O RAPAZ E O MONSTRO (CRÍTICA)

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Ren é uma criança que perde a mãe num momento onde seu pai tinha recém abandonado a família. Então parentes que pouco se importavam surgem para assumir sua guarda legal. Num surto de raiva por ver sua vida despedaçada, ele foge de casa e começa a vagar desnorteado pelas ruas de Shibuya, quando é encontrado e provocado por um personagem misterioso. Ren então o segue e acaba entrando num mundo paralelo onde todos que lá vivem são humanoides com características de animais. Ele encontra Kumatetsu, um monstro fracassado e mal-humorado que nunca consegue manter um aluno sobre seus ensinamentos. Juntos desenvolvem uma inusitada amizade onde todos saem ganhando.

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De um lado temos um jovem inocente e de coração puro que precisa apenas de alguém se importando um pouco com ele, e de outro um brutamontes grosseiro que não se importa com nada além de querer respeito da sociedade em que vive e ser o sucessor como senhor do seu reino. Por ironia do destino os dois acabam se encontrando, fazendo nascer um elo de mestre e pupilo onde os dois tem muito o que aprender. Ren é uma criança responsável para sua idade mas complexado por se sentir frágil demais, e Kumatetsu é o seu exato oposto, irresponsável mas excessivamente seguro de si. As limitações de um são exatamente a força do outro, e num exercício conjunto os dois aprenderão que os obstáculos só existem para ser transpassados.

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O anime é um longa metragem de 2015 do diretor Mamoru Hosoda produzido pelo Studio Chizu, e traz o ar fantástico de clássicos do Studio Ghibli como A Viagem de Chihiro e O Castelo Animado. Hosoda tem em seu currículo alguns trabalhos conhecidos, como Summer Wars, Okami Kodomo no Ame to Yuki, e a série Digimon. Por O Rapaz e o Monstro foi premiado em 2016 como Melhor Animação do Ano nos Prêmios da Academia Japonesa, e teve críticas favoráveis da mídia especializada.

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Trazendo um trabalho de arte maravilhoso, com traços simples e bonitos nas animações ao mesmo tempo que detalhados nos backgrounds realistas, o anime encanta com sua beleza. Fiquei espantado com a complexidade de cenas onde se acumulavam muito movimento de uma só vez, como acontece na retratação urbana de Shibuya e na colorida Jutengai. As coreografias de lutas também são de qualidade espantosa, mostrando uma fluência e leveza que só podem ter sido adquiridas por captura. Eu não cheguei a confirmar essa informação, mas as movimentações são perfeitas demais, e caso tenha sido um trabalho inteiramente manual, merece mais aplausos ainda. A trilha sonora é fenomenal, se adequando precisamente ao sentimento de cada momento do anime. Mamoru Hosoda fez um trabalho incrível e que deve ser levado ainda mais ao conhecimento das pessoas.

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O Rapaz e o Monstro explora o amadurecimento numa aventura mágica, que pode e deve ser apreciado por pessoas de qualquer idade. Devido ao plot principal ser simples, fiquei com receio de entrar em mais detalhes e estragar a experiência de vocês. O filme está disponível atualmente na Netflix, então não perca a oportunidade de experimentar essa aventura de fantasia que ensina sobre confiança e amadurecimento.

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UM FIM PARA O BATMAN? (HQ)

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A morte não é o fim. Pelo menos quando se trata de heróis ou vilões de histórias em quadrinhos (HQs). O ciclo de renascimentos de protagonistas e antagonistas confere sempre uma renovação, um retorno às origens ou mesmo uma guinada totalmente surpreendente nos rumos da história. Por vezes o fim da vida de um herói pode se prestar a reflexões filosóficas não só do próprio personagem, mas refletir nossa própria forma de ver o mundo e a tensão entre o bem e o mal. Nesse sentido, Neil Gaiman parece realizar a proeza de filosofar em torno do personagem da DC mais sombrio (para mim o melhor, também). O que aconteceria se o homem-morcego de Gothan City tivesse morrido?

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O QUE ACONTECEU AO CAVALEIRO DAS TREVAS?

Para o escritor e roteirista inglês Neil Gaiman, ter a chance de escrever sobre a morte do Batman culminou o fechamento de um ciclo, tanto pessoal como profissional. Não que ele fosse um roteirista comum da revista Detective Comics: ele fora convidado para criar a última história dessa tiragem de quadrinhos. “Eu poderia realmente escrever a última de todas as histórias”, afirmou empolgado, Gaiman. Para o roteirista era ter em mãos o personagem que primeiro lhe inspirou a carreira nos quadrinhos, visto que sua paixão inicial fora o Batman de Adam West, da série da década de 1960.

022_02Quando o editor Dan DiDio entrou em contato com Neil Gaiman, o quadrinista viu a oportunidade de fazer aquilo que Alan Moore fizera com o Super-Homem em O Que Aconteceu ao Homem de Aço?, que funcionou como uma espécie de fechamento tanto das HQs Superman quanto da Action Comics. Mas a abordagem de Gaiman tinha que ser fiel à trajetória do Cavaleiro das Trevas e foi essa reflexão que guiou as linhas de O que aconteceu ao Cavaleiro das Trevas?

“As histórias do Batman não terminam com sorrisos e piscar de olhos. Batman sobreviveu a muitas eras e irá, certamente, sobreviver a muitas outras. Se você estiver pensando em contar a última história do Batman, tem de ser algo que sobreviverá à morte ou desaparecimento atual do Batman, algo que continuará sendo a última história do Batman pelos próximos vinte ano, ou cem”, afirmou quadrinista inglês. Ele ainda completa:

“Por que se tem uma coisa que Batman é, é um sobrevivente. Ele ficará rondando por aí depois que todos nós partirmos. Então, o que poderia ser mais apropriado do que a história de sua morte?”

Assim, com o traço primoroso de Andy Kubert, Gaiman intentou contar a última de todas histórias do Batman. Um projeto que ao mesmo tempo filosofa sobre a ligação intrínseca entre o Cavaleiro das Trevas e Gothan City, sua gênese e seu fim, ao mesmo tempo que homenageia grandes artistas que fizeram a história de Batman ao longo dos anos.

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BAT-VELÓRIO (Spoilers!)

Por meio da consciência do Batman (ou alma, entidade ou sei lá) somos conduzidos ao seu funeral. O local é o Beco do Crime, no fundos do bar, caindo ao pedaços, do morto Joe Chill que recebe Seline Kyle, a Mulher-Gato, com trajes da década de 1960. No entanto ela não é a única convidada. Aos poucos outros personagens chegam para o velório e assim se misturam não só os traços de outros desenhistas, imitados com maestria por Kubert, mas também enredos de histórias célebres do Homem-Morcego. Aqui aparece o Charada do seriado de Adam West, a Bárbara Gordon paraplégica e o Coringa da Piada Mortal de Alan Moore (1988), Arlequina da série animada da Warner (1992-1995), entre outros. Aqui, percebe-se o tom do enredo: os tempos, as realidades, os diversos Batmans e seus vilões, que desfilaram ao longo dos tempos e prestam suas condolências.

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Esta graphic novel é dividida em duas partes. Vemos, na primeira sessão, dois contos para a morte de Batman. Inicialmente, Selina Kyle sobe ao púlpito e conta suas memórias de como o herói teria morrido. O Conto da Mulher-Gato é narrado como uma história de amor malsucedida e, à medida que a narrativa evolui, dos traços de seus criadores Bill Finger e Bob Kane, até seus representantes mais modernos, conhecemos as idas e vindas do casal. A causa da morte, segundo Selina, fora sua omissão de socorro ao receber Batman em sua loja. Ressentida de não ter sido amada, deixou-o morrer após ter sido baleado.

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Já Alfred, o fiel e talvez ator-mordomo, toma a palavra e mostra como teria arquitetado todas as aventuras do Batman. Com a ajuda de uma trupe de atores, teria forjado todos os episódios a fim de ajudar o jovem e depois adulto Bruce Wayne a superar a morte de seus pais. Em O conto do cavalheiro de um cavalheiro, Neil Gaiman homenageia a série de TV que alegrara sua infância ao enfatizar que a história do heróis não passaria de uma fantasia do teatro ou televisão. Nesta versão, Batman teria morrido ao descobrir que toda sua vida fora uma grande ilusão. Ao tentar resgatar crianças sequestradas pelo Charada, desafiou o vilão a atirar nele. Pensava que era mais uma grade farsa de Alfred, mas não era. Morreu com um tiro no rosto, à queima-roupa.

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A versão de Selina remete ao fim de Robin Hood na literatura e, a de Alfred, a uma farsa motivacional. Mas qual a versão verdadeira? Nenhuma. Eis o fim da primeira parte. Fecha-se com o tiro do Charada, o maior enigma permanece: o que aconteceu ao Cavaleiro das Trevas?

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PARA ALÉM DA MORTE (ainda tem spoilers, viu?!)

O fluxo da consciência, a voz interior do Batman, observa seu funeral e o desfile de inúmeras versões para a sua morte contadas por inimigos e aliados. Robin (do ator Burt Ward), a certa altura, diz que “… ele era santo. Nunca desistia, haja o que houvesse, e fazia um milagre atrás do outro… até finalmente morrer por nós”. O messias de Gothan (uma clara alusão ao cristianismo) é também uma referência ao homem-morcego que escapava ao final de cada bat-episódio e que o jovem Gaiman deveria esperar para ver a conclusão na semana seguinte.

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Batman se reconhece nestas narrativas, discorda, entre em conflito consigo e trava diálogo com outra voz misteriosa. A porta se abre e se vê conversando com sua mãe, Martha Wayne. Questiona-se se está morto, racionaliza se não é uma Experiência de Quase Morte (EQM), e experimenta sua vida passar diante dos seus olhos, como o amor das mulheres ou a ruína pelas mãos de Bane. A luta, a jornada é o que interessa. “O final da história do Batman é sua morte“, conclui o herói, “Pois, se o Batman não morresse no fim, o que mais iria fazer? Aposentar-se e jogar golfe? Não é assim que funciona, não pode. Eu luto até cair. E um dia vou cair“.

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CONCLUSÃO: NIRVANA IMPERFEITO

Não, não tocará o som violento da banda de Kurt Cobain ao final da história. É o termo “nirvana” que nos interessa para fechar essa resenha crítica. Nas palavras de Buda:

“É um lugar que está perto, mas difícil de alcançar. Neste lugar não há velhice, morte, sofrimento, doenças. Libertação da morte ou perfeição, é o que chamamos de Nirvana. É este um lugar feliz, pacífico, que alcançam os grandes sábios. É um lugar eterno, mas difícil de alcançar. Os sábios que aí chegarem estão livres das penas; no Nirvana, os sábios chegaram ao termo do curso de sua existência.”

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Assim Batman nasceu para Gotham. Nasceu para a luta constante que a cidade violenta e febril encerra. Desde o útero esteve predestinado ao bat-sinal. E no final, não a morte, mas o nascimento. Um novo ciclo se inicia para Cavaleiro das Trevas ressurgir e lutar pela justiça. Ele não alcança o nirvana, não quebra o ciclo das reencarnações. Seu lugar de paz, junto a sua mãe, é a possibilidade de retorno. Pois como o próprio Gaiman disse, linhas acima, o morcego de Gothan continuará a voar, salvar o dia, fazer milagres quando nós não mais estivermos aqui.

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O REI LEÃO – FILME DE 2019 (CRÍTICA)

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Quando era pequeno não costumava ir muito no cinema, lembro de ter visto alguns filmes dos Trapalhões, Aladdin, Independence Day, O Quinto Elemento, e o filme que será gatilho para esta resenha, O Rei Leão. Salvo engano, terem sido só esses mesmo. Isso significa que são 25 anos de distanciamento do desenho original, sendo assim considero estar livre de qualquer comparação exagerada ou preconceito bobo. Se tem coisas que eu me recorde nesses anos todos, é porque realmente deve ter me marcado. E eu lembro, mesmo tendo visto uma única vez no cinema quando tinha 10 anos.

Timão e Pumba

SPOILER ALERT!
Não sei o que seria spoilers pra esse filme, pois acredito que até as crianças pequenas já fizeram o aquece assistindo o antigo para ver o novo live action no cinema. Então deixo avisado, esse texto será um spoiler gigante, e se realmente não assistiu o desenho e nem o novo filme, procure qualquer outra coisa do site pra ler, pois esse texto não é pra você. Estou escrevendo cerca de duas horas após ter saído do cinema, está tudo bem fresquinho na cuca e já deu tempo de fazer a reflexão para ter as impressões. Então vamos lá, seja educado e coloque seu celular no silencioso porque o filme já vai começar!

Rei Leão

 

No início logo de cara você vê que as cenas, e até as transições de câmera, são exatamente as mesmas do desenho original. A sensação é de estar assistindo uma montagem com cenas do National Geographics nas savanas africanas tentando imitar a antiga versão. Cinegrafistas da vida selvagem ficaram 20 anos capturando as cenas ideais para se adequar exatamente aos takes clássicos. E isso chegava a deixar confuso, você se distrai em reflexões tentando entender se aquilo é uma filmagem de verdade ou uma animação em CG, sério mesmo. A coisa é mais real que o mundo real. Depois daquilo não duvido nossa existência ser totalmente uma simulação. Credo. Os animais não eram caricaturizados, ou seja, os leões não tinham expressões faciais comuns à qualquer animação, eram nitidamente animais selvagens sem qualquer pitada de humor. Para não ser incoerente, apenas o Simba parecia fazer alguma feição de sorriso, mas tenho quase certeza de que era só impressão minha.

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Decretado! E ponho a mão no fogo que qualquer adulto que tenha visto o desenho original vai concordar. O problema do filme era exatamente seu maior mérito, o realismo excessivo. Toda a emotividade da narrativa, as faltas de expressões dos personagens faziam com que você não alcançasse nem de perto o mesmo nível de empatia que o desenho. Na parte em que Mufasa morre, momento que deveria ser o pico dramático do filme, não existia mais emoção. Diferente do desenho, você não conseguia enxergar a carga dramática daquele instante. O Rei Leão morreu. Tá. Agora a gente enterra. Exagerei um pouco mas é quase isso. Haviam apenas as linhas de diálogos para te convencer dos sentimentos dos personagens, e nem mesmo a dublagem ajudava. Não sei o que houve, porque a Disney não tem o costume de dar esses vacilos nas localizações de seus filmes para o Brasil, mas realmente a dublagens estavam muito instáveis. As vezes estavam legais, outras vezes ruins, mas nunca grande coisa. A maioria dos trechos musicais ficaram legais, e isso não é mérito desta nova versão, como eu já disse, todas as coreografias eram na cara dura aproveitada, logo as músicas também. Só teve uma música que me pareceu ser nova, a de quando Simba se convence de voltar para sua terra e corre atrás de Nala, mas é bastante curta, pareceu ter sido até interrompida. Talvez ela estivesse no desenho e tenha sido eu que esqueci mesmo.

Simba

 

Mas vamos lá, até agora eu falei que o filme é diferente, mas não disse ruim. Existem momentos muito bons no filme, e maior parte é relativa à situações cômicas. Os problemas de flatulência de Pumba, Zazu contando histórias familiares, Timão que sem esforço faz rir (acho que qualquer suricato faz rir), e a dupla de hienas idiotas discutindo e brigando por espaço são impagáveis. Esses são os pontos máximos do filme, tirando isso parece um filme que passava antigamente na TV, se não me engano tinha um casal de jovens adolescentes, e também se passava em área de savana. Só sei que nesse filme os animais também falavam, com a diferença de não mexerem a boca. Juro que pesquisei sobre esse filme pra trazer o nome, mas não encontrei nada. Acho que era da década de 60. Eu lembro disso, não estou maluco! Certeza que você também lembra.

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CONCLUSÃO
Tenho duas impressões separadas. Se você é alguém, mesmo que uma criança, que nunca assistiu ao desenho original, a sensação é de estar assistindo um documentário ambientalista. Da forma que o filme funciona, o realismo excessivo inevitavelmente te leva entender que tudo aquilo é real. Que a natureza é linda e funciona por um motivo único, a não depredação desnecessária da vida. Isso é ruim? De maneira alguma! Se O Rei Leão fosse apenas isso, já seria algo maravilhoso, algo louvável de uma produção cinematográfica. Mas se você já assistiu o desenho e foi consumir o live action tendo a consciência de que aquilo é um remake, a sensação é de ter visto um esboço muito bem esboçado. O que quero dizer com isso? Quero dizer que fizeram um trabalho magnífico tecnicamente, algo nunca visto até então em criação computadorizada de ambientes naturais, mas que nem de longe traz a carga emocional que fez crianças chorarem litros nos cinemas. Claro que animais de verdade expressam sentimentos, e até essas expressões realistas estão lá, mas não é como no desenho. O desenho é feito para se comunicar com pessoas, então ele te oferece mecanismos que conseguimos entender de imediato. Você tem um gato em casa ou já teve proximidade com um? Quando você mora com ele você entende sua personalidade, mas se chegar um outro, você consegue saber exatamente qual é a dele? Se você ver um suricato, um javali ou um gnu, você sabe qual é a deles? Então é simples, animais principalmente os selvagens, não evoluíram para se comunicar conosco. O Rei Leão de 2019 é um filme muito bacana, mas muito diferente de O Rei Leão de 1994. Não sei se o live action terá mesma vivacidade do desenho original, porque esse sim, já está entre reis no firmamento.

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TOY STORY 4 (CRÍTICA)

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Pra muita gente o primeiro filme em animação talvez tenha sido o Toy Story original de 1995, mas curiosamente pra mim não foi. Existe uma briga pelo título de primeira animação feita na história, e nesse ringue está Toy Story de um lado, e o não muito conhecido Cassiopeia do outro. E foi com esse último a minha inserção no universo da animação computadorizada, popularmente conhecida como CG ou CGI. Vale como curiosidade entender como se dá essa briga pela honraria de um título. O período de desenvolvimento de ambos é bem parecido, e se for colocar na ponta do lápis, Toy Story realmente fora lançado um pouco antes. No entanto existe um pequeno detalhe técnico na diferença de confecção de cada animação. Enquanto em Cassiopeia a animação é integralmente feita com tecnologia de computação gráfica de potentes 486, e se não sabe o que é isso, melhor nem querer saber, Toy Story tem o diferencial de as cabeças dos personagens terem sido moldadas em argila e depois digitalizadas pela Polhemus 3D. Cassiopeia é da brasileira NDR, sim, acredite, você tem motivos pra se orgulhar do seu país brigar pelo mérito de ser o primeiro em algo, assim como Santos Dumont com seu 14-bis.

Cassiopeia

Tretas à parte, e vencendo ou não a disputa pelo título, temos de admitir que a animação da Pixar é muito melhor que nossos viajantes espaciais. Toy Story estreou gerando um grande alvoroço ao redor do mundo, com personagens carismáticos e um enredo que agradava crianças e vovôs. Não lembro exatamente como foi minha experiência inicial quando aluguei a animação, não vou inventar uma historinha bonita só pra ilustrar o momento, mas tenho na memória um carinho tremendo pela mensagem trazida. A celebração da inocência e da amizade é algo contado de forma ímpar, e marca na gente os dilemas e problemas superados visando sempre o bem coletivo. É uma obra que ensina a repartir, ter lealdade, o ápice da hombridade, que é a verdadeira essência da busca pela felicidade.

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Um trabalho tão primoroso como esse deixava toda sua cadeia de fãs apreensivos por uma continuação, e a Pixar não decepcionou, após 4 anos do premiado primeiro filme, trouxe Toy Story 2. Quantos filmes você recorda ter uma continuação melhor que o original? Claro que tem, mas são bem poucos. E esse é o caso. Toy Story 2 conseguiu faturar quase meio bilhão de dólares, mais de 100 milhões que a receita do filme anterior. Tudo bem que o primeiro tenha tido um orçamento de 30 milhões, e o segundo 90, mas mesmo assim são números impressionantes. Se tornou a animação mais lucrativa de todos os tempos até então, e não vou enumerar quantos prêmios recebeu, mas acredite, foram muitos!

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A franquia esbanjava vivacidade, tendo grande repercussão por anos na expansão de seus derivados comerciais. Um produto com o hiato de 10 anos ainda trazia lucros com bonecos e jogos, e embora boatos de uma terceira animação existissem desde o término de Toy Story 2, nada se consolidava. Foi quando o planeta Terra, e vamos saber lá mais quem nos observe de fora, entrou em êxtase. O tão almejado novo filme havia sido anunciado. A internet se desesperou. Não faltavam notícias e comentários sobre essa boa-nova. Até que no dia 18 de Junho de 2010 o bebê veio a luz, geminiano, e todos queriam pegá-lo no colo e chamá-lo de seu. Você acredita que o inacreditável aconteceu? Eu juro pra você, ele tinha conseguido mais uma vez. Superou a segunda animação que tinha superado a primeira! O nome Toy Story definitivamente tinha nascido com a bunda virada pra Lua!

Toy Story

Que filme fantástico! Quando a gente é fã de algo nunca imaginamos que aquilo possa ser ainda mais lapidado, mas foi sim o caso. Ecoavam elogios por todo o lado, e nem precisava você ter internet, o assunto transbordava e escorria até você na porta de casa. Lembro ter ouvido o comentário onde Quentin Tarantino disse, “grandes poderes trazem grandes…”, não, pera, esse é o do Tio Ben. Tarantino na verdade falou foi o seguinte, “Com certeza traz a melhor cena do ano, talvez a melhor da década. Uma das melhores da história do cinema”, se referindo aos lançamentos de 2010. Anualmente ele divulga sua lista dos vinte melhores filmes, qual Toy Story 3 encabeçava. Em vigésimo, vale citar, estava Jackass 3D (merecido (ou não)).

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O mundo era lindo, uma trilogia impecável. Feito comparável apenas ao quarto, quinto e sexto episódios de Star Wars. Não, nem De Volta Para o Futuro conseguiu isso, se escafedeu no terceiro. O limite da natureza é assim, as coisas funcionam em grupos de três. Até as Marias são apenas Três. Perfeição. Nada mais, nada menos. Sendo assim eu vivia minha vida pacata, vez ou outra eu recordava da conclusão daquela memorável saga e sentia borboletas no estômago de tanta nostalgia. Eu devia estar tomando chá e comendo torradas amanteigadas feitas em casa enquanto discutia sobre a cabeça de algum político numa bandeja, quando provavelmente devo ter cuspido sopa de torrada com chá e baba na cara da minha mãe, ou tia, durante a mesa do café às 16 horas, quando eu li no Fofocas & Bisurdos News que Toy Story 4 havia sido flagrado em produção num estúdio por abutres paparazzis.

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Isso não podia estar acontecendo comigo. Com certeza eu havia morrido, e como gratificação pelos bem feitos durante a vida, o Menino Jesus estava lançando uma nova sequência de Toy Story só pra mim. Não precisava Menino Jesus. Mas se quis, tudo bem. Devo ter tomado um tapa na cara. Da minha mãe ou tia, não sei em quem acertei a cusparada. Estava mais preocupado olhando pra baixo, no celular, aquele quatro brilhando. Voltei à realidade e compreendi que a Pixar Animation Studio, do grupo Walt Disney Company, realmente estava virada no Jiraiya e soltaria realmente o Toy Story 4. Pronto! Bateu a preocupação. O Menino Jesus fazer o quarto filme alterando a natureza e superando a regra das trilogias é uma coisa, mas não seria um fruto divino, seria só a Pixar. Isso não poderia acabar bem.

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Dia 23 de junho. Era um domingo chuvoso e promissor no qual decidi ir ao cinema assistir Toy Story. Não quis saber de mais nada relacionado ao filme depois que descobri que não estava morto. Me mantive receoso mas tentando me abster de qualquer sofrimento prévio. Nem trailer eu vi! Saí de casa e fui a pé até o shopping para assistir aquela película. Eu sabia que estava me tornando um dos malas da ‘Seleta Ordem dos Críticos Cults de Cinema’, e que isso não era bom. Devia ter escolhido a palavra “projeção”. Enfim. Cheguei ao cinema e era aquilo, setenta e três crianças para cada dois adultos. Eu tive dó. Aquelas crianças não eram nem nascidas quando a trilogia foi fechada. O lado bom pra elas era que não agonizariam em sofrimento caso se decepcionassem pela mediocridade que poderia vir se tornar esse filme. Calei minha boca, não desliguei o celular, já que ninguém ligava pra mim mesmo e, continuei a mastigar batata frita de um saco de um quilo engolida por auxilio de Coca-Cola já quente.

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A projeção começara, e os cochichos foram diminuindo gradualmente conforme aquela horda de pivetes iam se hipnotizando. Não sei como continuar esse texto sem dar spoilers, a memória é recente demais e portanto perigosa. Mas vou ‘analogiar’, o infinitivo é meu e invento o que eu quiser, se não gostou me processa. ‘Analogiando’ nós podemos comparar com Vingadores: Ultimato. Uma conclusão que não necessariamente precisa ser uma conclusão, mas estruturalmente um fechamento de ciclo. Um desfecho cheio de simbolismo e trazendo à tona aquele sentimento de pureza que se via no primeiro filme. A amizade e lealdade nunca havia chegado num patamar tão alto como o de agora. Mas um novo elemento surgia no quarto filme. Literalmente aquela menina era a representação do Menino Jesus. Não transformava água em vinho, não multiplicava os peixes, mas sim, trazia vida do lixo. Do lixo! O novo elemento era “A Criação”! Se você acha que Toy Story se resumia em apenas brincadeiras e aventuras em meio ao sentimento de paz interior por ter seus amigos sempre ao redor, é porque ainda não assistiu Toy Story 4. Do lixo cara! Do lixo temos o entendimento do que é o universo de Toy Story. Temos a transcendência do que realmente é a vida. De onde ela brota e qual seu ímpeto. Nos faz entender que valorizar a simplicidade da vida é o bem maior, a verdadeira essência da essência!

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CONCLUSÃO
Mas afinal, tirando esse ultrapieguismo de novela mexicana, o filme é bom? Eu ainda não consigo acreditar, mas não apenas bom, melhor. Muito melhor que o terceiro! Como conseguiram isso eu não sei. Revela aí Pixar! Eu chuto. Talvez com auxílio de mentes de alienígenas superdotados superestimuladas com LEGO Creator Espacial combinado com Arduino desde a infância. Só sei que meu cérebro foi bombardeado com sequências gigantescas de piadas da mais alta qualidade e sagacidade, resoluções de roteiro extremamente criativas, sendo tudo bem amarrado e contracenado por atores mais experientes do que nunca. Woody e seu seus pares estavam divinos. A sensação que me deu é que a animação não durou sequer 30 minutos. Foram um dos melhores 100 minutos da minha vida. O filme que quebrou a regra dos 3 e a regra da vida. Lixo!

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