CONTATO (CRÍTICA)

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SINOPSE
Desde a infância Ellie sempre foi muito curiosa sobre o espaço e,  apoiada e incentivada com o carinho sem fim de um pai atencioso, começou a dar seus primeiros passos no radioamadorismo. Cada pequena descoberta era um evento e motivo de comemoração para aquela inteligente menina. E foi numa noite clara que prenunciava uma chuva de meteoros, que Ted, sem conseguir se despedir, deixou a filha seguir sua jornada solitária. A vida não pegou leve com Ellie, que decidiu se concentrar e fazer o seu melhor, estudando o suficiente para fazer do seu futuro o que quisesse. Optou por seguir contrariando tudo o que era esperado pela sociedade, e guiada pelo coração, se empenhou com o que mais amava, a radioastronomia. Ellie se tornou uma mulher perspicaz, focada e muito decidida, e nada e nem ninguém conseguia interferir em suas convicções. Tanto esforço trouxe retorno, quando nas suas intermináveis leituras do céu conseguiu um resultado positivo. Codificada em sinais de rádio, uma mensagem vinda da estrela Vega, na constelação de Lira, chega trazendo algo que mudaria não só as fundações de Ellie, mas também quebraria vários arquétipos para a humanidade.

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COMENTÁRIOS
Esse é um dos filmes que mais atinge o meu íntimo, pois além de trazer um assunto que gosto muito, que é a astronomia e a possibilidade de existência de vida pelo vasto cosmo, a mensagem relativista de Einstein é abordada de forma leve e poética para que qualquer audiência possa compreender. E se tem algo que sempre me agrada muito, é a democratização de linguagem para facilitar o acesso ao conhecimento. O saber é algo efêmero e desimportante quando você não consegue retransmiti-lo, e nesse sentido tenho Carl Sagan como gênio e herói. Contato (Contact, de 1997), é um drama de ficção científica baseado no romance homônimo do próprio Sagan, lançado em 1985, no qual é retratado de forma ficcional uma cientista da SETI que após anos cobrindo o infinito firmamento, encontra uma misteriosa onda sonora proveniente de Vega, a quinta estrela mais brilhante do nosso céu noturno e que se encontra na constelação de Lira.

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Vamos falar um pouco sobre o que é real aqui e de onde surgiu toda esta ideia. SETI é a sigla em inglês para Search for Extraterrestrial Intelligence, que em tradução é Busca por Inteligência Extraterrestre. Esse programa é real e foi iniciado em 1980 por Carl Sagan, Bruce Murray e Louis Friedman, quando fundaram a U.S. Planetary Society. O objetivo era o proposto no próprio filme, fazer um pente fino no nosso céu esperando encontrar sinais de rádio que pudessem estar ligado com mensagens ou atividades extraterrestres. E foi no dia 15 de agosto de 1977 que SETI ganhou fama, quando Jerry Ehman, um dos participantes do projeto testemunhou um forte sinal captado por um radiotelescópio. Ehman circulou a indicação espectral em um papel e exclamou a descoberta com um “Wow!” Rapidamente aquela impressão circulou pela grande mídia, fazendo o discreto programa receber grande notoriedade.

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Ninguém é completamente uma coisa ou outra quando se trata de racional e emocional, simplesmente nosso cérebro não funciona como talvez tentemos nos convencer. Cada pequena convicção e crença que temos estão interligadas e conversam a todo momento. Em Contato temos Ellie, uma jovem que não conheceu a mãe e que tinha apenas no pai o referencial e alicerce de vida. Devido sua inteligência emocional ser bastante sólida, a jovem não se desespera com a partida do pai, e se apega no entendimento racional de que a natureza funciona desta maneira. Simplesmente as pessoas morrem. Isso era o que ela dizia para si e tentava se convencer, mas a realidade é que em seu subconsciente a não aceitação persistia. Seu ímpeto em renegar a existência de um Deus ou força maior, nada mais era que um grito de socorro silencioso em sua alma por compreender aquilo que estava fora do seu alcance de compreensão e intervenção. E é quando ela conhece Palmer, graduado em teologia e homem que procura boa parte de suas respostas na fé.

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As essências de ambos eram completamente opostas, assim como a árvore de conhecimento que traziam de suas formações como indivíduos. Palmer era alguém aberto e pronto para ouvir e conhecer, romantizava ideias não se importando com certezas absolutas, enquanto Ellie era apaixonada e petulante, questionava com ceticismo e sem ser honesta em querer ouvir discursos dos quais já se sentia convicta de compreender onde chegariam. Palmer enxergava isso nela e mesmo assim a admirava, sabendo que alguém inteligente como Ellie não se força a qualquer coisa, você apenas acompanha e aprecia como escala os degraus evolutivos do autoconhecimento, e se alimenta de satisfação por ter tido a oportunidade de estar presente naqueles momentos. O milagre da vida para Palmer era viver, não tinha exatamente a ver com Deus, e quanto a Ellie, ela ainda precisava compreender sua verdadeira motivação de existir. Não confunda, seu trabalho era a pergunta, e seu milagre seria a resposta.

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COMENTÁRIOS COM SPOILERS
O grande trunfo de Contato não está em trazer a pauta do quão grande é o universo e, o quanto somos insignificantes visto a grandeza de sua vastidão.  Claro, também é sobre isso. Sobre o como podemos ser presunçosos em pressupor que um planeta jovem como a Terra abrigaria o homo sapiens com seus 350 mil anos de existência e, essa criatura fosse capaz e a portadora de toda a filosofia e reflexão sobre a existência do tudo, frente a possíveis bilhões de civilizações com outros bilhões de anos em escala existencial na nossa frente. Sim, sinta-se pequeno! É isso que você é! É isso que eu sou! Não olhe para baixo achando estar no topo da pirâmide do conhecimento, mas olhe para cima com humildade e saiba que toda a verdade sobre o tudo que você possa um dia almejar conhecer, possivelmente está muito além e distante de nós.

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Pode parecer cruel e realmente é para alguns, mas certamente não para você que está lendo humildemente este texto de um desconhecido que nada conhece sobre a sua vida para fazer tais afirmações. Mas eu ouso te sugerir ter orgulho de quem você é, mas o faça através dos vislumbres dos olhos de outros, cobiçando sempre o objetivo de aprimorar o seu futuro. Ademais, nossa inteligência tem uma variedade de aplicações, e não são apenas para escaladas sociais, mas também para encantar, ensinar, em principal, dividir. Se você acha que detêm o ouro e está escondendo para se tornar inalcançável, infelizmente você não compreendeu a mensagem. Para mim Contato é isso, o mergulho numa experiência de uma personagem que inconscientemente quer buscar a verdade, que enxergou isso através dos olhos de um homem crédulo demais para sua realidade, por quem se apaixonou ao notar a mesma integridade que eu pai carregava e que alimentava sua alma. As palavras similares, o tom acolhedor, a forma de pensar, todas essas coisas serviam como um gatilho para Ellie, que mesmo relutante em se entregar, não perdeu o mesmo espírito aventureiro que a fez entrar numa máquina de função e intenção desconhecida.

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Quando Ellie, com pernas trêmulas adentra aquele grande maquinário alienígena, ela não tinha nada além da esperança de que tudo estaria bem. Aquele era o seu verdadeiro rito que a transportaria para uma realidade sem retorno, seu verdadeiro salto da fé. Uma coisa são cientistas confiarem em seus semelhantes e na intenção coletiva de buscarem algum feito ousado, outra é ouvir uma voz desconhecida sugerindo um movimento para uma possível morte. Ou quem sabe algo até pior. Aquela era a verdadeira Ellie, destemida e buscando a verdade para uma pergunta que ainda se formularia num paradoxo de consciência e inconsciência que só almejava o conforto de sua mente em eterno confronto de fé e razão. Precisando ser forte e solitária neste instante, Ellie se agarra na sua natureza impetuosa e se aprofunda num túnel quântico que a transporta possivelmente até Lira.

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A excursão não saiu barata, fazendo incluir a oferta do famoso dilema do destino ou acaso, quando Ellie ao se desprender do seu acento de segurança para recuperar a bússola dada por Palmer, sobrevive ao impacto do abrupto repouso de sua cápsula. Quando finalmente ela toca algo que poderia chamar de solo e, como em seus sonhos com California, era assim que aquele lugar se parecia. Não tarda muito e uma silhueta espectral vai tomando forma ao se aproximar dela. Ellie simplesmente foi presenteada com aquilo que estava registrado em seu íntimo, a figura de seu pai. Aquele não era ele, ela sabia disso, mas em seu coração estava tão confortada com a pureza da ilusão de quem sabe que apenas uma entidade bem intencionada poderia acessar, entender e proporcionar, que se expôs por completo e sem medo a todo aquele momento. Tudo aquilo era para Ellie, e por qual razão ela foi a escolhida e não outro? Talvez por apenas ela procurar com a fé de verdadeiramente encontrar e, quando encontrou, continuou acreditando. Ellie encontrou seu destino e sua verdade, que pode ser baseada até mesmo numa ilusão, mas que para ela ainda assim é a verdade. Ellie entendeu a mensagem de forma alta e clara, câmbio.

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ELENCO E FICHA TÉCNICA
Jodie Foster, Jena Malone, Matthew McConaughey, David Morse, Tom Skerritt, James Woods, John Hurt, William Fichtner, Angela Bassett, Jake Busey, Rob Lowe, Geoffrey Blake, Max Martini e Steven Ford compõem o elenco. Dirigido por Robert Zemeckis, Contato é um drama de ficção científica baseado no romance homônimo de Carl Sagan com Ann Druyan, publicado em 1985. Adaptado por James V. Hart e Michael Goldenberg, e produzido por Steve Starkey e Robert Zemeckis, o longa da Warner Bros. foi produzido nos estúdios da South Side Amusement Company. Seu orçamento de consideráveis 90 milhões de dólares foram revestidos num faturamento de mais de 170 milhões.

CONCLUSÃO
Não sei se você conhece Carl Sagan e qual era sua proposta quando se tratava de abordar a ciência como um todo. Vou só listar um pouco sobre quem era este brilhante homem, que partiu cedo mas deixou um vasto legado e boas lições. Sagan era cientista, físico, biólogo, astrônomo, astrofísico, cosmólogo, escritor e divulgador científico, que nas horas vagas se empenhava ao máximo para levar da forma mais simples tudo o que conhecia, e para qualquer um que quisesse aprender. Era o tipo de cara que não te ignoraria na rua, pois sabia que você, um mero desconhecido, poderia ser um oceano de novas descobertas para ele. Considero Contato sua magnum opus, e hoje, mesmo com mais de vinte anos de idade, é um filme atual e que tem muito a ensinar sobre a vida, e não apenas ciência, para qualquer um que esteja disposto a aprender.

Para criaturas pequenas como nós, a vastidão só é suportável por meio do amor.
– Carl Sagan

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ELI – FILME DA NETFLIX (CRÍTICA)

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SINOPSE
Eli é um menino de 11 anos portador de uma doença autoimune que o leva a ter uma vida difícil, precisando sempre se manter em locais hermeticamente descontaminados para continuar a viver. Toda vez que se expõe, sua pele apresenta uma vermelhidão alérgica, machucando-o como uma grave queimadura. Seus pais, Paul e Rose, descobrem uma clínica que oferece um procedimento experimental, e investem todas suas economias para poder dar uma vida melhor ao filho. O local é uma enorme mansão isolada numa distante região rural, um imóvel enorme e inteiramente protegido dos contaminantes do exterior. Lá a criança é submetida a dolorosos procedimentos médicos, enquanto paralelamente a isso, uma série de fenômenos sobrenaturais começam a acontecer, e se tornando cada vez mais bizarro, Eli começa a questionar se realmente pode confiar  naquelas pessoas.

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COMENTÁRIOS
Enquanto em Jimmy Bolha (2001), Jake Gyllenhaal traz uma visão otimista e divertida das complicações de ser uma criança que precisa viver dentro de uma bolha, em Eli (2019), as coisas não são tão simples e positivas assim. Eli é um menino bastante inteligente que compreende sua própria situação, mas mesmo assim sofre demais com suas limitações. Como uma criança normal, ele gostaria de poder sair de casa para aproveitar as coisas simples sem se preocupar, e o fato de não poder fazer isso, lhe gera muita angústia. Não bastando as dificuldades que lhe atormentavam a vida, ainda sofre com a falta de empatia daqueles que o veem com estranheza devido ao curioso traje plástico que precisa vestir quando está fora de casa. O sadismo e deboche dos outros tiram-no do sério, fazendo com que precise ser acalmado pelos pais, de quem é totalmente dependente para tudo.

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Eli tem uma atmosfera pesada e instigante, começando tímido, vai moldando ambientes e plantando cada vez mais confusão na audiência. Elementos aparentemente desconexos são gradualmente inseridos, e causam cada vez mais estranheza. A trama que se inicia como um drama, toma rumos no suspense e no terror, e até o último minuto sustenta mistérios inimagináveis. Seu roteiro é bastante criativo, e junto com Fratura (2019), lançado quase simultaneamente, ambos pela Netflix, conseguem convencer numa trama extremamente bem escrita. Esse é daquele filmes que é muito perigoso fazer comentários acerca de seu decorrer, mas o que ainda dá para ser dito, é que em certos momentos aparenta que estamos assistindo apenas mais um filme de terror bobo e cheio de jogos de iluminação e jump scares, e de certa forma ele parece não ocultar querer parecer ser isso. Não seja ingênuo, aqui temos um diretor perspicaz e experiente em filmes de terror com mistério, esta é uma obra que vai te surpreender bem mais do que imagina. Digo isso assumindo ser um cara chato e exigente com filmes de terror, quando a coisa não tem conteúdo e é só baboseira, já sento o malho sem pena. Deixo um alerta, não recomendo procurar muita coisa sobre este filme na internet, sejam críticas, material promocionais, e nem mesmo imagens em sites de buscas, acredite, o potencial é enorme de você estragar sua experiência com spoilers não intencionais.

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Charlie Shotwell está excelente interpretando Eli, onde atua com muita naturalidade, conseguindo convencer em momentos de medo, dúvida ou raiva. Já Sadie Sink, a menina ruiva de Stranger Things, é mais do mesmo, e não traz grandes feitos. Kelly Reilly e Max Martini, os pais de Eli, fazem uma boa atuação, assim como a chefe médica Lili Taylor. A direção de Ciarán Foy é inteligentíssima, o cara realmente sabe induzir com que pense exatamente o que ele quer. Você vai ter certeza de que está confortável com uma ideia, e como um um guindaste de demolição, o roteiro faz desabar todas suas convicções quando você menos imaginar.

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ELENCO E FICHA TÉCNICA
Kelly Reilly, Sadie Sink, Lili Taylor, Max Martini, Charlie Shotwell, Deneen Tyler, Katia Gomez, Austin Fox, Kailia Posey, Parker Lovein, Lou Beatty Jr., Jared Bankens, Nathaniel Woolsey e Mitchell De Rubira compõem o elenco. Escrito por David Chirchirillo, Ian Goldberg e Richard Naing, Eli é um filme de drama e terror de 2019 dirigido pelo experiente Ciarán Foy, responsável também por A Entidade (2012) e Citadel (2012). A produção é dividida com Trevor Macy e John Zaozirny, utilizando os estúdios produtores Paramount Players, MTV Films, Intrepid Pictures e Bellevue Productions. Distribuído pela Paramount Pictures, e pela Netflix, o longa teve um orçamento modesto de 11 milhões de dólares. Eli está disponível através do serviço por assinatura Netflix.

CONCLUSÃO
Flertando com o drama mas descambando para o terror, Eli lida com seu gênero principal de forma bem peculiar. Não é o tipo de filme que se diz que com segurança ser capaz de agradar qualquer público, seu formato, e principalmente sua conclusão, tem potencial enorme de trazer desconforto à algumas pessoas. Seu roteiro inteligente e seus plot twists, são seus principais atrativos, mas não se pode afirmar que seu desfecho seja surpreendente. Como disse antes, eu sou uma pessoa exigente com filmes desse gênero, e esse acertou em cheio para mim! Mas como gosto é algo muito pessoal, recomendo muito que você assista e tire as próprias conclusões. Lembrando, a surpresa eu garanto que você terá! Recomendado para maiores de 16 anos, Eli é uma produção original Netflix, e já está disponível. Tenha um ótimo filme!

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