WATCHMEN: QUEM VIGIA OS VIGILANTES? (HQ)

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O MENINO QUE TROCAVA GIBIS
Sou um cara de sorte, não tenho dúvidas. Não em tudo, é claro. Mas quando o assunto é vasculhar livrarias, sebos, feiras de livros, consigo encontrar verdadeiros tesouros da escrita. Faz parte de minha formação como pessoa, afinal desde muito cedo aprendi a comprar e, sobretudo, trocar muitos gibis. Família com pouca grana, então tinha que me virar para conseguir ler quadrinhos ainda no formatinho vendido na década de 1990. Tudo eram histórias incompletas, porque eu adquiria números aleatórios devido a impossibilidade de comprar na ordem.

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Mas essa é uma crítica de um desses achados: a minissérie Watchmen (1988) escrita por Alan Moore e com os desenhos de Dave Gibbons. São seis edições que, pasmem, encontrei lacradinhas (pelo próprio vendedor). Era, e ainda é aqui em minhas mãos, uma “Mini-série de Luxo” publicada pela Editora Abril que custava Cz$ 950,00 (novecentos e cinquenta cruzados), moeda da época e que nas últimas edições já eram Cruzados Novos, uma testemunha da fragilidade e mudanças dos planos monetários.

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Voltando ao assunto, é uma das obras mais queridas de meu acervo de 9ª arte (Histórias em Quadrinhos) não só pela história que apresentarei nas próximas linhas, mas por ser mais uma HQ de Alan Moore, argumentista de V de Vingança (1988-1989) e Batman – A piada mortal (1988), do qual curto muito o trabalho.

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Meu primeiro contato com Watchmen não foi pelos quadrinhos, mas pela adaptação cinematográfica de 2009 feita por Zack Snyder. Arrisco-me a dizer que foi a única adaptação da DC Comics que ele acertou, contudo não entrarei no mérito da questão. O importante é que novamente o universo de Alan Moore vem à tona com a série da HBO e, aproveitando a onda revolucionária e o questionamento do sistema no últimos tempos, a ótica do argumentista inglês parece se encaixar perfeitamente neste mundo incerto em que vivemos.

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1. O ENREDO DE WATCHMEN
Estamos no ápice da Guerra Fria. Estados Unidos e União Soviética lutam por zonas de influência e a ameaça de um conflito nuclear paira no ar. O fantasma do comunismo, a degradação da sociedade, é uma escolha das pessoas. Rorschach, em seu diário, afirma que “o mundo inteiro está a beira do precipício, olhando para baixo, pro inferno sangrento. Todos aqueles intelectuais e gente de fala mansa… De repente, mais ninguém tem nada a dizer.”

É nesse contexto que o Comediante, “herói” se assim podemos dizer, é encontrado morto, sob circunstâncias misteriosas, e Rorschach, o anti-herói que acredita ter sido assassinado. Nesta época, os heróis não são mais comuns como era nas décadas anteriores: foram suprimidos pelo governo. Alguns ainda atuam na clandestinidade, ou se socializaram e lucraram com o sucesso ou mesmo estão em asilos, ou morreram em acidentes ou causas naturais. Assim, o heroísmo anda restrito e ter heróis sendo assassinados é acabar com todo um legado de ajuda a população.

Desde que o primeiro herói mascarado surgiu em 1938, Hollis Mason (Coruja Notuna, Nite Owl), “os super-heróis  haviam escapado de seu mundo colorido e invadido o horrível mundo preto e branco das manchetes”. Mas eram heróis defeituosos, nada virtuosos e pouco organizados: “todos nós procurávamos expressar de modo infantil, a noção do Bem e do Mal”. O próprio Coruja Noturna original constata: “Estávamos tentando, através de esforços pessoais, tornar nosso país um lugar mais seguro e com melhores condições de vida”. Mesmo que a opinião pública não aceitasse amplamente o heroísmo mascarado, Rorschach não deixaria um serial killer de heróis a solta: era seu compromisso com a justiça.

O que importa a morte de uma pessoa contra tantas? Porque há os bons e os maus, e os maus devem ser punidos. Mesmo em face do armagedon, não farei concessões. (Rorschach)

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2. A HISTÓRIA: PERSONAGEM A PERSONAGEM
A cada edição de Watchmen fica claro que acompanhamos a perspectiva de alguns heróis e a trama vai se construindo sob ótica de vários personagens. É a técnica de múltiplos enredos e narradores que hoje é amplamente conhecida entre os leitores de George Martin, autor das Crônicas de Gelo e Fogo que deu origem a série da HBO, Games of Throne. Logo, faremos nossa análise a partir da história singular de cada um deles na ordem cronológica das edições.

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I – COMEDIANTE (nada divertido)

Este anti-herói (imperfeito ao extremo) é o estopim da história. Sua morte não é relevante para opinião pública como era antigamente. O povo não se importa. Em seu enterro, os poucos heróis existentes estão lá para prestar as suas últimas homenagens, ao passo que se lembram de fatos marcantes da vida desse aspirante a psicopata.

Edward Blake, o Comediante, lutou na Guerra do Vietnã, onde foi um carrasco e abandonou a máscara. Não tinha escrúpulos para matar inclusive uma mulher que afirmava estar grávida dele. Ele tira vida da moça na frente do Dr. Manhattan, que passa a racionalizar a vida humana após esse fato. Foi nessa ocasião que Blake adquiriu uma cicatriz na face. Agir com violência para com mulheres era normal para ele. Antes disso ele havia estuprado Sally Júpiter, heroína conhecida como Silk Espectre (Espectral). Dessa violência sexual nasceria uma filha.

Assim, o Comediante, acostumado aos atos mais hediondos, antes de morrer procura um ex-vilão, Moloch e confessa sentir muito medo. Que até ele, que era capaz de atos horríveis, que matou até crianças no Vietnã, que alcançou fama em cima das mortes e era adorado pelo governo americano, mas que ele sentia um medo terrível daquilo que acontecera em uma ilha. Mas o quê e onde?

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II – DOUTOR MANHATTAN (deus americano)

Talvez dentre os heróis de Watchmen mais próximo de um SUPER-herói é justamente o Doutor Manhattan. John Osterman, filho de um relojoeiro,  apesar de ter o mesmo dom que seu pai com os relógios, seu velho nunca quis que o filho tivesse uma vida medíocre. Ajudou-o e cobrou-o ao extremo nos estudos até que ingressasse na universidade para ser um novo Einstein.

Mas é justamente o relógio de seu pai o catalisador de seus poderes. Ao ficar preso em uma câmara de campo intrínseco, sofre uma experiência nuclear, adquire poderes superiores em que o espaço-tempo se sobrepõe. Ele é onisciente, onipresente, teletransporta-se, molda a realidade, lê pensamentos. É quase um deus. Ou nas palavras de Laurie Juspeczyk, sua companheira, deus ex machina (ἀπὸ μηχανῆς θεός, em grego, uma solução inesperada, improvável para terminar uma obra ficcional). Ele sabe do passado de todos, antecipa o fim da série (laconicamente), prediz o futuro porque para o Doutor, o tempo é cíclico.

Todo nós somos marionetes, Laurie. A diferença  é que eu vejo os barbantes.

Sua história é contada sobre múltiplos planos: a consciência do Dr. Manhattan e o que se passa no mundo; os flashbacks e os acontecimentos presentes e futuros. Essa consciência múltipla para além do tempo e do espaço, faz com que cada vez mais ele se afaste do amor de Laurie (filha de Sally Júpiter).

Mas quanto mais o Doutor entende as engrenagens do universo, mais se distancia da humanidade e sua pequeneza. Ele é frio demais, racional ao extremo e alheio ao sentimento amoroso (pelo menos na superfície). Tais fatos fazem com que ela acabe rompendo com o relacionamento de anos e subordinando a salvação do mundo aos reveses de sua história com Laurie.

Eu leio os átomos, Laurie. Posso ver o antigos espetáculo que fez nascer as rochas. Comparada a isso, a vida humana é breve e mundana.

Mesmo que o Dr. Manhattan não se importe com a humanidade em geral, quem dirá com o assassino do Comediante, ele é a grande arma nuclear do governo estadunidense. Mantém afastados os inimigos soviéticos e propaga a harmonia global. No livro do Dr. Milton Glass sobre o SUPER-herói, o cientista afirma:

“O homem nunca falou tanto em buscar a harmonia global, embora armazene armas de efeito devastador. […] As guerras para acabar com as guerras e as armas para acabar com as armas falharam. Mas nós não podemos falhar.”

É nesse sentido que o Dr. Manhattan é essencial para a paz mundial. A ideia que “Deus existe, e é americano” fez com que os inimigos dos Estados Unidos ficassem impotentes ante ao poder de um ser tão supremo. Assim o Dr. Manhattan sempre fora usado (ele permitia conscientemente isso) para sustentar a paz armada estadunidense e manter a hegemonia global.

Logo por mais que para os outros heróis e para a população, o heroísmo (sem superpoderes) tenha sido uma moda passageira, para o Dr. Manhattan e para o Comediante era diferente. Este último ganhava ainda mais espaço por causa de seu desempenho sádico e extremista no Vietnã.

Entretanto, muitos heróis desaparecem misteriosamente antes da morte do Comediante, mas ninguém os investigou. Assim quando o presidente Nixon trapaceia e assume, ilegalmente, seu terceiro mandato, ocorrem eventos catastróficos contra os mascarados. O senador Keene, então, decreta que o vigilantismo se tornava ilegal. É o fim de uma era: muitos heróis desistem, poucos ainda agem na ilegalidade.

Depois que o Comediante é morto, a vida do Dr. Manhattan sofre um abalo: em plena rede televisão, ao vivo, testemunhas afirmam ter perdido entes querido que teriam contraído câncer simplesmente por entrar em contato com o super-herói. Aliado ao seu rompimento com Laurie, ele decide se isolar em Marte. Abandona a humanidade. Assim, os soviéticos avançam em seu esforço para acabar com o domínio americano sobre o mundo. Surge a ameaça, com a ausência do Doutor, de uma Terceira Guerra Mundial e o planeta caminha para o caos.

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III –  RORSCHACH (profeta do destino)

A narrativa de Rorschach, alterego de Walter Kovacs, dispõe de dois aspectos interessantes. O primeiro, é claro, é a acidez de seu diário que nos dá mostra de suas opiniões e pensamentos, um hábito adquirido desde sua infância em institutos de correção como o Lar Charlton. O segundo é que a história do justiceiro mascarado se divide com a história de um pirata náufrago, herói de uma história em quadrinhos. À medida que a história prossegue, vemos os acontecimentos envolvendo Kovacs, o que acontece no mundo (por meio da opinião do jornaleiro) e a história em quadrinhos do pirata. Parece confuso? Aparentemente, sim, mas revela a riqueza das entrelinhas da história. Assim conhecemos o reflexo dos acontecimentos (a morte do Comediante e o exílio do Dr. Manhattan) na população nova-iorquina e percebemos que Rorschach e o pirata são os sobreviventes que farão de tudo para chegar ao final da história.

Rorschach é, ao meu ver, o protagonista de Watchmen. Ele é, para opinião pública e até para seus colegas de heroísmo, um louco e homicida, todavia é o único que vigia os vigilantes e que está desperto e disposto a enfrentar a maré dos acontecimentos. É ele que inicia o questionamento: a quem interessaria destruir os grandes “patriotas” americanos, o Comediante, herói do Vietnã, e o Dr. Manhattan, o bastião da paz?

Durante várias entrevistas feitas a um psicanalista na prisão, descobrimos, através de flashbacks, a história de Walter Kovacs, uma criança fruto de um lar sem pai e uma mãe prostituta. Ele sempre fora introspectivo, sofrera violência doméstica e bullying. Decide, depois de passar a juventude em instituto correcional devido a agredir um colega, que se tornaria um vigilante. Assim nasce Rorschach: uma personalidade criada por Kovacs diante das atrocidades feitas por um assassino sádico, uma dissociação de personalidade. Ele perde a fé na humanidade. Usa a máscara por vergonha de pertencer a essa espécie. Máscara confeccionada com tecido especial adquirido de sua época como operário em indústria têxtil. Ele assim narra seu momento de auto descobrimento, após incinerar o assassino de criança e vê-lo junto com sua casa a queimar:

Olhei para o céu, através da fumaça espessa e Deus não estava lá. O frio. A escuridão sufocante. Estamos todos sozinhos. Vamos viver nossas vidas, na falta de algo melhor para fazer. Nascer do esquecimento. Aturar crianças destinadas ao inferno, como nós. Não há nada mais. Existimos ao acaso. Não há um padrão, exceto o que nós imaginamos. Nenhum significado, exceto aquele que nós impomos. Este mundo sem direção não é delineado por forças metafísicas. Não é Deus que mata crianças. Nem é a sorte que as esquarteja ou o destino que as dá de comida aos cães. Somos nós. Só nós. As ruas estavam tomadas pelo fogo. O vácuo dentro de mim lembrava gelo quebrando. E ele renascia livre para cria sua própria forma neste mundo moralmente vazio. Era Rorschach.”

Culpabilizado pela morte de Moloch, vilão aposentado, foi convenientemente preso. Fica óbvia a tentativa de retirá-lo de circulação. Sua investigação ameaça os planos por trás da morte do Comediante, o exílio do Dr. Manhattan e o recente atentado a Ozymandias, herói e empresário de sucesso que lucra com a própria imagem. Solitário, parecia que Rorschach estava destinado a apodrecer na cadeia, lutando contra criminosos que ele mesmo mandou para lá. Até que sua iniciativa acaba tirando dois heróis da inércia: Laurie Júpiter e o segundo Coruja Noturna.

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IV – CORUJA NOTURNA E LAURIE JUSPECZYK

Eis dois heróis que são o último legado da geração de ouro de Watchmen, quando os Minutemen, grupo liderado pelo Capitão Metropólis e Silk Espectre (Sally Júpiter), estavam na ativa e eram uma equipe pronta para o combate ao crime na década de 1940. O primeiro Coruja Noturna, Holis Mason, passou seu manto a Dan Dreiberg, jovem rico, intelectual, solitário e especialista em tecnologia. É ele que junta as peças do quebra-cabeça e descobre o vilão por trás da trama.

Já Laurie é filha de Sally Júpiter, a primeira Silk Spectre, e do Comediante e sua violência sexual. Por livre e espontânea pressão da mãe, a primeira a lucrar financeiramente com o heroísmo como atriz, Laurie seguira os passos dela como heroína. “Mamãe estragou minha adolescência, tentando fazer de mim o que ela seria se eu não tivesse nascido”, confessa Juspeczyk ao Dr. Manhattan. Já o pai, o Comediante, ela o odiava desde que soubera que tinha estuprado sua mãe. Por outro lado Sally, sua mãe, “amou um homem que tinha todos os motivos para odiar”.

À medida que a história prossegue, eles vão se tornando mais próximos e desenvolvem um romance. Eles relutam em acreditar em Rorschach, um psicótico que vê conspiração em toda parte e que acreditava em um matador de mascarados. Mas começa a fazer sentido a sua teoria: “Comediante assassinado… Jon exilado… alguém tentar matar Adrian (Ozymandias) e o próprio Rorschach levado pela polícia…”, afirma o segundo Coruja Noturna.

Enquanto Dan Dreiberg, apático e afastado da luta de crimes, tenta sair de seu casulo e engrenar um romance com Laurie, esta oscila entre evoluir a friendzone com o Coruja Noturna ao passo que ainda nutre sentimentos pelo exilado Dr. Manhattan. Enquanto Rorschach forja uma rebelião para fugir do presídio, a tensão social cresce, fica clara a intenção de que tudo não passa de uma forma de fazer estourar um conflito de proporções gigantescas.

Ronda o fantasma da ameaça nuclear, a imprensa é tida como comunista por sua postura contra o governo e a opinião pública se divide: heróis salvam ou são criminosos da nação? Veículos de comunicação destroem ainda mais a imagem do heróis. Na ausência do Dr. Manhattan, o trunfo tático do governo americano, a situação de medo e desconfiança de uma Terceira Guerra Mundial faz com que a população se rebele contra o heroísmo, tanto na mídia como nas ruas. O primeiro Coruja Noturna, Holis Mason, é espancado até a morte.

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V – OZYMANDIAS (Rei dos Reis)

É um personagem construído aos poucos ao longo de todas as edições. É também um heróis com superpoderes, o último a surgir. Diríamos que a inteligência é seu poder, apesar de também ser um exímio atleta e um aventureiro que largou a fortuna da família e conheceu o mundo. Influente nos meios midiáticos, gentil e um empresário de sucesso por sua próprias mãos, pois abdicou do dinheiro de seus pais, parece pouco interessado naquilo que acontecera ao Comediante, mesmo que ele reconheça sua contribuição a nação americana. Talvez, em parte, isso se deva ao fato de ter sido derrotado por ele no início da carreira ou mesmo por outro motivo secreto. Rorschach assim o define ao ver as coisas que ele guarda em seu escritório:

Um espelho de sua vaidade. Quadros dele mesmo, peças egípcias, gráficos de vendas impressionantes…

Nota-se um teor narcisista em seus atos. Mas Adrian Veidt, alterego de Ozymandias, é considerado um “santo” pela população. Um homem caridoso, que revelou sua identidade secreta prontamente, pois não tinha nada a esconder. Passou a acreditar que os crimes, “Tais males são apenas sintomas de uma enfermidade geral do espírito humano, e eu não acredito que se possa curar a doença acabando com os sintomas”.

Ele, então, sofre um atentado, contudo seu atacante morde a própria língua e morre antes de revelar o mandante do crime. Por mais que se omita em tomar atitudes drásticas em relação ao acontecimentos e prefira permanecer isolado em sua fortaleza na Antártida, Adrian Veidt se organiza para intervir na economia e lucrar com o caos que tomou conta da população amedrontada pela possibilidade de um holocausto nuclear. Ele é um vencedor:

Os meios para atingir a capacidade muito maior do que a das chamadas pessoas comuns estão ao alcance de qualquer um, se seu desejo e vontade forem fortes os suficiente.

3. MÚLTIPLOS OLHARES

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QUESTÕES DE GÊNERO – Um dos pontos mais espantosos de Watchmen é justamente sua desconcertante atualidade. Já em fins da década de 1980, Alan Moore abordava temas importantes e constantemente debatidos hoje como as questões de gênero. Seja a homoafetividade, quando um simples cartaz “Lésbicas contra o estupro” é recusado de ser afixado por um senhor conservador ou na suposição de uma heroína homoafetiva e confirmada indiretamente por Sally Júpiter como algo normal no meio heroico.

Há ainda o papel da mulher-objeto na sociedade e nos quadrinhos. Essa última, estereotipada na visão de Sally Júpiter (Silk Espectre), heroína com roupas sexy, desejada por vilões e heróis e que acaba sendo estuprada por outro herói. O quadrinho deixa em aberto se ela sofreu violência sexual por causa de suas roupas e postura sensual. Ainda evidencia a ótica machista se ela teria gostado do ato, visto que termina se apaixonando pelo agressor e dizendo que ela pode ter provocado tal ato. Uma discussão bem atual.

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ESQUERDA E DIREITAWatchmen se passa durante a Guerra Fria e o fantasma do comunismo. Hoje os EUA vivem com o medo alimentado pelo terrorismo ou pela destruição dos valores morais. Na obra de Alan Moore é o duelo entre a ordem estabelecida liderada pelo capitalismo contra a ameaça esquerdista. Atual não? Inclusive, já na década de 1980, expressões como “direitista” e “esquerdista” eram intensamente usadas. Alan Moore nos apresenta justamente a seguinte tese: em uma sociedade que perde seus valores basilares, a sensação de instabilidade social faz renascer velhas ideologias, receios e autoritarismos.

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CONTRACULTURA – A narrativa se passa em uma época efervescente para a juventude que contestava o sistema, o militarismo e provava substâncias entorpecentes ao som da música hippie. Adrian Veidt, Ozymandias, fala que sua vida mudou após provar haxixe no deserto: “Um resultado foi uma visão que me transformou”.

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RACISMO – Além de acenar para a questão da supremacia branca defendida por jornais, mostra o cotidiano de pessoas comuns segregando e julgando negro, principalmente na figura de um jornaleiro que é ao mesmo tempo conservador, misógino e preconceituoso. Enquanto outros heróis e americanos talentosos desaparecem, a mídia defende, inclusive, a supremacia racial vem a tona com o elogio a Ku Klux Klan (também conhecida como KKK ou simplesmente “o Klan”).

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NARRADOR – Um dos pontos mais interessantes de Watchmen é justamente a narração, a consciência de cada personagem. Ler o Diário de Rorschach e conhecer as opiniões ácidas do personagem é um dos pontos altos da HQ. O Diário só aparece quando ele protagoniza a história. Quando outro personagem é o foco, muda-se o estilo de escrita. Por exemplo, a narração (o fluxo da consciência) do Dr. Manhattan é azulado como sua pele e com cenas sobrepostas do passado, do presente e do futuro. E por aí vai, dando um caráter muito pessoal e uma vivacidade para cada herói.

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4. TIPOLOGIA TEXTUAL E CITAÇÕES
A cada edição, o leitor mergulha não só na arte sequencial, mas também precisa ler diversos tipos de texto ao final de cada parte. Assim, cada edição é composta por dois atos (ou capítulos) e segue de perto algum personagem e sua perspectiva. Ao término de cada ato, podemos ler autobiografias, relatórios, recortes de jornal, reportagens. Há uma prosa extremamente vasta que complementa as partes obscuras da HQ. São os extras, tão comuns em DVDs e Blue-Rays.

Outro ponto interessante é que cada ato é fechado, geralmente, por uma citação famosa que é a cereja do bolo e sintetiza os acontecimentos de cada parte da história ou faz referência ao título do capítulo em questão. Abaixo, segue uma lista dos extras e citações que aparecem na minissérie. Saliento que por mais que você se sinta tentado a desconsiderá-los, leia-os. Deixará sua experiência em Watchmen ainda mais completa. Se for música, coloco o link para apreciação.

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Edição 1
EXTRA – Trechos da Autobiografia de Hollis Mason, “Sob a Máscara”, enfocando o período no qual ele se tornou o aventureiro mascarado Nite Ownl (Coruja Noturna I).

CITAÇÕES:
Ato 1: À meia-noite, todos os agentes… À meia-noite, todos os agentes e super-homens saem à procura daqueles que sabem mais do que eles próprios. (Bob Dylan, Desolation Row)
Ato 2: Amigos ausentes E eu desperto enquanto o amanhecer está surgindo, apesar de meu coração está dolorido. Eu devia estar bebendo em honra aos inimigos ausentes, ao invés destes comediantes. (Elvis Costello, The Comedians)

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Edição 2
EXTRA: Mais alguns trechos da autobiografia de Hollis Mason, “Sob a Máscara”, mostrando o declínio do heroísmo. Há ainda o início da obra “Dr. Manhattan: superpoderes e as superpotências” do professor Milton Glass que avalia a importância deste herói científica e socialmente.

CITAÇÕES:
Ato 1: O Juiz de toda a Terra Não deve o juiz de toda a terra agir com justiça? (Gênesis, capítulo 18, versículo 25)
Ato 2: Relojoeiro A liberação da bomba atômica mudou tudo, exceto nosso modo de pensar. A solução para esse problema está na cabeça da humanidade. Se eu soubesse, teria me tornado um relojoeiro. (Albert Einstein)

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Edição 3
EXTRA: Capítulo 5 da Ilha do Tesouro, extraído da Coleção Tesouro em Quadrinho (Flint Editions, Nova Iorque, 1984). Essa narrativa de pirata, lida por um jovem na banca de jornal, alterna entre os eventos de Watchmen que tem Rorschach como protagonista.
A parte 2 ainda conta com a análise preliminar do processo de Walter Kovacs, Rorschach, além do relatório do Hospital Psiquiátrico do Estado de Nova Iorque e cartas e desenhos ainda da infância do herói no Lar Charlton.

CITAÇÕES:
Ato 1: Espantosa simetria
Tigre, Tigre, brilho flamejante nas florestas da escuridão. Que imortais olhos ou mão poderiam criar tão espantosa simetria? (William Blake)
Ato 2: O abismo olhará Não combata os monstros, temendo tornar-se um deles. Se você olhar dentro do abismo, o abismo olhará dentro de você. (Friedrich Wilhelm Nietzche)

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Edição 4
EXTRA:
Primeiro o artigo científico, “Sangue do ombro de Pallas”, publicado no Jornal da Sociedade Ornitológica Americana (1983) no qual Daniel Dreiberg (Coruja Noturna II) mostra seu conhecimentos sobre pássaros, sua predileção pela coruja como símbolo de sabedoria e justiça, avatar da própria deusa Atena.
Já o segundo extra é a edição de 31 de outubro de 1985 do jornal New Frontiersman, considerado por seu opositores como periódico conservador. Mostra a paranoia comunista da mídia em torno dos acontecimentos de Watchmen.

CITAÇÕES:
Ato 1: Um irmão para os dragões
Sou um irmão para os dragões, e um companheiro para as corujas. Minha pele está negra, e meus ossos ardem com o calor. (Jó, capítulo 30, versículos 29-30)
Ato 2: Velhos fantasmas No Halloween, os velhos fantasmas aparecem, mas eles só falam para alguns; para outro, são mudos. (Halloween, Eleanor Farjeon)

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Edição 5
EXTRA:
Recortes do jornal Mundo Diário que falam sobre a carreira de Sally Júpiter. Heróis e vilões desejavam possuí-la e ela resolve levar sua sensualidade para o cinema. Há bilhetes e cartas com o pessoal da produção do filme e como este fora um fracasso de crítica. Além de uma entrevista, com ela já mais velha, concedida a revista Perfil na qual revela seus sentimentos em relação ao estupro.
Já o segundo extra revela as transações comerciais de Adrian Veidt: sua linha de figuras de ação e de cosméticos. E não poderia faltar um anúncio de seu curso coaching, o Método Veidt, para melhorar a autoconfiança, ser um herói e vencer na vida.

CITAÇÕES:
Ato 1: Uma luz nas trevas
Pelo que podemos perceber, o único propósito da existência humana é acender uma luz nas trevas da mera sobrevivência. (C.G. Jung, Memórias, Sonhos e Reflexões).
Ato 2: Dois cavaleiros se aproximam Lá fora, nem longe, um gato ruge, dois cavaleiros se aproximam e o vento começa a soprar. (Bob Dylan, All Along the Watchtower)

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Edição 6
Extra:
Uma entrevista que Adrian Veidt, Ozymandias, concede a Nova Express. O título “Depois do Mascarado” parece ser o contraponto com a autobiografia de Hollis Mason “Sobe a Máscara”. Aqui conhecemos a filosofia e a cabeça do último dos heróis. Este é também o último conteúdo extra da minissérie.

CITAÇÕES:
Ato 1: Veja minha obra, ó poderoso…
Meu nome é Ozymandias, rei dos reis: Veja minha obra, ó poderoso, e perca a esperanaça! (Percy Byshee Shelley, Ozymandias)
Ato 2: Um mundo forteSeria um mundo forte e adorável para se morrer.  (John Cale, Sanities)

5. CURIOSIDADES

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I. Referências Marvel e DC – Sem dúvidas os personagens de Watchmen são inspirados nos quadrinhos de ambas as empresas, não só pelo fato de Alan Moore ter sido colaborador das mesmas, mas também para inserir sua crítica e problematizar. Assim o Comediante possui elementos do Pacificador (DC) e Nick Fury (Marvel). O Dr Manhattan lembra o Capitão Átomo (DC) por sua capacidade de manipular a física quântica. Se o Coruja Notuna lembra o primeiro Besouro Azul e o Batman (DC); Ozymandias parece inspirado em Thunderbolt e Laurie, Silk Espectre, foi inspirada na Lady Fantasma da extinta editora Quality Comics e na Canário Negro (DC). Por fim, claro, Rorschach que se percebe traços do Questão (DC) e do Mr. A da Chalton Comics.

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II. Vamos jogar um jogo… A ideia do filme Jogos Mortais (2004) de fazer um criminoso serrar a própria perna para poder se salvar possui, justamente, um antecedente em Watchmen (1988). Rorschach oferece ao assassino de uma menininha uma solução: morrer queimado ou serrar sua própria perna para sobreviver. Bem, como se ele tivesse tanta escolha.

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III. Senhor presidente! Apesar de ser uma obra e ficção, há um personagem real na trama: o presidente Nixon. Ele é retratado como governante autoritário e que teria dado um golpe para governar um terceiro mandato consecutivo, algo proibido pela Constituição Americana. Ele está à frente da guerra travada com o Afeganistão e aparece na quinta edição da minissérie, no capítulo Dois cavaleiros se aproximam.

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IV. O nó górdio – Ozymandias é um personagem cujo nome já remete ao epíteto de Ramsés II, faraó egípcio do Reino Novo ‎(1279 a 1213 a.C.) e pertencente a XIX dinastia. Mas suas motivações são inspiradas nos feitos de Alexandre, o Grande, conquistador grego da Ásia (332 a.C. – 323 a.C.). Sua juventude e determinação inspiraram Adrian Veidt, inclusive na história do nó górdio, um desafio proposto pelo Rei da Frígia. Era um nó impossível de desatar e um monumento à força babilônica. O rei grego desatou com um golpe de espada. Assim, “Adotando o nome grego de ‘Ramsés Segundo’ e o espírito aventureiro de Alexandre, resolvi aplicar os ensinamentos da Antiguidade no mundo de hoje. E assim começou a minha trilha para a conquista dos demônios que perseguem os homens…”

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V. Até o Brasil? A questão da dívida externa do Brasil, sim, daqui, aparece na história de Watchmen e nos coloca em perspectiva com os confrontos armados da Guerra Fria: “Despesas com armamento fomentam elevadas taxas de juros para empréstimos internacionais. Deste modo, países como o Brasil estão em dificuldade para saldarem suas dívidas”. Parece que as coisas não mudaram muito desde a década de 1980.

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6. O UNIVERSO ESTENDIDO
Envolvendo e ampliando o universo da clássica minissérie de Alan Moore, há a ótima adaptação de Zack Snyder, já mencionada nesta crítica. Foi por meio do filme Watchmen (2009) que conheci o mundo criado por Alan Moore. Até onde me lembro, extremamente fiel a história em quadrinhos. Para quem não tem ainda a HQ em mãos, o longa-metragem pode ser uma obra introdutória.

Há ainda o controverso arco de histórias pequel (pré-sequência) lançado pela DC e repudiada pelo próprio Alan Moore: Before Watchmen (Antes de Watchmen). Nela podemos acompanhar as histórias das origens e acontecimentos pertinentes dos heróis e vilões que permeiam a minissérie clássica. Assim cada edição possui como foco um personagem, exceto as duas últimas. Em ordem de publicação, temos edições de: Coruja, Espectral, Rorschach, Dr. Manhattan, Comediante, Ozymandias, Dollar Bill & Moloch e, por fim, os Minutemen.

Ainda no campo dos quadrinhos, o universo de Watchmen termina por se integrar ao mundo da DC. Isso se mostra a partir da minissérie Doomsday Clock. Nela o Dr. Manhattan é responsável por alterar a realidade do Universo DC. Pistas já foram deixadas desde a edição 50 da HQ da Liga da Justiça como o estranho método de desintegrar os inimigos. Muitos pensaram que o Dr. Manhattan fosse o criador do multiverso DC, mas ele só foi responsável por alterá-lo.

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E, claro, há a recente série televisiva da HBO que “apresenta uma visão atualizada do mundo, onde justiceiros mascarados transitam constantemente pela delicada linha que separa o bem do mal em uma sociedade que os despreza” (sinopse oficial). Almejamos, analisar estes universos estendidos no devido tempo. Afinal, é meio difícil se despedir do mundo criado por Alan Moore.

7. CONCLUSÃO (Quem vigia os vigilantes?)
Quando nos deparamos com o Watchmen nossos conceitos sobre heroísmo e as motivações para a prática do mal são atualizadas e questionadas. Para além de uma simples paródia do mundo heroico, investigando seus estereótipos e enredos recorrentes, a obra de Alan Moore lança luz sobre a própria condição humana frente as adversidades. A certa altura, Ozymandias, teoriza sobre a humanidade:

“Creio que certas pessoas realmente querem, mesmo que no subconsciente, o fim do mundo. Elas querem se livrar da responsabilidade de manter este mundo, querem se livrar do esforço necessário para realizar tal futuro. E, naturalmente, há outras que querem muito viver. Eu vejo a sociedade do século vinte como uma espécie de raça entre o esclarecimento e a extinção.”

Outro ponto marcante é que Watchmen situa a arte sequencial (HQ) como lugar para crítica e reflexão para além dos simples meio de diversão juvenil. É um quadrinho adulto e filosófico. Não espere cenas de ação repletas de onomatopeias e frases de efeito. A obra de Alan Moore se presta a analisar o fator humano e desmascarar os heróis ideais que povoam o imaginário atual. Em uma época de blockbusters Marvel, das rendas milionárias que a indústria de quadrinhos arrecada no cinema, Watchmen se fixa como objeto artístico da mais elevada magnitude.

Claro que algumas soluções da trama são dadas rápidas de mais e não estão à altura do suspense que a história evoca, no entanto a jornada, meus amigos, é brilhante. E se cada capítulo de Alan Moore fecha com uma citação, as vezes musical, finalizo a crítica com versos que acho que resumem o que podemos esperar de Watchmen:

Quem ocupa o trono tem culpa
Quem oculta o crime também
Quem duvida da vida tem culpa
Quem evita a dúvida também tem

(Engenheiros do Hawaii, Somos quem podemos ser)

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7 MOTIVOS PARA ASSISTIR CORINGA!

Sob a ótica de alguém que não fazia a menor ideia do que esperar do filme…

Comecei a me inteirar sobre o mundo da Marvel e da DC Comics em 2012, quando iniciei um namoro com um nerd assumido, aficionado por Histórias em Quadrinhos (HQ’s). Desde então, sempre fui a todas as estreias como acompanhante, sem ter grande conhecimento acerca das histórias e dos personagens que iriam se apresentar em sagas gigantescas (pelo menos para o meu gosto).

Confesso que em vários filmes eu cheguei até a dormir: “Vingadores: Guerra Infinita” é um exemplo. Mas ao longo desses sete anos, eu nunca – NUN-CA! – achei um filme da DC tão espetacular, intrigante e emocionante, como foi o Coringa (2019), estrelado pelo talentosíssimo ator Joaquin Phoenix.

Talvez eu não seja a pessoa ideal para escrever sobre esse filme se você espera ler uma resenha crítica embasada nas HQ’s. Porém, se assim como eu, você só conhece o Coringa por meio dos filmes do Batman, e está na dúvida se vale a pena ir ao cinema para conferir com os próprios olhos se esse filme é mesmo tudo isso que estão dizendo, então lhe apresentarei alguns motivos para que você dê uma chance para o Coringa te conquistar!

1. CORINGA (2019) É UM FILME EXTREMAMENTE REFLEXIVO

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Talvez possa soar meio “estranho” para alguns, mas esse filme despertou em mim um sentimento de empatia. Arthur Fleck é um homem que aparenta ter pelo menos uns 40 anos. Ele vive com a mãe, Penny Fleck, em um apartamento sombrio e bagunçado, tal qual a personalidade deles. Ela está debilitada, dependendo do auxílio do filho para tarefas básicas, como comer e tomar banho. Ele, por sua vez, é extremamente atencioso e delicado no trato com sua mãe. Um é a companhia do outro, e ambos encontram na TV uma espécie de refúgio e de inspiração.

Arthur, que ganha a vida como palhaço, sonha em ser um comediante de stand-up comedy. Seu grande ídolo é Murray Franklin, apresentador de TV aos moldes do Jô Soares, interpretado por Robert De Niro.

A fixação em se tornar comediante vem desde a infância, pois ele cresceu ouvindo sua mãe dizer que ele veio ao mundo para fazer os outros sorrirem. E, por ironia do destino, Arthur tem uma doença neurológica que o faz rir descontroladamente em situações que o deixam nervoso ou ansioso.

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Achei extremamente tocante a cena em que ele está viajando sozinho dentro de um ônibus e uma criança começa a encará-lo. Com uma inocência pueril, ele começa a brincar com o menino, entretendo-o e garantindo uma risada muito gostosa. Aquele, talvez, tenha sido o único sorriso verdadeiramente espontâneo e sincero que Arthur recebeu em sua vida. A única risada com sentido de alegria, e não de “zombação”.

Mas em meio àquela pequena alegria e satisfação, eis que o pobre homem solitário e renegado pela sociedade recebe um balde de água fria da mãe do menino, como se ele estivesse perturbando a criança ao invés de diverti-la. E então a risada descontrolada toma conta da situação… Mesmo apresentando um cartão que explica sobre sua doença, as pessoas não querem entender/aceitar que ele não se encaixa nos moldes de normalidade impostos pela sociedade.

Esse é apenas um dos exemplos apresentados ao longo do filme que me fizeram refletir sobremaneira como nós, como sociedade, lidamos com pessoas que apresentam alguma necessidade especial.

Será que eu e você compreendemos a singularidade de cada indivíduo, aceitando verdadeiramente suas limitações? Será que estamos preparados para lidar com as diferenças para além do discurso ativista e progressista que muitos apresentam, sobretudo nas redes sociais? O Governo realmente se importa com a saúde pública, favorecendo tratamento digno àqueles que necessitam de assistência contínua?

Não encontraremos no filme as respostas para essas perguntas, mas, definitivamente, somos capazes de buscar enxergar a trama apresentada sob um olhar mais humanizado. E aí Coringa acabará nos dando uma lição de vida sobre saúde mental, demonstrando que, na realidade, a nossa sociedade se encontra tão louca e doente como aqueles que são diagnosticados com problemas neurológicos.

2. A NECESSIDADE DE ACEITAÇÃO E DE BUSCA PELA NORMALIDADE É ENFATIZADA DURANTE TODA A TRAMA

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É possível perceber a cada cena a tentativa de Arthur em ser se encaixar no padrão de normalidade socialmente aceito. Ele, que já passou uma temporada no sanatório, segue se encontrando esporadicamente com uma assistente social, que o faz perguntas frequentes sobre seu estado. Parece que tais encontros não surtem os efeitos esperados, pois ele não consegue “parar de se sentir mal o tempo todo”, mas é graças a eles que os seus sete remédios diários são garantidos.

No trabalho, ele procura fazer o que é sua obrigação, mas todos o tratam como um palhaço louco, estranho, que não tem crédito em suas afirmações. E é assim, colecionando situações insustentáveis a sua condição mental, que Arthur vai se perturbando e se transformando cada vez mais em um ser frio, magro, insensível a dor alheia e sem a menor graça.

São pequenas situações, somadas dia a dia, que fazem com que esse homem depressivo, que tenta com seus próprios braços alcançar a felicidade, acabe encontrando outras formas de expressar suas insatisfações e frustrações.

Não seria isso o que acontece com tantas pessoas que, diariamente, expressam gritos de socorro velados, disfarçados em frases ou ações que passam despercebidos ou, pior, são banalizados?

Acredito que se você assistir a esse filme pensando não no conhecido e até mesmo caricato vilão de Gotham City, mas sim na transformação do homem comum, doente, excluído e incompreendido, que se torna a principal ameaça a ser combatida pelo Homem-Morcego, então você perceberá que corremos o risco de ter muitos Arthurs em nosso meio, que só precisam que seja acionado um gatilho mental para se transformar no sociopata Coringa…

3. O DIÁRIO DE ARTHUR É TRADUZIDO EM PORTUGUÊS

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Uma coisa que eu achei sensacional nesse filme foi a tradução do diário do Arthur em Português. Assisti ao filme dublado e esperava que nas cenas em que aparecem as páginas do seu diário (que também serve de anotação de ideias para seu futuro show de stand-up), as frases fossem aparecer em Inglês, traduzidas em forma de legenda, para o nosso idioma. Porém, o que vemos são as páginas escritas em Português.

O que isso tem de tão interessante? Ao meu ver, pareceu bem mais realista. E para um bom observador, aquelas páginas já indicavam traços de toda a confusão mental do personagem, cheia de rasuras, palavras escritas com erros gráficos, rabiscos e afins. Se mais alguém teve o interesse em tentar ler o que estava escrito, certamente identificou uma das frases mais impactantes do filme: “a pior parte de ter uma doença mental é que as pessoas esperam que você se comporte como se não tivesse”.

4. O FILME NÃO É REPLETO DE EFEITOS ESPECIAIS

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Para alguém que há sete anos está assistindo filmes de heróis e de vilões cheio de ação e de efeitos especiais, com muito barulho de tiro, p* e bomba, o filme Coringa foi um deleite! Nada de efeitos, nada de barulho, muito pelo contrário: que trilha sonora maravilhosa!

A interpretação de Joaquin Phoenix é brilhante, magnífica, conseguindo demonstrar durante suas crises de riso o quanto aquele gesto estava, na realidade, inundado de drama, de dor e de lágrimas. Uma observação mais atenta é capaz de captar nitidamente que apesar do sorriso na cara, o olhar demonstrava total tristeza, um pedido de socorro sempre eminente, mas nunca atendido.

Fico me perguntando como Phoenix conseguiu, com tanta maestria, associar sentimentos tão distintos ao mesmo tempo… Suas danças são um show à parte! Na mesma hora eu lembrei do Ney Matogrosso. Todas as danças são embaladas com músicas super pertinentes e agradáveis de se ouvir, contrastando com as cenas que de agradáveis não têm nada.

5. O CORPO FALA

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A expressão corporal do ator, especialmente durante as danças e as crises de riso, demonstra o quanto o corpo fala, o quanto o corpo grita, mas que para interpretá-lo, é necessário se despir de preconceitos em busca de toda a subjetividade que carregamos nesse conjunto de ossos e músculos que, para alguns, é uma máquina orgânica, mas que essencialmente, é a tradução do que somos no mundo.

Se tomássemos posse de que não temos um corpo, mas que somos um corpo, seria bem mais fácil detectar que as expressões dizem muito sobre quem somos e quem podemos nos tornar se não temos a dignidade que todo ser humano merece.

6. SOBRE A VIOLÊNCIA

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Eu quase não assisti ao Coringa nos cinemas por ter ouvido muita gente falar que o filme era extremamente violento. A classificação etária é de dezesseis anos e eu concordei plenamente que tenha sido determinada assim. Achei um absurdo encontrar crianças com cerca de dez anos na minha sessão. Fico me perguntando o que há na cabeça de pais que não respeitam a classificação indicativa de filmes, pois, definitivamente, este é um filme para adultos.

E ainda diria mais: este é um filme para adultos que querem assistir uma trama envolvente, e não caricata. Que esperam descobrir a origem e a transformação de um homem que se torna um vilão emerso da sombria e desigual Gotham City, e não apenas a história do Palhaço do Crime quem tem cabelo verde e um sorriso escancarado. Mas enfim, comentários à parte, voltemos ao ponto principal: a violência presente nessa preciosidade de filme.

Primeiramente, as cenas de violência em Coringa são fichinhas frente às de Logan (2017) ou Deadpool (2016). Existem cenas pesadas? Sim. Mas são infinitamente mais leves que as dos filmes supracitados. Diria até que só existe uma cena que realmente é bem sanguinolenta. As demais já são comuns em séries bem populares na Netflix.

Para quem já assistiu Narcos, Orange Is the New Black ou Vis a Vis, as cenas de Coringa não irão surpreender ao ponto de serem “intragáveis”. Penso que em Vis a Vis, por exemplo, o requinte de crueldade do psiquiatra (ou seria psicopata?) Sandoval é muito mais impactante.

Mas no meio disso tudo, o que mais me admirou é que justamente na cena mais violenta, em que quase foi possível respingar sangue na plateia, foi o momento em que todos riram. Que loucura!

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Depois da morte de sua mãe, Arthur volta para casa e inicia seu processo de maquiagem como palhaço, assumindo, definitivamente, sua versão assassina. Ele é convidado a ir ao seu tão querido programa de TV, tendo a oportunidade de conhecer seu grande ídolo Murray Franklin, e, por isso, resolve se caracterizar dessa forma.

Cabe dizer que participar desse programa era um grande sonho, mas não sob as circunstâncias apresentadas: Arthur só é convidado porque um trecho da sua apresentação de stand-up foi passado no programa, de forma banalizada, sem sua autorização. Devido ao aumento da audiência, resolvem chamá-lo para participar ao vivo, e com isso ele vê a chance de mostrar ao mundo sua verdadeira personalidade. É aí que ele percebe que, no fundo, sua vida, que sempre foi uma tragédia, na realidade estava sendo vista pelo mundo como uma grande piada.

Porém, antes de sair de casa para tal compromisso, ele recebe a visita de dois ex-colegas de trabalho, devido ao falecimento de sua mãe. Um deles é quem lhe deu a arma utilizada em seu primeiro crime, o outro, um anão que sempre lhe tratou muito bem. Para se vingar daquele que, ainda que indiretamente, favoreceu sua entrada no mundo do crime, Arthur pega uma tesoura e mata o homem com golpes letais em várias partes do corpo.

O anão presencia tudo, e quando ele abre a boca para questionar o porquê daquilo tudo, é quando a plateia começa a rir, pois a cena foi friamente calculada para ter esse tom sarcástico, cômico, ainda que numa situação extremamente trágica. Foi então que fiquei me perguntando como nós pudemos rir depois daquele crime horrível, como foi possível que a morte tenha sido tão banalizada.

Daí pra frente, vemos a transformação de uma pessoa com problemas mentais que, estando sem seus remédios e sofrendo uma enxurrada de agressões, decepções e revelações imprevisíveis, vai se tornando um homem frio, agressivo e calculista. Que sofre uma metamorfose profunda, compreendendo, enfim, sua personalidade, e nos revelando que, como diz o ditado, de médico e louco, todo mundo tem um pouco.

7.  SOBRE A LUTA DE CLASSES

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É interessante perceber como surge uma mobilização política crescente em Gotham City ao mesmo tempo em que a vida de Arthur parece decair cada vez mais. Seus crimes acabam sendo a motivação para uma revolução dos menos favorecidos, que já não aguentam mais viver em uma cidade em que os ricos têm espaço e os pobres não.

Chega a ser meio “assustador” pensar que em nossa sociedade isso não é muito diferente. Quantos são aqueles que se identificam com os que matam, que fazem justiça com as próprias mãos?

É triste constatar que, infelizmente, Arthur só foi visto pela sociedade quando ele se transformou num psicopata. De certa forma, ele só foi querido e admirado por muitos depois que seus atos extremos foram reconhecidos como algo motivador para uma resposta agressiva do povo, que viu nesse contexto a oportunidade perfeita para incendiar a cidade em busca de melhores condições de vida.

CONCLUSÃO

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Espero que com a análise desses sete pontos você tenha sentido curiosidade em tirar as suas próprias conclusões acerca desse personagem que conseguiu me cativar. A atuação do Joaquin Phoenix foi impecável, tal qual a direção de Todd Phillips. Eles certamente receberão algumas estatuetas por esse filme que, na minha opinião, pode ser considerado como o filme do ano. Sem dúvida, o melhor filme da DC. Vale a pena conferir!

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A ORIGEM DO CORINGA (HQ)

Analisamos três momentos dos quadrinhos em que o palhaço de Gotham City revela um pouco de seu passado. Será mesmo?

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1. BATMAN E ROBIN, O MENINO PRODÍGIO (1940)
A primeira edição de Batman, na primavera de 1940, com arte de Bob Kane, é fundamentada na perseguição ao Coringa. Um vilão sem pudores de matar para conseguir alcançar seus objetivos. Naquela época o grande meio de comunicação era, justamente, o rádio. E é por ele que o palhaço de Gotham City anuncia que à meia noite assassinará o milionário Henry Claridge. O primeiro de muitos que ele cometerá por meio de sua toxina cuja marca é afetar os músculos da face formando um sorriso macabro.

Há uma origem na origem? (Spoilers)
Descobrimos que a motivação dos sucessivos assassinatos são para roubar joias a não ser por uma das vítimas: o juiz Drake. O Coringa sentencia pelo rádio  que “O juiz Drake, um dia você me mandou  para a prisão e por isso morrerá! Sua morte chegará às dez horas! Eu sou o Coringa”. E este é o único dado relevante sobre o passado do vilão.

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Para o leitor mais moderno, esse quadrinho da década de 1940 vai parecer pouco empolgante, tanto pelo traço como pelo enredo e roteiro. Não parece uma aventura digna do Coringa no que se refere a muitos aspectos. Podemos citar o fato do Batman demorar muito para agir e meramente escutar pelo rádio os anúncios dos crimes. Outro ponto é o fato da história ser repleta de piadas pastelão que nos lembram muito o seriado protagonizado por Adam West na década de 1960 tais como: “Você pode ser o Coringa, mas eu sou Rei de Paus”. Mas é aqui que é cunhado tanto o gosto sádico do palhaço pela violência como a famosa frase indignada contra o Batman:

Morra… Maldito… Morra! Por que você não morre?

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2. A PIADA MORTAL (1988)
Sem sombra de dúvidas quando falamos da HQ mais clássica estrelada pelo Coringa, todo admirador da arte sequencial considera a obra de Alan Moore a mais significativa. Não só pelo tom sombrio com que o roteirista costuma abordar os heróis, como assim o faz em Watchmen (1986-1987), mas por ainda contar com o fantástico traço de Brian Bolland.

A narrativa parte da pergunta inicial feita pelo próprio Batman: qual será o fim do eterno embate entre ele e o Coringa? Eles acabarão por se destruir? Mas para o palhaço de Gotham City, talvez isso não seja a grande raiz do problema. O importante é investigar em que momento a loucura nasce em alguém. O Coringa entende que basta um dia ruim para transformar qualquer um em um louco de máscara de morcego ou vestido de palhaço.

Assim ele foge da prisão e a fim de testar sua teoria com o íntegro comissário Gordon. Enquanto trama seus atos maldosos, relembra o dia em que se tornou o arqui-inimigo do homem-morcego à medida que raciocina sobre sua própria condição insana. Caberá ao Batman levar a lucidez ou a loucura para frustrar os planos do Coringa.

O atentado a Bárbara Gordon (spoiler)
Batman resolve visitar o Asilo Arkhan para questionar o Coringa sobre como seria o fim de ambos, se no final acabariam por matarem-se. Ele não estava mais lá. Alegremente, o palhaço comprava um parque de diversões caindo aos pedaços. Na verdade matava seu dono que sorriria para sempre devido a toxina do Coringa. A partir daí o foco da história passa a ser o Coringa e assim temos acesso às suas memórias em flashbacks em preto e branco como um filme antigo.

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Após anos de conflitos, Bruce Wayne conversando com seu mordomo Alfred, admite que não sabe nada sobre o Coringa, que um não da sabe nada sobre o outro e cultivam esse ódio recíproco. Longe dali, enquanto recorta notícias de jornais, entre elas a da primeira aparição do palhaço, o comissário conversa com sua filha Bárbara. “Quando você descreveu o rosto branco e os cabelos verdes eu era criança e fiquei morrendo de medo.”, afirma a jovem indo atender à porta. Era o Coringa. Um tiro. A garota atingida na cintura cai sobre uma mesa de centro de vidro.

O comissário, pego de surpresa, é nocauteado. Com a garota provavelmente paraplégica, sangrando, o palhaço segura um copo de uísque e lentamente começa a despir a garota “Pra provar um coisa. Que o crime compensa”.

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Sabemos que ele fotografa Bárbara nua e em posições sugestivas. Ela chora. Tem sangue por todos os lados. Ele a estuprou? A HQ não deixa claro, mas só essa sugestão fez com que essa história ficasse censurada por um bom tempo (leia aqui). O plano de palhaço era com o pai acorrentado, no trem fantasma do parque de diversões, exibir sua filha em desgraça e assim enlouquecer o brando comissário Gordon. Não conseguiu. Quando o Batman o salva, o policial evidencia que a lei está acima de tudo e qualquer coisa. Quer que o herói o prenda, que não o mate. Será que o comissário não foi íntegro demais? Será que isso, em si, não é também loucura?

Na batalha final contra o morcego de Gotham City, enfim o Coringa resume sua teoria sobre a loucura:

“Sabe, eu estou pouco ligando se vai me levar de volta para o asilo… Gordon enlouqueceu mesmo… minha teoria está provada. Demonstrei que não há diferença entre mim e outro qualquer! Só é preciso um dia ruim pra reduzir o mais são dos homens a um lunático. É essa a distância que me separa do mundo. Apenas um dia ruim. Você teve um dia ruim uma vez, não é? Eu sei como é. A gente tem um dia dia ruim e tudo muda. Senão, porque você se vestiria como um rato voador?”

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A origem por Alan Moore (spoiler)
Depois de pedir demissão do emprego de assistente de laboratório (o que explica sua habilidade química), resolveu seguir a carreira do humor. Pelos flashbacks, descobrimos que o Coringa era um comediante sem sucesso, de piadas que ninguém ria.  Sua vida era envolta em dívidas e estava prestes a ser despejado. Sua esposa, então grávida, parecia ser a única acreditar no talento dele.

Desesperado, faz um trato para ajudar mafiosos a invadir uma fábrica de baralhos passando pela Indústria Química ACE que o Coringa trabalhava. Era uma forma de fazer um dinheiro rápido para Jeannie e se futuro filho. Para seus comparsas, a melhor forma de não chamar atenção era fantasiar o comediante fracassado como se ele fosse o Capuz Vermelho, e assim colocar a culpa nesse bandido caso fossem pegos.

Mas a esposa do Coringa morre em um acidente doméstico. Sem mulher e sem filho, prestes a desistir de invadir a fábrica de baralhos, ele é obrigado por seus comparsas. Naquele dia ruim, palhaço não tinha mais nada a perder, a não ser prosseguir com o plano.

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Naquela fatídica noite, as coisas saem de controle: os seguranças da indústria química frustram os três criminosos. Um dos comparsas, morre de imediato. Um agoniza e enquanto morre, acusa o Capuz Vermelho de ser o líder. E assim o palhaço disfarçado corre, foge, até ser perseguido pelo próprio Batman. Assustado pula em dos tanques químicos. Salva a vida, perde a sanidade. Mas isso é envolto em incertezas, não sabemos se os flashbacks são memórias genuínas. O Coringa então em longo discurso, na batalha final contra o Batman, diz:

Se eu vou ter um passado, prefiro que seja de múltipla escolha! Ah, ah, ah!

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3. O HOMEM QUE RI (2005)
Com o relançamento do universo DC após os eventos Crise nas Infinitas Terras de 1987 em diante, tornou-se necessário atualizar as origens do palhaço de Gotham, trazer o personagem para o mundo de Batman – Ano Um de Frank Miller. Em busca de uma origem mais realista para o Coringa, o roteirista Ed Brubaker e o traço de Doug Mahnke, mostram o maior desafio do Batman depois de um ano desde sua chegada à caótica cidade. Os malucos mascarados ainda estavam só no início e seu embate mais rigoroso, até aquele momento, tinha sido contra o Capuz Vermelho.

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O Coringa de Doug Mahnke é intensamente inspirado no ator Conrad Veidt, do filme clássico expressionista alemão O homem que ri (The Man Who Laughs, 1928), o que explica, também, o título desta Graphic Novel. No longa-metragem alemão, Conrad vive um homem desfigurado que passa o tempo todo rindo e por fim torna-se uma atração de circo.

Mas voltando ao quadrinho, após fazer uma chacina utilizando a toxina, que literalmente, faz morrer de rir, o misterioso palhaço começa a interromper a programação televisiva e, aparentemente, escolher suas vítimas entre os figurões de Gotham City de forma aleatória. A única pista é um poema pichado nas paredes de um banheiro:

Um de cada vez eles vão ouvir o meu gemido, e então esta cidade suja irá cair comigo.

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A narração dos eventos oscila entre as do, ainda capitão, James Gordon (assustado com o rumo da criminalidade que assola a cidade) e Bruce Wayne, intrigado e surpreso por combater um criminoso que é, ao mesmo tempo, insano e genial. Enquanto Batman anseia por respostas (“Mal posso imaginar o que se passa na cabeça dele.”), Gordon parece ser mais preciso em sua análise:

Está cada vez mais claro que lidamos com alguém cuja motivação se restringe a causar terror.

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Na verdade, Batman não estava preparado para a complexidade do Coringa. Afinal, quem estaria? Após Wayne ser ameaçado como uma das possíveis vítimas da fúria assassina do Coringa, Bruce injeta levemente a toxina para frustrar parte dos planos do seu arqui-inimigo e antecipar seus passos.

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Contudo, os assassinatos da high society de Gothan eram a distração. A ideia era colocar em prática  o plano macabro de matar todos os habitantes da cidade espalhando a toxina no sistema de abastecimento de água. Fazia parte da vingança insana do Coringa por ter se tornado o que se tornou. Batman, então, elucida a origem do palhaço de Gotham City:

“Eu acertei sobre as intenções do Coringa, só não entendi a natureza de seus desejos. Por outro lado, o poema explica tudo perfeitamente… Ele quer se vingar pessoalmente das pessoas que fizeram dele o que é. Em seguida, a cidade cairá com ele. O Coringa caiu em um tanque de substâncias tóxicas que foram derramadas em uma baia que deveria estar limpa. Agora, ele quer envenenar o suprimento de água de Gotham para que todos morram às gargalhadas. Em sua mente doentia, a população inteira é culpada simplesmente por estar viva.”

Para os fãs mais saudosistas, a queda em um tanque tóxico é justamente a versão da origem para o Coringa de Jack Nicholson na primeira adaptação cinematográfica do vilão lá no filme de 1989, Batman. Esta aventura ainda mostra o estreitamento dos laços entre o futuro comissário Gordon e como surgiu o famoso Bat-sinal.

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CONCLUSÃO: o famoso desconhecido
É inegável que há muito mais momentos em que descobrimos dados sobre o passado do Coringa, mas sempre será um tanto nebuloso. Podemos inferir de suas palavras a condenação injusta por parte de um juiz ou sua ligação com o dia em que se fantasiou de Capuz Vermelho e acabou caindo uma baia ou rio cheio de substâncias químicas que afetaram permanentemente sua sanidade. Nesse evento singular também foi forjada sua obsessão pelo Batman: ele fora responsável, mesmo que indiretamente, pelo que aconteceu ao Coringa. Se não fosse o homem-morcego tê-lo perseguido, o Coringa não teria fugido de forma tão desesperada e inconsequente. Pelo menos é isso que o palhaço acredita.

As histórias aqui analisadas conversam entre si, ou seja, possuem uma intertextualidade. A versão de Alan Moore não parece ter muita ligação com a origem de Bob Kane, mas nos mostra a psicologia do Coringa, extremamente rica por ele ser o protagonista da história. Tanto expõe a mente insana do palhaço disposto a tudo como, por meio de flashbacks (se reais), também conhecemos um pouco do homem que existiu antes do Coringa.

Nesse ponto, O homem que ri (2005) parece surfar na onda destes dois clássicos para revitalizar o arqui-inimigo do Batman. Nessa última HQ, o palhaço anuncia seus crimes pela televisão (e não pelo rádio) e assassina o mesmo Henry Claridge. Mas não por dinheiro e sim por prazer e vingança. Também nos mostra de forma indireta a origem do Coringa ligado ao fatídico mergulho nos produtos da Indústria Química Ace, fatos relatados nos flashbacks de Alan Moore em A piada mortal (1988).

Seja devido a um dia ruim, seja por vingança, isso acabou ou deturpou os valores morais do palhaço e o ligou a figura aterradora do Batman, o monstro que invade seus pensamentos. Talvez a grande piada de sua vida: um futuro desgraçado por um homem que se disfarça de morcego. O próprio Coringa entendeu que de todas as piadas contadas, o mundo era a pior. Assim, fechamos esta análise com a justificativa que o palhaço dá nas páginas de Alan Moore:

Mas o que eu quero dizer é… eu fiquei louco. Quando vi que piada de mal gosto era este mundo, preferi  ficar louco. Eu admito! E você?

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UM FIM PARA O BATMAN? (HQ)

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A morte não é o fim. Pelo menos quando se trata de heróis ou vilões de histórias em quadrinhos (HQs). O ciclo de renascimentos de protagonistas e antagonistas confere sempre uma renovação, um retorno às origens ou mesmo uma guinada totalmente surpreendente nos rumos da história. Por vezes o fim da vida de um herói pode se prestar a reflexões filosóficas não só do próprio personagem, mas refletir nossa própria forma de ver o mundo e a tensão entre o bem e o mal. Nesse sentido, Neil Gaiman parece realizar a proeza de filosofar em torno do personagem da DC mais sombrio (para mim o melhor, também). O que aconteceria se o homem-morcego de Gothan City tivesse morrido?

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O QUE ACONTECEU AO CAVALEIRO DAS TREVAS?

Para o escritor e roteirista inglês Neil Gaiman, ter a chance de escrever sobre a morte do Batman culminou o fechamento de um ciclo, tanto pessoal como profissional. Não que ele fosse um roteirista comum da revista Detective Comics: ele fora convidado para criar a última história dessa tiragem de quadrinhos. “Eu poderia realmente escrever a última de todas as histórias”, afirmou empolgado, Gaiman. Para o roteirista era ter em mãos o personagem que primeiro lhe inspirou a carreira nos quadrinhos, visto que sua paixão inicial fora o Batman de Adam West, da série da década de 1960.

022_02Quando o editor Dan DiDio entrou em contato com Neil Gaiman, o quadrinista viu a oportunidade de fazer aquilo que Alan Moore fizera com o Super-Homem em O Que Aconteceu ao Homem de Aço?, que funcionou como uma espécie de fechamento tanto das HQs Superman quanto da Action Comics. Mas a abordagem de Gaiman tinha que ser fiel à trajetória do Cavaleiro das Trevas e foi essa reflexão que guiou as linhas de O que aconteceu ao Cavaleiro das Trevas?

“As histórias do Batman não terminam com sorrisos e piscar de olhos. Batman sobreviveu a muitas eras e irá, certamente, sobreviver a muitas outras. Se você estiver pensando em contar a última história do Batman, tem de ser algo que sobreviverá à morte ou desaparecimento atual do Batman, algo que continuará sendo a última história do Batman pelos próximos vinte ano, ou cem”, afirmou quadrinista inglês. Ele ainda completa:

“Por que se tem uma coisa que Batman é, é um sobrevivente. Ele ficará rondando por aí depois que todos nós partirmos. Então, o que poderia ser mais apropriado do que a história de sua morte?”

Assim, com o traço primoroso de Andy Kubert, Gaiman intentou contar a última de todas histórias do Batman. Um projeto que ao mesmo tempo filosofa sobre a ligação intrínseca entre o Cavaleiro das Trevas e Gothan City, sua gênese e seu fim, ao mesmo tempo que homenageia grandes artistas que fizeram a história de Batman ao longo dos anos.

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BAT-VELÓRIO (Spoilers!)

Por meio da consciência do Batman (ou alma, entidade ou sei lá) somos conduzidos ao seu funeral. O local é o Beco do Crime, no fundos do bar, caindo ao pedaços, do morto Joe Chill que recebe Seline Kyle, a Mulher-Gato, com trajes da década de 1960. No entanto ela não é a única convidada. Aos poucos outros personagens chegam para o velório e assim se misturam não só os traços de outros desenhistas, imitados com maestria por Kubert, mas também enredos de histórias célebres do Homem-Morcego. Aqui aparece o Charada do seriado de Adam West, a Bárbara Gordon paraplégica e o Coringa da Piada Mortal de Alan Moore (1988), Arlequina da série animada da Warner (1992-1995), entre outros. Aqui, percebe-se o tom do enredo: os tempos, as realidades, os diversos Batmans e seus vilões, que desfilaram ao longo dos tempos e prestam suas condolências.

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Esta graphic novel é dividida em duas partes. Vemos, na primeira sessão, dois contos para a morte de Batman. Inicialmente, Selina Kyle sobe ao púlpito e conta suas memórias de como o herói teria morrido. O Conto da Mulher-Gato é narrado como uma história de amor malsucedida e, à medida que a narrativa evolui, dos traços de seus criadores Bill Finger e Bob Kane, até seus representantes mais modernos, conhecemos as idas e vindas do casal. A causa da morte, segundo Selina, fora sua omissão de socorro ao receber Batman em sua loja. Ressentida de não ter sido amada, deixou-o morrer após ter sido baleado.

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Já Alfred, o fiel e talvez ator-mordomo, toma a palavra e mostra como teria arquitetado todas as aventuras do Batman. Com a ajuda de uma trupe de atores, teria forjado todos os episódios a fim de ajudar o jovem e depois adulto Bruce Wayne a superar a morte de seus pais. Em O conto do cavalheiro de um cavalheiro, Neil Gaiman homenageia a série de TV que alegrara sua infância ao enfatizar que a história do heróis não passaria de uma fantasia do teatro ou televisão. Nesta versão, Batman teria morrido ao descobrir que toda sua vida fora uma grande ilusão. Ao tentar resgatar crianças sequestradas pelo Charada, desafiou o vilão a atirar nele. Pensava que era mais uma grade farsa de Alfred, mas não era. Morreu com um tiro no rosto, à queima-roupa.

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A versão de Selina remete ao fim de Robin Hood na literatura e, a de Alfred, a uma farsa motivacional. Mas qual a versão verdadeira? Nenhuma. Eis o fim da primeira parte. Fecha-se com o tiro do Charada, o maior enigma permanece: o que aconteceu ao Cavaleiro das Trevas?

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PARA ALÉM DA MORTE (ainda tem spoilers, viu?!)

O fluxo da consciência, a voz interior do Batman, observa seu funeral e o desfile de inúmeras versões para a sua morte contadas por inimigos e aliados. Robin (do ator Burt Ward), a certa altura, diz que “… ele era santo. Nunca desistia, haja o que houvesse, e fazia um milagre atrás do outro… até finalmente morrer por nós”. O messias de Gothan (uma clara alusão ao cristianismo) é também uma referência ao homem-morcego que escapava ao final de cada bat-episódio e que o jovem Gaiman deveria esperar para ver a conclusão na semana seguinte.

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Batman se reconhece nestas narrativas, discorda, entre em conflito consigo e trava diálogo com outra voz misteriosa. A porta se abre e se vê conversando com sua mãe, Martha Wayne. Questiona-se se está morto, racionaliza se não é uma Experiência de Quase Morte (EQM), e experimenta sua vida passar diante dos seus olhos, como o amor das mulheres ou a ruína pelas mãos de Bane. A luta, a jornada é o que interessa. “O final da história do Batman é sua morte“, conclui o herói, “Pois, se o Batman não morresse no fim, o que mais iria fazer? Aposentar-se e jogar golfe? Não é assim que funciona, não pode. Eu luto até cair. E um dia vou cair“.

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CONCLUSÃO: NIRVANA IMPERFEITO

Não, não tocará o som violento da banda de Kurt Cobain ao final da história. É o termo “nirvana” que nos interessa para fechar essa resenha crítica. Nas palavras de Buda:

“É um lugar que está perto, mas difícil de alcançar. Neste lugar não há velhice, morte, sofrimento, doenças. Libertação da morte ou perfeição, é o que chamamos de Nirvana. É este um lugar feliz, pacífico, que alcançam os grandes sábios. É um lugar eterno, mas difícil de alcançar. Os sábios que aí chegarem estão livres das penas; no Nirvana, os sábios chegaram ao termo do curso de sua existência.”

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Assim Batman nasceu para Gotham. Nasceu para a luta constante que a cidade violenta e febril encerra. Desde o útero esteve predestinado ao bat-sinal. E no final, não a morte, mas o nascimento. Um novo ciclo se inicia para Cavaleiro das Trevas ressurgir e lutar pela justiça. Ele não alcança o nirvana, não quebra o ciclo das reencarnações. Seu lugar de paz, junto a sua mãe, é a possibilidade de retorno. Pois como o próprio Gaiman disse, linhas acima, o morcego de Gothan continuará a voar, salvar o dia, fazer milagres quando nós não mais estivermos aqui.

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CONAN, O BÁRBARO: QUE BARBARIDADE

Sebo

Entrar num sebo era uma experiência sem igual, principalmente quando se tinha uma pequena fortuna no bolso. Entenda como quiser o que seria essa grande quantia, mas te garanto, tendo uns poucos trocados, na década de 90, e dentro de um sebo, era como fazer compras numa loja de 1,99 após ganhar na loto. Você podia comprar pelo menos um item caro da loja, ou vários do mais barato, com todos, sem exceção, trazendo o cheirinho grátis de coisa velha pra impregnar sua estante pelo resto da eternidade. Façamos uma narração para dispor melhor a sublimidade da coisa.

Você tem na faixa dos quinze anos, é um homenzinho que já pode sair na rua sozinho, e se sente imponente com seus 20 Reais ganhados da avó no bolso. Entra no sebo, vira pro vendedor dizendo que ele pode fechar a loja só pra você, o dia da balbúrdia chegou, e claro, o vendedor olha pra sua cara, com um misto de pena e desprezo, enquanto indiferente continua lixando a unha ouvindo seu CD do Wanderley Alves dos Reis, vulgo Wando.

A Espada Selvagem

Você está dentro daquela loja onde as paredes são feitas de pura celulose pré mofada, onde até o teto serviu de estante para acumular livros, revistas e poeira, muita poeira. Olha pra lá, olha pra ali, disfarça não ter visto umas Ele&Ela, e fica desconcertado com o tio do bigode te olhando de forma esquisita. Aquele ambiente é pequeno e estreito demais pra que qualquer movimento não seja notado, nem mesmo músculos, nervos e bombear de vasos sanguíneos dos olhos passam despercebidos. Percebe que precisará de sorte pra encontrar algo que verdadeiramente valha sua grana, afinal, tinha muita coisa ali, e você não sabe por onde começar. Você decide tirar nos dados. Sua pontuação de sorte não é grande coisa, visto que distribuiu a maior parte em inteligência, e força. Então você rola o dado e tira um vinte! Nossa! Você encontrou uma pilha de revistas da banda Manowar! Olha com mais atenção e percebe que não, na verdade era o quadrinho do Conan, precisamente a série A Espada Selvagem de Conan. Sendo uma pessoa com uma sagaz ficha de personagem, não percebe, e nem leva à mal o excelente título. Então pega a revista e folheia, na intenção de descobrir do que ela se tratava. Até então você nunca tinha notado sua existência. As páginas eram todas em preto e branco, sendo apenas a capa colorida. O tio vira pra você e diz “cinquenta centavos”.

Conan

Você olha pro tio, vira pra revista, retorna pro tio, e diz, mas hein? Como assim custava míseros cinquenta centavos? A natureza primitiva humana do não poder ver uma vantagem surge, e você já contabiliza em poucos nanossegundos. 40! Cara, onde que com 20 Reais você consegue comprar tantos quadrinhos?!

Não teve jeito, fui escolhendo sem muito critério as que mais me atraíram pela capa, quando o tio disse “à cada quatro que você comprar, pode pegar mais uma”. Buguei. Olhei meio de lado procurando o cérebro pra me ajudar a fazer as contas. Bem, se xis elevado à hipotenusa de pi é igual ao cateto de Bhaskara, então o cosseno da tangente só poderia dar 50! Ainda mais acelerado eu continuei a escavação atrás daquela papelada, e se antes eu escolhia com calma tirando até a poeira, agora eu não queria nem saber, eu já ia tacando tudo num saco com aquela poeira vulcânica e tudo. Antes que ele se arrependesse. Faço o checkout da loja e vou eu pra casa, à pé, tinha torrado até o dinheiro do ônibus.

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Na estante da sala tinha o meu cantinho, que não era nada mais que uma porta onde eu guardava as supostas tralhas que minha mãe não queria ver espalhadas pela casa. Lá tinham alguns VHS gravados em EP, um Playstation tijolão com uns controles, e uns poucos gibis do Homem-Aranha e da série Superaventuras Marvel, que ganhei de alguém mas não me recordo quem. Já cheguei na sala com uma pequena bacia, um pedaço de pano molhado, e liguei o ventilador de teto. A ideia era tirar aquele excesso de poeira, colocar pra secar no vento, e ir organizando. Conforme terminava a limpeza de uma eu pegava outra. Aquelas artes incríveis das capas, e seu interior num simples preto e branco, conseguiam uma brutal expressividade e personalidade, isso me deixava hipnotizado. A imersividade daquilo era fantástica, exatamente o tipo de universo fictício que me atraia. Uma jornada épica, onde um solitário guerreiro andarilho enfrentava inimigos brutais, e isso num mundo sem tanta firula fantasiosa. Talvez fosse pelo quadrinho não ter cor mesmo, só sei que não sou muito fã de grandes alegorias fantásticas mescladas ao medievalismo excessivamente purpurinado. Facilitando o entendimento do que quero dizer, não curto tanto assim O Senhor dos Anéis. Gosto sim, mas não me considero um fã da franquia.

Basil

Conhecia os dois filmes, Conan, O Bárbaro, e Conan, O Destruidor, ambos com Arnold Schwarzenegger. Quer dizer, acho que qualquer um que tivesse uma TV conhecia. Repetia tanto quanto Curtindo a Vida Adoidado nos canais abertos. O que mais me impressionava nos filmes eram as trilhas sonoras incríveis de Basil Poledouris, compositor greco-americano que conseguia belíssimos resultados misturando orquestra com coros sistinos. O cara é famoso não só por Conan, mas também trabalhou nas trilhas de sucessos como RoboCop, Os Miseráveis, e no hoje controverso, A Lagoa Azul. Essas músicas lindíssimas ficavam na memória e completavam a leitura dos quadrinhos de um jeito inexplicável. Poledouris descansou após enfrentar um câncer em 2006, mas deixou de presente uma extensa obra que vaga em ondas de rádio pelo infinito universo. Confiram essas duas faixas e me digam se estou sendo exagerado nas palavras.

Cimmeria

Robert E. Howard é a mente por trás de Ciméria, uma região fictícia, terra natal de Conan. E todo esse fantástico universo surgiu em 1932, quando Howard estava em Mission, Estado do Texas, escrevendo o poema Cimmeria, enquanto rememorava sobre as áreas montanhosas acima de Fredricksburg, vista em aos nevoeiros das chuvas de inverno. Ciméria é descrita no poema como terra de trevas e de noites profundas, um local melancólico com florestas negras, silêncio sombrio, e um céu turvo e de aspecto plúmbeo. Embora o mundo hiboriano seja criação de Robert E. Howard, o nome original e a descrição de Ciméria são de A Odisséia, de Homero, Livro 11, linhas 12-18.

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Nem só de Conan o quadrinho se faz, em suas aventuras ele conhece e é ajudado por alguns companheiros. Tudo bem que algumas dessas personagens sejam totais falsianes, mas com uma de principal destaque o destemido bárbaro sempre pode contar, a imponente e belíssima ruiva, Red Sonja. Juntos eles tocam o zaralho e riscam o mapa da Era Hiboriana. Se a franquia Conan é taxada como machista por muita gente, é Sonja quem aparece pra mostrar que as mulheres não são meros objetos à serem subjugadas por trogloditas, ela senta o sarrafo em quem pisar no calo dela, e nem mesmo Conan se livra de ter os bagos pisoteados por conta de suas piadinhas vez ou outra. A personagem hircaniana é criação conjunta de Roy Thomas e Barry Windsor-Smith, responsáveis pelo quadrinho através da Marvel Comics. Além de Sonja, também contracena no quadrinho a dançarina Jenna, que tem um final bem trágico, o espadachim de Turan, Mikhal Oglu, o feiticeiro Zukala, a pirata Bêlit, Thoth-Amon, Yezdigerd, Valeria, cara, é uma penca de gente. Não sei nem porque tentei listar, enfim.

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Mas o principal atrativo dos quadrinhos de Conan é obviamente a brutalidade gráfica, ingrediente principal pra atrair o público infantojuvenil. Embora seja um quadrinho destinado ao público adulto, você sabe né? O mais interessante é que toda a sanguinolência expressada nas páginas em preto e branco não sentem sede por cores pra enfatizar qualquer coisa. O dinamismo dos traços de Barry Windsor-Smith eram incríveis e conseguiam se mostrar caótico de um jeito muito à frente dos outros quadrinista de sua época, ele não precisava de Bangs! ou Pows!, seus traços falavam por si só. Confesso que me adaptei tanto aos quadrinhos da série A Espada Selvagem de Conan que pra mim o estranho são os quadrinhos colorizados. Conan pra mim até hoje é o que existe de mais legal no mundos quadrinhos, não tem X-Men, Homem-Aranha, ou mesmo Batman, Conan é meu camarada, e por Crom, espero um dia nascer novas séries tão boas da Era Hiboriana como foram as lançadas na década de 80.

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