O POÇO – UMA ANÁLISE LITERÁRIA DO FILME

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Uma prisão dividida em diversos andares. Dois presos por andar, seja ele um voluntário em busca de uma certificação ou que busque se isolar; seja ele um condenado por algum crime. A cela é um cômodo: camas, pia e privada. Sem portas. A única saída ou entrada é uma abertura no centro. Um poço por onde sempre descerá um banquete em uma plataforma. Um único banquete para os quase infinitos andares. Aqueles que estão nos andares superiores comem com fartura. Os restos são descidos. A medida que o banquete desce pelo poço, menos comida vai sobrando em meio a migalhas, restos. Quanto mais abaixo no poço, mais fome se terá. A situação é mudada de tempos em tempo quando um gás desacorda os presos e, novamente, ao despertarem estão em um andar diferente podendo ter mais sorte ou azar, mais fartura ou fome. Mas isso, é óbvio.

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1. O bicho homem: de oprimido a opressor

Quando olhamos a dinâmica do filme, inicialmente vem-nos a mente a luta de classes ao modo marxista ao evidenciar que aqueles que estão em uma esfera superior, pouco se importam como os que estão abaixo deles (o termo comunista chega a ser citado). Há a manutenção perpétua do status-quo: nem mesmo aqueles que em um dado momento alcançam os primeiros andares se importam com seu passado de fome. Neste ponto o longa-metragem espanhol é repleto de referências filosóficas que pensam a dinâmica da sociedade. Tem riqueza e fartura quem se banqueteia nos andares superiores e aos de baixo resta-lhes as migalhas ou nada. Nem aqueles emergentes, que ficam subitamente na elite do poço, se importam com sua pobreza anterior. Isso reflete diretamente a nossa sociedade ao mostrar que temos a tendência de esquecermos de que também fomos oprimidos e nos tornamos opressores narcisistas, parafraseando Paulo Freire. Claro que a animalização humana é uma constante no filme ao reduzir o homem e sua racionalidade ao instinto da fome (Manuel Bandeira, implicitamente), numa esfera naturalista que relega e destrói a todos em prol da sobrevivência do mais forte. Darwin aprovaria esse enredo e aplaudiria de pé, se estas circunstâncias acontecessem no mundo real.

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2. O inferno são os outros: a punição

Isso mesmo, o enredo do filme não se passa em nossa realidade. É uma metáfora bem construída e potencializada de nossa sociedade, mas o filme é uma ficção da ficção. Nesse sentido o terror do longa-metragem se estabelece com uma esfera angustiante de ameaça constante a “vida” dos personagens. Bem, se é que é vida, pois eles estão no inferno. Afinal, pela cultura ocidental, é no submundo, no Hades, no Sheol, no Tártaro que ficam presos aqueles que por seus crimes (é óbvio) ou vícios (como o de fumar) são punidos. Mas no Poço não há necessidade de “grelhas” para arder a alma do maus. “O inferno são os outros”, como diz o filósofo Jean-Paul Sartre, pois “projetamos nos outros a nossa realização e aguardamos deles que amenize o vazio que nos habita”. Desta forma, O Poço é uma roupagem nova para a punição no inferno, no qual as chamas eternas são substituídas pela fome que queima e pela centelha de uma esperança na mudança do outro, ou do sistema que nunca ocorre ou ocorrerá.

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3. O inferno de Dante: no fundo O Poço

A primeira parte da consagrada obra de Dante Alighieri está nas entrelinhas do funcionamento do Poço. Este poema com mais 14 mil versos conta a história de Dante que decide encontrar sua amada Beatriz após sua morte. Para isso ele passará pelo Inferno, onde é guiado pelo poeta latino Virgílio, o Purgatório e o Paraíso. A parte mais conhecida é justamente o Inferno porque ficou notória a crítica social à Itália do século XIII em que o poeta colocou no poema todos os seus desafetos e a elite daquele tempo. Mas é justamente as nove regiões do Inferno de Dante que inspiram diversas passagens do filme, inferno esse também em andares cada vez mais profundos, os círculos. O filme está na ordem inversa da obra do poeta italiano: do nono ao primeiro ciclo (dos andares superiores do Poço ao último).

  • 141_04O nono círculo: Os traidores – No poema italiano é o Lago Cócite, pavimento de gelo. Aqueles que traem seus companheiros ficam aprisionados aqui. E a traição aqui é baseada na fome, quando a amizade é esquecida em favor da fome, ou mesmo quando se quer reter algum alimento do banquete às escondidas. O ambiente começa a congelar (ou esquentar) de forma drástica. Qualquer andar ou pessoa é traidora: fica claro e até ÓBVIO para quem vê os primeiros momentos do filme.
  • 141_05O oitavo círculo: Pecados e calor – Neste ciclo há muitos pecados listado a arder nos vapores infernais. Novamente vemos os mais diversos pecadores no andares do poço. Por mais que a gula seja o que mais chama a atenção, há luxúria, ira, inveja… Mas sempre puníveis com o calor se alguém burlar as regras da fome.
  • 141_06O sétimo círculo: A violência – Neste ciclo está todo aquele que agiu contra o próximo. Assim todos podem praticar a morte no Poço e agir contra o próprio companheiro de cela. Em Dante é o Vale da sombra da morte; no Poço é a morte do outro que vale. Não há confiança e todos serão tomados pela violência em algum momento.
  • 141_07Sexto círculo: Os hereges A fé não está resguardada, nem em quem acha que a solidariedade é o caminho, nem em quem quer usar a corda como atalho para sair do Poço. Aqui a noção de Deus é distante e pouco a pouco todos se distanciam dele, sem deixar de blasfemar ou deturpar os valores cristãos: homens bons matam, mulheres boas interpretam a Bíblia de forma hedionda e a própria existência de Deus é questionada.
  • 141_08Quinto círculo: Ira – Em Dante é um lago de sangue onde ficam mergulhados os irados. Pense no Poço, nos assassinatos e no sangue que a todos permeiam. Lembre-se da mulher que mata e vive em constante sujeira sanguinolenta. Ela sempre mergulhada em sua busca sangrenta.
  • 141_09Quarto círculo: AvarentosAcomete a todos no Poço. Não há partilha quanto mais alto é o andar em que os condenados se encontram. Querem o melhor para si e esquecem dos outros. Engordam vergados pelo peso da saciedade e se apegam aos seus itens pessoais.
  • 141_10Terceiro círculo: Os gulosos – Neste círculo do inferno de Dante aqueles que comem demais ficam na lama e são por fim devorados pelo cão de três cabeças Cérbero. É a própria dinâmica do Poço em que aqueles que comem demais imediatamente servirão de alimento, para a fome canina do outro. Não esqueça que há um cão nessa história: Ramsés II, faraó conhecido por Ozymandias (Rei dos Reis). O cão vira vítima da fome, o verdadeiro Cérbero, rei dos reis do Poço.
  • 141_11Segundo círculo: O julgamentoAcontece de forma crua e seca na entrevista antes de entrar no poço com a escolha da comida favorita e do objeto que levará para prisão. Minos, ser infernal, julga em Dante; a administração e os formulários no Poço. O inferno já estava ali desde sempre.
  • 141_12Primeiro círculo: Limbo – Primeira região de Dante é onde está os que morreram pagãos, que não conheceram Jesus e que vagam na eterna escuridão devido a não iluminação de suas mentes. O último andar é o primeira círculo da Divina Comédia. Uma menininha oriental, não batizada, pagã perto do divino (o andar é 333, três vezes, número da Divina Trindade), mas longe da salvação. Andar que também é o da besta visto que 333×2 dão 666 pessoas condenada (como salientou Dan Pereira Leite). E por fim um Gorik fadado ao limbo, a escuridão de quem não conheceu a salvação ou a luz.

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4. Dom Quixote e a antropofagia

Se pensarmos que O Poço é uma representação do Inferno e que a principal punição deste lugar hediondo sãos as ações dos outros, fica fácil entender as motivações do protagonista Goreng. Ele escolhe estar no Poço em busca de redenção pessoal em relação ao seu vício em fumar. Acredita que expiará essa falha, que será um herói do auto domínio. Acredita nessa ilusão. Se observamos a caracterização do ator, ele nos lembra da imagem que temos de Dom Quixote, herói do livro de Miguel de Cervantes, o fidalgo que acreditou ser um cavaleiro andante e que lutava por uma donzela que não existia. Goreng é um homem abastado que quer ser herói de si mesmo (vencedor do vício) e do Poço (ao tentar salvar a mãe e sua filha). Mas seu Sancho Pança, óbvio que é o Trimagasi, tenta fazê-lo entender a filosofia do lugar onde ele está, trazê-lo para realidade infernal. Tanto Quixote como Goreng acreditam na ilusão e tem seus Sanchos até o final ao seu lado. Se você tem dúvida, lembre-se da cena em que, literalmente, Goreng come o seu livro, afinal “você é aquilo que você come”. Assim ao final da jornada de Dom Quixote, ele descobre a verdade; Goreng, por sua vez, descobre a ilusão e fica eternamente preso no limbo com Trimagasi.

Por fim há ainda de prestar atenção que Goreng é atormentado por quem ele se alimentou. Não é canibalismo, porque isso seria o simples prazer alimentício de comer carne humana. Não é o caso de nosso “herói”. Podemos dizer que o faz por necessidade. E ao se alimentar do outro, os humanos passam a habitar sua essência. Alimente-se do guerreiro mais forte: antropofagia, um ato religioso. Então Trimagsi e Imoguiri, a dona do cachorrinho, passam a habitar os pensamentos de Goreng e incentivando-o tanto no banquete que desce na plataforma como no banquete humano.

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5. Sempre uma última ceia: a blasfêmia

Quando vemos a antiga recepcionista, Imoguiri, nos delírios de Goreng incentivando-o a comer carne humana, ecoa a citação bíblica da Última Ceia de Jesus com os apóstolos antes de ser crucificado (Mateus 26:17-30, Marcos 14:12-26, Lucas 22:7-39 e João 13:1 até João 17:26). Para ser o inferno precisa deturpar os valores de Deus de alguma forma e nada do que levar ao pé da letra “comer do meu corpo e beber do meu sangue”. Nesse ponto o Poço parece ironizar as primeiras perseguições feitas aos cristãos primitivos, acusado de fazerem sacrifícios humanos pelos Romanos. Muitos cristão foram morto por causa dessa interpretação. Os pagãos entendiam esses trechos como literalmente um sacrifício e não como rito simbólico de memória. Se para um cristão comer e beber da essência de Jesus os deixam saciados de qualquer fome carnal ou espiritual, para Goreng cada banquete sanguinolento só o leva a uma fome maior e desesperadora.

Outro dado: a trajetória de Jesus fala de uma mesa em que todos possam se alimentar, o banquete dos justos. É o comensalismo, uma filosofia que prega que todos devem ser aceitos à mesa e que todos são iguais. Ninguém deve alimentar-se das migalhas da mesa dos ricos (Mateus 15: 21:39). Até o cachorrinho Ramsés II, come mais do que quem está nos andares inferiores. Também o Poço subverte a ótica cristã e nem as migalhas deixa aos famintos e o banquete não é para todos.

Por fim a menina ao final. Aquela que lhe está destinada uma Panacota perfeita, sem nenhum cabelo. Ela mesma pura, limpa. Naquele inferno até a esperança é uma ilusão. No Poço, na Caixa de Pandora, de todos os males a criança é a esperança. Como pode uma menina conservada em um estado tão puro em um lugar hediondo sem se alimentar. Impossível. A última refeição é dela, da esperança ilusória de Goreng, o Dom Quixote do Poço. Ele fica para sempre no Limbo enquanto a esperança e a salvação sobem em alta-velocidade como oferenda de verdade. A esperança sobe veloz e furiosa sem chance de salvação. A mensagem final: bom apetite, pois chegamos ao fim do Poço.

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BRILHO ETERNO DE UMA MENTE SEM LEMBRANÇA (CRÍTICA)

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SINOPSE
132_01Joel é um cara pacato, calmo até demais. Está sempre mergulhado nos próprios pensamentos tendo bastante dificuldade de expressar seus sentimentos, e recorre sempre em anotar e desenhar todas as suas experiências diárias. Aquele pequeno caderno era seu único confidente, até que certo dia ele conhece Clementine, uma mulher impulsiva e inquieta, muito diferente da forma que ele agia. Mas isso não foi um impeditivo, a paixão foi avassaladora e um se entregou ao outro sem ponderar qualquer estranheza bastante rápido. Certo dia Clementine em um dos seus impulsos decide contratar um serviço curioso, no qual todas as suas memórias sobre um alguém poderiam ser apagadas. E assim Joel é excluído por completo das lembranças da moça, fazendo com que o introspectivo rapaz se desesperasse. Ele não compreendia a razão dela ter feito aquilo, mas decidiu que já que as coisas eram assim, então também a esqueceria. Durante o processo de limpeza, Joel passa por experiências transcendentais, acabando por se convencer a desistir de perder aquelas coisas que o fizeram tão bem em pelo menos parte da sua vida, no entanto, de que forma ele poderia desistir daquilo que escolheu começar?

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COMENTÁRIOS
Apesar de contar com um elenco de grandes nomes, Brilho Eterno é um filme que se destaca por si só, não dependendo apenas de seu elenco. Ele conta inclusive com a participação de estrelas como Kirsten Dunst, que apesar de uma participação pequena, traz grande relevância para a história. Mas, a sua força está no roteiro de Charlie Kaufman, ganhador do Oscar como Melhor Roteiro Original, que traz de forma muito sensível essas memórias, muitas vezes dolorosas, de uma relação exausta, desgastada pelas diferenças e pela rotina, fazendo com que Joel e Clem sequer consigam dialogar sem se atacarem, mas cenas estas que enriquecem de forma significativa a obra.

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A fotografia de Ellen Kuras acentua os tons frios que entram em choque os cabelos e as roupas coloridas de Clementine, caracterizando ainda mais a sua personalidade excêntrica, além de que, as cores de seu cabelo ajudam o telespectador a viajar de maneira mais precisa, entre fatos ocorridos no passado, presente e futuro. Destaca-se também a inspirada trilha sonora de Jon Brion que só acentuam a melancolia da história, principalmente, na cena inicial onde vemos Joel passando por um momento de angústia em seu carro, marcado por uma trilha sonora que nos envolve em seu drama.

O diretor francês Michel Condry mostra muita segurança, principalmente quando trabalha com materiais tão complexos e, umas das curiosidades do filme, é que Michel estava passando por um término de relação durante as gravações de Brilho Eterno, fazendo com que ele mesmo admitisse publicamente que o que parece muitas vezes clichê nas histórias de amor, tomam maior profundidade e significado quando são vivenciadas por nós.

“(…) Como é imensa a felicidade da virgem sem culpa.
Esquecendo o mundo, e pelo mundo sendo esquecida.
Brilho eterno de uma mente sem lembranças!
Cada prece é aceita, e cada desejo realizado”

O título do filme é a estrofe do poema “Eloisa to Abelard”, de Alexander Pope, que inclusive é mencionado no filme, pela personagem de Kirsten Dunst. A obra de Pope, curiosamente, trata-se também de um trágico final de relacionamento e diz que um amante tem de fazer diversas coisas, como amar, odiar, arrepender-se, e muitas vezes até dissimular, mas nunca esquecer-se. É disso que se trata Brilho Eterno de Uma Mente sem Lembranças, uma história de amor, que mesmo com seus mais dolorosos momentos, ainda é melhor do que jamais tê-la vivido.

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COMENTÁRIOS / COM SPOILERS! Para fugir do spoiler pule para O ELENCO E FICHA TÉNICA, depois conclua sua leitura.

“Até agora, a tecnologia foi bem-sucedida em fazer-nos esquecer de tudo… exceto as coisas das quais não queremos lembrar”

, foram as palavras ditas pelo diretor Michel Gondry.

O que esta frase lhe traz à tona quando você pensa em situações (ou pessoas) das quais gostaria de apagar da sua mente? Porque, quando me faço esta pergunta, noto que as coisas das quais mais gostaria de me esquecer, são justamente as, que de alguma forma, mais me afetam. E se me afetam de forma tão profunda, tão significativa, a ponto de me fazer focar nelas tanta energia, será que seria possível, de fato, esquecê-las? Seria possível algum tipo de tecnologia ou terapia capaz de nos fazer superar e esquecer situações e pessoas que estão tão enraizadas em nós?

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Brilho Eterno de Uma Mente sem Lembranças, obra do diretor Michel Gondry, é um filme de 2004, mas continua sendo um filme atual e marcante. Sensível, profundo, ele nos leva a trilhar um caminho por onde passamos pelo romantismo doce e tímido de um começo de relação, aos momentos mais sombrios de seu término. Numa viagem interna e exclusivamente sua, Brilho Eterno não lhe promete nenhuma resposta, apenas mais perguntas sobre o quanto são marcantes algumas pessoas que cruzam nossos caminhos e a forma curiosa e misteriosa com que entram e saem de nossas vidas.

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Jim Carrey, ao contrário de quase todos os seus papéis anteriores, traz um Joel introspectivo, tímido e quase sempre inseguro, que busca desesperadamente entender sua parceira Clementine, interpretada por Kate Wislet, que é uma mulher cheia de conflitos internos e dona de uma personalidade explosiva e muito impulsiva. O filme já valeria a pena pela interpretação impecável dos dois, mas ele nos leva numa viagem ainda mais profunda.

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Joel (Jim Carrey) e Clementine (Kate Winslet) são um casal como tantos outros, que passam por momentos bons e ruins de toda relação, mas que ao se depararem com diferenças tão significativas de personalidade, são tentados a achar que a única solução para eles é o término da relação. Auxiliados por uma empresa especializada em apagar memórias, os dois resolvem que esta é a única medida razoável para que possam seguir suas vidas, sem as lembranças um do outro. O que Joel e Clem não contavam, são que nossas memórias são carregadas de sentimentos e, mesmo as mais distantes, criam ramificações em nosso presente, a partir do momento que são compartilhadas com quem amamos.

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Exemplo: A lembrança de um sorvete tomado numa tarde de verão da sua infância, não estará mais isolada em seu passado, se numa num momento de profunda intimidade e cumplicidade, você descreveu detalhadamente àquela tarde para quem você ama hoje. Nas próximas vezes que você lembrar daquela tarde de verão, ela virá carregada de lembranças doces do seu interlocutor de hoje.

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Sim, cada detalhe da sua vida, cada memória, carrega e carregará para sempre marcas das pessoas pelas quais passaram por ela. A sua comida preferida, a marca de shampoo que usa, as conversas na mesa de jantar, a roupa que você veste, as musicas que você ouve, tudo vem carregado de memórias e influências de pessoas que passaram pela sua vida. Sendo assim, Brilho Eterno, te leva numa aventura muito intensa, na mente de um casal que tenta desesperadamente esquecer-se um do outro, e suas descobertas sobre o quanto marcamos a vida e a mente daqueles que amamos.

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Não são apenas as memórias enraizadas um do outro que nos chamam tanta atenção nesta história, mas nos pegamos pensando até, em até que ponto o amor que sentimos por alguém, está apenas em nossa mente, já que em momentos diversos notamos nos personagens um vazio, uma angústia, um sentimento de falta, mesmo após o procedimento realizado. E não só isso, mas um sentimento de voltar-se a se atrair e se apaixonar pela mesma pessoa mais de uma vez, mesmo que sua mente não traga mais as lembranças desta pessoa. Claro, que esta é uma visão muito mais romântica do que psicológica, mas completamente aceitável para os cinéfilos mais românticos.

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São várias as perguntas que nos fazemos ao final dessa doce e angustiante viagem com Joel e Clem. Inclusive, uma que julgo de grande importância ao se colocar no lugar destes personagens, que seria: O quanto teríamos de aprendizado e amadurecimento, se a cada decepção na vida, pudéssemos simplesmente apagar a experiência vivida e seguir em frente? O que teríamos de bagagem para usarmos em futuras relações para que não sejam cometidos os mesmos erros?

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Uma coisa é certa, Joel e Clem aprenderam algo que, pelo menos na teoria, todos nós sabemos muito bem, que é entender que qualquer forma de relação humana traz desafios, dificuldades, rotina, as vezes até a necessidade de um tempo maior para adaptação, mas que ainda assim, mesmo com todos essas dificuldades e mesmo diante de uma personalidade completamente diferente da sua, é possível usarmos do amor e da razão em medidas iguais, decidindo de forma racional e lúcida enfrentar juntos as diferenças, mas sempre em nome deste amor que transcende à própria mente humana.

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ELENCO E FICHA TÉCNICA
Jim Carrey, Kate Winslet, Kirsten Dunst, Mark Ruffalo, Tom Wilkinson, Elijah Wood, Jane Adams, David Cross, Deirdre O’Connell e Thomas Jay Ryan compõem o elenco. Dirigido por Michel Gondry, Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças, é uma filme de comédia dramática de romance, suspense e ficção cientítica estadunidense lançado em 2004. Adaptado por Charlie Kaufman, o longa se baseia numa história do próprio Kaufman em conjunto com Michel Gondry e Pierre Bismuth. Produzido por Steve Golin e Anthony Bregman, utilizou os estúdios da Anonymous Content e da This is That Production. Com cinematografia de Ellen Kuras, foi editado por Valdís Óskarsdóttir, e sua trilha sonora é composta pelo multi-instrumentista Jon Brion. Distribuído pela Focus Features LLC, a produção teve um orçamento de US$ 20.000.000, e faturou US$ 72.300.000.

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PREMIAÇÕES
Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças foi um dos filmes que mais repercutiu em 2004, sendo grande sucesso de crítica e público. Recebeu em 2005 o Oscar para Melhor Roteiro Original, e Kate Winslet foi indicada como Melhor Atriz. No BAFTA de 2005 recebeu dois prêmios, Melhor Montagem e Melhor Roteiro Original, bem como foi indicado nas categorias Melhor Ator para Jim Carrey, Melhor Atriz para Kate Winslet, Melhor Direção, e Melhor Filme. Na Dinamarca foi indicado ao Prêmio Bodil na categoria Melhor Filme, na França com Prêmio César de Melhor Filme Estrangeiro, e no European Film Awards de 2004 foi também indicado como Melhor Filme Estrangeiro. Indicado em quatro prêmios do Globo de Ouro nas categorias Melhor Filme Musical ou Comédia, Melhor Ator em Filme Musical ou Comédia para Jim Carrey, Melhor Atriz em Filme Musical ou Comédia para Kate Winslet, e Melhor Roteiro. No Screen Actor Guild Kate Winslet foi indicada como Melhor Atriz, enquanto venceu na categoria Melhor Roteiro na Writers Guild of America. Na premiação do Satellite Awards foi indicado em três categorias, Melhor Filme de Comédia ou Musical, Melhor Atriz de Comédia ou Musical para Kate Winslet, e Melhor Efeitos Visuais. Por fim foi indicado no Grande Prêmio BR do Cinema Brasileiro como Melhor Filme Estrangeiro.

CONCLUSÃO
O Brilho Eterno de Uma Mente sem Lembranças não acaba na obra, pois mesmo após o seu término, ele continua presente em nossa mente. E apesar de sua classificação ser para 14 anos, não é um filme de público alvo tão abrangente. É um romance para quem gosta desta viagem interna na mente humana e suas relações, sendo então mais indicado a um público disposto a não somente consumir, mas interpretar a obra por completo.

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O CONTO DA AIA – LIVRO (CRÍTICA)

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I- SINOPSE

Depois de uma revolução teocrática no século XXI, que estabeleceu uma sociedade estratificada, conservadora com bases nas raízes puritanas do século XVII, o que conhecemos como Estados Unidos foi destruído. As políticas racistas foram um dos combustíveis emocionais da revolução e agora impera a República de Gilead, um estado totalitário que, embasado em uma interpretação moral e segregadora do Antigo Testamento, restabelece uma sociedade patriarcal na qual a mulher não tem voz ativa nenhuma.

Uma sociedade envelhecida, assolada por doenças e reflexos da contaminação nuclear, fez como que a taxa de natalidade caísse a níveis muito pequenos. Há uma esterilidade generalizada entre mulheres e homens (por mais que eles neguem isso). Assim a elite, com forte teor militar, estabelece que suas esposas (recatadas e do lar) lhe sejam submissas, não tenham acesso à leitura, instrução ou beleza. Incapacitados de conceber filhos, tem como última esperança as Aias: barrigas de aluguel que geram os filhos para a elite de Gilead.

No entanto as Aias, sempre de vermelho e antolhos, não exercem tal função de bom grado e espontaneamente, pelo menos a maioria. São obrigadas, doutrinadas a procriar contra sua vontade e tem seus filhos arrancados de si desde muito cedo. É nesse contexto que seguimos de perto as memórias da Aia Offred, de 33 anos, e sua liberdade vigiada de ser usada como objeto reprodutivo de uma família e uma sociedade que diz agir em nome de Deus e dos bons costumes. Ela precisa conceber de seu Comandante (chefe da casa), senão pode ter um destino bem pior: ser prostituta ou ir para as colônias radioativas e ter uma morte lenta e dolorosa. Tudo isso sem amor, afeição, ou liberdade de expressão, pois tais atos, às vezes, podem significar a tortura e a morte.

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Título original: The Handmaid’s Tale
Autora: Margareth Eleanor Atwood
Tradução: Ana Deiró
Gênero: Romance canadense.
Editora e ano: Rocoo, 2017.
Páginas: 366
Referência bibliográfica: ATWOOD, M.E. O conto da aia. Rio de Janeiro: Rocco, 2017.

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II – PERSONAGENS

  1. OFFRED (JUNE) – Narradora-personagem, ao menos a segunda Aia enviada à residência dos Waterford a fim de dar um filho a família. É pelo olhar dela que conhecemos os costumes da República de Gilead e os rumos que a sociedade teocrática tomou. O nome June remete a deusa romana do casamento Juno e não é à toa!
  2. O COMANDANTE (FRED) – Oficial importante de Gilead e o patriarca da família Waterford. É velho e possui acesso a muitos itens proibidos naquela sociedade, desde revistas femininas a livros, além de livre acesso aos espaço de Gilead.
  3. SERENA JOY (a Esposa) – Senhora decrépita que se reduz a tricotar e cuidar de seu jardim. Antes da revolução, fora uma celebridade televisiva que pregava sobre a santidade do lar e como as mulheres deveriam ficar em casa, mas que agora não passa de um Esposa à espera de um filho. É amarga para com Offred e fará de tudo ao seu alcance para que sua Aia possa engravidar.
  4. TIA LYDIA – A instrutora, tutora, carcereira do Centro Vermelho responsável pela doutrinação das mulheres férteis e pela sua adequada servidão na casa dos Comandantes. É acessada por meio de flashbacks de Offred ao longo da narrativa. É a voz na mente da narradora. Só aparece no livro como personagem durante a cerimônia de Salvamento.
  5. OFFGLEN – Companheira de caminhada e ida às compras de Offred. É integrante de uma rede clandestina de fuga de mulheres da República de Gilead. Pouco se sabe sobre a identidade da moça e suas conexões, mas percebe-se que era ativa na luta pelo restabelecimento da liberdade das mulheres.
  6. MOIRA – Melhor amiga de Offred em seus tempos de faculdade quando a narradora ainda era June. Lésbica e muito determinada, é o ideal de Offred de resistência e luta sendo extremamente arredia em relação ao Centro Vermelho e sua doutrinação. Também é vastamente acessada pelas divagações de Offred e aparecendo somente como personagem ativa em um capítulo.
  7. NICK (o motorista) – chofer da família Waterford, silencioso e contido. Pouco se sabe de seu passado além das suspeitas de ser ou um agente da resistência (Mayday) ou um dos Olhos (agentes repressores de Gilead). Desenvolve certa afeição por Offred.
  8. OUTROS PERSONAGENS – Outros personagens são também acessados pelo fluxo da memória de Offred como Janine, uma Aia extremamente bajuladora e submissa. Mas essa visita às memórias são ainda mais fortes quando envolvem a vida de Offred antes de se tornar uma Aia do regime teocrático de Giliead. Por meio de flasbacks conhecemos a mãe de June, militante política pelos direitos femininos, seu marido Luke (e a incerteza dele ter sobrevivido à tentativa de fuga para o Canadá) e sua filha (retirada da mãe ainda muito cedo e mandada para alguma família de Gilead).

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III-  ESTRUTURA DO LIVRO

A narrativa é feita em primeira pessoa (narrador-personagem) e conta as memórias de Offred como Aia na casa do Waterford. Usa o discurso indireto livre: ou seja a voz da personagem e o fluxo de sua consciência se misturam a narração dando ares psicológicos aos fatos. Somente em dois momentos essa dinâmica não é obedecida ao pé da letra: quando Moira narra sua história, a qual June tenta reproduzir com o máximo de fidelidade; e ao final do livro, no discurso dos pesquisadores sobre Gilead.

Por obedecer o fluxo das memória de June, tornada Offred pelo regime teocrático, acompanhamos os acontecimentos por meio de dois planos: o do acontecimento em si e as reflexões da narradora com base em sua memória afetiva. Tais memórias não são organizadas linearmente, mas se mostram a medida que as situações acontecem. A própria Offred se justifica:

Isso é uma reconstrução. Tudo, cada detalhe é uma reconstrução. É uma reconstrução agora, em minha cabeça, enquanto estou deitada estendida em minha cama de solteiro, ensaiando o que deveria ou não deveria ter dito, o que deveria ou não deveria ter feito, como deveria ter feito meu jogo.

A descrição é de extrema importância e pode, por vezes, cansar o leitor mais cru. No entanto são responsáveis por pintar a sociedade de Gilead em todas as suas feiúras, maldades e obscenidades. Despertará em quem lê muita indignação em certos aspectos a que um regime totalitário religioso por chegar.

O livro possui ao todo 46 capítulos, simplesmente numerados com algarismos romanos. A ausência de título por capítulo é compensada  pela organização do romance em 15 blocos (ou partes), como por exemplo o inicial que se chama “I – Noite” e possui apenas um capítulo; e o “II – Compras” que abarca cinco. Ao final do livro temos as “Notas Históricas”, um capítulo à parte da narração propriamente dita.

Em cada bloco, há um acontecimento central no qual a narradora tece comentários ao mesmo tempo que se lembra de fatos marcantes que antecedem a sociedade de Gilead ou que remonta aos primeiros tempos da mesma. A história prossegue sempre nessa perspectiva: o acontecimento em si, o retrato da sociedade como ela se tornou e a reflexão de Offred sobre si e sobre o mundo. Há ainda diversos momentos metalinguísticos nos quais a narradora reflete sobre o próprio ato de narrar e a “quebra da terceira parede” ao conversar diretamente com o leitor.

Tudo que é silenciado clamará para ser ouvido ainda que silenciosamente. (p.183)

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IV – O ENREDO / SPOILERS

1. APRESENTAÇÃO INICIAL

Nos primórdios da sociedade de Gilead, Estado formado após uma revolução teocrática que instaurou um regime totalitário nos EUA, acompanhamos a adaptação de June, tornada a Aia da família do Comandante Waterford. Além dos resquícios da guerra nuclear, escassez de alimentos, de peixes no oceano, a revolução é principalmente de cunho moral e conservador e em parte motivada pelo caos que os níveis de esterilidade alcançaram: uma população cada vez mais envelhecida e em que novas crianças não nascem mais. As informações são omitidas ou falseadas para a população que se resume a acompanhar aquilo que é noticiado na TV estatal. Mas June nos oferece um quadro de como as coisas chegaram a esse ponto:

As mulheres tomavam medicamentos, comprimidos, os homens pulverizavam árvores, as vacas comiam a relva, todo esse mijo com a força comprimida fluía para os rios. Para não mencionar  a explosão de usinas de energia atômica, ao longo da falha de San Andreas, não por culpa de ninguém, durante terremotos, e a cepa mutante de sífilis que nenhum tipo de mofo  conseguia tocar. (p.137)

Nesse contexto, a proteção à vida do feto se torna sagrada (nos dois sentidos): poucas mulheres engravidam e, se conseguem, muitas vezes não são donas do próprio corpo ou de suas crianças. Até o parto é natural é sem anestésicos, pois enfatizavam a dor como fonte geradora dos filhos. Assim são instituídas as aias: mulheres sem liberdade e que cuja função são meramente reprodutivas.

Somos para fins de procriação: não somos concubinas, garotas gueixas, cortesãs. […] Somo úteros de duas pernas, apenas isso: receptáculos sagrados, cálices ambulantes. (p.165)

Esta sociedade, cujo valor central é a reprodução, tem seu fundamento na ética e moral do texto bíblico, principalmente no Velho Testamento. Gilead é divida conforme a função e as cores de seus entes sociais: os Comandantes (chefes de família) sempre de terno escuro, as Esposas de azul, as Econoesposas (de classe mais baixa), as Martas (empregadas domésticas), o aparelho repressivo do estados são jovens e adolescentes de cara lisa e prontos a puxar sua pistola e por aí vai. E claro as Aias, sempre trajando vermelho e com antolhos para que não olhem o mundo ao seu redor, nem que sua faces sejam vistas.

Doutrinadas totalmente no Centro Vermelho (claro que nem todas) essa mulheres, quando chegavam em seu período fértil, eram obrigadas a ter relações sexuais com o patriarca da família sem o consentimento, prazer ou amor das mesmas. Não poderia haver luxúria, a Esposa presenciava tudo, gélida. Um estupro. Tudo fundamentado em uma passagem bíblica:

Vendo Raquel que não dava filhos a Jacó, teve inveja de sua irmã, e disse a Jacó: Dá-me filhos, se não morro. Então se acendeu a ira de Jacó contra Raquel, e disse: Estou eu no lugar de Deus, que te impediu o fruto de teu ventre? E ela disse: Eis aqui minha serva Bila; coabita com ela, para que dê à luz sobre meus joelhos, e eu assim receba filhos por ela. (Gênesis 30: 1-3)

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Essa sociedade estratificada, fundamentava ainda sua visão deturpada de acordo com uma releitura machista de Karl Marx, recitada como slogan pelas aias no Centro Vermelho: “Que cada um dê de acordo com sua capacidade; para cada um de acordo com suas necessidades” (p.143). No entanto ainda havia Esposas que podiam procriar e nem todo Comandante precisava de uma aia, mas principalmente os de alta patente. Mas quando havia esterilidade, a culpa era das mulheres:

Isto não existe mais, um homem estéril existe, não oficialmente. Existem mulheres que são fecundas e mulheres que são estéreis, essa é a lei. (p.75)

Quando June, assume o nome Offred, por pertencer a Fred Waterford, ela precisa ser inseminada para dar um filho à família. Para ele e Serena, sua Esposa, ambos envelhecidos, é uma necessidade social, alcançar um status, sedimentar seu poder e influência. Para June é uma questão vital, visto que aias inférteis ou insurgentes poderiam ter uma prostituição forçada (em uma Casa de Jezebel) ou serem condenadas à Colônia (expostas à radioatividade fazendo trabalho de limpeza de resíduos). Assim teria que dar à luz e ter sua criança retirada para sobreviver.

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2. COMPLICAÇÃO

Em uma sociedade voltada para reprodução humana, pela ótica distorcida dos costumes judaico-cristãos, o drama de June, tornada Offred, é justamente corresponder as expectativas dos Waterfords. Não é uma mera questão de fé visto que até as orações são terceirizadas nos quais os fiéis as mandavam imprimir em vez de orarem por si mesmos.

Serena nutre uma aversão a Aia ao passo que seu marido começa a desenvolver uma relação “antinatural” para a sociedade de Gilead. Primeiro permite que June o faça companhia, em particular, em jogos de tabuleiro, como também permite que a mesma leia (impossível para qualquer mulher, pois só escutavam a Bíblia recitada pelo marido e até o comércio usava figura ao invés de palavras), além de conseguir itens contrabandeados como loção para mãos e revistas de moda. Pois todo item que evidenciava a estética e a sexualidade feminina era vedado.

Aliado à postura do Comandante Waterford, as tentativas infrutíferas de gravidez colocam em xeque a capacidade moral e status social junto àquela sociedade e o próprio futuro de June. Fred parece não ser fértil e é preciso encontrar uma solução para o caso. Offred se vê no impasse de ser ser inseminada em segredo por um médico ginecologista (sugestão de Offglen) ou a solução estapafúrdia de Serena Joy: usar Nick (o motorista), em segredo para fazer sexo e dar um filho a família.

A primeira alternativa é descartada por June, mas a segunda lhe cai muito bem, afinal já nutria uma certa afeição à distância e uma tensão sexual com o jovem motorista. Em contrapartida em qualquer uma das opções seu destino seria a morte por enforcamento (o tal “Salvamento”). Sentindo as esperanças de uma vida melhor lhe escaparem das mãos, sem possibilidade de ver sua filha, crendo seu marido Luke morto e sua mãe vista pela última vez na Colônia e provavelmente morta. Resta-lhe, desesperada, ecoar a oração ensinada por Tia Lídia no Centro Vermelho:

Ó Deus, Rei do universo, obrigada por não ter me criado homem. Ó Deus, oblitera-me. Torna-me fecunda. Mortifica minha carne; para que eu possa ser multiplicada. Permita-me ser preenchida… (p. 232)

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3. CLÍMAX

A narrativa parece ter vários momentos reflexivos problematizando mais os rumos controversos da sociedade teocrática do que um momento ímpar de tensão. Eles estão diluídos ao longo da narrativa como por exemplo a execução daqueles que vão contra o sistema ou cometem crimes, principalmente, ligados à sexualidade. São justamente aqueles ligados ao sexo os momentos mais dramáticos do Conto da Aia.

O primeiro é quando se dá justamente a Cerimônia com o Comandante Waterford: um estupro com a presença da Esposa. Isso em volta de orações em um ritual que mescla o sagrado e o profano. Impessoal, sem sentimentos alguns entre os atores. A passividade de June. A frequência ofegante de Fred. Nada sensual, mas automático. Não há  como fazer uma omelete sem quebrar os ovos, era o melhor para o Comandante:

Melhor nunca significa  melhor para todo mundo, diz ele. Sempre significa pior, para alguns. (p.251)

O segundo envolve justamente Nick. Algo mais perto do amor, mais consentido, sem deixar de ser imposto pela urgência de gerar um herdeiro para os Waterford. Algo confuso para narradora-personagem. Isso se demonstra pela múltiplas versões do ato amoroso, difícil de ser lembrado e exposto ao leitor. Toda relação dos dois é mais fantasiada por ela que anseia um lampejo e carinho do que por Nick que deixa transparecer pouco em sua capa de frieza. São tempos perigosos para um mulher sentir amor ou prazer ou ser dona de si.

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4. DESFECHO

O fim é abrupto e lida com as consequências de tantas transgressões às leis de Gilead. O artifício de Serena para dar um filho ao seu Comandante e a situação em que June se coloca não denunciando os Waterfords os coloca em terrível perigo.

Há uma quebra drástica e o fim é imposto sem aviso. O que se estabelece é antes de tudo é uma frágil felicidade que se instala no coração de June que vive um romance idealizado ao passo que realista com Nick. Vê o mundo desmoronar a sua volta, mas encontra no sexo às escuras, na casa do motorista, uma espécie de “porto seguro”.

No fim Nick a resgata ou a condena? Essa tensão permeia o fim da narrativa que só vem a ser melhor explicada nas “Notas Históricas” no qual pesquisadores analisam a sociedade de Gilead distanciados no tempo que entre os muitos documentos se focam nas gravações em aúdio de June, transcritas no livro que o leitor acabou de ler. Isso se torna claro na afirmação de Offred:

Conto, em vez de escrever, porque não tenho nada com que escrever e, de todo modo, escrever é proibido. Mas se for uma história, mesmo em minha cabeça, devo estar contando-a para alguém.

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V – A AUTORA

Nascida em Ottawa, Canadá, Margaret Eleanor Atwood é romancista, poeta e roteirista premiada além de seus trabalhos humanitários e como ambientalista. Enquanto cursava o doutorado em Havard, por ser muito prolíxa, nunca terminou sua dissertação, embora colecione mais de vinte diplomas honorários, inclusive da própria faculdade recebido no ano de 2004. Nesta violenta distopia passada no ano de 2195, no qual a taxa de natalidade caiu drasticamente e as mulheres servem de aia com o propósito de reprodução das elites, percebe-se a clara inspiração em outros romances do mesmo tipo como 1984 de George Orwell e Admirável Mundo Novo de Aldous Hurley.

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VI – CONCLUSÃO

Fiz o caminho inverso e acho que muitos leitores agirão como eu: primeiramente se apaixonarão pela série e depois lerão o livro. Mas sou defensor do seguinte ponto de vista: não há como equiparar dois objetos artísticos totalmente diferentes. O livro de Atwood tem sua relevância e sedução na medida que acompanhamos a mente de uma mulher angustiada e oprimida pelo sistema. Tudo bem que a série, também roteirizada pela escritora, tenha seus momentos em que ouvimos os questionamentos e a consciência de Offred, no entanto acompanhar sua narrativa claustrofóbica e reconstruída é uma experiência sem igual.

Não espere dessa obra esclarecimentos sobre os ações futuras da série. Ela abarca um curto período da trajetória de June, no entanto o poder e profundidade da narrativa da heroína, sua tensão entre a passividade e a possibilidade de se rebelar, reflete a dinâmica de cada um de nós. Frente à iniquidade, ao fanatismo religioso dos políticos, à postura machista, qual é a nossa capacidade, sejamos homens ou mulheres, de sair de nossa zona de conforto ou de nosso cárcere para buscar uma vida mais justa?

June, tornada Offred, pode ser um testemunho claro de que a não ação é tão perigosa quanto os atos de injustiça. Em tempos como esse em que o conservadorismo reage a evolução e revolução das questões de gênero, da geração da vida e de seu extermínio, e se fecha em soluções messiânicas, o livro de Atwood é um chamado para o despertar. E então, em qual parte do Conto da Aia o Brasil está? Leia e descubra! Boa leitura.

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ID – O PSICÓLOGO DE ROBÔS (NEWS)

SINOPSE

No futuro, uma série de robôs é criada com um sistema operacional que simula o consciente e inconsciência tal qual Freud explicou, com algoritmo que simulam o ID, Ego e SuperEgo. Robôs com esse sistema operacional eram mais inteligentes e capazes de criar infinitas soluções para qualquer problema, mas tal como nos humanos, começaram as psicopatologias: Robôs com depressão, ansiedade, crise de pânico, bipolaridade etc. Para resolver esse problema uma nova profissão é criada: o psicanalista de robôs.

 

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Capa do livro, ilustração de Vitor Wiedergrün.

DO QUE SE TRATA?

De forma resumida este é um filme de ficção científica sobre inteligências artificiais que desenvolveram emoções. Histórias sobre robôs não faltam na nossa biblioteca de contos humanos. Nomes como Isaac Asimov, Arthur C. Clarke, Philip K. Dick, inspiraram gerações a pensar sobre o futuro e, no como a humanidade poderia ser substituída, ou mesmo superada por novos seres, mais desenvolvidos e criados por nós. Sem contar os filmes que tratam desse tema cada vez mais contemporâneo. ID – O Psicólogo de Robôs é um projeto de longa metragem que também bebe dessa fonte, e almeja ampliar ainda mais o catálogo desse gênero, trazendo novos elementos e modos de contar essa epopeia distópica sobre relações entre humanos e robôs. Se baseando no livro O Psicanalista de Robôs de Gabriel Billy, os envolvidos no projeto enxergam grande, e almejam dar vida a uma referência do cinema brasileiro de ficção científica. Então vamos conhecer um pouco sobre seus personagens centrais.

 

CURTA METRAGEM

Para mostrar um pouco da história do longa, foi feito um curta no começo de 2019. Uma história paralela ao longa que mostra como esse tema tem um potencial enorme.

SINOPSE DO CURTA: Em mais um dia normal de trabalho, Adão encerra seus atendimentos psicológicos com uma paciente que guarda um segredo que precisa contar para alguém. Adão usará todas as suas habilidades para descobrir o que Alexa esconde, mas pode ser que seus segredos sejam muito maiores do que ele imagina.

 

PERSONAGENS

  • Adão (Junior Osvald): É principal psicólogo de robôs da PSY, um homem inteligente mas que sente muita culpa, e procura de alguma forma a redenção.
  • Zoe/Lilith (Sthefany Lorentz): Um robô criado para satisfação sexual, mas que não quer se relacionar, consegue sentir amor e, tem dupla personalidade.
  • Samuel: O chefe da PSY, um homem frio que enxerga os robôs como tecnologia robótica desenvolvida com o mero fim de atender as necessidades dos homens.
  • Lúcia (Karolline Santana da Silva): Líder dos naturalistas. Uma mulher decidida e que busca uma salvação final para a humanidade.
  • Miguel: Líder dos techis, um homem que acredita na utopia de um dia robôs e humanos serem capazes de conviver em harmonia.
  • Elisa (Isadora Bittencourt): Recepcionista da PSY, é uma mulher misteriosa e que parece saber muito mais do que demonstra.
  • Max: Este é o elhor amigo de Adão, é um homem cheio de preconceitos quanto aos robôs, em uma única palavra, “robofóbico”.
  • Evelyn (Joanice Castro): Esposa falecida de Adão, uma mulher que sofria de uma depressão tão profunda, que nem mesmo seu marido psicólogo conseguiu ajudar.
  • Harriet: Um robô que trabalha com Lilith para que um dia seus semelhantes sejam finalmente libertos.
  • Gabriela: Atriz trans que apoia a causa dos techis.

 

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Parte da equipe reunida

A EQUIPE

DIREÇÃO
Diretor, Roteirista e Produtor: Rikardo Santana-Silva
1º Assistente de Direção: Mateus Ross
2º Assistente de Direção: Annelyse Bosa
Assistente de Produção: Eraldo Mota e Rayssa de Souza
Supervisor de Roteiro: Jacob Galon
Coordenadora de Roteiro: Tallyta Moraes
Preparador de Elenco: Junior Pereira
Consultora: Isadora Souza
Fotografia de Still: Mikaella Carbonera
Making of: Tata
Storyboard: Letícia Gomes
Estagiários: Rafael Elias e Matheus Fronza

ARTE
Designer de Produção & Figurinista: Luciana Lourenço
Assistente de Arte: Jessica Nayara
Assistente de Figurino: Letícia Ross
Decoradora de Set: Viv Brüschz
Assistente de Decoração de Set: Laura Maria Toledo
Contraregra: Larissa Martins
Maquiagem & Cabelo: Joanice Castro
Assistente de Maquiagem: Rafael Bonacin

FOTOGRAFIA
Diretor de Fotografia: Guilherme Labiak
1º Assistente de Fotografia: Max Martins
2ª Assistente de Fotografia: Bianca Leal
Gaffer: Roberto Willan
Best Boy: Oraci Pereira
Second Unit: Fernanda Suguimati
Assistente de Second Unit: Juliana Vilela
Operador de Drone: Pablo Vaz

PRODUÇÃO
Diretor de Produção: Edgar Krüger
Gerente de Locação: Willians Camargo
Assistente de Catering: Matheus Cassiano
Técnico de Som: Carlos Lemos
Microfonista: Ana Lemos
Logger: Gabriel Eckstein

EDIÇÃO
Editora & VFX: Thamires Trindade
Assistente de Edição: Gabriel Eckstein
Colorista & Editor de Trailer: Nyck Maftum
Edição de Som & ADR: Lucas Pereira
Música Original: Gabriel Billy
Foley: Ana Lemos e Carlos Lemos
Title Designer: Helen Sippel
Tradução & Legendagem: Beatriz Sganzerla

COMUNICAÇÃO
Diretor de Comunicação: Phillipe Halley
Assessora de Imprensa: Joceline Alemar
Divulgação Digital: Brenner Natal
Redes Sociais: Luciana Lourenço
Website: Karolline Santana da Silva
Design Gráfico: Dany Ribeiro

 

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DESAFIOS DE PRODUÇÃO

A Produtora Banana Filmes Curitiba começou atuar no ano de 2017, sendo um grupo de alunos da Hollywood Film Academy. Atualmente, está formalizada como uma produtora cinematográfica e possui um corpo de nove colaboradores: Edgar Krüger, Gui Labiak, Jacob Galon, Jessica Nayara, Karolline Santana da Silva, Luciana Almeida, Mateus Ross, Rikardo Santana-Silva e Viv Brüschz. A produtora tem como foco a produção de cinema, e para isso está recorrendo a novas maneiras de financiar seus filmes. A Banana Filmes já fez dois longas metragens, cada um tendo um custo total de R$2500,00. Esse valor foi bancado pela própria equipe e elenco, pois todos tinham o sonho de fazer um longa, custasse o que fosse. O primeiro longa foi Eterno Retorno, gravado em um plano sequência, e o segundo, Trieu, gravado em inteiramente em inglês, ou seja, sempre se colocando um desafio nas produções. No total já foram feitos pela equipe 10 curtas metragens, 5 videoclipes, 1 piloto de série e 2 longas. O desafio com ID – O Psicólogo de Robôs é um pouco maior, e para isso a produtora irá precisar de ajuda de novos colaboradores.

 

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COMO FAZER PARTE E AJUDAR?

O filme irá passar por três etapas, a pré-produção, produção e a pós-produção. E como qualquer coisa bem feita, é necessário não apenas esforço, mas investimento financeiro. Então o que você acha do seu negócio estampar como um dos apoiadores deste trabalho de arte? Não entenda este gesto como uma simples ajuda, mas como um investimento real para o seu trabalho. A propaganda é a alma do negócio, correto? Então se você tem uma marca e gostaria de ter seu nome associado à uma boa ideia, está aí uma ótima forma de se promover enquanto ajuda um excelente projeto a sair do papel!

O programa escolhido para o financiamento coletivo é o Catarse, então clique aqui para conhecer ainda mais sobre o próprio projeto, e como você pode ajudar.

O NerdComet não recebe nada com esta divulgação, apenas temos como lema apoiar todas aquelas boas ideias e vê-las concretizadas. Este também é um excelente tipo de pagamento. Então se você não pode colaborar financeiramente, não tem problema, apenas divulgue esta ideia nas suas redes sociais e entre sua network. Vamos ajudar este filme acontecer!

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LEILA – SÉRIE DA NETFLIX (CRÍTICA)

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SINOPSE
O ano é 2047, e o território da Índia agora é chamado de Aryavarta. Uma nação onde extensos muros dividem comunidades, separando castas consideradas puras das impuras, nas quais umas possuem mais privilégios do que outras. Nesse futuro distópico de desigualdade, a água limpa se tornou escassa, e cerceada pelo Estado, apenas os considerados puros tem melhor acesso. O Governo é regido por Dr Joshi, um totalitarista sádico que recebe denúncias de simpatizantes, e usa de violência física e psicológica para ‘purificar’ a sua idealizada Aryavarta.

Nesse cenário de tensão, Shalini, uma mulher comum mas de vida privilegiada, tem sua casa invadida, seu marido assassinado de forma brutal e, é levada à força, enquanto sua filha era deixada para trás. Segundos as regras estabelecidas por Dr Joshi, a mulher havia se casado com um muçulmano, e portanto havia se tornado impura. Assim como outras, Shalini é levada uma clínica de bem-estar feminino, local onde de forma cruel e covarde, sofre todo tipo de maus-tratos e humilhações. Elas abandonam suas individualidades e precisam se enquadrar no padrão comportamental de submissão, no qual um sistema misógino e tirano, às obrigam a obedecer vexatórios ritos até estarem aptas a oportunidade de provarem estar prontas para voltar a sociedade como mulheres puras.

Dois anos se passam e, Shalini nota que as crianças consideradas ‘mestiças’, as nascidas de relacionamentos inapropriados, eram levadas para um desconhecido paradeiro. Passa então a ficar bastante preocupada com o paradeiro de sua filha, e faz de tudo para conseguir sair daquele lugar.

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COMENTÁRIOS
Logo de cara é impossível não fazer a comparação óbvia com a série norte americana O Conto de Aia (The Handmaid’s Tale, de 2017), principalmente pela semelhança estética e da atmosfera claustrofóbica e melancólica. Leila também conta sobre um futuro similarmente distópico, no qual um governo totalitário e opressor, subjuga mulheres para que se enquadrem nos padrões de dona de casa, submissa e procriadora. Mas diferentemente da série ocidental que foca muito no cenário estrutural político, esta prioriza o drama pessoal de Shalini, negligenciando explicar os fatores que levaram a sociedade chegar naquele formato ditatorial.

Uma  das coisas que me incomodou bastante nesse começo de série, é o fato daquele grupo de mulheres não oferecerem resistência alguma aos seus opressores. Não há uma gerência e muito menos união para planejar uma fuga. Faria sentido ao menos que conspirassem para melhorar aqueles períodos tortuosos de cárcere. Mas não, é pressuposto que todas cuidam apenas dos próprios interesses, e cada uma é responsável pela própria saúde física e mental. No início Shailini e Pooja ainda esboçam o ensaio para tal, mas logo a cumplicidade é abandonada voltando cada uma a cuidar do próprio nariz.

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Ao mesmo tempo que esta é uma série endereçada ao público de O Conto de Aia, imagino que esse conceito praticamente copiado, deixe tal público bastante desconfortável. O romance do indiano Prayaag Akbar foi publicado originalmente em 2017, enquanto O Conto de Aia é uma obra de Margaret Atwood lançada em 1985. Me pergunto se os produtores de Leila não imaginavam que essa grande semelhança, junto com a oferta das série em datas tão próximas, não poderia prejudicar bastante o marketing da produção indiana. A repercussão não vem sendo nada favorável, visto que além da já citada comparação, Leila não traz grande qualidade de roteiro e direção. Seu ritmo é lento e cansativo, fazendo parecer os seis episódios com uns 40 minutos cada, parecem uma eternidade. As atuações também são apenas aceitáveis, não temos ninguém se destacando.

Na Índia existe um conflito ideológico e religioso muito grande entre muçulmanos e hinduístas e, Leila explora isso de forma muito arriscada, uma vez que deturpa uma série de elementos de ambas as religiões. Para uma nação tão ortodoxa assim, essa é uma série que se complica até para seu público doméstico. Fica a questão: Leila é bom? Eu particularmente tenho certa dificuldade em endossar obras embasadas em tons melancólicos, mas ao mesmo tempo gosto de conhecer conceitos distópicos diferentes. A pena fica por conta desse ponto não ser merecidamente explorado, e isso é uma pena. Então respondendo minha própria pergunta, eu acho que não sou fã desta série.

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ELENCO E FICHA TÉNICA
Huma Qureshi, Siddharth, Leysha Mange, Seema Biswas, Rahul Khanna, Sanjay Suri, Arif Zakaria, Ashwath Bhatt, Pallavi Batra, Anupam Bhattacharya, Akash Khurana, Jagjeet Sandhu, Prasanna Soni e Neha Mahajan compõem o elenco. A obra indiana é baseada no livro homônimo de Prayaag Akbar, e foi adaptada em conjunto por Urmi Juvekar, Suhani Kanwar e Patrick Graham. A direção também é compartilhada entre Deepa Mehta, Shanker Raman e Pawan Kumar. Produzida pela Open Air Films LLP, Leila foi lançado e distribuído sob o selo Netflix.

CONCLUSÃO
A série indiana surgiu recentemente na Netflix com o objetivo claro de fisgar o mesmo público de O Conto de Aia, porém não tarda em criar uma identidade própria. A série aborda o drama de Shalini, uma mulher acostumado com uma vida confortável, que de uma hora para outra é subjugada por um regime covarde e hipócrita, quando ao mesmo tempo vive a angústia de não saber o paradeiro da própria filha. Uma obra cheia de melancolia e sofrimento, que por muitas vezes gera repulsa e raiva, pelas injustiças e abusos que aquelas mulheres são expostas. A série é curta, possuindo apenas seis episódios nessa segunda temporada, e até o momento não é confirmada continuação.

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“YEARS AND YEARS” – SÉRIE DA HBO (CRÍTICA)

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A VIDA COMO ELA É…
Idealizada por Russell T. Davies, a série Years and Years (Anos após anos, em uma tradução livre), é uma série de apenas seis episódios da HBO e que segue os moldes de uma futuro distópico (estado imaginário em que se vive em condições de extrema opressão, desespero ou privação) à semelhança de Black Mirror (Netflix). O programa acompanha a vida da família Lyons, que reside em Manchester (Inglaterra), a partir do ano de 2019 ao longo de 15 anos. Durante esse tempo, a história segue os membros desta família que enfrenta os avanços políticos e tecnológicos de seu país e do mundo, ao mesmo tempo que lidam com o cotidiano, o amor e a criação dos filhos em realidades tão diferentes.

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A série começa com debate na TV assistido pela família Lyons. O foco é uma mulher de fala ousada, evidenciando que não há mais posicionamento político de esquerda ou direita. Fala que tem medo dos rumos atuais. Fala que quer que a situação entre Israel e a Palestina se “foda”. Isso mesmo. Sem papas na língua. A audiência delira. A declaração vai para o trending topics de assuntos do Twitter. Parte da família se diverte ou se escandaliza. Falam-se por meio de uma espécie de telefone que faz videoconferência por um simples comando de voz. Estão integrados e online permanentemente. Vivienne Rook (Emma Thompson), o nome da debatedora e empreendedora, usa sua retórica sedutora: devemos nos preocupar com o povo inglês e seus problemas comuns. Aparentemente sua busca pelo poder político é mais perigoso que inicialmente se mostra.

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FAMÍLIA PARA LÁ DE DIVERSIFICADA…
Os Lyons parecem sintetizar diversos segmentos da sociedade: os irmãos órfãos de mãe e afastados do pai, tem na vovó nonagenária Muryel (Anne Reid), que mora em uma residência isolada, a fonte de sabedoria e que não se furta a compartilhar sua opinião nem sempre agradável.

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O branco Stephen Lyons, o pacifista da família, é vivido por Rory Kinnear (conhecido por sua atuação constrangedora em Black Mirror, aquela do porco) é casado com Celeste (T’Nia Miller), negra com um padrão estético único. Ele, analista financeiro; ela, contadora. Suas filhas são igualmente peculiares: Ruby (Jade Alleyne), desbocada e vegana, é quase latina em seus traços; e Bethany (Lydia West), que sonha ser transumana, não possuir mais corpo físico e se tornar inteiramente digital. Ela quer ser eterna.

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Já Daniel (Russell Tovey), irmão mais novo de Stephen, é gay, casado e a serviço do governo na área de construção pública ligada aos refugiados que assolam o país. Enquanto que Rosie (Ruth Madeley), irmã caçula, é cadeirante devido a um mal congênito e mãe solteira de um menininho branco e outro de origem chinesa.

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Finalizando a família, Edith (Jessica Hynes), a irmã mais velha, é ativista política e luta contra os desmandos dos poderosos em suas andanças a bordo de um navio pelo mundo afora.

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A MARCHA PARA O FUTURO
Em certo momento, ao visitar a irmã no hospital após dar à luz, Daniel relembra:

“Tudo ia bem até uns anos atrás, antes de 2008. Lembram? Achávamos política um assunto chato. […] Agora me preocupo com tudo. Nem sei em que pensar primeiro. Nem é o governo, são os bancos. Eles me apavoram. E não só eles. As empresas, as marcas, as corporações que nos tratam como algoritmos enquanto envenenam o ar, a temperatura, a chuva. Nem vou fale do El [Niño]. E agora temos os Estados Unidos. Nunca achei que fosse ter medo deles, mas temos fake news, fatos falsos, nem sei mais o que é verdade. Em que tipo de mundo vivemos? Se está ruim agora, como vai ser para você?”, referindo-se ao recém-nascido em seus braços.

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Essa é a premissa da série: pessoas que seguiam sua vida ordinária, alheios aos acontecimentos políticos, mas que se veem mergulhados no caos social da atualidade, sofrem seus reflexos e seus conflitos a cada ano que passa entre os avanços tecnológicos e os retrocessos sociais.

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Enquanto, através dos anos, governos nada flexíveis se mantém no poder, como o de Trump, e outros líderes morrem, como a eterna Rainha Elisabeth; Viv Rook vai se mostrando uma saída política ousada para a Inglaterra. Inserida em um contexto de governos autoritários: ela quer ser primeira-ministra. Representando um partido novo, que, apesar de uma derrota inicial, vai ganhando espaço no cenário político. Baseia suas ações em sua representatividade na mídia e nas redes sociais com suas brincadeiras bonachonas e retórica agressiva contra tudo e todos (já vimos esse filme…).

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A série parte de premissas e projeções da nossa atualidade para traçar um futuro distópico, nada idealizado, ocasionado pelos problemas que foram deixados de lado por cada um de nós e voltarão para nos assombrar. E se Trump e Putin se recusassem a sair do poder? Como será o emprego no futuro que cada vez mais se torna home office? E as profissões que inevitavelmente irão sumir? E a alimentação? O meio ambiente?

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Assuntos sensíveis são tocados a todo momento como o fato de Daniel, mesmo casado, se apaixonar por refugiado ucraniano, Viktor Goraya (Maxim Baldry), que em seu país natal quase foi morto por sua orientação sexual. Esse romance e a questão dos regimes conservadores e autoritários, a questão de fronteiras, os limites da tecnologia na vida de todos, a guerra comercial entre EUA e China, a tensão de um possível conflito em escala mundial… tudo isso se passa vorazmente no decorrer de anos e anos (Years and Years).

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A VIDA COMO ELA SERÁ…
No meio desses acontecimentos, tentando sobreviver a eles, a família Lyons enfrenta ameaça nuclear, falência de bancos, desemprego, escassez de dinheiro, morte. Suas vidas passam diante de nossos olhos. A tecnologia avança, a humanidade regride em seu raciocínio empático, científico (aqui o terraplanismo é discutido!) e o extremo conservadorismo. Líderes carismáticos de extrema esquerda ou direita chegam ao poder. O populismo é auxiliado pelas mídias sociais e a mídia convencional é taxada como inimiga de governantes. Tudo nos soa intensamente próximo de nosso cotidiano e a série, meus amigos, é inglesa! Assim como assistimos ao seriado passivamente, os Lyons parecem, inicialmente, somente acompanhar, não protagonizam história. A família fará, em suas limitações, algo para mudar a marcha dos acontecimentos no seu país? Em certo momento a vovó Muryel, resume tudo e os convida a sair da inércia. Em 2034, em um almoço de família ela profere o seguinte discurso:

“Absolutamente tudo que deu errado é culpa de vocês. […] Podemos ficar aqui o dia todo culpando os outros. Culpamos a economia, culpamos a Europa. A oposição. O clima. E culpamos os grandes acontecimentos da História. Como tudo está fora de controle, como somos desprotegidos, pequenos e frágeis. Mas ainda é culpa nossa. Vocês sabem por quê. É a camiseta de uma libra. A camiseta que custa uma libra. Não conseguimos resistir. Nenhum de nós. Vemos a camiseta de uma libra e achamos uma pechincha, adoramos e compramos. Não porque é melhor, mas é uma boa camiseta para o inverno, para usar por baixo. Serve. O dono da loja ganha cinco míseros centavos pela camiseta. E um camponês, em um campo qualquer, ganha 0,01 centavos. E achamos que está bom. Todos nós. Damos nosso dinheiro e participamos desse sistema a vida toda.”

A quase centenária velhinha alerta para o conformismo, para falta de vontade de fazer protestos ou a diferença no mundo. De como não temos mais empatia pelos mais pobres e não entendemos que culpa do mundo como está é totalmente nossa. Nós somos os responsáveis.

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A SÉRIE TEM FUTURO?
Year and Years é uma série agradável e instigante de assistir. Será fácil maratonar, afinal é curta com apenas seis horas de duração. Todavia as questões que ela traz à tona, são extremamente desconcertantes e familiares (nos dois sentidos da palavra). A semelhança com nossa realidade é impactante e nos convida a um despertar. Ela fecha um arco completo e nenhuma temporada a mais fora confirmada ainda pelos produtores, mas confesso que seria desnecessário. Ela fecha filosoficamente raciocinando na maior questão humana: os limites da existência. No final, caro leitor, a pergunta não será o que esperamos do futuro, mas o que o futuro espera de nós.

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