NERDCOMET AWARDS 2019

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Como imaginado por muita gente mesmo antes do lançamento, Coringa (Joker) superou as expectativas até mesmo dos mais otimistas. O escolhido para encarnar o perturbado inimigo mortal de Batman, não foi ninguém menos que Joaquim Phoenix, conhecido por sua excentricidade em ser extremo quando topa pegar um papel. Mas desta vez não foram exatamente seus atos como vilão que predominaram na trama, Coringa conta como o mítico personagem se fez, numa combinação de problemas mentais patológicos, com a exposição a atos insanos de crueldade vindos de uma sociedade tão doente quanto ele. Até o momento Coringa já levou o Leão de Ouro, prêmio máximo do  76º Festival Internacional de Cinema de Veneza, mas é certeza que a maior agremiação de cinema do mundo também irá distribuir estatuetas do carequinha para o filme. Tendo um orçamento de até modestos US$ 70.000.000, a produção chegou nos US$ 1.062.994.002, fazendo a Warner chorar de felicidade!

Em segundo lugar na nossa pesquisa ficou Vingadores: Ultimato (Avengers: Engame), e Toy Story 4 na terceira posição. Uma coisa é fácil de afirmar, 2019 teve foi filme bom!

 

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Segundo ano de Perdidos no Espaço (Lost in Space) custou a chegar, mas finalmente deu as caras e chegou atropelando tudo! Até mesmo The Witcher no entendimento da gente! Existiram muitas outras boas séries que mereciam ter um espaço aqui, mas devido a não se enquadrarem exatamente na temática ‘nerd’, preferimos usar isso como argumento para enxugar as dezenas de opções. Mas falando do vencedor da categoria, Perdidos no Espaço voltou, e voltou fazendo bonito. Com um início morno, a série vai ganhando gás e desbanca num climax ainda mais empolgante do que sua primeira parte, deixando mais uma vez em aberto a continuidade. O que quer dizer que provavelmente será um outro enorme ano de espera por mais conteúdo.

Em segundo lugar na nossa pesquisa ficou The Witcher, enquanto a série coreana Retaliação (Vagabond) ficou com o bronze. As duas primeiras imagino que quase todos já conhecem, mas dou a dica, se deem a oportunidade de assistir Retaliação, ela está disponível no Netflix.

 

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The Promised Neverland (Yakusoku no Neverland) é um show da arte de se fazer uma boa história, além é claro, de reunir elementos técnicos muito a frente de sua concorrência esse ano. Geralmente são os animes de ação ou de apelo muito dramático os que mais se destacam, então é curioso se ver surpreendido por uma obra de suspense e terror. Seu clima é de atmosfera pesada e tensão total, sendo valorizados por uma ambientação detalhada das coisas, pelas inovações na forma de enquadrar, no dinamismo dos movimentos, e no seu ritmo constante de qualidade ao longo de 12 episódios.

Demon Slayer (Kimetsu no Yaiba) levou a prata, e a mais nova versão do clássico adaptado diversas vezes, Dororo, ficou com o bronze.

 

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O Relógio do Juízo Final (DC), minissérie ainda em andamento que introduz os personagens de Watchmen no mundo DC. E porque esse é um ano para o Watchmen (30 anos da série original, eu acho). Fora que isso, ainda consegue respeitar o conceito visual original, e a linguagem já desenvolvida por Alan Moore.

Em segundo temos Noite de Trevas – Metal (DC), onde Batman investiga o multiverso e se depara com sete versões malignas dele mesmo lideradas pelo deus das trevas conhecido como Barbatos, que planeja desencadear trevas em toda a Terra. Material bem obscuro e que já inspirou a minissérie o Batman Que Ri. Já o terceiro lugar ficou com O Retorno de Wolverine (Marvel)! O cara voltou dos mortos, ressuscitado por uma vilã com nome de deusa grega, Perséfone. Ele pode energizar suas garras e enquanto estava supostamente morto fez uma verdadeira carnificina a serviço de uma organização chamada Soteria.

 

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Nós do NerdComet procuramos manter um certo distanciamento de assuntos políticos ou de opiniões delicadas, mas muito diferente do que dizem por aí, não existe discurso 100% livre de ideologia. Quando alguém vir com essa retórica, pode ter certeza, ele não quer eliminar ideologias, ele quer impor a dele. E é nesse cenário que retrata nossa realidade no Brasil, e porque não, em algumas outras partes do mundo, que se faz necessário mergulharmos nesse assunto nebuloso. Partindo do princípio de quem almeja brigar contra o revisionismo histórico, a desonestidade intelectual, ou mesmo tirar da inércia aqueles que se colocam ingenuamente como massa de manobra, surge o livro Tudo o que você precisou desaprender para virar um idiota, da dupla do canal do YouTube Meteoro Brasil. Obviamente se você for minimamente antenado, saberá a qual outro livro este que vos digo faz paródia em seu título. O Brasil não é para amadores, e se você sobreviveu a esse 2019, parabéns!

Como compromisso civilizatório, pois você pode não ter notado ainda, mas nossa situação realmente é grave, escolhemos como segundo lugar Escravidão, de Laurentino Gomes, e em terceiro Sobre o Autoritarismo Brasileiro, de Lilia M. Schwarcz.

 

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O sangrento Período Sengoku do Japão serve de cenário para Sekiro: Shadows Die Twice, jogo que traz a essência soulslike de uma forma mais madura que suas inspirações, ao mesmo tempo que mostra mecânicas originais e identidade própria. Desenvolvido pela FromSoftware e distribuído pela Activision, o game chegou em março para o PlayStation 4, Xbox One e PC, e de lá para cá veio arrecadando uma legião de fãs. Sua beleza estética aliada a sua dificuldade empolgante, fez deste uma evolução natural de jogos como o renomado Dark Souls. Sekiro: Shadows Die Twice já recebeu o título de Jogo do Ano no The Game Awards 2019 que ocorreu em Los Angeles, e aqui no NerdComet a escolha não é diferente.

Control é outro jogo maravilhoso que não poderia ficar de fora, e leva o segundo lugar na nossa premiação, enquanto Resident Evil 2 Remake fica com o bronze.

 

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Se tem uma coisa foi comentada sem parar, e ainda estão comentando desde que O Mandaloriano saiu, é o equivocado Bebê Yoda. Qual motivo de ser equivocado? Ele não é o Yoda, ora essa! O próprio CEO da Disney, Bob Iger, diz que pequeno Gremlim tem um nome, ao mesmo tempo que não o revela. Na série, por enquanto, ele é retratado apenas como “A Criança”. Na prática isso não faz a mínima diferença, o que a Waldisney mais quer neste momento ela já está tendo, atenção máxima para seu novo personagem qual vai encher os cofres com vendas de todo tipo de brinquedos. Enquanto isso vamos espalhando memes e mais memes do parente genético do Yoda, e nos estressando. Sim, eu estou me estressando com esse boneco orelhudo. Não aguento mais!

Em segundo lugar temos o frustrante Stadia da Google, que prometeu mudar a forma de se jogar, e no fim das contas mostrou-se uma plataforma bem instável. Vai melhorar? Não sei, mas com o hype que a Google fez, deveriam ter caprichado mais nos testes antes de trazer para o grande público. Por enquanto está sendo tão bom quanto o Google Glass foi. Já em terceiro lugar temos a tão esperada conclusão da franquia Star Wars, que se iniciou a mais de 40 anos atrás. Por mais que Star Wars: Episódio IX – A Ascensão Skywalker não tenha enchido tanto nossos olhos como gostaríamos, ainda assim é um importante marco para o mundo nerd, e um provável novo início de ciclo.

 

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Aparecida Mota, Bianca Ben, Carlos Magno “Coxa”, Cláudio Almeida, Dan Pereira, Daniel Castro, Daniel Santos, Débora Sales, Felipe Pires, Flávio W. S. Lins, Graciela M. Lopes, Gustavo Henry Gabriel, Isaias Sales, João Paulo Oliveira, Julianna Sant’Ana, Júlio Cesar, Kylo Ren, Leandro Araújo, Leandro “Alucard”, Marco Lima, Maria Luíza, Maurício “Vash The Stampede”, Milena Sousa, Moisés Marques, Neto Novais, Rafael Cavalcanti, Regina Rodrigues, Rosangela Rodrigues, Simba, Pablo, Victor Silva, Wanderson, e você, que participou acompanhando nossas postagens durante todo esse primeiro ano de existência.

DEMOLIDOR – SÉRIE DA NETFLIX (CRÍTICA)

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SINOPSE DA SÉRIE
Matthew Murdock era filho de um humilde, porém excelente pugilista, com quem aprendeu a ser um cara durão e, acima de tudo, justo. Após se envolver num acidente com produtos químicos desconhecidos, perdeu totalmente sua visão quando ainda era uma criança, porém adquiriu um poder bem peculiar. Podia assim como um morcego, desenhar mentalmente a geometria de qualquer superfície de um raio enorme ao seu redor à partir de uma audição apuradíssima! Passou a ouvir detalhadamente conversas à distância, e os batimentos cardíacos das pessoas, fazendo com que pudesse ter juízo das reais intenções de qualquer um. Nada fugia da percepção dele! Matt cresceu e se tornou um advogado na traiçoeira Hell’s Kitchen, bairro de Nova York, onde nasceu e foi criado. Durante o dia ele faz de tudo para que os bandidos sejam condenados, e durante a noite, quando os mais poderosos e perigosos se esquivam usando as brechas da lei, encarna o impetuoso justiceiro, Demolidor. No seu dia à dia procura se manter o mais anônimo possível agindo como um suburbano comum, e embora completamente desnecessário, não larga seu bastão guia para se caracterizar como um cego. A vida de Matt começa a ficar cada vez mais agitada, quando negociações entre perigosos mafiosos começam a prejudicar a vida dos moradores do bairro. Não sendo suficiente os seus recursos pacíficos e dentro da lei, quando a noite chega, é possuído pela fúria do ímpeto por justiça, assumindo a identidade de Demolidor, O Demônio de Hell’s Kitchen!

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PERSONAGEM FAVORITO
Já começo deixando algo bem claro, Demolidor, de longe, é o meu personagem favorito de todo o Universo Marvel. Conheci o ‘Homem Sem Medo’ ainda no começo da minha adolescência, quando descobri a existência dos empoeirados sebos. Eram duas edições de HQ’s que mais me fascinavam, as icônicas A Espada Selvagem de Conan, e os formatinhos Superaventuras Marvel, este último, importante para esta conversa, publicado entre 1982 à 1997. Lendo dezenas daqueles gibis de segunda mão fedendo a pó de tumba, que fui me apaixonando cada vez mais pelo personagem. Ele era uma pessoa comum, que de extra, tinha apenas sua percepção melhorada. Matt tinha sim muito vigor, sua estamina era alta devido ao seu treinamento brutal, mas estruturalmente era apenas um ser humano normal. Sangrava, quebrava, sentia dor, e como qualquer um, precisava descansar para se recuperar. Primordialmente foi esse realismo em um super-herói que me encantou.

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COMENTÁRIOS
Quando Demolidor (Marvel’s Daredevil) foi anunciado, acredito ter sido fim de 2013, eu pirei! Eu costumo ser muito cético com anúncios, não sou de criar hype, mas na minha cabeça eu fiz uma conta meio louca e psicologicamente fiquei convencido. Embora fosse eu, o fã número um de Demolidor no planeta Terra, tinha ciência de que este não era um produto Marvel de grande potencial comercial. Pelo menos não quando considerado o catálogo enorme e recheado de outros personagens muito mais populares. A visão que eu peguei foi: “se algum produtor pegou Demolidor para adaptar, é porque ele é fã número um assim como eu!” Mais tarde eu descobri que a história dos acertos da Marvel Studios com a produção não era tão romantizada assim.

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Não importa o que era ou não era, só sei que meu subconsciente foi feliz em sua aposta! Chegado Abril de 2015, estreia de Demolidor na Netflix! Maratonei durante a noite e madrugada, resultado, um zumbi foi trabalhar durante a manhã. Brutal! Simplesmente maravilhoso! A Netflix superou e muito minhas expectativas, e elas já eram bem grandes. Eu nunca poderia imaginar um trabalho tão respeitoso ao personagem original. Charlie Cox, que interpreta Matthew Murdock, incorporou fielmente a personalidade e os trejeitos da versão original dos quadrinhos. Um cara seguro de si, de humor ácido e que conseguiu em parceria com um dublê incrível, dar vida à um dos heróis acrobáticos mais complexos de se fazer. As cenas de ação possuem um realismo raro até em filmes de grandes orçamentos. As coreografias inspiradas e as cenas de luta tinham um vigor assustador! Demolidor não tem firulas, ele dá saltos e algumas piruetas sim, mas suas porradas são de um boxeador decidido a finalizar o oponente!

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Sabemos que herói nenhum tem grande valor sem um bom antagonista, e Vincent D’Onofrio já chega derrubando tudo! Sua personificação de Rei do Crime é digna de Oscar! Sua imponência e brutalidade é de fazer quem o enfrente se borrar nas calças! Uma mente complexa que pode ser doce e calma como de um recém nascido sedado, ou monstruosa e viril como a do Hulk! Espero que tenham entendido a força de expressão. Tudo em Demolidor funciona muito bem, absolutamente nada me incomodou. Seu roteiro é super bem escrito, a direção impecável e mantém qualidade por toda série. Todo o elenco dá a alma por seus personagens, imagino o quanto esses caras trabalharam criando perfis de atuação. Por trás de Demolidor existe um cara chamado Chris Brewster, um especialista em artes marciais que fundou com os amigos um grupo de dublês chamado ‘Sideswipe’, e ele é responsável pelas cenas de ação e lutas mais fantásticas de tudo com o selo Marvel lançado até agora, na minha opinião.

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Demolidor é uma série diretamente destinada ao público adulto, para maiores de 18 anos. Isso se deve a seu formato fazer questão de mostrar a violência como um importante elemento narrativo. Essa escolha de conceito permitiu que personagens assumissem uma aparência muito mais real e de crueza em seus atos. Não existe economia no linguajar e nem no sangue é extraído e jorrado para todo lado. Não espere uma aventura emborrachada e colorida como as produções da Marvel supervisionadas pela Disney, O Demônio de Hell’s Kitchen não tem esse apelido dado pela vizinhança à toa. Demolidor da Netflix é um presente aos fãs deste fantástico personagem!

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ELENCO E FICHA TÉCNICA
Charlie Cox, Deborah Ann Woll, Elden Henson, Vincent D’Onofrio, Rosario Dawson, Vondie Curtis-Hall, Toby Leonard Moore, Bob Gunton, Ayelet Zurer, Élodie Yung, Jon Bernthal, Stephen Rider, Joanne Whalley, Jay Ali, Wilson Bethel, Royce Johnson, Peter Shinkoda, Matt Gerald, Wai Ching Ho, Peter McRobbie, Amy Rutberg, Nikolai Nikolaeff, Scott Glenn e Michelle Hurd compõem o elenco. Demolidor é uma série americana original da Netflix, adaptada do personagem original de Stan Lee (em parceria com Bill Everett e Jack Kirby), por Drew Goddard. Produzida por Kati Johnston, tem como produtores executivos, Allie Goss, Kris Henigman, Cindy Holland, Alan Fine, Stan Lee, Joe Quesada, Dan Buckley, Jim Chory, Jeph Loeb, Drew Goddard, Steven S. DeKnight, Marco Ramirez e Doug Petrie. A cinematografia é de Matt J. Lloyd, Martin Ahlgren e Petr Hlinomaz, e os editores Jonathan Chibnall, Monty DeGraff, Jo Francis, Michael N. Knue e Damien Smith. A música tema são dos compositores John Paesano e Braden Kimball. A série foi produzida pela Marvel Television, ABC Studios, DeKnight Productions, Goddard Textiles e Netflix, e distribuída pelo serviço de assinatura Netflix.

CONCLUSÃO
Demolidor é uma série da Netflix que assume um conceito bem mais adulto que as outras produções da Marvel, e compartilha o mesmo universo compactado com Jessica Jones, Luke Cage e Punho de Ferro. Mais tarde se unem na liga Os Defensores, qual Justiceiro não participa por ser um anti-herói exacerbado demais. Particularmente considero esta uma das melhores produções do selo Netflix, suas qualidades se destoam em muitos aspectos. Seu elenco é incrível, suas coreografias superam muitos blockbusters milionários, seu roteiro é firme e intrigante, sua direção é irretocável, simplesmente tudo funciona orquestradamente bem e com total harmonia. O futuro da série ainda é nebuloso, ao que tudo indica a Disney ‘embargou’ a continuidade da produção, porém existem boatos de que a série pode voltar para uma quarta temporada. No total são 39 episódios distribuídos em três temporadas. Demolidor é destinado ao público maior de 18 anos, e está disponível no serviço por assinatura Netflix.

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2019: A CENSURA NAS HISTÓRIAS EM QUADRINHOS

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O BISPO E O BEIJO
Nos últimos dias da Bienal de 2019, na Semana da Pátria, pipocou nas redes sociais a decisão da Prefeitura do Rio de Janeiro de vetar e retirar uma edição em brochura de Os Vingadores por, supostamente, possuir conteúdo impróprio para menores sendo vendido sem as devidas especificações da lei. Segundo o prefeito Marcelo Crivella, afirmou em suas redes sociais:

“A decisão de recolher gibis na Bienal do Livro teve apenas um objetivo: cumprir a lei e defender a família. De acordo com o ECA, as obras deviam estar lacradas, identificadas quanto ao seu conteúdo. No caso em questão, não havia nenhuma advertência sobre o conteúdo abordado.”

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A questão gira em torno de um beijo gay entre os personagens homoafetivos Wiccano e Hulkling, em uma história em quadrinhos de 2010, Vingadores: A Cruzada das Crianças. Assim, o recolhimento da HQ foi anunciado após o discurso do vereador Alexandre Isquierdo (DEM) na Câmara Municipal do Rio (04/09/119). Na declaração o político atacava a publicação como uma “covardia” às crianças e chama os colegas de Câmara a assinarem uma carta de repúdio contra Marvel, Panini e Salvat, editoras responsáveis pela publicação da história em diferentes momentos.

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Em busca do suposto material impróprio, funcionários vasculharam a feira. O gibi em questão já havia se esgotado uma hora após a polêmica vir à tona. Ao final da fiscalização, o subsecretário operacional da Seop (Secretaria Municipal de Ordem Pública), Wolney Dias, declarou em O Globo:

“— A prefeitura tem poder de polícia para isso — disse Wolney à imprensa presente no local. — Se o material não estiver seguindo as recomendações, ele será recolhido. Estamos seguindo a orientação da procuradoria da prefeitura. Eu não entendo que haja censura. Se for material pornográfico, oferecido sem as normas, será recolhido. ” (Leia na íntegra aqui.)

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UM BEIJO GAY É PORNOGRAFIA? COM A PALAVRA, O AUTOR
Fui surpreendido hoje ao descobrir que o prefeito do Rio de Janeiro decidiu banir a venda da minha HQ com Allan Heinberg, Vingadores: A Cruzada das Crianças, por supostamente conter material inapropriado.

Para aqueles que não estão familiarizados com a obra de 2010, a controvérsia envolve um beijo entre dois personagens masculinos. Não sei o que motivou o prefeito a buscar um material de mais de uma década e que esteve à venda durante todos os esses anos, mas posso dizer com honestidade que não houve motivações escondidas ou ideologias por trás do trabalho, que não promove nenhum estilo de vida em particular, e nem mira em um único tipo de público. A cena meramente mostra um momento carinhoso entre dois personagens que estão em um relacionamento estabelecido”, falou o artista sobre Wiccano e Hulkling.

O fato de que esta HQ, de mais de uma década atrás, só agora está sendo alvo de críticas pelo prefeito apenas destaca como ele está atrasado. A comunidade LGBTQ está aqui para ficar, e não tenho nada além de amor e apoio por aqueles que lutam por validez e uma voz a ser ouvida. Torço para que o belo povo do Brasil, uma nação diversificada e orgulhosa, veja além do ruído político e se foquem na luz e em formas de se unir, ao invés de ajudar a semear conflito e divisão.
(Tradução do Omelete, mas você pode acessar a publicação do autor no Instagram, aqui.)

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A CENSURA DE ONTEM: GOVERNO MILITAR
Inevitavelmente, quando o assunto é censura, relembramos nossas aulas de História (se você for jovem) ou aos eventos vividos durante os governo militares (1964-1985). Podemos definir censura como:

“análise, feita por censor, de trabalhos artísticos, informativos etc., ger. com base em critérios morais ou políticos, para julgar a conveniência de sua liberação à exibição pública, publicação ou divulgação.”

Eu nasci já no fim deste período e vivi minha infância na abertura política que culminaria com o Movimento Diretas Já. Não é preciso ser um expert em historiografia para saber que era comum a censura da produção artística e não falo só das músicas de Chico Buarque (que a gente aprende na escola). Segundo o jornalista Zuenir Ventura, enquanto vigorou o AI-5 (Ato Institucional 5), em seus 10 anos (1968-1978), cerca de 500 filmes, 450 peças, 200 livros e mais de 500 letras de música foram proibidas.

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“Os critérios eram obscuros: cenas de sexo, palavrões e a sugestão de propaganda política eram as justificativas mais comuns, mas pretextos vagos, como “atentado à moral e aos bons costumes” e “conteúdo subversivo”, também eram usados. O órgão responsável era a Divisão de Censura de Diversões Públicas, que durou até 1988, ano em que a Assembleia Nacional Constituinte pôs fim à censura.” (Superinteressante, acesse aqui)

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No que se refere aos quadrinhos, muitas obras sofreram censura devido a conteúdos políticos (na maioria dos casos) ou morais. O semanário O Pasquim (1969-1991), com um jeitão de jornal sério e paródia, contava com nomes como Jaguar e Ziraldo, sofreu por diversas vezes censura prévia e teve alguns de seus colaboradores presos na década de 1970.

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As histórias em quadrinhos e cartuns de Carlos Zéfiro e Henfil também sofreram perseguição. O primeiro, publicando sua obra em total anonimato até de seus familiares, só teve sua identidade revelada em 1991, um ano após a sua morte. Ele abordava histórias eróticas que desafiavam o conservadorismo vigente. Já Henfil, um dos principais opositores ao Golpe (ou Revolução para alguns) de 1964, viveu no exílio, nos EUA, devido ao conteúdo social e político de suas obras. Lá continuou com seu trabalho em periódicos estadunidenses.

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Um último exemplo, é o quadrinho Rango de Edgar Vasquez, que apareceu pela primeira vez na Revista Grilus do diretório acadêmico da Faculdade de Arquitetura da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em que o artista estudava. A partir de 1973, ocupava espaços em alguns jornais como O Pasquim e Folha da Manhã.

“Criado em 1970, Rango é um desempregado barrigudo, sem dinheiro e que vive num depósito de lixo, numa crítica às desigualdades sociais do Brasil. Os quadrinhos do Rango, um anti-herói das tiras nacionais, simbolizaram a resistência à ditadura militar e, passados mais de 30 anos, continuam modernas em sua crítica à desigualdade social.” (Universo HQ)

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A CENSURA DE ONTEM: EUA E A “SEDUÇÃO DO INOCENTE”
Se por ou um lado, por aqui, a temática que movimentava os censores era política, pois se opunham ao poder militar vigente, nos Estados Unidos o principal alvo de críticas era justamente a violência e a sexualidade presentes nas HQs. Na década de 1950, a publicação de Seduction of the Innocent (Sedução do Inocente), do psiquiatra Fredric Wertham, ao logo de seus 14 capítulos, responsabilizava a indústria de quadrinhos pelos graves problemas da juventude da época. Ele alegava que os quadrinhos daqueles tempos (voltados principalmente para histórias policiais e de terror) influenciavam a problemática do desvio do comportamento sexual e o aumento da criminalidade e da delinquência. Em tom histérico e exagerado, empreendia uma “caça as bruxas” aos moldes do Senador Joseph McCarthy, que o fizera anos antes sob o pretexto de acusar de traição e subversão sob pretexto anticomunista tudo quanto era arte.

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Dentre as ideias desenvolvidas por Wertham, por exemplo, estava a de que havia insinuação de uma relação homossexual latente entre Batman e Robin, de que o Super-Homem era fascista e antiamericano e que a independência e força da Mulher-Maravilha fazia dela uma lésbica, dentre outros. O livro nunca fora publicado no Brasil, mas suas quase 400 páginas estão disponíveis por aí na rede.

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Com base nas análises do psiquiatra, a ação censora, liderada pela CMAA (Comics Magazine Association of America), fez com que aos poucos se desenvolvesse um selo de censura chamado Comics Code Authority. “O código era absurdamente específico em relação a certos aspectos e temas, era demasiado moralista, reacionário e se dizia proteger instituições sagradas da sociedade, como o casamento”, afirma Alexandre Callari, escritor e tradutor.

O código era uma iniciativa privada e não tinha qualquer autoridade legal, sendo que os quadrinhos poderiam continuar sendo legalmente publicados. Todavia devido a polêmica e repercussão pública, muitas distribuidoras se recusavam a comercializar produtos com os selos, o que inviabilizavam as vendas.

Durante décadas, o “Comic Code Authority”, criado pela Associação Americana de Revistas em Quadrinhos, minou a outrora lucrativa indústria das HQs pornográficas e de terror. “A partir daí, os quadrinhos, que sempre tiveram histórias densas, se infantilizaram, criando uma ‘pecha’ que perdura até hoje”, explica a cineasta Gabriela Franco, criadora do portal Minas Nerds. (via MSN)

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O código só perdeu força quando em 1971 o Departamento de Saúde do governo estadunidense encomendou uma história em quadrinhos, solicitou a Stan Lee uma HQ do Homem-Aranha que envolvesse o problema do uso de drogas. Mesmo com a negação de John Goldwater, responsável pela publicações na época, Stan Lee seguiu em frente e resolveu publicar sem o selo de autorização já que tinha sido contratado pelo próprio governo. Assim a história saiu de maio a julho de 1971, na revista Amazing Spider Man 96-98, tornando-se um grande sucesso vendas e fazendo com que o Comics Code Authority perdesse sua força depois décadas de perseguição.

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A CENSURA NOSSA DE CADA DIA
Não se deixe enganar: não estamos livres hoje de viver um paraíso da liberdade de expressão na arte sequencial. Lá na terra o Tio Sam ainda se sentem os reflexos de anos de repressão a liberdade no quadrinhos. A graphic novel A piada mortal (1988) de Alan Moore, sofreu censura por insinuar em sua páginas, um suposto estupro da filha do comissário Gordon pelo Coringa. Já Neil Gaiman também sofreu com seu clássico Sandman:

Primeira HQ a entrar na lista de best-sellers do New York Times, a saga de Sonho, criada pelo roteirista britânico Neil Gaiman, sempre foi vista como subversiva. Desde seu lançamento, em 1989, a obra enfrentou problemas nas bibliotecas americanas, por conter linguagem ofensiva e ideias “contra a família”. Então, em 2010 a American Library Association (ALA) chegou a listar Sandman como a “mais frequentemente banida e desafiadora graphic novel de todos os tempos”. (via MSN)

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Além de Elektra, da Marvel, publicações como Persepolis (2000), a venda também na Bienal de 2019, que conta a história da jovem iraniana Marjane Satrapi e sua infância marcada pela revolução em seu país, foram vetadas recentemente nos EUA. Em 2013, o governo de Chicago ordenou que as escolas públicas recolhessem todos os exemplares de Persepolis. No ano seguinte, no Texas, a obra foi banida por ser considerada “literatura iraniana” – embora a proposta da trama seja, justamente, denunciar os movimentos fundamentalistas islâmicos.

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Atualmente o Brasil, não só com a questão Crivella, parece flertar com a ideia da censura dos quadrinhos. Além do caso da Bienal do Rio, em 2019, a arte que ilustra capa do romance gráfico Castanha do Pará, vencedor do Prêmio Jabuti, teve sua divulgação vetada em uma exposição em Belém. Os espectadores se sentiram incomodados pela imagem retratar um policial militar perseguindo o protagonista nas ruas, pois afirmavam que “se sentiram incomodados com a cena de violência, no espaço que é frequentado por crianças”. O autor, Gidalti Oliveira Moura Júnior, afirmou ao Nexo:

“A obra é ficcional, tem caráter lúdico e expõe situações rotineiras nas metrópoles brasileiras. Quem a compreendeu como apologia ao crime e/ou a desmoralização da polícia militar, o faz de forma leviana e sem ao menos ler o livro”.

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HOJE, O QUE A CONSTITUIÇÃO FEDERAL BRASILEIRA E A LEI DIZEM?
Quando analisamos a nossa Constituição em comparação a outras ao redor do mundo, ela é recente e data do ano de 1988, período de abertura política quando saíamos da Ditadura Militar (ou Regime para alguns). Sim, é uma Constituição jovem se tivermos como a parâmetro a Americana, a mesma desde 17 de setembro de 1787. E nem é nossa primeira, mas a sétima versão desde que o Brasil se tornou independente em 1822 (Confira aqui todas as versões). Após décadas de repressão, sobre a produção artística seja ela de oposição aos militares, seja no que se refere a sexualidade, a Carta Magna (a CF) tenta primar por caminhos mais democráticos na expressão ou construção do pensamento do povo. Dois parágrafos são extremamente importantes nesse contexto:

“é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença” (art. 5º, inciso IX);
“é vedada toda e qualquer censura de natureza política, ideológica e artística” (art. 220, § 2º).

Assim, nenhuma legislação reconhecida pelo Direito brasileiro poderá instituir qualquer tipo de censura. Quando falamos, por sua vez, de classificação indicativa, muito comum em filmes, séries, programas de TV (materiais audiovisuais), o próprio Estado se preocupa em não vetar, mas mostrar a importância da família em escolher o conteúdo, como nos mostra a cartilha CLASSIFICAÇÃO INDICATIVA – Informação e Liberdade de Escolha (2009):

“Classificação Indicativa não é censura e não substitui a decisão da família. A classificação é um processo democrático, com o direito à escolha garantido e preservado. O Ministério da Justiça não proíbe a transmissão de programas, a apresentação de espetáculos ou a exibição de filmes. Cabe ao Ministério informar sobre as faixas etárias e horárias às quais os programas não se recomendam.” (Leia aqui na íntegra)

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O amigo leitor pode me questionar: mas quando o assunto são livros e quadrinhos, onde que toda essa ideia de censura ou classificação indicativa entra? Quando a questão envolve as crianças e adolescentes, precisamos prestar atenção no que diz o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente, legislação de 1990), que aborda o tema nos artigos 74 a 80. Destaco:

“As revistas e publicações contendo material impróprio ou inadequado a crianças e adolescentes deverão ser comercializadas em embalagem lacrada, com advertência de seu conteúdo. […] As editoras cuidarão para que as capas que contenham mensagens pornográficas ou obscenas sejam protegidas com embalagem opaca.” (Lei aqui o ECA)

Porém ainda segundo o Estatuto da Criança e do Adolescente, sobre aquilo que pode ou não estar presente em uma publicação além das determinações explícitas (não ter anúncios de bebidas alcoólicas, armas, munição), há aquelas de caráter subjetivo como conta no artigo 79: “deverão respeitar os valores éticos e sociais da pessoa e da família”.

Segundo o Pedro Hartung, coordenador do programa Prioridade Absoluta do Instituto Alana, em entrevista concedida a BBC (lei aqui),

“A lógica protetiva está sendo capturada para fundamentar visões subjetivas e pessoais sobre a realidade. Sobre a produção de conteúdo, o ECA também deve ser lido dentro de outros parâmetros, como a liberdade de expressão e o direito das crianças e adolescentes de viver em um ambiente plural, com acesso à cultura, à informação e às liberdades.”

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CONCLUSÃO: O superpoder (de decisão) é seu!
Quando se trata de Histórias em Quadrinhos (HQs), a Constituição Federal permite que sejam resguardados os direitos de liberdade de expressão e que não haja censura de natureza política, ideológica ou artística. No entanto caso a obra aborde um conteúdo violento ou pornográfico, além de possuir uma classificação indicativa, é preciso proteger a embalagem e lacrá-la de acordo com a lei. Mas acima de tudo, tratando-se de material audiovisual ou escrito e ilustrado, cabe a família, em âmbito privado, decidir aquilo que suas crianças e adolescentes podem consumir. Esses critérios podem ser pessoais (subjetivos) que vão desde uma suposta orientação política, ou doutrina religiosa, entre outros. Mas sempre resguardando que é algo privado, uma decisão própria. Assim desde que não haja pornografia ou outro tipo de violência, ou que obedeça classificações indicativas, você compra uma HQ se você quiser. Se não concorda com o conteúdo, simplesmente procure algo que lhe agrade.

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WOLVERINE: O HERÓI DESAGRADÁVEL

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QUE WOLVERINE É ESSE?

Agora é fácil para as novas gerações gostarem de Wolverine: ele é um anti-herói cinematográfico. Não sou daqueles que acha que o cinema acabou por enterrar de vez os heróis ao usarem a licença poética para criar blockbusters milionários e que muitas vezes fogem à adaptação literal das Histórias em Quadrinhos (HQ). Creio que toda arte tem sua forma de ser e ver o objeto artístico. E assim, recebi com o entusiasmo a primeira aparição nas telonas do Wolverine de Hugh Jackman no filme X-Men (2000).

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Não estou aqui para analisar o filme, mas duas coisas me chamaram a atenção (e de qualquer bom fã do canadense pavio curto): 1. Hugh Jackman é um grandalhão de 1,88m, nada a ver com o baixinho que estava acostumado; 2. e cadê a ação sanguinária, ágil e sem meias-palavras do herói? Claro que o herói sofreria ao longo dos anos uma evolução vertiginosa nas telonas até ser o Logan de minhas leituras na adolescência, até ser velho e morto no seu derradeiro (até que se prove o contrário) filme: Logan (2017). Ainda é preciso levar em conta que os efeitos especiais ainda não eram sofisticados para deixar esse herói ainda mais “foderoso”.

013_02Mas o processo de humanização da fera interior de Wolverine, tensão que perpassa cada ato desse herói nos quadrinhos, ao contrário do que aconteceu nos cinemas, foi um processo demorado e que ainda é latente no Logan até em suas histórias atuais. Ele sempre lutará contra seu lado animalesco, como todos nós lutamos contra nossos instintos mais primitivos. Mas enquanto Wolverine, como fera brutal, nasce como inimigo do Hulk no gibi Incredible Hulk 180 (1974); Logan, seu alterego atormentado e desmemoriado, tem sua gênese humana ligada à minissérie Wolverine (1982). É justamente sobre última obra que falaremos.

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013_13A capacidade de catarse, a identificação com o personagem, quando se é adolescente é bem clara: todo jovem é, em seu íntimo, uma pessoa solitária e, principalmente, os nerds; como também o adolescente gostaria de responder com fúria a tudo aquilo que não concorda em sua família ou na sociedade. Mas Wolverine não é jovem. Ele já nasce velho no quadrinhos, se comprado aos demais X-Men da formação original (Ciclope, Jean Grey, Fera e Homem de Gelo) ou mesmo a formação dos Uncanny X-Men da edição Giant-Size 1 (1975), edição em que o canadense estreia na escola para “jovens mutantes” de Charles Xavier. Quando ingressa na turma do Professor X, divide as missões com Tempestade, Colossus, Noturno, Apache e Ciclope. No entanto ainda é o vovô da turma, desajustado, sem sentimento de equipe e de um passado envolto em mistério. Mas sua primeira minissérie mudaria o rumo das abordagens do herói nanico.

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DO CARCAJU AO “NINJA”

A ideia para a criação de Wolverine viera justamente de um animal baixinho e abusado. O editor Roy Thomas, responsável pela primeira aparição do canadense enfrentando o Hulk, revela a origem do nome do herói: “O personagem veio de minhas pesquisas sobre os carcajus (wolverines)… Eles são animais pequenos e selvagens, de garras afiadas, que não se incomodam de enfrentar animais bem maiores. Achei que isso daria um bom personagem”.

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Quando a dupla Chris Claremont e Frank Miller tem nas mãos um projeto de aventura solo do Wolvie, ele já era um herói peculiar há oito anos, já era um X-Men e conhecera, em uma das missões da equipe no Japão, Mariko Yoshida, por quem desenvolveu uma afeição instantânea. O romance começou com o medo da japonesa devido a aparência selvagem de Logan, mas aos poucos essa barreira era vencida e, entre idas e vindas de Mariko aos EUA, o amor entre os dois só cresceria.

013_06“É uma chance de mergulhar no background dele, na herança japonesa, nos conflitos entre a fera, o guerreiro e o homem, de descobrir o que o define, o que é verdadeiro para ele. Foi apresentando essa visão a Frank e vendo se era algo com o qual ele podia se relacionar que a usamos como ponto de partida para a história”, afirmou Chris Claremont sobre sua perspectiva de história.

A ideia da dupla sempre fora ter uma abordagem inovadora daquela apresentada normalmente nos número regulares de X-Men. Em colaboração com o artista John Byrne, Chris e Miller resolveram explorar, na minissérie Wolverine (1982), a psique conflituosa do carcaju da Marvel. “Nós apresentamos esta percepção de Logan. Para John, ele era um assassino com dedo no gatilho, contudo, após a morte de Jean (Grey, a Fênix, mostrada em 1980 na clássica X-Men 167), Wolverine pareceu abraçar Mariko com bastante naturalidade. O que o atraiu à ela? O que o atraiu à ele? O que fez com que Charlie (o líder dos X-men, Professor X) sentisse que aquele sujeito podia se misturar com a galera-X?”, revela Chris Claremont.

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EM BUSCA DA HONRA (Spoilers!)

“Sou o melhor no que faço, mas o que eu faço melhor não é nada agradável.”

Essa é a fala badass com a qual se inicia a minissérie em quatro edições: Wolverine (1982). Falta bastante humildade, mas tem muita verdade nessa citação. Ela acaba por sintetizar quem é Logan. É um cara que dá conta do recado, mesmo que isso lhe tire toda chance de felicidade.

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Depois de uma temporada no Canadá caçando um urso assassino, fera versus fera, ao retornar a Nova York se deparar com todas cartas enviadas à Mariko devolvidas pelos correio. Após ter seus telefonemas não atendidos, decide ir ao Japão para investigar. Descobre que com o retorno do desaparecido pai da moça, muita coisa mudou na vida de sua amada. O pai, Shigen Yoshida, tinha uma dívida de honra e a deu em casamento a um crápula que a espancava. E como se não bastasse, Shigen possui uma sede de poder para dominar tanto o submundo quanto o alto escalão do imperador japonês.

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Após invadir a mansão, dopado por um veneno desconhecido que lhe privava de seus sentidos mais aguçados, acaba por ser derrotado e humilhado pelo pai de Mariko e ainda revelando seu lado animal e desonroso aos olhos da amada. Deixado na sarjeta, é salvo pela misteriosa, independente e sensual Yukio. A afinidade entre os dois é imediata: ambos são independentes, indomáveis e tem uma fúria mortal. Desenvolvem, então, uma relação: possessiva por ela; superficial para ele que ainda ama Mariko.

013_12Para salvar sua nova companheira, Logan decide livrá-la de uma suposta ameaça. Na verdade Yukio trabalhava para Shigen e incitou Wolverine a eliminar um rival nos negócios do pai de Mariko em pleno teatro. Mais uma vez, Mariko presencia o lado selvagem e assassino de Logan e o abismo entre os dois se intensifica.

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Com a morte de Asano Kimura, policial e amigo, pelas mãos de Yukio, Wolverine resolve restabelecer sua honra. Descobre que o veneno misterioso, que dera vantagem a Shigen na primeira luta entre os dois, partira das lâminas de Yukio. Assim o carcaju começa a sabotar os negócios mafiosos de Yoshida, até o momento final no qual, com a ajuda inesperada de Yukio, salva Mariko e enfrenta Shigen em uma luta justa e honrada. No desfecho, sua amada descobre as trapaças do pai, Yukio desaparece e Wolvie envia um convite de casamento aos amigos mutantes.

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HAPPY END (Conclusões)

Tudo bem que o final é folhetinesco e os escritores românticos do século XIX adorariam ou mesmo os autores de novelas das oito. Mas não é só o final que nos lembra a prosa romântica: a cada edição da minissérie, os autores nos atualizam dos poderes e astúcias do herói fazendo com que, mesmo que não tenha a história completa à disposição, não deixe de aproveitar a trama. Na conclusão das três primeiras edições, fica sempre um gosto de “quero mais”.

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A minissérie explora o lado mais humano de Logan, mostrando sentimentos tenros e de carinho e seu grande paradoxo: uma fera capaz de amar e matar sem limites. Também revela que o caminho para a honra é tortuoso, muitas vezes atormentado, mas que a superação é sempre a melhor recompensa. O caminho nem sempre será agradável, mas é preciso ser o melhor naquilo que se faz. E Wolverine é o melhor.

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CONAN, O BÁRBARO: QUE BARBARIDADE

Sebo

Entrar num sebo era uma experiência sem igual, principalmente quando se tinha uma pequena fortuna no bolso. Entenda como quiser o que seria essa grande quantia, mas te garanto, tendo uns poucos trocados, na década de 90, e dentro de um sebo, era como fazer compras numa loja de 1,99 após ganhar na loto. Você podia comprar pelo menos um item caro da loja, ou vários do mais barato, com todos, sem exceção, trazendo o cheirinho grátis de coisa velha pra impregnar sua estante pelo resto da eternidade. Façamos uma narração para dispor melhor a sublimidade da coisa.

Você tem na faixa dos quinze anos, é um homenzinho que já pode sair na rua sozinho, e se sente imponente com seus 20 Reais ganhados da avó no bolso. Entra no sebo, vira pro vendedor dizendo que ele pode fechar a loja só pra você, o dia da balbúrdia chegou, e claro, o vendedor olha pra sua cara, com um misto de pena e desprezo, enquanto indiferente continua lixando a unha ouvindo seu CD do Wanderley Alves dos Reis, vulgo Wando.

A Espada Selvagem

Você está dentro daquela loja onde as paredes são feitas de pura celulose pré mofada, onde até o teto serviu de estante para acumular livros, revistas e poeira, muita poeira. Olha pra lá, olha pra ali, disfarça não ter visto umas Ele&Ela, e fica desconcertado com o tio do bigode te olhando de forma esquisita. Aquele ambiente é pequeno e estreito demais pra que qualquer movimento não seja notado, nem mesmo músculos, nervos e bombear de vasos sanguíneos dos olhos passam despercebidos. Percebe que precisará de sorte pra encontrar algo que verdadeiramente valha sua grana, afinal, tinha muita coisa ali, e você não sabe por onde começar. Você decide tirar nos dados. Sua pontuação de sorte não é grande coisa, visto que distribuiu a maior parte em inteligência, e força. Então você rola o dado e tira um vinte! Nossa! Você encontrou uma pilha de revistas da banda Manowar! Olha com mais atenção e percebe que não, na verdade era o quadrinho do Conan, precisamente a série A Espada Selvagem de Conan. Sendo uma pessoa com uma sagaz ficha de personagem, não percebe, e nem leva à mal o excelente título. Então pega a revista e folheia, na intenção de descobrir do que ela se tratava. Até então você nunca tinha notado sua existência. As páginas eram todas em preto e branco, sendo apenas a capa colorida. O tio vira pra você e diz “cinquenta centavos”.

Conan

Você olha pro tio, vira pra revista, retorna pro tio, e diz, mas hein? Como assim custava míseros cinquenta centavos? A natureza primitiva humana do não poder ver uma vantagem surge, e você já contabiliza em poucos nanossegundos. 40! Cara, onde que com 20 Reais você consegue comprar tantos quadrinhos?!

Não teve jeito, fui escolhendo sem muito critério as que mais me atraíram pela capa, quando o tio disse “à cada quatro que você comprar, pode pegar mais uma”. Buguei. Olhei meio de lado procurando o cérebro pra me ajudar a fazer as contas. Bem, se xis elevado à hipotenusa de pi é igual ao cateto de Bhaskara, então o cosseno da tangente só poderia dar 50! Ainda mais acelerado eu continuei a escavação atrás daquela papelada, e se antes eu escolhia com calma tirando até a poeira, agora eu não queria nem saber, eu já ia tacando tudo num saco com aquela poeira vulcânica e tudo. Antes que ele se arrependesse. Faço o checkout da loja e vou eu pra casa, à pé, tinha torrado até o dinheiro do ônibus.

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Na estante da sala tinha o meu cantinho, que não era nada mais que uma porta onde eu guardava as supostas tralhas que minha mãe não queria ver espalhadas pela casa. Lá tinham alguns VHS gravados em EP, um Playstation tijolão com uns controles, e uns poucos gibis do Homem-Aranha e da série Superaventuras Marvel, que ganhei de alguém mas não me recordo quem. Já cheguei na sala com uma pequena bacia, um pedaço de pano molhado, e liguei o ventilador de teto. A ideia era tirar aquele excesso de poeira, colocar pra secar no vento, e ir organizando. Conforme terminava a limpeza de uma eu pegava outra. Aquelas artes incríveis das capas, e seu interior num simples preto e branco, conseguiam uma brutal expressividade e personalidade, isso me deixava hipnotizado. A imersividade daquilo era fantástica, exatamente o tipo de universo fictício que me atraia. Uma jornada épica, onde um solitário guerreiro andarilho enfrentava inimigos brutais, e isso num mundo sem tanta firula fantasiosa. Talvez fosse pelo quadrinho não ter cor mesmo, só sei que não sou muito fã de grandes alegorias fantásticas mescladas ao medievalismo excessivamente purpurinado. Facilitando o entendimento do que quero dizer, não curto tanto assim O Senhor dos Anéis. Gosto sim, mas não me considero um fã da franquia.

Basil

Conhecia os dois filmes, Conan, O Bárbaro, e Conan, O Destruidor, ambos com Arnold Schwarzenegger. Quer dizer, acho que qualquer um que tivesse uma TV conhecia. Repetia tanto quanto Curtindo a Vida Adoidado nos canais abertos. O que mais me impressionava nos filmes eram as trilhas sonoras incríveis de Basil Poledouris, compositor greco-americano que conseguia belíssimos resultados misturando orquestra com coros sistinos. O cara é famoso não só por Conan, mas também trabalhou nas trilhas de sucessos como RoboCop, Os Miseráveis, e no hoje controverso, A Lagoa Azul. Essas músicas lindíssimas ficavam na memória e completavam a leitura dos quadrinhos de um jeito inexplicável. Poledouris descansou após enfrentar um câncer em 2006, mas deixou de presente uma extensa obra que vaga em ondas de rádio pelo infinito universo. Confiram essas duas faixas e me digam se estou sendo exagerado nas palavras.

Cimmeria

Robert E. Howard é a mente por trás de Ciméria, uma região fictícia, terra natal de Conan. E todo esse fantástico universo surgiu em 1932, quando Howard estava em Mission, Estado do Texas, escrevendo o poema Cimmeria, enquanto rememorava sobre as áreas montanhosas acima de Fredricksburg, vista em aos nevoeiros das chuvas de inverno. Ciméria é descrita no poema como terra de trevas e de noites profundas, um local melancólico com florestas negras, silêncio sombrio, e um céu turvo e de aspecto plúmbeo. Embora o mundo hiboriano seja criação de Robert E. Howard, o nome original e a descrição de Ciméria são de A Odisséia, de Homero, Livro 11, linhas 12-18.

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Nem só de Conan o quadrinho se faz, em suas aventuras ele conhece e é ajudado por alguns companheiros. Tudo bem que algumas dessas personagens sejam totais falsianes, mas com uma de principal destaque o destemido bárbaro sempre pode contar, a imponente e belíssima ruiva, Red Sonja. Juntos eles tocam o zaralho e riscam o mapa da Era Hiboriana. Se a franquia Conan é taxada como machista por muita gente, é Sonja quem aparece pra mostrar que as mulheres não são meros objetos à serem subjugadas por trogloditas, ela senta o sarrafo em quem pisar no calo dela, e nem mesmo Conan se livra de ter os bagos pisoteados por conta de suas piadinhas vez ou outra. A personagem hircaniana é criação conjunta de Roy Thomas e Barry Windsor-Smith, responsáveis pelo quadrinho através da Marvel Comics. Além de Sonja, também contracena no quadrinho a dançarina Jenna, que tem um final bem trágico, o espadachim de Turan, Mikhal Oglu, o feiticeiro Zukala, a pirata Bêlit, Thoth-Amon, Yezdigerd, Valeria, cara, é uma penca de gente. Não sei nem porque tentei listar, enfim.

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Mas o principal atrativo dos quadrinhos de Conan é obviamente a brutalidade gráfica, ingrediente principal pra atrair o público infantojuvenil. Embora seja um quadrinho destinado ao público adulto, você sabe né? O mais interessante é que toda a sanguinolência expressada nas páginas em preto e branco não sentem sede por cores pra enfatizar qualquer coisa. O dinamismo dos traços de Barry Windsor-Smith eram incríveis e conseguiam se mostrar caótico de um jeito muito à frente dos outros quadrinista de sua época, ele não precisava de Bangs! ou Pows!, seus traços falavam por si só. Confesso que me adaptei tanto aos quadrinhos da série A Espada Selvagem de Conan que pra mim o estranho são os quadrinhos colorizados. Conan pra mim até hoje é o que existe de mais legal no mundos quadrinhos, não tem X-Men, Homem-Aranha, ou mesmo Batman, Conan é meu camarada, e por Crom, espero um dia nascer novas séries tão boas da Era Hiboriana como foram as lançadas na década de 80.

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