O POÇO – UMA ANÁLISE LITERÁRIA DO FILME

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Uma prisão dividida em diversos andares. Dois presos por andar, seja ele um voluntário em busca de uma certificação ou que busque se isolar; seja ele um condenado por algum crime. A cela é um cômodo: camas, pia e privada. Sem portas. A única saída ou entrada é uma abertura no centro. Um poço por onde sempre descerá um banquete em uma plataforma. Um único banquete para os quase infinitos andares. Aqueles que estão nos andares superiores comem com fartura. Os restos são descidos. A medida que o banquete desce pelo poço, menos comida vai sobrando em meio a migalhas, restos. Quanto mais abaixo no poço, mais fome se terá. A situação é mudada de tempos em tempo quando um gás desacorda os presos e, novamente, ao despertarem estão em um andar diferente podendo ter mais sorte ou azar, mais fartura ou fome. Mas isso, é óbvio.

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1. O bicho homem: de oprimido a opressor

Quando olhamos a dinâmica do filme, inicialmente vem-nos a mente a luta de classes ao modo marxista ao evidenciar que aqueles que estão em uma esfera superior, pouco se importam como os que estão abaixo deles (o termo comunista chega a ser citado). Há a manutenção perpétua do status-quo: nem mesmo aqueles que em um dado momento alcançam os primeiros andares se importam com seu passado de fome. Neste ponto o longa-metragem espanhol é repleto de referências filosóficas que pensam a dinâmica da sociedade. Tem riqueza e fartura quem se banqueteia nos andares superiores e aos de baixo resta-lhes as migalhas ou nada. Nem aqueles emergentes, que ficam subitamente na elite do poço, se importam com sua pobreza anterior. Isso reflete diretamente a nossa sociedade ao mostrar que temos a tendência de esquecermos de que também fomos oprimidos e nos tornamos opressores narcisistas, parafraseando Paulo Freire. Claro que a animalização humana é uma constante no filme ao reduzir o homem e sua racionalidade ao instinto da fome (Manuel Bandeira, implicitamente), numa esfera naturalista que relega e destrói a todos em prol da sobrevivência do mais forte. Darwin aprovaria esse enredo e aplaudiria de pé, se estas circunstâncias acontecessem no mundo real.

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2. O inferno são os outros: a punição

Isso mesmo, o enredo do filme não se passa em nossa realidade. É uma metáfora bem construída e potencializada de nossa sociedade, mas o filme é uma ficção da ficção. Nesse sentido o terror do longa-metragem se estabelece com uma esfera angustiante de ameaça constante a “vida” dos personagens. Bem, se é que é vida, pois eles estão no inferno. Afinal, pela cultura ocidental, é no submundo, no Hades, no Sheol, no Tártaro que ficam presos aqueles que por seus crimes (é óbvio) ou vícios (como o de fumar) são punidos. Mas no Poço não há necessidade de “grelhas” para arder a alma do maus. “O inferno são os outros”, como diz o filósofo Jean-Paul Sartre, pois “projetamos nos outros a nossa realização e aguardamos deles que amenize o vazio que nos habita”. Desta forma, O Poço é uma roupagem nova para a punição no inferno, no qual as chamas eternas são substituídas pela fome que queima e pela centelha de uma esperança na mudança do outro, ou do sistema que nunca ocorre ou ocorrerá.

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3. O inferno de Dante: no fundo O Poço

A primeira parte da consagrada obra de Dante Alighieri está nas entrelinhas do funcionamento do Poço. Este poema com mais 14 mil versos conta a história de Dante que decide encontrar sua amada Beatriz após sua morte. Para isso ele passará pelo Inferno, onde é guiado pelo poeta latino Virgílio, o Purgatório e o Paraíso. A parte mais conhecida é justamente o Inferno porque ficou notória a crítica social à Itália do século XIII em que o poeta colocou no poema todos os seus desafetos e a elite daquele tempo. Mas é justamente as nove regiões do Inferno de Dante que inspiram diversas passagens do filme, inferno esse também em andares cada vez mais profundos, os círculos. O filme está na ordem inversa da obra do poeta italiano: do nono ao primeiro ciclo (dos andares superiores do Poço ao último).

  • 141_04O nono círculo: Os traidores – No poema italiano é o Lago Cócite, pavimento de gelo. Aqueles que traem seus companheiros ficam aprisionados aqui. E a traição aqui é baseada na fome, quando a amizade é esquecida em favor da fome, ou mesmo quando se quer reter algum alimento do banquete às escondidas. O ambiente começa a congelar (ou esquentar) de forma drástica. Qualquer andar ou pessoa é traidora: fica claro e até ÓBVIO para quem vê os primeiros momentos do filme.
  • 141_05O oitavo círculo: Pecados e calor – Neste ciclo há muitos pecados listado a arder nos vapores infernais. Novamente vemos os mais diversos pecadores no andares do poço. Por mais que a gula seja o que mais chama a atenção, há luxúria, ira, inveja… Mas sempre puníveis com o calor se alguém burlar as regras da fome.
  • 141_06O sétimo círculo: A violência – Neste ciclo está todo aquele que agiu contra o próximo. Assim todos podem praticar a morte no Poço e agir contra o próprio companheiro de cela. Em Dante é o Vale da sombra da morte; no Poço é a morte do outro que vale. Não há confiança e todos serão tomados pela violência em algum momento.
  • 141_07Sexto círculo: Os hereges A fé não está resguardada, nem em quem acha que a solidariedade é o caminho, nem em quem quer usar a corda como atalho para sair do Poço. Aqui a noção de Deus é distante e pouco a pouco todos se distanciam dele, sem deixar de blasfemar ou deturpar os valores cristãos: homens bons matam, mulheres boas interpretam a Bíblia de forma hedionda e a própria existência de Deus é questionada.
  • 141_08Quinto círculo: Ira – Em Dante é um lago de sangue onde ficam mergulhados os irados. Pense no Poço, nos assassinatos e no sangue que a todos permeiam. Lembre-se da mulher que mata e vive em constante sujeira sanguinolenta. Ela sempre mergulhada em sua busca sangrenta.
  • 141_09Quarto círculo: AvarentosAcomete a todos no Poço. Não há partilha quanto mais alto é o andar em que os condenados se encontram. Querem o melhor para si e esquecem dos outros. Engordam vergados pelo peso da saciedade e se apegam aos seus itens pessoais.
  • 141_10Terceiro círculo: Os gulosos – Neste círculo do inferno de Dante aqueles que comem demais ficam na lama e são por fim devorados pelo cão de três cabeças Cérbero. É a própria dinâmica do Poço em que aqueles que comem demais imediatamente servirão de alimento, para a fome canina do outro. Não esqueça que há um cão nessa história: Ramsés II, faraó conhecido por Ozymandias (Rei dos Reis). O cão vira vítima da fome, o verdadeiro Cérbero, rei dos reis do Poço.
  • 141_11Segundo círculo: O julgamentoAcontece de forma crua e seca na entrevista antes de entrar no poço com a escolha da comida favorita e do objeto que levará para prisão. Minos, ser infernal, julga em Dante; a administração e os formulários no Poço. O inferno já estava ali desde sempre.
  • 141_12Primeiro círculo: Limbo – Primeira região de Dante é onde está os que morreram pagãos, que não conheceram Jesus e que vagam na eterna escuridão devido a não iluminação de suas mentes. O último andar é o primeira círculo da Divina Comédia. Uma menininha oriental, não batizada, pagã perto do divino (o andar é 333, três vezes, número da Divina Trindade), mas longe da salvação. Andar que também é o da besta visto que 333×2 dão 666 pessoas condenada (como salientou Dan Pereira Leite). E por fim um Gorik fadado ao limbo, a escuridão de quem não conheceu a salvação ou a luz.

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4. Dom Quixote e a antropofagia

Se pensarmos que O Poço é uma representação do Inferno e que a principal punição deste lugar hediondo sãos as ações dos outros, fica fácil entender as motivações do protagonista Goreng. Ele escolhe estar no Poço em busca de redenção pessoal em relação ao seu vício em fumar. Acredita que expiará essa falha, que será um herói do auto domínio. Acredita nessa ilusão. Se observamos a caracterização do ator, ele nos lembra da imagem que temos de Dom Quixote, herói do livro de Miguel de Cervantes, o fidalgo que acreditou ser um cavaleiro andante e que lutava por uma donzela que não existia. Goreng é um homem abastado que quer ser herói de si mesmo (vencedor do vício) e do Poço (ao tentar salvar a mãe e sua filha). Mas seu Sancho Pança, óbvio que é o Trimagasi, tenta fazê-lo entender a filosofia do lugar onde ele está, trazê-lo para realidade infernal. Tanto Quixote como Goreng acreditam na ilusão e tem seus Sanchos até o final ao seu lado. Se você tem dúvida, lembre-se da cena em que, literalmente, Goreng come o seu livro, afinal “você é aquilo que você come”. Assim ao final da jornada de Dom Quixote, ele descobre a verdade; Goreng, por sua vez, descobre a ilusão e fica eternamente preso no limbo com Trimagasi.

Por fim há ainda de prestar atenção que Goreng é atormentado por quem ele se alimentou. Não é canibalismo, porque isso seria o simples prazer alimentício de comer carne humana. Não é o caso de nosso “herói”. Podemos dizer que o faz por necessidade. E ao se alimentar do outro, os humanos passam a habitar sua essência. Alimente-se do guerreiro mais forte: antropofagia, um ato religioso. Então Trimagsi e Imoguiri, a dona do cachorrinho, passam a habitar os pensamentos de Goreng e incentivando-o tanto no banquete que desce na plataforma como no banquete humano.

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5. Sempre uma última ceia: a blasfêmia

Quando vemos a antiga recepcionista, Imoguiri, nos delírios de Goreng incentivando-o a comer carne humana, ecoa a citação bíblica da Última Ceia de Jesus com os apóstolos antes de ser crucificado (Mateus 26:17-30, Marcos 14:12-26, Lucas 22:7-39 e João 13:1 até João 17:26). Para ser o inferno precisa deturpar os valores de Deus de alguma forma e nada do que levar ao pé da letra “comer do meu corpo e beber do meu sangue”. Nesse ponto o Poço parece ironizar as primeiras perseguições feitas aos cristãos primitivos, acusado de fazerem sacrifícios humanos pelos Romanos. Muitos cristão foram morto por causa dessa interpretação. Os pagãos entendiam esses trechos como literalmente um sacrifício e não como rito simbólico de memória. Se para um cristão comer e beber da essência de Jesus os deixam saciados de qualquer fome carnal ou espiritual, para Goreng cada banquete sanguinolento só o leva a uma fome maior e desesperadora.

Outro dado: a trajetória de Jesus fala de uma mesa em que todos possam se alimentar, o banquete dos justos. É o comensalismo, uma filosofia que prega que todos devem ser aceitos à mesa e que todos são iguais. Ninguém deve alimentar-se das migalhas da mesa dos ricos (Mateus 15: 21:39). Até o cachorrinho Ramsés II, come mais do que quem está nos andares inferiores. Também o Poço subverte a ótica cristã e nem as migalhas deixa aos famintos e o banquete não é para todos.

Por fim a menina ao final. Aquela que lhe está destinada uma Panacota perfeita, sem nenhum cabelo. Ela mesma pura, limpa. Naquele inferno até a esperança é uma ilusão. No Poço, na Caixa de Pandora, de todos os males a criança é a esperança. Como pode uma menina conservada em um estado tão puro em um lugar hediondo sem se alimentar. Impossível. A última refeição é dela, da esperança ilusória de Goreng, o Dom Quixote do Poço. Ele fica para sempre no Limbo enquanto a esperança e a salvação sobem em alta-velocidade como oferenda de verdade. A esperança sobe veloz e furiosa sem chance de salvação. A mensagem final: bom apetite, pois chegamos ao fim do Poço.

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CONTATO (CRÍTICA)

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SINOPSE
Desde a infância Ellie sempre foi muito curiosa sobre o espaço e,  apoiada e incentivada com o carinho sem fim de um pai atencioso, começou a dar seus primeiros passos no radioamadorismo. Cada pequena descoberta era um evento e motivo de comemoração para aquela inteligente menina. E foi numa noite clara que prenunciava uma chuva de meteoros, que Ted, sem conseguir se despedir, deixou a filha seguir sua jornada solitária. A vida não pegou leve com Ellie, que decidiu se concentrar e fazer o seu melhor, estudando o suficiente para fazer do seu futuro o que quisesse. Optou por seguir contrariando tudo o que era esperado pela sociedade, e guiada pelo coração, se empenhou com o que mais amava, a radioastronomia. Ellie se tornou uma mulher perspicaz, focada e muito decidida, e nada e nem ninguém conseguia interferir em suas convicções. Tanto esforço trouxe retorno, quando nas suas intermináveis leituras do céu conseguiu um resultado positivo. Codificada em sinais de rádio, uma mensagem vinda da estrela Vega, na constelação de Lira, chega trazendo algo que mudaria não só as fundações de Ellie, mas também quebraria vários arquétipos para a humanidade.

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COMENTÁRIOS
Esse é um dos filmes que mais atinge o meu íntimo, pois além de trazer um assunto que gosto muito, que é a astronomia e a possibilidade de existência de vida pelo vasto cosmo, a mensagem relativista de Einstein é abordada de forma leve e poética para que qualquer audiência possa compreender. E se tem algo que sempre me agrada muito, é a democratização de linguagem para facilitar o acesso ao conhecimento. O saber é algo efêmero e desimportante quando você não consegue retransmiti-lo, e nesse sentido tenho Carl Sagan como gênio e herói. Contato (Contact, de 1997), é um drama de ficção científica baseado no romance homônimo do próprio Sagan, lançado em 1985, no qual é retratado de forma ficcional uma cientista da SETI que após anos cobrindo o infinito firmamento, encontra uma misteriosa onda sonora proveniente de Vega, a quinta estrela mais brilhante do nosso céu noturno e que se encontra na constelação de Lira.

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Vamos falar um pouco sobre o que é real aqui e de onde surgiu toda esta ideia. SETI é a sigla em inglês para Search for Extraterrestrial Intelligence, que em tradução é Busca por Inteligência Extraterrestre. Esse programa é real e foi iniciado em 1980 por Carl Sagan, Bruce Murray e Louis Friedman, quando fundaram a U.S. Planetary Society. O objetivo era o proposto no próprio filme, fazer um pente fino no nosso céu esperando encontrar sinais de rádio que pudessem estar ligado com mensagens ou atividades extraterrestres. E foi no dia 15 de agosto de 1977 que SETI ganhou fama, quando Jerry Ehman, um dos participantes do projeto testemunhou um forte sinal captado por um radiotelescópio. Ehman circulou a indicação espectral em um papel e exclamou a descoberta com um “Wow!” Rapidamente aquela impressão circulou pela grande mídia, fazendo o discreto programa receber grande notoriedade.

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Ninguém é completamente uma coisa ou outra quando se trata de racional e emocional, simplesmente nosso cérebro não funciona como talvez tentemos nos convencer. Cada pequena convicção e crença que temos estão interligadas e conversam a todo momento. Em Contato temos Ellie, uma jovem que não conheceu a mãe e que tinha apenas no pai o referencial e alicerce de vida. Devido sua inteligência emocional ser bastante sólida, a jovem não se desespera com a partida do pai, e se apega no entendimento racional de que a natureza funciona desta maneira. Simplesmente as pessoas morrem. Isso era o que ela dizia para si e tentava se convencer, mas a realidade é que em seu subconsciente a não aceitação persistia. Seu ímpeto em renegar a existência de um Deus ou força maior, nada mais era que um grito de socorro silencioso em sua alma por compreender aquilo que estava fora do seu alcance de compreensão e intervenção. E é quando ela conhece Palmer, graduado em teologia e homem que procura boa parte de suas respostas na fé.

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As essências de ambos eram completamente opostas, assim como a árvore de conhecimento que traziam de suas formações como indivíduos. Palmer era alguém aberto e pronto para ouvir e conhecer, romantizava ideias não se importando com certezas absolutas, enquanto Ellie era apaixonada e petulante, questionava com ceticismo e sem ser honesta em querer ouvir discursos dos quais já se sentia convicta de compreender onde chegariam. Palmer enxergava isso nela e mesmo assim a admirava, sabendo que alguém inteligente como Ellie não se força a qualquer coisa, você apenas acompanha e aprecia como escala os degraus evolutivos do autoconhecimento, e se alimenta de satisfação por ter tido a oportunidade de estar presente naqueles momentos. O milagre da vida para Palmer era viver, não tinha exatamente a ver com Deus, e quanto a Ellie, ela ainda precisava compreender sua verdadeira motivação de existir. Não confunda, seu trabalho era a pergunta, e seu milagre seria a resposta.

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COMENTÁRIOS COM SPOILERS
O grande trunfo de Contato não está em trazer a pauta do quão grande é o universo e, o quanto somos insignificantes visto a grandeza de sua vastidão.  Claro, também é sobre isso. Sobre o como podemos ser presunçosos em pressupor que um planeta jovem como a Terra abrigaria o homo sapiens com seus 350 mil anos de existência e, essa criatura fosse capaz e a portadora de toda a filosofia e reflexão sobre a existência do tudo, frente a possíveis bilhões de civilizações com outros bilhões de anos em escala existencial na nossa frente. Sim, sinta-se pequeno! É isso que você é! É isso que eu sou! Não olhe para baixo achando estar no topo da pirâmide do conhecimento, mas olhe para cima com humildade e saiba que toda a verdade sobre o tudo que você possa um dia almejar conhecer, possivelmente está muito além e distante de nós.

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Pode parecer cruel e realmente é para alguns, mas certamente não para você que está lendo humildemente este texto de um desconhecido que nada conhece sobre a sua vida para fazer tais afirmações. Mas eu ouso te sugerir ter orgulho de quem você é, mas o faça através dos vislumbres dos olhos de outros, cobiçando sempre o objetivo de aprimorar o seu futuro. Ademais, nossa inteligência tem uma variedade de aplicações, e não são apenas para escaladas sociais, mas também para encantar, ensinar, em principal, dividir. Se você acha que detêm o ouro e está escondendo para se tornar inalcançável, infelizmente você não compreendeu a mensagem. Para mim Contato é isso, o mergulho numa experiência de uma personagem que inconscientemente quer buscar a verdade, que enxergou isso através dos olhos de um homem crédulo demais para sua realidade, por quem se apaixonou ao notar a mesma integridade que eu pai carregava e que alimentava sua alma. As palavras similares, o tom acolhedor, a forma de pensar, todas essas coisas serviam como um gatilho para Ellie, que mesmo relutante em se entregar, não perdeu o mesmo espírito aventureiro que a fez entrar numa máquina de função e intenção desconhecida.

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Quando Ellie, com pernas trêmulas adentra aquele grande maquinário alienígena, ela não tinha nada além da esperança de que tudo estaria bem. Aquele era o seu verdadeiro rito que a transportaria para uma realidade sem retorno, seu verdadeiro salto da fé. Uma coisa são cientistas confiarem em seus semelhantes e na intenção coletiva de buscarem algum feito ousado, outra é ouvir uma voz desconhecida sugerindo um movimento para uma possível morte. Ou quem sabe algo até pior. Aquela era a verdadeira Ellie, destemida e buscando a verdade para uma pergunta que ainda se formularia num paradoxo de consciência e inconsciência que só almejava o conforto de sua mente em eterno confronto de fé e razão. Precisando ser forte e solitária neste instante, Ellie se agarra na sua natureza impetuosa e se aprofunda num túnel quântico que a transporta possivelmente até Lira.

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A excursão não saiu barata, fazendo incluir a oferta do famoso dilema do destino ou acaso, quando Ellie ao se desprender do seu acento de segurança para recuperar a bússola dada por Palmer, sobrevive ao impacto do abrupto repouso de sua cápsula. Quando finalmente ela toca algo que poderia chamar de solo e, como em seus sonhos com California, era assim que aquele lugar se parecia. Não tarda muito e uma silhueta espectral vai tomando forma ao se aproximar dela. Ellie simplesmente foi presenteada com aquilo que estava registrado em seu íntimo, a figura de seu pai. Aquele não era ele, ela sabia disso, mas em seu coração estava tão confortada com a pureza da ilusão de quem sabe que apenas uma entidade bem intencionada poderia acessar, entender e proporcionar, que se expôs por completo e sem medo a todo aquele momento. Tudo aquilo era para Ellie, e por qual razão ela foi a escolhida e não outro? Talvez por apenas ela procurar com a fé de verdadeiramente encontrar e, quando encontrou, continuou acreditando. Ellie encontrou seu destino e sua verdade, que pode ser baseada até mesmo numa ilusão, mas que para ela ainda assim é a verdade. Ellie entendeu a mensagem de forma alta e clara, câmbio.

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ELENCO E FICHA TÉCNICA
Jodie Foster, Jena Malone, Matthew McConaughey, David Morse, Tom Skerritt, James Woods, John Hurt, William Fichtner, Angela Bassett, Jake Busey, Rob Lowe, Geoffrey Blake, Max Martini e Steven Ford compõem o elenco. Dirigido por Robert Zemeckis, Contato é um drama de ficção científica baseado no romance homônimo de Carl Sagan com Ann Druyan, publicado em 1985. Adaptado por James V. Hart e Michael Goldenberg, e produzido por Steve Starkey e Robert Zemeckis, o longa da Warner Bros. foi produzido nos estúdios da South Side Amusement Company. Seu orçamento de consideráveis 90 milhões de dólares foram revestidos num faturamento de mais de 170 milhões.

CONCLUSÃO
Não sei se você conhece Carl Sagan e qual era sua proposta quando se tratava de abordar a ciência como um todo. Vou só listar um pouco sobre quem era este brilhante homem, que partiu cedo mas deixou um vasto legado e boas lições. Sagan era cientista, físico, biólogo, astrônomo, astrofísico, cosmólogo, escritor e divulgador científico, que nas horas vagas se empenhava ao máximo para levar da forma mais simples tudo o que conhecia, e para qualquer um que quisesse aprender. Era o tipo de cara que não te ignoraria na rua, pois sabia que você, um mero desconhecido, poderia ser um oceano de novas descobertas para ele. Considero Contato sua magnum opus, e hoje, mesmo com mais de vinte anos de idade, é um filme atual e que tem muito a ensinar sobre a vida, e não apenas ciência, para qualquer um que esteja disposto a aprender.

Para criaturas pequenas como nós, a vastidão só é suportável por meio do amor.
– Carl Sagan

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BRILHO ETERNO DE UMA MENTE SEM LEMBRANÇA (CRÍTICA)

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SINOPSE
132_01Joel é um cara pacato, calmo até demais. Está sempre mergulhado nos próprios pensamentos tendo bastante dificuldade de expressar seus sentimentos, e recorre sempre em anotar e desenhar todas as suas experiências diárias. Aquele pequeno caderno era seu único confidente, até que certo dia ele conhece Clementine, uma mulher impulsiva e inquieta, muito diferente da forma que ele agia. Mas isso não foi um impeditivo, a paixão foi avassaladora e um se entregou ao outro sem ponderar qualquer estranheza bastante rápido. Certo dia Clementine em um dos seus impulsos decide contratar um serviço curioso, no qual todas as suas memórias sobre um alguém poderiam ser apagadas. E assim Joel é excluído por completo das lembranças da moça, fazendo com que o introspectivo rapaz se desesperasse. Ele não compreendia a razão dela ter feito aquilo, mas decidiu que já que as coisas eram assim, então também a esqueceria. Durante o processo de limpeza, Joel passa por experiências transcendentais, acabando por se convencer a desistir de perder aquelas coisas que o fizeram tão bem em pelo menos parte da sua vida, no entanto, de que forma ele poderia desistir daquilo que escolheu começar?

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COMENTÁRIOS
Apesar de contar com um elenco de grandes nomes, Brilho Eterno é um filme que se destaca por si só, não dependendo apenas de seu elenco. Ele conta inclusive com a participação de estrelas como Kirsten Dunst, que apesar de uma participação pequena, traz grande relevância para a história. Mas, a sua força está no roteiro de Charlie Kaufman, ganhador do Oscar como Melhor Roteiro Original, que traz de forma muito sensível essas memórias, muitas vezes dolorosas, de uma relação exausta, desgastada pelas diferenças e pela rotina, fazendo com que Joel e Clem sequer consigam dialogar sem se atacarem, mas cenas estas que enriquecem de forma significativa a obra.

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A fotografia de Ellen Kuras acentua os tons frios que entram em choque os cabelos e as roupas coloridas de Clementine, caracterizando ainda mais a sua personalidade excêntrica, além de que, as cores de seu cabelo ajudam o telespectador a viajar de maneira mais precisa, entre fatos ocorridos no passado, presente e futuro. Destaca-se também a inspirada trilha sonora de Jon Brion que só acentuam a melancolia da história, principalmente, na cena inicial onde vemos Joel passando por um momento de angústia em seu carro, marcado por uma trilha sonora que nos envolve em seu drama.

O diretor francês Michel Condry mostra muita segurança, principalmente quando trabalha com materiais tão complexos e, umas das curiosidades do filme, é que Michel estava passando por um término de relação durante as gravações de Brilho Eterno, fazendo com que ele mesmo admitisse publicamente que o que parece muitas vezes clichê nas histórias de amor, tomam maior profundidade e significado quando são vivenciadas por nós.

“(…) Como é imensa a felicidade da virgem sem culpa.
Esquecendo o mundo, e pelo mundo sendo esquecida.
Brilho eterno de uma mente sem lembranças!
Cada prece é aceita, e cada desejo realizado”

O título do filme é a estrofe do poema “Eloisa to Abelard”, de Alexander Pope, que inclusive é mencionado no filme, pela personagem de Kirsten Dunst. A obra de Pope, curiosamente, trata-se também de um trágico final de relacionamento e diz que um amante tem de fazer diversas coisas, como amar, odiar, arrepender-se, e muitas vezes até dissimular, mas nunca esquecer-se. É disso que se trata Brilho Eterno de Uma Mente sem Lembranças, uma história de amor, que mesmo com seus mais dolorosos momentos, ainda é melhor do que jamais tê-la vivido.

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COMENTÁRIOS / COM SPOILERS! Para fugir do spoiler pule para O ELENCO E FICHA TÉNICA, depois conclua sua leitura.

“Até agora, a tecnologia foi bem-sucedida em fazer-nos esquecer de tudo… exceto as coisas das quais não queremos lembrar”

, foram as palavras ditas pelo diretor Michel Gondry.

O que esta frase lhe traz à tona quando você pensa em situações (ou pessoas) das quais gostaria de apagar da sua mente? Porque, quando me faço esta pergunta, noto que as coisas das quais mais gostaria de me esquecer, são justamente as, que de alguma forma, mais me afetam. E se me afetam de forma tão profunda, tão significativa, a ponto de me fazer focar nelas tanta energia, será que seria possível, de fato, esquecê-las? Seria possível algum tipo de tecnologia ou terapia capaz de nos fazer superar e esquecer situações e pessoas que estão tão enraizadas em nós?

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Brilho Eterno de Uma Mente sem Lembranças, obra do diretor Michel Gondry, é um filme de 2004, mas continua sendo um filme atual e marcante. Sensível, profundo, ele nos leva a trilhar um caminho por onde passamos pelo romantismo doce e tímido de um começo de relação, aos momentos mais sombrios de seu término. Numa viagem interna e exclusivamente sua, Brilho Eterno não lhe promete nenhuma resposta, apenas mais perguntas sobre o quanto são marcantes algumas pessoas que cruzam nossos caminhos e a forma curiosa e misteriosa com que entram e saem de nossas vidas.

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Jim Carrey, ao contrário de quase todos os seus papéis anteriores, traz um Joel introspectivo, tímido e quase sempre inseguro, que busca desesperadamente entender sua parceira Clementine, interpretada por Kate Wislet, que é uma mulher cheia de conflitos internos e dona de uma personalidade explosiva e muito impulsiva. O filme já valeria a pena pela interpretação impecável dos dois, mas ele nos leva numa viagem ainda mais profunda.

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Joel (Jim Carrey) e Clementine (Kate Winslet) são um casal como tantos outros, que passam por momentos bons e ruins de toda relação, mas que ao se depararem com diferenças tão significativas de personalidade, são tentados a achar que a única solução para eles é o término da relação. Auxiliados por uma empresa especializada em apagar memórias, os dois resolvem que esta é a única medida razoável para que possam seguir suas vidas, sem as lembranças um do outro. O que Joel e Clem não contavam, são que nossas memórias são carregadas de sentimentos e, mesmo as mais distantes, criam ramificações em nosso presente, a partir do momento que são compartilhadas com quem amamos.

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Exemplo: A lembrança de um sorvete tomado numa tarde de verão da sua infância, não estará mais isolada em seu passado, se numa num momento de profunda intimidade e cumplicidade, você descreveu detalhadamente àquela tarde para quem você ama hoje. Nas próximas vezes que você lembrar daquela tarde de verão, ela virá carregada de lembranças doces do seu interlocutor de hoje.

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Sim, cada detalhe da sua vida, cada memória, carrega e carregará para sempre marcas das pessoas pelas quais passaram por ela. A sua comida preferida, a marca de shampoo que usa, as conversas na mesa de jantar, a roupa que você veste, as musicas que você ouve, tudo vem carregado de memórias e influências de pessoas que passaram pela sua vida. Sendo assim, Brilho Eterno, te leva numa aventura muito intensa, na mente de um casal que tenta desesperadamente esquecer-se um do outro, e suas descobertas sobre o quanto marcamos a vida e a mente daqueles que amamos.

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Não são apenas as memórias enraizadas um do outro que nos chamam tanta atenção nesta história, mas nos pegamos pensando até, em até que ponto o amor que sentimos por alguém, está apenas em nossa mente, já que em momentos diversos notamos nos personagens um vazio, uma angústia, um sentimento de falta, mesmo após o procedimento realizado. E não só isso, mas um sentimento de voltar-se a se atrair e se apaixonar pela mesma pessoa mais de uma vez, mesmo que sua mente não traga mais as lembranças desta pessoa. Claro, que esta é uma visão muito mais romântica do que psicológica, mas completamente aceitável para os cinéfilos mais românticos.

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São várias as perguntas que nos fazemos ao final dessa doce e angustiante viagem com Joel e Clem. Inclusive, uma que julgo de grande importância ao se colocar no lugar destes personagens, que seria: O quanto teríamos de aprendizado e amadurecimento, se a cada decepção na vida, pudéssemos simplesmente apagar a experiência vivida e seguir em frente? O que teríamos de bagagem para usarmos em futuras relações para que não sejam cometidos os mesmos erros?

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Uma coisa é certa, Joel e Clem aprenderam algo que, pelo menos na teoria, todos nós sabemos muito bem, que é entender que qualquer forma de relação humana traz desafios, dificuldades, rotina, as vezes até a necessidade de um tempo maior para adaptação, mas que ainda assim, mesmo com todos essas dificuldades e mesmo diante de uma personalidade completamente diferente da sua, é possível usarmos do amor e da razão em medidas iguais, decidindo de forma racional e lúcida enfrentar juntos as diferenças, mas sempre em nome deste amor que transcende à própria mente humana.

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ELENCO E FICHA TÉCNICA
Jim Carrey, Kate Winslet, Kirsten Dunst, Mark Ruffalo, Tom Wilkinson, Elijah Wood, Jane Adams, David Cross, Deirdre O’Connell e Thomas Jay Ryan compõem o elenco. Dirigido por Michel Gondry, Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças, é uma filme de comédia dramática de romance, suspense e ficção cientítica estadunidense lançado em 2004. Adaptado por Charlie Kaufman, o longa se baseia numa história do próprio Kaufman em conjunto com Michel Gondry e Pierre Bismuth. Produzido por Steve Golin e Anthony Bregman, utilizou os estúdios da Anonymous Content e da This is That Production. Com cinematografia de Ellen Kuras, foi editado por Valdís Óskarsdóttir, e sua trilha sonora é composta pelo multi-instrumentista Jon Brion. Distribuído pela Focus Features LLC, a produção teve um orçamento de US$ 20.000.000, e faturou US$ 72.300.000.

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PREMIAÇÕES
Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças foi um dos filmes que mais repercutiu em 2004, sendo grande sucesso de crítica e público. Recebeu em 2005 o Oscar para Melhor Roteiro Original, e Kate Winslet foi indicada como Melhor Atriz. No BAFTA de 2005 recebeu dois prêmios, Melhor Montagem e Melhor Roteiro Original, bem como foi indicado nas categorias Melhor Ator para Jim Carrey, Melhor Atriz para Kate Winslet, Melhor Direção, e Melhor Filme. Na Dinamarca foi indicado ao Prêmio Bodil na categoria Melhor Filme, na França com Prêmio César de Melhor Filme Estrangeiro, e no European Film Awards de 2004 foi também indicado como Melhor Filme Estrangeiro. Indicado em quatro prêmios do Globo de Ouro nas categorias Melhor Filme Musical ou Comédia, Melhor Ator em Filme Musical ou Comédia para Jim Carrey, Melhor Atriz em Filme Musical ou Comédia para Kate Winslet, e Melhor Roteiro. No Screen Actor Guild Kate Winslet foi indicada como Melhor Atriz, enquanto venceu na categoria Melhor Roteiro na Writers Guild of America. Na premiação do Satellite Awards foi indicado em três categorias, Melhor Filme de Comédia ou Musical, Melhor Atriz de Comédia ou Musical para Kate Winslet, e Melhor Efeitos Visuais. Por fim foi indicado no Grande Prêmio BR do Cinema Brasileiro como Melhor Filme Estrangeiro.

CONCLUSÃO
O Brilho Eterno de Uma Mente sem Lembranças não acaba na obra, pois mesmo após o seu término, ele continua presente em nossa mente. E apesar de sua classificação ser para 14 anos, não é um filme de público alvo tão abrangente. É um romance para quem gosta desta viagem interna na mente humana e suas relações, sendo então mais indicado a um público disposto a não somente consumir, mas interpretar a obra por completo.

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1917 (CRÍTICA)

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SINOPSE
Em abril de 1917, durante os movimentos sangrentos da Primeira Guerra Mundial, os alemães se afastaram por um momento de um setor da Frente Ocidental no norte da França. Os dois soldados britânicos, Blake e Schofield, são selecionados para uma missão de alta prioridade entregue pelo General Erinmore. Atravessar o mais rápido possível o território inimigo com fim de entregar a mensagem de cancelar um ataque, uma vez que a inteligência havia descoberto que o recuo opositor se tratava de uma calculada manobra à nova área de linha defesa alemã em Hindenburg, onde uma forte barreira de artilharia fora montada. Blake estava mais estimulado que Schofield, já que seu irmão estava no 2º Batalhão do Regimento de Devonshire, aquele que seria o alvo da armadilha alemã. Os dois então marcham cruzando o hostil território inimigo obedecendo a ordem, numa tentativa heróica e impossível para salvar aquelas 1600 vidas que dependiam apenas de uma mensagem.

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CATARSE OFF-TOPIC
Durante nossas vidas passamos por muitas fases, algumas muito boas, outras ruins, e por vezes nos vemos reflexivos encarando vazios sem saber aproveitar tão bem nosso tempo. Todo mundo tem um pouco disso vez ou outra, e pelos mais variados motivos. Acontece com você e acontece comigo, e este é o meu primeiro texto integralmente escrito depois de passar pela minha própria via crucis. Geralmente você não vê confissões tão pessoais num site, mas o NerdComet nasceu assim, com uma primeira postagem falando sobre saudade de alguém infinitamente importante para mim, sobre alguém que partiu cedo demais. Ainda não alcançamos lugar nenhum tão alto, porém esse espacinho já me proporcionou muitas coisas boas e conquistas. O que era uma sugestão de atividade trocada entre dois grandes amigos virou minha principal e única válvula de escape por um bom tempo. Não sei se somos bons no que fazemos, e falando exclusivamente por mim, nunca fui um bom estudante. Muito diferente do Marco Lima, que é um eterno discente, estando sempre se lapidando para buscar a maestria, e levar seu conhecimento aos outros. Tenho orgulho de você cara!

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Tolo é aquele que não percebe o valor da amizade, o vínculo social mais importante ao ser humano. Autossuficiência é arrogância, mera presunção. Um misto de burrice por insistir na solidão estando preso numa esfera com bilhões de vidas semelhantes. Ninguém precisa disso e ninguém merece isso. Se permita ser puxado de volta do abismo se uma mão te oferecer ajuda, não existe fossa abissal funda o suficiente da qual não possa escapar. Talvez eu pareça seguro para muita gente, mas no meu íntimo sei quanto frágil sou, não foram poucas as vezes que precisei disso e fui resgatado. Todos enfrentamos demônios, não ache que você é diferente, não seja tão arrogante, vai sempre surgir um anjo para te salvar. Alguns destes heróis possuem asas ou capas, podendo até voar, mas como é o seu anjo da guarda é só você quem pode dizer. 1917 fala sobre heroísmo, sobre quem resiste ao impossível, atravessa as mais penosas provações, flagelando a própria alma, mas chega ao seu destino. Foi se mantendo de pé, imponente, com cabelos manchados de vermelho sangue, que como uma fênix, tal mítica e majestosa criatura que se destrói e renasce, superou os mais espinhosos caminhos da devastadora crueldade da vida, onde me alcançou e entregou uma mensagem de salvação.

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COMENTÁRIOS
Finalmente vamos assistir um filme, nosso primeiro do ano, nosso primeiro da nova vida! E devido a minha fase reflexiva, eu estava completamente disperso sobre do que se tratava 1917. Eu não sabia absolutamente nada! Parece ridículo? Mas eu não sabia ao menos o gênero do qual era! Mergulhamos juntos para descobrir então. Eu ainda estava aéreo no começo do filme, com a expectativa de um filme arrastado, pois é assim que ele soa no comecinho. Sim sou bastante ansioso, mas enfim. Uma caminhada por longas e complexas trincheiras enlameadas no fronte da Primeira Grande Guerra Mundial e uma pulga já coçou atrás da orelha. Que cenário enorme era aquele?! Dois jovens homens de feições abatidas por participarem da tragédia que é a desgraça de uma guerra, discutindo enquanto trombam e tropeçam em tudo naquele ambiente úmido, escorregadio e insalubre. Um número sem fim de outros jovens tão acabados e nervosos quanto, uns feridos por fora e outros quase mortos por dentro. Uns apontavam rifles para o lado inimigo sob aquele firmamento nublado, de ar pesado da morte, sem ter muita esperança daquela merda em algum momento acabar. Outros se entregavam à angústia, apáticos olhando pequenas fotos da família, tragando de uma só vez um cigarro. Cada um sobrevivia seu próprio inferno.

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Schofield e Blake tinham uma missão ordenada por um superior, nitidamente uma passaporte apenas de ida para o vale da morte. Atravessar o território inimigo com o fim de entregar a mensagem para cancelarem um ataque. Uma verdadeira corrida contra o relógio, atravessando oceanos de lama, circundando muitos corpos, se esquivando do chumbo quente. Que viagem incrível meu amigo! Algo que começa ameno, vai avançando vertiginosamente alcançando um grau de tensão incalculável. Não sou estudante de cinema, mas com o tanto que já assisti sei identificar algumas coisas. E uma delas são os planos sequências. Eu ainda me pergunto se fui enganado por alguma ilusão de um grande mestre da direção chamado Sam Mendes, mas admito que ele me convenceu de que toda a extensão dos 119 minutos de 1917 possuíam únicos, e 4 enormes planos sequências. Sabendo você ou não, explico brevemente o que é isso. Um filme possui várias tomadas na grande maioria das vezes, aquele momento em que o diretor grita para todo o set de filmagem que está gravando! Ele pode berrar “ação!”, enfim. Deste momento em diante é foco total para o que está sendo registrado, afinal, todo o trabalho árduo da equipe é apenas para produzir aquele momento. Então entenda que tudo o que acontece nessa tomada (esse plano sequência), precisou ser minuciosamente decorado, sejam tanto as falas quanto os movimentos pelo set. E se você assistiu 1917, você vai entender a proporção da complexidade do que é andar por quase meia hora num cenário tão grande. O fundo é verde? Eu não sei, não quis me dar o direito de pesquisar nada antes de fazer esta resenha. Só o que eu sei é que aquilo tudo me pareceu absurdamente fantástico! Nunca me senti tão imerso num filme assim, seu realismo é simplesmente estupendo.

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A direção é fantástica, e não acredito que outro cara mereça a premiação máxima do mainstream. Deem logo um Oscar para esse cara! No entanto mais uns outros merecem ser parabenizados, como a porra do diretor de fotografia! Roger Deakins. Um gênio que já trabalhou em obras como Um Sonho de Liberdade (1994), um dos meus filmes favoritos de todos os tempos (e creio que de muitos), Fargo (1997), Skyfall (2012), e que levou uma estatueta do carecão em 2018 por Blade Runner 2049. Para 2019 ele está indicado mais uma vez, décima quinta com 1917, e se Academia não for injusta, o maluco vai levar! E Thomas Newman, você sabe quem é? Não? Compositor e maestro californiano, mais de 60 anos, caucasiano, vários centímetros de altura, e que foi indicado ‘fucking’ Oscar onze vezes por suas trilhas sonoras! Dois Globos de Ouro, dois BAFTAs e duas premiações do Grammy. Um Sonho de Liberdade (1994), Perfume de Mulher (1992), Beleza Americana (1999), Skyfall (2012), são apenas uma parte do seu portfólio, e advinha, mais uma vez ele está indicado com 1917 ao Oscar. A disputa vai ser pesada, nessa categoria a concorrência é boa, mas desejo sorte, pois seu trabalho ficou sensacional! Assim como toda a edição de som, simplesmente um exemplo a ser seguido pelo cinema de alto padrão.

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Não posso esquecer dos atores. O que seria de 1917 sem esses caras? E não, não estou falando de Colin Firth ou do Doutor Estranho, mas da dupla de jovens George MacKay e Dean-Charles Chapman, que carregam todo o peso dramático do longa como dois veteranos responsáveis, tanto como soldados, e como artistas cênicos! Brutal! Simplesmente brutal! Para mim, o Dan, não existiria possibilidade alguma de  George MacKay estar fora dos indicados ao Oscar de Melhor Ator em 2020. O rapaz bagunçou com o coreto! Mostrou vigor físico, equilíbrio (no sentido literal as vezes), e uma eficiência bizarra de decorar diálogos e caminhos em terrenos complicadíssimos. No meio de um caos que imagino que tenha sido esses gigantescos plano sequências o cara conseguiu recitar com perfeição até mesmo um belo e um pouco comprido poema. Quem diria que o pequeno e não tão expressivo Curly de Peter Pan (2003), em seu primeiro trabalho para as telonas, viraria esse monstro como ator? Só tenho de parabenizar, fantástico!

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ELENCO E FICHA TÉCNICA
George MacKay, Dean-Charles Chapman, Mark Strong, Andrew Scott, Richard Madden, Claire Duburcq, Colin Firth, Benedict Cumberbatch, Daniel Mays, Adrian Scarborough, Jamie Parker, Michael Jibson, Richard McCabe, Chris Walley e Nabhaan Rizwan compõem o elenco. Coescrito por Sam Mendes e Krysty Wilson-Cairns, 1917 é um filme guerra épico de 2019 em parceria entre Estados Unidos e Reino Unido. A direção é de Sam Mendes, experiente diretor com uma bela lista de trabalhos. Direção de fotografia de Roger Deakins, direção de arte de Dennis Gassner, figurino de David Crossman e Jacqueline Durran, trilha sonora de Thomas Newman, e edições de Lee Smith. A produção traz os investidores Sam Mendes, Pippa Harris, Jayne-Ann Tenggren, Callum McDougall e Brian Oliver, e as execuções foram nos estúdios da DreamWorks Pictures, Reliance Entertainment, New Republic Pictures, Mogambo, Neal Street Productions e da Amblin Partners. Com um orçamento próximo dos US$ 100.000.000, o longa de guerra gerou uma receita de mais de US$ 200.000.000.

CONCLUSÃO
Eu precisava disso. Precisava de um bom filme para clarear minha mente e sair do estado de confusão mental que me encontrava, e olha o presente que recebo. Um puta filme de guerra com proporções épicas! Direção brilhante, fotografia sem igual, uma trilha sonora inspiradora, e a atuação de um rapaz que na minha opinião tomaria o prêmio de todos os indicados ao Oscar, e considero uma injustiça o cara ao menos ter sido cogitado. Mas isso não importa, para mim ele é o grande vencedor da noite. Enfim eu lavei minha alma com o primeiro de muitos filmes que assistiremos e comentaremos juntos a partir de agora. 1917 é um filme a priori adulto, traz violência, cenas de consumo de drogas lícitas e linguagem madura, sua classificação etária é de 14 anos. Recomendo assistir no cinema enquanto der tempo, ou esperar para conferir em casa, de preferência com uma boa projeção de imagem e som, pois esse filme merece. Espero que tenha gostado e que deixe seu comentário, nos veremos com mais frequência a partir de agora.

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BAAHUBALI 2: A CONCLUSÃO (CRÍTICA)

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ATENÇÃO! De forma alguma leia esta crítica sem ter visto Baahubali: O Início primeiro, isto está repleto de spoilers! Afinal, os dois filmes são sequências diretas e não podem ser dissociados.

SINOPSE
Mesmo sendo criado por uma humilde tribo e por pais amorosos, Shivudu sempre buscou compreender sua verdadeira origem, e para isso ele superou grandes desafios, alcançando o até então desconhecido reino de Mahishmathi no topo da montanha. O que era apenas uma curiosidade que tomava como inspiração uma ilusão, fez revelar uma enorme decepção. A desigualdade e a injustiça imperava sobre um povo que clamava por salvação, então o filho de Baahubali, junto aos resistentes contra a tirania, ascendeu como Shiva buscando por restauração. O que Shivudu tocou se iluminou, e o que não bastava apenas sua vontade, ele tomou com fúria para recobrar o equilíbrio. Sem saber se destinado a nada, cumpriu como o Ganges seu caminho, devastando tudo para que se reconstituísse. Encontrou e libertou Davasena, sua mãe biológica, que mesmo sendo física e psicologicamente torturada, se manteve firme como uma verdadeira progenitora de um Deus, e que sabia que a Salvação um dia viria. Shivudu encontrara alguns dos personagens que poderiam fazer entender sua real história, e era chegada a hora de compreender definitivamente qual a sua herança e responsabilidade com Mahishmathi. O que seu pai havia vivido, pelo que lutou, conquistou, e quais os reais motivos que levaram a sua morte prematura. Shivudu queria saber tudo para compreender a melhor forma de mudar o futuro de seu povo como um verdadeiro herdeiro e merecedor do trono, como a Rainha Sivagami um dia profetizara.

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COMENTÁRIOS
Depois de Baahubali: O Início (2015), Tollywood sentiu novamente o gostinho de estar entre os holofotes do mundo com a sequência da sua super produção épica de fantasia. Aqui pelo Brasil não tivemos a oportunidade de assistir esse blockbuster indiano nos cinemas, mas nos Estados Unidos Baahubali 2: A Conclusão ficou em terceiro lugar nas bilheterias por uma semana. Talvez você tenha estranhado o termo “Tollywood”, então explico. O cinema indiano é dividido em dois grandes polos de estúdios cinematográficos (e muitos outros menores), a já tradicional e conhecida Bollywood, de Mumbai, que tem como o idioma o hindi, e Tollywood ao sul do país, que tem como língua o telugu. E não apenas com a dobradinha Baahubali, mas Tollywood já superou a gigante rival algumas outras vezes com outras produções.

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Enquanto em Baahubali: O Início assistimos o retorno de Shivudu à suas origens, mesmo que sem saber, nesta sequência somos inseridos nos acontecimentos da geração anterior, mostrando detalhadamente os passos de seu pai. E é aqui que a coisas começam a ficar bem loucas de se entender. A primeira coisa que você precisa tomar ciência é que os atores são os mesmos entre filhos e pais, e isso vale tanto para Shivudu, o filho visto no primeiro filme, com ralação ao pai, Amarendra Baahubali, interpretado por Prabhas, quanto para seus antagonistas, Bhallaladeva e seu pai, interpretado por Rana Daggubati. Compreendido isso e nos acostumando com a ideia, não apenas fica mais fácil, mas é a única forma de montar o entendimento de tudo. Mas de qualquer forma encurto um pouco e conto, este, diferente do primeiro filme, é algo muito mais simples de se acompanhar. Enquanto em Baahubali: O Início se fazia necessário montar um enorme cenário, em Baahubali 2: A Conclusão a coisa é bem mais direta, e o que temos nele é um drama romântico (ainda de proporções épicas) com ar de tragédia, porém com bastante comédia e ação de altíssimo nível.

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ENREDO COMENTADO / MUITOS SPOILERS
PULE PARA A CONCLUSÃO OU FICHA TÉCNICA!

Como dito antes, esta segunda parte não tem muito segredo. A proposta aqui é contar como Davasena e Amarendra se conheceram, se apaixonaram, e tiveram suas vidas dificultadas pela inveja e ciúme de Bhallaladeva, que manipulava o amor de sua mãe, a Rainha Sivagami, para sabotar o irmão. E o que temos é uma sucessão de eventos em que Bhalla, frustrado por não ser tão íntegro quanto Amarendra, recorre aos sentimentos mais obscursos de seu interior para frustrar a felicidade do irmão. Simbolicamente é como a história de Caim e Abel original do Gênesis, mas com um desfecho levemente mais complexo e dramático.

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Buscando conhecer mais de perto as dificuldades do mundo real onde seu povo vivia, Amarendra sai em peregrinação com Kattappa, seu tutor e amigo. Amarendra Baahubali não era uma criatura comum, seu senso moral era de um verdadeiro Deus. Ao mesmo tempo que aplicava simplicidade na busca pelo respeito por todos ao seu entorno, sabia exatamente o que era certo e o que era errado. Caminhando aos arredores de Kuntala, uns dos reinos vassalos ao império de Mahishmathi, Amarendra vislumbra Davasena. Uma criatura angelical que tomou dele toda a atenção, fazendo-o se apaixonar perdidamente. Não queria se postar como O Grande Baahubali, se fez de tolo e fraco, sua meta era surpreende-la por ser apenas quem era, não o que tinha ou de onde vinha. Não importava para Davasena que aquele fosse apenas um homem bobo e sem títulos, ela enxergou nele apenas o que ele era, uma infinidade de integridade que príncipe algum se mostrara antes.

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Sabendo do interesse do irmão por Davasena, Bhallaladeva manipula a situação exigindo que Sivagami a lhe desse como esposa, uma vez que a Rainha não sabia do romance de Baahubali com a moça. Davasena nega o pedido. Como uma mulher imponente e independente, não deixaria que outro decidisse por sua vida, e tal ato não passava de insolência para Sivagami, que ordenou um imediato ataque contra Kuntala. Porém a cidade estava guardada pelo maior guerreiro de toda Mahishmathi, Baahubali, que com ferocidade e inteligência guardou o reino de sua amada. Ele não sabia os motivos do ataque, e seu único interesse era retornar para Mahishmathi, apresentar Davasena, e tomá-la como sua rainha no trono. Numa belíssima cena lúdica e musical, com direito até a barco voador, o casal retorna ao reino de Baahubali, onde no palácio real todos os aguardavam. Para surpresa de Baahubali as coisas eram mais confusas do que ele esperava, os traiçoeiros planos de Bhallaladeva intencionavam gerar a instabilidade emocional de Sivagami, que não se via como boa mãe em repartir privilégios. Baahubali era o Rei, e Bhallaladeva, que se vitimiza de forma velada para arrancar a empatia da Rainha Mãe, a colou na posição de ser obrigada a tomar Davasena do melhor filho, ou tirar seu título de Rei. Davasena não se submeteu mais uma vez ao luxo da ordem de Sivagami, era mulher de Baahubali, e não estava interessada em Bhallaladeva. Essa mais nova insolência incurtiu na ordem real por sua prisão imediata, que fora impedida de imediato por Baahubali. Amarendra Baahubali não deixaria que ninguém tocasse em sua mulher.

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“Se encostarem a mão em Davasena, sofrerão a ira da espada de Baahubali.”

A discussão causou instabilidade na realeza, e seria agora após Sivagami ser derrotada moralmente pelo juízo imaculado de Baahubali, que Bijjaladeva articularia manipulando para que seu filho Bhallaladeva tomasse o trono. Sivagami estava dividida e ferida, o que facilitou para que decidisse em retirar o trono de Baahubali e assim coroar Bhallaladeva, uma vez que as opções não existiam para o campeão de Davasena.

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Baahubali era o encarregado de organizar a coroação do irmão, então como Ministro de Guerra movimentou todo o aparato para saudar o novo Rei de Mahishmathi, Bhallaladeva, filho de Bijjaladeva e Sivagami Devi. Sivagami sabia que pecara com seu melhor filho, e não conseguia enfrentá-lo olhando nos olhos. Baahbubali não se importava nem mesmo de sacrificar a própria existência por seu povo ou por Sivagami, porém quando se une a Davasena, outro ser tão Divino que o completa e o eleva, não se tratava mais apenas de si. Amarendra era o Rei, O Verdadeiro Rei, e não importava se Sivagami dera a ele uma escolha injusta. O trono ou Davasena? Poder não importava para Amarendra Baahubali, isso era apenas um título, escolhera sem titubear a mulher que amava. Mas isso não mudava nada, para seu povo Baahubali era o verdadeiro rei. A verdadeira personificação de Shiva na Terra. E a voz do povo não se escondia, todos saudavam por ele, todo esse amor criava ainda mais inveja no interior de Bhallaladeva.

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Mas algo não poderia ser tolerado, Davasena aprisionada pelas ordens da sua família? Inaceitável! A ira do Deus Rudra, o protetor das terras e dos mares se apossou de Amarendra. Davasena acorrentada e subjugada por um ato tirânico da Rainha Sivagami que estava cega pelos jogos psicológicos de Bhallaladeva, fazia emanar a imponência de Amarendra. Aquela mulher levava dentro de si um filho de Amarendra, e isso fez acordar um Baahubali tão eficaz na destruição, como quanto sempre se mostrou para atos pacíficos. Ouvindo as acusações de Setupaty, um subalterno da realeza, num julgamento real em desfavor de Davasena, Amarendra assolava o locutor. Não importava os alarmes de Bhallaladeva, que ocupava o trono, Baahubali sabia o que era certo ou errado, e ele desafiaria até mesmo Deus para defender sua mulher e filho. Amarendra ainda não compreendia os detalhes de sua prisão, e não queria ouvir daquele qual sua mulher ferira ainda sem conhecer a razão. Sabia quem amava, sabia que sua integridade provinha da pureza, então deixa que Davasena explique. Tentar ser assediada custou os dedos de Setupaty no julgo de Davasena, mas para Baahubali ainda era pouco. E ignorando todos os ritos, pune decapitando aquele que ousara, não apenas por tentar ferir a honra de sua mulher que mesmo sozinha soube se defender, mas de todas as outras de Mahishmathi. Corta por si mesmo as correntes que aprisionavam sua esposa e conclui por si só aquele julgamento. O ato fora reprovado por Sivagami, que mais uma vez de forma injusta decreta o banimento dos dois de Mahishmathi por não respeitar as tradições e ordem do Rei.

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Mais uma vez Baahubali mostra sua grandeza, e com humildade aceita a ordem da Rainha Mãe Sivagami. Isso não mudava nada para Amarendra, agora ele estaria ainda mais próximo como um cidadão comum daqueles que amava, e um rei destronado ainda é um rei quando recebe a glória de seu povo. Se livrando de todas as amarras da nobreza, Davasena e Amarendra se unem de bom coração e são recebidos com amor por toda a plebe de Mahishmathi, e trabalhando junto ao povo também dividiam seus conhecimentos com todos que queriam aprender. Pôde então ver ainda mais de perto os detalhes do sofrimento que se mantinha oculto enquanto vivia recluso em palácios, se inspirando assim em ajudar para melhorar a qualidade de vida daquelas humildes pessoas.

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A  inveja de Bhallaladeva chegava no extremo final, onde conspirava pela morte de Baahubali, Davasena, e do filho que levava dentro de si, fazendo-o contrariar até mesmo o pouco de juízo do próprio pai. Kumara Varma, guerreiro e amigo de Baahubali que antes guardava por Davasena em Kuntala, ouvira todo o plano. Se aproximou de Bijjaladeva com compaixão pelo pai que fora maltratado, mas tudo não passava de uma grande encenação ainda não revelada. Bijjaladeva incitou Kumara Varma para que atentasse contra a vida de Bhallaladeva, porém entregou-o a adaga de Baahubali para que cometesse o assassinato do próprio filho pela paz de Mahishmathi. Imaturo Kumara Varma aceitou acreditando estar fazendo um mal para fazer o bem, mas fora traído e morto por Bijjaladeva com fim de incriminar Baahubali a pena máxima de conspirar pela morte do rei. Uma terceira grande decisão para a Rainha Mãe, principalmente por saber que a morte de Baahubali traria o caos para toda Mahishmathi. Então a covardia suprema e arrojo da culpa é lançado com todo peso em Kattappa, o obediente escravo real que cuidara e treinara Baahubali por toda a vida. O amigo leal mais próximo de Amarendra Baahubali. Sivagami tão cega com tudo mostra duas opções a Kattappa, ou ele mata Amarendra, ou ela mesma o faz. Chorando e relutando ele aceitar cometer o crime supremo, não queria ver seu melhor amigo sendo morto pela própria mãe.

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Duvidando da lealdade de Kattappa em cumprir a sórdida missão, Bhallaladeva e Bijjaladeva colocaram-no como isca para atrair Baahubali, que após salvá-lo de uma fogueira, é alvejado por uma violenta chuva de flechas. A grandeza de Amarendra Baahubali era tamanha que se colocou como escudo para Kattappa, que ainda estava ferido e de mãos atadas. Baahubali se ergue, como um guerreiro imortal. Quebra todas aquelas flechas das costas como se não fossem nada, e encara um inimigo desconhecido no horizonte da madrugada. Eles eram muitos, mesmo que forte estava ferido, e precisava remover Kattappa daquele lugar. Tomou o amigo nos braços e o levou para um lugar seguro. Kattappa dizia que ele precisava fugir, não explicava a razão, mas Baahubali entendia a aflição daquele homem. Sabia de seu sacrifício, assim como Jesus quando traído por Judas. Fazia parte do Grande Plano, e Amarendra Baahubali sabia que renasceria. Sua morte não era o fim, mas um novo início. Do pai, um novo homem renasceria. Ele só precisava de uma coisa, manter Kattappa vivo, aquele que ascenderia o seu sangue numa nova era que viria.

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“Mesmo que eu quisesse abandoná-lo, você prometeu segurar o meu filho nos seus braços.”

Amarendra Baahubali era uma verdadeira divindade. Shiva na Terra. Agora, o Deus da Destruição. Limpou todos os oponentes para deixar caminho livre para Kattappa. Lançou-no uma espada, que fora servira para cortar sua própria carne. Amarendra caiu, mas caiu entendendo a razão. E pedindo para que Kattappa cuidasse de seu filho e sua mãe. Seu melhor amigo o tomou essa vida, mas deveria cuidar da próxima. Era uma promessa.

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Como um espectro aterrorizante, Kattappa surge na entrada do salão real onde apenas a Rainha Mãe estava imóvel encarando o vazio. Abatido pela traição ao melhor dos melhores em favor da lealdade a um reino sujo por injustiças, o guerreiro arrasta sua espada com o sangue divino. Mancha as mãos de Sivagami com último sopro de vida de Amarendra, para que sinta o peso de sua decisão mergulhada em tantas vaidades de uma mulher poderosa. Ainda assim tentando repreende-lo, Sivagami é silenciada duramente por Kattappa, que profere claramente que a Rainha cometera um erro. Se deixou cegar pela raiva por Baahubali, e foi manipulada todo o tempo por Bhallaladeva. E seu ego fora devastado ao saber sobre o último pedido de Baahubali:

“Cuide da minha mãe.”

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Antes mesmo de pensar em Davasena ou mesmo Shivudu que estava por nascer, era sua mãe a maior preocupação. Pois Ele sabia, da dor que viria e, consumiria as profundezas da alma de Sivagami. Saltando num precipício de angústia a Rainha de antes, soberana em postura, desaba ao rememorar o quanto aquele filho, que ao menos era biologicamente seu, era especial. Mas é interrompida de suas reflexões por Davasena, que já com seu bebê nos braços, entra no salão real. Kattappa não esconde o peso da vergonha que sentia, e revela à Davasena o maior pecado de sua existência. Incitada por Bijjaladeva a matar seu neto para o povo não almejar um inquisidor, Sivagami caminha e se abaixa humildemente aos pés de Davasena. Revelando o erro de não ter enxergado as virtudes do homem pelo qual ela lutou e tanto amou, e que agora caía em desgraça. Sivagami sabia não ser possível pedir ou ser perdoada pelos pecados que cometera.

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Bhallaladeva pede a mãe que acalme o povo comunicando oficializando a morte de Baahubali e, Sivagami com grande vigor se ergue, toma o neto no colo, e vai até a borda do palácio, onde comunica a morte de Amarendra. Buscando revogar para consertar todos os seus atos egoístas e mal pensados, ergue o bebê, e comunica que o novo Rei seria “Mahendra Baahubali!” O povo grite em vozes de glória por vida longa a Mahendra Baahubali. Num ato de impedir a insurreição de Baahubali, Bhallaladeva ordena a captura de Sivagami, que é defendida por Kattappa para fugir com Mahendra em seus braços, mas ela ainda precisava salvar Davasena que havia instantes antes dado a luz. Sem mais forças Davasena diz que a dor de perder o marido vai passar, mas que seu filho deveria viver para um dia voltar e libertar Mahishmathi. Sivagami então consegue escapar por uma passagem secreta e alcança o exterior do reino, quando orientado apenas pelo ódio, Bhallaladeva usa de um arco para ferir mortalmente com uma flecha a prória mãe, ainda com Mahendra no colo. Os dois caem num córrego da cercania. Bhallaladeva não tinha limites, e o ódio que tinha por Davasena o fez reduzir Kuntala às cinzas, e aprisionar perpetuamente a mulher de Baahubali. Seu desejo era possuir tudo o que Baahubali conquistava com sua natureza perfeita, mas o coração de Davasena não seria jamais ocupado por um ser tão vil.

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Todos acreditavam que Mahendra havia morrido, mas Sivagami rogou a Deus para que a punisse em sacrifício pela vida de seu neto. E Shiva atendeu. Foram longos 25 anos de espera pelo retorno de Baahubali, e Davasena nunca duvidara do seu retorno. Sua fé era inabalável, Mahendra era Amarendra, a reencarnação do Deus que amara como homem, e em nova vida tem como filho. E agora era o momento do juízo final, Shiva retornava para libertar seu povo dessa maldição! Baahubali reúne seus seguidores para que lutem unidos a ele para enfrentar a tirania de Bhallaladeva, e avança em direção a Mahishmathi com seu pequeno exército de homens simples. Durante o calor da batalha Bhallaladeva avança pela multidão, captura Davasena e foge em sua biga com o encalço de Mahendra. Após entrar nos enormes portões a ponte é levantada, mas Baahubali salta e é atingido no meio do peito por uma flecha desferida por Bhallaladeva. Uma chuva de milhares de outras flechas é disparada, mas Kattappa e seus aliados protegem com escudos a integridade de Mahendra. A crueldade não tem fim, Bhallaladeva não se importa em tirar a vida nem mesmo de seus próprios soldados. Mahendra Baahubali estava irado por Bhallaladeva tomar sua mãe, já estava agindo de forma cega, mas Kattappa o acalma para que pense. Para que pense como um Baahubali.

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Saltando de forma improvável, Baahubali, Kattappa, e mais quatro guerreiros são lançados para dentro das muralhas de Mahishmathi. Com o plano tendo funcionado, outros guerreiros também se atiram para acessar e lutar no interior da cidade. Mahendra sozinho arrebenta as enormes correntes que erguiam a ponte de acesso, fazendo que todos os seus que ainda não haviam entrado pudessem passar. Com toda fúria Mahendra Baahubali investe contra aqueles que açoitavam sua mãe, e pede para que sua mulher, Avanthika, ajude Davasena a acender a pira funeraria que alimentou por anos, galho a galho.

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Bhallaladeva avança contra Baahubali em sua potente biga, e em duelo Mahendra distrói o veículo do tirânico irmão. A batalha vai para o solo, e a briga é feroz. Mahendra é mais forte, ágil e inteligente, mas o ódio de Bhallaladeva faz dele um oponente perigoso. Enquanto isso Davasena caminha com a chama em sua cabeça num ritual sagrado chamado “Prova de Fogo”, onde quem o conclui nunca mais experimentará a derrota. Bijjaladeva ordena que inflamem uma ponte por onde ela terá de passar, e atiram óleo e as chamas lambem com violência. Mas Davasena tem fé que nada irá impedi-la, e mais uma vez Shiva dá o seu sopro. Na voraz luta de Mahendra e Bhallaladeva, Baahubali destrói a gigantesca estátua em ouro do irmão, fazendo com que sua cabeça role, derrube a ponte em chamas, e se transforme num caminho para sua mãe pisar e chegar no outro lado.

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A luta entre os dois irmãos se intensifica se tornando ainda mais sangrenta, o rancor de Bhallaladeva é tamanho que ele tenta arrancar o coração de Mahendra com as próprias mãos. Baahubali consegue se desvencilhar e é atirado longe, mas se levanta com um olhar sinistro encontrando as correntes que aprisionaram e machucaram sua mãe pode tantos anos. Com a angústia acumulada e o peso de honrar sua mãe, se torna monstruoso em combate, subjugando Bhallaladeva à miséria moral. Lança-o sobre a pira de galhos construída por Davasena, e dá um grande salto com sua espada, cravando-a em sua perna para que sua sua mãe ceife sua demoníaca alma nas chamas. E assim finalmente todo o sofrimento pela maldição da mítica Mahishmathi é chegado ao fim.

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“Esta é minha primeira ordem com a Rainha Mãe como testemunha. No nosso reino aqueles que acreditam em trabalho e justiça andarão com a cabeça erguida. Se alguém pensa em fazer mal a essas pessoas, quem quer que seja, sua cabeça queimará no fogo do inferno. Esta é minha palavra. E a minha palavra é lei.”

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ELENCO E FICHA TÉCNICA
Prabhas, Rana Daggubati, Anushka Shetty, Tamannaah, Ramya Krishna, Sathyaraj, Nassar, Meka Ramakrishna, Subbaraju, Rakesh Varre, Charandeep Surneni, Adivi Sesh, Rohini, Nora Fatehi, Tanikella Bharani e Teja Kakumanu compõem o elenco. Criação de K. V. Vijayendra Prasad, Baahubali 2: A Conclusão, teve seu roteiro compartilhado com o também diretor e ator do longa S. S. Rajamouli. A superprodução indiana de 2017 é produzida por Shobu Yarlagadda e Prasad Devineni, utilizando os estúdios da Arka Media Works, assim como na primeira parte. O compositor M.M. Keeravaani também retorna, dando continuidade ao seu belíssimo trabalho . Seu orçamento foi de 38 milhões de dólares (₹2.5 bilhões), e teve um faturamento de 275 milhões (₹18 bilhões). O épico indiano de S. S. Rajamouli, é a segunda parte de uma duologia. Existem boatos de um terceiro longa, mas até o momento, fim de 2019, nada fora concretizado. O importante frisar é que o épico se fecha nestes dois filmes, onde conta primeiro a jornada de Shivudu, e no segundo a história de seu pai, Amarendra Baahubali.

CONCLUSÃO
Afirmo com total segurança que não existe absolutamente nada parecido com Baahubali, e não é para menos, é preciso muita ousadia e competência tanto para escrever a complexidade do seu roteiro, pensar o conceito e, colocar tudo em prática de forma tão grandiosa e funcional. Baahubali 2: A Conclusão abusa da teatralidade e estilo, amarrando com chave de ouro um dos épicos mais bonitos visualmente do cinema, mas que infelizmente será ignorado por muita gente pelo simples fato de ser um filme estrangeiro. Esse é aquele tipo de coisa que traz um sentimento de querer compartilhar com todos. Rasgo seda sim, e neste caso sem a mínima vergonha. Baahubali 2: A Conclusão tem classificação etária de 16 anos, e está disponível, junto de Baahubali: O Início, no serviço por assinatura Netflix.

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BACURAU (CRÍTICA 1)

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No ano de 2019, houve diverso lançamentos muito bons no cinema. Um dos melhores, para mim, foi Bacurau com direção de Kleber Mendonça Filho (Aquarius, 2016) e Juliano Dornelles. O enredo se passa no interior do sertão nordestino, mais precisamente em Pernambuco, em um vilarejo que dá o nome à obra. Logo no início contemplamos como essa comunidade lida com a morte de uma moradora muito querida por todos, dona Carmelita, aos 94 anos.

O interessante que essa narrativa se passa em um futuro próximo, contudo a ambientação, à primeira vista, parece retratar um tempo muito antigo. Nesse aspecto me lembrou outro filme maravilhoso que é Narradores de Javé (2004) e, ao adentrarmos na atmosfera de Bacurau, percebemos seus telefones, tablets e telões de LED que dão o tom moderno à um local rústico.

Outro aspecto pitoresco diz respeito ao funcionamento da dinâmica entre os moradores. Se por um lado é Tereza (Barbara Colen) quem traz remédios da cidade grande, é a médica Domingas (Sonia Braga) que os distribui para todos e atende a qualquer pessoa que venha ao seu consultório.

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COMENTÁRIOS COM SPOILERS
Durante uma aula, o professor Plínio e seus alunos, percebem que Bacurau simplesmente “sumiu” do mapa e partir daí que as coisas se complicam. A população descobre que está sendo caçada, contudo não sabe por quem. Os algozes são, na verdade, um grupo de estrangeiros sádicos que resolvem exterminar aquela população e, para isso, contam com a ajuda de dois brasileiros do Sul/Sudeste para obter tal êxito.

Para mim, uma das cenas mais geniais diz respeito à reunião desse grupo em que um dos brasileiros “brancos” se vê como muito mais parecidos com os estrangeiros do que com seu povo. E um dos assassinos rebate que apesar da cor clara, seus traços denunciam sua origem, que “ no máximo são mexicanos brancos”. Isso demonstra bem como vivemos o racismo em nosso país: muitos renegam sua ancestralidade para fingir ser alguém que realmente não é.

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Na segunda parte do filme é que se passa o conflito em si. O sinal de comunicação é bloqueado e então toda a dinâmica de Bacurau é abalada. Há assim algumas mortes entre os cidadãos, mas inflamados por Lunga (Silverio Pereira) resolvem se armar e se defender do inimigo invisível que os espreita.

O filme é uma celebração, uma ode à população brasileira, sobretudo nordestina que luta contra as adversidades tanto estrangeiras quando dos seus compatriotas. É notável que no filme e no restante do país, o clima é de completo caos social, e que aquele pequeno oásis no sertão é uma forma de resistência às injustiças.

A trilha também conta com duas musicas especialmente tocantes: Não Identificado de Gal Costa e Réquiem para Matraga de Geraldo Vandré, ricas por seu valor simbólico em cada momento do filme. O final é violento e ao mesmo tempo sensível. No entanto, ao chegar ao desfecho, todo aquele assistir, que “ ♪ não entendeu, não perde por esperar… ♪ ”, literalmente.

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ELENCO E FICHA TÉCNICA
Sônia Braga, Udo Kier, Bárbara Colen, Silvero Pereira, Thomás Aquino, Karine Teles, Antonio Saboia, Lia de Itamaracá e Wilson Rabelo compõem o elenco. Coprodução entre França e Brasil, Bacurau, filme de 2019 é escrito tanto escrito como dirigido por Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, e tem produção de Emilie Lesclaux, Saïd Ben Saïd e Michel Merkt. Conquistou o Prêmio do Júri no Festival de Cannes de 2019, tornando-se o segundo longa brasileiro da história a ser laureado no certame geral, após O Pagador de Promessas (1962) de Anselmo Duarte. Além de premiado em diversos festivais de cinema, Bacurau foi selecionado para mostras principais de festivais não competitivos prestigiados mundialmente, como o Festival de Nova York (NYFF).

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BOHEMIAN RHAPSODY (CRÍTICA)

 

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SINOPSE
Brian May, Roger Taylor e Tim Staffell formavam o Smile, uma boa banda londrina mas sem muita identidade. Só que as coisas tomaram rumos inimagináveis quando o atirado Freddie Mercury ofereceu sua única e potente voz para o grupo. Tim Staffell sai, e junto de Freddie, John Deacon entra para assumir o baixo. Nascia assim o Queen, uma das maiores e mais importantes bandas de todos os tempos! Junto da fama também veio muito luxo e portas abertas, e as coisas começam a sair do controle quando o estilo de vida extravagante de Freddie passa a afetar a rotina do grupo.

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COMENTÁRIOS
Sendo centralizado pela ótica de Freddie Mercury, Bohemian Rhapsody traz uma certa polêmica. Assim como eu, acredito que muitas pessoas se perguntaram se aqueles triviais eventos comportamentais foram honestamente bem retratados no drama. Te seria justo que uma briga entre você e um amigo fosse contada apenas pela versão dele? É, Freddie Mercury não estava aqui para palpitar no roteiro. Mas deixemos a treta de lado e vamos ficar com a licença poética da coisa, afinal, a história não foi tão cruel assim com o músico. Vamos ao que importa, dissecar um pouquinho este fabuloso filme.

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Bohemian Rhapsody é simplesmente fantástico! Esteticamente bonito e bem roteirizado, possui duas coisas importantíssimas e que empatam no meu entendimento, uma é a qualidade absurda da edição de som, e outra a atuação brilhante de Rami Malek. O verdadeiro Freddie era levemente mais parrudo, mas é impossível não aceitar a verdade do personagem retratado. Malek literalmente incorporou Freddie, demonstrando todos os seu trejeitos e expressões. É possível sentir a dedicação do ator com o trabalho que topou fazer, e tanto esforço lhe garantiu merecidamente uma estatueta do Óscar. Em pensar que o papel quase ficou para Sacha Baron Cohen, o caricato Borat. Tudo em Bohemian Rhapsody é ousado, o filme não se trata de um musicas e muito menos um documentário, mas consegue um sucesso incrível do roteiro por incorporar muito bem as duas coisas. A trilha sonora, seu principal elemento, é brutal e seleciona os melhores hits da banda. Somebody to Love, Keep Yourself Alive, Now I’m Here, Killer Queen, Don’t Stop Me Now, e obviamente We Will Rock You e Bohemian Rhapsody são só algumas das músicas do filme.

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UM POUCO DA HISTÓRIA DE FREDDIE
Demonstrando desde muito cedo ter tino para arte, Freddie com apenas oito anos já se interessava pela música de Lata Mangeshkar, uma cantora e compositora indiana que naquele momento era sua maior inspiração. Aos doze montou uma banda, The Hectics, e mesmo com um invejável talento, era alvo do bullying das crianças da sua idade por causa de sua personalidade afeminada. Freddie então se recolheu na própria realidade, se tornando uma pessoa bastante introspectiva e tímida com os desconhecidos. Aos dezessete Freddie se mudou para Londres com sua família, fugindo dos perigos da Revolução Civil de Zanzibar em 1964. Se graduou como designer gráfico numa escola politécnica, e no início da vida adulta foi trabalhar como vendedor em uma loja de roupas, fato esse alterado no roteiro de Bohemian Rhapsody. De qualquer forma foi lá que conheceu Mary Austin, aquela que se tornara sua namorada e fiel amiga por toda vida.

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Freddie integrou algumas bandas, o Wreckage que não durou muito, e depois o grupo Sour Milk Sea. Mas foi em abril de 1970 que Freddie se junto ao Smile, banda do guitarrista Brian May e do baterista Roger Taylor, época em que Freddie, apelidado assim por seus na infância, adotou a alcunha de Mercury, baseado na letra de uma de suas primeiras canções. Farrokh Bulsara, era esse o nome de batismo do proeminente astro do rock, e claro, Smile era bacana mas não soava tão bem ao ponto de combinar com a imponência de um Freddie Mercury, então porque não trocarmos para algo mais glamouroso? Queen pareceu ótimo! Uma coisa precisa ser contada, nada da infância de Freddie é retratada em Bohemian Rhapsody. Na realidade o filme inicia no momento onde o Smile estava em decadência, e Freddie chegou para se unir ao grupo. Então porque eu contar tudo isso? Bem, o longa não é um documentário, mas pedaço da jornada de um personagem complexo que merece ter sua personalidade minimamente explicada. E tanto seu trajeto com o Queen quanto seu passado anterior à banda, tem iguais importâncias para quem queira tirar o máximo proveito do filme.

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ELENCO E FICHA TÉCNICA
Rami Malek, Ben Hardy, Gwilym Lee, Joseph Mazzello, Allen Leech, Lucy Boynton, Mike Myers, Aaron McCusker, Aidan Gillen, Tom Hollander, Dermot Murphy, Meneka Das, Ace Bhatti, Dickie Beau, Neil Fox-Roberts, Philip Andrew e Matthew Houston compõem o elenco. Bohemian Rhapsody foi dirigido por Bryan Singer e Dexter Fletcher, esse último que não é creditado no filme. O roteiro ficou a cargo de Anthony McCarten, e foi produzido por Graham King e Jim Beach. Esse é praticamente um filme musical, portanto é importante dizer que as músicas e edições sonoras ficaram na conta de John Ottman. O longa foi distribuído pela 20th Century Fox, e teve um orçamento de 52 milhões de dólares, com uma receita final de mais de 900 milhões.

CONCLUSÃO
Bohemian Rhapsody conta o trajeto da vida de Freddie Mercury ao ingressar naquela que se tornaria uma das maiores e influentes bandas de rock do mundo. Sempre eclética, o Queen fez nascer com a voz de Freddie, músicas que agradavam todas as idades e classes sociais. Não é segredo para ninguém, Freddie Mercury morreu devido a complicações causadas pelo vírus da AIDS, mas sua força de vontade aliada à sua influência, o tornou no maior símbolo do mundo de elucidação da doença. Mas Bohemian Rhapsody não é apenas isso, ele tem seus dramas e conflitos, mas em essência é um filme muito divertido e empolgante que deve ser visto numa reunião de família. We Will Rock You!

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O DOUTRINADOR (CRÍTICA)

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SINOPSE
Miguel é um agente federal de altíssimo nível da D.A.E. (Divisão Armada Especial), perito em artes marciais, no uso avançado de armas de fogo, e no manuseio de explosivos. Após passar por trauma brutal, incorrigível e imperdoável, a única coisa que ele quer agora, é consumar sua vingança. Os verdadeiros criminosos não vagam a pé pelas ruas, eles estão em carros blindados, fortificados edifícios e sofisticados palacetes. São justamente aqueles que deveriam prezar pela segurança, educação e saúde da população. Homens quais depositamos nossa soada contribuição e confiança para quando precisarmos, sermos minimamente bem atendidos. O que na vez em que Miguel mais precisou, não aconteceu. Inicialmente ele tem um nome, Sandro Corrêa, apenas o primeiro de muitos alvos entre a infinidade de políticos corruptos da sua lista, que provariam da sua fúria!

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COMENTÁRIOS
Se baseando na série de quadrinhos brasileira criada por Luciano Cunha, O Doutrinador, filme de 2018, traz uma visão pessimista porém acertadamente realista do sistema social e político do Brasil. Eu admito não saber ao menos da existência do HQ até ter assistido esta adaptação, então não me cabe ser leviano em querer entrar nos méritos comparativos das duas obras. Ficarei apenas com minhas impressões isoladas do longa metragem, afinal, este também originou uma série para TV, que também é o caso de eu não ter consumido ainda. Então vamos lá! Direto e surpreendente! Fiquei fascinado com a fluidez que o roteiro anda para contar, da forma mais didática possível, esse complexo e imoral mecanismo de corrupção em que vivemos. Claro, uma pirâmide de poder verdadeira seria ainda mais larga na base, mas parar figurar a sordidez, fez mais do que o necessário. O realismo do personagem principal é fascinante, e segue a mesma receita de heróis consagrados como Justiceiro ou Demolidor da Marvel, considerando especificamente as versões mais humanizadas da Netflix.

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Suas lutas são convincentes e bem coreografadas, as locações ilustram bem uma paisagem urbana, quase sempre noturna, do Rio de Janeiro, e o linguajar debochado, bem característico da vilânia ascendente da malandragem destes cantos, está lá. A produção faz um bom proveito com as condições que tem, mostrando tomadas aéreas com uso de drones, e valorizando os efeitos práticos. Em se tratando de efeitos especiais só algo me incomodou, e preciso enfatizar, desagradou muito! Uma certa explosão, que não preciso nem falar para quem já assistiu o filme (principalmente porque seria um puta spoiler!), mas que foi feita com uso de computação gráfica numa imperícia brutal! Acredite, Sharknado apresenta efeitos melhores! Mas enfim, esse é um fato bem isolado, e que é possível com boa vontade deixar passar.

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Recapitulando, a parte sonora eu não achei das melhores. Não é algo que chega a incomodar, mas a sensação que eu tive era de estar assistindo algo dublado por cima de um original. O que não faz sentido, uma vez que é um filme brasileiro gravado integralmente no português daqui. Então o que fez o áudio ficar tão estranho assim? Para mim é um mistério! Por outro lado, tanto as composições originais, quanto a seleção da trilha sonora, foi de muito bom gosto e perfeitamente compatível com a intenção do filme. Se tratando das atuações, eu não vi nada além da tradicional interpretação padrão Rede Globo de novelas, o que não é de todo algo ruim. Saldo final: fiquei bastante satisfeito com o filme. Excedeu minhas expectativas! Recomendado pra quem curte filmes de ação um pouco mais realistas.

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ELENCO E FICHA TÉCNICA
Kiko Pissolato, Tainá Medina, Samuel de Assis, Nicolas Trevijano, Eucir de Souza, Marília Gabriela, Eduardo Moscovis, Carlos Betão, Eduardo Chagas, Natália Lage, Tuca Andrada, Natallia Rodrigues, Helena Ranaldi, Lucy Ramos e Helena Luz compõem o elenco. O Doutrinador é um filme brasileiro de 2018 dirigido por Gustavo Bonafé e codirigido por Fabio Mendonça, que se baseia na série de HQ homônima criada por Luciano Cunha. A adaptação é realizada por Gabriel Wainer, que também assina os roteiros com a colaboração de Luciano Cunha, L.G. Bayão, Rodrigo Lages e Guilherme Siman. Com produção de Sandi Adamiu, Marcio Fraccaroli e Bruno Wainer, também é coproduzido por Universo Guará, Paris Entretenimento, Downtown Filmes e o canal Space.

CONCLUSÃO
Adaptado do quadrinho homônimo, O Doutrinador é um filme de ação que retrata a saga de um agente de polícia que perde aquilo que ele mais amava, e consumido pelo ódio, decide iniciar sozinho uma guerra contra um sistema de administração pública contaminado pela corrupção. A princípio isso soa muito parecido com milhares de filmes, e até mesmo com o plot inicial do personagem Justiceiro da Marvel, mas isso é só o plano de fundo, O Doutrinador é uma criação com personalidade suficiente para andar com as próprias pernas. Classificado como recomendado para maiores de 16 anos, não se engane, este é um filme realmente direcionado para o público adulto. Quando for curtir, tire as crianças da sala, porque a brutalidade e sanguinolência ocupa bastante espaço aqui. Bom filme para você!

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CONTATO VISCERAL – FILME DA NETFLIX (CRÍTICA)

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SINOPSE
Will cobria um dos turnos num bar de cidade pequena onde as mesmas figuras carimbadas de sempre se reuniam, porém certa noite um público diferente do cotidiano apareceu. Eram quatro adolescentes que o barman decidiu fazer vista grossa, afinal, pareciam decentes e só queriam tomar umas cervejas. E em meio aos flertes velados de Will à Alicia, que estava acompanhada do novo namorado, uma briga violenta se iniciou entre quem jogava sinuca. Eric, um brutamontes encrenqueiro já conhecido, contra um tal de Marvin, um gigante marombado. A quebradeira foi feia, e um dos garotos que estava lá começou a gravar com o celular, quando Eric foi ferido gravemente no rosto por uma garrafa quebrada. As pessoas conseguiram separar os dois antes que algo pior acontecesse, e com a chamada da polícia, todos fugiram com medo de se meter em mais encrenca. Will olhando o estrago em seu bar nota que o telefone de um dos garotos caiu durante a confusão, e disposto a entregar, coloca no bolso. Chegado em casa, procura uma maneira de desbloquear a tela do aparelho, e tem a ideia de tentar ver o desenho que a marcas de dedo teriam feito. Will responde a mensagem de alguém para aquele celular, se identifica como sendo o barman e que no dia seguinte deveriam ir no bar buscar o objeto perdido. Mas a conversa não para por aí, mensagens e fotos cada vez mais estranhas começam a chegar, desencadeando uma série de situações bizarras.

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COMENTÁRIOS
Não sei como iniciar uma crítica sobre esse filme omitindo tê-lo detestado! Primeiramente ele se vende como um terror, e assim como em Midsommar (2019), outro filme do gênero do mesmo diretor, usa como base o relacionamento conturbado de um casal. Mas diferente do qual eu citei, Contato Visceral (Wounds), não tem nada de assustador ou mesmo aquela estranheza que causa desconforto. O filme com ar de drama em boa parte do seu tempo, acompanha os passos de um homem que vai se revelando cada vez mais problemático, mostrando sua infidelidade, seus vícios, e porque não colocar assim, sua chatura. Will tenta ser engraçado mas não é, e nem essa tentativa de ser, tem alguma graça. Sua esposa não é muito diferente, sempre desconfiada e certamente insatisfeita com o marido, Carrie é colocada em segundo plano na trama. Serve exclusivamente como âncora para embasar o entendimento de Will ser um completo mau-caráter, e é cansativa a artificialidade da comunicação entre os dois. Logo no início do filme, numa situação onde o casal discute sobre a procedência daquele celular, ele simplesmente trava como se admitisse culpa por algo que não fez. E essa incoerência é o que mais incomoda na trama. Quanto ao terror, ele tenta ser algo mais metafórico. E não me levem à mal, essa conversa típica de que se você não entendeu o simbolismo da obra é porque não entrou no clima, ou não teve intelecto para tanto definitivamente não funciona para mim. Basicamente eu vi um filme lento, enfadonho, que o vilão não passava de baratas que se multiplicavam, e o herói deveria ser um dedetizador! Quanto ao seu final, nossa, prefiro nem fazer comentários. Enfim, ainda vale a regra de ouro, você não precisa concordar comigo e nem deve, assista você mesmo e tire suas conclusões.

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ELENCO E FICHA TÉCNICA
Armie Hammer, Dakota Johnson, Zazie Beetz, Karl Glusman, Brad William Henke, Jim Klock, Luke Hawx, Kerry Cahill, Terrence Rosemore e Ben Sanders compõem o elenco. Escrito e dirigido por Babak Anvari, Contato Visceral é um filme de terror lançado em 2019 produzido por Christopher Kopp e Lucan Toh. A obra se baseia no livro The Visible Filth de Nathan Ballingrud. A estrutura de produção é da Annapurna Pictures e da AZA Films, e sua distribuição ficou a cargo do Hulu para os Estados Unidos, e da Netflix para o restante do mundo.

CONCLUSÃO
A percepção que eu tenho, é que chega num determinado ponto em que certos diretores ficam tão confortáveis e seguros das próprias capacidades, que perdem a régua do que pode funcionar. Contato Visceral tem um início enfadonho, com linhas de diálogo tediosas, e que quando culmina no seu elemento central, que deveria ser o terror, já se perdeu totalmente. Fica parecendo que estou pegando no pé, mas não consegui encontrar um elemento ao menos qual pudesse dizer: não, isso aí é legal! Enfim, esse é mais uma péssima produção que a Netflix teve a infelicidade de colocar seu selo de distribuidora. Mas o lance é aquele de sempre, a melhor forma de sabermos se algo é ruim, é conferirmos nós mesmos. Contato Visceral tem classificação etária de 16 anos, e está disponível no serviço por assinatura Netflix.

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BAAHUBALI: O INÍCIO (CRÍTICA)

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SINOPSE
Ao pé de uma gigantesca queda d’água, uma mulher bastante machucada e com uma flecha fincada nas costas, foge com um bebê de dois cruéis soldados. Acaba encurralada nas margens de um rio, sendo obrigada a lutar, e mesmo segurando uma criança, usa apenas uma das mãos para derrota-los facilmente, revelando ser uma hábil guerreira. Tentando seguir em frente, ela cai na água devido a exaustão, conseguindo apenas segurar num galho para não ser carregada pela violenta corredeira. Roga à Shiva por redenção de seus pecados. Pedindo que tomasse sua vida em troca da salvação daquele menino. Coloca-o acima de sua cabeça com o braço erguido, proferindo que ele deve viver para ascender ao trono de Mahishmathi e libertar seu povo. Mahendra Baahubali deve viver! Em sacrifício a mulher submerge, enquanto seus braços permanecem esticados até que o dia amanheça e o bebê seja salvo por membros de uma comunidade próxima.

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Adotado por uma mãe amorosa, ela sempre temeu pelos perigos de sua origem, porém o jovem menino era muito questionador. Mesmo que ela dissesse que ao topo da enorme cachoeira haviam demônios e monstros, ele teimava em querer subir para ver com os próprios olhos, e quando ninguém estava por perto, tentava incansavelmente a escalada. A criança se tornou um belo jovem, e o jovem se tornou um confiante e imponente homem. Sua mãe pedia por Shiva à Shiva, sim, aquele pequeno e frágil bebê recebera o nome de um Deus, Shiva, O Destruidor e Regenerador. Aquele que traz o bem e dá a Vida. Clamando para que o filho deixasse de tentar escalar aquelas enormes paredes, era guiada por Sage, o sábio da vila, a despejar inúmeros baldes de água sob uma pedra que simbolizava Shiva, um Lingam. Então Shiva, o filho, vendo sua mãe se esforçar tanto por suas crenças, quebra todos os paradigmas ao decidir remover aquele pesado monumento do lugar. Todos observavam o que seria um ato de blasfêmia, e relutam crer quando com uma força sobrenatural ele arranca do chão e levanta aquele símbolo sob os ombros. Shiva carrega o lingam enquanto todos os seguem com semblante de estarem assistindo o inacreditável. Inabalável e como se aquele peso não fosse nada, caminha pela cachoeira andando nas pontas dos pés, até repousar o emblema diretamente abaixo da queda d’água, onde Shiva poderia receber banho incessantemente. Toda a comunidade, e até sua mãe, ficaram orgulhosos em confiar que agora as bênçãos à todos seriam inesgotáveis.

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Uma máscara então cai da cachoeira, do lugar proibido onde Shiva não deveria ir. Agora, mais tentado do que nunca, é guiado e incentivado pela ilusão de uma belíssima mulher. Ele escala, inspirado por deuses. Cai novamente e volta a se levantar, várias vezes. Mas persistente e incansável, ele chega ao topo. Shiva vislumbra a mesma mulher de seu sonho acordado, só que agora ela foge de uma horda de sanguinários soldados por meio uma floresta escura e sombria. Acompanhando para tentar entender a situação, quase interfere, quando de repente ela se junta a outros guerreiros e derrota aquele pequeno exército. Continuando a se mover nas sombras ele mantém investigação, até que o grupo se reúne numa caverna, onde planejavam um novo ataque para libertar uma tal de Devasena. Então todos colocam máscaras como aquela que ele encontrou. Shiva estava em meio à uma revolução. E mal sabia ele que seu destino era de suma importância para a vida daquelas pessoas. Baahubali!

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COMENTÁRIOS
Não sou grande fã de filmes como Ben-Hur (1959), Tróia (2004), ou mesmo os com mais fantasia como a franquia O Senhor dos Anéis. Assisto e gosto sim, mas não sou do tipo que vira fã e precisa ver mais do que uma vez. No entanto acabei seduzido por essa obra do gênero sem nem perceber. Baahubali: O Início é um épico indiano que mistura elementos do hinduísmo com mitologias de outras culturas, e cria uma aventura sem precedentes para o cinema. A fascinante história criada por K. V. Vijayendra Prasad, conta a aventura de Shiva, uma criança que sobrevive graças ao sacrifício de uma mulher, e que sente dentro de si uma predestinação incontrolável. Contar detalhes sobre a trama é estragar as surpresas, e essa é um conto que tem muitas delas.

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Baahubali: O Início não é um filme perfeito, ele passa longe disso. A produção indiana acerta em muitas coisas, a começar pelo seu roteiro, mas falha um pouco nos aspectos técnicos visuais. Eu não sei precisar a razão, talvez seja devido ao orçamento não ser tão alto quanto a de produções ocidentais, o estúdio não ser competente, ou mesmo por prazos apertados, mas as cenas em computação gráfica em vários momentos são terríveis! Dão a aparência de videogame! Chegando a incomodar em tomadas com animais renderizados. Mas quando acertam a mão, o resultado é fabuloso! A cena com a cachoeira no começo do filme são de cair o queixo! Sim, aquilo tudo é feito em fundo verde! Essa inconstância no uso de CG que pecou um pouco, fazendo o filme não ser digno de uma nota 10. Porém são tantas as outras coisas maravilhosas no longa, que essas deficiências são completamente esquecidas.

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Os filmes indianos costumam ter peculiaridades bem interessantes, sendo uma delas as tradicionais dancinhas com a galera reunida. E em Baahubali: O Início isso não é diferente. O épico é recheado de momentos musicais cheios de charme e estilo, criando ainda mais a atmosfera carnavalesca que não se envergonha em momento algum de se esforçar para mostrar. Eu realmente não entendo o preconceito de algumas pessoas em criticarem tradições e formas de artes estrangeiras, afinal, não precisamos compreender os motivos delas serem como são, mas apenas ver o esforço dedicado em criar essas emoções e sensações, já é razão de sobra para respeitarmos a paixão com que expressam sua cultura. Recebo esses momentos musicais dos filmes como se visse uma produção da Disney, não ofende, não estraga, e é um elemento extra para ser apreciado.

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EXPLICAÇÕES COM SPOILERS
Após Shiva retornar para Mahishmathi para libertar sua mãe, que havia sido presa por vinte e cinco anos após a traição de Bijjaiadeva contra a Rainha Sivagami, ele ainda precisava entender sua origem, então Kattappa, o fiel protetor da realeza, lhe conta como chegaram naquele determinado momento. Bhallaladeva era filho legítimo de Sivagami com Bijjaiadeva, este último, irmão do Rei Maharaja Vikramadeva, fundador de Mahishmathi. Bijjaiadeva não foi coroado devido a sua natureza injusta, mas ele culpou apenas a deficiência de sua atrofia em um dos braços como o verdadeiro motivo, o que lhe causou um grande rancor. Maharaja Vikramadeva morreu quando sua esposa, a Rainha Devasena, estava grávida de seis meses. Davasena passou os próximos três meses chorando, e Sivagami, a cunhada do rei, tomou as rédeas do reino. Ela então destinou que as duas crianças deveriam ser criadas como irmãos, se preparando como princípes para que um dia pudessem provar quem teria a honra e sabedoria de liderar Mahishmathi. Os irmãos cresceram e se tornaram poderosos guerreiros, e numa provação final, deveriam liderar a defesa do reino contra um gigantesco ataque. Aquele que eliminasse o líder dos inimigos, provaria o seu valor, e seria condecorado com rei através da palavra final de Sivagami. Durante as negociações com o exército hostil, a rainha teve sua honra manchada pelo discurso sujo do chefe inimigo, Kalakeya e, exigiu na cólera do momento, que o queria morto, mas sofrendo lentamente. Beirando o fim da batalha, Baahubali capturou e subjugou o líder dos algozes, arrastando-o ferozmente respeitando o pedido de sua mãe. No entanto Bhallaladeva, num ato de desespero por provação, mata Kalakeya, e Baahubali sendo leal ao irmão, demonstra que aquilo não é um problema para ele.

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Terminada aquela guerra, Sivagami proclama: Bhallaladeva como Comandante das Forças Armadas de Mahishmathi, e Baahubali como o novo Rei. Os méritos para ser um rei, não é quantas pessoas se é capaz de matar, mas sim quantas é capaz de salvar, palavras de Sivagami em resposta aos protestos de inconformação de Bijjaiadeva quanto a sua decisão. Se você for capaz de matar muitas pessoas, você será considerado um grande guerreiro, mas se você salvar uma única pessoa, você será considerado um Deus. Essa é a palavra de Sivagami, e a palavra da Rainha é Lei. E Shiva, quem era ele? Shiva era Filho de Shivudu Baahubali, Aquele Fiel que fora traído por seu amigo e mentor, Kattappa.

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EXPLICAÇÃO DA FILOSOFIA (COM SPOILERS)
Deixo claro que esta é uma obra tão bonita e rica que merece ter aberta suas várias interpretações, e esta é humildemente a minha. Utilizando de pelo menos duas mitologias, que identifiquei, K. V. Vijayendra Prasad criou um épico que traz o conceito comum à várias culturas e seus personagens de cultos, onde Shiva faz parte de uma Trindade chamada Trimûrti. Segundo a doutrina hindu Ela seria formada por Brahma, o Deus da Criação, Vishnu, o Deus da Preservação, e Shiva, o Deus da Regeneração e Destruição, o que se comparado à Santíssima Trindade do catolicismo, Brahma seria o Pai, Vishnu o Filho, e Shiva, o Espírito Santo.

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“Shiva é Filho do Salvador, Amarendra Baahubali. O Bálsamo de Devasena que profetizara inabalavelmente pelo Seu retorno. O fruto do Sacrifício Final da Rainha Mãe Sivagami.” Como previsto por Sivagami, Shiva ascendeu e retornou por Mahishmathi, regenerando para um novo ciclo que mais tarde se contaminará e precisará ser destruído novamente. Em momentos diferentes do filme ele traz um bindi diferente na testa, a pequena pintura vermelha feita com vermilion (sulfato de mercúrio vermelho brilhante finamente pulverizado). Por vezes é o símbolo de uma lua crescente, que representa a evolução, as mudanças de paradigmas, o abandono da letargia para buscar mais um renovado conceito de um ciclo infinito. Por outras vezes o desenho é de uma naja, a mais poderosa das serpentes. Significa que Shiva dominou a morte e tornou-se imortal.

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Um personagem importantíssimo é Kattappa, escudeiro da família real, aquele que fizera a promessa a Maharaja Vikramadeva de cuidar de sua sucessão. Este é um dos personagens mais complexos e essenciais para o entendimento da filosofia por trás do ciclo de Regeneração e Destruição. Assim como Judas Iscariotes do cristianismo, fora escolhido para ser aquele que carregaria o fardo de levar a culpa pela morte do Filho do Homem, Vishnu, simbolizado por Maharaja Vikramadeva, pai de Shiva. Seu bindi na testa representa o de um escravo, corroborando com a ideia daquele portador do peso da Providência. Fechando com este, o conceito do catolicismo, a última e segunda linha inspiracional utilizada pelo genial K. V. Vijayendra Prasad.

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ELENCO E FICHA TÉCNICA
Prabhas, Rana Daggubati, Anushka Shetty, Tamannaah, Ramya Krishna, Sathyaraj, Nassar, S. S. Rajamouli, Rohini, Meka Ramakrishna, Tanikella Bharani, Adivi Sesh, Prabhakar, Sudeep, Nora Fatehi e Scarlett Mellish Wilson compõem o elenco. Criação de K. V. Vijayendra Prasad, Baahubali: O Início, teve seu roteiro compartilhado com o também diretor e ator do longa S. S. Rajamouli. A superprodução indiana de 2015 é produzida por Shobu Yarlagadda e Prasad Devineni, utilizando os estúdios da Arka Media Works. M.M. Keeravaani é um consagrado compositor indiano, e é o responsável pela belíssima trilha sonora. Seu orçamento foi de 28 milhões de dólares (₹1.8 bilhões), e teve um faturamento de 101 milhões (₹6.5 bilhões). O épico indiano de S. S. Rajamouli, é a primeira parte de uma duologia.

CONCLUSÃO
Baahubali: O Início é uma viagem à um mundo de fantasia onde precisamos nos desatar dos nossos conceitos e aceitar as metáforas como elas são. Se nos ocuparmos julgando seus elementos conceituais nos baseando em nossa cultura ocidental, não iremos apreciar absolutamente nada nesta aventura. Não é um filme feito para te fazer pensar, é uma filme para te fazer sentir e se inspirar. É uma obra que transborda princípios morais sem te fazer entrar numa paranoia política infrutífera. Sua beleza está na estética visual e simbólica de contar a aventura de um homem na sua busca por justiça e libertação. Particularmente julgo este ser um filme obrigatório para qualquer cinéfilo que queira ser levado à sério. Baahubali: O Início funciona sozinho, mas na verdade é a primeira parte de uma duologia. Sua classificação etária é de 16 anos, mas pode tranquilamente ser assistido por uma criança por volta dos 12 na companhia de um responsável. Tenha um excelente filme!

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FRATURA – FILME DA NETFLIX (CRÍTICA)

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SINOPSE
Ray procura dirigir com extremo cuidado quando está com sua família no carro, e isso irrita Joanne, pois sempre faz com que atrasem nas reuniões familiares. O casamento entre os dois não vai bem, ela acha que os dois estão cada vez mais afastados e que não há diálogo na relação. Ray se sente pressionado, mas admite que talvez esteja realmente numa fase ruim, mas que irá se esforçar mais. Enquanto isso Peri, uma pequena menina no banco traseiro, estava com fone distraída ouvindo música em seu radinho, quando reclama com os pais que o aparelho parou de funcionar. Acreditando ser faltas de pilhas, o pai decide parar num posto de beira de estrada. Joanne vai ao banheiro, e Peri fica com o pai. Num momento de distração, um cachorro aparece, e Peri muito assustada, começa a se afastar lentamente andando de costas, sem perceber que atrás havia um buraco de uma área em construção. Ray ainda tenta acalmar a filha e impedir que o pior aconteça, mas a menina cai com o pai também se jogando para tentar ajudar.

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Joanne volta do banheiro e não encontra os dois, então procura ao redor e os vê caídos no fundo daquele poço. Ray desmaiou após bater a cabeça no concreto, e acorda atordoado, se esforçando para recobrar a visão e consciência. De pé novamente, verifica que a filha parece bem, mas sentindo uma forte dor no braço. Toma-a no colo, e voltam depressa para estrada, lembrando que poucos quilômetros atrás tinham passado por um hospital. Ray dá entrada para o atendimento da filha e, há um pouco de desentendimento por conta da demora, mas finalmente Peri é atendida. É pedido ao pai que aguarde um pouco, porém horas se passam e ele estranha a demora. Retorna à recepção para entender o motivo de tanta demora, e lhe é contado que nenhuma criança com aquele nome havia dado entrado para atendimento. Não acreditando no que acabara de ouvir, passa a desconfiar que aquele hospital tivesse feito algo com a sua família.

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COMENTÁRIOS
Filmão! É sensacional quando aparece uma pérola tão valiosa assim e sabemos que custou tão barato. Fratura (Fractured) é um filme que consegue explorar de forma muito criativa, umas mil maneiras de subverter segundo à segundo nosso julgamento da narrativa. Utilizando de um conta gotas para soltar informações, vamos precisando de unhas e mais unhas alheias para ter o que roer enquanto não descobrimos a real verdade verdadeira. Está rindo? Você não riria se já tivesse assistido. Escrito por Alan B. McElroy, é Brad Anderson, responsável por O Operário (2004), que dirige e consegue criar essa atmosfera intrincada de mistério. Em Fratura não tem calmaria, nosso cérebro fica numa constante caótica se esforçando para não ser enganado. É Sam Worthington, o Perseu de Fúria de Titãs (2010), que se supera e entrega, na minha opinião, a melhor atuação de sua carreira. Sua atuação esbanja personalidade e convencimento, transformando-se no principal ingrediente desta magnífica receita.  Se gosta de ter sua sagacidade desafiada por complexos mistérios, cai dentro, Fratura é o filme perfeito para você! É ver para crer!

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ELENCO E FICHA TÉCNICA
Sam Worthington, Lily Rabe, Stephen Tobolowsky, Adjoa Andoh, Stephanie Sy, Lucy Capri, Lauren Cochrane, Crystal Magian, Derek James Trapp, Dennis Scullard, Natalie Malaika, Will Woytowich, Erik Athavale, Megan Best, Chris Sigurdson e Ernesto Griffith compõem o elenco. Escrito por Alan B. McElroy, Fratura, filme original da Netflix de 2019, é dirigido por Brad Anderson. A produção de Neal Edelstein, Mike Macari e Paul Schiff, se dá pelas produtoras Koji Productions, Crow Island Films, Macari/Edelstein e Paul Schiff Productions.

CONCLUSÃO
De um tempo pra cá a Netflix vem trazendo produções bem melhores que as bombas que estava soltando um tempo atrás, e Fratura não é só um filme honesto para o catálogo, é definitivamente excelente! O drama e suspense é repleto de quebra-cabeças para nos distrair do começo ao fim, não há descanso, ficamos tão compenetrados na trama que nem notamos quando acaba. Esse é um trabalho em trio, do roteirista Alan B. McElroy, do diretor Brad Anderson e de Sam Worthington, que deu uma enorme qualidade para um personagem complicadíssimo. Assistir Fratura me fez ter um sentimento nostálgico da época em que o Supercine da Globo só passava coisa realmente boa. Geralmente não eram superproduções, mas tinham roteiros bacanas e com uma com uma ótima história cheia de mistérios para contar. Com classificação etária de 14 anos, Fratura está disponível no serviço por assinatura Netflix.

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ELI – FILME DA NETFLIX (CRÍTICA)

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SINOPSE
Eli é um menino de 11 anos portador de uma doença autoimune que o leva a ter uma vida difícil, precisando sempre se manter em locais hermeticamente descontaminados para continuar a viver. Toda vez que se expõe, sua pele apresenta uma vermelhidão alérgica, machucando-o como uma grave queimadura. Seus pais, Paul e Rose, descobrem uma clínica que oferece um procedimento experimental, e investem todas suas economias para poder dar uma vida melhor ao filho. O local é uma enorme mansão isolada numa distante região rural, um imóvel enorme e inteiramente protegido dos contaminantes do exterior. Lá a criança é submetida a dolorosos procedimentos médicos, enquanto paralelamente a isso, uma série de fenômenos sobrenaturais começam a acontecer, e se tornando cada vez mais bizarro, Eli começa a questionar se realmente pode confiar  naquelas pessoas.

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COMENTÁRIOS
Enquanto em Jimmy Bolha (2001), Jake Gyllenhaal traz uma visão otimista e divertida das complicações de ser uma criança que precisa viver dentro de uma bolha, em Eli (2019), as coisas não são tão simples e positivas assim. Eli é um menino bastante inteligente que compreende sua própria situação, mas mesmo assim sofre demais com suas limitações. Como uma criança normal, ele gostaria de poder sair de casa para aproveitar as coisas simples sem se preocupar, e o fato de não poder fazer isso, lhe gera muita angústia. Não bastando as dificuldades que lhe atormentavam a vida, ainda sofre com a falta de empatia daqueles que o veem com estranheza devido ao curioso traje plástico que precisa vestir quando está fora de casa. O sadismo e deboche dos outros tiram-no do sério, fazendo com que precise ser acalmado pelos pais, de quem é totalmente dependente para tudo.

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Eli tem uma atmosfera pesada e instigante, começando tímido, vai moldando ambientes e plantando cada vez mais confusão na audiência. Elementos aparentemente desconexos são gradualmente inseridos, e causam cada vez mais estranheza. A trama que se inicia como um drama, toma rumos no suspense e no terror, e até o último minuto sustenta mistérios inimagináveis. Seu roteiro é bastante criativo, e junto com Fratura (2019), lançado quase simultaneamente, ambos pela Netflix, conseguem convencer numa trama extremamente bem escrita. Esse é daquele filmes que é muito perigoso fazer comentários acerca de seu decorrer, mas o que ainda dá para ser dito, é que em certos momentos aparenta que estamos assistindo apenas mais um filme de terror bobo e cheio de jogos de iluminação e jump scares, e de certa forma ele parece não ocultar querer parecer ser isso. Não seja ingênuo, aqui temos um diretor perspicaz e experiente em filmes de terror com mistério, esta é uma obra que vai te surpreender bem mais do que imagina. Digo isso assumindo ser um cara chato e exigente com filmes de terror, quando a coisa não tem conteúdo e é só baboseira, já sento o malho sem pena. Deixo um alerta, não recomendo procurar muita coisa sobre este filme na internet, sejam críticas, material promocionais, e nem mesmo imagens em sites de buscas, acredite, o potencial é enorme de você estragar sua experiência com spoilers não intencionais.

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Charlie Shotwell está excelente interpretando Eli, onde atua com muita naturalidade, conseguindo convencer em momentos de medo, dúvida ou raiva. Já Sadie Sink, a menina ruiva de Stranger Things, é mais do mesmo, e não traz grandes feitos. Kelly Reilly e Max Martini, os pais de Eli, fazem uma boa atuação, assim como a chefe médica Lili Taylor. A direção de Ciarán Foy é inteligentíssima, o cara realmente sabe induzir com que pense exatamente o que ele quer. Você vai ter certeza de que está confortável com uma ideia, e como um um guindaste de demolição, o roteiro faz desabar todas suas convicções quando você menos imaginar.

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ELENCO E FICHA TÉCNICA
Kelly Reilly, Sadie Sink, Lili Taylor, Max Martini, Charlie Shotwell, Deneen Tyler, Katia Gomez, Austin Fox, Kailia Posey, Parker Lovein, Lou Beatty Jr., Jared Bankens, Nathaniel Woolsey e Mitchell De Rubira compõem o elenco. Escrito por David Chirchirillo, Ian Goldberg e Richard Naing, Eli é um filme de drama e terror de 2019 dirigido pelo experiente Ciarán Foy, responsável também por A Entidade (2012) e Citadel (2012). A produção é dividida com Trevor Macy e John Zaozirny, utilizando os estúdios produtores Paramount Players, MTV Films, Intrepid Pictures e Bellevue Productions. Distribuído pela Paramount Pictures, e pela Netflix, o longa teve um orçamento modesto de 11 milhões de dólares. Eli está disponível através do serviço por assinatura Netflix.

CONCLUSÃO
Flertando com o drama mas descambando para o terror, Eli lida com seu gênero principal de forma bem peculiar. Não é o tipo de filme que se diz que com segurança ser capaz de agradar qualquer público, seu formato, e principalmente sua conclusão, tem potencial enorme de trazer desconforto à algumas pessoas. Seu roteiro inteligente e seus plot twists, são seus principais atrativos, mas não se pode afirmar que seu desfecho seja surpreendente. Como disse antes, eu sou uma pessoa exigente com filmes desse gênero, e esse acertou em cheio para mim! Mas como gosto é algo muito pessoal, recomendo muito que você assista e tire as próprias conclusões. Lembrando, a surpresa eu garanto que você terá! Recomendado para maiores de 16 anos, Eli é uma produção original Netflix, e já está disponível. Tenha um ótimo filme!

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SOMBRAS DA VIDA (CRÍTICA)

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SINOPSE
Em meio ao luto da perda, o marido agora em forma espectral e invisível aos ainda encarnados, retorna para casa na intenção de consolar sua esposa. Sendo um mero espectador ele nada pode fazer, apenas assiste o tempo correr indefinidamente. Vaga por lembranças e sensações que persiste em manter de quando vivo ao lado da mulher que tanto amou. O amor, a dor, o rancor, a importância, e até mesmo as lembranças, não passam de efemeridade numa eternidade onde o infinito tempo pesa muito mais que a vontade de se manter existindo.

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COMENTÁRIOS
Fascínio! Esse é o sentimento mais resumido que senti ao assistir uma das obras mais brilhantes e, injustamente pouco divulgadas de 2017. Sombras da Vida (A Ghost Story) consegue dar vida à uma atmosfera densa que impossibilita escaparmos de sua gravidade pesadíssima! São reflexões sobre a significância e do que significou uma jornada de vida. Não importa o que a sua ou minha experiência espiritual, e até mesmo religiosa diga, este é um filme que não intenciona conflitar com nada disso. Mas claro, se você for adepto de crenças onde os vivos desencarnam, terá uma interpretação diferenciada daqueles que não creem, e assistirão apenas como um drama de ficção. Seja como for que você assista, a experiência não deixa de ser profunda e gratificante.

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É incrível como uma boa ideia pesa muito mais que qualquer cifra. Afirmo com toda segurança, a simplicidade do conceito deste filme não precisava mais de um único centavo no orçamento! A princípio eu fiquei até relutante sobre que diabos era isso. Um fantasma com lençol na cabeça? Me parecia uma grande cilada. Superei o literal “pré conceito” e fui dominado pela curiosidade. Ainda dentro dos primeiros minutos recebemos um curso intensivo de nunca julgarmos um livro pela capa, e nem mesmo um fantasma pela sua roupa. Avante filme adentro, acompanhamos aquela alma que não pode ser vista, ouvida, e muito menos tocada, presenciar uma cena de interminável autopunição. Não, não detalharei o que é para não estragar a experiência, mas é lindo como um bom roteiro e uma inteligente direção consegue fazer dos silêncios repletos de vazios a peça central para compreensão de uma intenção. Simplesmente brilhante!

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COMENTÁRIOS COM SPOILERS
Aprofundando nos conflitos do luto, temos as duas perspectivas, a de quem ainda está vivo, e a de quem já se foi. Por um lado a viúva que sofre com as saudades cotidianas daquela pessoa que sempre esteve presente, e de outro um espírito que reluta em aceitar o término de um ciclo para seguir em frente, seja como for o próximo estágio. Por maior que seja a dor de quem fica, as oportunidade de superação ainda são acessíveis, e diferente de quem só pode assistir, continuar na busca pela felicidade não é apenas uma necessidade, mas também uma natureza da vida humana. Podemos assumir a realidade no tempo que for, ao fim, tempo estará disponível em sua forma infinita, porém apenas como um passageiro a experiência não passa de um martírio que precisa ser cessado a fim de dar término ao sofrimento.

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ELENCO E FICHA TÉCNICA
Casey Affleck, Rooney Mara, Will Oldham, Sonia Acevedo, Rob Zabrecky, Liz Franke, Grover Coulson, Kenneisha Thompson, Barlow Jacobs, McColm Sephas Jr. e Kesha compõem o elenco. Escrito, dirigido e editado por David Lowery, Sombras da Vida foi produzido por Toby Halbrooks, James M. Johnston e Adam Donaghey. O drama estadunidense foi lançado em janeiro de 2017 no Festival Sundance de Cinema, e em junho do mesmo ano nos cinemas norte americanos. Seu orçamento foi de irrisórios 100 mil dólares, e teve um faturamento de quase 2 milhões.

CONCLUSÃO
Eu desconhecia completamente A Ghost Story, título original, e como conheci o que mais tarde seria batizado no Brasil como Sombras da Vida. Bati o olho em seu pôster e me interroguei sobre que diabos poderia ser isso. Então decidi ignorar completamente a aparência, que por sinal é até bacana depois que você assiste e compreende o conceito, e me dei a oportunidade de descobrir. Maravilhoso! Esse é um dos filmes mais marcantes que levo comigo, e um dos melhores de 2017. A premissa pode até lembrar o filme Ghost: Do Outro Lado da Vida de 1990, mas sua narrativa passa longe de uma história de amor de um casal apaixonado. Sombras da Vida é uma poesia mostrando nossa efemeridade em vista o infinito tempo. Recomendo demais! Sua classificação etária é de doze anos. Tenha um bom filme!

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7 MOTIVOS PARA ASSISTIR CORINGA!

Sob a ótica de alguém que não fazia a menor ideia do que esperar do filme…

Comecei a me inteirar sobre o mundo da Marvel e da DC Comics em 2012, quando iniciei um namoro com um nerd assumido, aficionado por Histórias em Quadrinhos (HQ’s). Desde então, sempre fui a todas as estreias como acompanhante, sem ter grande conhecimento acerca das histórias e dos personagens que iriam se apresentar em sagas gigantescas (pelo menos para o meu gosto).

Confesso que em vários filmes eu cheguei até a dormir: “Vingadores: Guerra Infinita” é um exemplo. Mas ao longo desses sete anos, eu nunca – NUN-CA! – achei um filme da DC tão espetacular, intrigante e emocionante, como foi o Coringa (2019), estrelado pelo talentosíssimo ator Joaquin Phoenix.

Talvez eu não seja a pessoa ideal para escrever sobre esse filme se você espera ler uma resenha crítica embasada nas HQ’s. Porém, se assim como eu, você só conhece o Coringa por meio dos filmes do Batman, e está na dúvida se vale a pena ir ao cinema para conferir com os próprios olhos se esse filme é mesmo tudo isso que estão dizendo, então lhe apresentarei alguns motivos para que você dê uma chance para o Coringa te conquistar!

1. CORINGA (2019) É UM FILME EXTREMAMENTE REFLEXIVO

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Talvez possa soar meio “estranho” para alguns, mas esse filme despertou em mim um sentimento de empatia. Arthur Fleck é um homem que aparenta ter pelo menos uns 40 anos. Ele vive com a mãe, Penny Fleck, em um apartamento sombrio e bagunçado, tal qual a personalidade deles. Ela está debilitada, dependendo do auxílio do filho para tarefas básicas, como comer e tomar banho. Ele, por sua vez, é extremamente atencioso e delicado no trato com sua mãe. Um é a companhia do outro, e ambos encontram na TV uma espécie de refúgio e de inspiração.

Arthur, que ganha a vida como palhaço, sonha em ser um comediante de stand-up comedy. Seu grande ídolo é Murray Franklin, apresentador de TV aos moldes do Jô Soares, interpretado por Robert De Niro.

A fixação em se tornar comediante vem desde a infância, pois ele cresceu ouvindo sua mãe dizer que ele veio ao mundo para fazer os outros sorrirem. E, por ironia do destino, Arthur tem uma doença neurológica que o faz rir descontroladamente em situações que o deixam nervoso ou ansioso.

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Achei extremamente tocante a cena em que ele está viajando sozinho dentro de um ônibus e uma criança começa a encará-lo. Com uma inocência pueril, ele começa a brincar com o menino, entretendo-o e garantindo uma risada muito gostosa. Aquele, talvez, tenha sido o único sorriso verdadeiramente espontâneo e sincero que Arthur recebeu em sua vida. A única risada com sentido de alegria, e não de “zombação”.

Mas em meio àquela pequena alegria e satisfação, eis que o pobre homem solitário e renegado pela sociedade recebe um balde de água fria da mãe do menino, como se ele estivesse perturbando a criança ao invés de diverti-la. E então a risada descontrolada toma conta da situação… Mesmo apresentando um cartão que explica sobre sua doença, as pessoas não querem entender/aceitar que ele não se encaixa nos moldes de normalidade impostos pela sociedade.

Esse é apenas um dos exemplos apresentados ao longo do filme que me fizeram refletir sobremaneira como nós, como sociedade, lidamos com pessoas que apresentam alguma necessidade especial.

Será que eu e você compreendemos a singularidade de cada indivíduo, aceitando verdadeiramente suas limitações? Será que estamos preparados para lidar com as diferenças para além do discurso ativista e progressista que muitos apresentam, sobretudo nas redes sociais? O Governo realmente se importa com a saúde pública, favorecendo tratamento digno àqueles que necessitam de assistência contínua?

Não encontraremos no filme as respostas para essas perguntas, mas, definitivamente, somos capazes de buscar enxergar a trama apresentada sob um olhar mais humanizado. E aí Coringa acabará nos dando uma lição de vida sobre saúde mental, demonstrando que, na realidade, a nossa sociedade se encontra tão louca e doente como aqueles que são diagnosticados com problemas neurológicos.

2. A NECESSIDADE DE ACEITAÇÃO E DE BUSCA PELA NORMALIDADE É ENFATIZADA DURANTE TODA A TRAMA

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É possível perceber a cada cena a tentativa de Arthur em ser se encaixar no padrão de normalidade socialmente aceito. Ele, que já passou uma temporada no sanatório, segue se encontrando esporadicamente com uma assistente social, que o faz perguntas frequentes sobre seu estado. Parece que tais encontros não surtem os efeitos esperados, pois ele não consegue “parar de se sentir mal o tempo todo”, mas é graças a eles que os seus sete remédios diários são garantidos.

No trabalho, ele procura fazer o que é sua obrigação, mas todos o tratam como um palhaço louco, estranho, que não tem crédito em suas afirmações. E é assim, colecionando situações insustentáveis a sua condição mental, que Arthur vai se perturbando e se transformando cada vez mais em um ser frio, magro, insensível a dor alheia e sem a menor graça.

São pequenas situações, somadas dia a dia, que fazem com que esse homem depressivo, que tenta com seus próprios braços alcançar a felicidade, acabe encontrando outras formas de expressar suas insatisfações e frustrações.

Não seria isso o que acontece com tantas pessoas que, diariamente, expressam gritos de socorro velados, disfarçados em frases ou ações que passam despercebidos ou, pior, são banalizados?

Acredito que se você assistir a esse filme pensando não no conhecido e até mesmo caricato vilão de Gotham City, mas sim na transformação do homem comum, doente, excluído e incompreendido, que se torna a principal ameaça a ser combatida pelo Homem-Morcego, então você perceberá que corremos o risco de ter muitos Arthurs em nosso meio, que só precisam que seja acionado um gatilho mental para se transformar no sociopata Coringa…

3. O DIÁRIO DE ARTHUR É TRADUZIDO EM PORTUGUÊS

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Uma coisa que eu achei sensacional nesse filme foi a tradução do diário do Arthur em Português. Assisti ao filme dublado e esperava que nas cenas em que aparecem as páginas do seu diário (que também serve de anotação de ideias para seu futuro show de stand-up), as frases fossem aparecer em Inglês, traduzidas em forma de legenda, para o nosso idioma. Porém, o que vemos são as páginas escritas em Português.

O que isso tem de tão interessante? Ao meu ver, pareceu bem mais realista. E para um bom observador, aquelas páginas já indicavam traços de toda a confusão mental do personagem, cheia de rasuras, palavras escritas com erros gráficos, rabiscos e afins. Se mais alguém teve o interesse em tentar ler o que estava escrito, certamente identificou uma das frases mais impactantes do filme: “a pior parte de ter uma doença mental é que as pessoas esperam que você se comporte como se não tivesse”.

4. O FILME NÃO É REPLETO DE EFEITOS ESPECIAIS

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Para alguém que há sete anos está assistindo filmes de heróis e de vilões cheio de ação e de efeitos especiais, com muito barulho de tiro, p* e bomba, o filme Coringa foi um deleite! Nada de efeitos, nada de barulho, muito pelo contrário: que trilha sonora maravilhosa!

A interpretação de Joaquin Phoenix é brilhante, magnífica, conseguindo demonstrar durante suas crises de riso o quanto aquele gesto estava, na realidade, inundado de drama, de dor e de lágrimas. Uma observação mais atenta é capaz de captar nitidamente que apesar do sorriso na cara, o olhar demonstrava total tristeza, um pedido de socorro sempre eminente, mas nunca atendido.

Fico me perguntando como Phoenix conseguiu, com tanta maestria, associar sentimentos tão distintos ao mesmo tempo… Suas danças são um show à parte! Na mesma hora eu lembrei do Ney Matogrosso. Todas as danças são embaladas com músicas super pertinentes e agradáveis de se ouvir, contrastando com as cenas que de agradáveis não têm nada.

5. O CORPO FALA

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A expressão corporal do ator, especialmente durante as danças e as crises de riso, demonstra o quanto o corpo fala, o quanto o corpo grita, mas que para interpretá-lo, é necessário se despir de preconceitos em busca de toda a subjetividade que carregamos nesse conjunto de ossos e músculos que, para alguns, é uma máquina orgânica, mas que essencialmente, é a tradução do que somos no mundo.

Se tomássemos posse de que não temos um corpo, mas que somos um corpo, seria bem mais fácil detectar que as expressões dizem muito sobre quem somos e quem podemos nos tornar se não temos a dignidade que todo ser humano merece.

6. SOBRE A VIOLÊNCIA

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Eu quase não assisti ao Coringa nos cinemas por ter ouvido muita gente falar que o filme era extremamente violento. A classificação etária é de dezesseis anos e eu concordei plenamente que tenha sido determinada assim. Achei um absurdo encontrar crianças com cerca de dez anos na minha sessão. Fico me perguntando o que há na cabeça de pais que não respeitam a classificação indicativa de filmes, pois, definitivamente, este é um filme para adultos.

E ainda diria mais: este é um filme para adultos que querem assistir uma trama envolvente, e não caricata. Que esperam descobrir a origem e a transformação de um homem que se torna um vilão emerso da sombria e desigual Gotham City, e não apenas a história do Palhaço do Crime quem tem cabelo verde e um sorriso escancarado. Mas enfim, comentários à parte, voltemos ao ponto principal: a violência presente nessa preciosidade de filme.

Primeiramente, as cenas de violência em Coringa são fichinhas frente às de Logan (2017) ou Deadpool (2016). Existem cenas pesadas? Sim. Mas são infinitamente mais leves que as dos filmes supracitados. Diria até que só existe uma cena que realmente é bem sanguinolenta. As demais já são comuns em séries bem populares na Netflix.

Para quem já assistiu Narcos, Orange Is the New Black ou Vis a Vis, as cenas de Coringa não irão surpreender ao ponto de serem “intragáveis”. Penso que em Vis a Vis, por exemplo, o requinte de crueldade do psiquiatra (ou seria psicopata?) Sandoval é muito mais impactante.

Mas no meio disso tudo, o que mais me admirou é que justamente na cena mais violenta, em que quase foi possível respingar sangue na plateia, foi o momento em que todos riram. Que loucura!

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Depois da morte de sua mãe, Arthur volta para casa e inicia seu processo de maquiagem como palhaço, assumindo, definitivamente, sua versão assassina. Ele é convidado a ir ao seu tão querido programa de TV, tendo a oportunidade de conhecer seu grande ídolo Murray Franklin, e, por isso, resolve se caracterizar dessa forma.

Cabe dizer que participar desse programa era um grande sonho, mas não sob as circunstâncias apresentadas: Arthur só é convidado porque um trecho da sua apresentação de stand-up foi passado no programa, de forma banalizada, sem sua autorização. Devido ao aumento da audiência, resolvem chamá-lo para participar ao vivo, e com isso ele vê a chance de mostrar ao mundo sua verdadeira personalidade. É aí que ele percebe que, no fundo, sua vida, que sempre foi uma tragédia, na realidade estava sendo vista pelo mundo como uma grande piada.

Porém, antes de sair de casa para tal compromisso, ele recebe a visita de dois ex-colegas de trabalho, devido ao falecimento de sua mãe. Um deles é quem lhe deu a arma utilizada em seu primeiro crime, o outro, um anão que sempre lhe tratou muito bem. Para se vingar daquele que, ainda que indiretamente, favoreceu sua entrada no mundo do crime, Arthur pega uma tesoura e mata o homem com golpes letais em várias partes do corpo.

O anão presencia tudo, e quando ele abre a boca para questionar o porquê daquilo tudo, é quando a plateia começa a rir, pois a cena foi friamente calculada para ter esse tom sarcástico, cômico, ainda que numa situação extremamente trágica. Foi então que fiquei me perguntando como nós pudemos rir depois daquele crime horrível, como foi possível que a morte tenha sido tão banalizada.

Daí pra frente, vemos a transformação de uma pessoa com problemas mentais que, estando sem seus remédios e sofrendo uma enxurrada de agressões, decepções e revelações imprevisíveis, vai se tornando um homem frio, agressivo e calculista. Que sofre uma metamorfose profunda, compreendendo, enfim, sua personalidade, e nos revelando que, como diz o ditado, de médico e louco, todo mundo tem um pouco.

7.  SOBRE A LUTA DE CLASSES

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É interessante perceber como surge uma mobilização política crescente em Gotham City ao mesmo tempo em que a vida de Arthur parece decair cada vez mais. Seus crimes acabam sendo a motivação para uma revolução dos menos favorecidos, que já não aguentam mais viver em uma cidade em que os ricos têm espaço e os pobres não.

Chega a ser meio “assustador” pensar que em nossa sociedade isso não é muito diferente. Quantos são aqueles que se identificam com os que matam, que fazem justiça com as próprias mãos?

É triste constatar que, infelizmente, Arthur só foi visto pela sociedade quando ele se transformou num psicopata. De certa forma, ele só foi querido e admirado por muitos depois que seus atos extremos foram reconhecidos como algo motivador para uma resposta agressiva do povo, que viu nesse contexto a oportunidade perfeita para incendiar a cidade em busca de melhores condições de vida.

CONCLUSÃO

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Espero que com a análise desses sete pontos você tenha sentido curiosidade em tirar as suas próprias conclusões acerca desse personagem que conseguiu me cativar. A atuação do Joaquin Phoenix foi impecável, tal qual a direção de Todd Phillips. Eles certamente receberão algumas estatuetas por esse filme que, na minha opinião, pode ser considerado como o filme do ano. Sem dúvida, o melhor filme da DC. Vale a pena conferir!

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CORINGA (CRÍTICA)

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Coringa gira em torno de uma origem para o icônico arqui-inimigo do Batman, herói clássico da DC Comics. Desde sua primeira aparição lá pelos anos 1940, o vilão foi intensamente revisitado e muitos atores o viveram: Cesar Romero (na série clássica dos ano 1960), Mark Hamill, o eterno Luke Skywalker que o dublou em Batman: The Animated Series, Jack Nicholson (Batman, 1989), o vencedor do Oscar póstumo Heath Legder (O Cavaleiro das Trevas, 2008) e o fiasco de Jared Leto (Esquadrão Suicida, 2016).

Todavia esta é uma história original e independente, nunca vista antes na tela grande. A exploração de Arthur Fleck (Joaquin Phoenix) por Todd Phillips, é a de um homem desconsiderado pela sociedade. Não é apenas um estudo de caráter corajoso, mas também um conto de advertência mais amplo para os perigos do isolamento, da solidão e da invisibilidade social. Ao acompanhar a trajetória de Arthur Fleck, um homem esquecido pela sociedade, investigamos até que ponto o palhaço de Gotham City é fruto da incapacidade de todos nós de acolhermos o outro.

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Título original: Joker
Direção: Todd Phillips
Roteiro: Todd Phillips, Scott Silver
Duração: 2h 1min
Lançamento: 03 de outubro de 2019, no Brasil

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Elenco: Joaquin Phoenix (Arthur Fleck/Coringa), Robert De Niro (Murray Franklin), Zazie Beetz (Sophie Dumond), Frances Conroy (Penny Fleck), Brett Cullen (Thomas Wayne)

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A VIDA É UM TEATRO DO ABSURDO
Não é um filme de herói. Não espere um filme caricato e colorido como se saltasse dos quadrinhos. Não. É um filme sobre loucura, sobre ser invisível no mundo e uma investigação da insanidade por parte do próprio louco. Na moda atual de criar filmes sobre vilões (como Esquadrão Suicida, 2016; e Venom, 2018) ou sobre anti-heróis (Deadpool, 2016; e Logan, 2017 ), Coringa nos brinda com uma releitura adulta de um dos vilões mais conhecidos das Histórias em Quadrinhos (HQs). É uma história de origem que nos lembra muito a versão de Alan Moore, mas somente na abordagem psicológica; como também a de Christopher Nolan (O Cavaleiro das Trevas, 2008) eternizado por Heath Legde, também amigo de Joaquin Phoenix, o vilão deste longa. Mas as semelhanças param por aí. O Coringa de Joaquin oscila entre o riso, o choro e o grito contido daqueles que, em sociedade, nunca são ouvidos.

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Conhecemos, então, a história de Arthur Fleck, em reabilitação após uma temporada no sanatório, diagnosticado com problemas cerebrais e com uma ideia fixa plantada por sua mãe: que ele nascera para fazer o mundo rir. Joaquin Phoenix, ao falar sobre Arthur, define o personagem como “um cara que busca uma identidade que por engano se torna um símbolo. Seu objetivo é genuinamente fazer as pessoas rirem e trazer alegria ao mundo”.

“Quando eu era menino e dizia às pessoas que seria comediante, todo mundo ria de mim. Bem, ninguém está rindo agora”

Desta forma, Arthur Fleck ganha a vida sendo palhaço, ora como garoto propaganda nas calçadas, ora como animador em hospital no maior estilo Path Adams de Robin Wiliams. Alterna com suas idas à assistência social e seus cuidados para com a mãe. Nas horas vagas, escreve um diário e rascunha, toma notas para compor seu próprio stand-up, seja assistindo a outros comediantes, seja vendo o programa de Murray Franklin, seu grande ídolo.

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Com uma fotografia que lembra muito Taxi Driver (1976), o que vemos desfilar pela tela não é uma Gotham City atual ou futurística. O intensamente magro, esquelético Coringa tenta sobreviver à cidade opressiva da década de 1980. Gotham é violenta nas pequenas coisas: na paisagem deteriorada, na elite (aqui representada pela família Wayne) que vive melhor que a população comum, no trato humano diário e tantas outras instâncias da sociedade. E a cidade ao mesmo tempo que não enxerga, não perdoa àqueles que não se enquadram nos padrões. A atriz Zazie Beetz, que já vivera a heroína Dominó (Deadpool 2, 2018), afirma sobre o Coringa:

“É uma espécie de empatia em relação ao isolamento”, disse Beetz, “e uma empatia em relação ao que é nosso dever como sociedade, de abordar as pessoas que escapam de alguma maneira pelas brechas. Há muita cultura disso no momento. Por isso, empatia ou apenas uma observação sobre personalidades que lutam?”

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Quanto a Arthur Fleck, não é o simples vilão que enlouqueceu caindo em recipiente de produtos químicos. Lá nas HQs, a Origem do Coringa, faz com que sua peles esbranquiçada seja fruto da deterioração cerebral causada pelos produtos da Indústria Ace. O Coringa se pinta e se veste de palhaço. Ele protagoniza sua composição que evidencia sua insanidade.

A maquiagem do Coringa é muito parecida com a de John Wayne Gacy, um verdadeiro serial killer que costumava entreter crianças enquanto estava vestido como Pogo, o Palhaço. Um estilo de maquiagem que foi evitado pelos palhaços que trabalhavam na época, pois proibiam estritamente pontas “afiadas” na composição, como aparece nos olhos, pois isso assustava às crianças.

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O palhaço tão pouco é mero reflexo do heroísmo do Batman, mas sim do poder da família Wayne. Sua loucura é herdada, sua loucura é fruto de agressão, sua loucura é fisiológica, sua loucura é a não aceitação. Assim o vilão sintetiza tantas causas para a falta da sanidade que, em uma sociedade insana, acaba sendo o gatilho para a barbárie.

Mas se você olhar com atenção, ainda encontrará aquelas referências aos quadrinhos como a fixação do vilão pelos holofotes, prenunciada desde 1940 (Bob Kane) com sua aparição no rádio ou em 2005, na sua obsessão pela TV (Ed Brubaker). Lançará alguma luz sobre a origem do Batman, no entanto, já avisamos, é um filme cujo protagonista é o Coringa, o bobo da corte que de uma hora para outra pode desestabilizar o sistema.

CONCLUSÃO: Eis a questão…
Se você se pergunta se é um longa-metragem que merece ser assistido, digo que não. Merece ser degustado. A trilha sonora, pontual e complementar ao enredo, com a presença de “Smile” (composta por Chaplin para Tempos Modernos, 1936); e “Send the clowns” de Frank Sinatra, encaixam-se perfeitamente no enredo. Ainda, pelo aspecto sonoro, a risada frenética quebra esse momentos de lirismo e a seriedade de certas cenas, contudo não de um jeito cômico. É uma risada, mescla de choro, que não diverte, mas que causa nervoso. O riso de nervoso de Joaquim Phoenix é a vírgula, é o eco do silêncio e é o ponto final. O diretor descreveu para Phoenix como “algo quase doloroso, parte dele que está tentando emergir” e o resultado ficou surpreendente.

Por isso não espere aqui que a história desse filme se alinhe com os novos planos da DC para o Batman interpretado por Robert Pattinson. “Não vejo o Coringa se conectando a nada no futuro”, disse o diretor Todd Phillips. E completa: “Este é apenas um filme.” E nisso concordamos. Coringa é um filme único e não merece continuação porque é uma obra totalmente acabada em si mesmo, mas com questões imperecíveis.

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“YESTERDAY” E OS BEATLES NO CINEMA (CRÍTICA)

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Desde a primeira aparição do Beatles na TV americana, em 9 de fevereiro de 1964, na época programa de Ed Sullivan, no qual entre as canções mostrava-se dados biográficos do então jovens prodígios, a banda inglesa expandiu e conquistou tanto o mercado estadunidense, como também o mundo. Naquela playlist já constavam sucessos inesquecíveis como All My Loving, Till There Was You, She Loves You, I Saw Her Standing There e a icônica I Want to Hold Your Hand.

Imaginar a história da música, quiçá do mundo, sem a presença da banda Liverpool seria algo impensável, mas não para o diretor Danny Boyle, vencedor do Oscar 2008 (Quem quer ser um milionário?). 

Está é a premissa do enredo do filme Yesterday (2019): depois de um apagão em escala mundial, a existência dos Beatles é deletada da história humana, exceto para algumas pessoas, entre elas: Jack Malik. Mesmo com todos os esforços de sua amiga e produtora Ellie Appleton, sua carreira ia de mal a pior. Não é visto com seriedade pelos amigos e nem pela família. Somente Ellie, que nunca esquecera da performance de Jack fazendo cover de Wonderwall do Oasis em um concurso da escola quando era criança, parece acreditar no talento do rapaz. Até que a vida de Jack muda após um acidente de bicicleta.

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Título original: Yesterday
Direção:
Danny Boyle
Roteiro:
Jack Barth, Richard Curtis
Duração:
1h 56min
Lançamento:
29 de agosto de 2019

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Elenco: Himesh Patel (Jack Malik), Lily James (Ellie Appleton), Sophia Di Martino (Carol), Joel Fry (Rocky) e Ed Sheeran (Ed Sheeran).

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BEATLES E MICHAEL JACKSON?
Qualquer fã da banda sabe que ter as músicas da banda de Liverpool no cinema ou em qualquer obra artística era, até certo tempo atrás, uma raridade. Parte desse problema se deve justamente ao fato de nada mais, nada menos, do que Michael Jackson era o dono dos direitos autorais das músicas dos Beatles.

Na década de 1980 muitos empresários com o ideal de fundar um grande conglomerado de entretenimento acabaram por criar uma organização: a Michael Jackson, Inc. Esta empresa acabou por adquirir a ATV, empresa que hospedava o catálogo musical dos Beatles. Entre as obras, a empresa detinha os direitos autorais da maioria dos maiores sucessos da banda, incluindo “Yesterday”, “Come Together”, “Hey Jude”, e muitas outras.

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Depois do próprio Paul McCartney e Yoko Ono abdicarem de comprar o catálogo simplesmente porque o rei do pop ansiava por ele, alguns meses mais tarde Michael Jackson comprou a ATV por um preço de 47,5 milhões dólares. Hoje, a Sony/ATV, que detém os selos de cantores como Taylor Swift e Eminem, vale cerca de US$ 2 bilhões. Para Joe Jackson, embora pudesse comprar facilmente o catálogo, o comportamento de McCartney era justificável:

“O comportamento de Paul foi muito, muito mais estruturado financeiramente. A única razão para Michael comprar o catálogo era porque estava à venda! Paul McCartney e Yoko poderiam ter comprado, mas não quiseram.”

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Já para Martin Bandier, o diretor-executivo Sony/ATV Music Publishing, havia também uma explicação para a falta de vontade de McCartney: “Eu nunca pensei que Paul McCartney iria comprá-lo, porque é muito difícil para um criador comprar o que é seu. Seria como Picasso passar um dia fazendo uma pintura, para comprá-la, vinte anos, depois por US $ 5 milhões. Não seria uma coisa que Paul faria.”

O fato é que por muito tempo, era quase impossível usar o acervo dos Beatles seja em outras obras artísticas, seja em peças publicitárias. Isso só passou a mudar a partir de 2008 quando houve a abertura para uso em publicidade. Mesmo não precisando do aval do integrantes ainda vivos da banda, Bandier acreditava que havia uma “obrigação moral” de analisar o uso dos catálogos com McCartney, Starr, Yoko Ono (viúva de Lennon) e a família de George Harrison (que morreu em 2001).

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BEATLES NO CINEMA
Um marco para o uso de canções da Beatles no cinema é sem dúvida o longa-metragem de Jessie Nelson, I am Sam (2001), que por aqui recebeu o título açucarado de Uma lição de amor. Neste filme que premiou com os Oscar de melhor ator Sean Penn, conta a história de Sam, uma homem com atraso intelectual (uma mente de uma criança de 7 anos), que com ajuda de outros deficientes cuida de sua filhinha Lucy Diamonds (Lucy in the sky with the diamonds). Há cenas que remetem à Abbey Road, citações feitas pelo protagonistas de frases de Lennon e McCartney e, claro, as diversas músicas dos Beatles interpretadas por covers. São ao todo 19 versões que contam com as vozes de Ben Harper, Wallflowers, Stereophonics e Sheryl Crown. Uma saída inteligente, pois na época  era algo extremamente raro ter documentários, filmes ou clipes desde que Michael Jackson adquirira os direitos autorais da banda na década de 1980.

Usar a obra dos Beatles como fio condutor de uma trama inteira foi a proposta de Across the Universe (2007) de Julie Taymor. O casal protagonista Jude e Lucy, nomes retirados das canções da banda inglesa, vivem toda sua história de amor, ambientada pela músicas dos Beetles, no período de contracultura, da psicodelia e protestos contra a Guerra do Vietnã da década de 1960. Época tão bem retratada no documentário 1967: O verão do amor (2017).

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UM TRILHA FANTÁSTICA, UMA HISTÓRIA PREVISÍVEL
Longe de ser uma obra-prima, Yesterday tem uma história simples e comum para uma comédia romântica. O longa parte de um acontecimento fantástico, um apagão em escala mundial que parece ter sido provocado por uma erupção solar (como se pesca de uma manchete de jornal). Isso causa uma reviravolta na vida do aspirante a cantor, Jack Malik. Um looser (perdedor) em todos os sentidos da palavra. Sempre auxiliado pela carismática e linda Ellie, professora de matemática e produtora amadora que vive uma friendzone e reprime seus sentimentos por Jack.

A ideia de um cantor que terá que escolher entre o amor e o sucesso musical está na raiz de filmes como Rock Star (2001), com Mark Wahlberg interpretando um vocalista de rock anos 80; ou Nasce uma Estrela (2018), com a Lady Gaga. Ou seja, é um tema batido. O que chama a atenção, claro é vasto uso do Beatles como pano de fundo da trama.

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A partir blackout mundial, Jack se vê como a memória da existência dos Beatles. Por mais que mais duas pessoas, no enredo, lembrem-se da existência da banda inglesa, somente Jack tem o talento para cantar e tocar as músicas. Nesta realidade, John Lennon não morreu em um atentado: vive uma vida pacata a beira do mar, alheio à música. Nesta realidade Oasis (banda influenciada pelos Beatles) não existe, assim como a Coca-Cola (só a Pepsi, em um merchã escandaloso) e Harry Potter.

Então, auxiliado por Ellie (no início) e pelo cantor Ed Sheeran (que interpreta ele mesmo), Jack se torna uma celebridade na Internet, abre turnês, vai a shows de entrevista, faz tudo que sua empresária chique Carol lhe ordena.

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No final, ele escolhe uma vida simples ao lado de sua admiradora de infância. O mundo não volta ao normal (juro que esperei isso). As músicas da banda são doadas gratuitamente e Jack abdica de lucrar com uma arte que nunca foi sua. Volta a ser professor e constitui família em um final simples que agradará ao noveleiro mais aficionado.

QUATRO CURIOSIDADES (entre tantos easter eggs)

  1. 064_10No filme, Jack foi atingido quando estava de bicicleta, quebrou os dentes da frente e feriu os lábios. Isso realmente aconteceu com Paul McCartney em 1966 que caiu do ciclomotor e lascou um dente da frente em Liverpool. 
  2. 064_11Legalmente, os cineastas precisavam apenas da permissão da Sony ATV para usar as músicas dos Beatles, sendo a Sony detentora dos direitos de publicação. Em princípio, eles também buscaram as bênçãos de Paul McCartney, Ringo Starr, Yoko Ono e Olivia Harrison para o filme. Assim os Beatles não tiveram contribuição criativa, exceto pela aprovação de seu repertório para uso no filme.
  3. 064_12A história original do filme foi escrita por Jack Barth. Nela tudo era muito mais sombrio, com o protagonista lutando como músico na nova linha do tempo e a premissa do universo alternativo explorada com mais profundidade. Quando Richard Curtis reescreveu, ele fez o tom muito mais alegre, colocou menos ênfase na premissa de uma nova linha do tempo sem os Beatles e mais foco no romance entre Jack e Ellie.
  4. 064_13Alguns dos personagens têm seus nomes inspirados nas músicas dos Beatles: Rocky, o roady temporário, é nomeado por causa de “Rocky Raccoon”; Ellie,  é nomeada em homenagem a  “Eleanor Rigby” (a única música que Jack tem dificuldade de lembrar); e a colega de quarto de Ellie, Lucy, claramente, “Lucy in the sky with the diamonds”.

CONCLUSÃO: TODAY, ASSISTA!
Yesterday não é a última bolacha (ou biscoito) do pacote no que se refere a uma comédia romântica ou mesmo de tributo musical. A história é leve, sem vilões, pois nem Jack Malik é um mal caráter. Ele é um sonhador e se deixará levar pelos rumos dos acontecimentos. Uma salva de palmas para Ellie (Lily James) que é aquela mocinha fofa e apaixonada e de sorriso cativante, a melhor em cena.

Se o leitor nerd deseja um filme leve e é fã dos Beatles, cantará do início ao fim as músicas do grupo, mesmo com a desafinada de Help durante o show de lançamento de Jack (embora o ator, Hamish Patel tenha feito aula de canto e violão). Para além das piadas bem colocadas e em momentos precisos, vai até esquecer que Ed Sheeran não é lá um ator, mas vale pelo desconcerto do rapaz em frente as telas na sua “amizade” com o protagonista. Veja o longa de Boyle como distração de um dia estressante. Afinal não deixe para Yesterday o que pode fazer Today. Essa foi muito ruim! Fui galera!

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