BETTER THAN US (CRÍTICA)

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SINOPSE
Num futuro não tão distante as máquinas fazem parte do dia a dia da maioria dos cidadãos da Rússia. Fábricas, hospitais, escolas, nada fica de fora. E não são simples máquinas, boa parte delas possuem graus de inteligência artificial para auxiliar nas tarefas mais pesadas dos humanos. Existem robôs babás, enfermeiros, e até mesmo parceiros sexuais. A indústria por trás de tal tecnologia busca constante avanço, estando sempre atrás de novos upgrades e modelos para clientes sedentos por novidades. E nesse contexto surge Arisa, uma robô de alta tecnologia adquirida por um magnata do mercado de alta tecnologia. Arisa é um protótipo de uma empresa chinesa, e emprega inteligência artificial que lhe capacita tomar decisões morais de acordo com seu aprendizado. Essa capacidade não era prevista por seus idealizadores, e após um incidente de violência, foi descartada.

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De maneira desconhecida, a robô com fisionomia similar à humana, chega às mãos do empresário russo, um homem de caráter duvidoso que coleciona ‘bonecas’ para atender seus fetiches sexuais. As coisas fogem do controle, quando Arisa, após ser molestada, assassina um dos homens que transportaram-na até ali. A robô então foge do prédio onde estava e, vai parar dentro de uma família comum da cidade de Moscou, onde é ‘adotada’ por uma criança, e começa a aprender uma série de conceitos sobre humanidade.

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COMENTÁRIOS
São poucas as séries que nos deixam confortável ainda no episódio piloto, e Better than Us é uma dessas. A produção russa de ficção científica tem várias qualidades que merecem ser citadas, começando pela sua estética, que logo de cara mostra personalidade conceitual. Não traz exageros alegóricos tradicionais da nossa imaginação quando idealizamos uma proposta de futuro. A criação de Andrey Junkovsky, tem total inspiração em Isaac Asimov, porém não se limitando por completo nos dilemas existenciais de máquinas sendo inseridas na sociedade. O foco é apontado mais para como os seres humanos lidam com essa tecnologia, que vem interferindo em questões previdenciárias, e na constituição de formatos familiares.

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Arisa é uma máquina capaz de identificar emoções e expressões humanas, ao mesmo tempo que consegue aprender e compreender a filosofia da ética se baseando em avanços morais. O destino lhe proveu sorte ao encontrar Sonya, uma pequena menina bastante inteligente, filha de Georgy N. Safronov, um respeitado patologista. As duas desenvolvem um elo afetivo, no qual Arisa tem fortes impulsos de proteger aquela família, e Sonya corresponde ao sentimento por perceber antes de todos que aquele não era um robô como os outros. Arisa aos poucos vai observando aquele ambiente familiar e, adotando cada vez mais um comportamento humanizado, porém sua ‘vida’ se mostra complicada, considerando que ela foi responsável pela morte de uma pessoa.

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ELENCO E FICHA TÉCNICA
O elenco de Better than Us conta com Paulina Andreeva, Kirill Käro, Aleksandr Ustyugov, Olga Lomonosova, Eldar Kalimulin, Vita Kornienko, Aleksandr Kuznetsov, Vera Panfilova, Fedor Lavrov, Sergey Sosnovsky, Pavel Vorozhtsov, Irina Tarannik, Sergey Kolesnikov e Kirill Polukhin. A obra é criação de Andrey Junkovsky, Aleksandr Dagan e Aleksandr Kessel, produzida pela Yellow, Black and White, em cooperação com a  Sputnik Vostok Production para o canal estatal russo C1R. Em 2019 a Netflix comprou os direitos de exibição da primeira temporada. Better than Us é uma série originalmente lançada na Rússia no ano de 2018 com o nome Лучше, чем люди.

CONCLUSÃO
Uma produção de muito bom gosto estético, que traz boas atuações, um roteiro sólido e, a discussão ética de como iremos lidar no futuro com máquinas coexistindo conosco de maneira tão próxima. Better than Us conta a história de uma robô descartada em seu desenvolvimento, mas que chegando às mãos de um poderoso empresário. Arisa acaba cometendo um crime e, em sua fuga vai parar dentro de um ambiente familiar. A série russa é original de 2018, mas estreou no ocidente recentemente através do serviço Netflix. Recomendo muito!

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DILEMAS DA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

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O quanto você acha que uma pessoa é capaz de aprender para se transformar num bom ser humano? Na natureza observamos que os animais nascem com alguns instintos que a evolução, ou como prefiro chamar, seleção natural, foi imputando à sua espécie para que ela se tornasse mais apta a sobreviver em seu ambiente. Qualquer mamífero já nasce sabendo que precisa brigar com seus irmãos por uma bomba de combustível na sua mãe. Um filhote de pássaro sabe que precisa fazer bastante escândalo se espera receber uma porção de comida no ninho. Falando em ninho, um pássaro já traz em sua função matriz o conhecimento de construir seu lar na arquitetura de seu clã familiar. Um cervo já nasce sabendo a hora de meter o pé quando seu predador pinta na espreita. Acasalar? Será que essa galera sabe? Perpetuar a espécie, se alimentar, e se manter vivo, são os principais instintos que a vida traz no seu DNA. Certas coisas não precisam ser ensinadas, já sabemos pelo simples fato de existirmos.

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Claro, existem certas exceções, nenhuma espécie está livre de amostragem que nasce com alguma deficiência na escrita de tais instruções. Lembra eu dizer preferir o termo seleção natural? Bem, a natureza vai sempre trabalhar com combinações de probabilidade e mesclar informações do papai e mamãe para constituir sua próxima geração. Um filhote nunca é idêntico ao outro, cada qual tem suas características. E vão sobreviver para perpetuar seus genes aqueles que constituírem dos melhores atributos. A natureza funciona assim, ela não é boa e nem má, ela simplesmente é o que é. Pura e pragmática. Simples probabilidade matemática criando as diferentes divisões da árvore genealógica da vida.

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Mas vamos focar no ser humano, um espécime que temos propriedade de causa em lidar. Bem, pelo menos alguns exemplares de seres humanos. Espero estar certo de ser a maioria. Enfim. Os humanos, graças a sua otimização em comunicação, fizeram toda a sua espécie tomar um rumo diferente. Críamos regras e conceitos artificiais que conflitam numa constante com nossos instintos. Diferentes dos animais não-humanos, seguimos convenções sociais que nos impedem de agirmos de forma a prejudicar a totalidade do grupo. Não nascemos com essa informações, mas ganhamos tão breve quanto possível um checklist que devemos nos certificar e preencher. Diferente disso teremos sérias dificuldades na vida.

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Como espécie fomos longe, não apenas dominamos e domesticamos outras espécies de complexidade intelectual menor, mas também começamos a desenvolver complexas máquinas. Só que não paramos por aí, decidimos investir também na sua autonomia em lidar com situações complexas que geralmente seria a tarefa de um ser humano. É a chamada inteligência artificial, que em sua observação prática de arquitetura de funcionamento, não se distingue muito da forma com que a natureza encontrou de evoluir. A única diferença fica por conta da morte. Máquinas não morrem. Pelo menos é assim que acreditamos. Elas otimizam e substituem partes, mas não possuem uma validade assim como o seres vivos. Então se nós com nosso limitado cérebro e seus poucos bilhões de neurônios formos ultrapassados por máquinas com processadores muito mais complexos que os nossos, quem é que estará apto a manter as regras das convenções sociais?

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Na ficção existe uma série de diferentes abordagens, seja na literatura ou cinema, o ser humano é subjugado das mais variadas formas possíveis. Geralmente são máquinas com acesso a informações históricas da humanidade que concluem o óbvio, o ser humano é a verdadeira praga sobre a Terra. Então assim como nós temos o hábito de exterminarmos parasitas indesejados para o ecossistema a qual pertencemos, as tais máquinas inteligentes fariam o mesmo pelos seus ideais de mundo sustentável. Principalmente sabendo que os seres humanos ao identificar estarem sendo ameaçados, poderão se voltar contra elas.

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Seria apenas teorias da ficção, ou algo sério com qual devemos realmente nos preocuparmos? Contamos com nosso instinto básico, a sobrevivência. Se não fosse por essa primitiva instrução comum a maioria dos seres vivos, seria algo válido a própria extinção em benefício de o restante do todo. Mas sabemos sobre a utopia da coisa, uma vez que o ser humano nem de longe é tão altruísta assim. Então para mantermos nossa segurança, começamos a definir diretrizes.

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No dia 8 de Abril de 2019, a Comissão Europeia publicou um pacote de diretrizes para o desenvolvimento e a implementação de padrões éticos de inteligência artificial. Não se trata de uma formalização de normas, mas apenas um modelo para possíveis regras futuras. O Ethics guidelines for thustworthy AI (download do PDF em português) define como bom tom, que uma AI ética e de confiança precisa ser transparente, ser supervisionada por humanos, possuir algoritmos confiáveis e seguros, e estar sujeita a regras de privacidade e proteção de dados. O documento foi publicado pelo High Level Expert Group on Artificial Intelligence (AI HLEG).

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Em breve entraremos no dilema qual precisaremos definir em que grau de autonomia gostaríamos que nossas máquinas coexistissem conosco. Certamente implementaríamos diretrizes por serem respeitadas em  todo canto, e quando compreendemos o funcionamento de um algoritmo, sabemos poder ficar seguros com elas. O problema não é exatamente esse, mas bastaria uma única falha humana para todo castelo de cartas ruir. O que quero dizer com isso? Imagino que parte significante dessas máquinas estarão conectadas à redes globais, até mesmo por uma questão de updates. Então imaginemos que alguém com credenciais e disposto a colocar fogo no palheiro, simplesmente altere as diretrizes originais e adicione as suas próprias. Sim, podemos definir essas instruções como inerente, algo físico e definitivo na estrutura, mas conhecemos o potencial humano em ludibriar sistemas de segurança. Feito uma mudança assim, nada impede que máquinas alterem máquinas, e que assim a ficção como conhecemos possa se tornar realidade.

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Do que você precisa? Apenas um robô doméstico que faça e te entregue café, ou um ser com os mesmos direitos de acesso ao ambiente que possuímos? O ser humano possui um extinto de sobrevivência, mas ao mesmo tampo não consegue se conter em não ser destrutivo. De uma forma ou de outra, estamos prestes a auto-aniquiliação.

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A.I. INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL: APENAS TRÊS VEZES

Filmes Clássicos

Quantas vezes você consegue assistir uma mesma coisa sem sentir o tédio da repetição? Eu pelo menos sou o tipo de pessoa que não tem o hábito de repetir rituais de ver um filme duas vezes ou mais, como imagino ser o normal para fãs entusiastas de franquias como Guerra nas Estrelas ou O Senhor dos Anéis. Claro, sempre tem aquele que passando oitenta e seis vezes na sessão da tarde, você vai ter preguiça oitenta e seis vezes de trocar de canal, e quando percebe o filme acabou. Curtindo a Vida Adoidado ou O Último Guerreiro das Estrelas eu devo ter visto mais do que as vezes que repetiu Chaves no SBT. No entanto houve uma situação especial para mim que até hoje eu não compreendo bem o motivo de ter ocorrido.

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Sempre fui fã de Steven Spielberg, e desde muito pequeno tenho ciência de que E.T.: O Extraterrestre tinha um criador, sendo assim tudo que eu descobria ter a mão desse cara eu queria consumir. Foi desse jeito com Indiana Jones, De Volta para o Futuro, Goonies, Gremlins, Hook, Jurassik Park, e muitos outros. Spielberg parecia ser um bisbilhoteiro cartomante dentro da minha cabeça, e me entregava exatamente aquilo que eu não sabia, mas almejava consumir pra ontem. E acho que meu pai notava isso, porque não era eu quem corria atrás de filmes, era ele quem chegava em casa com VHS para assistir. Eu era muito pequeno, não fazia ideia do tipo de cegonha que trazia filmes ao mundo, só sei que um dia ela trouxe O Império do Sol, e nossa, assisti o precoce Christian Bale quando eu devia ter a idade que ele interpretou o papel. Esse filme me fez me fez compreender do que se trata valorizar a vida. Fez notar que inventamos demônios gigantescos apenas pelo prazer da autopiedade, por uma desnecessária autodestruição. Nos dá um tapa na cara e mostra o quanto somos apenas babacas reclamando por pouco, enquanto semelhantes sofrem dores verdadeiras, e mesmo assim não se entregam ao vitimismo. Porém, embora de extrema importância na minha vida, não foi O Império do Sol que me fez assistir num mesmo dia, três vezes seguidas a mesma coisa, mas sim A.I. Inteligência Artificial. Motivo? Também me pergunto até hoje.

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Devia ter dezessete ou dezoito anos, e se não me engano foi o primeiro filme que aluguei em DVD quando a tecnologia ainda era novidade no Brasil. Mas o motivo da obsessão de assistir repetidas vezes não foi pelo vislumbre da surpresa com a qualidade de imagem, mas sim pelo filme em si. Eu não sei como as pessoas conseguem transcrever seus sentimentos por algo de grande apreço, pra mim vem tudo de uma só vez, fico sem saber criar um roteiro pra explicar quais pontos e razões pelo qual valorizo aquilo. Dizer que as atuações são maravilhosas, a direção é espetacular, a fotografia, figurino, efeitos especiais, trilha sonora, enfim, qualificar essas coisas me parece chover no molhado. Todo mundo conhece o selo de procedência dos produtos com o selo Spielberg’s Finger. Óbvio, tirando Super 8, filme onde Spielberg estava com chikungunya no decorrer da produção, certeza.

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Recordo de ter ido sozinho na locadora num dia de semana e alugado A.I., acho que tinha recém concluído o ensino médio. Não tinha mais ninguém em casa e me acomodei para assistir com certa euforia. Já estava entusiasmado pelos trailers de cinema, que na época eram bem mais caros que hoje em dia, então esperei sair nas locadoras. Esse filme tinha o ar um pouco diferente da pegada de Spielberg, era mais lento, bem mais reflexivo e contemplativo com simbólicos vazios. Te apresentava coisas e oferecia o tempo certo para absorção, era um um copo de veneno e outro de soro, você era imerso numa atmosfera pesada e cruel. Eu não conhecia muito sobre a temática inteligência artificial além do mostrado no filme Matrix ou em O Exterminador do Futuro, e juro, não fiz associação direta até então com Pinocchio. Mesmo com essa idade eu não tinha assistido nem o clássico da Disney, não sabia o que representava o personagem do italiano Carlo Collodi, sendo assim tudo era muito novo pra mim nesse filme.

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A melancolia da percepção de ser observado com curiosidade e medo, e do sentimento de necessidade em se encaixar num ambiente onde fora jogado sem seu consentimento, tudo isso embora sutil, era densamente claustrofóbico. Paradoxal com o certo ou errado, te afoga numa ânsia contínua de querer uma resolução onde todos fiquem bem, mas conforme o filme desenvolve, é notável cada vez mais isso distanciar. Aos poucos o universo vai se expandido para o pequeno rapazinho, as fronteiras não podem ser mais vistas, e isso torna as coisas bem mais difíceis. Se sua busca já era difícil naquela pequena caixa de areia conhecida, quando entregue uma segunda vez ao mundo, e mais uma vez sem seu consentimento, toda uma enxurrada de vaidade alheia fora jogada sobre sua cabeça de uma só vez. Não havia jeito, sozinho seria impossível a sobrevivência. Era necessário a evocação de um guia, compreensível e almejado por quem assistia. Agora a unidade da dupla, de presença e consciência, tinha um segundo membro, com malícia, impulsividade, uma bússola melhor, e portando ainda um confuso, porém bom coração. Mestre e aprendiz preparados para busca ao impossível.

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O momento chegou, então diga, qual a sua maior vontade? Pelo que vem de tão longe pobre menino querendo ser homem?

Para eu ou você a dor do tempo seria mortal mesmo que imortal fôssemos, somos o resultado da vaidade, incapazes de entendermos a futilidade do que é o esperar. Considere esse aviso e leve consigo.

A presunção de se por importante te deporta da importância e não sobrevive ao tempo. Nem mesmo o frio te hiberna, ele te apodrece. Então queira pouco, queira o que tem, queira o que pode, e mais importante, guarde o pouco conquistado e doe o que ainda não tem.

Terminei o filme a primeira vez. Assisti aos créditos pensativo sobre o que me faltava entender, então rebobinei o DVD e coloquei mais uma vez. Compreendido a trama central você consegue ver novos espectros paralelos de cada ato. Percebe a intenção sutil em cada escolha das poucas palavras e dos muitos silêncios. Sem grandes estripulias ele era uma rocha simples, qual não precisava ser mais lapidada para ser atraente. Pausei o filme em alguns momentos refletindo comigo mesmo enquanto tentava encaixar não peças de trama, mas pedaços de memórias, crenças e decisões. Cada personagem tinha sua carga e coerência, todos tinham suas razões de serem e agirem. Compreendo na segunda tentativa que a mortalidade também não tem culpa, e que o juízo pelos erros não devem ser julgados. São atos, dolorosos, egoístas, mas que não sobrevivem, e muito menos detêm tempo para tal. Concluído o segundo round já embarquei imediatamente no terceiro, queria com a nova visão decretar se aquele filme era de verdade o meu filme de cabeceira. Eu tive razão ou me forcei ter, não importa, tive que comprar uma nova cama com cabeceira.

AI

Engraçado é você assistir um filme três vezes num mesmo dia e ainda ter a necessidade de buscar por curiosidades por trás das câmeras. E muito intrigado fiquei quando descobri essa não ser uma obra original do meu tio Spielberg, mas sim a herança de Stanley Kubrick. A crítica também não espelhou meu sentimento, alguns gostaram, alguns gostaram muito, e outros nem gostaram. Criticaram o final, qual a grande maioria certamente não entendeu. Boa parte da crítica estigmatizou o filme por total ignorância de interpretação, o fim era perfeito, a mais bela cereja. Como pode alguém não ter apreciado tão esforçada pintura? Será que era eu o estranho? Mas do que isso importa? Não era o não levar prêmios que faria o filme ser menos maravilhoso para mim. Ele era reconhecido por mim. Mais uma vez Spielberg me surpreendeu com algo que eu não sabia mas precisava ter.

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