DON (CRÍTICA)

126_00

SINOPSE
Comandando a Operação de Singhania, o vice-comissário De Silva orquestra as investigações em Kuala Lumpur, na Malásia, contra o crime organizado liderado por Don, um criminoso lendário dentro da alta cúpula internacional do tráfico de drogas. Mr. Singhania é um dos dois gerentes antes subordinados a um chefão falecido, conhecido como Boris, e o outro é Verdhan, cujo paradeiro é desconhecido. Após Ramesh, um dos capangas mais próximos de Don tentar se dissociar do grupo por querer levar uma vida menos arriscada, é assassinado por Don. Porém a noiva de Ramesh, Kamini, decide cooperar com a polícia para tentar capturá-lo, e assim trazer paz à memória de seu amado. Roma, irmã de Ramesh, inconformada se infiltra discretamente na gangue de Don, para tentar pegá-lo desprevenido em algum momento. Durante uma das várias tentativas da polícia em capturar Don, uma audaciosa perseguição entre o bandido e De Silva ocorre, terminando num grave acidente onde Don finalmente é alcançado. A captura não é anunciada e, apenas De Silva e um número limitado de agentes sabem, ato esse que permitiu ao comissário traçar um plano surreal de por um sósia de Don, Vijay, para encarnar os super criminoso. Vijay é um cara pacato, humilde, e que queria apenas viver uma vida tranquila ao lado do pequeno garoto que cuidava. Mas em troca da oferta de uma boa escola para a criança, Vijay aceita o perigosíssimo trabalho de se infiltrar no mundo do crime.

126_01

COMENTÁRIOS
Me sinto num papel de diplomacia em convencer brasileiros assim como eu, a se darem mais oportunidades de conhecer o cinema estrangeiro. E olha que eu nem pego pesado ofertando pérolas consideras ‘cults’ do circuito exótico internacional. Don (também conhecido como Don: The Chase Begin Again) é um filme indiano de ação lançado em 2006 que traz atuações de super celebridades indianas, como o galã Shah Rukh Khan e a belíssima Priyanka Chopra, que exala muito carisma com sua sensualidade natural. Simpatia essa que salta aos olhos pelos trejeitos desse povo tão espontâneo na arte cênica, com suas músicas, danças e desinibição. O mais interessante em Don é que por se tratar de um filme de ação, imagine-se que trechos musicais com danças coreografadas fariam toda a dinâmica do conceito rolar ladeira a baixo, mas aí que a gente quebra a cara. Com o mesmo feeling da abertura de um longa de James Bond esses momentos se fazem, porém não apenas numa chamada ao filme, mas no decorrer de seu todo. E não só isso, as músicas em Don também fazem sentido no somar com o roteiro, enriquecendo mais ainda a metodologia de narração e montagem de cenário. É uma dinâmica muito, mas muito diferente das quais estamos acostumados no ocidente. A riqueza cultural e o que esse pátio de cinema tem para ensinar ao ocidente é uma coisa fora de série, e que merece bem mais atenção do que tem recebido.  Don (2006) não é o original, nas sim um remake de um aclamado filme também indiano e de mesmo nome de 1978, no qual o astro Amitabh Bachchan era o protagonista.

126_02

Um dos pontos mais fortes de Don é sua trilha sonora. Eu mesmo não sou exatamente fã do gênero de músicas que se aplicam neste filme, mas a sonorização eletrônica com sintetizadores mixando grooves de guitarras pesadas e pontuais, belas marcações de contrabaixo, e até mesmo violinos, criam uma atmosfera sensacional dos clássicos conceitos de espionagem característicos do mundo de Ian Fleming. O sentimento eufórico é esse mesmo, Goldfinger (1964), Skyfall (2012), GoldenEye (1995). É cara, é nesse nível mesmo que espero você ser capaz de imaginar, só que como expliquei, isso se perpetua por todo o decorrer do longa. A busca por incorporar elementos narrativos em trilhas é sempre algo muito delicado. A probabilidade de se transformar num puro musical ou mesmo beirar a galhofa é sempre grande. Um risco enorme. Mas se trata de cinema indiano, meu amigo. Bollywood, Tolywood, não importa, quando se trata de gerenciamento artístico, até mesmo a Disney suga daqueles cantos, quem já consome esse tipo de material sabe do que estou falando. Segue uma amostra:

COMENTÁRIOS COM SPOILERS
Com um roteiro sensacional vemos algumas referências, intencional ou não, a filmes como A Outra Face (1997) ou clássicos da série Missão: Impossível. Tramas complexas de perigo onde a verdadeira identidade por ser revelada é um motivo de tensão, sempre é algo divertido. Aqui temos um frio e debochado vilão, que boa parte do filme assume o protagonismo central, e não compreendemos claramente se estamos assistindo um filme normal onde o vilão será derrotado, ou se homenageamos justamente o lado errado apenas por ele ser, mesmo que ainda errado, muito carismático. Tarda um pouco, embora o filme tenha realmente todos os arcos bem longos, mas Don finalmente é capturado pela polícia. Dado-se isso o que vemos é um absoluto show de interpretação. Don e seu sósia são o mesmo ator, óbvio, mas a personalidade do dois personagens são coisas completamente diferentes, totalmente opostas. Daí temos Vijay a pedido da polícia sendo treinado para incorporar o então vilão morto, e assim ajudar nas investigações no mundo perigosíssimo da máfia. E é nessa transição que o cara mostra sua habilidade. O crescente de transformação é algo sensacional, o cara humilde e inseguro que se molda num divertido, caótico e presunçoso vilão, quase um Coringa. E o final cara! Que desfecho é aquele? Sensacional! Não vou nem comentar nada (mesmo aqui sendo área de spoilers), porque para quem assistiu não é preciso explicação, e esse é o supra sumo plot twist de Don!

126_03

ELENCO E FICHA TÉCNICA
Shah Rukh Khan, Priyanka Chopra, Arjun Rampal, Boman Irani, Isha Koppikar, Om Puri, Kareena Kapoor, Pavan Malhotra, Rajesh Khattar, Tanay Chheda, Satyajit Sharma, Chunky Pandey, Sushma Reddy e Diwakar Pundir compõem o elenco. Baseado em Don (1978) que fora criado por Salim-Javed, Don (2006) é um remake do consagrado longa que se tornaria definitivamente uma franquia. Produzido por Ritesh Sidhwani e Farhan Akhtar, esta é uma superprodução dirigida pelo próprio Akhtar. Don é produzido nos estúdios da Excel Entertainment, e tem distribuição da Eros International. Venceu o Neuchâtel International Fantastic Film Festival na categoria de melhor filme asiático, e foi indicado a diversos outros prêmios, como o 1st Asian Film Awards, 52nd Filmfare Awards e 8th IIFA Awards. Seu orçamento foi de ₹38 crores, e teve uma arrecadação de ₹106 crores.

CONCLUSÃO
Num ritmo excelente de roteiro Don se desenvolve em seus extensos 168 minutos, ter uma montagem longa é uma característica da maioria dos filmes indianos, e nesse não é diferente. Mas vamos lá, Don é para que tipo de público? Primeiro precisamos entender que a cultura aqui é outra, muito diferente da nossa no Brasil. Então não cabe ficar julgando conceitos por identificar estranheza, apenas sente no barco e curta como o mar navega. Tem vezes que é bom esse desprendimento crítico e simplesmente entrar no jogo, acredite, quando você der conta já é um adepto da grande Bollywood. Ação, comédia, romance, boa música, boas atuações, e por fim um pouco mais de ação. Assim eu defino Don, filme que tem uma continuação conhecida simplesmente como Don 2, ou Don 2: The Chase Continues de 2011, e no fim de dezembro de 2019 foi lançado Don 3: The Chase Ends. Com classificação etária de 16 anos, Don está disponível no catálogo Netflix, bem como sua continuação.

Barra Divisória

assinatura_dan

BHAVESH JOSHI SUPERHERO (CRÍTICA)

106_00

SINOPSE
Três jovens amigos, Bhavesh, Siku e Rajat, não se conformam com os problemas gravíssimos da cidade onde vivem. Estão sempre participando de levantes contra a administração pública, e protestam contra a corrupção institucionalizada. Mas eles não param por aí, seja vindo do governo ou mesmo do cidadão comum, não importa, se são atitudes erradas, então elas precisam ser repreendidas. E para engajar ainda mais apoio da população, dois deles, Bhavesh e Siku, os mais empenhados pela causa, decidem criar um canal no Youtube, no qual divulgariam o flagrante das irregularidades encontradas. Perseguem todo tipo de infração que prejudique a comunidade, e compartilham de forma didática para que qualquer um possa entender. Porém as coisas vão tomando proporções cada vez mais extremas,  fazendo com que um enorme desastre sirva de inspiração para o surgimento de um implacável justiceiro.

106_01

COMENTÁRIOS
Desperdício, é com essa palavra que inicio o comentário de Bhavesh Joshi Superhero, produção indiana de 2018. Não completamente decepcionado, mas ainda assim um pouco frustrado, prossigo. Sabe aquela satisfação crescente de ver um filme progredir a passos largos, com uma aura ambiciosa, e que se arquiteta para um desfecho épico? Então, é exatamente a sensação que tive. Um filme de enorme potencial, mas que acaba sendo sabotado por um roteiro problemático. Está certo que a referência ao heroísmo vem desde o título, no entanto no seu desenrolar, ao menos da primeira metade, envereda muito por um lado ativista contra o sistema. E não é que ele não busque isso, mas a expectativa com esta combinação, é de estarmos prestes a ver o nascimento de um V de Vingança (2005) indiano. Só que sse personagem que projetamos nunca acontece, e diferente de um idealista politizado com um rico background, o que nasce é uma rasa variação de Batman. Pensando bem, acho que nem isso, o homem-morcego tem grana e infinitos recursos, Siku está bem mais para um Demolidor. E o clichê todo está lá, um cara revoltado em busca de justiça, um esconderijo, um veículo descolado, e seu treinamento por um professor de artes marciais da periferia. Só há um problema, esse personagem não se constrói de forma convincente no decorrer do longa. A causa que ele abraça não era realmente dele, e essa transferência de valor é o maior pecado do roteiro. Este ainda assim é um bom filme, mas que teve seu ritmo muito prejudicado de forma incompreensível. A sensação que fica é dos seus três roteirista não terem se entendido. Sei lá, talvez cada um tenha ficado com 1/3 do trabalho, gerando esse saldo final aí, a projeção de uma intenção que resulta em algo completamente inesperado. E de forma negativa, é claro.

106_02

Visualmente tudo é espetacular, a produção foi muito feliz em seu design e conceito. Fotografia de bom gosto com um certo tom de granulação, trilha sonora excelente, e uma estética geral bastante interessante. Suas atuações são apenas boas, não há ninguém que cause desequilíbrio ou se destaque mais. Uma das coisas mais chamativas é sua qualidade nas cenas de ação, sempre com vigor e realismo nas lutas, perseguições muito bem orquestradas, e tudo feito com a máxima valorização dos efeitos práticos, algo que na minha opinião é sempre digno de aplausos. Infelizmente o filme falha terrivelmente em sua montagem de script, tendo picos de adrenalina muito bons, mas com quedas abruptas e bastante acentuadas. Faltaram umas boas revisadas em seu roteiro, e era só isso que precisava ser feito para termos um filme de ação indiano digno de exportação.

106_03

ELENCO E FICHA TÉCNICA
Harshvardhan Kapoor, Priyanshu Painyuli, Ashish Verma, Shreiyah Sabharwal, Pratap Phad, Pabitra Rabha, Chinmay Mandlekar, Nishikant Kamat, Hrishikesh Joshi, Arjun Kapoor, Shibani Dandekar e Anusha Dandekar compõem o elenco. Dirigido por Vikramaditya Motwane, Bhavesh Joshi Superhero é uma produção indiana de 2018 escrita pelo próprio Motwane em parceria com Anurag Kashyap e Abhay Koranne. A produção é da Eros International e Reliance Entertainment, com os produtores independentes Vikas Bahl, Madhu Mantena e Anurag Kashyap. O selo final de produção é da Phantom Films, e sua distribuição é da Reliance Entertainment com a Eros International.

CONCLUSÃO
Ensaiando ser um filme de super herói mais profundo do que a média, Bhavesh Joshi Superhero é um filme agradável mas que careceu de um roteiro melhor organizado. Ficamos na expectativa de um personagem revolucionário que percorreria a pirâmide da corrupção de forma astuta e não convencional, mas que no fim das contas é apenas mais um justiceiro como muitos outros. Repito, isso não faz deste um produto ruim, mas tinha potencial de ser algo verdadeiramente grandioso. É uma pena, foi uma ideia muito boa que acabou sendo desperdiçada. Com classificação etária de 14 anos, Bhavesh Joshi Superhero está disponível atualmente no catálogo da Netflix.

Barra Divisória

assinatura_dan