BACURAU (CRÍTICA 1)

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No ano de 2019, houve diverso lançamentos muito bons no cinema. Um dos melhores, para mim, foi Bacurau com direção de Kleber Mendonça Filho (Aquarius, 2016) e Juliano Dornelles. O enredo se passa no interior do sertão nordestino, mais precisamente em Pernambuco, em um vilarejo que dá o nome à obra. Logo no início contemplamos como essa comunidade lida com a morte de uma moradora muito querida por todos, dona Carmelita, aos 94 anos.

O interessante que essa narrativa se passa em um futuro próximo, contudo a ambientação, à primeira vista, parece retratar um tempo muito antigo. Nesse aspecto me lembrou outro filme maravilhoso que é Narradores de Javé (2004) e, ao adentrarmos na atmosfera de Bacurau, percebemos seus telefones, tablets e telões de LED que dão o tom moderno à um local rústico.

Outro aspecto pitoresco diz respeito ao funcionamento da dinâmica entre os moradores. Se por um lado é Tereza (Barbara Colen) quem traz remédios da cidade grande, é a médica Domingas (Sonia Braga) que os distribui para todos e atende a qualquer pessoa que venha ao seu consultório.

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COMENTÁRIOS COM SPOILERS
Durante uma aula, o professor Plínio e seus alunos, percebem que Bacurau simplesmente “sumiu” do mapa e partir daí que as coisas se complicam. A população descobre que está sendo caçada, contudo não sabe por quem. Os algozes são, na verdade, um grupo de estrangeiros sádicos que resolvem exterminar aquela população e, para isso, contam com a ajuda de dois brasileiros do Sul/Sudeste para obter tal êxito.

Para mim, uma das cenas mais geniais diz respeito à reunião desse grupo em que um dos brasileiros “brancos” se vê como muito mais parecidos com os estrangeiros do que com seu povo. E um dos assassinos rebate que apesar da cor clara, seus traços denunciam sua origem, que “ no máximo são mexicanos brancos”. Isso demonstra bem como vivemos o racismo em nosso país: muitos renegam sua ancestralidade para fingir ser alguém que realmente não é.

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Na segunda parte do filme é que se passa o conflito em si. O sinal de comunicação é bloqueado e então toda a dinâmica de Bacurau é abalada. Há assim algumas mortes entre os cidadãos, mas inflamados por Lunga (Silverio Pereira) resolvem se armar e se defender do inimigo invisível que os espreita.

O filme é uma celebração, uma ode à população brasileira, sobretudo nordestina que luta contra as adversidades tanto estrangeiras quando dos seus compatriotas. É notável que no filme e no restante do país, o clima é de completo caos social, e que aquele pequeno oásis no sertão é uma forma de resistência às injustiças.

A trilha também conta com duas musicas especialmente tocantes: Não Identificado de Gal Costa e Réquiem para Matraga de Geraldo Vandré, ricas por seu valor simbólico em cada momento do filme. O final é violento e ao mesmo tempo sensível. No entanto, ao chegar ao desfecho, todo aquele assistir, que “ ♪ não entendeu, não perde por esperar… ♪ ”, literalmente.

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ELENCO E FICHA TÉCNICA
Sônia Braga, Udo Kier, Bárbara Colen, Silvero Pereira, Thomás Aquino, Karine Teles, Antonio Saboia, Lia de Itamaracá e Wilson Rabelo compõem o elenco. Coprodução entre França e Brasil, Bacurau, filme de 2019 é escrito tanto escrito como dirigido por Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, e tem produção de Emilie Lesclaux, Saïd Ben Saïd e Michel Merkt. Conquistou o Prêmio do Júri no Festival de Cannes de 2019, tornando-se o segundo longa brasileiro da história a ser laureado no certame geral, após O Pagador de Promessas (1962) de Anselmo Duarte. Além de premiado em diversos festivais de cinema, Bacurau foi selecionado para mostras principais de festivais não competitivos prestigiados mundialmente, como o Festival de Nova York (NYFF).

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NERDCOMET AWARDS 2019

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Como imaginado por muita gente mesmo antes do lançamento, Coringa (Joker) superou as expectativas até mesmo dos mais otimistas. O escolhido para encarnar o perturbado inimigo mortal de Batman, não foi ninguém menos que Joaquim Phoenix, conhecido por sua excentricidade em ser extremo quando topa pegar um papel. Mas desta vez não foram exatamente seus atos como vilão que predominaram na trama, Coringa conta como o mítico personagem se fez, numa combinação de problemas mentais patológicos, com a exposição a atos insanos de crueldade vindos de uma sociedade tão doente quanto ele. Até o momento Coringa já levou o Leão de Ouro, prêmio máximo do  76º Festival Internacional de Cinema de Veneza, mas é certeza que a maior agremiação de cinema do mundo também irá distribuir estatuetas do carequinha para o filme. Tendo um orçamento de até modestos US$ 70.000.000, a produção chegou nos US$ 1.062.994.002, fazendo a Warner chorar de felicidade!

Em segundo lugar na nossa pesquisa ficou Vingadores: Ultimato (Avengers: Engame), e Toy Story 4 na terceira posição. Uma coisa é fácil de afirmar, 2019 teve foi filme bom!

 

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Segundo ano de Perdidos no Espaço (Lost in Space) custou a chegar, mas finalmente deu as caras e chegou atropelando tudo! Até mesmo The Witcher no entendimento da gente! Existiram muitas outras boas séries que mereciam ter um espaço aqui, mas devido a não se enquadrarem exatamente na temática ‘nerd’, preferimos usar isso como argumento para enxugar as dezenas de opções. Mas falando do vencedor da categoria, Perdidos no Espaço voltou, e voltou fazendo bonito. Com um início morno, a série vai ganhando gás e desbanca num climax ainda mais empolgante do que sua primeira parte, deixando mais uma vez em aberto a continuidade. O que quer dizer que provavelmente será um outro enorme ano de espera por mais conteúdo.

Em segundo lugar na nossa pesquisa ficou The Witcher, enquanto a série coreana Retaliação (Vagabond) ficou com o bronze. As duas primeiras imagino que quase todos já conhecem, mas dou a dica, se deem a oportunidade de assistir Retaliação, ela está disponível no Netflix.

 

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The Promised Neverland (Yakusoku no Neverland) é um show da arte de se fazer uma boa história, além é claro, de reunir elementos técnicos muito a frente de sua concorrência esse ano. Geralmente são os animes de ação ou de apelo muito dramático os que mais se destacam, então é curioso se ver surpreendido por uma obra de suspense e terror. Seu clima é de atmosfera pesada e tensão total, sendo valorizados por uma ambientação detalhada das coisas, pelas inovações na forma de enquadrar, no dinamismo dos movimentos, e no seu ritmo constante de qualidade ao longo de 12 episódios.

Demon Slayer (Kimetsu no Yaiba) levou a prata, e a mais nova versão do clássico adaptado diversas vezes, Dororo, ficou com o bronze.

 

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O Relógio do Juízo Final (DC), minissérie ainda em andamento que introduz os personagens de Watchmen no mundo DC. E porque esse é um ano para o Watchmen (30 anos da série original, eu acho). Fora que isso, ainda consegue respeitar o conceito visual original, e a linguagem já desenvolvida por Alan Moore.

Em segundo temos Noite de Trevas – Metal (DC), onde Batman investiga o multiverso e se depara com sete versões malignas dele mesmo lideradas pelo deus das trevas conhecido como Barbatos, que planeja desencadear trevas em toda a Terra. Material bem obscuro e que já inspirou a minissérie o Batman Que Ri. Já o terceiro lugar ficou com O Retorno de Wolverine (Marvel)! O cara voltou dos mortos, ressuscitado por uma vilã com nome de deusa grega, Perséfone. Ele pode energizar suas garras e enquanto estava supostamente morto fez uma verdadeira carnificina a serviço de uma organização chamada Soteria.

 

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Nós do NerdComet procuramos manter um certo distanciamento de assuntos políticos ou de opiniões delicadas, mas muito diferente do que dizem por aí, não existe discurso 100% livre de ideologia. Quando alguém vir com essa retórica, pode ter certeza, ele não quer eliminar ideologias, ele quer impor a dele. E é nesse cenário que retrata nossa realidade no Brasil, e porque não, em algumas outras partes do mundo, que se faz necessário mergulharmos nesse assunto nebuloso. Partindo do princípio de quem almeja brigar contra o revisionismo histórico, a desonestidade intelectual, ou mesmo tirar da inércia aqueles que se colocam ingenuamente como massa de manobra, surge o livro Tudo o que você precisou desaprender para virar um idiota, da dupla do canal do YouTube Meteoro Brasil. Obviamente se você for minimamente antenado, saberá a qual outro livro este que vos digo faz paródia em seu título. O Brasil não é para amadores, e se você sobreviveu a esse 2019, parabéns!

Como compromisso civilizatório, pois você pode não ter notado ainda, mas nossa situação realmente é grave, escolhemos como segundo lugar Escravidão, de Laurentino Gomes, e em terceiro Sobre o Autoritarismo Brasileiro, de Lilia M. Schwarcz.

 

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O sangrento Período Sengoku do Japão serve de cenário para Sekiro: Shadows Die Twice, jogo que traz a essência soulslike de uma forma mais madura que suas inspirações, ao mesmo tempo que mostra mecânicas originais e identidade própria. Desenvolvido pela FromSoftware e distribuído pela Activision, o game chegou em março para o PlayStation 4, Xbox One e PC, e de lá para cá veio arrecadando uma legião de fãs. Sua beleza estética aliada a sua dificuldade empolgante, fez deste uma evolução natural de jogos como o renomado Dark Souls. Sekiro: Shadows Die Twice já recebeu o título de Jogo do Ano no The Game Awards 2019 que ocorreu em Los Angeles, e aqui no NerdComet a escolha não é diferente.

Control é outro jogo maravilhoso que não poderia ficar de fora, e leva o segundo lugar na nossa premiação, enquanto Resident Evil 2 Remake fica com o bronze.

 

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Se tem uma coisa foi comentada sem parar, e ainda estão comentando desde que O Mandaloriano saiu, é o equivocado Bebê Yoda. Qual motivo de ser equivocado? Ele não é o Yoda, ora essa! O próprio CEO da Disney, Bob Iger, diz que pequeno Gremlim tem um nome, ao mesmo tempo que não o revela. Na série, por enquanto, ele é retratado apenas como “A Criança”. Na prática isso não faz a mínima diferença, o que a Waldisney mais quer neste momento ela já está tendo, atenção máxima para seu novo personagem qual vai encher os cofres com vendas de todo tipo de brinquedos. Enquanto isso vamos espalhando memes e mais memes do parente genético do Yoda, e nos estressando. Sim, eu estou me estressando com esse boneco orelhudo. Não aguento mais!

Em segundo lugar temos o frustrante Stadia da Google, que prometeu mudar a forma de se jogar, e no fim das contas mostrou-se uma plataforma bem instável. Vai melhorar? Não sei, mas com o hype que a Google fez, deveriam ter caprichado mais nos testes antes de trazer para o grande público. Por enquanto está sendo tão bom quanto o Google Glass foi. Já em terceiro lugar temos a tão esperada conclusão da franquia Star Wars, que se iniciou a mais de 40 anos atrás. Por mais que Star Wars: Episódio IX – A Ascensão Skywalker não tenha enchido tanto nossos olhos como gostaríamos, ainda assim é um importante marco para o mundo nerd, e um provável novo início de ciclo.

 

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Aparecida Mota, Bianca Ben, Carlos Magno “Coxa”, Cláudio Almeida, Dan Pereira, Daniel Castro, Daniel Santos, Débora Sales, Felipe Pires, Flávio W. S. Lins, Graciela M. Lopes, Gustavo Henry Gabriel, Isaias Sales, João Paulo Oliveira, Julianna Sant’Ana, Júlio Cesar, Kylo Ren, Leandro Araújo, Leandro “Alucard”, Marco Lima, Maria Luíza, Maurício “Vash The Stampede”, Milena Sousa, Moisés Marques, Neto Novais, Rafael Cavalcanti, Regina Rodrigues, Rosangela Rodrigues, Simba, Pablo, Victor Silva, Wanderson, e você, que participou acompanhando nossas postagens durante todo esse primeiro ano de existência.

EL CAMINO – FILME DA NETFLIX (CRÍTICA)

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A série Breaking Bad (2008-2013), ao longo dos anos, acumulou timidamente (no início) uma legião de fãs, dentre os quais me incluo. Sendo assim, comentar qualquer derivado da obra de Vince Gilligan é um empreitada delicada.Mas El Camino (2019) não é a única história envolvendo o universo de Jess Pinkman e Walter White. A série Better Caul Saul (desde 2015 e com última temporada confirmada) também explora ainda mais os detalhes dos personagens secundários da história do professor de química que se torna produtor e traficante de metanfetamina (cristal).

Entretanto, ao final de Breaking Bad, fica o gosto amargo da morte de um anti-herói e a fuga desesperada de Jesse, barbudo, lacerado, com lágrima nos olhos depois de ter sido feito de escravo e morado em um buraco no chão. O que acontecera ao rapaz que se envolveu com produção de cristal, primeiro para saciar seu próprio vício, e que, depois, só queria viver, quem sabe, uma vida simples e em família? Nesse sentido El Camino é um fechamento para um dos personagens mais cativantes da série e que rendeu fama a Aaraon Paul.

Jesse precisa fugir de Albuquerque, pois uma grande caçada policial é empreendida atrás do rapaz após uma batida no laboratório de metanfetamina no qual era escravizado. Com a morte do Sr. White, as autoridades precisam por as mãos no último elo solto dessa organização criminosa. Pinkman tem um plano, mas será preciso muito dinheiro para executá-lo. Para isso terá que revirar seu passado e traumas para seguir seu próprio caminho.

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Título original: El Camino: A Breaking Bad Movie
Direção: Vince Gilligan
Roteiro: Vince Gilligan
Duração: 2h 2min
Lançamento: 11 de outubro de 2019.

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Elenco: Aaron Paul (Jesse Pinkman), Jesse Plemons (Todd), Jonathan Banks (Mike), Matt Jones (Badger), Charles Baker (Skinny Pete), Robert Foster (Ed).

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O FIM DE EL CAMINO
Vamos começar nossa análise justamente pelo título original:  El Camino: A Breaking Bad Movie. O termo El Camino refere-se à pick-up (caminhonete) da Chevrolet, automóvel clássico da década de 1970. É nele que ao final da série, tendo abandonado Walter White a própria sorte, Jesse acelera para a liberdade. Aqui o duplo sentido é claro: esta é a história do caminho da liberdade de Pinkman para sair de Albuquerque. E as memórias de Jesse relacionadas ao dono do carro, o sociopata Todd, permearão a narrativa do filme.

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O subtítulo, Breaking Bad Movie (um filme de Breaking Bad), pode ser um limitador. É um filme da série e, talvez por isso, tenha sido omitido na forma reduzida para o público brasileiro. Então você pode se perguntar: eu preciso ver a série antes? Sim e não. Por um lado o filme é o universo expandido, uma continuação do último episódio (2013), e, mesmo alguns atores tendo mudado muito como o Jesse Plemons (Todd) que não é mais um jovem e já um pouco gordinho, parece que o tempo parou. Conhecer a série fará com que sua imersão seja completa e entenda todas as referências.  Em contrapartida, o enredo de El Camino é independente e se sustenta, ao longo da trama, esclarecendo pontos da história para aqueles que não assistiram à série. Claro que a Netflix deu aquela mãozinha e deixou um resumo no capricho para quem não saca nada de Breaking Bad.

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Os eventos do filme tem início na fatídica noite em que Walter liberta Jesse da gangue de Todd. Fragilizado e coberto de cicatrizes, sujo e andrajoso, o jovem busca abrigo de seus colegas de vício e tráfico: Badger e Skinny. Nota-se que o psicológico de Jesse está destruído. O presente se mistura as lembranças do cárcere e das torturas.

É em um desse momentos que relembra de Todd, sociopata a citar constantemente seu tio, e que oscila sua conversa branda, com a frieza de seus atos. Toda hora que ele falava, eu tinha vontade de xingá-lo, confesso. Lembra-se de Mike, antigo parceiro de crime, e idealiza uma fuga para o Alasca. Mas como? Precisava de uma vida totalmente nova e para isso, dinheiro. É nesse momento que entra em cena o cara: Ed.

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Ed, vivido por Robert Forster que viera a falecer no mesmo dia da estreia desse longa-metragem, é o grande trunfo de Jesse. Facilitador da fuga de Walter White e do advogado Saul, o vendedor de aspirador de pó (profissão que o ator realmente exerceu) tem um rígido código de conduta e não aceita de cara o trabalho. Pinkman terá que enfrentar seus medos para conseguir o que precisa para fugir e começar de novo, quem sabe fazer faculdade, como lembra em um flashback de uma de suas conversas com o Sr. White.

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Dois pontos, há de se salientar, antes de finalizar esta análise. A fotografia do filme é intensamente quente, como esperamos de Albuquerque. Por vezes é possível sentir a aridez do clima pela tela. Assim como alguns ângulos de câmeras são incríveis como a de Jesse escondido no apartamento de Todd. Ainda em relação a Pinkman, a cena no qual o protagonista brinca com um besouro revela que Jesse ainda tem um alma gentil. Essa parte ecoa a própria série na qual também brincou com um inseto rastejando lentamente no chão e sorriu para ele antes de pousar. Esta é a dualidade da série e aqui nitidamente explícita: Pinkman que tinha tudo para ser mal e viciado e ganancioso, alcança sua redenção ao passo que Walter, íntegro, destruiu sua própria vida.

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UMA PEQUENA PARTICIPAÇÃO
A aventura da fuga de Jesse é permeada caras conhecidas da série original, entre elas está Mike (único personagem que aparece em todas as tramas do universo Breaking Bad) e Jane, grande amor de Pinkman. Mas como todo fã da série, ansiava por alguma participação de Bryan Cranston, revivendo Walter White. E ela acontece em um tocante flashback quando Jesse ainda cuidava de seu antigo professor com uma afeição de filho.

Na cena, em questão, Jesse e Walt ficam em um hotel e conversam em uma lanchonete. Ela é ambientada no episódio 4 Days Out, no qual ambos ficam presos no deserto e quase morrem. No hotel, Jesse está conversando com Jane ao telefone, pois ela ainda está viva durante o período deste episódio. Jesse também faz uma referência a “eletrólitos”, que faz parte do roteiro do episódio no qual os dois quase morrem devido à desidratação.

CONCLUSÃO
Não é dos filmes mais alucinantes de ação, pois nunca foi essa a pegada da série da qual El Camino derivou. Estamos falando de drama e reviravoltas de roteiro como Vince Gilligan, que já contribuiu com a série de Chris Carter, Arquivo-X, já se mostrou capaz de fazer. O longa-metragem de Jesse Pinkman dá um fim honroso para a história do ex-viciado e traficante de metanfetamina que foi reduzido a uma condição sub-humana, perdeu quem mais amava e foi traído por seu pai postiço, Walter White.

É tocante ver esse garoto fragilizado sendo ajudado por seus amigos próximos, personagens coadjuvantes como Badger e Skinny, mas que se veem imbuídos de um lirismo, de uma amizade leal que venceu as barreiras do dinheiro e da decência. Ver que muitas feridas de Jesse estão ali e permanecerão com ele. Que as maiores cicatrizes não são aquelas da pele, porém aquelas frutos da saudade do que foi e do que teria sido.

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“YESTERDAY” E OS BEATLES NO CINEMA (CRÍTICA)

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Desde a primeira aparição do Beatles na TV americana, em 9 de fevereiro de 1964, na época programa de Ed Sullivan, no qual entre as canções mostrava-se dados biográficos do então jovens prodígios, a banda inglesa expandiu e conquistou tanto o mercado estadunidense, como também o mundo. Naquela playlist já constavam sucessos inesquecíveis como All My Loving, Till There Was You, She Loves You, I Saw Her Standing There e a icônica I Want to Hold Your Hand.

Imaginar a história da música, quiçá do mundo, sem a presença da banda Liverpool seria algo impensável, mas não para o diretor Danny Boyle, vencedor do Oscar 2008 (Quem quer ser um milionário?). 

Está é a premissa do enredo do filme Yesterday (2019): depois de um apagão em escala mundial, a existência dos Beatles é deletada da história humana, exceto para algumas pessoas, entre elas: Jack Malik. Mesmo com todos os esforços de sua amiga e produtora Ellie Appleton, sua carreira ia de mal a pior. Não é visto com seriedade pelos amigos e nem pela família. Somente Ellie, que nunca esquecera da performance de Jack fazendo cover de Wonderwall do Oasis em um concurso da escola quando era criança, parece acreditar no talento do rapaz. Até que a vida de Jack muda após um acidente de bicicleta.

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Título original: Yesterday
Direção:
Danny Boyle
Roteiro:
Jack Barth, Richard Curtis
Duração:
1h 56min
Lançamento:
29 de agosto de 2019

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Elenco: Himesh Patel (Jack Malik), Lily James (Ellie Appleton), Sophia Di Martino (Carol), Joel Fry (Rocky) e Ed Sheeran (Ed Sheeran).

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BEATLES E MICHAEL JACKSON?
Qualquer fã da banda sabe que ter as músicas da banda de Liverpool no cinema ou em qualquer obra artística era, até certo tempo atrás, uma raridade. Parte desse problema se deve justamente ao fato de nada mais, nada menos, do que Michael Jackson era o dono dos direitos autorais das músicas dos Beatles.

Na década de 1980 muitos empresários com o ideal de fundar um grande conglomerado de entretenimento acabaram por criar uma organização: a Michael Jackson, Inc. Esta empresa acabou por adquirir a ATV, empresa que hospedava o catálogo musical dos Beatles. Entre as obras, a empresa detinha os direitos autorais da maioria dos maiores sucessos da banda, incluindo “Yesterday”, “Come Together”, “Hey Jude”, e muitas outras.

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Depois do próprio Paul McCartney e Yoko Ono abdicarem de comprar o catálogo simplesmente porque o rei do pop ansiava por ele, alguns meses mais tarde Michael Jackson comprou a ATV por um preço de 47,5 milhões dólares. Hoje, a Sony/ATV, que detém os selos de cantores como Taylor Swift e Eminem, vale cerca de US$ 2 bilhões. Para Joe Jackson, embora pudesse comprar facilmente o catálogo, o comportamento de McCartney era justificável:

“O comportamento de Paul foi muito, muito mais estruturado financeiramente. A única razão para Michael comprar o catálogo era porque estava à venda! Paul McCartney e Yoko poderiam ter comprado, mas não quiseram.”

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Já para Martin Bandier, o diretor-executivo Sony/ATV Music Publishing, havia também uma explicação para a falta de vontade de McCartney: “Eu nunca pensei que Paul McCartney iria comprá-lo, porque é muito difícil para um criador comprar o que é seu. Seria como Picasso passar um dia fazendo uma pintura, para comprá-la, vinte anos, depois por US $ 5 milhões. Não seria uma coisa que Paul faria.”

O fato é que por muito tempo, era quase impossível usar o acervo dos Beatles seja em outras obras artísticas, seja em peças publicitárias. Isso só passou a mudar a partir de 2008 quando houve a abertura para uso em publicidade. Mesmo não precisando do aval do integrantes ainda vivos da banda, Bandier acreditava que havia uma “obrigação moral” de analisar o uso dos catálogos com McCartney, Starr, Yoko Ono (viúva de Lennon) e a família de George Harrison (que morreu em 2001).

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BEATLES NO CINEMA
Um marco para o uso de canções da Beatles no cinema é sem dúvida o longa-metragem de Jessie Nelson, I am Sam (2001), que por aqui recebeu o título açucarado de Uma lição de amor. Neste filme que premiou com os Oscar de melhor ator Sean Penn, conta a história de Sam, uma homem com atraso intelectual (uma mente de uma criança de 7 anos), que com ajuda de outros deficientes cuida de sua filhinha Lucy Diamonds (Lucy in the sky with the diamonds). Há cenas que remetem à Abbey Road, citações feitas pelo protagonistas de frases de Lennon e McCartney e, claro, as diversas músicas dos Beatles interpretadas por covers. São ao todo 19 versões que contam com as vozes de Ben Harper, Wallflowers, Stereophonics e Sheryl Crown. Uma saída inteligente, pois na época  era algo extremamente raro ter documentários, filmes ou clipes desde que Michael Jackson adquirira os direitos autorais da banda na década de 1980.

Usar a obra dos Beatles como fio condutor de uma trama inteira foi a proposta de Across the Universe (2007) de Julie Taymor. O casal protagonista Jude e Lucy, nomes retirados das canções da banda inglesa, vivem toda sua história de amor, ambientada pela músicas dos Beetles, no período de contracultura, da psicodelia e protestos contra a Guerra do Vietnã da década de 1960. Época tão bem retratada no documentário 1967: O verão do amor (2017).

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UM TRILHA FANTÁSTICA, UMA HISTÓRIA PREVISÍVEL
Longe de ser uma obra-prima, Yesterday tem uma história simples e comum para uma comédia romântica. O longa parte de um acontecimento fantástico, um apagão em escala mundial que parece ter sido provocado por uma erupção solar (como se pesca de uma manchete de jornal). Isso causa uma reviravolta na vida do aspirante a cantor, Jack Malik. Um looser (perdedor) em todos os sentidos da palavra. Sempre auxiliado pela carismática e linda Ellie, professora de matemática e produtora amadora que vive uma friendzone e reprime seus sentimentos por Jack.

A ideia de um cantor que terá que escolher entre o amor e o sucesso musical está na raiz de filmes como Rock Star (2001), com Mark Wahlberg interpretando um vocalista de rock anos 80; ou Nasce uma Estrela (2018), com a Lady Gaga. Ou seja, é um tema batido. O que chama a atenção, claro é vasto uso do Beatles como pano de fundo da trama.

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A partir blackout mundial, Jack se vê como a memória da existência dos Beatles. Por mais que mais duas pessoas, no enredo, lembrem-se da existência da banda inglesa, somente Jack tem o talento para cantar e tocar as músicas. Nesta realidade, John Lennon não morreu em um atentado: vive uma vida pacata a beira do mar, alheio à música. Nesta realidade Oasis (banda influenciada pelos Beatles) não existe, assim como a Coca-Cola (só a Pepsi, em um merchã escandaloso) e Harry Potter.

Então, auxiliado por Ellie (no início) e pelo cantor Ed Sheeran (que interpreta ele mesmo), Jack se torna uma celebridade na Internet, abre turnês, vai a shows de entrevista, faz tudo que sua empresária chique Carol lhe ordena.

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No final, ele escolhe uma vida simples ao lado de sua admiradora de infância. O mundo não volta ao normal (juro que esperei isso). As músicas da banda são doadas gratuitamente e Jack abdica de lucrar com uma arte que nunca foi sua. Volta a ser professor e constitui família em um final simples que agradará ao noveleiro mais aficionado.

QUATRO CURIOSIDADES (entre tantos easter eggs)

  1. 064_10No filme, Jack foi atingido quando estava de bicicleta, quebrou os dentes da frente e feriu os lábios. Isso realmente aconteceu com Paul McCartney em 1966 que caiu do ciclomotor e lascou um dente da frente em Liverpool. 
  2. 064_11Legalmente, os cineastas precisavam apenas da permissão da Sony ATV para usar as músicas dos Beatles, sendo a Sony detentora dos direitos de publicação. Em princípio, eles também buscaram as bênçãos de Paul McCartney, Ringo Starr, Yoko Ono e Olivia Harrison para o filme. Assim os Beatles não tiveram contribuição criativa, exceto pela aprovação de seu repertório para uso no filme.
  3. 064_12A história original do filme foi escrita por Jack Barth. Nela tudo era muito mais sombrio, com o protagonista lutando como músico na nova linha do tempo e a premissa do universo alternativo explorada com mais profundidade. Quando Richard Curtis reescreveu, ele fez o tom muito mais alegre, colocou menos ênfase na premissa de uma nova linha do tempo sem os Beatles e mais foco no romance entre Jack e Ellie.
  4. 064_13Alguns dos personagens têm seus nomes inspirados nas músicas dos Beatles: Rocky, o roady temporário, é nomeado por causa de “Rocky Raccoon”; Ellie,  é nomeada em homenagem a  “Eleanor Rigby” (a única música que Jack tem dificuldade de lembrar); e a colega de quarto de Ellie, Lucy, claramente, “Lucy in the sky with the diamonds”.

CONCLUSÃO: TODAY, ASSISTA!
Yesterday não é a última bolacha (ou biscoito) do pacote no que se refere a uma comédia romântica ou mesmo de tributo musical. A história é leve, sem vilões, pois nem Jack Malik é um mal caráter. Ele é um sonhador e se deixará levar pelos rumos dos acontecimentos. Uma salva de palmas para Ellie (Lily James) que é aquela mocinha fofa e apaixonada e de sorriso cativante, a melhor em cena.

Se o leitor nerd deseja um filme leve e é fã dos Beatles, cantará do início ao fim as músicas do grupo, mesmo com a desafinada de Help durante o show de lançamento de Jack (embora o ator, Hamish Patel tenha feito aula de canto e violão). Para além das piadas bem colocadas e em momentos precisos, vai até esquecer que Ed Sheeran não é lá um ator, mas vale pelo desconcerto do rapaz em frente as telas na sua “amizade” com o protagonista. Veja o longa de Boyle como distração de um dia estressante. Afinal não deixe para Yesterday o que pode fazer Today. Essa foi muito ruim! Fui galera!

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IT: A COISA – CAPÍTULO 2 (CRÍTICA)

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SINOPSE
Haviam se passado vinte e sete anos desde os eventos onde Pennywise trazia caos e morte às crianças de Berry. Quando Mike, o único a continuar morando na cidade, nota os mesmos padrões voltarem a se repetir. Se apegando na confiança da promessa feita entre os membros do Clube dos Otários, o agora homem formado, contacta amigo por amigo explicando que era o momento de voltarem à Berry. A profecia de que Pennywise retornaria foi cumprida e, assim que compreendem a gravidade da coisa, Bill, Stanley, Baverly, Richie, Ben e Eddie, percebem que precisarão lidar com traumas da infância que nunca foram resolvidos.

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COMENTÁRIOS
Diferentemente da primeira parte, It: A Coisa – Capítulo 2, tem bem mais conteúdo para contar, relembrar e explicar. Essa tamanha quantidade de informações complexas que compõem o universo criado por Stephen King, não apenas envolve fatos a serem alinhados num roteiro, mas sim esmiuçar gatilhos de sete perfis psicológicos, relacioná-los, e ter ao fim, tudo posto à mesa, para enfim criar uma conclusão. Como revés, temos um roteiro que causa confusão e, até cansaço no público que se acostumou com o script mais direto da primeira parte. Os 170 minutos do longa são percebidos justamente pelo ritmo lento dos arcos que apresentam flashbacks da infância, e também de alguns momentos do passado que não haviam entrado no episódio anterior.

Assim como no filme de 2017, a obra ainda consegue espaço de encaixar discussões contemporâneas. Se antes a violência do bullying era o principal material de abordagem, agora é a homofobia, uma amostra das doenças de uma sociedade ultrapassada e sem empatia. A coisa é tão grave, que a exposição do assunto trouxe cochichos e comentários ignorantes no cinema onde assisti, quando na cena de abertura (portanto não considero spoiler), um casal de jovens homens se beijam enquanto se divertem num parque. As piadinhas preconceituosas da audiência ignorante foram silenciadas, quando esse mesmo casal é brutalmente espancado por um grupo de personagens covardes, com quais duvido muito eles não terem se identificado. Certamente isso causou um misto de vergonha e desconforto. Quem disse que um filme de terror onde um palhaço assassino que desmembra criancinhas não tem algo a ensinar? Fenomenal, um tapa na cara com inteligência e estilo!

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REFLEXÕES COM MUITOS SPOILERS
Essa conclusão é particular, mas o que entendo, é que o palhaço Pennywise, ainda quando um humano, era um artista frustrado e sem reconhecimento. Esse sentimento de não ser valorizado, somado à uma grave psicopatia, serviu de molde para a entidade cósmica que hibernava na Terra desde tempos remotos. Nos estudos de Mike não é revelado uma literalidade de atos nefastos como os ocorridos em Derry, talvez algo sim tenha acontecido com o uso da consciência de algum nativo Shipkwa, uma vez que elaboraram a armadilha do Ritual de Chüd com o fim de aprisionar ou eliminar a entidade. Necessariamente ‘A Coisa’ trabalha como um vírus, que potencializa medos criando ilusões concretas capaz de ferir fisicamente suas vítimas. Seria o toque? O ar? Talvez isso não importe e nem mesmo Stephen King tenha a explicação, no entanto todas as crianças em algum grau foram expostas à entidade. E ainda levanto uma teoria, admito, sem muita base, mas seriam o restante dos moradores da cidade, bem como os pais das sete crianças, também afetados pelo vírus? Ao meu ver isso explicaria a falta de urgência dos habitantes e os problemáticos e negligentes pais.

Sendo assim concluímos que todos os envolvidos não passam de vítimas de seus próprios medos, e isso de certa maneira inclui Pennywise, que após o contato com a entidade alienígena, desenvolveram cada um a sua própria forma de paranoia. Porém o simples fato de Bill, Baverly, Ben, Eddie, Stanley e Richie terem abandonado a cidade de Berry, fez com que eles criassem um bloqueio de uma série de episódios da infância, e o retorno vinte e sete anos depois causava bastante confusão.

  • 061_03BILL por um infortúnio da vida escolheu não ir brincar na chuva com o irmão por ‘um único dia’, fazendo com que essa escolha tivesse pesado em sua consciência na forma de culpa após sua morte. Apenas quando ele entende e aceita que aquela autoflagelação não fazia sentindo e, que seu pequeno irmão jamais o culparia, ele se liberta da dor se tornando uma pessoa mais capaz. Isso refletia na sua vida fora de Berry, uma vez que era um escritor incapaz de fazer boas conclusões para suas histórias. Vale lembrar que essa situação do homem escritor, é uma brincadeira com o próprio Stephen King, que é considerado por muitos um autor de desfechos ruins. O que na minha opinião é uma completa injustiça, visto sua vasta coleção de trabalhos.
  • 061_04BEVERLY talvez seja a personagem que carregava as cicatrizes mais pesadas. O trauma por ter sido molestada sexualmente por um pai doentio, que além dos crimes incestuosos e de pedofilia, ainda alimentava a culpa na própria filha pela morte de sua esposa. Mesmo com esse fardo do tamanho do mundo, ainda se mantinha durona. Porém conforme avançava na vida adulta, foi se cansando e se tornando uma mulher mais fragilizada. Sempre com péssimas escolhas para o relacionamento e levando uma vida sem muitas expectativas. O momento onde se liberta das amarras de dor, é quando percebe a verdade sobre uma crença que guardou desde a infância. Não era Bill a razão de seus sentimentos, mas sim Ben, aquele rapaz encantador que sempre admirou seus “cabelos de fogo, como brasas no inverno”. Beverly tem um diferencial entre os demais, ela possui o dom de prever através de sonhos e pesadelos, certos acontecimentos com aqueles que tem proximidade. Essa capacidade não é explicada e não tenho grandes teorias sobre a razão, só sei que o único fato claro é dela ser a única mulher do grupo.
  • 061_05MIKE foi o único do grupo que nunca saiu da cidade. O jovem se sentia culpado pela morte de seus pais num incêndio quando era pequeno, e isso sempre lhe atormentou. Seu sonho era conhecer novos horizontes, talvez a Flórida, mas ele se viu agarrado por algum motivo à Berry. Após terem enfrentado Pennywise quando crianças, Mike passou a pesquisar de forma compulsiva tudo sobre aquela criatura. Em seus estudos chegou a um grupo de nativos que guardava a história da chegada de uma entidade cósmica naquela região. Os Shipkwa tentaram impedir a ameaça extraterrestre através de um ritual, no entanto não obtiveram sucesso. A ferramenta para tal, era um artefato como uma caixa, na qual cada guerreiro disposto a enfrentar o ser precisava depositar como oferenda, um objeto que fazia parte de sua própria existência. Beverly tinha o bilhete de Ben (que acreditava ser de Bill), Ben tinha o autógrafo de Beverly, seu amor platônico, Eddie tinha sua bombinha de asma, Mike uma pedra suja de sangue da briga contra uns valentões, Bill conseguiu o barquinho S.S. George, feito para o irmão no dia de seu desaparecimento, Richie uma ficha de fliperama, que marcou um momento de dor pela traição de quem achava poder confiar, e Stanley uma das toucas engraçadas para prevenir aranhas na cabeça, quando estivessem sede subterrânea do Clube dos Otários. Mike é a chave principal para dar fim à Pennywise. Herdou de seu pai, Will, várias informações sobre o macabro palhaço, e por conta de não ter saído da cidade, nunca esqueceu de todos os detalhes. Para ele superar o trauma, estava diretamente relacionado em acabar com aquela entidade e honrar a vontade de seu pai.
  • 061_06BEN desde a criança se mostrou uma criança muito inteligente e introspectiva. Junto com Mike, foi um dos últimos garotos a se juntar ao Clube dos Otários após ter sido ferido por Henry Bowers com um “H” riscado com um canivete em sua barriga. Ben, embora bem maduro para sua idade, ainda tinha complexos por conta da sua aparência. Estar acima do peso sempre foi motivo de vergonha e insegurança, tanto que nunca soube se declarar a Beverly, a menina que amava. Certa vez escreveu um poema em um cartão postal, mas devido a um mal entendido, chegou as mãos de Beverly com o entendimento de que seria Bill o autor. Levou consigo a fraqueza até a vida adulta, e embora se esforçando ao ponto de se tornar um belo e imponente homem, musculoso e nada gordinho, ainda assim era a mesma  criança insegura por dentro. Superou seu trauma no momento em que Beverly descobriu que era por ele sua verdadeira paixão.
  • 061_07EDDIE teve sua vida destruída pela própria mãe. Uma mulher obesa, manipuladora e controladora, que a o invés de levantar do sofá e buscar viver a vida, ainda fez de tudo para levar o filho para o mesmo buraco. Colocando-o como uma criança excessivamente frágil, Eddie tinha medo de tudo, nojo de tudo, e com isso se tornou uma pessoa hipocondríaca incapaz de ter uma vida normal. Quando chegou na vida adulta, inconscientemente buscou uma mulher nos mesmos moldes da mãe, tanto fisicamente  como em temperamento. Superar seus problemas seria complicado, visto que teria que desconstruir uma série de pequenas crenças absurdas que sua mãe enfiou em sua cabeça. Mas simbolicamente Eddie tinha aquela famigerada bombinha de asma, e o simples fato de se libertar daquilo, era mais que o suficiente para também se livrar de suas amarras.
  • 061_08RICHIE sempre foi um comediante. Estava sempre fazendo piadas com e entre os amigos, e nunca levava nada a sério. O menino guardava um segredo, e era por trás do humor ininterrupto, que ocultava seu sofrimento pessoal. Richie era homossexual e nunca teve apoio para compreender direito o que seria isso. Era uma realidade íntima que não se permitia de forma alguma revelar, porém sempre teve a atração pelo amigo Eddie. Por dentro era uma pessoa amargurada e triste, muito diferente da fachada que se esforçava para manter. Nos instantes finais no conflito contra Pennywise, Eddie é atacado e morre. Então Richie desaba enquanto revela seu segredo e o amor pelo amigo. Sua superação era perceber que aquelas pessoas valiosas para ele não se importavam se ele era ou não gay, mas fazia diferença sim eles verem sua felicidade.
  • 061_09STANLEY como dito pelos membros do Clube dos Otários, era o melhor deles todos. O jovem era judeu num ambiente bem conturbado quando se tratava em respeitar escolhas religiosas. Era alvo da intolerância de Henry Bowers, e até mesmo piadinhas do amigo Richie. Metódico e maduro, sempre se manteve cético quanto às macabras ilusões criadas por Pennywise. E é nesse conflito de realidade e crenças, que Stanley alcança a vida adulta e constitui sua família. Vinte e sete anos depois do pacto de sangue, recebe a ligação de Mike e, na sua guerra interna não consegue lidar com saber que precisaria voltar a Derry e lidar novamente com seus caóticos conflitos. Stanley então se tranca no banheiro de casa, entra na banheira e comete suicídio cortando os próprios pulsos. Ao final do filme todos os membros do Clube dos Otários recebe uma carta, na qual Stanley revela ter se sacrificado para que as previsões de Beverly não se cumprissem e assim conseguissem mudar o destino ao enfrentar Pennywise.

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O CONFRONTO FINAL
O planos de Mike para derrotar Pennywise acaba não dando certo, mas revela a real forma da ‘Coisa’. A entidade extraterrestre na realidade era um conjunto de três esferas fortemente iluminadas. Algumas pontas ainda estavam soltas, nem todos haviam superados seus medos e encontrado a chave correta para derrotar o inimigo. Mas é quando Mike percebe o ponto fraco de Pennywise. Assim como Richie, o palhaço também se escondia atrás de uma máscara, e por trás da fachada só sobrava medo. Como dito antes, Pennywise não passava apenas de mais uma vítima daquela aberração vinda do espaço, portanto, assim como todos, tinha fraquezas por dentro. Então o jogo a ser feito era o mesmo qual ele vinha fazendo com suas vítimas, a imposição do medo! Então Mike, Bill, Beverly, Ben e Richie, se unem com comentários depreciativos à Pennywise. Que aos poucos vai enfraquecendo e literalmente diminuindo. Chegando ao ponto dele ser tão pequeno e vulnerável, que Mike enfia a mão em seu peito retirando assim seu coração. Então o Clube dos Otários põe um fim ao ciclo de terror em Berry quando com as próprias mãos destroem aquele resquício da ‘Coisa’.

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AMADURECIMENTO E DIAS MELHORES
Após os sacrifícios de Stanley e Eddie, aquelas cicatrizes das feridas pelo pacto de sangue, desaparece das mãos dos sobreviventes. Fazendo entender que definitivamente tudo aquilo tinha acabado. Ben e Beverly finalmente encontram o paradeiro para suas vidas, e decidem rumar juntos à partir dali. Eddie agora é confiante de si e nada mais tem para esconder. Bill volta ao trabalho, conseguindo agora melhorar os finais de suas histórias, quando recebe uma ligação de Mike, agora em viagem e distante de Berry.

A soma dos dois episódios de It: A Coisa, não é um simples filme de terror psicológico, mas uma lição de esperança para todas as pessoas que acham que seus problemas são grandes demais. Aquele grupo em particular, os moleques do Clube dos Otários, só precisavam amadurecer. E a prova definitiva disso é a ligação de Mike para Bill, meses após terem derrotado Pennywise, quando um amigo diz amar o outro. As piadinhas imaturas ficaram no passado, agora aquelas pessoas se tornaram adultas e dispostas a cultivar apenas o que de melhor podem oferecer e ter dos outros.

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ELENCO E FICHA TÉCNICA
Jaeden Lieberher, James McAvoy, Jeremy Ray Taylor, Jay Ryan, Sophia Lillis, Jessica Chastain, Finn Wolfhard, Bill Hader, Wyatt Oleff, Andy Bean, Chosen Jacobs, Isaiah Mustafa, Jack Dylan Grazer, James Ransone, Nicholas Hamilton, Teach Grant, Bill Skarsgård, Jess Weixler, Will Beinbrink, Xavier Dolan, Taylor Frey, Jackson Robert Scott, Javier Botet e Joan Gregson, compões o elenco de atores principais. A direção fica por conta de Andy Muschietti, enquanto a produção é dividida entre Barbara Muschietti, Dan Lin, Roy Lee, Seth Grahame-Smith e David Katzenberg. Com um orçamento de 80 milhões de dólares, o filme com apenas dois dias de exibição nos cinemas já ultrapassou de forma considerável o seu custo. Tendo o valor da receita final atualizarei as informações!

CONCLUSÃO
It: A Coisa – Capítulo 2 é a conclusão do filme de 2017, portanto se você ainda não assistiu ao outro, esqueça esse e vá assistir a primeira parte. Avisado o óbvio, esse é um fechamento magistral para o romance de Stephen King que merecia muito uma produção à altura de seu romance de 1986. Uma produção fantástica que não faz sentido separar os dois episódios, então quando falo deste segundo episódio, na verdade faço referências às duas obras como uma só. A direção brilhante de Andy Muschietti conseguiu dar vida a um roteiro intrincado, tirando o melhor de um número enorme de atores.  It: A Coisa passeia pela comédia, drama, romance, suspense e terror, e em tudo que se compromete, faz com excelência! Pode ter certeza, essa se tornará uma das obras lendárias do cinema.

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ALADDIN – FILME DE 2019 (CRÍTICA)

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SINOPSE
Aladdin é um humilde morador de Agrabah, e também um bondoso ladrão que sempre ajuda os necessitados. Certo dia a jovem filha do sultão, a Princesa Jasmine, sai escondida dos aposentos reais e acaba se envolvendo em encrenca. Aladdin então a ajuda, mas antes dela partir, Abu, seu macaquinho, lhe surrupia uma joia. O jovem então decide ir até ela devolver. Uma paixão surge entre os dois, mas sendo uma princesa ela não poderia se envolver com um plebeu, Aladdin sabia disso. Só que o seu destino muda quando o jovem rapaz encontra uma lâmpada mágica, na qual dentro continha um gênio capaz de lhe conceder três desejos!

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DISNEY E MAIS UM LIVE ACTION?
Muito se fala sobre a Disney e seus projetos de transformar os clássicos desenhos animados em live actions, e geralmente não de forma muito esperançosa. Eu mesmo sou uma pessoa muito pé atrás com essas iniciativas, para mim a única impressão que fica é a da empresa mercenária querendo tirar leite de pedra da própria propriedade intelectual, e sem um mínimo respeito. No entanto tem algo que a maioria talvez não saiba, a Disney já vem fazendo isso faz tempo. Adaptações para filmes com personagens reais não é novidade, 25 anos atrás saía O Livro da Selva nos cinemas. Acredito que pouca gente lembre ou conheça essa adaptação de Mogli com o ator norte americano Jason Scott Lee. Também saíram dois filmes dos desenhos 101 Dálmatas em 1996 e 2000, respectivamente. A diferença é que hoje estamos mais antenados nas produções da Disney devido ao seu engrandecimento com compras de gigantes como Lucasfilm e Marvel. A ressurreição da franquia Star Wars e incontáveis filmes de super heróis, fazem com que a Disney não saia mais dos trending topics.

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UM CHATO CRITICANDO!
Mas vamos falar de Aladdin, um dos três filmes entregues agora em 2019. E vale lembrar, falta Malévola: Dona Do Mal,  para o dia 18 de outubro. Vamos parar de rodeios e vamos ao motivo de você ter chegado até aqui. Logo de cara percebemos uma nova abordagem. Diferente do clássico desenho de 1992, a nova produção traz um Gênio liberto com sua família viajando pelos mares do mundo. E é ele, o carismático azulão em sua forma humana quem conta aos seus filhos os seus dias passados.

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Temos uma Agrabah bonita e simpática, mas não tão luxuosa quanto um império do conto árabe de As Mil e Uma Noites deveria ser. Faltou mais cor e vivacidade, a apresentação mostrando a logo da Disney e o nome do filme já não é muito inspirada, fica a sensação de falta de ousadia. É tudo muito tímido. Seguimos à partir daí para a recriação clássica dos eventos onde é apresentado o par principal da aventura. Temos uma Jasmine interpretada por uma bonita moça, mas que não traz as feições marcantes de uma jovem árabe. Sei que discutir etnia para atores geralmente não rende bons frutos e só gera polêmica, mas quantas belas atrizes não existem por aí com mais cara e jeito de Jasmine? E a coisa piora quando vemos Aladdin. Ator nascido no Egito e de pais egípcios, o que poderia estar errado então? Bem, o maluco também não tem cara de Aladdin ora essa! Tacaram a chapinha no cabelo do cara e, ainda deixaram uma barbinha e bigode safados por fazer.

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Tirando esses pormenores que são mais a birra de quem vê, no caso eu, do que um real problema, a produção funciona bem. Em uns poucos minutos eu me adaptei a dupla de impostores e me inseri na atmosfera do filme. Assim como o desenho, esse novo Aladdin é praticamente um musical, mas com ares teatrais bem carregados. O grande problema é que isso não pareceu ser realmente intencional, foi mais falta de esmero da produção do que um conceito obedecido. É certo que as músicas são dubladas nas tomadas de filmagens, só que soou muito artificial. Existem cenas melhores que outras, mas no geral faltou bem mais afinco da direção em extrair dinamismo de interpretação dos atores. As cenas em computação gráfica também não são grande coisa, não tendo o refino compatível com o orçamento astronômico de quase 200 milhões de dólares. Nas cenas noturnas onde Jasmine e Aladdin passeiam no tapete mágico também faltou a mesma paixão e beleza artística do clássico desenho. Foi o momento que mas me causou decepção.

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Isso porque eu falei que a produção funciona bem. E o pior é que funciona sim. Essas são observações que relacionei não chegam a estragar a completude do filme. Seu grande trunfo eu deixei para o final, o Gênio da Lâmpada! Will Smith ser engraçado não é novidade para ninguém, e de longe ele é o ator mais solto e carismático de Aladdin. Não é exagero dizer que ele sozinho consegue carregar todo o filme nas costas. Ele abre o filme e permanece até o final, sendo essencial para o dinamismo do roteiro. Ele toma para si a responsabilidade parecendo estar em um sitcom próprio com anos de existência, a naturalidade que entrou no papel é fascinante!

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ELENCO E FICHA TÉCNICA
Temos no elenco Mena Massoud, Naomi Scott, Will Smith, Marwan Kenzari, Navid Negahban, Nasim Pedrad, Billy Magnussen e Numan Acar. Dirigido por Guy Ritchie, Aladdin é inspirado no clássico árabe da literatura mundial As Mil e Uma Noites e na versão francesa de Antoine Galland, numa produção em conjunto da Walt Disney Pictures, Rideback, Vertigo Entertainment, Big Talk Films e Marc Platt Productions.

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CONCLUSÃO
O remake em live action do clássico desenho traz uma releitura pouco inspirada se comparado a produção original. As suas deficiências são crônicas e desapontam quem esperava uma produção verdadeiramente luxuosa. Na parte em que Aladdin volta como um príncipe para se apresentar à Jasmine, a cena é um literal desfile de escola de samba, faltando bem pouco para chegar no brega. No geral esse ainda é um filme divertido, não tão impactante quanto o original, mas dignamente salvo por um Gênio extremamente carismático. Mesmo com problemas ainda é interessante, e uma boa pedida para ver em família.

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