1917 (CRÍTICA)

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SINOPSE
Em abril de 1917, durante os movimentos sangrentos da Primeira Guerra Mundial, os alemães se afastaram por um momento de um setor da Frente Ocidental no norte da França. Os dois soldados britânicos, Blake e Schofield, são selecionados para uma missão de alta prioridade entregue pelo General Erinmore. Atravessar o mais rápido possível o território inimigo com fim de entregar a mensagem de cancelar um ataque, uma vez que a inteligência havia descoberto que o recuo opositor se tratava de uma calculada manobra à nova área de linha defesa alemã em Hindenburg, onde uma forte barreira de artilharia fora montada. Blake estava mais estimulado que Schofield, já que seu irmão estava no 2º Batalhão do Regimento de Devonshire, aquele que seria o alvo da armadilha alemã. Os dois então marcham cruzando o hostil território inimigo obedecendo a ordem, numa tentativa heróica e impossível para salvar aquelas 1600 vidas que dependiam apenas de uma mensagem.

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CATARSE OFF-TOPIC
Durante nossas vidas passamos por muitas fases, algumas muito boas, outras ruins, e por vezes nos vemos reflexivos encarando vazios sem saber aproveitar tão bem nosso tempo. Todo mundo tem um pouco disso vez ou outra, e pelos mais variados motivos. Acontece com você e acontece comigo, e este é o meu primeiro texto integralmente escrito depois de passar pela minha própria via crucis. Geralmente você não vê confissões tão pessoais num site, mas o NerdComet nasceu assim, com uma primeira postagem falando sobre saudade de alguém infinitamente importante para mim, sobre alguém que partiu cedo demais. Ainda não alcançamos lugar nenhum tão alto, porém esse espacinho já me proporcionou muitas coisas boas e conquistas. O que era uma sugestão de atividade trocada entre dois grandes amigos virou minha principal e única válvula de escape por um bom tempo. Não sei se somos bons no que fazemos, e falando exclusivamente por mim, nunca fui um bom estudante. Muito diferente do Marco Lima, que é um eterno discente, estando sempre se lapidando para buscar a maestria, e levar seu conhecimento aos outros. Tenho orgulho de você cara!

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Tolo é aquele que não percebe o valor da amizade, o vínculo social mais importante ao ser humano. Autossuficiência é arrogância, mera presunção. Um misto de burrice por insistir na solidão estando preso numa esfera com bilhões de vidas semelhantes. Ninguém precisa disso e ninguém merece isso. Se permita ser puxado de volta do abismo se uma mão te oferecer ajuda, não existe fossa abissal funda o suficiente da qual não possa escapar. Talvez eu pareça seguro para muita gente, mas no meu íntimo sei quanto frágil sou, não foram poucas as vezes que precisei disso e fui resgatado. Todos enfrentamos demônios, não ache que você é diferente, não seja tão arrogante, vai sempre surgir um anjo para te salvar. Alguns destes heróis possuem asas ou capas, podendo até voar, mas como é o seu anjo da guarda é só você quem pode dizer. 1917 fala sobre heroísmo, sobre quem resiste ao impossível, atravessa as mais penosas provações, flagelando a própria alma, mas chega ao seu destino. Foi se mantendo de pé, imponente, com cabelos manchados de vermelho sangue, que como uma fênix, tal mítica e majestosa criatura que se destrói e renasce, superou os mais espinhosos caminhos da devastadora crueldade da vida, onde me alcançou e entregou uma mensagem de salvação.

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COMENTÁRIOS
Finalmente vamos assistir um filme, nosso primeiro do ano, nosso primeiro da nova vida! E devido a minha fase reflexiva, eu estava completamente disperso sobre do que se tratava 1917. Eu não sabia absolutamente nada! Parece ridículo? Mas eu não sabia ao menos o gênero do qual era! Mergulhamos juntos para descobrir então. Eu ainda estava aéreo no começo do filme, com a expectativa de um filme arrastado, pois é assim que ele soa no comecinho. Sim sou bastante ansioso, mas enfim. Uma caminhada por longas e complexas trincheiras enlameadas no fronte da Primeira Grande Guerra Mundial e uma pulga já coçou atrás da orelha. Que cenário enorme era aquele?! Dois jovens homens de feições abatidas por participarem da tragédia que é a desgraça de uma guerra, discutindo enquanto trombam e tropeçam em tudo naquele ambiente úmido, escorregadio e insalubre. Um número sem fim de outros jovens tão acabados e nervosos quanto, uns feridos por fora e outros quase mortos por dentro. Uns apontavam rifles para o lado inimigo sob aquele firmamento nublado, de ar pesado da morte, sem ter muita esperança daquela merda em algum momento acabar. Outros se entregavam à angústia, apáticos olhando pequenas fotos da família, tragando de uma só vez um cigarro. Cada um sobrevivia seu próprio inferno.

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Schofield e Blake tinham uma missão ordenada por um superior, nitidamente uma passaporte apenas de ida para o vale da morte. Atravessar o território inimigo com o fim de entregar a mensagem para cancelarem um ataque. Uma verdadeira corrida contra o relógio, atravessando oceanos de lama, circundando muitos corpos, se esquivando do chumbo quente. Que viagem incrível meu amigo! Algo que começa ameno, vai avançando vertiginosamente alcançando um grau de tensão incalculável. Não sou estudante de cinema, mas com o tanto que já assisti sei identificar algumas coisas. E uma delas são os planos sequências. Eu ainda me pergunto se fui enganado por alguma ilusão de um grande mestre da direção chamado Sam Mendes, mas admito que ele me convenceu de que toda a extensão dos 119 minutos de 1917 possuíam únicos, e 4 enormes planos sequências. Sabendo você ou não, explico brevemente o que é isso. Um filme possui várias tomadas na grande maioria das vezes, aquele momento em que o diretor grita para todo o set de filmagem que está gravando! Ele pode berrar “ação!”, enfim. Deste momento em diante é foco total para o que está sendo registrado, afinal, todo o trabalho árduo da equipe é apenas para produzir aquele momento. Então entenda que tudo o que acontece nessa tomada (esse plano sequência), precisou ser minuciosamente decorado, sejam tanto as falas quanto os movimentos pelo set. E se você assistiu 1917, você vai entender a proporção da complexidade do que é andar por quase meia hora num cenário tão grande. O fundo é verde? Eu não sei, não quis me dar o direito de pesquisar nada antes de fazer esta resenha. Só o que eu sei é que aquilo tudo me pareceu absurdamente fantástico! Nunca me senti tão imerso num filme assim, seu realismo é simplesmente estupendo.

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A direção é fantástica, e não acredito que outro cara mereça a premiação máxima do mainstream. Deem logo um Oscar para esse cara! No entanto mais uns outros merecem ser parabenizados, como a porra do diretor de fotografia! Roger Deakins. Um gênio que já trabalhou em obras como Um Sonho de Liberdade (1994), um dos meus filmes favoritos de todos os tempos (e creio que de muitos), Fargo (1997), Skyfall (2012), e que levou uma estatueta do carecão em 2018 por Blade Runner 2049. Para 2019 ele está indicado mais uma vez, décima quinta com 1917, e se Academia não for injusta, o maluco vai levar! E Thomas Newman, você sabe quem é? Não? Compositor e maestro californiano, mais de 60 anos, caucasiano, vários centímetros de altura, e que foi indicado ‘fucking’ Oscar onze vezes por suas trilhas sonoras! Dois Globos de Ouro, dois BAFTAs e duas premiações do Grammy. Um Sonho de Liberdade (1994), Perfume de Mulher (1992), Beleza Americana (1999), Skyfall (2012), são apenas uma parte do seu portfólio, e advinha, mais uma vez ele está indicado com 1917 ao Oscar. A disputa vai ser pesada, nessa categoria a concorrência é boa, mas desejo sorte, pois seu trabalho ficou sensacional! Assim como toda a edição de som, simplesmente um exemplo a ser seguido pelo cinema de alto padrão.

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Não posso esquecer dos atores. O que seria de 1917 sem esses caras? E não, não estou falando de Colin Firth ou do Doutor Estranho, mas da dupla de jovens George MacKay e Dean-Charles Chapman, que carregam todo o peso dramático do longa como dois veteranos responsáveis, tanto como soldados, e como artistas cênicos! Brutal! Simplesmente brutal! Para mim, o Dan, não existiria possibilidade alguma de  George MacKay estar fora dos indicados ao Oscar de Melhor Ator em 2020. O rapaz bagunçou com o coreto! Mostrou vigor físico, equilíbrio (no sentido literal as vezes), e uma eficiência bizarra de decorar diálogos e caminhos em terrenos complicadíssimos. No meio de um caos que imagino que tenha sido esses gigantescos plano sequências o cara conseguiu recitar com perfeição até mesmo um belo e um pouco comprido poema. Quem diria que o pequeno e não tão expressivo Curly de Peter Pan (2003), em seu primeiro trabalho para as telonas, viraria esse monstro como ator? Só tenho de parabenizar, fantástico!

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ELENCO E FICHA TÉCNICA
George MacKay, Dean-Charles Chapman, Mark Strong, Andrew Scott, Richard Madden, Claire Duburcq, Colin Firth, Benedict Cumberbatch, Daniel Mays, Adrian Scarborough, Jamie Parker, Michael Jibson, Richard McCabe, Chris Walley e Nabhaan Rizwan compõem o elenco. Coescrito por Sam Mendes e Krysty Wilson-Cairns, 1917 é um filme guerra épico de 2019 em parceria entre Estados Unidos e Reino Unido. A direção é de Sam Mendes, experiente diretor com uma bela lista de trabalhos. Direção de fotografia de Roger Deakins, direção de arte de Dennis Gassner, figurino de David Crossman e Jacqueline Durran, trilha sonora de Thomas Newman, e edições de Lee Smith. A produção traz os investidores Sam Mendes, Pippa Harris, Jayne-Ann Tenggren, Callum McDougall e Brian Oliver, e as execuções foram nos estúdios da DreamWorks Pictures, Reliance Entertainment, New Republic Pictures, Mogambo, Neal Street Productions e da Amblin Partners. Com um orçamento próximo dos US$ 100.000.000, o longa de guerra gerou uma receita de mais de US$ 200.000.000.

CONCLUSÃO
Eu precisava disso. Precisava de um bom filme para clarear minha mente e sair do estado de confusão mental que me encontrava, e olha o presente que recebo. Um puta filme de guerra com proporções épicas! Direção brilhante, fotografia sem igual, uma trilha sonora inspiradora, e a atuação de um rapaz que na minha opinião tomaria o prêmio de todos os indicados ao Oscar, e considero uma injustiça o cara ao menos ter sido cogitado. Mas isso não importa, para mim ele é o grande vencedor da noite. Enfim eu lavei minha alma com o primeiro de muitos filmes que assistiremos e comentaremos juntos a partir de agora. 1917 é um filme a priori adulto, traz violência, cenas de consumo de drogas lícitas e linguagem madura, sua classificação etária é de 14 anos. Recomendo assistir no cinema enquanto der tempo, ou esperar para conferir em casa, de preferência com uma boa projeção de imagem e som, pois esse filme merece. Espero que tenha gostado e que deixe seu comentário, nos veremos com mais frequência a partir de agora.

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BOHEMIAN RHAPSODY (CRÍTICA)

 

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SINOPSE
Brian May, Roger Taylor e Tim Staffell formavam o Smile, uma boa banda londrina mas sem muita identidade. Só que as coisas tomaram rumos inimagináveis quando o atirado Freddie Mercury ofereceu sua única e potente voz para o grupo. Tim Staffell sai, e junto de Freddie, John Deacon entra para assumir o baixo. Nascia assim o Queen, uma das maiores e mais importantes bandas de todos os tempos! Junto da fama também veio muito luxo e portas abertas, e as coisas começam a sair do controle quando o estilo de vida extravagante de Freddie passa a afetar a rotina do grupo.

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COMENTÁRIOS
Sendo centralizado pela ótica de Freddie Mercury, Bohemian Rhapsody traz uma certa polêmica. Assim como eu, acredito que muitas pessoas se perguntaram se aqueles triviais eventos comportamentais foram honestamente bem retratados no drama. Te seria justo que uma briga entre você e um amigo fosse contada apenas pela versão dele? É, Freddie Mercury não estava aqui para palpitar no roteiro. Mas deixemos a treta de lado e vamos ficar com a licença poética da coisa, afinal, a história não foi tão cruel assim com o músico. Vamos ao que importa, dissecar um pouquinho este fabuloso filme.

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Bohemian Rhapsody é simplesmente fantástico! Esteticamente bonito e bem roteirizado, possui duas coisas importantíssimas e que empatam no meu entendimento, uma é a qualidade absurda da edição de som, e outra a atuação brilhante de Rami Malek. O verdadeiro Freddie era levemente mais parrudo, mas é impossível não aceitar a verdade do personagem retratado. Malek literalmente incorporou Freddie, demonstrando todos os seu trejeitos e expressões. É possível sentir a dedicação do ator com o trabalho que topou fazer, e tanto esforço lhe garantiu merecidamente uma estatueta do Óscar. Em pensar que o papel quase ficou para Sacha Baron Cohen, o caricato Borat. Tudo em Bohemian Rhapsody é ousado, o filme não se trata de um musicas e muito menos um documentário, mas consegue um sucesso incrível do roteiro por incorporar muito bem as duas coisas. A trilha sonora, seu principal elemento, é brutal e seleciona os melhores hits da banda. Somebody to Love, Keep Yourself Alive, Now I’m Here, Killer Queen, Don’t Stop Me Now, e obviamente We Will Rock You e Bohemian Rhapsody são só algumas das músicas do filme.

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UM POUCO DA HISTÓRIA DE FREDDIE
Demonstrando desde muito cedo ter tino para arte, Freddie com apenas oito anos já se interessava pela música de Lata Mangeshkar, uma cantora e compositora indiana que naquele momento era sua maior inspiração. Aos doze montou uma banda, The Hectics, e mesmo com um invejável talento, era alvo do bullying das crianças da sua idade por causa de sua personalidade afeminada. Freddie então se recolheu na própria realidade, se tornando uma pessoa bastante introspectiva e tímida com os desconhecidos. Aos dezessete Freddie se mudou para Londres com sua família, fugindo dos perigos da Revolução Civil de Zanzibar em 1964. Se graduou como designer gráfico numa escola politécnica, e no início da vida adulta foi trabalhar como vendedor em uma loja de roupas, fato esse alterado no roteiro de Bohemian Rhapsody. De qualquer forma foi lá que conheceu Mary Austin, aquela que se tornara sua namorada e fiel amiga por toda vida.

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Freddie integrou algumas bandas, o Wreckage que não durou muito, e depois o grupo Sour Milk Sea. Mas foi em abril de 1970 que Freddie se junto ao Smile, banda do guitarrista Brian May e do baterista Roger Taylor, época em que Freddie, apelidado assim por seus na infância, adotou a alcunha de Mercury, baseado na letra de uma de suas primeiras canções. Farrokh Bulsara, era esse o nome de batismo do proeminente astro do rock, e claro, Smile era bacana mas não soava tão bem ao ponto de combinar com a imponência de um Freddie Mercury, então porque não trocarmos para algo mais glamouroso? Queen pareceu ótimo! Uma coisa precisa ser contada, nada da infância de Freddie é retratada em Bohemian Rhapsody. Na realidade o filme inicia no momento onde o Smile estava em decadência, e Freddie chegou para se unir ao grupo. Então porque eu contar tudo isso? Bem, o longa não é um documentário, mas pedaço da jornada de um personagem complexo que merece ter sua personalidade minimamente explicada. E tanto seu trajeto com o Queen quanto seu passado anterior à banda, tem iguais importâncias para quem queira tirar o máximo proveito do filme.

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ELENCO E FICHA TÉCNICA
Rami Malek, Ben Hardy, Gwilym Lee, Joseph Mazzello, Allen Leech, Lucy Boynton, Mike Myers, Aaron McCusker, Aidan Gillen, Tom Hollander, Dermot Murphy, Meneka Das, Ace Bhatti, Dickie Beau, Neil Fox-Roberts, Philip Andrew e Matthew Houston compõem o elenco. Bohemian Rhapsody foi dirigido por Bryan Singer e Dexter Fletcher, esse último que não é creditado no filme. O roteiro ficou a cargo de Anthony McCarten, e foi produzido por Graham King e Jim Beach. Esse é praticamente um filme musical, portanto é importante dizer que as músicas e edições sonoras ficaram na conta de John Ottman. O longa foi distribuído pela 20th Century Fox, e teve um orçamento de 52 milhões de dólares, com uma receita final de mais de 900 milhões.

CONCLUSÃO
Bohemian Rhapsody conta o trajeto da vida de Freddie Mercury ao ingressar naquela que se tornaria uma das maiores e influentes bandas de rock do mundo. Sempre eclética, o Queen fez nascer com a voz de Freddie, músicas que agradavam todas as idades e classes sociais. Não é segredo para ninguém, Freddie Mercury morreu devido a complicações causadas pelo vírus da AIDS, mas sua força de vontade aliada à sua influência, o tornou no maior símbolo do mundo de elucidação da doença. Mas Bohemian Rhapsody não é apenas isso, ele tem seus dramas e conflitos, mas em essência é um filme muito divertido e empolgante que deve ser visto numa reunião de família. We Will Rock You!

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O DATE PERFEITO – FILME DA NETFLIX (CRÍTICA)

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SINOPSE
A maior ambição na vida de Brooks é ter sucesso no seu ingresso em Yale, uma das melhores universidade dos Estados Unidos. E após a brincadeira de um amigo, o jovem bem educado e despojado, decide criar um aplicativo de namoro de aluguel para faturar uma grana, assim podendo financiar seus estudos. O serviço é personalizado, isso quer dizer que Brooks assume a personalidade que a cliente quiser. Então se alguém precisar causar ciúmes no ex-namorado, ele estará lá. A necessidade é de um entusiasta que lhe acompanhe numa elitizada mostra de arte? É só escrever no pedido, e pronto! Inteligente, espirituoso e bonitão, logo progride em seu empreendimento, porém viver essa vida sem uma identidade própria, lhe faz perceber quais são realmente importantes as coisas na vida.

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COMENTÁRIOS
Eu adoro distopias de ficção científica, suspenses com tramas complexas, dramas de guerra, thrillers com bastante ação, épicos sanguinolentos, e veja você, também curto filmes de comédia romântica que as vezes inicia de forma diferente, mas sempre acaba da mesmíssima forma clichê. Daqueles que logo de cara você já sabe com quem fulano irá terminar junto. Deixe-me explicar, afinal, já que estou me expondo revelando algo que a maioria dos machos alfas levariam para o túmulo, deem-me ao menos a oportunidade de justificar. Eu odeio do fundo do meu âmago (não sei nem onde fica isso) dramas românticos melosos, romances formais almofadinhas (esses estão em extinção, oh glória), e aquelas comédias infantiloides de paixonite adolescente. Tem coisas que realmente não dá! No entanto, não compreendo a razão,  mas acho divertido as histórias de situações onde alguém com algum complexo existencial precisa se superar. Vide uma comédia na qual um maluco é obcecado para entrar em uma universidade, não tem grana pra isso, usa seu poder de seduzência para tal, acaba se enrolando com quem menos imaginaria, e nós, do lado de fora da tela, tínhamos absoluta certeza de quem seria. E vamos ser sinceros, nenhum destes filmes tenciona ocultar isso, é uma convenção que faz parte, até sendo obrigatória para o gênero. Ótimo, consegui explicar a base. Só que isso por si só não basta, ele ainda assim precisa ser um filme inteligente. Como assistindo qualquer outro gênero, eu não quero ser tratado como idiota pelo roteiro. Prezo muito pela qualidade dos diálogos e na coerência dos mesmos. Comédia no meu gosto se trata de um besteirol assumido como Monty Python, ou um humor inteligente com piadas honestas. E O Date Perfeito (The Perfect Date), filme que eu não dava absolutamente nada, e só decidi conferir porque descobri ser um dos mais vistos na Netflix, é exatamente isso!

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ELENCO E FICHA TÉCNICA
Noah Centineo, Laura Marano, Odiseas Georgiadis, Camila Mendes, Matt Walsh, Joe Chrest, Carrie Lazar, Alex Biglane, Blaine Kern III, Zak Steiner, Ty Parker e Wayne Péré compõem o elenco. Dirigido por Chris Nelson, a comédia romântica adolescente de 2019, é baseada na obra The Stand-In de Steve Bloom, que teve adaptação feita pelo próprio Bloom em parceria com Randall Green. A produção norte-americana é de Matt Kaplan e John Tomko, sob os selos dos estúdios Ace Entertainment e AwesomenessFilms. O Date Perfeito é um produto original Netflix, e já está disponível em seu catálogo.

CONCLUSÃO
Se estruturando bastante nas comédias românticas da década de oitenta, O Date Perfeito é uma comédia inteligente e divertida. Não espere um romance adolescente bobo como seu título insinua ser, aqui teremos piadas ácidas, e tiradas bastante inesperadas. A fórmula é aquela clássica, tem mais de trinta e lembra de Namorada de Aluguel (1987) que repetiu centenas de vezes na Sessão da Tarde? Ou seja, na prática é sim um filme romântico, mas daqueles que a gente assiste escondido dos amigos para não admitir que gostou. E olha que quem está falando é um homem hétero que tem John Rambo como inspiração! Quem me conhece sabe o quanto não aceito brincadeiras quanto minha sexualidade, afinal, tenho algumas cuecas vermelhas e rosas sim, e daí?! Enfim, deixe o preconceito bobo de lado, convide seus amigos de infância do colégio, e assistam juntos essa bela história de amor de um rapaz por uma rapariga. E claro, deixe lenços disponíveis para que limpem o suor de suas vistas. Com classificação etária de 12 anos, O Date Perfeito está disponível no serviço por assinatura Netflix.

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CONTATO VISCERAL – FILME DA NETFLIX (CRÍTICA)

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SINOPSE
Will cobria um dos turnos num bar de cidade pequena onde as mesmas figuras carimbadas de sempre se reuniam, porém certa noite um público diferente do cotidiano apareceu. Eram quatro adolescentes que o barman decidiu fazer vista grossa, afinal, pareciam decentes e só queriam tomar umas cervejas. E em meio aos flertes velados de Will à Alicia, que estava acompanhada do novo namorado, uma briga violenta se iniciou entre quem jogava sinuca. Eric, um brutamontes encrenqueiro já conhecido, contra um tal de Marvin, um gigante marombado. A quebradeira foi feia, e um dos garotos que estava lá começou a gravar com o celular, quando Eric foi ferido gravemente no rosto por uma garrafa quebrada. As pessoas conseguiram separar os dois antes que algo pior acontecesse, e com a chamada da polícia, todos fugiram com medo de se meter em mais encrenca. Will olhando o estrago em seu bar nota que o telefone de um dos garotos caiu durante a confusão, e disposto a entregar, coloca no bolso. Chegado em casa, procura uma maneira de desbloquear a tela do aparelho, e tem a ideia de tentar ver o desenho que a marcas de dedo teriam feito. Will responde a mensagem de alguém para aquele celular, se identifica como sendo o barman e que no dia seguinte deveriam ir no bar buscar o objeto perdido. Mas a conversa não para por aí, mensagens e fotos cada vez mais estranhas começam a chegar, desencadeando uma série de situações bizarras.

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COMENTÁRIOS
Não sei como iniciar uma crítica sobre esse filme omitindo tê-lo detestado! Primeiramente ele se vende como um terror, e assim como em Midsommar (2019), outro filme do gênero do mesmo diretor, usa como base o relacionamento conturbado de um casal. Mas diferente do qual eu citei, Contato Visceral (Wounds), não tem nada de assustador ou mesmo aquela estranheza que causa desconforto. O filme com ar de drama em boa parte do seu tempo, acompanha os passos de um homem que vai se revelando cada vez mais problemático, mostrando sua infidelidade, seus vícios, e porque não colocar assim, sua chatura. Will tenta ser engraçado mas não é, e nem essa tentativa de ser, tem alguma graça. Sua esposa não é muito diferente, sempre desconfiada e certamente insatisfeita com o marido, Carrie é colocada em segundo plano na trama. Serve exclusivamente como âncora para embasar o entendimento de Will ser um completo mau-caráter, e é cansativa a artificialidade da comunicação entre os dois. Logo no início do filme, numa situação onde o casal discute sobre a procedência daquele celular, ele simplesmente trava como se admitisse culpa por algo que não fez. E essa incoerência é o que mais incomoda na trama. Quanto ao terror, ele tenta ser algo mais metafórico. E não me levem à mal, essa conversa típica de que se você não entendeu o simbolismo da obra é porque não entrou no clima, ou não teve intelecto para tanto definitivamente não funciona para mim. Basicamente eu vi um filme lento, enfadonho, que o vilão não passava de baratas que se multiplicavam, e o herói deveria ser um dedetizador! Quanto ao seu final, nossa, prefiro nem fazer comentários. Enfim, ainda vale a regra de ouro, você não precisa concordar comigo e nem deve, assista você mesmo e tire suas conclusões.

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ELENCO E FICHA TÉCNICA
Armie Hammer, Dakota Johnson, Zazie Beetz, Karl Glusman, Brad William Henke, Jim Klock, Luke Hawx, Kerry Cahill, Terrence Rosemore e Ben Sanders compõem o elenco. Escrito e dirigido por Babak Anvari, Contato Visceral é um filme de terror lançado em 2019 produzido por Christopher Kopp e Lucan Toh. A obra se baseia no livro The Visible Filth de Nathan Ballingrud. A estrutura de produção é da Annapurna Pictures e da AZA Films, e sua distribuição ficou a cargo do Hulu para os Estados Unidos, e da Netflix para o restante do mundo.

CONCLUSÃO
A percepção que eu tenho, é que chega num determinado ponto em que certos diretores ficam tão confortáveis e seguros das próprias capacidades, que perdem a régua do que pode funcionar. Contato Visceral tem um início enfadonho, com linhas de diálogo tediosas, e que quando culmina no seu elemento central, que deveria ser o terror, já se perdeu totalmente. Fica parecendo que estou pegando no pé, mas não consegui encontrar um elemento ao menos qual pudesse dizer: não, isso aí é legal! Enfim, esse é mais uma péssima produção que a Netflix teve a infelicidade de colocar seu selo de distribuidora. Mas o lance é aquele de sempre, a melhor forma de sabermos se algo é ruim, é conferirmos nós mesmos. Contato Visceral tem classificação etária de 16 anos, e está disponível no serviço por assinatura Netflix.

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FRATURA – FILME DA NETFLIX (CRÍTICA)

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SINOPSE
Ray procura dirigir com extremo cuidado quando está com sua família no carro, e isso irrita Joanne, pois sempre faz com que atrasem nas reuniões familiares. O casamento entre os dois não vai bem, ela acha que os dois estão cada vez mais afastados e que não há diálogo na relação. Ray se sente pressionado, mas admite que talvez esteja realmente numa fase ruim, mas que irá se esforçar mais. Enquanto isso Peri, uma pequena menina no banco traseiro, estava com fone distraída ouvindo música em seu radinho, quando reclama com os pais que o aparelho parou de funcionar. Acreditando ser faltas de pilhas, o pai decide parar num posto de beira de estrada. Joanne vai ao banheiro, e Peri fica com o pai. Num momento de distração, um cachorro aparece, e Peri muito assustada, começa a se afastar lentamente andando de costas, sem perceber que atrás havia um buraco de uma área em construção. Ray ainda tenta acalmar a filha e impedir que o pior aconteça, mas a menina cai com o pai também se jogando para tentar ajudar.

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Joanne volta do banheiro e não encontra os dois, então procura ao redor e os vê caídos no fundo daquele poço. Ray desmaiou após bater a cabeça no concreto, e acorda atordoado, se esforçando para recobrar a visão e consciência. De pé novamente, verifica que a filha parece bem, mas sentindo uma forte dor no braço. Toma-a no colo, e voltam depressa para estrada, lembrando que poucos quilômetros atrás tinham passado por um hospital. Ray dá entrada para o atendimento da filha e, há um pouco de desentendimento por conta da demora, mas finalmente Peri é atendida. É pedido ao pai que aguarde um pouco, porém horas se passam e ele estranha a demora. Retorna à recepção para entender o motivo de tanta demora, e lhe é contado que nenhuma criança com aquele nome havia dado entrado para atendimento. Não acreditando no que acabara de ouvir, passa a desconfiar que aquele hospital tivesse feito algo com a sua família.

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COMENTÁRIOS
Filmão! É sensacional quando aparece uma pérola tão valiosa assim e sabemos que custou tão barato. Fratura (Fractured) é um filme que consegue explorar de forma muito criativa, umas mil maneiras de subverter segundo à segundo nosso julgamento da narrativa. Utilizando de um conta gotas para soltar informações, vamos precisando de unhas e mais unhas alheias para ter o que roer enquanto não descobrimos a real verdade verdadeira. Está rindo? Você não riria se já tivesse assistido. Escrito por Alan B. McElroy, é Brad Anderson, responsável por O Operário (2004), que dirige e consegue criar essa atmosfera intrincada de mistério. Em Fratura não tem calmaria, nosso cérebro fica numa constante caótica se esforçando para não ser enganado. É Sam Worthington, o Perseu de Fúria de Titãs (2010), que se supera e entrega, na minha opinião, a melhor atuação de sua carreira. Sua atuação esbanja personalidade e convencimento, transformando-se no principal ingrediente desta magnífica receita.  Se gosta de ter sua sagacidade desafiada por complexos mistérios, cai dentro, Fratura é o filme perfeito para você! É ver para crer!

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ELENCO E FICHA TÉCNICA
Sam Worthington, Lily Rabe, Stephen Tobolowsky, Adjoa Andoh, Stephanie Sy, Lucy Capri, Lauren Cochrane, Crystal Magian, Derek James Trapp, Dennis Scullard, Natalie Malaika, Will Woytowich, Erik Athavale, Megan Best, Chris Sigurdson e Ernesto Griffith compõem o elenco. Escrito por Alan B. McElroy, Fratura, filme original da Netflix de 2019, é dirigido por Brad Anderson. A produção de Neal Edelstein, Mike Macari e Paul Schiff, se dá pelas produtoras Koji Productions, Crow Island Films, Macari/Edelstein e Paul Schiff Productions.

CONCLUSÃO
De um tempo pra cá a Netflix vem trazendo produções bem melhores que as bombas que estava soltando um tempo atrás, e Fratura não é só um filme honesto para o catálogo, é definitivamente excelente! O drama e suspense é repleto de quebra-cabeças para nos distrair do começo ao fim, não há descanso, ficamos tão compenetrados na trama que nem notamos quando acaba. Esse é um trabalho em trio, do roteirista Alan B. McElroy, do diretor Brad Anderson e de Sam Worthington, que deu uma enorme qualidade para um personagem complicadíssimo. Assistir Fratura me fez ter um sentimento nostálgico da época em que o Supercine da Globo só passava coisa realmente boa. Geralmente não eram superproduções, mas tinham roteiros bacanas e com uma com uma ótima história cheia de mistérios para contar. Com classificação etária de 14 anos, Fratura está disponível no serviço por assinatura Netflix.

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ELI – FILME DA NETFLIX (CRÍTICA)

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SINOPSE
Eli é um menino de 11 anos portador de uma doença autoimune que o leva a ter uma vida difícil, precisando sempre se manter em locais hermeticamente descontaminados para continuar a viver. Toda vez que se expõe, sua pele apresenta uma vermelhidão alérgica, machucando-o como uma grave queimadura. Seus pais, Paul e Rose, descobrem uma clínica que oferece um procedimento experimental, e investem todas suas economias para poder dar uma vida melhor ao filho. O local é uma enorme mansão isolada numa distante região rural, um imóvel enorme e inteiramente protegido dos contaminantes do exterior. Lá a criança é submetida a dolorosos procedimentos médicos, enquanto paralelamente a isso, uma série de fenômenos sobrenaturais começam a acontecer, e se tornando cada vez mais bizarro, Eli começa a questionar se realmente pode confiar  naquelas pessoas.

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COMENTÁRIOS
Enquanto em Jimmy Bolha (2001), Jake Gyllenhaal traz uma visão otimista e divertida das complicações de ser uma criança que precisa viver dentro de uma bolha, em Eli (2019), as coisas não são tão simples e positivas assim. Eli é um menino bastante inteligente que compreende sua própria situação, mas mesmo assim sofre demais com suas limitações. Como uma criança normal, ele gostaria de poder sair de casa para aproveitar as coisas simples sem se preocupar, e o fato de não poder fazer isso, lhe gera muita angústia. Não bastando as dificuldades que lhe atormentavam a vida, ainda sofre com a falta de empatia daqueles que o veem com estranheza devido ao curioso traje plástico que precisa vestir quando está fora de casa. O sadismo e deboche dos outros tiram-no do sério, fazendo com que precise ser acalmado pelos pais, de quem é totalmente dependente para tudo.

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Eli tem uma atmosfera pesada e instigante, começando tímido, vai moldando ambientes e plantando cada vez mais confusão na audiência. Elementos aparentemente desconexos são gradualmente inseridos, e causam cada vez mais estranheza. A trama que se inicia como um drama, toma rumos no suspense e no terror, e até o último minuto sustenta mistérios inimagináveis. Seu roteiro é bastante criativo, e junto com Fratura (2019), lançado quase simultaneamente, ambos pela Netflix, conseguem convencer numa trama extremamente bem escrita. Esse é daquele filmes que é muito perigoso fazer comentários acerca de seu decorrer, mas o que ainda dá para ser dito, é que em certos momentos aparenta que estamos assistindo apenas mais um filme de terror bobo e cheio de jogos de iluminação e jump scares, e de certa forma ele parece não ocultar querer parecer ser isso. Não seja ingênuo, aqui temos um diretor perspicaz e experiente em filmes de terror com mistério, esta é uma obra que vai te surpreender bem mais do que imagina. Digo isso assumindo ser um cara chato e exigente com filmes de terror, quando a coisa não tem conteúdo e é só baboseira, já sento o malho sem pena. Deixo um alerta, não recomendo procurar muita coisa sobre este filme na internet, sejam críticas, material promocionais, e nem mesmo imagens em sites de buscas, acredite, o potencial é enorme de você estragar sua experiência com spoilers não intencionais.

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Charlie Shotwell está excelente interpretando Eli, onde atua com muita naturalidade, conseguindo convencer em momentos de medo, dúvida ou raiva. Já Sadie Sink, a menina ruiva de Stranger Things, é mais do mesmo, e não traz grandes feitos. Kelly Reilly e Max Martini, os pais de Eli, fazem uma boa atuação, assim como a chefe médica Lili Taylor. A direção de Ciarán Foy é inteligentíssima, o cara realmente sabe induzir com que pense exatamente o que ele quer. Você vai ter certeza de que está confortável com uma ideia, e como um um guindaste de demolição, o roteiro faz desabar todas suas convicções quando você menos imaginar.

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ELENCO E FICHA TÉCNICA
Kelly Reilly, Sadie Sink, Lili Taylor, Max Martini, Charlie Shotwell, Deneen Tyler, Katia Gomez, Austin Fox, Kailia Posey, Parker Lovein, Lou Beatty Jr., Jared Bankens, Nathaniel Woolsey e Mitchell De Rubira compõem o elenco. Escrito por David Chirchirillo, Ian Goldberg e Richard Naing, Eli é um filme de drama e terror de 2019 dirigido pelo experiente Ciarán Foy, responsável também por A Entidade (2012) e Citadel (2012). A produção é dividida com Trevor Macy e John Zaozirny, utilizando os estúdios produtores Paramount Players, MTV Films, Intrepid Pictures e Bellevue Productions. Distribuído pela Paramount Pictures, e pela Netflix, o longa teve um orçamento modesto de 11 milhões de dólares. Eli está disponível através do serviço por assinatura Netflix.

CONCLUSÃO
Flertando com o drama mas descambando para o terror, Eli lida com seu gênero principal de forma bem peculiar. Não é o tipo de filme que se diz que com segurança ser capaz de agradar qualquer público, seu formato, e principalmente sua conclusão, tem potencial enorme de trazer desconforto à algumas pessoas. Seu roteiro inteligente e seus plot twists, são seus principais atrativos, mas não se pode afirmar que seu desfecho seja surpreendente. Como disse antes, eu sou uma pessoa exigente com filmes desse gênero, e esse acertou em cheio para mim! Mas como gosto é algo muito pessoal, recomendo muito que você assista e tire as próprias conclusões. Lembrando, a surpresa eu garanto que você terá! Recomendado para maiores de 16 anos, Eli é uma produção original Netflix, e já está disponível. Tenha um ótimo filme!

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EL CAMINO – FILME DA NETFLIX (CRÍTICA)

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A série Breaking Bad (2008-2013), ao longo dos anos, acumulou timidamente (no início) uma legião de fãs, dentre os quais me incluo. Sendo assim, comentar qualquer derivado da obra de Vince Gilligan é um empreitada delicada.Mas El Camino (2019) não é a única história envolvendo o universo de Jess Pinkman e Walter White. A série Better Caul Saul (desde 2015 e com última temporada confirmada) também explora ainda mais os detalhes dos personagens secundários da história do professor de química que se torna produtor e traficante de metanfetamina (cristal).

Entretanto, ao final de Breaking Bad, fica o gosto amargo da morte de um anti-herói e a fuga desesperada de Jesse, barbudo, lacerado, com lágrima nos olhos depois de ter sido feito de escravo e morado em um buraco no chão. O que acontecera ao rapaz que se envolveu com produção de cristal, primeiro para saciar seu próprio vício, e que, depois, só queria viver, quem sabe, uma vida simples e em família? Nesse sentido El Camino é um fechamento para um dos personagens mais cativantes da série e que rendeu fama a Aaraon Paul.

Jesse precisa fugir de Albuquerque, pois uma grande caçada policial é empreendida atrás do rapaz após uma batida no laboratório de metanfetamina no qual era escravizado. Com a morte do Sr. White, as autoridades precisam por as mãos no último elo solto dessa organização criminosa. Pinkman tem um plano, mas será preciso muito dinheiro para executá-lo. Para isso terá que revirar seu passado e traumas para seguir seu próprio caminho.

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Título original: El Camino: A Breaking Bad Movie
Direção: Vince Gilligan
Roteiro: Vince Gilligan
Duração: 2h 2min
Lançamento: 11 de outubro de 2019.

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Elenco: Aaron Paul (Jesse Pinkman), Jesse Plemons (Todd), Jonathan Banks (Mike), Matt Jones (Badger), Charles Baker (Skinny Pete), Robert Foster (Ed).

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O FIM DE EL CAMINO
Vamos começar nossa análise justamente pelo título original:  El Camino: A Breaking Bad Movie. O termo El Camino refere-se à pick-up (caminhonete) da Chevrolet, automóvel clássico da década de 1970. É nele que ao final da série, tendo abandonado Walter White a própria sorte, Jesse acelera para a liberdade. Aqui o duplo sentido é claro: esta é a história do caminho da liberdade de Pinkman para sair de Albuquerque. E as memórias de Jesse relacionadas ao dono do carro, o sociopata Todd, permearão a narrativa do filme.

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O subtítulo, Breaking Bad Movie (um filme de Breaking Bad), pode ser um limitador. É um filme da série e, talvez por isso, tenha sido omitido na forma reduzida para o público brasileiro. Então você pode se perguntar: eu preciso ver a série antes? Sim e não. Por um lado o filme é o universo expandido, uma continuação do último episódio (2013), e, mesmo alguns atores tendo mudado muito como o Jesse Plemons (Todd) que não é mais um jovem e já um pouco gordinho, parece que o tempo parou. Conhecer a série fará com que sua imersão seja completa e entenda todas as referências.  Em contrapartida, o enredo de El Camino é independente e se sustenta, ao longo da trama, esclarecendo pontos da história para aqueles que não assistiram à série. Claro que a Netflix deu aquela mãozinha e deixou um resumo no capricho para quem não saca nada de Breaking Bad.

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Os eventos do filme tem início na fatídica noite em que Walter liberta Jesse da gangue de Todd. Fragilizado e coberto de cicatrizes, sujo e andrajoso, o jovem busca abrigo de seus colegas de vício e tráfico: Badger e Skinny. Nota-se que o psicológico de Jesse está destruído. O presente se mistura as lembranças do cárcere e das torturas.

É em um desse momentos que relembra de Todd, sociopata a citar constantemente seu tio, e que oscila sua conversa branda, com a frieza de seus atos. Toda hora que ele falava, eu tinha vontade de xingá-lo, confesso. Lembra-se de Mike, antigo parceiro de crime, e idealiza uma fuga para o Alasca. Mas como? Precisava de uma vida totalmente nova e para isso, dinheiro. É nesse momento que entra em cena o cara: Ed.

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Ed, vivido por Robert Forster que viera a falecer no mesmo dia da estreia desse longa-metragem, é o grande trunfo de Jesse. Facilitador da fuga de Walter White e do advogado Saul, o vendedor de aspirador de pó (profissão que o ator realmente exerceu) tem um rígido código de conduta e não aceita de cara o trabalho. Pinkman terá que enfrentar seus medos para conseguir o que precisa para fugir e começar de novo, quem sabe fazer faculdade, como lembra em um flashback de uma de suas conversas com o Sr. White.

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Dois pontos, há de se salientar, antes de finalizar esta análise. A fotografia do filme é intensamente quente, como esperamos de Albuquerque. Por vezes é possível sentir a aridez do clima pela tela. Assim como alguns ângulos de câmeras são incríveis como a de Jesse escondido no apartamento de Todd. Ainda em relação a Pinkman, a cena no qual o protagonista brinca com um besouro revela que Jesse ainda tem um alma gentil. Essa parte ecoa a própria série na qual também brincou com um inseto rastejando lentamente no chão e sorriu para ele antes de pousar. Esta é a dualidade da série e aqui nitidamente explícita: Pinkman que tinha tudo para ser mal e viciado e ganancioso, alcança sua redenção ao passo que Walter, íntegro, destruiu sua própria vida.

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UMA PEQUENA PARTICIPAÇÃO
A aventura da fuga de Jesse é permeada caras conhecidas da série original, entre elas está Mike (único personagem que aparece em todas as tramas do universo Breaking Bad) e Jane, grande amor de Pinkman. Mas como todo fã da série, ansiava por alguma participação de Bryan Cranston, revivendo Walter White. E ela acontece em um tocante flashback quando Jesse ainda cuidava de seu antigo professor com uma afeição de filho.

Na cena, em questão, Jesse e Walt ficam em um hotel e conversam em uma lanchonete. Ela é ambientada no episódio 4 Days Out, no qual ambos ficam presos no deserto e quase morrem. No hotel, Jesse está conversando com Jane ao telefone, pois ela ainda está viva durante o período deste episódio. Jesse também faz uma referência a “eletrólitos”, que faz parte do roteiro do episódio no qual os dois quase morrem devido à desidratação.

CONCLUSÃO
Não é dos filmes mais alucinantes de ação, pois nunca foi essa a pegada da série da qual El Camino derivou. Estamos falando de drama e reviravoltas de roteiro como Vince Gilligan, que já contribuiu com a série de Chris Carter, Arquivo-X, já se mostrou capaz de fazer. O longa-metragem de Jesse Pinkman dá um fim honroso para a história do ex-viciado e traficante de metanfetamina que foi reduzido a uma condição sub-humana, perdeu quem mais amava e foi traído por seu pai postiço, Walter White.

É tocante ver esse garoto fragilizado sendo ajudado por seus amigos próximos, personagens coadjuvantes como Badger e Skinny, mas que se veem imbuídos de um lirismo, de uma amizade leal que venceu as barreiras do dinheiro e da decência. Ver que muitas feridas de Jesse estão ali e permanecerão com ele. Que as maiores cicatrizes não são aquelas da pele, porém aquelas frutos da saudade do que foi e do que teria sido.

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CAMPO DO MEDO – FILME DA NETFLIX (CRÍTICA)

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SINOPSE
Dois irmãos, Becky e Cal, dirigem numa longa viagem para San Diego. A moça está grávida e começa a sentir um pouco de enjoo, então pede para que Cal pare o carro na borda da pista. Ao lado esquerdo há uma antiga igreja e alguns veículos estacionados, e do direito uma extensa e alta plantação que se perdia no horizonte. Subitamente um grito de socorro vem de dentro da mata, é uma voz de criança. Ele diz estar tentando voltar para estrada, mas não consegue encontrar o caminho. Então uma segunda voz surge, de uma aparente mulher adulta, pedindo para que o garoto não chamasse. Cal então decide ir em busca do menino e entra na vegetação sem hesitar, sendo logo seguido pela sua irmã. Agora dentro daquela mata de mais de dois metros de altura, ele tenta encontrar a criança pedindo para que ele fale alto para que possa seguir o som. Algo estava muito estranho, por mais que ele seguisse a voz, parecia que nunca o encontrava. Começou a duvidar que aquilo não fosse uma brincadeira do garoto, então decidiu se comunicando com a irmão, que iriam pular os dois ao mesmo tempo para basearem suas posições. Fizeram isso, um viu o outro. Ficaram aliviados, não estavam distantes, talvez uns dez metros. Pularam novamente, e para surpresa dos dois algo não estava apenas estranho, estava na verdade muito errado. A distância que antes era curta aumentou umas cinco vezes. Aquilo não fazia sentido!

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COMENTÁRIOS
Stephen King tem o dom de criar histórias fantásticas sempre cheias de muito mistério, e seu trabalho de mais prestígio na atualidade é a segunda parte de It: A Coisa – Capítulo 2. Mas como no próprio filme do palhaço Pennywise, onde ele se sacaneia ao deixar subentendido que também é um autor de péssimos finais, talvez, assim como eu, você possa ter mais uma amostra disso em Campo do Medo (In the Tall Grass, 2019), filme lançado sem nenhum alvoroço no Netflix. O longa é uma produção sem grandes investimentos, basicamente as filmagens se passam num mesmo ambiente do começo ao fim. As atuações não causam grande espanto, tirando Patrick Wilson, ninguém brilha um pouco mais que o mínimo. A direção de Vincenzo Natali consegue efeitos até interessantes, onde mescla alguma computação gráfica nos movimentos em meio a mata com cenas de filmagens reais. A trilha sonora é do compositor canadense Mark Korven, que traz uma boa atmosfera em suas composições que são exploradas apenas em específicos momentos. Campo do Medo para mim foi um filme bem mediano, que após assistido se torna bem esquecível. Uma pena, pois a premissa é interessante e tinha pano para coisas bem bacanas.

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COMENTÁRIOS COM SPOILERS
Com sua produção não exigindo grandes pirotecnias cinematográficas, Campo do Medo traz um mistério que te prende bastante na primeira metade. A sensação claustrofóbica de estar sendo engolido por uma densa vegetação incomoda, ainda mais quando é descoberto que existem ameaças piores além do labirinto em si. Se escondendo atrás de um simbolismo não muito claro, aquela pode ser uma rocha “mágica” vinda do espaço e que foi adorada por antigos nativos, ou mesmo uma simples pedra que passou por um ritual e se tornou “possuída”. Nesse trecho não há muita discussão, as coisas são como são sem necessário um motivo, uma das características  de Stephen King.

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O que percebemos, ao menos nós nerds, o público que está acostumado com histórias de viagens no tempo, é que das duas uma: ou estão se formando novas linhas temporais onde repetidos personagens possam coexistir, ou a natureza temporal está sendo violada e criando paradoxos proibidos. Geralmente nessas tramas existem regras próprias para a eliminação desse desequilíbrio criado, porém neste filme isso também não é claro, e é nesse ponto que isso me incomodou. Não temos uma linha base para nos segurarmos e formularmos nossas teorias, e assim nos engajarmos mais no quebra-cabeça. Em certo ponto é entendido que a rocha é muito antiga e cultuada por ancestrais nativos, e que a mata em si é apenas uma armadilha para trazer novos sacrifícios para os espíritos que existiam ainda ali. Continuando o raciocínio, a rocha causava uma perturbação temporal ao mesmo tempo que define portais que direcionavam para pontos específicos em outro canto da mata. Ao ser tocada, a pessoa adquire o conhecimento de como funciona todo aquele labirinto, em compensação sua humanidade também é afetada. Ross, o pai do menino, já era uma pessoa excessivamente crédula em dogmas religiosos, portanto uma mente bastante suscetível (e aberta) a receber todo tipo de realidade. Sendo assim, ele abraçou com todas as forças a função de “seguidor” daquela ideia, e agia como aquele quem traria mais sangue para ofertar ao seu novo objeto de culto. Quando Travis decide que não tinha mais nada a perder, o efeito foi diferente. Ele aprendeu todo o mapa de posicionamento naquele labirinto, mas não perdeu totalmente sua humanidade. Então ele toma Tobin pela mão e o leva para fora da mata no instante de tempo que Becky e Cal chegavam ali de carro, e pediu para que o menino fizesse de tudo para impedi-los de entrar. Temos então uma conclusão paradoxal. Travis impediu os irmãos de entrarem na vegetação, desta forma os dois não se perderam para que ele fosse atrás dois meses depois. O meu entender particular não é nada bom, enquanto naquela realidade criada no fim estava tudo bem, as outras não eram anuladas, e as pessoas continuavam mortas ou perdidas. Obrigado Stephen King, você fechou um filme com o pião rodando. Deixa o Nolan ver isso.

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ELENCO E FICHA TÉCNICA
Patrick Wilson, Laysla De Oliveira, Harrison Gilbertson, Avery Whitted, Rachel Wilson, Will Buie Jr. e Tiffany Helm compõem o elenco. O Campo do Medo é baseado no romance dividido em duas partes de Stephen King em parceria com Joe Hill, In the Tall Grass, de 2012. A adaptação em filme teve sua estreia mundial no Fantastic Fest, no Texas, e uma semana depois chegou ao grande público com o selo de distribuição Netflix. Vincenzo Natali roteirizou e dirigiu o longa, que foi produzido por Steve Hoban, Jimmy Miller e M. Riley.

CONCLUSÃO
Campo do Medo me trouxe de volta a antiga sensação das adaptações de Stephen King, de não ter certeza se achei a experiência boa ou ruim. Seu começo atrai nossa atenção, e faz com que passemos a sofrer de agonia com aquelas pessoas. O problema é que isso insiste um pouco, até o ponto que passa a ficar cansativo. Então eventos fora da curva começam a acontecer. Você começa a entender algumas coisas ao mesmo tempo que não entende nada. Achou confuso? Então assiste e tente compreender o que ficou totalmente nublado para mim. Posso te assegurar que você não saíra revoltado após terminar de assistir, ainda mais por esse ser um filme de apenas noventa minutos. Curte suspense, terror e mistério? Então não liga para meus comentários e confere você aí. Mas depois volta aqui e leia meus comentários com spoilers para gente trocar uma ideia. A classificação indicativa de Campo do Medo é de dezesseis anos, e ele está disponível no serviço Netflix.

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7 MOTIVOS PARA ASSISTIR CORINGA!

Sob a ótica de alguém que não fazia a menor ideia do que esperar do filme…

Comecei a me inteirar sobre o mundo da Marvel e da DC Comics em 2012, quando iniciei um namoro com um nerd assumido, aficionado por Histórias em Quadrinhos (HQ’s). Desde então, sempre fui a todas as estreias como acompanhante, sem ter grande conhecimento acerca das histórias e dos personagens que iriam se apresentar em sagas gigantescas (pelo menos para o meu gosto).

Confesso que em vários filmes eu cheguei até a dormir: “Vingadores: Guerra Infinita” é um exemplo. Mas ao longo desses sete anos, eu nunca – NUN-CA! – achei um filme da DC tão espetacular, intrigante e emocionante, como foi o Coringa (2019), estrelado pelo talentosíssimo ator Joaquin Phoenix.

Talvez eu não seja a pessoa ideal para escrever sobre esse filme se você espera ler uma resenha crítica embasada nas HQ’s. Porém, se assim como eu, você só conhece o Coringa por meio dos filmes do Batman, e está na dúvida se vale a pena ir ao cinema para conferir com os próprios olhos se esse filme é mesmo tudo isso que estão dizendo, então lhe apresentarei alguns motivos para que você dê uma chance para o Coringa te conquistar!

1. CORINGA (2019) É UM FILME EXTREMAMENTE REFLEXIVO

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Talvez possa soar meio “estranho” para alguns, mas esse filme despertou em mim um sentimento de empatia. Arthur Fleck é um homem que aparenta ter pelo menos uns 40 anos. Ele vive com a mãe, Penny Fleck, em um apartamento sombrio e bagunçado, tal qual a personalidade deles. Ela está debilitada, dependendo do auxílio do filho para tarefas básicas, como comer e tomar banho. Ele, por sua vez, é extremamente atencioso e delicado no trato com sua mãe. Um é a companhia do outro, e ambos encontram na TV uma espécie de refúgio e de inspiração.

Arthur, que ganha a vida como palhaço, sonha em ser um comediante de stand-up comedy. Seu grande ídolo é Murray Franklin, apresentador de TV aos moldes do Jô Soares, interpretado por Robert De Niro.

A fixação em se tornar comediante vem desde a infância, pois ele cresceu ouvindo sua mãe dizer que ele veio ao mundo para fazer os outros sorrirem. E, por ironia do destino, Arthur tem uma doença neurológica que o faz rir descontroladamente em situações que o deixam nervoso ou ansioso.

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Achei extremamente tocante a cena em que ele está viajando sozinho dentro de um ônibus e uma criança começa a encará-lo. Com uma inocência pueril, ele começa a brincar com o menino, entretendo-o e garantindo uma risada muito gostosa. Aquele, talvez, tenha sido o único sorriso verdadeiramente espontâneo e sincero que Arthur recebeu em sua vida. A única risada com sentido de alegria, e não de “zombação”.

Mas em meio àquela pequena alegria e satisfação, eis que o pobre homem solitário e renegado pela sociedade recebe um balde de água fria da mãe do menino, como se ele estivesse perturbando a criança ao invés de diverti-la. E então a risada descontrolada toma conta da situação… Mesmo apresentando um cartão que explica sobre sua doença, as pessoas não querem entender/aceitar que ele não se encaixa nos moldes de normalidade impostos pela sociedade.

Esse é apenas um dos exemplos apresentados ao longo do filme que me fizeram refletir sobremaneira como nós, como sociedade, lidamos com pessoas que apresentam alguma necessidade especial.

Será que eu e você compreendemos a singularidade de cada indivíduo, aceitando verdadeiramente suas limitações? Será que estamos preparados para lidar com as diferenças para além do discurso ativista e progressista que muitos apresentam, sobretudo nas redes sociais? O Governo realmente se importa com a saúde pública, favorecendo tratamento digno àqueles que necessitam de assistência contínua?

Não encontraremos no filme as respostas para essas perguntas, mas, definitivamente, somos capazes de buscar enxergar a trama apresentada sob um olhar mais humanizado. E aí Coringa acabará nos dando uma lição de vida sobre saúde mental, demonstrando que, na realidade, a nossa sociedade se encontra tão louca e doente como aqueles que são diagnosticados com problemas neurológicos.

2. A NECESSIDADE DE ACEITAÇÃO E DE BUSCA PELA NORMALIDADE É ENFATIZADA DURANTE TODA A TRAMA

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É possível perceber a cada cena a tentativa de Arthur em ser se encaixar no padrão de normalidade socialmente aceito. Ele, que já passou uma temporada no sanatório, segue se encontrando esporadicamente com uma assistente social, que o faz perguntas frequentes sobre seu estado. Parece que tais encontros não surtem os efeitos esperados, pois ele não consegue “parar de se sentir mal o tempo todo”, mas é graças a eles que os seus sete remédios diários são garantidos.

No trabalho, ele procura fazer o que é sua obrigação, mas todos o tratam como um palhaço louco, estranho, que não tem crédito em suas afirmações. E é assim, colecionando situações insustentáveis a sua condição mental, que Arthur vai se perturbando e se transformando cada vez mais em um ser frio, magro, insensível a dor alheia e sem a menor graça.

São pequenas situações, somadas dia a dia, que fazem com que esse homem depressivo, que tenta com seus próprios braços alcançar a felicidade, acabe encontrando outras formas de expressar suas insatisfações e frustrações.

Não seria isso o que acontece com tantas pessoas que, diariamente, expressam gritos de socorro velados, disfarçados em frases ou ações que passam despercebidos ou, pior, são banalizados?

Acredito que se você assistir a esse filme pensando não no conhecido e até mesmo caricato vilão de Gotham City, mas sim na transformação do homem comum, doente, excluído e incompreendido, que se torna a principal ameaça a ser combatida pelo Homem-Morcego, então você perceberá que corremos o risco de ter muitos Arthurs em nosso meio, que só precisam que seja acionado um gatilho mental para se transformar no sociopata Coringa…

3. O DIÁRIO DE ARTHUR É TRADUZIDO EM PORTUGUÊS

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Uma coisa que eu achei sensacional nesse filme foi a tradução do diário do Arthur em Português. Assisti ao filme dublado e esperava que nas cenas em que aparecem as páginas do seu diário (que também serve de anotação de ideias para seu futuro show de stand-up), as frases fossem aparecer em Inglês, traduzidas em forma de legenda, para o nosso idioma. Porém, o que vemos são as páginas escritas em Português.

O que isso tem de tão interessante? Ao meu ver, pareceu bem mais realista. E para um bom observador, aquelas páginas já indicavam traços de toda a confusão mental do personagem, cheia de rasuras, palavras escritas com erros gráficos, rabiscos e afins. Se mais alguém teve o interesse em tentar ler o que estava escrito, certamente identificou uma das frases mais impactantes do filme: “a pior parte de ter uma doença mental é que as pessoas esperam que você se comporte como se não tivesse”.

4. O FILME NÃO É REPLETO DE EFEITOS ESPECIAIS

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Para alguém que há sete anos está assistindo filmes de heróis e de vilões cheio de ação e de efeitos especiais, com muito barulho de tiro, p* e bomba, o filme Coringa foi um deleite! Nada de efeitos, nada de barulho, muito pelo contrário: que trilha sonora maravilhosa!

A interpretação de Joaquin Phoenix é brilhante, magnífica, conseguindo demonstrar durante suas crises de riso o quanto aquele gesto estava, na realidade, inundado de drama, de dor e de lágrimas. Uma observação mais atenta é capaz de captar nitidamente que apesar do sorriso na cara, o olhar demonstrava total tristeza, um pedido de socorro sempre eminente, mas nunca atendido.

Fico me perguntando como Phoenix conseguiu, com tanta maestria, associar sentimentos tão distintos ao mesmo tempo… Suas danças são um show à parte! Na mesma hora eu lembrei do Ney Matogrosso. Todas as danças são embaladas com músicas super pertinentes e agradáveis de se ouvir, contrastando com as cenas que de agradáveis não têm nada.

5. O CORPO FALA

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A expressão corporal do ator, especialmente durante as danças e as crises de riso, demonstra o quanto o corpo fala, o quanto o corpo grita, mas que para interpretá-lo, é necessário se despir de preconceitos em busca de toda a subjetividade que carregamos nesse conjunto de ossos e músculos que, para alguns, é uma máquina orgânica, mas que essencialmente, é a tradução do que somos no mundo.

Se tomássemos posse de que não temos um corpo, mas que somos um corpo, seria bem mais fácil detectar que as expressões dizem muito sobre quem somos e quem podemos nos tornar se não temos a dignidade que todo ser humano merece.

6. SOBRE A VIOLÊNCIA

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Eu quase não assisti ao Coringa nos cinemas por ter ouvido muita gente falar que o filme era extremamente violento. A classificação etária é de dezesseis anos e eu concordei plenamente que tenha sido determinada assim. Achei um absurdo encontrar crianças com cerca de dez anos na minha sessão. Fico me perguntando o que há na cabeça de pais que não respeitam a classificação indicativa de filmes, pois, definitivamente, este é um filme para adultos.

E ainda diria mais: este é um filme para adultos que querem assistir uma trama envolvente, e não caricata. Que esperam descobrir a origem e a transformação de um homem que se torna um vilão emerso da sombria e desigual Gotham City, e não apenas a história do Palhaço do Crime quem tem cabelo verde e um sorriso escancarado. Mas enfim, comentários à parte, voltemos ao ponto principal: a violência presente nessa preciosidade de filme.

Primeiramente, as cenas de violência em Coringa são fichinhas frente às de Logan (2017) ou Deadpool (2016). Existem cenas pesadas? Sim. Mas são infinitamente mais leves que as dos filmes supracitados. Diria até que só existe uma cena que realmente é bem sanguinolenta. As demais já são comuns em séries bem populares na Netflix.

Para quem já assistiu Narcos, Orange Is the New Black ou Vis a Vis, as cenas de Coringa não irão surpreender ao ponto de serem “intragáveis”. Penso que em Vis a Vis, por exemplo, o requinte de crueldade do psiquiatra (ou seria psicopata?) Sandoval é muito mais impactante.

Mas no meio disso tudo, o que mais me admirou é que justamente na cena mais violenta, em que quase foi possível respingar sangue na plateia, foi o momento em que todos riram. Que loucura!

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Depois da morte de sua mãe, Arthur volta para casa e inicia seu processo de maquiagem como palhaço, assumindo, definitivamente, sua versão assassina. Ele é convidado a ir ao seu tão querido programa de TV, tendo a oportunidade de conhecer seu grande ídolo Murray Franklin, e, por isso, resolve se caracterizar dessa forma.

Cabe dizer que participar desse programa era um grande sonho, mas não sob as circunstâncias apresentadas: Arthur só é convidado porque um trecho da sua apresentação de stand-up foi passado no programa, de forma banalizada, sem sua autorização. Devido ao aumento da audiência, resolvem chamá-lo para participar ao vivo, e com isso ele vê a chance de mostrar ao mundo sua verdadeira personalidade. É aí que ele percebe que, no fundo, sua vida, que sempre foi uma tragédia, na realidade estava sendo vista pelo mundo como uma grande piada.

Porém, antes de sair de casa para tal compromisso, ele recebe a visita de dois ex-colegas de trabalho, devido ao falecimento de sua mãe. Um deles é quem lhe deu a arma utilizada em seu primeiro crime, o outro, um anão que sempre lhe tratou muito bem. Para se vingar daquele que, ainda que indiretamente, favoreceu sua entrada no mundo do crime, Arthur pega uma tesoura e mata o homem com golpes letais em várias partes do corpo.

O anão presencia tudo, e quando ele abre a boca para questionar o porquê daquilo tudo, é quando a plateia começa a rir, pois a cena foi friamente calculada para ter esse tom sarcástico, cômico, ainda que numa situação extremamente trágica. Foi então que fiquei me perguntando como nós pudemos rir depois daquele crime horrível, como foi possível que a morte tenha sido tão banalizada.

Daí pra frente, vemos a transformação de uma pessoa com problemas mentais que, estando sem seus remédios e sofrendo uma enxurrada de agressões, decepções e revelações imprevisíveis, vai se tornando um homem frio, agressivo e calculista. Que sofre uma metamorfose profunda, compreendendo, enfim, sua personalidade, e nos revelando que, como diz o ditado, de médico e louco, todo mundo tem um pouco.

7.  SOBRE A LUTA DE CLASSES

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É interessante perceber como surge uma mobilização política crescente em Gotham City ao mesmo tempo em que a vida de Arthur parece decair cada vez mais. Seus crimes acabam sendo a motivação para uma revolução dos menos favorecidos, que já não aguentam mais viver em uma cidade em que os ricos têm espaço e os pobres não.

Chega a ser meio “assustador” pensar que em nossa sociedade isso não é muito diferente. Quantos são aqueles que se identificam com os que matam, que fazem justiça com as próprias mãos?

É triste constatar que, infelizmente, Arthur só foi visto pela sociedade quando ele se transformou num psicopata. De certa forma, ele só foi querido e admirado por muitos depois que seus atos extremos foram reconhecidos como algo motivador para uma resposta agressiva do povo, que viu nesse contexto a oportunidade perfeita para incendiar a cidade em busca de melhores condições de vida.

CONCLUSÃO

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Espero que com a análise desses sete pontos você tenha sentido curiosidade em tirar as suas próprias conclusões acerca desse personagem que conseguiu me cativar. A atuação do Joaquin Phoenix foi impecável, tal qual a direção de Todd Phillips. Eles certamente receberão algumas estatuetas por esse filme que, na minha opinião, pode ser considerado como o filme do ano. Sem dúvida, o melhor filme da DC. Vale a pena conferir!

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CORINGA (CRÍTICA)

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Coringa gira em torno de uma origem para o icônico arqui-inimigo do Batman, herói clássico da DC Comics. Desde sua primeira aparição lá pelos anos 1940, o vilão foi intensamente revisitado e muitos atores o viveram: Cesar Romero (na série clássica dos ano 1960), Mark Hamill, o eterno Luke Skywalker que o dublou em Batman: The Animated Series, Jack Nicholson (Batman, 1989), o vencedor do Oscar póstumo Heath Legder (O Cavaleiro das Trevas, 2008) e o fiasco de Jared Leto (Esquadrão Suicida, 2016).

Todavia esta é uma história original e independente, nunca vista antes na tela grande. A exploração de Arthur Fleck (Joaquin Phoenix) por Todd Phillips, é a de um homem desconsiderado pela sociedade. Não é apenas um estudo de caráter corajoso, mas também um conto de advertência mais amplo para os perigos do isolamento, da solidão e da invisibilidade social. Ao acompanhar a trajetória de Arthur Fleck, um homem esquecido pela sociedade, investigamos até que ponto o palhaço de Gotham City é fruto da incapacidade de todos nós de acolhermos o outro.

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Título original: Joker
Direção: Todd Phillips
Roteiro: Todd Phillips, Scott Silver
Duração: 2h 1min
Lançamento: 03 de outubro de 2019, no Brasil

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Elenco: Joaquin Phoenix (Arthur Fleck/Coringa), Robert De Niro (Murray Franklin), Zazie Beetz (Sophie Dumond), Frances Conroy (Penny Fleck), Brett Cullen (Thomas Wayne)

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A VIDA É UM TEATRO DO ABSURDO
Não é um filme de herói. Não espere um filme caricato e colorido como se saltasse dos quadrinhos. Não. É um filme sobre loucura, sobre ser invisível no mundo e uma investigação da insanidade por parte do próprio louco. Na moda atual de criar filmes sobre vilões (como Esquadrão Suicida, 2016; e Venom, 2018) ou sobre anti-heróis (Deadpool, 2016; e Logan, 2017 ), Coringa nos brinda com uma releitura adulta de um dos vilões mais conhecidos das Histórias em Quadrinhos (HQs). É uma história de origem que nos lembra muito a versão de Alan Moore, mas somente na abordagem psicológica; como também a de Christopher Nolan (O Cavaleiro das Trevas, 2008) eternizado por Heath Legde, também amigo de Joaquin Phoenix, o vilão deste longa. Mas as semelhanças param por aí. O Coringa de Joaquin oscila entre o riso, o choro e o grito contido daqueles que, em sociedade, nunca são ouvidos.

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Conhecemos, então, a história de Arthur Fleck, em reabilitação após uma temporada no sanatório, diagnosticado com problemas cerebrais e com uma ideia fixa plantada por sua mãe: que ele nascera para fazer o mundo rir. Joaquin Phoenix, ao falar sobre Arthur, define o personagem como “um cara que busca uma identidade que por engano se torna um símbolo. Seu objetivo é genuinamente fazer as pessoas rirem e trazer alegria ao mundo”.

“Quando eu era menino e dizia às pessoas que seria comediante, todo mundo ria de mim. Bem, ninguém está rindo agora”

Desta forma, Arthur Fleck ganha a vida sendo palhaço, ora como garoto propaganda nas calçadas, ora como animador em hospital no maior estilo Path Adams de Robin Wiliams. Alterna com suas idas à assistência social e seus cuidados para com a mãe. Nas horas vagas, escreve um diário e rascunha, toma notas para compor seu próprio stand-up, seja assistindo a outros comediantes, seja vendo o programa de Murray Franklin, seu grande ídolo.

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Com uma fotografia que lembra muito Taxi Driver (1976), o que vemos desfilar pela tela não é uma Gotham City atual ou futurística. O intensamente magro, esquelético Coringa tenta sobreviver à cidade opressiva da década de 1980. Gotham é violenta nas pequenas coisas: na paisagem deteriorada, na elite (aqui representada pela família Wayne) que vive melhor que a população comum, no trato humano diário e tantas outras instâncias da sociedade. E a cidade ao mesmo tempo que não enxerga, não perdoa àqueles que não se enquadram nos padrões. A atriz Zazie Beetz, que já vivera a heroína Dominó (Deadpool 2, 2018), afirma sobre o Coringa:

“É uma espécie de empatia em relação ao isolamento”, disse Beetz, “e uma empatia em relação ao que é nosso dever como sociedade, de abordar as pessoas que escapam de alguma maneira pelas brechas. Há muita cultura disso no momento. Por isso, empatia ou apenas uma observação sobre personalidades que lutam?”

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Quanto a Arthur Fleck, não é o simples vilão que enlouqueceu caindo em recipiente de produtos químicos. Lá nas HQs, a Origem do Coringa, faz com que sua peles esbranquiçada seja fruto da deterioração cerebral causada pelos produtos da Indústria Ace. O Coringa se pinta e se veste de palhaço. Ele protagoniza sua composição que evidencia sua insanidade.

A maquiagem do Coringa é muito parecida com a de John Wayne Gacy, um verdadeiro serial killer que costumava entreter crianças enquanto estava vestido como Pogo, o Palhaço. Um estilo de maquiagem que foi evitado pelos palhaços que trabalhavam na época, pois proibiam estritamente pontas “afiadas” na composição, como aparece nos olhos, pois isso assustava às crianças.

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O palhaço tão pouco é mero reflexo do heroísmo do Batman, mas sim do poder da família Wayne. Sua loucura é herdada, sua loucura é fruto de agressão, sua loucura é fisiológica, sua loucura é a não aceitação. Assim o vilão sintetiza tantas causas para a falta da sanidade que, em uma sociedade insana, acaba sendo o gatilho para a barbárie.

Mas se você olhar com atenção, ainda encontrará aquelas referências aos quadrinhos como a fixação do vilão pelos holofotes, prenunciada desde 1940 (Bob Kane) com sua aparição no rádio ou em 2005, na sua obsessão pela TV (Ed Brubaker). Lançará alguma luz sobre a origem do Batman, no entanto, já avisamos, é um filme cujo protagonista é o Coringa, o bobo da corte que de uma hora para outra pode desestabilizar o sistema.

CONCLUSÃO: Eis a questão…
Se você se pergunta se é um longa-metragem que merece ser assistido, digo que não. Merece ser degustado. A trilha sonora, pontual e complementar ao enredo, com a presença de “Smile” (composta por Chaplin para Tempos Modernos, 1936); e “Send the clowns” de Frank Sinatra, encaixam-se perfeitamente no enredo. Ainda, pelo aspecto sonoro, a risada frenética quebra esse momentos de lirismo e a seriedade de certas cenas, contudo não de um jeito cômico. É uma risada, mescla de choro, que não diverte, mas que causa nervoso. O riso de nervoso de Joaquim Phoenix é a vírgula, é o eco do silêncio e é o ponto final. O diretor descreveu para Phoenix como “algo quase doloroso, parte dele que está tentando emergir” e o resultado ficou surpreendente.

Por isso não espere aqui que a história desse filme se alinhe com os novos planos da DC para o Batman interpretado por Robert Pattinson. “Não vejo o Coringa se conectando a nada no futuro”, disse o diretor Todd Phillips. E completa: “Este é apenas um filme.” E nisso concordamos. Coringa é um filme único e não merece continuação porque é uma obra totalmente acabada em si mesmo, mas com questões imperecíveis.

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SOMBRA LUNAR – FILME DA NETFLIX (CRÍTICA)

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SINOPSE
Thomas Lockhart é um policial comum da Filadélfia, mas está determinado em ser um detetive. Pró ativo, está sempre quebrando protocolos hierárquicos e tomando frente nas investigações além de suas atribuições. Numa certa noite recebe o chamado de uma ocorrência, e ele com seu parceiro, Maddox, chegam mais rápido que o detetive responsável. Locke, como Thomas é apelidado, é um ótimo observador, e logo compreende como aquela morte ocorreu. Um acidente de ônibus onde aparentemente a motorista teve um derrame, e veio perder o controle não era exatamente o que parecia ser, e logo toda a polícia local parte na busca de um misterioso serial killer responsável por essa e outras várias mortes.

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COMENTÁRIOS
Sombra Lunar (In the Shadow of the Moon, 2019) inicia propondo um filme policial de mistério, mas assim como os materiais promocionais se adiantam em revelar, se trata também de uma ficção científica. Característica essa que no meu entendimento deveria ser ocultada nos materiais de divulgação, enfim. O plot é direto e reto, te inserindo em intrincadas investigações e frenéticas perseguições. O roteiro começa bem mas não consegue manter um ritmo interessante após o primeiro arco, tornando o desenvolvimento repetitivo e arrastado. Recupera um pouco o fôlego próximo à sua conclusão, mas após tanta lentidão e falta de desenvolvimento de certos personagens apresentados, já se torna um pouco desgastado.

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Na busca de uma resolução para alcançar aquele serial killer, Locke transporta a narrativa para um tom de suspense e drama, no qual por conta de sua obsessão em solucionar o caso, vai se transformando numa pessoa cada vez mais paranoica. Temos então essa interessante construção de personagem, qual considero o ponto alto do filme. Boyd Holbrook está bastante inspirado em dar vida ao policial traumatizado que se perde no tempo de suas internas caçadas por realidade.

A produção é competente e entrega um filme agradável visualmente, com boas locações, bonitas cenas aéreas e um trabalho de contra regra impecável. A trilha sonora também faz bonito, criando uma atmosfera densa e caótica que se mistura ao conceito visual tornando tudo bastante homogêneo e real. No fim das contas eu fiquei dividido e sem saber dar um decreto final, o roteiro verdadeiramente me incomodou, mas a experiência conceitual, principalmente se tratando das transições estéticas, me surpreenderam bastante.

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FINAL EXPLICADO (SPOILERS)
Após as várias repetições de perseguições, ficamos na expectativa de uma explicação satisfatória do motivo de sua neta voltar no tempo para eliminar certos personagens. Rya consegue voltar no tempo em ciclos de nove anos, quando a Lua está mais próxima da Terra, na conhecida como ‘Lua de Sangue’, instante onde há uma alteração magnética que permite uma máquina do tempo levá-la ao passado. Seu objetivo é impedir o movimento de supremacistas brancos conhecido como True America Movement, que em 2024 bombardeou a Filadélfia iniciando uma guerra civil americana.

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Rya utiliza uma injeção, que serve para inserir cápsulas no pescoço dos membros do movimento supremacista, e que serão ativadas no futuro pelo Dr. Naveen Rao, também responsável pela construção da máquina do tempo. As viagens são limitadas aos períodos de Lua de Sangue, e devido a Locke ter matado acidentalmente Rya em 1988 no incidente do metrô, os dois ficaram limitados aos ciclos lunares posteriores. Locke então compreende que matou a própria neta e ainda complicou sua causa, porém ela ainda tinha aquele ciclo para concluir sua missão e salvar o futuro.

Reflexões surgem e é compreendido que a morte da sua esposa em troca da vida de sua filha, possibilitou que mais a frente Rya pudesse existir. Seu luto que durava anos se torna mais leve, e num recomeço ele consegue o perdão dos amigos, família e, conclui sua história com a neta no colo.

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ELENCO E FICHA TÉCNICA
Boyd Holbrook, Cleopatra Coleman, Bokeem Woodbine, Rudi Dharmalingam, Rachel Keller e Michael C. Hall compõem o elenco. A produção norte americana foi escrita por Gregory Weidman e Geoff Tock, e dirigida por Jim Mickle. Produzido por Brian Kavanaugh-Jones, Ben Pugh, Rian Cahill, Linda Moran e Jim Mickle, o longa de 2019 é distribuído pelo serviço Netflix.

CONCLUSÃO
Sombra Lunar é um filme com aspectos interessantes, embora vendido como um policial com elementos de ficção científica, consegue explorar muito bem o drama. Uma produção coesa com excelente estética visual e sonora, que traz um elenco muito bem afinado. A obra tem sim suas falhas, mas nada que comprometa a experiência final. Particularmente considerei o ritmo um pouco lento, até repetitivo do meio até próximo ao final, no entanto é bem possível que isso não seja notado e nem incomode muita gente. O longa exclusivo da Netflix já está disponível, e certamente vai agradar fãs de sci-fi e mistério. Bom filme!

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OS JOVENS BAUMANN (CRÍTICA)

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COMENTÁRIOS
O cinema brasileiro nos últimos tempos tem se debruçado principalmente nas comédias, dramas e, até mesmo, um pouco de ação. Foi devido a essa realidade entediante que, ao assistir o trailer de Os Jovens Baumann, resolvi apreciar esse suspense com ares de documentários no estilo Bruxa de Blair (1999). Para minha sorte não pude ficar indiferente.

Em 1992, oito primos da maior família de uma cidadezinha de Minas Gerais chamada Santa Rita do Oeste somem misteriosamente na fazenda na qual passavam as férias. É por meio das fitas VHS encontradas muito tempo depois que é dado o teor da narrativa.

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As filmagens são de cenas cotidianas de jovens de férias. A técnica é amadora e as cores, já desbotadas, são um retrato da década de 1990. Os primos brincam, nadam, exploram e apreciam a natureza de maneira trivial e ao mesmo tempo tensa. A impressão é que a qualquer momento poderemos ter alguma pista sobre o mistério que ronda a história.

A narradora (Isabela Mariotto) alterna entre imagens do local atualmente e as do período do sumiço. É esta nostalgia que permeia o filme e com esse sentimento que ela percebe como o caso foi sendo esquecido durante todos estes anos.

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A imagem dos primos são como fantasmas: pouco se sabe sobre cada um, os nomes são ditos a ermo. É como se não fosse importante para o espectador saber a identidade de cada um já que foram esquecidos em um passado distante. Assim, já no fim de 1992, ninguém mais tinha interesse em saber o que aconteceu com a última geração da Família Baumann. Isso tudo já não mais importava.

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ELENCO E FICHA TÉCNICA
Julio Barga, Cainã Vidor, Marília Fabbro de Moraes, Eduardo Azevedo, Anna Santos, Daniel Mazzarolo, Julia Burnier, Isabela Mariotto, Julia Moretti compõem o elenco. O filme é roteirizado por Bruna Carvalho Almeida, Larissa Kurata e dirigido por Bruna Carvalho Almeida. A produção ficou por conta de Julia Alves, Michael Wahrmann, Ana Júlia Travia e Eduardo Azevedo, e as composições musicais por Luis Felipe Labaki. A produção é distribuída internacionalmente pela Sancho&Punta, e Vitrine Filmes no Brasil.

CONCLUSÃO
Ao meu ver, vale assistir “Os Jovens Baumann”, pois além de ser um tipo de filme pouco explorado no terreno nacional, é uma obra para repensar a questão de como muitos mistérios, no final de tudo, nunca possuirão uma explicação. O longa lançado em 2019 está disponível no YouTube, e na Google Play Filmes.

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“YESTERDAY” E OS BEATLES NO CINEMA (CRÍTICA)

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Desde a primeira aparição do Beatles na TV americana, em 9 de fevereiro de 1964, na época programa de Ed Sullivan, no qual entre as canções mostrava-se dados biográficos do então jovens prodígios, a banda inglesa expandiu e conquistou tanto o mercado estadunidense, como também o mundo. Naquela playlist já constavam sucessos inesquecíveis como All My Loving, Till There Was You, She Loves You, I Saw Her Standing There e a icônica I Want to Hold Your Hand.

Imaginar a história da música, quiçá do mundo, sem a presença da banda Liverpool seria algo impensável, mas não para o diretor Danny Boyle, vencedor do Oscar 2008 (Quem quer ser um milionário?). 

Está é a premissa do enredo do filme Yesterday (2019): depois de um apagão em escala mundial, a existência dos Beatles é deletada da história humana, exceto para algumas pessoas, entre elas: Jack Malik. Mesmo com todos os esforços de sua amiga e produtora Ellie Appleton, sua carreira ia de mal a pior. Não é visto com seriedade pelos amigos e nem pela família. Somente Ellie, que nunca esquecera da performance de Jack fazendo cover de Wonderwall do Oasis em um concurso da escola quando era criança, parece acreditar no talento do rapaz. Até que a vida de Jack muda após um acidente de bicicleta.

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Título original: Yesterday
Direção:
Danny Boyle
Roteiro:
Jack Barth, Richard Curtis
Duração:
1h 56min
Lançamento:
29 de agosto de 2019

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Elenco: Himesh Patel (Jack Malik), Lily James (Ellie Appleton), Sophia Di Martino (Carol), Joel Fry (Rocky) e Ed Sheeran (Ed Sheeran).

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BEATLES E MICHAEL JACKSON?
Qualquer fã da banda sabe que ter as músicas da banda de Liverpool no cinema ou em qualquer obra artística era, até certo tempo atrás, uma raridade. Parte desse problema se deve justamente ao fato de nada mais, nada menos, do que Michael Jackson era o dono dos direitos autorais das músicas dos Beatles.

Na década de 1980 muitos empresários com o ideal de fundar um grande conglomerado de entretenimento acabaram por criar uma organização: a Michael Jackson, Inc. Esta empresa acabou por adquirir a ATV, empresa que hospedava o catálogo musical dos Beatles. Entre as obras, a empresa detinha os direitos autorais da maioria dos maiores sucessos da banda, incluindo “Yesterday”, “Come Together”, “Hey Jude”, e muitas outras.

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Depois do próprio Paul McCartney e Yoko Ono abdicarem de comprar o catálogo simplesmente porque o rei do pop ansiava por ele, alguns meses mais tarde Michael Jackson comprou a ATV por um preço de 47,5 milhões dólares. Hoje, a Sony/ATV, que detém os selos de cantores como Taylor Swift e Eminem, vale cerca de US$ 2 bilhões. Para Joe Jackson, embora pudesse comprar facilmente o catálogo, o comportamento de McCartney era justificável:

“O comportamento de Paul foi muito, muito mais estruturado financeiramente. A única razão para Michael comprar o catálogo era porque estava à venda! Paul McCartney e Yoko poderiam ter comprado, mas não quiseram.”

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Já para Martin Bandier, o diretor-executivo Sony/ATV Music Publishing, havia também uma explicação para a falta de vontade de McCartney: “Eu nunca pensei que Paul McCartney iria comprá-lo, porque é muito difícil para um criador comprar o que é seu. Seria como Picasso passar um dia fazendo uma pintura, para comprá-la, vinte anos, depois por US $ 5 milhões. Não seria uma coisa que Paul faria.”

O fato é que por muito tempo, era quase impossível usar o acervo dos Beatles seja em outras obras artísticas, seja em peças publicitárias. Isso só passou a mudar a partir de 2008 quando houve a abertura para uso em publicidade. Mesmo não precisando do aval do integrantes ainda vivos da banda, Bandier acreditava que havia uma “obrigação moral” de analisar o uso dos catálogos com McCartney, Starr, Yoko Ono (viúva de Lennon) e a família de George Harrison (que morreu em 2001).

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BEATLES NO CINEMA
Um marco para o uso de canções da Beatles no cinema é sem dúvida o longa-metragem de Jessie Nelson, I am Sam (2001), que por aqui recebeu o título açucarado de Uma lição de amor. Neste filme que premiou com os Oscar de melhor ator Sean Penn, conta a história de Sam, uma homem com atraso intelectual (uma mente de uma criança de 7 anos), que com ajuda de outros deficientes cuida de sua filhinha Lucy Diamonds (Lucy in the sky with the diamonds). Há cenas que remetem à Abbey Road, citações feitas pelo protagonistas de frases de Lennon e McCartney e, claro, as diversas músicas dos Beatles interpretadas por covers. São ao todo 19 versões que contam com as vozes de Ben Harper, Wallflowers, Stereophonics e Sheryl Crown. Uma saída inteligente, pois na época  era algo extremamente raro ter documentários, filmes ou clipes desde que Michael Jackson adquirira os direitos autorais da banda na década de 1980.

Usar a obra dos Beatles como fio condutor de uma trama inteira foi a proposta de Across the Universe (2007) de Julie Taymor. O casal protagonista Jude e Lucy, nomes retirados das canções da banda inglesa, vivem toda sua história de amor, ambientada pela músicas dos Beetles, no período de contracultura, da psicodelia e protestos contra a Guerra do Vietnã da década de 1960. Época tão bem retratada no documentário 1967: O verão do amor (2017).

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UM TRILHA FANTÁSTICA, UMA HISTÓRIA PREVISÍVEL
Longe de ser uma obra-prima, Yesterday tem uma história simples e comum para uma comédia romântica. O longa parte de um acontecimento fantástico, um apagão em escala mundial que parece ter sido provocado por uma erupção solar (como se pesca de uma manchete de jornal). Isso causa uma reviravolta na vida do aspirante a cantor, Jack Malik. Um looser (perdedor) em todos os sentidos da palavra. Sempre auxiliado pela carismática e linda Ellie, professora de matemática e produtora amadora que vive uma friendzone e reprime seus sentimentos por Jack.

A ideia de um cantor que terá que escolher entre o amor e o sucesso musical está na raiz de filmes como Rock Star (2001), com Mark Wahlberg interpretando um vocalista de rock anos 80; ou Nasce uma Estrela (2018), com a Lady Gaga. Ou seja, é um tema batido. O que chama a atenção, claro é vasto uso do Beatles como pano de fundo da trama.

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A partir blackout mundial, Jack se vê como a memória da existência dos Beatles. Por mais que mais duas pessoas, no enredo, lembrem-se da existência da banda inglesa, somente Jack tem o talento para cantar e tocar as músicas. Nesta realidade, John Lennon não morreu em um atentado: vive uma vida pacata a beira do mar, alheio à música. Nesta realidade Oasis (banda influenciada pelos Beatles) não existe, assim como a Coca-Cola (só a Pepsi, em um merchã escandaloso) e Harry Potter.

Então, auxiliado por Ellie (no início) e pelo cantor Ed Sheeran (que interpreta ele mesmo), Jack se torna uma celebridade na Internet, abre turnês, vai a shows de entrevista, faz tudo que sua empresária chique Carol lhe ordena.

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No final, ele escolhe uma vida simples ao lado de sua admiradora de infância. O mundo não volta ao normal (juro que esperei isso). As músicas da banda são doadas gratuitamente e Jack abdica de lucrar com uma arte que nunca foi sua. Volta a ser professor e constitui família em um final simples que agradará ao noveleiro mais aficionado.

QUATRO CURIOSIDADES (entre tantos easter eggs)

  1. 064_10No filme, Jack foi atingido quando estava de bicicleta, quebrou os dentes da frente e feriu os lábios. Isso realmente aconteceu com Paul McCartney em 1966 que caiu do ciclomotor e lascou um dente da frente em Liverpool. 
  2. 064_11Legalmente, os cineastas precisavam apenas da permissão da Sony ATV para usar as músicas dos Beatles, sendo a Sony detentora dos direitos de publicação. Em princípio, eles também buscaram as bênçãos de Paul McCartney, Ringo Starr, Yoko Ono e Olivia Harrison para o filme. Assim os Beatles não tiveram contribuição criativa, exceto pela aprovação de seu repertório para uso no filme.
  3. 064_12A história original do filme foi escrita por Jack Barth. Nela tudo era muito mais sombrio, com o protagonista lutando como músico na nova linha do tempo e a premissa do universo alternativo explorada com mais profundidade. Quando Richard Curtis reescreveu, ele fez o tom muito mais alegre, colocou menos ênfase na premissa de uma nova linha do tempo sem os Beatles e mais foco no romance entre Jack e Ellie.
  4. 064_13Alguns dos personagens têm seus nomes inspirados nas músicas dos Beatles: Rocky, o roady temporário, é nomeado por causa de “Rocky Raccoon”; Ellie,  é nomeada em homenagem a  “Eleanor Rigby” (a única música que Jack tem dificuldade de lembrar); e a colega de quarto de Ellie, Lucy, claramente, “Lucy in the sky with the diamonds”.

CONCLUSÃO: TODAY, ASSISTA!
Yesterday não é a última bolacha (ou biscoito) do pacote no que se refere a uma comédia romântica ou mesmo de tributo musical. A história é leve, sem vilões, pois nem Jack Malik é um mal caráter. Ele é um sonhador e se deixará levar pelos rumos dos acontecimentos. Uma salva de palmas para Ellie (Lily James) que é aquela mocinha fofa e apaixonada e de sorriso cativante, a melhor em cena.

Se o leitor nerd deseja um filme leve e é fã dos Beatles, cantará do início ao fim as músicas do grupo, mesmo com a desafinada de Help durante o show de lançamento de Jack (embora o ator, Hamish Patel tenha feito aula de canto e violão). Para além das piadas bem colocadas e em momentos precisos, vai até esquecer que Ed Sheeran não é lá um ator, mas vale pelo desconcerto do rapaz em frente as telas na sua “amizade” com o protagonista. Veja o longa de Boyle como distração de um dia estressante. Afinal não deixe para Yesterday o que pode fazer Today. Essa foi muito ruim! Fui galera!

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IT: A COISA – CAPÍTULO 2 (CRÍTICA)

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SINOPSE
Haviam se passado vinte e sete anos desde os eventos onde Pennywise trazia caos e morte às crianças de Berry. Quando Mike, o único a continuar morando na cidade, nota os mesmos padrões voltarem a se repetir. Se apegando na confiança da promessa feita entre os membros do Clube dos Otários, o agora homem formado, contacta amigo por amigo explicando que era o momento de voltarem à Berry. A profecia de que Pennywise retornaria foi cumprida e, assim que compreendem a gravidade da coisa, Bill, Stanley, Baverly, Richie, Ben e Eddie, percebem que precisarão lidar com traumas da infância que nunca foram resolvidos.

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COMENTÁRIOS
Diferentemente da primeira parte, It: A Coisa – Capítulo 2, tem bem mais conteúdo para contar, relembrar e explicar. Essa tamanha quantidade de informações complexas que compõem o universo criado por Stephen King, não apenas envolve fatos a serem alinhados num roteiro, mas sim esmiuçar gatilhos de sete perfis psicológicos, relacioná-los, e ter ao fim, tudo posto à mesa, para enfim criar uma conclusão. Como revés, temos um roteiro que causa confusão e, até cansaço no público que se acostumou com o script mais direto da primeira parte. Os 170 minutos do longa são percebidos justamente pelo ritmo lento dos arcos que apresentam flashbacks da infância, e também de alguns momentos do passado que não haviam entrado no episódio anterior.

Assim como no filme de 2017, a obra ainda consegue espaço de encaixar discussões contemporâneas. Se antes a violência do bullying era o principal material de abordagem, agora é a homofobia, uma amostra das doenças de uma sociedade ultrapassada e sem empatia. A coisa é tão grave, que a exposição do assunto trouxe cochichos e comentários ignorantes no cinema onde assisti, quando na cena de abertura (portanto não considero spoiler), um casal de jovens homens se beijam enquanto se divertem num parque. As piadinhas preconceituosas da audiência ignorante foram silenciadas, quando esse mesmo casal é brutalmente espancado por um grupo de personagens covardes, com quais duvido muito eles não terem se identificado. Certamente isso causou um misto de vergonha e desconforto. Quem disse que um filme de terror onde um palhaço assassino que desmembra criancinhas não tem algo a ensinar? Fenomenal, um tapa na cara com inteligência e estilo!

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REFLEXÕES COM MUITOS SPOILERS
Essa conclusão é particular, mas o que entendo, é que o palhaço Pennywise, ainda quando um humano, era um artista frustrado e sem reconhecimento. Esse sentimento de não ser valorizado, somado à uma grave psicopatia, serviu de molde para a entidade cósmica que hibernava na Terra desde tempos remotos. Nos estudos de Mike não é revelado uma literalidade de atos nefastos como os ocorridos em Derry, talvez algo sim tenha acontecido com o uso da consciência de algum nativo Shipkwa, uma vez que elaboraram a armadilha do Ritual de Chüd com o fim de aprisionar ou eliminar a entidade. Necessariamente ‘A Coisa’ trabalha como um vírus, que potencializa medos criando ilusões concretas capaz de ferir fisicamente suas vítimas. Seria o toque? O ar? Talvez isso não importe e nem mesmo Stephen King tenha a explicação, no entanto todas as crianças em algum grau foram expostas à entidade. E ainda levanto uma teoria, admito, sem muita base, mas seriam o restante dos moradores da cidade, bem como os pais das sete crianças, também afetados pelo vírus? Ao meu ver isso explicaria a falta de urgência dos habitantes e os problemáticos e negligentes pais.

Sendo assim concluímos que todos os envolvidos não passam de vítimas de seus próprios medos, e isso de certa maneira inclui Pennywise, que após o contato com a entidade alienígena, desenvolveram cada um a sua própria forma de paranoia. Porém o simples fato de Bill, Baverly, Ben, Eddie, Stanley e Richie terem abandonado a cidade de Berry, fez com que eles criassem um bloqueio de uma série de episódios da infância, e o retorno vinte e sete anos depois causava bastante confusão.

  • 061_03BILL por um infortúnio da vida escolheu não ir brincar na chuva com o irmão por ‘um único dia’, fazendo com que essa escolha tivesse pesado em sua consciência na forma de culpa após sua morte. Apenas quando ele entende e aceita que aquela autoflagelação não fazia sentindo e, que seu pequeno irmão jamais o culparia, ele se liberta da dor se tornando uma pessoa mais capaz. Isso refletia na sua vida fora de Berry, uma vez que era um escritor incapaz de fazer boas conclusões para suas histórias. Vale lembrar que essa situação do homem escritor, é uma brincadeira com o próprio Stephen King, que é considerado por muitos um autor de desfechos ruins. O que na minha opinião é uma completa injustiça, visto sua vasta coleção de trabalhos.
  • 061_04BEVERLY talvez seja a personagem que carregava as cicatrizes mais pesadas. O trauma por ter sido molestada sexualmente por um pai doentio, que além dos crimes incestuosos e de pedofilia, ainda alimentava a culpa na própria filha pela morte de sua esposa. Mesmo com esse fardo do tamanho do mundo, ainda se mantinha durona. Porém conforme avançava na vida adulta, foi se cansando e se tornando uma mulher mais fragilizada. Sempre com péssimas escolhas para o relacionamento e levando uma vida sem muitas expectativas. O momento onde se liberta das amarras de dor, é quando percebe a verdade sobre uma crença que guardou desde a infância. Não era Bill a razão de seus sentimentos, mas sim Ben, aquele rapaz encantador que sempre admirou seus “cabelos de fogo, como brasas no inverno”. Beverly tem um diferencial entre os demais, ela possui o dom de prever através de sonhos e pesadelos, certos acontecimentos com aqueles que tem proximidade. Essa capacidade não é explicada e não tenho grandes teorias sobre a razão, só sei que o único fato claro é dela ser a única mulher do grupo.
  • 061_05MIKE foi o único do grupo que nunca saiu da cidade. O jovem se sentia culpado pela morte de seus pais num incêndio quando era pequeno, e isso sempre lhe atormentou. Seu sonho era conhecer novos horizontes, talvez a Flórida, mas ele se viu agarrado por algum motivo à Berry. Após terem enfrentado Pennywise quando crianças, Mike passou a pesquisar de forma compulsiva tudo sobre aquela criatura. Em seus estudos chegou a um grupo de nativos que guardava a história da chegada de uma entidade cósmica naquela região. Os Shipkwa tentaram impedir a ameaça extraterrestre através de um ritual, no entanto não obtiveram sucesso. A ferramenta para tal, era um artefato como uma caixa, na qual cada guerreiro disposto a enfrentar o ser precisava depositar como oferenda, um objeto que fazia parte de sua própria existência. Beverly tinha o bilhete de Ben (que acreditava ser de Bill), Ben tinha o autógrafo de Beverly, seu amor platônico, Eddie tinha sua bombinha de asma, Mike uma pedra suja de sangue da briga contra uns valentões, Bill conseguiu o barquinho S.S. George, feito para o irmão no dia de seu desaparecimento, Richie uma ficha de fliperama, que marcou um momento de dor pela traição de quem achava poder confiar, e Stanley uma das toucas engraçadas para prevenir aranhas na cabeça, quando estivessem sede subterrânea do Clube dos Otários. Mike é a chave principal para dar fim à Pennywise. Herdou de seu pai, Will, várias informações sobre o macabro palhaço, e por conta de não ter saído da cidade, nunca esqueceu de todos os detalhes. Para ele superar o trauma, estava diretamente relacionado em acabar com aquela entidade e honrar a vontade de seu pai.
  • 061_06BEN desde a criança se mostrou uma criança muito inteligente e introspectiva. Junto com Mike, foi um dos últimos garotos a se juntar ao Clube dos Otários após ter sido ferido por Henry Bowers com um “H” riscado com um canivete em sua barriga. Ben, embora bem maduro para sua idade, ainda tinha complexos por conta da sua aparência. Estar acima do peso sempre foi motivo de vergonha e insegurança, tanto que nunca soube se declarar a Beverly, a menina que amava. Certa vez escreveu um poema em um cartão postal, mas devido a um mal entendido, chegou as mãos de Beverly com o entendimento de que seria Bill o autor. Levou consigo a fraqueza até a vida adulta, e embora se esforçando ao ponto de se tornar um belo e imponente homem, musculoso e nada gordinho, ainda assim era a mesma  criança insegura por dentro. Superou seu trauma no momento em que Beverly descobriu que era por ele sua verdadeira paixão.
  • 061_07EDDIE teve sua vida destruída pela própria mãe. Uma mulher obesa, manipuladora e controladora, que a o invés de levantar do sofá e buscar viver a vida, ainda fez de tudo para levar o filho para o mesmo buraco. Colocando-o como uma criança excessivamente frágil, Eddie tinha medo de tudo, nojo de tudo, e com isso se tornou uma pessoa hipocondríaca incapaz de ter uma vida normal. Quando chegou na vida adulta, inconscientemente buscou uma mulher nos mesmos moldes da mãe, tanto fisicamente  como em temperamento. Superar seus problemas seria complicado, visto que teria que desconstruir uma série de pequenas crenças absurdas que sua mãe enfiou em sua cabeça. Mas simbolicamente Eddie tinha aquela famigerada bombinha de asma, e o simples fato de se libertar daquilo, era mais que o suficiente para também se livrar de suas amarras.
  • 061_08RICHIE sempre foi um comediante. Estava sempre fazendo piadas com e entre os amigos, e nunca levava nada a sério. O menino guardava um segredo, e era por trás do humor ininterrupto, que ocultava seu sofrimento pessoal. Richie era homossexual e nunca teve apoio para compreender direito o que seria isso. Era uma realidade íntima que não se permitia de forma alguma revelar, porém sempre teve a atração pelo amigo Eddie. Por dentro era uma pessoa amargurada e triste, muito diferente da fachada que se esforçava para manter. Nos instantes finais no conflito contra Pennywise, Eddie é atacado e morre. Então Richie desaba enquanto revela seu segredo e o amor pelo amigo. Sua superação era perceber que aquelas pessoas valiosas para ele não se importavam se ele era ou não gay, mas fazia diferença sim eles verem sua felicidade.
  • 061_09STANLEY como dito pelos membros do Clube dos Otários, era o melhor deles todos. O jovem era judeu num ambiente bem conturbado quando se tratava em respeitar escolhas religiosas. Era alvo da intolerância de Henry Bowers, e até mesmo piadinhas do amigo Richie. Metódico e maduro, sempre se manteve cético quanto às macabras ilusões criadas por Pennywise. E é nesse conflito de realidade e crenças, que Stanley alcança a vida adulta e constitui sua família. Vinte e sete anos depois do pacto de sangue, recebe a ligação de Mike e, na sua guerra interna não consegue lidar com saber que precisaria voltar a Derry e lidar novamente com seus caóticos conflitos. Stanley então se tranca no banheiro de casa, entra na banheira e comete suicídio cortando os próprios pulsos. Ao final do filme todos os membros do Clube dos Otários recebe uma carta, na qual Stanley revela ter se sacrificado para que as previsões de Beverly não se cumprissem e assim conseguissem mudar o destino ao enfrentar Pennywise.

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O CONFRONTO FINAL
O planos de Mike para derrotar Pennywise acaba não dando certo, mas revela a real forma da ‘Coisa’. A entidade extraterrestre na realidade era um conjunto de três esferas fortemente iluminadas. Algumas pontas ainda estavam soltas, nem todos haviam superados seus medos e encontrado a chave correta para derrotar o inimigo. Mas é quando Mike percebe o ponto fraco de Pennywise. Assim como Richie, o palhaço também se escondia atrás de uma máscara, e por trás da fachada só sobrava medo. Como dito antes, Pennywise não passava apenas de mais uma vítima daquela aberração vinda do espaço, portanto, assim como todos, tinha fraquezas por dentro. Então o jogo a ser feito era o mesmo qual ele vinha fazendo com suas vítimas, a imposição do medo! Então Mike, Bill, Beverly, Ben e Richie, se unem com comentários depreciativos à Pennywise. Que aos poucos vai enfraquecendo e literalmente diminuindo. Chegando ao ponto dele ser tão pequeno e vulnerável, que Mike enfia a mão em seu peito retirando assim seu coração. Então o Clube dos Otários põe um fim ao ciclo de terror em Berry quando com as próprias mãos destroem aquele resquício da ‘Coisa’.

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AMADURECIMENTO E DIAS MELHORES
Após os sacrifícios de Stanley e Eddie, aquelas cicatrizes das feridas pelo pacto de sangue, desaparece das mãos dos sobreviventes. Fazendo entender que definitivamente tudo aquilo tinha acabado. Ben e Beverly finalmente encontram o paradeiro para suas vidas, e decidem rumar juntos à partir dali. Eddie agora é confiante de si e nada mais tem para esconder. Bill volta ao trabalho, conseguindo agora melhorar os finais de suas histórias, quando recebe uma ligação de Mike, agora em viagem e distante de Berry.

A soma dos dois episódios de It: A Coisa, não é um simples filme de terror psicológico, mas uma lição de esperança para todas as pessoas que acham que seus problemas são grandes demais. Aquele grupo em particular, os moleques do Clube dos Otários, só precisavam amadurecer. E a prova definitiva disso é a ligação de Mike para Bill, meses após terem derrotado Pennywise, quando um amigo diz amar o outro. As piadinhas imaturas ficaram no passado, agora aquelas pessoas se tornaram adultas e dispostas a cultivar apenas o que de melhor podem oferecer e ter dos outros.

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ELENCO E FICHA TÉCNICA
Jaeden Lieberher, James McAvoy, Jeremy Ray Taylor, Jay Ryan, Sophia Lillis, Jessica Chastain, Finn Wolfhard, Bill Hader, Wyatt Oleff, Andy Bean, Chosen Jacobs, Isaiah Mustafa, Jack Dylan Grazer, James Ransone, Nicholas Hamilton, Teach Grant, Bill Skarsgård, Jess Weixler, Will Beinbrink, Xavier Dolan, Taylor Frey, Jackson Robert Scott, Javier Botet e Joan Gregson, compões o elenco de atores principais. A direção fica por conta de Andy Muschietti, enquanto a produção é dividida entre Barbara Muschietti, Dan Lin, Roy Lee, Seth Grahame-Smith e David Katzenberg. Com um orçamento de 80 milhões de dólares, o filme com apenas dois dias de exibição nos cinemas já ultrapassou de forma considerável o seu custo. Tendo o valor da receita final atualizarei as informações!

CONCLUSÃO
It: A Coisa – Capítulo 2 é a conclusão do filme de 2017, portanto se você ainda não assistiu ao outro, esqueça esse e vá assistir a primeira parte. Avisado o óbvio, esse é um fechamento magistral para o romance de Stephen King que merecia muito uma produção à altura de seu romance de 1986. Uma produção fantástica que não faz sentido separar os dois episódios, então quando falo deste segundo episódio, na verdade faço referências às duas obras como uma só. A direção brilhante de Andy Muschietti conseguiu dar vida a um roteiro intrincado, tirando o melhor de um número enorme de atores.  It: A Coisa passeia pela comédia, drama, romance, suspense e terror, e em tudo que se compromete, faz com excelência! Pode ter certeza, essa se tornará uma das obras lendárias do cinema.

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ANNA: O PERIGO TEM NOME (CRÍTICA)

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SINOPSE
O mundo da moda sempre está buscando pessoas imponentes e de uma exuberância exótica para representar essa bilionária indústria e, numa dessas caçadas, o atento olheiro de uma agência russa encontra Anna. A belíssima loira de marcantes olhos azuis, não encontra dificuldade na profissão, e rapidamente é apresentada à pessoas influentes e poderosas. Acaba conhecendo um dos sócios minoritários da empresa onde trabalha e,  começam a desenvolver um relacionamento mais pessoal. O tempo passa e Anna está insegura do quanto é valorizada por aquele homem, afinal, não quer ser apenas mais uma menina usada e depois descartada. Então exige provas dos seus reais sentimentos, exigindo saber mais sobre sua vida. No que trabalhava? Visto que era um homem tão ocupado. Conseguindo a resposta, Anna teve o suficiente para completar sua missão!

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COMENTÁRIOS
Cinema vazio nessa quinta-feira (29/08/2019) de estreia e, para não ser injusto, também tinham mais três casais de desconhecidos além da minha esposa e eu. Bem,  isso não deveria ser um problema, uma vez que o filme não foi tão divulgado assim e não teve tempo devido de cozinhar um pouco para repercutir. O longa começa fazendo uma narrativa não-linear e, fica nessa, de mostrar um resultado, voltar para explicar, e repetir o processo. Repete esse processo tantas vezes que chega a irritar tamanha falta de inventividade do roteiro. O que também se faz bastante desagradável, são as constantes briguinhas de ego para provar quem decorava mais lacradas e mitadas. No decorrer do filme inteiro temos citações de personagens históricos sendo usados como método de intimidação. Desde quando o poder de decorar passagens textuais dão mérito para um agente secreto?

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Minha maior decepção com Anna foi não terem entregado o prometido, um filme de ação frenético aos moldes de John Wick, mas que empoderasse o público feminino. Não me entenda mal, as tomadas de tiroteios e pancadarias são sim de excelente qualidade. A atriz Sasha Luss, que na vida real faz carreira na indústria da moda, está magnífica em todos os momentos cruciais quando se refere à sua desenvoltura para ação e até mesmo interpretação, o problema é em definitivo com o roteiro sem ritmo. Gastaram muito tempo em dramas bobos, frases de autoajuda, e momentos que nada somavam para o desenvolvimento da trama. Resultando numa obra que não empolga e, até nos faz lembrar de consultar o relógio para saber se já está acabando.

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ELENCO E FICHA TÉCNICA
Seu elenco traz Sasha Luss, Helen Mirren, Luke Evans, Cillian Murphy, Lera Abova, Alexander Petrov, Nikita Pavlenko, Anna Krippa, Aleksey Maslodudov, Eric Godo, Ivan Franěk, Jean-Baptiste Puech e Nastya Sten. Anna: O Perigo Tem Nome é a mais nova produção de Luc Besson, cineasta famoso por clássicos de ação como O Profissional (1994), O Quinto Elemento (1997) e Lucy (2014). A obra é escrita também por Besson, e produzida pelo próprio em conjunto com Marc Shmuger. As trilhas originais são de Eric Serra, amigo e parceiro de Luc Besson em praticamente toda sua carreira no cinema. A produção francesa estreou no dia 21 de junho nos Estados Unidos, 10 de julho na França, e aqui no Brasil foi lançado no dia 29 de agosto de 2019. Com o orçamento modesto de 30 milhões de dólares, Anna, hoje quando público esta analise, já tem em caixa praticamente o mesmo valor de investimento.

CONCLUSÃO
Anna: O Perigo Tem Nome é um filme de altos e baixos que faz uso excessivo de uma narrativa não convencional. Sua fotografia é bonita e inspiradora, mas peca muito em não entregar o filme empolgante e cheio de adrenalina visto nos trailers. O que salva são as ótimas atuações de um elenco experiente, no qual Ellen Mirren e Cillian Murphy se destacam de forma brilhante. Então não vá para o cinema na expectativa de assistir um filme de correria e ação desenfreada, Anna não é isso. Finalizo dizendo que vale sim assistir no cinema, mas que não adianta muita euforia, já que esse filme é muito mais drama do que agitados tiroteios.

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JOGO NA ESCURIDÃO (CRÍTICA)

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Embora este filme tenha sido classificado como 16 anos, acredite em mim, ele deveria ter sido listado como 18.

SINOPSE
Uma onda de assassinatos sádicos contra mulheres vem ocorrendo no ano de 2017, e retratando um destes episódios, o novo longa indiano de suspense psicológico inicia. A cena de abertura é pesadíssima, utilizando a filmagem da câmera de um doentio serial killer enquanto ele espreita o momento de descanso de uma moça. Despercebido ele entra na casa onde se mantém oculto nas sobras até que ela adormeça. As imagens que se seguem mostram o quanto grotesco e desumano alguém pode ser com outro, os detalhes são excessivamente macabros e inenarráveis. O resultado é termos uma jovem assassinada, decapitada e com seu corpo incinerado.

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Um ano se passa após essa morte, e acompanhamos os dias de Swapnam, uma designer e desenvolvedora de jogos que luta contra um trauma de seu passado recente. A jovem mulher mora numa casa bem aparelhada, na qual Kalamma cuida de suas necessidades pessoais diárias, e Anwar cuida da segurança na portaria do imóvel. Swapnam traz consigo um grande trauma, que faz a moça não conseguir se manter em ambientes de escuridão, e isso cada vez mais prejudica sua qualidade de vida. No seu pulso esquerdo ela traz uma pequena tatuagem de um coração com um controle de videogame no meio, mas o que ela não fazia ideia, é que na pigmentação da tinta fora misturado cinzas de uma pessoa morta. E isso seria a chave para bizarras coisas que sucederiam.

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RESUMO COMENTADO E COM SPOILERS!
Jogo na Escuridão é um filme atípico. Vendido pela Netflix como um filme de terror, a produção não traz verdadeiramente elementos para essa classificação. O que temos é uma obra de drama e suspense com grande peso na tensão psicológica. Swapnam é uma personagem mal explorada pelo roteiro, que em sua sinopse enfatiza a descrição de uma designer de games, mas tem isso como completamente irrelevante para o desenrolar da trama. Seus traumas são relembrados em todo momento do longa, e entender como desenrolou isso faria total sentido para compreender a grandeza do que ela precisava superar. Mas não, o roteiro não colabora em momento algum para dar clareza à nada. Basicamente passamos mais da metade do filme acompanhando a jovem em suas sessões de terapia para aprender a lidar com seus medos.

A tatuagem que havia feito no pulso começa a doer inexplicavelmente, então ela volta ao estúdio onde havia feito para tentar entender o que poderia ser a causa. Mais de um ano tinha passado desde a aplicação, então não fazia sentido uma reação agora. Até a tatuadora que atendeu fica sem entender, porém ela revela algo delicado. Haviam pessoas que traziam as cinzas de seus entes queridos na intenção de misturar na pigmentação. A ideia era de levar algo da pessoa amada sempre consigo. E o que ocorreu, é de ela ter confundido, e usado uma destas tintas no pulso da jovem. Swapnam fica indignada com absurdo do que ouve, era inaceitável a condição de ter algo de uma pessoa morta presa ao seu corpo.

Voltando à sua rotina, Swapnam vai empurrando a vida com a barriga, até o momento qual enfrenta a situação desconfortável de ao entrar numa cafeteria ser reconhecida por dois homens. Os rapazes conseguiram identificá-la como a mulher amarrada de um vídeo. Os dois comentam em tom de zombaria ser realmente ela, e isso não faz sentido algum. Porque alguém acharia graça da desgraça de uma mulher dessa maneira? Fica aí ainda mais um motivo para se compreender o que ocorreu de tão grave um ano atrás, e que gera tanta dor para ela. Mas não importa, o filme fecha e isso realmente não é elucidado.

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Durante um dia de terapia Swapnam está esgotada, não aguenta mais e se entrega as dores. Salta de um edifício procurando a morte, mas não adiantou, aquela ainda não era sua hora. A jovem fica bastante machucada, quebra alguns ossos e passa a andar de cadeiras de rodas. A gravidade da sua saúde também não é explicada, portanto não sabemos também se o fato de não poder andar é apenas uma situação momentânea ou permanente. E se antes seu psicológico era terrivelmente afetado, agora ele estava em migalhas por estar ainda mais impotente.

Certo dia Swapnam recebe uma visita. Era uma mãe, justamente a mãe da jovem moça que tinha sido brutalmente assassinada no começo do filme. Ela conta sua história, e explica o quanto sua filha era uma pessoa forte que lutava pela vida. Vinha numa longa batalha contra o câncer e mesmo assim nunca se abatia. Em comemoração sua última vitória contra a doença, combinaram de fazerem juntas uma tatuagem. Mas a jovem não teve tempo, foi morta antes que pudesse cumprir a promessa. Por conta desse pedido da filha que a mãe em sua homenagem decidiu fazer essa “tatuagem rememorativa”, o nome que o estúdio deu pra técnica.

Tal revelação fez mudar completamente as coisas. Saber que por trás daquela marca havia o sangue de uma guerreira te trazia coragem. Só não ficou claro ainda o porque daquelas pontadas de dor, mas sem tardar ela entenderia. É chegada então a noite qual o caos invadiria completamente sua vida. Aquele mesmo cara que matou a jovem do começo, e que na realidade não era apenas um, mas pelo menos três homens, haviam matado o vigia da portaria e agora tentavam entrar na casa.

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FINALMENTE ALGUNS PORQUÊS
MAS NÃO TODOS (+SPOILERS!)

Assim que um assassino entra Swapnam percebe que no seu braço surgiram mais duas tatuagens, totalizando assim três corações. A jovem ainda não entendia o que aquilo queria dizer. A ação desenrola rápido, o homem entra, mata Kalamma, e em seguida alcança Swapnam. Numa cena arrepiante ele corta a cabeça da jovem, e isso pela ótica da própria vítima! Uma boa sacada da direção onde escondeu o grafismo de um gore que não se encaixaria no todo, mas manteve a carga de peso do ato cruel. Pensamos: sério, o filme acaba assim? Não, ele continua.

Como num jogo, Swapnam perdeu uma vida. Ela descobre isso olhando para o seu pulso onde haviam três corações e agora restavam dois. Inserida na partida ela tenta tirar melhor proveito da situação para se safar daqueles assassinos. Mais uma vez não consegue. Até chega a ativar a polícia mas tudo dá errado, desta vez ela é morta queimada dentro de uma viatura da polícia enquanto era evacuada de casa.

Pronto, restava apenas a última ficha. Quer dizer, coração. Swapnam joga diferente. Antes seu trauma vinha atrapalhando na sua desenvoltura para sobreviver ao ataque. Então era questão de vida ou morte. E não só dela, mas de Kalamma também. Ao ouvir o primeiro ruído dos invasores ela mantém o controle. Com grande esforço e inspirada na menina que de alguma forma sobrenatural lhe ajudava, manteve a calma e não entrou em pânico quando as luzes se apagaram. Seguindo a regra de manter a racionalidade, eliminou um à um aqueles psicopatas. Se salvando e mantendo a vida de Kalamma. O vigia, bem. Esse não teve sorte mesmo. Já estava morto antes do checkpoint.

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ELENCO E FICHA TÉCNICA
Taapsee Pannu, Vinodhini Vaidyanathan, Anish Kuruvilla, Sanchana Natarajan, Ramya Subramanian, Parvathi T., Maala Parvathi, David Solomon Raja, Indrajith, Subramanian, Soorim, Capt KRC Pratap, Vignesh Shanmugham e Joshua Miller compõem o elenco. O roteiro é de Ashwin Saravanan e Kaavya Ramkumar, e a direção de Ashwin Saravanan.

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CONCLUSÃO
Jogo na Escuridão é um filme com muitos furos no roteiro. Apresenta vários elementos na trama mas não os desenvolve, e isso acaba prejudicando as reflexões comuns de filmes desse gênero. A obra gera inconstância, as vezes caminhando bem e as vezes batendo justamente nessas falhas. De qualquer forma, e mesmo com esses defeitos, ainda é uma filme que vale à pena ser visto. Nos seus pontos positivos ele segue bem, trazendo a sensação constante de agonia e impotência em situações sinistra. A produção é original da Netlix e já está disponível na plataforma. Tenham cautela com as crianças, esse não é um filme adequado para elas.

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ALADDIN – FILME DE 2019 (CRÍTICA)

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SINOPSE
Aladdin é um humilde morador de Agrabah, e também um bondoso ladrão que sempre ajuda os necessitados. Certo dia a jovem filha do sultão, a Princesa Jasmine, sai escondida dos aposentos reais e acaba se envolvendo em encrenca. Aladdin então a ajuda, mas antes dela partir, Abu, seu macaquinho, lhe surrupia uma joia. O jovem então decide ir até ela devolver. Uma paixão surge entre os dois, mas sendo uma princesa ela não poderia se envolver com um plebeu, Aladdin sabia disso. Só que o seu destino muda quando o jovem rapaz encontra uma lâmpada mágica, na qual dentro continha um gênio capaz de lhe conceder três desejos!

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DISNEY E MAIS UM LIVE ACTION?
Muito se fala sobre a Disney e seus projetos de transformar os clássicos desenhos animados em live actions, e geralmente não de forma muito esperançosa. Eu mesmo sou uma pessoa muito pé atrás com essas iniciativas, para mim a única impressão que fica é a da empresa mercenária querendo tirar leite de pedra da própria propriedade intelectual, e sem um mínimo respeito. No entanto tem algo que a maioria talvez não saiba, a Disney já vem fazendo isso faz tempo. Adaptações para filmes com personagens reais não é novidade, 25 anos atrás saía O Livro da Selva nos cinemas. Acredito que pouca gente lembre ou conheça essa adaptação de Mogli com o ator norte americano Jason Scott Lee. Também saíram dois filmes dos desenhos 101 Dálmatas em 1996 e 2000, respectivamente. A diferença é que hoje estamos mais antenados nas produções da Disney devido ao seu engrandecimento com compras de gigantes como Lucasfilm e Marvel. A ressurreição da franquia Star Wars e incontáveis filmes de super heróis, fazem com que a Disney não saia mais dos trending topics.

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UM CHATO CRITICANDO!
Mas vamos falar de Aladdin, um dos três filmes entregues agora em 2019. E vale lembrar, falta Malévola: Dona Do Mal,  para o dia 18 de outubro. Vamos parar de rodeios e vamos ao motivo de você ter chegado até aqui. Logo de cara percebemos uma nova abordagem. Diferente do clássico desenho de 1992, a nova produção traz um Gênio liberto com sua família viajando pelos mares do mundo. E é ele, o carismático azulão em sua forma humana quem conta aos seus filhos os seus dias passados.

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Temos uma Agrabah bonita e simpática, mas não tão luxuosa quanto um império do conto árabe de As Mil e Uma Noites deveria ser. Faltou mais cor e vivacidade, a apresentação mostrando a logo da Disney e o nome do filme já não é muito inspirada, fica a sensação de falta de ousadia. É tudo muito tímido. Seguimos à partir daí para a recriação clássica dos eventos onde é apresentado o par principal da aventura. Temos uma Jasmine interpretada por uma bonita moça, mas que não traz as feições marcantes de uma jovem árabe. Sei que discutir etnia para atores geralmente não rende bons frutos e só gera polêmica, mas quantas belas atrizes não existem por aí com mais cara e jeito de Jasmine? E a coisa piora quando vemos Aladdin. Ator nascido no Egito e de pais egípcios, o que poderia estar errado então? Bem, o maluco também não tem cara de Aladdin ora essa! Tacaram a chapinha no cabelo do cara e, ainda deixaram uma barbinha e bigode safados por fazer.

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Tirando esses pormenores que são mais a birra de quem vê, no caso eu, do que um real problema, a produção funciona bem. Em uns poucos minutos eu me adaptei a dupla de impostores e me inseri na atmosfera do filme. Assim como o desenho, esse novo Aladdin é praticamente um musical, mas com ares teatrais bem carregados. O grande problema é que isso não pareceu ser realmente intencional, foi mais falta de esmero da produção do que um conceito obedecido. É certo que as músicas são dubladas nas tomadas de filmagens, só que soou muito artificial. Existem cenas melhores que outras, mas no geral faltou bem mais afinco da direção em extrair dinamismo de interpretação dos atores. As cenas em computação gráfica também não são grande coisa, não tendo o refino compatível com o orçamento astronômico de quase 200 milhões de dólares. Nas cenas noturnas onde Jasmine e Aladdin passeiam no tapete mágico também faltou a mesma paixão e beleza artística do clássico desenho. Foi o momento que mas me causou decepção.

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Isso porque eu falei que a produção funciona bem. E o pior é que funciona sim. Essas são observações que relacionei não chegam a estragar a completude do filme. Seu grande trunfo eu deixei para o final, o Gênio da Lâmpada! Will Smith ser engraçado não é novidade para ninguém, e de longe ele é o ator mais solto e carismático de Aladdin. Não é exagero dizer que ele sozinho consegue carregar todo o filme nas costas. Ele abre o filme e permanece até o final, sendo essencial para o dinamismo do roteiro. Ele toma para si a responsabilidade parecendo estar em um sitcom próprio com anos de existência, a naturalidade que entrou no papel é fascinante!

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ELENCO E FICHA TÉCNICA
Temos no elenco Mena Massoud, Naomi Scott, Will Smith, Marwan Kenzari, Navid Negahban, Nasim Pedrad, Billy Magnussen e Numan Acar. Dirigido por Guy Ritchie, Aladdin é inspirado no clássico árabe da literatura mundial As Mil e Uma Noites e na versão francesa de Antoine Galland, numa produção em conjunto da Walt Disney Pictures, Rideback, Vertigo Entertainment, Big Talk Films e Marc Platt Productions.

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CONCLUSÃO
O remake em live action do clássico desenho traz uma releitura pouco inspirada se comparado a produção original. As suas deficiências são crônicas e desapontam quem esperava uma produção verdadeiramente luxuosa. Na parte em que Aladdin volta como um príncipe para se apresentar à Jasmine, a cena é um literal desfile de escola de samba, faltando bem pouco para chegar no brega. No geral esse ainda é um filme divertido, não tão impactante quanto o original, mas dignamente salvo por um Gênio extremamente carismático. Mesmo com problemas ainda é interessante, e uma boa pedida para ver em família.

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BRIGHTBURN: FILHO DAS TREVAS (CRÍTICA)

Brightburn

SINOPSE
Certa noite o casal Tori e Kyle Breyer conversa na cama sobre o quanto queriam ter um filho, quando de repente um fortíssimo estrondo rompe os céus. Tori olha pela janela notando a mata ao longe estar iluminada em vermelho, algo havia caído. Eles correm em direção ao local onde encontram um bebê em meio uma estranha cápsula. Não havia dúvidas, aquele era um presente enviado. O filho que tanto queriam. O anos passam e Brandom cresce, agora com 12 anos começa a mudar seu comportamento. A adolescência chega para todos. No entanto este rapaz leva essa natureza fisiológica um pouco mais além, trazendo de seu interior um sentimento maligno. Algo capaz de trazer as trevas para a pacífica Brightburn!

Brandom vs Superman

SUPERMAN AO AVESSO? COMO ASSIM?!
Brightburn: Filho das Trevas é um terror bem fora do convencional, e fiquei bastante curioso quando ouvi falar pela primeira vez da sua proposta. Não é segredo para ninguém que a obra se inspira no herói Superman original da DC Comics. Mas e aí? Isso seria algo bom? Transformar o bondoso Clark Kent num vilão sanguinário seria uma boa ideia? Precisava entender direito o que viria ser isso. E tenho que confessar, gostei bastante do que vi. Por mais que tenhamos como referência o clássico homem de aço, e esperemos a mesma coisa de forma invertida, ainda assim somos surpreendidos a todo instante.

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Não recordo de nenhum filme do gênero que tenha recorrido à um inimigo tão imponente assim. Se normalmente já nos borramos com vultos ou seres demoníacos com os olhos totalmente pretos, imagina com uma criança de comportamento estranho e capaz de feitos sem limites. Ficamos completamente tensos por estarmos literalmente expostos às vontades de um garoto com sentimentos anárquicos. Não sabemos qual ameaça virá em seguida. É exatamente esse tipo de sensação que o filme instiga sentir, e tem total êxito. Temos jump scare na medida certa e violência visual alcançando o patamar do gore, e tudo se encaixando perfeitamente à narrativa da obra. São cenas bizarras que ilustram o quanto aquele moleque se tornou mentalmente doente e diabólico. Assista ao trailer!

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EXPLICAÇÕES COM SPOILERS, ÓBVIO!
Inicialmente ele é apenas um garoto como outro qualquer, talvez um pouco mais introspectivo e estudioso, mas ainda assim uma criança normal. Porém as coisas começam a mudar quando ele passa a ser atormentado por uma voz sinistra vinda de seu interior. Aos poucos ele vai descobrindo uma força sobre-humana, desenvolve a capacidade expelir lasers dos olhos, de se mover em alta velocidade, e até voar. Mas antes de tentar entender o vilão, é primeiro preciso entender a pessoa por trás dele.

Brightburn

Podemos compreender Brandom de duas maneiras. Ele pode ser sim a origem do mal, ou pode ser que esse mal tenha embarcado junto dele na cápsula. No meu entender o menino era uma folha em branco, que não é bom e nem mal. Nota-se que seu comportamento é livre de emoções, ele não era empático aos outros, visto que nunca conheceu o que era sofrimento. Afinal, ele nunca havia se machucado ou fica doente nesses anos todos. Essa falta de afinidade com as pessoas ao seu redor faz florescer um sentimento de indiferença. E no dia em que outras crianças caçoavam dele por mostrar uma inteligência prolixa, fora protegido por uma amiga da qual ouviu “os inteligentes são os que dominarão o mundo”. Essa frase ecoou no seu consciente fazendo ficar convencido de que era superior aos demais. Todos deveriam então se curvar à ele. E assim começa uma escalada de violência e terror. Quem não compreendesse sua posição como inferior era subjugado cruelmente.

Cast Brightburn

ELENCO E FICHA TÉCNICA
Elizabeth Banks, David Denman, Matt Jones, Meredith Hagner, Jennifer Holland, Jackson A. Dunn, Steve Agee, Gregory Alan Williams, Becky Wahlstrom, Christian Finlayson, Elizabeth Becka, Stephen Blackehart, Terence Rosemore, Emmie Hunter, Mike Dunston, Annie Humphrey, Gwen Parrish, Leah Goodkind e Shaun McMillan compõem o elenco de Brightburn: O Filho das Trevas. A direção fica a cargo de David Yarovesky, que é conhecido também pelos trabalhos em Guardiões da Galáxia e A Colmeia, ambos de 2014. Todas as atuações são bastante competentes, não deixando margem alguma de desconforto em qualquer momento. No entanto o pequeno Jackson A. Dunn conseguiu um destaque um pouco maior com seu olhar penetrante e de expressão apática. Chegando a causar incômodo pela maneira fria com a qual ele encara seus desafetos.  A direção de Yarovesky consegue te inserir com solidez nesse ambiente sombrio tirando proveito da boa fotografia e de ângulos de câmera que valorizam cada cena.

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CONCLUSÃO
Fugindo do terror convencional Brightburn: O Filho das Trevas começa de forma lenta, enquanto pincela aos poucos a estrutura do clássico filme Superman. Embora sua premissa seja essa, ainda assim é uma obra de muita personalidade e qualidade. Faz lembrar as primeiras produções da carreira de Shyamalan, com a intensidade de mesclar o fantástico à uma atmosfera sombria e pesada. Temos aqui um verdadeiro filme de suspense e terror, capaz de gerar altas cargas de tensão e ansiedade, e que vai agradar quem busca algo de qualidade nesse gênero. Mas fique ligado, o filme possui cenas pós créditos!

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BADLA (CRÍTICA)

Badla 2019

SINOPSE
Um quarto de hotel, duas pessoas, e uma delas morta. É nesse cenário de crime que o renomado advogado Badal Gupta entra para defender Naina e tentar compreender quem é o real assassino de Arjun. A empresária e o fotógrafo são membros da alta sociedade que se veem envolvidos num relacionamento extraconjugal, e passam a ser chantageados anonimamente por um misterioso personagem. Exigindo uma certa quantia em dinheiro e que seja entregue em um luxuoso hotel da gélida Glasgow escocesa, o casal de amantes parte em viagem para tentar abafar esse escândalo que poderia acabar com suas carreiras. Após entrarem no quarto Naina é repentinamente agredida e desmaia, sendo acordada com os bateres na porta de policiais que a flagram como sendo a única presente no mesmo local onde Arjun estava estirado morto. Então uma pesada briga psicológica é travada entre o advogado e a cliente que quer provar sua inocência.

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DIREÇÃO DA ADAPTAÇÃO
Badla é um filme indiano de 2019 repleto de mistério, complexas reviravoltas, e capaz de te deixar agarrado no sofá do começo ao fim. Sendo adaptação do filme espanhol Contratiempo de Oriol Paulo, o longa de 2009 traz pequenas mudanças, como o gênero de alguns personagens centrais, dando assim uma nova visão psicológica e mais peso à narrativa. Se passando quase integralmente num apartamento, ainda consegue espaço em breves cenas externas, tirando ótimo proveito de uma fotografia muito expressiva. A direção de Sujoy Ghosh, o mesmo da excelente série Typewriter já resenhanada aqui, tem pequenas falhas pontuais, onde certos cortes de edição se mostram mal cronometrados. Talvez por pouco tempo hábil de revisão, não sei, mas era o tipo de coisa que não deveria ser deixado passar. De qualquer forma são dois ou três momentos apenas que essas pequenas falhas ocorrem, e não são suficiente para estragar o andamento da projeção.

Badla

UM EXCELENTE ELENCO!
Ponto alto fica para as brilhantes atuações de Taapsee Pannu, Amitabh Bachchan e Amrita Singh, que te transportam para diálogos fortíssimos onde cada vírgula pesa e faz se entender uma nova versão dos fatos. A mentira e a verdade estão sempre lado à lado, se valendo de pequenos detalhes para que tudo esteja sempre preste a inverter os sentidos. O elenco também conta com Antonio Aakeel, que não brilha tanto quanto os outros, uma vez que não tem o mesmo tempo e oportunidade para se desenvolver mais.

Taapsee Pannu

CONCLUSÃO
Fazendo referência constante ao Mahabharata, o texto épico sagrado do hinduísmo, Badla traz reflexões sobre perdão, culpa e vingança, palavra última essa que traduz o título do longa. Perspicaz e provocante, é um filme pra ser assistido numa tacada só. Fazer quebras de ritmo vai comprometer o estímulo agradável que o roteiro desenvolve. Sujou Ghosh deu suas pequenas pisadas de bola na edição, mas trouxe uma obra tão bem escrita que todos os seus problemas merecem ser ignorados. Recomendadíssimo, Badla está disponível atualmente na Netflix.

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TOY STORY 4 (CRÍTICA)

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Pra muita gente o primeiro filme em animação talvez tenha sido o Toy Story original de 1995, mas curiosamente pra mim não foi. Existe uma briga pelo título de primeira animação feita na história, e nesse ringue está Toy Story de um lado, e o não muito conhecido Cassiopeia do outro. E foi com esse último a minha inserção no universo da animação computadorizada, popularmente conhecida como CG ou CGI. Vale como curiosidade entender como se dá essa briga pela honraria de um título. O período de desenvolvimento de ambos é bem parecido, e se for colocar na ponta do lápis, Toy Story realmente fora lançado um pouco antes. No entanto existe um pequeno detalhe técnico na diferença de confecção de cada animação. Enquanto em Cassiopeia a animação é integralmente feita com tecnologia de computação gráfica de potentes 486, e se não sabe o que é isso, melhor nem querer saber, Toy Story tem o diferencial de as cabeças dos personagens terem sido moldadas em argila e depois digitalizadas pela Polhemus 3D. Cassiopeia é da brasileira NDR, sim, acredite, você tem motivos pra se orgulhar do seu país brigar pelo mérito de ser o primeiro em algo, assim como Santos Dumont com seu 14-bis.

Cassiopeia

Tretas à parte, e vencendo ou não a disputa pelo título, temos de admitir que a animação da Pixar é muito melhor que nossos viajantes espaciais. Toy Story estreou gerando um grande alvoroço ao redor do mundo, com personagens carismáticos e um enredo que agradava crianças e vovôs. Não lembro exatamente como foi minha experiência inicial quando aluguei a animação, não vou inventar uma historinha bonita só pra ilustrar o momento, mas tenho na memória um carinho tremendo pela mensagem trazida. A celebração da inocência e da amizade é algo contado de forma ímpar, e marca na gente os dilemas e problemas superados visando sempre o bem coletivo. É uma obra que ensina a repartir, ter lealdade, o ápice da hombridade, que é a verdadeira essência da busca pela felicidade.

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Um trabalho tão primoroso como esse deixava toda sua cadeia de fãs apreensivos por uma continuação, e a Pixar não decepcionou, após 4 anos do premiado primeiro filme, trouxe Toy Story 2. Quantos filmes você recorda ter uma continuação melhor que o original? Claro que tem, mas são bem poucos. E esse é o caso. Toy Story 2 conseguiu faturar quase meio bilhão de dólares, mais de 100 milhões que a receita do filme anterior. Tudo bem que o primeiro tenha tido um orçamento de 30 milhões, e o segundo 90, mas mesmo assim são números impressionantes. Se tornou a animação mais lucrativa de todos os tempos até então, e não vou enumerar quantos prêmios recebeu, mas acredite, foram muitos!

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A franquia esbanjava vivacidade, tendo grande repercussão por anos na expansão de seus derivados comerciais. Um produto com o hiato de 10 anos ainda trazia lucros com bonecos e jogos, e embora boatos de uma terceira animação existissem desde o término de Toy Story 2, nada se consolidava. Foi quando o planeta Terra, e vamos saber lá mais quem nos observe de fora, entrou em êxtase. O tão almejado novo filme havia sido anunciado. A internet se desesperou. Não faltavam notícias e comentários sobre essa boa-nova. Até que no dia 18 de Junho de 2010 o bebê veio a luz, geminiano, e todos queriam pegá-lo no colo e chamá-lo de seu. Você acredita que o inacreditável aconteceu? Eu juro pra você, ele tinha conseguido mais uma vez. Superou a segunda animação que tinha superado a primeira! O nome Toy Story definitivamente tinha nascido com a bunda virada pra Lua!

Toy Story

Que filme fantástico! Quando a gente é fã de algo nunca imaginamos que aquilo possa ser ainda mais lapidado, mas foi sim o caso. Ecoavam elogios por todo o lado, e nem precisava você ter internet, o assunto transbordava e escorria até você na porta de casa. Lembro ter ouvido o comentário onde Quentin Tarantino disse, “grandes poderes trazem grandes…”, não, pera, esse é o do Tio Ben. Tarantino na verdade falou foi o seguinte, “Com certeza traz a melhor cena do ano, talvez a melhor da década. Uma das melhores da história do cinema”, se referindo aos lançamentos de 2010. Anualmente ele divulga sua lista dos vinte melhores filmes, qual Toy Story 3 encabeçava. Em vigésimo, vale citar, estava Jackass 3D (merecido (ou não)).

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O mundo era lindo, uma trilogia impecável. Feito comparável apenas ao quarto, quinto e sexto episódios de Star Wars. Não, nem De Volta Para o Futuro conseguiu isso, se escafedeu no terceiro. O limite da natureza é assim, as coisas funcionam em grupos de três. Até as Marias são apenas Três. Perfeição. Nada mais, nada menos. Sendo assim eu vivia minha vida pacata, vez ou outra eu recordava da conclusão daquela memorável saga e sentia borboletas no estômago de tanta nostalgia. Eu devia estar tomando chá e comendo torradas amanteigadas feitas em casa enquanto discutia sobre a cabeça de algum político numa bandeja, quando provavelmente devo ter cuspido sopa de torrada com chá e baba na cara da minha mãe, ou tia, durante a mesa do café às 16 horas, quando eu li no Fofocas & Bisurdos News que Toy Story 4 havia sido flagrado em produção num estúdio por abutres paparazzis.

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Isso não podia estar acontecendo comigo. Com certeza eu havia morrido, e como gratificação pelos bem feitos durante a vida, o Menino Jesus estava lançando uma nova sequência de Toy Story só pra mim. Não precisava Menino Jesus. Mas se quis, tudo bem. Devo ter tomado um tapa na cara. Da minha mãe ou tia, não sei em quem acertei a cusparada. Estava mais preocupado olhando pra baixo, no celular, aquele quatro brilhando. Voltei à realidade e compreendi que a Pixar Animation Studio, do grupo Walt Disney Company, realmente estava virada no Jiraiya e soltaria realmente o Toy Story 4. Pronto! Bateu a preocupação. O Menino Jesus fazer o quarto filme alterando a natureza e superando a regra das trilogias é uma coisa, mas não seria um fruto divino, seria só a Pixar. Isso não poderia acabar bem.

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Dia 23 de junho. Era um domingo chuvoso e promissor no qual decidi ir ao cinema assistir Toy Story. Não quis saber de mais nada relacionado ao filme depois que descobri que não estava morto. Me mantive receoso mas tentando me abster de qualquer sofrimento prévio. Nem trailer eu vi! Saí de casa e fui a pé até o shopping para assistir aquela película. Eu sabia que estava me tornando um dos malas da ‘Seleta Ordem dos Críticos Cults de Cinema’, e que isso não era bom. Devia ter escolhido a palavra “projeção”. Enfim. Cheguei ao cinema e era aquilo, setenta e três crianças para cada dois adultos. Eu tive dó. Aquelas crianças não eram nem nascidas quando a trilogia foi fechada. O lado bom pra elas era que não agonizariam em sofrimento caso se decepcionassem pela mediocridade que poderia vir se tornar esse filme. Calei minha boca, não desliguei o celular, já que ninguém ligava pra mim mesmo e, continuei a mastigar batata frita de um saco de um quilo engolida por auxilio de Coca-Cola já quente.

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A projeção começara, e os cochichos foram diminuindo gradualmente conforme aquela horda de pivetes iam se hipnotizando. Não sei como continuar esse texto sem dar spoilers, a memória é recente demais e portanto perigosa. Mas vou ‘analogiar’, o infinitivo é meu e invento o que eu quiser, se não gostou me processa. ‘Analogiando’ nós podemos comparar com Vingadores: Ultimato. Uma conclusão que não necessariamente precisa ser uma conclusão, mas estruturalmente um fechamento de ciclo. Um desfecho cheio de simbolismo e trazendo à tona aquele sentimento de pureza que se via no primeiro filme. A amizade e lealdade nunca havia chegado num patamar tão alto como o de agora. Mas um novo elemento surgia no quarto filme. Literalmente aquela menina era a representação do Menino Jesus. Não transformava água em vinho, não multiplicava os peixes, mas sim, trazia vida do lixo. Do lixo! O novo elemento era “A Criação”! Se você acha que Toy Story se resumia em apenas brincadeiras e aventuras em meio ao sentimento de paz interior por ter seus amigos sempre ao redor, é porque ainda não assistiu Toy Story 4. Do lixo cara! Do lixo temos o entendimento do que é o universo de Toy Story. Temos a transcendência do que realmente é a vida. De onde ela brota e qual seu ímpeto. Nos faz entender que valorizar a simplicidade da vida é o bem maior, a verdadeira essência da essência!

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CONCLUSÃO
Mas afinal, tirando esse ultrapieguismo de novela mexicana, o filme é bom? Eu ainda não consigo acreditar, mas não apenas bom, melhor. Muito melhor que o terceiro! Como conseguiram isso eu não sei. Revela aí Pixar! Eu chuto. Talvez com auxílio de mentes de alienígenas superdotados superestimuladas com LEGO Creator Espacial combinado com Arduino desde a infância. Só sei que meu cérebro foi bombardeado com sequências gigantescas de piadas da mais alta qualidade e sagacidade, resoluções de roteiro extremamente criativas, sendo tudo bem amarrado e contracenado por atores mais experientes do que nunca. Woody e seu seus pares estavam divinos. A sensação que me deu é que a animação não durou sequer 30 minutos. Foram um dos melhores 100 minutos da minha vida. O filme que quebrou a regra dos 3 e a regra da vida. Lixo!

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