O CONTO DA AIA – LIVRO (CRÍTICA)

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I- SINOPSE

Depois de uma revolução teocrática no século XXI, que estabeleceu uma sociedade estratificada, conservadora com bases nas raízes puritanas do século XVII, o que conhecemos como Estados Unidos foi destruído. As políticas racistas foram um dos combustíveis emocionais da revolução e agora impera a República de Gilead, um estado totalitário que, embasado em uma interpretação moral e segregadora do Antigo Testamento, restabelece uma sociedade patriarcal na qual a mulher não tem voz ativa nenhuma.

Uma sociedade envelhecida, assolada por doenças e reflexos da contaminação nuclear, fez como que a taxa de natalidade caísse a níveis muito pequenos. Há uma esterilidade generalizada entre mulheres e homens (por mais que eles neguem isso). Assim a elite, com forte teor militar, estabelece que suas esposas (recatadas e do lar) lhe sejam submissas, não tenham acesso à leitura, instrução ou beleza. Incapacitados de conceber filhos, tem como última esperança as Aias: barrigas de aluguel que geram os filhos para a elite de Gilead.

No entanto as Aias, sempre de vermelho e antolhos, não exercem tal função de bom grado e espontaneamente, pelo menos a maioria. São obrigadas, doutrinadas a procriar contra sua vontade e tem seus filhos arrancados de si desde muito cedo. É nesse contexto que seguimos de perto as memórias da Aia Offred, de 33 anos, e sua liberdade vigiada de ser usada como objeto reprodutivo de uma família e uma sociedade que diz agir em nome de Deus e dos bons costumes. Ela precisa conceber de seu Comandante (chefe da casa), senão pode ter um destino bem pior: ser prostituta ou ir para as colônias radioativas e ter uma morte lenta e dolorosa. Tudo isso sem amor, afeição, ou liberdade de expressão, pois tais atos, às vezes, podem significar a tortura e a morte.

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Título original: The Handmaid’s Tale
Autora: Margareth Eleanor Atwood
Tradução: Ana Deiró
Gênero: Romance canadense.
Editora e ano: Rocoo, 2017.
Páginas: 366
Referência bibliográfica: ATWOOD, M.E. O conto da aia. Rio de Janeiro: Rocco, 2017.

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II – PERSONAGENS

  1. OFFRED (JUNE) – Narradora-personagem, ao menos a segunda Aia enviada à residência dos Waterford a fim de dar um filho a família. É pelo olhar dela que conhecemos os costumes da República de Gilead e os rumos que a sociedade teocrática tomou. O nome June remete a deusa romana do casamento Juno e não é à toa!
  2. O COMANDANTE (FRED) – Oficial importante de Gilead e o patriarca da família Waterford. É velho e possui acesso a muitos itens proibidos naquela sociedade, desde revistas femininas a livros, além de livre acesso aos espaço de Gilead.
  3. SERENA JOY (a Esposa) – Senhora decrépita que se reduz a tricotar e cuidar de seu jardim. Antes da revolução, fora uma celebridade televisiva que pregava sobre a santidade do lar e como as mulheres deveriam ficar em casa, mas que agora não passa de um Esposa à espera de um filho. É amarga para com Offred e fará de tudo ao seu alcance para que sua Aia possa engravidar.
  4. TIA LYDIA – A instrutora, tutora, carcereira do Centro Vermelho responsável pela doutrinação das mulheres férteis e pela sua adequada servidão na casa dos Comandantes. É acessada por meio de flashbacks de Offred ao longo da narrativa. É a voz na mente da narradora. Só aparece no livro como personagem durante a cerimônia de Salvamento.
  5. OFFGLEN – Companheira de caminhada e ida às compras de Offred. É integrante de uma rede clandestina de fuga de mulheres da República de Gilead. Pouco se sabe sobre a identidade da moça e suas conexões, mas percebe-se que era ativa na luta pelo restabelecimento da liberdade das mulheres.
  6. MOIRA – Melhor amiga de Offred em seus tempos de faculdade quando a narradora ainda era June. Lésbica e muito determinada, é o ideal de Offred de resistência e luta sendo extremamente arredia em relação ao Centro Vermelho e sua doutrinação. Também é vastamente acessada pelas divagações de Offred e aparecendo somente como personagem ativa em um capítulo.
  7. NICK (o motorista) – chofer da família Waterford, silencioso e contido. Pouco se sabe de seu passado além das suspeitas de ser ou um agente da resistência (Mayday) ou um dos Olhos (agentes repressores de Gilead). Desenvolve certa afeição por Offred.
  8. OUTROS PERSONAGENS – Outros personagens são também acessados pelo fluxo da memória de Offred como Janine, uma Aia extremamente bajuladora e submissa. Mas essa visita às memórias são ainda mais fortes quando envolvem a vida de Offred antes de se tornar uma Aia do regime teocrático de Giliead. Por meio de flasbacks conhecemos a mãe de June, militante política pelos direitos femininos, seu marido Luke (e a incerteza dele ter sobrevivido à tentativa de fuga para o Canadá) e sua filha (retirada da mãe ainda muito cedo e mandada para alguma família de Gilead).

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III-  ESTRUTURA DO LIVRO

A narrativa é feita em primeira pessoa (narrador-personagem) e conta as memórias de Offred como Aia na casa do Waterford. Usa o discurso indireto livre: ou seja a voz da personagem e o fluxo de sua consciência se misturam a narração dando ares psicológicos aos fatos. Somente em dois momentos essa dinâmica não é obedecida ao pé da letra: quando Moira narra sua história, a qual June tenta reproduzir com o máximo de fidelidade; e ao final do livro, no discurso dos pesquisadores sobre Gilead.

Por obedecer o fluxo das memória de June, tornada Offred pelo regime teocrático, acompanhamos os acontecimentos por meio de dois planos: o do acontecimento em si e as reflexões da narradora com base em sua memória afetiva. Tais memórias não são organizadas linearmente, mas se mostram a medida que as situações acontecem. A própria Offred se justifica:

Isso é uma reconstrução. Tudo, cada detalhe é uma reconstrução. É uma reconstrução agora, em minha cabeça, enquanto estou deitada estendida em minha cama de solteiro, ensaiando o que deveria ou não deveria ter dito, o que deveria ou não deveria ter feito, como deveria ter feito meu jogo.

A descrição é de extrema importância e pode, por vezes, cansar o leitor mais cru. No entanto são responsáveis por pintar a sociedade de Gilead em todas as suas feiúras, maldades e obscenidades. Despertará em quem lê muita indignação em certos aspectos a que um regime totalitário religioso por chegar.

O livro possui ao todo 46 capítulos, simplesmente numerados com algarismos romanos. A ausência de título por capítulo é compensada  pela organização do romance em 15 blocos (ou partes), como por exemplo o inicial que se chama “I – Noite” e possui apenas um capítulo; e o “II – Compras” que abarca cinco. Ao final do livro temos as “Notas Históricas”, um capítulo à parte da narração propriamente dita.

Em cada bloco, há um acontecimento central no qual a narradora tece comentários ao mesmo tempo que se lembra de fatos marcantes que antecedem a sociedade de Gilead ou que remonta aos primeiros tempos da mesma. A história prossegue sempre nessa perspectiva: o acontecimento em si, o retrato da sociedade como ela se tornou e a reflexão de Offred sobre si e sobre o mundo. Há ainda diversos momentos metalinguísticos nos quais a narradora reflete sobre o próprio ato de narrar e a “quebra da terceira parede” ao conversar diretamente com o leitor.

Tudo que é silenciado clamará para ser ouvido ainda que silenciosamente. (p.183)

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IV – O ENREDO / SPOILERS

1. APRESENTAÇÃO INICIAL

Nos primórdios da sociedade de Gilead, Estado formado após uma revolução teocrática que instaurou um regime totalitário nos EUA, acompanhamos a adaptação de June, tornada a Aia da família do Comandante Waterford. Além dos resquícios da guerra nuclear, escassez de alimentos, de peixes no oceano, a revolução é principalmente de cunho moral e conservador e em parte motivada pelo caos que os níveis de esterilidade alcançaram: uma população cada vez mais envelhecida e em que novas crianças não nascem mais. As informações são omitidas ou falseadas para a população que se resume a acompanhar aquilo que é noticiado na TV estatal. Mas June nos oferece um quadro de como as coisas chegaram a esse ponto:

As mulheres tomavam medicamentos, comprimidos, os homens pulverizavam árvores, as vacas comiam a relva, todo esse mijo com a força comprimida fluía para os rios. Para não mencionar  a explosão de usinas de energia atômica, ao longo da falha de San Andreas, não por culpa de ninguém, durante terremotos, e a cepa mutante de sífilis que nenhum tipo de mofo  conseguia tocar. (p.137)

Nesse contexto, a proteção à vida do feto se torna sagrada (nos dois sentidos): poucas mulheres engravidam e, se conseguem, muitas vezes não são donas do próprio corpo ou de suas crianças. Até o parto é natural é sem anestésicos, pois enfatizavam a dor como fonte geradora dos filhos. Assim são instituídas as aias: mulheres sem liberdade e que cuja função são meramente reprodutivas.

Somos para fins de procriação: não somos concubinas, garotas gueixas, cortesãs. […] Somo úteros de duas pernas, apenas isso: receptáculos sagrados, cálices ambulantes. (p.165)

Esta sociedade, cujo valor central é a reprodução, tem seu fundamento na ética e moral do texto bíblico, principalmente no Velho Testamento. Gilead é divida conforme a função e as cores de seus entes sociais: os Comandantes (chefes de família) sempre de terno escuro, as Esposas de azul, as Econoesposas (de classe mais baixa), as Martas (empregadas domésticas), o aparelho repressivo do estados são jovens e adolescentes de cara lisa e prontos a puxar sua pistola e por aí vai. E claro as Aias, sempre trajando vermelho e com antolhos para que não olhem o mundo ao seu redor, nem que sua faces sejam vistas.

Doutrinadas totalmente no Centro Vermelho (claro que nem todas) essa mulheres, quando chegavam em seu período fértil, eram obrigadas a ter relações sexuais com o patriarca da família sem o consentimento, prazer ou amor das mesmas. Não poderia haver luxúria, a Esposa presenciava tudo, gélida. Um estupro. Tudo fundamentado em uma passagem bíblica:

Vendo Raquel que não dava filhos a Jacó, teve inveja de sua irmã, e disse a Jacó: Dá-me filhos, se não morro. Então se acendeu a ira de Jacó contra Raquel, e disse: Estou eu no lugar de Deus, que te impediu o fruto de teu ventre? E ela disse: Eis aqui minha serva Bila; coabita com ela, para que dê à luz sobre meus joelhos, e eu assim receba filhos por ela. (Gênesis 30: 1-3)

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Essa sociedade estratificada, fundamentava ainda sua visão deturpada de acordo com uma releitura machista de Karl Marx, recitada como slogan pelas aias no Centro Vermelho: “Que cada um dê de acordo com sua capacidade; para cada um de acordo com suas necessidades” (p.143). No entanto ainda havia Esposas que podiam procriar e nem todo Comandante precisava de uma aia, mas principalmente os de alta patente. Mas quando havia esterilidade, a culpa era das mulheres:

Isto não existe mais, um homem estéril existe, não oficialmente. Existem mulheres que são fecundas e mulheres que são estéreis, essa é a lei. (p.75)

Quando June, assume o nome Offred, por pertencer a Fred Waterford, ela precisa ser inseminada para dar um filho à família. Para ele e Serena, sua Esposa, ambos envelhecidos, é uma necessidade social, alcançar um status, sedimentar seu poder e influência. Para June é uma questão vital, visto que aias inférteis ou insurgentes poderiam ter uma prostituição forçada (em uma Casa de Jezebel) ou serem condenadas à Colônia (expostas à radioatividade fazendo trabalho de limpeza de resíduos). Assim teria que dar à luz e ter sua criança retirada para sobreviver.

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2. COMPLICAÇÃO

Em uma sociedade voltada para reprodução humana, pela ótica distorcida dos costumes judaico-cristãos, o drama de June, tornada Offred, é justamente corresponder as expectativas dos Waterfords. Não é uma mera questão de fé visto que até as orações são terceirizadas nos quais os fiéis as mandavam imprimir em vez de orarem por si mesmos.

Serena nutre uma aversão a Aia ao passo que seu marido começa a desenvolver uma relação “antinatural” para a sociedade de Gilead. Primeiro permite que June o faça companhia, em particular, em jogos de tabuleiro, como também permite que a mesma leia (impossível para qualquer mulher, pois só escutavam a Bíblia recitada pelo marido e até o comércio usava figura ao invés de palavras), além de conseguir itens contrabandeados como loção para mãos e revistas de moda. Pois todo item que evidenciava a estética e a sexualidade feminina era vedado.

Aliado à postura do Comandante Waterford, as tentativas infrutíferas de gravidez colocam em xeque a capacidade moral e status social junto àquela sociedade e o próprio futuro de June. Fred parece não ser fértil e é preciso encontrar uma solução para o caso. Offred se vê no impasse de ser ser inseminada em segredo por um médico ginecologista (sugestão de Offglen) ou a solução estapafúrdia de Serena Joy: usar Nick (o motorista), em segredo para fazer sexo e dar um filho a família.

A primeira alternativa é descartada por June, mas a segunda lhe cai muito bem, afinal já nutria uma certa afeição à distância e uma tensão sexual com o jovem motorista. Em contrapartida em qualquer uma das opções seu destino seria a morte por enforcamento (o tal “Salvamento”). Sentindo as esperanças de uma vida melhor lhe escaparem das mãos, sem possibilidade de ver sua filha, crendo seu marido Luke morto e sua mãe vista pela última vez na Colônia e provavelmente morta. Resta-lhe, desesperada, ecoar a oração ensinada por Tia Lídia no Centro Vermelho:

Ó Deus, Rei do universo, obrigada por não ter me criado homem. Ó Deus, oblitera-me. Torna-me fecunda. Mortifica minha carne; para que eu possa ser multiplicada. Permita-me ser preenchida… (p. 232)

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3. CLÍMAX

A narrativa parece ter vários momentos reflexivos problematizando mais os rumos controversos da sociedade teocrática do que um momento ímpar de tensão. Eles estão diluídos ao longo da narrativa como por exemplo a execução daqueles que vão contra o sistema ou cometem crimes, principalmente, ligados à sexualidade. São justamente aqueles ligados ao sexo os momentos mais dramáticos do Conto da Aia.

O primeiro é quando se dá justamente a Cerimônia com o Comandante Waterford: um estupro com a presença da Esposa. Isso em volta de orações em um ritual que mescla o sagrado e o profano. Impessoal, sem sentimentos alguns entre os atores. A passividade de June. A frequência ofegante de Fred. Nada sensual, mas automático. Não há  como fazer uma omelete sem quebrar os ovos, era o melhor para o Comandante:

Melhor nunca significa  melhor para todo mundo, diz ele. Sempre significa pior, para alguns. (p.251)

O segundo envolve justamente Nick. Algo mais perto do amor, mais consentido, sem deixar de ser imposto pela urgência de gerar um herdeiro para os Waterford. Algo confuso para narradora-personagem. Isso se demonstra pela múltiplas versões do ato amoroso, difícil de ser lembrado e exposto ao leitor. Toda relação dos dois é mais fantasiada por ela que anseia um lampejo e carinho do que por Nick que deixa transparecer pouco em sua capa de frieza. São tempos perigosos para um mulher sentir amor ou prazer ou ser dona de si.

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4. DESFECHO

O fim é abrupto e lida com as consequências de tantas transgressões às leis de Gilead. O artifício de Serena para dar um filho ao seu Comandante e a situação em que June se coloca não denunciando os Waterfords os coloca em terrível perigo.

Há uma quebra drástica e o fim é imposto sem aviso. O que se estabelece é antes de tudo é uma frágil felicidade que se instala no coração de June que vive um romance idealizado ao passo que realista com Nick. Vê o mundo desmoronar a sua volta, mas encontra no sexo às escuras, na casa do motorista, uma espécie de “porto seguro”.

No fim Nick a resgata ou a condena? Essa tensão permeia o fim da narrativa que só vem a ser melhor explicada nas “Notas Históricas” no qual pesquisadores analisam a sociedade de Gilead distanciados no tempo que entre os muitos documentos se focam nas gravações em aúdio de June, transcritas no livro que o leitor acabou de ler. Isso se torna claro na afirmação de Offred:

Conto, em vez de escrever, porque não tenho nada com que escrever e, de todo modo, escrever é proibido. Mas se for uma história, mesmo em minha cabeça, devo estar contando-a para alguém.

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V – A AUTORA

Nascida em Ottawa, Canadá, Margaret Eleanor Atwood é romancista, poeta e roteirista premiada além de seus trabalhos humanitários e como ambientalista. Enquanto cursava o doutorado em Havard, por ser muito prolíxa, nunca terminou sua dissertação, embora colecione mais de vinte diplomas honorários, inclusive da própria faculdade recebido no ano de 2004. Nesta violenta distopia passada no ano de 2195, no qual a taxa de natalidade caiu drasticamente e as mulheres servem de aia com o propósito de reprodução das elites, percebe-se a clara inspiração em outros romances do mesmo tipo como 1984 de George Orwell e Admirável Mundo Novo de Aldous Hurley.

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VI – CONCLUSÃO

Fiz o caminho inverso e acho que muitos leitores agirão como eu: primeiramente se apaixonarão pela série e depois lerão o livro. Mas sou defensor do seguinte ponto de vista: não há como equiparar dois objetos artísticos totalmente diferentes. O livro de Atwood tem sua relevância e sedução na medida que acompanhamos a mente de uma mulher angustiada e oprimida pelo sistema. Tudo bem que a série, também roteirizada pela escritora, tenha seus momentos em que ouvimos os questionamentos e a consciência de Offred, no entanto acompanhar sua narrativa claustrofóbica e reconstruída é uma experiência sem igual.

Não espere dessa obra esclarecimentos sobre os ações futuras da série. Ela abarca um curto período da trajetória de June, no entanto o poder e profundidade da narrativa da heroína, sua tensão entre a passividade e a possibilidade de se rebelar, reflete a dinâmica de cada um de nós. Frente à iniquidade, ao fanatismo religioso dos políticos, à postura machista, qual é a nossa capacidade, sejamos homens ou mulheres, de sair de nossa zona de conforto ou de nosso cárcere para buscar uma vida mais justa?

June, tornada Offred, pode ser um testemunho claro de que a não ação é tão perigosa quanto os atos de injustiça. Em tempos como esse em que o conservadorismo reage a evolução e revolução das questões de gênero, da geração da vida e de seu extermínio, e se fecha em soluções messiânicas, o livro de Atwood é um chamado para o despertar. E então, em qual parte do Conto da Aia o Brasil está? Leia e descubra! Boa leitura.

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OS SETE MELHORES LIVROS POLICIAIS DE AGATHA CHRISTIE

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QUEM É A DAMA DO CRIME?

Bem, eu não sabia que Agatha Christie, escritora britânica (1890-1976), era assim conhecida: Rainha ou Dama do Crime (“Queen/Lady of Crime”, no original em inglês). Meu primeiro contato com essa mestra do romance policial foi justamente com o livro “O Caso dos Dez Negrinhos” ou “E não sobrou nenhum”, como hoje é mais conhecido.

Lembro que este livro, de capa amarela e com uma estátua de um negrinho, me fascinou. Estava em um biblioteca de escola de Ensino Fundamental em João Pessoa (PB). Estava no meu oitavo ano do ensino fundamental e ninguém frequentava aquele lugar cheio de bagunça e de paredes branquíssimas. A bibliotecária me recebeu toda educada e admirada de ter gente fuçando as pilhas de livros. Mas Agatha Christie estava lá.

Levei o romance para casa e devorei cada página. Final surpreendente. “O caso dos dez negrinhos”, e prefiro chamá-lo assim, foi meu primeiro surto de leitura. Li 29 livros da autora adquiridos por meio de sebos, livreiros, fazendo trocas e negócios.

Mas por que Agatha Christie é uma leitura tão esplêndida? Porque as pistas dos crimes estão ao longo da narrativa. A autora faz questão de “esfregar” na nossa cara a resolução, os indícios que deixamos passar. Eu me sentia desafiado a descobrir junto com os detetives da autora, com Hercule Poirot principalmente, o criminoso e suas motivações. Por isso me decepcionei tanto ao ler Arthur Conan Doyle e seu Sherlock Holmes que aparecia com uma solução pronta, de surpresa e dada para o leitor. Agatha Christie constrói junto com quem lê, já Doyle é fast food: tudo esta solucionado de antemão. Chegou um tempo, ao longo de tantos livros lidos da Dama do Crime, em que eu descobria junto com ela o assassino e sentia-me muito inteligente e observador.

Nas linhas abaixo selecionei as histórias da autora que mais me marcaram. Estão colocados em ordem cronológica e não afetiva. Alguns deles foram adaptados para outras mídias e fizeram tanto sucesso quanto o romance escrito. Mas confesso-lhes que nada nos tira o sabor de se sentir um ás da observação e solucionar crimes. Leia Agatha Christie e tenha essa sensação.

 

The Murder of Roger Ackroyd, 1926

SINOPSE
Na pequena vila inglesa de King’s Abbott, o passatempo são justamente as fofocas. E não poderia deixar de ser diferente, as pessoas da elite local são o principal alvo dos comentários maldosos. No centro das discussões está um abastado senhor, Roger Ackroyd, que acaba sendo alvo de um grupo de fofoqueiras que tem em Caroline Sheppard sua representante mais ferina. Os boatos ficam ainda mais exagerados quando a recente viúva, Miss Ferrars, é acusada de ter um relacionamento com Ackroyd. Isso acarreta o suicídio da mulher.

A fim de se abrir a cerca dos acontecimentos recentes, Ackroyd convida o médico James Sheppard, irmão de Caroline e amigo, para jantar e revela fatos desconcertantes. Miss Ferrars matara o próprio marido e era chantageada. Ackroyd recebeu uma carta que revelava quem era o chantagista, mas não tivera tempo de descobrir. A morte também chegou a sua porta.

O caso ficaria insolúvel se por pura coincidência o detetive Hercule Poirot não estivesse passando uma temporada de férias a cuidar de seu jardim de abóboras na pequena vila. Ele se junta ao Doutor Sheppard para tentar descobrir a trama por trás da morte de Roger Ackroyd.

COMENTÁRIOS
Quando fora lançado, este livro vendeu cerca de 5 mil exemplares, o sétimo livro mais vendido da autora. A narração é do Doutor Sheppard que termina sendo auxiliar de Poirot nas investigações. Funciona como o Watson de Sherlock Holmes, mas a comparação para por aí. Aqui as falas dos personagens são extremamente reveladoras assim como aquilo que não é dito.

 

Murder on the Orient Express, 1934

SINOPSE
Considerado o maior caso do detetive Hercule Poirot, o cenário é o luxuoso trem Expresso do Oriente que em sua época áurea ligava Paris a Constantinopla (atual Istambul). Pouco depois da meia-noite o trem fica preso e parado na neve devido ao mal tempo. Surpreendentemente cheio para aquela época do ano, na manhã seguinte um passageiro é encontrado morto com doze facadas. Isolados  no trem “encalhado” no gelo, Hercule Poirot terá que usar de toda a sua perspicácia para descobrir o assassino.

COMENTÁRIOS
O livro é baseado no verdadeiro caso de um sequestro ocorrido nos Estados Unidos, em 1932 e vendeu três milhões de cópias em seu ano de lançamento. A narrativa revolucionou o gênero devido ao seu final dramático e dilema moral. É uma das obras de Agatha Christie mais adaptadas para televisão e cinema. Há duas versões cinematográficas que merecem destaque. A primeira, de 1974, é a mais famosa, tem Albert Finney como Hercule Poirot e a direção de Sidney Lumet; já a última é de 2017 com Kenneth Branagh dirigindo o filme e também interpretando o famoso detetive da trama.

 

The A.B.C. Murders, 1936

SINOPSE
Neste romance, Hercule Poirot e o Capitão Hastings, companheiro de muitas aventuras, se deparam com um assassino em série que desafiará as capacidades dedutivas e observadoras do detetive belga e do oficial inglês.

Após retornar da América do Sul, o Capitão Hastings se encontra com seu velho amigo, Hercule Poirot, em seu novo apartamento em Londres. Nessa ocasião o belga lhe apresenta uma carta misteriosa que recebeu, assinada com “A.B.C.”. Nela está detalhada um crime que deve ser cometido muito em breve, que Poirot suspeita ser um assassinato.

Duas outras cartas de mesmo teor chegam logo a seu apartamento, cada uma antes de um assassinato sendo realizado por A.B.C. Elas estão em ordem alfabética: Alice Ascher, morta em sua tabacaria em Andover; Elizabeth “Betty” Barnard, uma garçonete sedutora morta na praia de Bexhill; e Sir Carmichael Clarke, um homem rico morto em sua casa em Churston. Em cada assassinato, um guia ferroviário da ABC é encontrado ao lado da vítima.

COMENTÁRIOS
Esta é uma obra para entender as referências. Claro que você não precisa ser um especialista em Agatha Christie, mas isso traz um gosto a mais para imersão nesse romance policial. Por exemplo, Poirot cita sua tentativa infrutífera de se aposentar plantando abóboras, como aparece em o Assassinato de Roger Ackroyd, ou adianta o enredo de Cai o pano (1975), seu último caso. Então:

“Não seria de admirar que terminasse investigando sua própria morte”, comentou Japp, rindo gostosamente. “Eis uma boa ideia, sim, senhores. Devia ser ser tema de um livro.” “Hastings é quem poderá fazer isso”, observou Poirot, piscando o olho para mim. “Seria realmente divertido”, disse Japp, rindo de novo.

Outro ponto chave desse livro é a mistura muito bem-vinda que combina uma narrativa em primeira pessoa e em terceira pessoa, algo já abordado por Charles Dickens. Uma narrativa em terceira pessoa que é reconstituída pelo Capitão Hastings, narrador-personagem da história.

Recentemente fora filmada uma minissérie justamente embasada neste romance. Poirot, interpretado pelo genial John Malkovich, conta com a direção de Sarah Phelps, nesta obra de 2018 empreendida pela BBC One. Além disso inspirou um jogo, point-and-click para consoles e computadores de mesa desenvolvido pela Artefacts Studios: Agatha Christie – The ABC Murders (2016).

 

Death on the Nile, 1937

SINOPSE
A trama gira em torno do casal Linnet Ridgeway e Simon Doyle. Ela é bonita, amada e rica; ele, ex-namorada de da melhor amiga, Jacqueline de Bellefort. Ao irem passa sua lua de mel no Egito, são seguidos pela enfurecida Jacqueline que se mostra presente em todos os momentos. Mas quando um dos lados do triângulo amoroso é assassinado, cabe a Poirot, que está de férias, descobrir quem cometeu o crime. O que poderia parecer óbvio pode resultar em uma tarefa hercúlea para o detive belga, afinal há muitos indivíduos incomuns entre os viajantes: senhoras idosas, escritora de romances eróticos, médico, um jovem de ideais comunistas, entre outros.

COMENTÁRIOS
Esta obra parte de um cenário semelhante ao Assassinato no Expresso do Oriente: o crime se dá em um meio de transporte, um cruzeiro. O livro foi adaptado para o teatro em 1949, (não pela própria autora), mas não tinha Hercule Poirot como protagonista. É outro grande sucesso de adaptações e, para o cinema, a mais famosa é a de 1978 com direção de John Guillermin tendo Peter Ustinov atuando como Poirot. No entanto, dado o sucesso da versão de Kenneth Branagh com o Assassinato no Expresso do Oriente (2018), o diretor e ator pretende fazer uma “continuação” (se é que podemos chamar assim) da trama com A Morte no Nilo tendo um elenco de peso, inclusive com Gal Gadot, a Mulher Maravilha, em um dos papéis principais.

Cabe ressaltar, ainda, que há um jogo Agatha Christie: Death on the Nile, para computador que é inspirado da obra e no qual o jogador precisa procurar pistas no cenário com base em dicas (jogo do ano de 2007 na categoria “Seek and Find” adventure). Com 12 níveis e diversos mini-games.

 

Ten Little Niggers, 1939

SINOPSE
Oito pessoas, aparentemente sem conexão entre si, são convidadas à intrigante “Ilha do Soldado”, na costa de Devon, pelo desconhecido U. N. (Ulick Norman) Owen e sua esposa. Mesmo sob diferentes pretextos, e não conhecendo os anfitriões, a atração de serem convidados para um lugar tão badalado pela mídia é mais forte que a desconfiança. Recebido por um casal de criados, os convidados precisam esperar pela chegada dos donos do lugar, uma ilha inóspita, cujo acesso só é possível por meio de um barco.

Isolados por uma terrível tempestade, na noite da chegada, um gramofone é ouvido. A voz tece acusações severas aos convidados, responsáveis direta ou indiretamente pela morte de alguém. Seus destinos passam a seguir, precisamente ou em parte, o que diz um poema sinistro emoldurado nos quartos da mansão, uma cantiga infantil que narra a sequência de mortes que acontecerão ao longo dos capítulos.

COMENTÁRIOS
É o livro, um dos mais famosos da autora (e minha primeira paixão). É a narrativa de mistério mais vendida no mundo com 100 milhões de cópias e um dos livros mais vendidos de todos os tempos, o sexto título de acordo com a Publications International.

Seu título original, Ten Little Niggers (Dez negrinhos, em tradução livre), é baseado em uma cantiga tradicional inglesa. Acusado em solo estadunidense de ser um título racista, acabou em alguns lugares recebendo o nome And Then There Were None (E Não Sobrou Nenhum)o que termina sendo um terrível spoiler. Dessa forma versões atuais no mercado editorial brasileiro imitaram essa postura e trocaram o nome da obra.

Como mais de treze adaptações televisivas ou cinematográficas, desde produções inglesas, americanas e até indianas (Bollywood), tem na versão de 1945, And Then There Were None, dirigido por René Clair a mais famosa. Inspirou ainda a minissérie britânica de 2015 da BBC One, além de ter sido referência para jogo japonês (Umineko no Naku Koro ni), episódios de Family Guy (primeiro e segundo episódio da 9ª temporada), entre outros.

 

The Labours of Hercules, 1947

SINOPSE
Depois de uma conversa com um amigo, Poirot constata que os pais deveriam ter mais cuidado na escolha do nome de seus filhos. Seu nome Hercule, por exemplo, faz referência ao herói grego de enorme estatura, força descomunal e filho de Zeus. Isso em nada reflete o baixinho bigodudo, gorducho de cabeça oval e calva que é o próprio Poirot. Então o detetive se sente tentado a buscar cumprir 12 desafios ao altura do herói grego que lhe deu nome, seus próprios Doze trabalhos. Assim passa a escolher a dedo os casos para cumprir esta árdua tarefa ao logo de doze contos com os mais diversos crimes, alguns mais complexos, outros mais simples. Todos com uma solução genial.

COMENTÁRIOS
Esta é uma obra sem muita complexidade da autora. É uma boa coletânea de contos leves e por sua própria natureza, de resolução rápida. Vale a pena, para quem curte mitologia grega (como esse cara que vos escreve), ver como a autora dá uma roupagem ou interpretação moderna para os monstros clássicos, aqui transformados em situações ou criminosos monstruosos. Ao final a Dama do Crime atualiza o herói moderno mostrando valores que sintetizam a atualidade: Poirot tem seus próprios dons divinos muito mais ligados ao intelecto do que à força bruta.

 

Curtain, 1975

SINOPSE
Este é último caso de Hercule Poirot. E como anunciado em Os Crimes ABC, o próprio detetive está no centro do mistério. Já bastante velho, o detetive belga volta ao local de seu primeiro caso, O Misterioso Caso de Styles (1920), à procura de um assassino. Para ajudá-lo, contará com seu fiel amigo, o Capitão Arthur Hastings, já viúvo. Hercule Poirot conseguiu reunir cinco crimes que, aparentemente, tiveram a participação do mesmo assassino que se encontra na mansão de Styles. O título faz referência ao final de um peça de teatro: cai o pano, fecham-se as cortina e eis o fim de tudo.

COMENTÁRIOS
Esta obra foi publicada pouca antes da morte de Agatha Christie, no entanto ela já se encontrava escrita desde a década de 1940 e mantida trancada em um cofre em um banco. A autora temia que não sobrevivesse à II Guerra Mundial, como também visava a resguardar de alguém se apropriar de seu personagem após sua morte e fazer uso de forma indevida. Claro, ainda havia a praticidade de garantir uma fonte de renda para seu esposo e sua filha. Por isso a obra só foi autorizada para publicação quando a autora não podia mais escrever.

O fato fora tão marcante que em 6 de agosto de 1975, o jornal New York Times publicou um obituário de Poirot na primeira página (com fotografia) para assinalar a sua morte (desculpa, não deu para poupar-lhe desse spoiler). Mas ler esse romance, de final igualmente surpreendente, é apreciar o “canto do cisne”: uma obra magistral antes de fechar os olhos!

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