsável, mesmo que indiretamente, pelo que aconteceu ao Coringa. Se não fosse o homem-morcego tê-lo perseguido, o Coringa não teria fugido de forma tão desesperada e inconsequente. Pelo menos é isso que o palhaço acredita.

As histórias aqui analisadas conversam entre si, ou seja, possuem uma intertextualidade. A versão de Alan Moore não parece ter muita ligação com a origem de Bob Kane, mas nos mostra a psicologia do Coringa, extremamente rica por ele ser o protagonista da história. Tanto expõe a mente insana do palhaço disposto a tudo como, por meio de flashbacks (se reais), também conhecemos um pouco do homem que existiu antes do Coringa.

Nesse ponto, O homem que ri (2005) parece surfar na onda destes dois clássicos para revitalizar o arqui-inimigo do Batman. Nessa última HQ, o palhaço anuncia seus crimes pela televisão (e não pelo rádio) e assassina o mesmo Henry Claridge. Mas não por dinheiro e sim por prazer e vingança. Também nos mostra de forma indireta a origem do Coringa ligado ao fatídico mergulho nos produtos da Indústria Química Ace, fatos relatados nos flashbacks de Alan Moore em A piada mortal (1988).

Seja devido a um dia ruim, seja por vingança, isso acabou ou deturpou os valores morais do palhaço e o ligou a figura aterradora do Batman, o monstro que invade seus pensamentos. Talvez a grande piada de sua vida: um futuro desgraçado por um homem que se disfarça de morcego. O próprio Coringa entendeu que de todas as piadas contadas, o mundo era a pior. Assim, fechamos esta análise com a justificativa que o palhaço dá nas páginas de Alan Moore:

Mas o que eu quero dizer é… eu fiquei louco. Quando vi que piada de mal gosto era este mundo, preferi  ficar louco. Eu admito! E você?

Barra Divisória

assinatura_marco

UM FIM PARA O BATMAN? (HQ)

022_00

A morte não é o fim. Pelo menos quando se trata de heróis ou vilões de histórias em quadrinhos (HQs). O ciclo de renascimentos de protagonistas e antagonistas confere sempre uma renovação, um retorno às origens ou mesmo uma guinada totalmente surpreendente nos rumos da história. Por vezes o fim da vida de um herói pode se prestar a reflexões filosóficas não só do próprio personagem, mas refletir nossa própria forma de ver o mundo e a tensão entre o bem e o mal. Nesse sentido, Neil Gaiman parece realizar a proeza de filosofar em torno do personagem da DC mais sombrio (para mim o melhor, também). O que aconteceria se o homem-morcego de Gothan City tivesse morrido?

022_01

O QUE ACONTECEU AO CAVALEIRO DAS TREVAS?

Para o escritor e roteirista inglês Neil Gaiman, ter a chance de escrever sobre a morte do Batman culminou o fechamento de um ciclo, tanto pessoal como profissional. Não que ele fosse um roteirista comum da revista Detective Comics: ele fora convidado para criar a última história dessa tiragem de quadrinhos. “Eu poderia realmente escrever a última de todas as histórias”, afirmou empolgado, Gaiman. Para o roteirista era ter em mãos o personagem que primeiro lhe inspirou a carreira nos quadrinhos, visto que sua paixão inicial fora o Batman de Adam West, da série da década de 1960.

022_02Quando o editor Dan DiDio entrou em contato com Neil Gaiman, o quadrinista viu a oportunidade de fazer aquilo que Alan Moore fizera com o Super-Homem em O Que Aconteceu ao Homem de Aço?, que funcionou como uma espécie de fechamento tanto das HQs Superman quanto da Action Comics. Mas a abordagem de Gaiman tinha que ser fiel à trajetória do Cavaleiro das Trevas e foi essa reflexão que guiou as linhas de O que aconteceu ao Cavaleiro das Trevas?

“As histórias do Batman não terminam com sorrisos e piscar de olhos. Batman sobreviveu a muitas eras e irá, certamente, sobreviver a muitas outras. Se você estiver pensando em contar a última história do Batman, tem de ser algo que sobreviverá à morte ou desaparecimento atual do Batman, algo que continuará sendo a última história do Batman pelos próximos vinte ano, ou cem”, afirmou quadrinista inglês. Ele ainda completa:

“Por que se tem uma coisa que Batman é, é um sobrevivente. Ele ficará rondando por aí depois que todos nós partirmos. Então, o que poderia ser mais apropriado do que a história de sua morte?”

Assim, com o traço primoroso de Andy Kubert, Gaiman intentou contar a última de todas histórias do Batman. Um projeto que ao mesmo tempo filosofa sobre a ligação intrínseca entre o Cavaleiro das Trevas e Gothan City, sua gênese e seu fim, ao mesmo tempo que homenageia grandes artistas que fizeram a história de Batman ao longo dos anos.

022_03

BAT-VELÓRIO (Spoilers!)

Por meio da consciência do Batman (ou alma, entidade ou sei lá) somos conduzidos ao seu funeral. O local é o Beco do Crime, no fundos do bar, caindo ao pedaços, do morto Joe Chill que recebe Seline Kyle, a Mulher-Gato, com trajes da década de 1960. No entanto ela não é a única convidada. Aos poucos outros personagens chegam para o velório e assim se misturam não só os traços de outros desenhistas, imitados com maestria por Kubert, mas também enredos de histórias célebres do Homem-Morcego. Aqui aparece o Charada do seriado de Adam West, a Bárbara Gordon paraplégica e o Coringa da Piada Mortal de Alan Moore (1988), Arlequina da série animada da Warner (1992-1995), entre outros. Aqui, percebe-se o tom do enredo: os tempos, as realidades, os diversos Batmans e seus vilões, que desfilaram ao longo dos tempos e prestam suas condolências.

022_06

Esta graphic novel é dividida em duas partes. Vemos, na primeira sessão, dois contos para a morte de Batman. Inicialmente, Selina Kyle sobe ao púlpito e conta suas memórias de como o herói teria morrido. O Conto da Mulher-Gato é narrado como uma história de amor malsucedida e, à medida que a narrativa evolui, dos traços de seus criadores Bill Finger e Bob Kane, até seus representantes mais modernos, conhecemos as idas e vindas do casal. A causa da morte, segundo Selina, fora sua omissão de socorro ao receber Batman em sua loja. Ressentida de não ter sido amada, deixou-o morrer após ter sido baleado.

022_05

Já Alfred, o fiel e talvez ator-mordomo, toma a palavra e mostra como teria arquitetado todas as aventuras do Batman. Com a ajuda de uma trupe de atores, teria forjado todos os episódios a fim de ajudar o jovem e depois adulto Bruce Wayne a superar a morte de seus pais. Em O conto do cavalheiro de um cavalheiro, Neil Gaiman homenageia a série de TV que alegrara sua infância ao enfatizar que a história do heróis não passaria de uma fantasia do teatro ou televisão. Nesta versão, Batman teria morrido ao descobrir que toda sua vida fora uma grande ilusão. Ao tentar resgatar crianças sequestradas pelo Charada, desafiou o vilão a atirar nele. Pensava que era mais uma grade farsa de Alfred, mas não era. Morreu com um tiro no rosto, à queima-roupa.

022_07

A versão de Selina remete ao fim de Robin Hood na literatura e, a de Alfred, a uma farsa motivacional. Mas qual a versão verdadeira? Nenhuma. Eis o fim da primeira parte. Fecha-se com o tiro do Charada, o maior enigma permanece: o que aconteceu ao Cavaleiro das Trevas?

022_09

PARA ALÉM DA MORTE (ainda tem spoilers, viu?!)

O fluxo da consciência, a voz interior do Batman, observa seu funeral e o desfile de inúmeras versões para a sua morte contadas por inimigos e aliados. Robin (do ator Burt Ward), a certa altura, diz que “… ele era santo. Nunca desistia, haja o que houvesse, e fazia um milagre atrás do outro… até finalmente morrer por nós”. O messias de Gothan (uma clara alusão ao cristianismo) é também uma referência ao homem-morcego que escapava ao final de cada bat-episódio e que o jovem Gaiman deveria esperar para ver a conclusão na semana seguinte.

022_04

Batman se reconhece nestas narrativas, discorda, entre em conflito consigo e trava diálogo com outra voz misteriosa. A porta se abre e se vê conversando com sua mãe, Martha Wayne. Questiona-se se está morto, racionaliza se não é uma Experiência de Quase Morte (EQM), e experimenta sua vida passar diante dos seus olhos, como o amor das mulheres ou a ruína pelas mãos de Bane. A luta, a jornada é o que interessa. “O final da história do Batman é sua morte“, conclui o herói, “Pois, se o Batman não morresse no fim, o que mais iria fazer? Aposentar-se e jogar golfe? Não é assim que funciona, não pode. Eu luto até cair. E um dia vou cair“.

022_08

CONCLUSÃO: NIRVANA IMPERFEITO

Não, não tocará o som violento da banda de Kurt Cobain ao final da história. É o termo “nirvana” que nos interessa para fechar essa resenha crítica. Nas palavras de Buda:

“É um lugar que está perto, mas difícil de alcançar. Neste lugar não há velhice, morte, sofrimento, doenças. Libertação da morte ou perfeição, é o que chamamos de Nirvana. É este um lugar feliz, pacífico, que alcançam os grandes sábios. É um lugar eterno, mas difícil de alcançar. Os sábios que aí chegarem estão livres das penas; no Nirvana, os sábios chegaram ao termo do curso de sua existência.”

022_10

Assim Batman nasceu para Gotham. Nasceu para a luta constante que a cidade violenta e febril encerra. Desde o útero esteve predestinado ao bat-sinal. E no final, não a morte, mas o nascimento. Um novo ciclo se inicia para Cavaleiro das Trevas ressurgir e lutar pela justiça. Ele não alcança o nirvana, não quebra o ciclo das reencarnações. Seu lugar de paz, junto a sua mãe, é a possibilidade de retorno. Pois como o próprio Gaiman disse, linhas acima, o morcego de Gothan continuará a voar, salvar o dia, fazer milagres quando nós não mais estivermos aqui.

Barra Divisória

assinatura_marco