DON (CRÍTICA)

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SINOPSE
Comandando a Operação de Singhania, o vice-comissário De Silva orquestra as investigações em Kuala Lumpur, na Malásia, contra o crime organizado liderado por Don, um criminoso lendário dentro da alta cúpula internacional do tráfico de drogas. Mr. Singhania é um dos dois gerentes antes subordinados a um chefão falecido, conhecido como Boris, e o outro é Verdhan, cujo paradeiro é desconhecido. Após Ramesh, um dos capangas mais próximos de Don tentar se dissociar do grupo por querer levar uma vida menos arriscada, é assassinado por Don. Porém a noiva de Ramesh, Kamini, decide cooperar com a polícia para tentar capturá-lo, e assim trazer paz à memória de seu amado. Roma, irmã de Ramesh, inconformada se infiltra discretamente na gangue de Don, para tentar pegá-lo desprevenido em algum momento. Durante uma das várias tentativas da polícia em capturar Don, uma audaciosa perseguição entre o bandido e De Silva ocorre, terminando num grave acidente onde Don finalmente é alcançado. A captura não é anunciada e, apenas De Silva e um número limitado de agentes sabem, ato esse que permitiu ao comissário traçar um plano surreal de por um sósia de Don, Vijay, para encarnar os super criminoso. Vijay é um cara pacato, humilde, e que queria apenas viver uma vida tranquila ao lado do pequeno garoto que cuidava. Mas em troca da oferta de uma boa escola para a criança, Vijay aceita o perigosíssimo trabalho de se infiltrar no mundo do crime.

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COMENTÁRIOS
Me sinto num papel de diplomacia em convencer brasileiros assim como eu, a se darem mais oportunidades de conhecer o cinema estrangeiro. E olha que eu nem pego pesado ofertando pérolas consideras ‘cults’ do circuito exótico internacional. Don (também conhecido como Don: The Chase Begin Again) é um filme indiano de ação lançado em 2006 que traz atuações de super celebridades indianas, como o galã Shah Rukh Khan e a belíssima Priyanka Chopra, que exala muito carisma com sua sensualidade natural. Simpatia essa que salta aos olhos pelos trejeitos desse povo tão espontâneo na arte cênica, com suas músicas, danças e desinibição. O mais interessante em Don é que por se tratar de um filme de ação, imagine-se que trechos musicais com danças coreografadas fariam toda a dinâmica do conceito rolar ladeira a baixo, mas aí que a gente quebra a cara. Com o mesmo feeling da abertura de um longa de James Bond esses momentos se fazem, porém não apenas numa chamada ao filme, mas no decorrer de seu todo. E não só isso, as músicas em Don também fazem sentido no somar com o roteiro, enriquecendo mais ainda a metodologia de narração e montagem de cenário. É uma dinâmica muito, mas muito diferente das quais estamos acostumados no ocidente. A riqueza cultural e o que esse pátio de cinema tem para ensinar ao ocidente é uma coisa fora de série, e que merece bem mais atenção do que tem recebido.  Don (2006) não é o original, nas sim um remake de um aclamado filme também indiano e de mesmo nome de 1978, no qual o astro Amitabh Bachchan era o protagonista.

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Um dos pontos mais fortes de Don é sua trilha sonora. Eu mesmo não sou exatamente fã do gênero de músicas que se aplicam neste filme, mas a sonorização eletrônica com sintetizadores mixando grooves de guitarras pesadas e pontuais, belas marcações de contrabaixo, e até mesmo violinos, criam uma atmosfera sensacional dos clássicos conceitos de espionagem característicos do mundo de Ian Fleming. O sentimento eufórico é esse mesmo, Goldfinger (1964), Skyfall (2012), GoldenEye (1995). É cara, é nesse nível mesmo que espero você ser capaz de imaginar, só que como expliquei, isso se perpetua por todo o decorrer do longa. A busca por incorporar elementos narrativos em trilhas é sempre algo muito delicado. A probabilidade de se transformar num puro musical ou mesmo beirar a galhofa é sempre grande. Um risco enorme. Mas se trata de cinema indiano, meu amigo. Bollywood, Tolywood, não importa, quando se trata de gerenciamento artístico, até mesmo a Disney suga daqueles cantos, quem já consome esse tipo de material sabe do que estou falando. Segue uma amostra:

COMENTÁRIOS COM SPOILERS
Com um roteiro sensacional vemos algumas referências, intencional ou não, a filmes como A Outra Face (1997) ou clássicos da série Missão: Impossível. Tramas complexas de perigo onde a verdadeira identidade por ser revelada é um motivo de tensão, sempre é algo divertido. Aqui temos um frio e debochado vilão, que boa parte do filme assume o protagonismo central, e não compreendemos claramente se estamos assistindo um filme normal onde o vilão será derrotado, ou se homenageamos justamente o lado errado apenas por ele ser, mesmo que ainda errado, muito carismático. Tarda um pouco, embora o filme tenha realmente todos os arcos bem longos, mas Don finalmente é capturado pela polícia. Dado-se isso o que vemos é um absoluto show de interpretação. Don e seu sósia são o mesmo ator, óbvio, mas a personalidade do dois personagens são coisas completamente diferentes, totalmente opostas. Daí temos Vijay a pedido da polícia sendo treinado para incorporar o então vilão morto, e assim ajudar nas investigações no mundo perigosíssimo da máfia. E é nessa transição que o cara mostra sua habilidade. O crescente de transformação é algo sensacional, o cara humilde e inseguro que se molda num divertido, caótico e presunçoso vilão, quase um Coringa. E o final cara! Que desfecho é aquele? Sensacional! Não vou nem comentar nada (mesmo aqui sendo área de spoilers), porque para quem assistiu não é preciso explicação, e esse é o supra sumo plot twist de Don!

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ELENCO E FICHA TÉCNICA
Shah Rukh Khan, Priyanka Chopra, Arjun Rampal, Boman Irani, Isha Koppikar, Om Puri, Kareena Kapoor, Pavan Malhotra, Rajesh Khattar, Tanay Chheda, Satyajit Sharma, Chunky Pandey, Sushma Reddy e Diwakar Pundir compõem o elenco. Baseado em Don (1978) que fora criado por Salim-Javed, Don (2006) é um remake do consagrado longa que se tornaria definitivamente uma franquia. Produzido por Ritesh Sidhwani e Farhan Akhtar, esta é uma superprodução dirigida pelo próprio Akhtar. Don é produzido nos estúdios da Excel Entertainment, e tem distribuição da Eros International. Venceu o Neuchâtel International Fantastic Film Festival na categoria de melhor filme asiático, e foi indicado a diversos outros prêmios, como o 1st Asian Film Awards, 52nd Filmfare Awards e 8th IIFA Awards. Seu orçamento foi de ₹38 crores, e teve uma arrecadação de ₹106 crores.

CONCLUSÃO
Num ritmo excelente de roteiro Don se desenvolve em seus extensos 168 minutos, ter uma montagem longa é uma característica da maioria dos filmes indianos, e nesse não é diferente. Mas vamos lá, Don é para que tipo de público? Primeiro precisamos entender que a cultura aqui é outra, muito diferente da nossa no Brasil. Então não cabe ficar julgando conceitos por identificar estranheza, apenas sente no barco e curta como o mar navega. Tem vezes que é bom esse desprendimento crítico e simplesmente entrar no jogo, acredite, quando você der conta já é um adepto da grande Bollywood. Ação, comédia, romance, boa música, boas atuações, e por fim um pouco mais de ação. Assim eu defino Don, filme que tem uma continuação conhecida simplesmente como Don 2, ou Don 2: The Chase Continues de 2011, e no fim de dezembro de 2019 foi lançado Don 3: The Chase Ends. Com classificação etária de 16 anos, Don está disponível no catálogo Netflix, bem como sua continuação.

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BHAVESH JOSHI SUPERHERO (CRÍTICA)

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SINOPSE
Três jovens amigos, Bhavesh, Siku e Rajat, não se conformam com os problemas gravíssimos da cidade onde vivem. Estão sempre participando de levantes contra a administração pública, e protestam contra a corrupção institucionalizada. Mas eles não param por aí, seja vindo do governo ou mesmo do cidadão comum, não importa, se são atitudes erradas, então elas precisam ser repreendidas. E para engajar ainda mais apoio da população, dois deles, Bhavesh e Siku, os mais empenhados pela causa, decidem criar um canal no Youtube, no qual divulgariam o flagrante das irregularidades encontradas. Perseguem todo tipo de infração que prejudique a comunidade, e compartilham de forma didática para que qualquer um possa entender. Porém as coisas vão tomando proporções cada vez mais extremas,  fazendo com que um enorme desastre sirva de inspiração para o surgimento de um implacável justiceiro.

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COMENTÁRIOS
Desperdício, é com essa palavra que inicio o comentário de Bhavesh Joshi Superhero, produção indiana de 2018. Não completamente decepcionado, mas ainda assim um pouco frustrado, prossigo. Sabe aquela satisfação crescente de ver um filme progredir a passos largos, com uma aura ambiciosa, e que se arquiteta para um desfecho épico? Então, é exatamente a sensação que tive. Um filme de enorme potencial, mas que acaba sendo sabotado por um roteiro problemático. Está certo que a referência ao heroísmo vem desde o título, no entanto no seu desenrolar, ao menos da primeira metade, envereda muito por um lado ativista contra o sistema. E não é que ele não busque isso, mas a expectativa com esta combinação, é de estarmos prestes a ver o nascimento de um V de Vingança (2005) indiano. Só que sse personagem que projetamos nunca acontece, e diferente de um idealista politizado com um rico background, o que nasce é uma rasa variação de Batman. Pensando bem, acho que nem isso, o homem-morcego tem grana e infinitos recursos, Siku está bem mais para um Demolidor. E o clichê todo está lá, um cara revoltado em busca de justiça, um esconderijo, um veículo descolado, e seu treinamento por um professor de artes marciais da periferia. Só há um problema, esse personagem não se constrói de forma convincente no decorrer do longa. A causa que ele abraça não era realmente dele, e essa transferência de valor é o maior pecado do roteiro. Este ainda assim é um bom filme, mas que teve seu ritmo muito prejudicado de forma incompreensível. A sensação que fica é dos seus três roteirista não terem se entendido. Sei lá, talvez cada um tenha ficado com 1/3 do trabalho, gerando esse saldo final aí, a projeção de uma intenção que resulta em algo completamente inesperado. E de forma negativa, é claro.

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Visualmente tudo é espetacular, a produção foi muito feliz em seu design e conceito. Fotografia de bom gosto com um certo tom de granulação, trilha sonora excelente, e uma estética geral bastante interessante. Suas atuações são apenas boas, não há ninguém que cause desequilíbrio ou se destaque mais. Uma das coisas mais chamativas é sua qualidade nas cenas de ação, sempre com vigor e realismo nas lutas, perseguições muito bem orquestradas, e tudo feito com a máxima valorização dos efeitos práticos, algo que na minha opinião é sempre digno de aplausos. Infelizmente o filme falha terrivelmente em sua montagem de script, tendo picos de adrenalina muito bons, mas com quedas abruptas e bastante acentuadas. Faltaram umas boas revisadas em seu roteiro, e era só isso que precisava ser feito para termos um filme de ação indiano digno de exportação.

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ELENCO E FICHA TÉCNICA
Harshvardhan Kapoor, Priyanshu Painyuli, Ashish Verma, Shreiyah Sabharwal, Pratap Phad, Pabitra Rabha, Chinmay Mandlekar, Nishikant Kamat, Hrishikesh Joshi, Arjun Kapoor, Shibani Dandekar e Anusha Dandekar compõem o elenco. Dirigido por Vikramaditya Motwane, Bhavesh Joshi Superhero é uma produção indiana de 2018 escrita pelo próprio Motwane em parceria com Anurag Kashyap e Abhay Koranne. A produção é da Eros International e Reliance Entertainment, com os produtores independentes Vikas Bahl, Madhu Mantena e Anurag Kashyap. O selo final de produção é da Phantom Films, e sua distribuição é da Reliance Entertainment com a Eros International.

CONCLUSÃO
Ensaiando ser um filme de super herói mais profundo do que a média, Bhavesh Joshi Superhero é um filme agradável mas que careceu de um roteiro melhor organizado. Ficamos na expectativa de um personagem revolucionário que percorreria a pirâmide da corrupção de forma astuta e não convencional, mas que no fim das contas é apenas mais um justiceiro como muitos outros. Repito, isso não faz deste um produto ruim, mas tinha potencial de ser algo verdadeiramente grandioso. É uma pena, foi uma ideia muito boa que acabou sendo desperdiçada. Com classificação etária de 14 anos, Bhavesh Joshi Superhero está disponível atualmente no catálogo da Netflix.

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BAAHUBALI: O INÍCIO (CRÍTICA)

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SINOPSE
Ao pé de uma gigantesca queda d’água, uma mulher bastante machucada e com uma flecha fincada nas costas, foge com um bebê de dois cruéis soldados. Acaba encurralada nas margens de um rio, sendo obrigada a lutar, e mesmo segurando uma criança, usa apenas uma das mãos para derrota-los facilmente, revelando ser uma hábil guerreira. Tentando seguir em frente, ela cai na água devido a exaustão, conseguindo apenas segurar num galho para não ser carregada pela violenta corredeira. Roga à Shiva por redenção de seus pecados. Pedindo que tomasse sua vida em troca da salvação daquele menino. Coloca-o acima de sua cabeça com o braço erguido, proferindo que ele deve viver para ascender ao trono de Mahishmathi e libertar seu povo. Mahendra Baahubali deve viver! Em sacrifício a mulher submerge, enquanto seus braços permanecem esticados até que o dia amanheça e o bebê seja salvo por membros de uma comunidade próxima.

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Adotado por uma mãe amorosa, ela sempre temeu pelos perigos de sua origem, porém o jovem menino era muito questionador. Mesmo que ela dissesse que ao topo da enorme cachoeira haviam demônios e monstros, ele teimava em querer subir para ver com os próprios olhos, e quando ninguém estava por perto, tentava incansavelmente a escalada. A criança se tornou um belo jovem, e o jovem se tornou um confiante e imponente homem. Sua mãe pedia por Shiva à Shiva, sim, aquele pequeno e frágil bebê recebera o nome de um Deus, Shiva, O Destruidor e Regenerador. Aquele que traz o bem e dá a Vida. Clamando para que o filho deixasse de tentar escalar aquelas enormes paredes, era guiada por Sage, o sábio da vila, a despejar inúmeros baldes de água sob uma pedra que simbolizava Shiva, um Lingam. Então Shiva, o filho, vendo sua mãe se esforçar tanto por suas crenças, quebra todos os paradigmas ao decidir remover aquele pesado monumento do lugar. Todos observavam o que seria um ato de blasfêmia, e relutam crer quando com uma força sobrenatural ele arranca do chão e levanta aquele símbolo sob os ombros. Shiva carrega o lingam enquanto todos os seguem com semblante de estarem assistindo o inacreditável. Inabalável e como se aquele peso não fosse nada, caminha pela cachoeira andando nas pontas dos pés, até repousar o emblema diretamente abaixo da queda d’água, onde Shiva poderia receber banho incessantemente. Toda a comunidade, e até sua mãe, ficaram orgulhosos em confiar que agora as bênçãos à todos seriam inesgotáveis.

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Uma máscara então cai da cachoeira, do lugar proibido onde Shiva não deveria ir. Agora, mais tentado do que nunca, é guiado e incentivado pela ilusão de uma belíssima mulher. Ele escala, inspirado por deuses. Cai novamente e volta a se levantar, várias vezes. Mas persistente e incansável, ele chega ao topo. Shiva vislumbra a mesma mulher de seu sonho acordado, só que agora ela foge de uma horda de sanguinários soldados por meio uma floresta escura e sombria. Acompanhando para tentar entender a situação, quase interfere, quando de repente ela se junta a outros guerreiros e derrota aquele pequeno exército. Continuando a se mover nas sombras ele mantém investigação, até que o grupo se reúne numa caverna, onde planejavam um novo ataque para libertar uma tal de Devasena. Então todos colocam máscaras como aquela que ele encontrou. Shiva estava em meio à uma revolução. E mal sabia ele que seu destino era de suma importância para a vida daquelas pessoas. Baahubali!

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COMENTÁRIOS
Não sou grande fã de filmes como Ben-Hur (1959), Tróia (2004), ou mesmo os com mais fantasia como a franquia O Senhor dos Anéis. Assisto e gosto sim, mas não sou do tipo que vira fã e precisa ver mais do que uma vez. No entanto acabei seduzido por essa obra do gênero sem nem perceber. Baahubali: O Início é um épico indiano que mistura elementos do hinduísmo com mitologias de outras culturas, e cria uma aventura sem precedentes para o cinema. A fascinante história criada por K. V. Vijayendra Prasad, conta a aventura de Shiva, uma criança que sobrevive graças ao sacrifício de uma mulher, e que sente dentro de si uma predestinação incontrolável. Contar detalhes sobre a trama é estragar as surpresas, e essa é um conto que tem muitas delas.

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Baahubali: O Início não é um filme perfeito, ele passa longe disso. A produção indiana acerta em muitas coisas, a começar pelo seu roteiro, mas falha um pouco nos aspectos técnicos visuais. Eu não sei precisar a razão, talvez seja devido ao orçamento não ser tão alto quanto a de produções ocidentais, o estúdio não ser competente, ou mesmo por prazos apertados, mas as cenas em computação gráfica em vários momentos são terríveis! Dão a aparência de videogame! Chegando a incomodar em tomadas com animais renderizados. Mas quando acertam a mão, o resultado é fabuloso! A cena com a cachoeira no começo do filme são de cair o queixo! Sim, aquilo tudo é feito em fundo verde! Essa inconstância no uso de CG que pecou um pouco, fazendo o filme não ser digno de uma nota 10. Porém são tantas as outras coisas maravilhosas no longa, que essas deficiências são completamente esquecidas.

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Os filmes indianos costumam ter peculiaridades bem interessantes, sendo uma delas as tradicionais dancinhas com a galera reunida. E em Baahubali: O Início isso não é diferente. O épico é recheado de momentos musicais cheios de charme e estilo, criando ainda mais a atmosfera carnavalesca que não se envergonha em momento algum de se esforçar para mostrar. Eu realmente não entendo o preconceito de algumas pessoas em criticarem tradições e formas de artes estrangeiras, afinal, não precisamos compreender os motivos delas serem como são, mas apenas ver o esforço dedicado em criar essas emoções e sensações, já é razão de sobra para respeitarmos a paixão com que expressam sua cultura. Recebo esses momentos musicais dos filmes como se visse uma produção da Disney, não ofende, não estraga, e é um elemento extra para ser apreciado.

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EXPLICAÇÕES COM SPOILERS
Após Shiva retornar para Mahishmathi para libertar sua mãe, que havia sido presa por vinte e cinco anos após a traição de Bijjaiadeva contra a Rainha Sivagami, ele ainda precisava entender sua origem, então Kattappa, o fiel protetor da realeza, lhe conta como chegaram naquele determinado momento. Bhallaladeva era filho legítimo de Sivagami com Bijjaiadeva, este último, irmão do Rei Maharaja Vikramadeva, fundador de Mahishmathi. Bijjaiadeva não foi coroado devido a sua natureza injusta, mas ele culpou apenas a deficiência de sua atrofia em um dos braços como o verdadeiro motivo, o que lhe causou um grande rancor. Maharaja Vikramadeva morreu quando sua esposa, a Rainha Devasena, estava grávida de seis meses. Davasena passou os próximos três meses chorando, e Sivagami, a cunhada do rei, tomou as rédeas do reino. Ela então destinou que as duas crianças deveriam ser criadas como irmãos, se preparando como princípes para que um dia pudessem provar quem teria a honra e sabedoria de liderar Mahishmathi. Os irmãos cresceram e se tornaram poderosos guerreiros, e numa provação final, deveriam liderar a defesa do reino contra um gigantesco ataque. Aquele que eliminasse o líder dos inimigos, provaria o seu valor, e seria condecorado com rei através da palavra final de Sivagami. Durante as negociações com o exército hostil, a rainha teve sua honra manchada pelo discurso sujo do chefe inimigo, Kalakeya e, exigiu na cólera do momento, que o queria morto, mas sofrendo lentamente. Beirando o fim da batalha, Baahubali capturou e subjugou o líder dos algozes, arrastando-o ferozmente respeitando o pedido de sua mãe. No entanto Bhallaladeva, num ato de desespero por provação, mata Kalakeya, e Baahubali sendo leal ao irmão, demonstra que aquilo não é um problema para ele.

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Terminada aquela guerra, Sivagami proclama: Bhallaladeva como Comandante das Forças Armadas de Mahishmathi, e Baahubali como o novo Rei. Os méritos para ser um rei, não é quantas pessoas se é capaz de matar, mas sim quantas é capaz de salvar, palavras de Sivagami em resposta aos protestos de inconformação de Bijjaiadeva quanto a sua decisão. Se você for capaz de matar muitas pessoas, você será considerado um grande guerreiro, mas se você salvar uma única pessoa, você será considerado um Deus. Essa é a palavra de Sivagami, e a palavra da Rainha é Lei. E Shiva, quem era ele? Shiva era Filho de Shivudu Baahubali, Aquele Fiel que fora traído por seu amigo e mentor, Kattappa.

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EXPLICAÇÃO DA FILOSOFIA (COM SPOILERS)
Deixo claro que esta é uma obra tão bonita e rica que merece ter aberta suas várias interpretações, e esta é humildemente a minha. Utilizando de pelo menos duas mitologias, que identifiquei, K. V. Vijayendra Prasad criou um épico que traz o conceito comum à várias culturas e seus personagens de cultos, onde Shiva faz parte de uma Trindade chamada Trimûrti. Segundo a doutrina hindu Ela seria formada por Brahma, o Deus da Criação, Vishnu, o Deus da Preservação, e Shiva, o Deus da Regeneração e Destruição, o que se comparado à Santíssima Trindade do catolicismo, Brahma seria o Pai, Vishnu o Filho, e Shiva, o Espírito Santo.

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“Shiva é Filho do Salvador, Amarendra Baahubali. O Bálsamo de Devasena que profetizara inabalavelmente pelo Seu retorno. O fruto do Sacrifício Final da Rainha Mãe Sivagami.” Como previsto por Sivagami, Shiva ascendeu e retornou por Mahishmathi, regenerando para um novo ciclo que mais tarde se contaminará e precisará ser destruído novamente. Em momentos diferentes do filme ele traz um bindi diferente na testa, a pequena pintura vermelha feita com vermilion (sulfato de mercúrio vermelho brilhante finamente pulverizado). Por vezes é o símbolo de uma lua crescente, que representa a evolução, as mudanças de paradigmas, o abandono da letargia para buscar mais um renovado conceito de um ciclo infinito. Por outras vezes o desenho é de uma naja, a mais poderosa das serpentes. Significa que Shiva dominou a morte e tornou-se imortal.

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Um personagem importantíssimo é Kattappa, escudeiro da família real, aquele que fizera a promessa a Maharaja Vikramadeva de cuidar de sua sucessão. Este é um dos personagens mais complexos e essenciais para o entendimento da filosofia por trás do ciclo de Regeneração e Destruição. Assim como Judas Iscariotes do cristianismo, fora escolhido para ser aquele que carregaria o fardo de levar a culpa pela morte do Filho do Homem, Vishnu, simbolizado por Maharaja Vikramadeva, pai de Shiva. Seu bindi na testa representa o de um escravo, corroborando com a ideia daquele portador do peso da Providência. Fechando com este, o conceito do catolicismo, a última e segunda linha inspiracional utilizada pelo genial K. V. Vijayendra Prasad.

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ELENCO E FICHA TÉCNICA
Prabhas, Rana Daggubati, Anushka Shetty, Tamannaah, Ramya Krishna, Sathyaraj, Nassar, S. S. Rajamouli, Rohini, Meka Ramakrishna, Tanikella Bharani, Adivi Sesh, Prabhakar, Sudeep, Nora Fatehi e Scarlett Mellish Wilson compõem o elenco. Criação de K. V. Vijayendra Prasad, Baahubali: O Início, teve seu roteiro compartilhado com o também diretor e ator do longa S. S. Rajamouli. A superprodução indiana de 2015 é produzida por Shobu Yarlagadda e Prasad Devineni, utilizando os estúdios da Arka Media Works. M.M. Keeravaani é um consagrado compositor indiano, e é o responsável pela belíssima trilha sonora. Seu orçamento foi de 28 milhões de dólares (₹1.8 bilhões), e teve um faturamento de 101 milhões (₹6.5 bilhões). O épico indiano de S. S. Rajamouli, é a primeira parte de uma duologia.

CONCLUSÃO
Baahubali: O Início é uma viagem à um mundo de fantasia onde precisamos nos desatar dos nossos conceitos e aceitar as metáforas como elas são. Se nos ocuparmos julgando seus elementos conceituais nos baseando em nossa cultura ocidental, não iremos apreciar absolutamente nada nesta aventura. Não é um filme feito para te fazer pensar, é uma filme para te fazer sentir e se inspirar. É uma obra que transborda princípios morais sem te fazer entrar numa paranoia política infrutífera. Sua beleza está na estética visual e simbólica de contar a aventura de um homem na sua busca por justiça e libertação. Particularmente julgo este ser um filme obrigatório para qualquer cinéfilo que queira ser levado à sério. Baahubali: O Início funciona sozinho, mas na verdade é a primeira parte de uma duologia. Sua classificação etária é de 16 anos, mas pode tranquilamente ser assistido por uma criança por volta dos 12 na companhia de um responsável. Tenha um excelente filme!

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JOGO NA ESCURIDÃO (CRÍTICA)

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Embora este filme tenha sido classificado como 16 anos, acredite em mim, ele deveria ter sido listado como 18.

SINOPSE
Uma onda de assassinatos sádicos contra mulheres vem ocorrendo no ano de 2017, e retratando um destes episódios, o novo longa indiano de suspense psicológico inicia. A cena de abertura é pesadíssima, utilizando a filmagem da câmera de um doentio serial killer enquanto ele espreita o momento de descanso de uma moça. Despercebido ele entra na casa onde se mantém oculto nas sobras até que ela adormeça. As imagens que se seguem mostram o quanto grotesco e desumano alguém pode ser com outro, os detalhes são excessivamente macabros e inenarráveis. O resultado é termos uma jovem assassinada, decapitada e com seu corpo incinerado.

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Um ano se passa após essa morte, e acompanhamos os dias de Swapnam, uma designer e desenvolvedora de jogos que luta contra um trauma de seu passado recente. A jovem mulher mora numa casa bem aparelhada, na qual Kalamma cuida de suas necessidades pessoais diárias, e Anwar cuida da segurança na portaria do imóvel. Swapnam traz consigo um grande trauma, que faz a moça não conseguir se manter em ambientes de escuridão, e isso cada vez mais prejudica sua qualidade de vida. No seu pulso esquerdo ela traz uma pequena tatuagem de um coração com um controle de videogame no meio, mas o que ela não fazia ideia, é que na pigmentação da tinta fora misturado cinzas de uma pessoa morta. E isso seria a chave para bizarras coisas que sucederiam.

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RESUMO COMENTADO E COM SPOILERS!
Jogo na Escuridão é um filme atípico. Vendido pela Netflix como um filme de terror, a produção não traz verdadeiramente elementos para essa classificação. O que temos é uma obra de drama e suspense com grande peso na tensão psicológica. Swapnam é uma personagem mal explorada pelo roteiro, que em sua sinopse enfatiza a descrição de uma designer de games, mas tem isso como completamente irrelevante para o desenrolar da trama. Seus traumas são relembrados em todo momento do longa, e entender como desenrolou isso faria total sentido para compreender a grandeza do que ela precisava superar. Mas não, o roteiro não colabora em momento algum para dar clareza à nada. Basicamente passamos mais da metade do filme acompanhando a jovem em suas sessões de terapia para aprender a lidar com seus medos.

A tatuagem que havia feito no pulso começa a doer inexplicavelmente, então ela volta ao estúdio onde havia feito para tentar entender o que poderia ser a causa. Mais de um ano tinha passado desde a aplicação, então não fazia sentido uma reação agora. Até a tatuadora que atendeu fica sem entender, porém ela revela algo delicado. Haviam pessoas que traziam as cinzas de seus entes queridos na intenção de misturar na pigmentação. A ideia era de levar algo da pessoa amada sempre consigo. E o que ocorreu, é de ela ter confundido, e usado uma destas tintas no pulso da jovem. Swapnam fica indignada com absurdo do que ouve, era inaceitável a condição de ter algo de uma pessoa morta presa ao seu corpo.

Voltando à sua rotina, Swapnam vai empurrando a vida com a barriga, até o momento qual enfrenta a situação desconfortável de ao entrar numa cafeteria ser reconhecida por dois homens. Os rapazes conseguiram identificá-la como a mulher amarrada de um vídeo. Os dois comentam em tom de zombaria ser realmente ela, e isso não faz sentido algum. Porque alguém acharia graça da desgraça de uma mulher dessa maneira? Fica aí ainda mais um motivo para se compreender o que ocorreu de tão grave um ano atrás, e que gera tanta dor para ela. Mas não importa, o filme fecha e isso realmente não é elucidado.

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Durante um dia de terapia Swapnam está esgotada, não aguenta mais e se entrega as dores. Salta de um edifício procurando a morte, mas não adiantou, aquela ainda não era sua hora. A jovem fica bastante machucada, quebra alguns ossos e passa a andar de cadeiras de rodas. A gravidade da sua saúde também não é explicada, portanto não sabemos também se o fato de não poder andar é apenas uma situação momentânea ou permanente. E se antes seu psicológico era terrivelmente afetado, agora ele estava em migalhas por estar ainda mais impotente.

Certo dia Swapnam recebe uma visita. Era uma mãe, justamente a mãe da jovem moça que tinha sido brutalmente assassinada no começo do filme. Ela conta sua história, e explica o quanto sua filha era uma pessoa forte que lutava pela vida. Vinha numa longa batalha contra o câncer e mesmo assim nunca se abatia. Em comemoração sua última vitória contra a doença, combinaram de fazerem juntas uma tatuagem. Mas a jovem não teve tempo, foi morta antes que pudesse cumprir a promessa. Por conta desse pedido da filha que a mãe em sua homenagem decidiu fazer essa “tatuagem rememorativa”, o nome que o estúdio deu pra técnica.

Tal revelação fez mudar completamente as coisas. Saber que por trás daquela marca havia o sangue de uma guerreira te trazia coragem. Só não ficou claro ainda o porque daquelas pontadas de dor, mas sem tardar ela entenderia. É chegada então a noite qual o caos invadiria completamente sua vida. Aquele mesmo cara que matou a jovem do começo, e que na realidade não era apenas um, mas pelo menos três homens, haviam matado o vigia da portaria e agora tentavam entrar na casa.

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FINALMENTE ALGUNS PORQUÊS
MAS NÃO TODOS (+SPOILERS!)

Assim que um assassino entra Swapnam percebe que no seu braço surgiram mais duas tatuagens, totalizando assim três corações. A jovem ainda não entendia o que aquilo queria dizer. A ação desenrola rápido, o homem entra, mata Kalamma, e em seguida alcança Swapnam. Numa cena arrepiante ele corta a cabeça da jovem, e isso pela ótica da própria vítima! Uma boa sacada da direção onde escondeu o grafismo de um gore que não se encaixaria no todo, mas manteve a carga de peso do ato cruel. Pensamos: sério, o filme acaba assim? Não, ele continua.

Como num jogo, Swapnam perdeu uma vida. Ela descobre isso olhando para o seu pulso onde haviam três corações e agora restavam dois. Inserida na partida ela tenta tirar melhor proveito da situação para se safar daqueles assassinos. Mais uma vez não consegue. Até chega a ativar a polícia mas tudo dá errado, desta vez ela é morta queimada dentro de uma viatura da polícia enquanto era evacuada de casa.

Pronto, restava apenas a última ficha. Quer dizer, coração. Swapnam joga diferente. Antes seu trauma vinha atrapalhando na sua desenvoltura para sobreviver ao ataque. Então era questão de vida ou morte. E não só dela, mas de Kalamma também. Ao ouvir o primeiro ruído dos invasores ela mantém o controle. Com grande esforço e inspirada na menina que de alguma forma sobrenatural lhe ajudava, manteve a calma e não entrou em pânico quando as luzes se apagaram. Seguindo a regra de manter a racionalidade, eliminou um à um aqueles psicopatas. Se salvando e mantendo a vida de Kalamma. O vigia, bem. Esse não teve sorte mesmo. Já estava morto antes do checkpoint.

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ELENCO E FICHA TÉCNICA
Taapsee Pannu, Vinodhini Vaidyanathan, Anish Kuruvilla, Sanchana Natarajan, Ramya Subramanian, Parvathi T., Maala Parvathi, David Solomon Raja, Indrajith, Subramanian, Soorim, Capt KRC Pratap, Vignesh Shanmugham e Joshua Miller compõem o elenco. O roteiro é de Ashwin Saravanan e Kaavya Ramkumar, e a direção de Ashwin Saravanan.

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CONCLUSÃO
Jogo na Escuridão é um filme com muitos furos no roteiro. Apresenta vários elementos na trama mas não os desenvolve, e isso acaba prejudicando as reflexões comuns de filmes desse gênero. A obra gera inconstância, as vezes caminhando bem e as vezes batendo justamente nessas falhas. De qualquer forma, e mesmo com esses defeitos, ainda é uma filme que vale à pena ser visto. Nos seus pontos positivos ele segue bem, trazendo a sensação constante de agonia e impotência em situações sinistra. A produção é original da Netlix e já está disponível na plataforma. Tenham cautela com as crianças, esse não é um filme adequado para elas.

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