POR LUGARES INCRÍVEIS – FILME DA NETFLIX (CRÍTICA)

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SINOPSE
Violet Markey (Elle Fanning) e Theodore Finch (Justice Smith) são dois adolescentes que, apesar de estudarem na mesma escola, se aproximam e passam a se conhecer mais profundamente num momento muito dramático de suas vidas. Desde então, compartilham seus dias e, devido a um trabalho escolar, passam a embarcar em pequenas aventuras diárias, visitando lugares e consequentemente, dividindo seus sentimentos mais íntimos. Nesta nova relação, ambos buscam e encontram conforto um no outro, uma certa cumplicidade e a descoberta de que qualquer lugar pode ser especial, desde que na companhia certa.

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COMENTÁRIOS
Foi-se o tempo em que corações partidos eram as únicas preocupações dos adolescentes no cinema e na TV, não é mesmo? Fulano gosta de beltrano, que gosta de ciclano e por aí a história corria, até com algumas lágrimas, mas sempre por amor. Já hoje… ah, é preciso ter um coração de ferro para o que temos que encarar. Uma coisa é certa, é sucesso garantido. Os dramas estão em alta entre os adolescentes e nunca se viu tantas séries e filmes voltados para este público, inclusive tratando de assuntos tão delicados e dramáticos como suicídio, traumas pesados com pais, bullying, distúrbios psicológicos, sexualidade e por aí vai.

Por Lugares Incríveis é mais um desses filmes que veio prometendo tirar muitas lágrimas de seu público, num drama muito sensível, que aborda problemas reais e de difícil digestão para qualquer mortal. Então meu caro, é impossível que você não sinta alguma empatia pelo drama da jovem Violet. Assim como nós, Finch também se sensibilizou pela menina e, é graças a esta empatia imediata que embarcamos nessa viagem tão delicada traçada por estes dois personagens em momentos tão distintos, mas igualmente difíceis de suas vidas.

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Violet a menina bonita e popular, que frequenta festas e tem uma movimentada vida social, passa por um momento introspectivo da sua vida, onde se isolar não é só uma opção, mas uma necessidade. Já Finch, se trata do adolescente naturalmente isolado, principalmente pelo seu temperamento explosivo e traumas pesados que traz do seu passado.

Parece meio óbvio para você que eles precisam urgentemente se encontrar e se apoiar neste momento, certo? Certo, mas além da nossa torcida e de uma mãozinha do destino, um trabalho escolar acaba sendo o que firma esta amizade, de forma que eles precisam passar mais tempo juntos do que passariam em qualquer outra circunstância. Nisso aí, já temos os ingredientes perfeitos para que uma relação seja construída. Então, se você gosta de dramas reais, diálogos sensíveis e boas interpretações, embarque sem medo nessa emocionante história.

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COMENTÁRIOS COM SPOILER
Quer entender melhor o que se passa? Violet passa por um momento muito doloroso de luto pela perda de sua irmã e melhor amiga, já Finch também tem seus próprios problemas causados por graves traumas com seu pai, que gerou em si uma dificuldade grave de auto controle, o levando a momentos verdadeiramente sombrios e/ou excessivamente explosivos, onde precisa se isolar para que não machuque ainda mais as pessoas que o cerca. Não é pouco, concorda?

Caio Fernando Abreu que tem uma frase que diz: “Um amigo me chamou para ajudá-lo a cuidar da dor dele. Guardei a minha no bolso. E fui.” E é exatamente o que Finch faz, quando se depara com Violet num momento de tanta dor e exposição, tentando tirar sua própria vida, ele se aproxima dela, estende a sua mão e guarda sua própria dor no bolso para ajudá-la.

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Mas, acontece que Finch teve uma ajudinha de um trabalho escolar, onde duplas deveriam explorar na cidade lugares pouco conhecidos, mas com algum significado para seus visitantes. Nesta pequena aventura, os dois acabam descobrindo que o que torna um lugar ou um momento especial, mágico, cheio de significados, está longe de ser um trabalho de engenharia elaborado ou ser o mais famoso ponto turístico da cidade, mas a companhia, o significado que aquele lugar passa a representar para os dois.

Como você pode imaginar, tem sim romance rolando solto em meio a todo este drama, mas ele fica facilmente em segundo plano. Eu, particularmente, achei totalmente dispensável inclusive, já que o casal não revelou ter uma boa química. Acho inclusive que uma profunda amizade entre os dois tornaria a história ainda mais tocante e sensível, já que pelo desfecho dramático do personagem Finch (ele acaba se suicidando), deu a impressão que ele poderia estar enganado sobre o que sentia com relação a Violet. Ou seus traumas eram ainda maiores que o seu sentimento.

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Os problemas de Finch foram abordados de forma muito superficial no filme, mas já li que são mais aprofundados no livro. Você percebe pelas reações do personagem o quanto ele é machucado pelos seus traumas, mas o telespectador não consegue perceber esta dimensão, dando a impressão que o significado que Finch deu à vida de Violet, e as lições que ele ensinou a ela, não fizeram o mesmo efeito pra si e não tiveram tanto significado para ele. Ou seja, fiquei com aquele desejo romântico de ver que as lições que ele ensinou à Violet e o amor dos dois, pudesse ser a cura para ambos.

Embora Violet tenha superado mais este trauma, e aparentemente, aprendido todas as lições ensinadas por Finch, isso traz ao final do filme um desfecho lindo, com frases maravilhosas e um sentimento bom, quase um consolo, que você recebe mais pela doçura de Violet do que pelo desfecho apresentado. Sim, meu lado romântico ficou esperando um final feliz que não rolou, mas o final é lindo e vale a conferida.

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ELENCO E FICHA TÉCNICA
Elle Fanning, Justice Smith e Keegan-Michael Key são alguns nomes que compõem o incrível elenco de Por Lugares Incríveis. Embora Elle Fanning passe a maior parte do filme bem triste e séria como Violet, o que é incomum em seus trabalhos (Malévola, por exemplo) e isso já é uma surpresa, podemos ainda sentir aquela doçura que lhe é natural e que nos ajuda a visualizar a Violet antes do luto. E, Justice Smith, dispensa comentários, já vem se revelando um excelente ator em outros filmes e ganhado alguns bons destaques (como por exemplo em Pokémon: Detetive Pikachu).

Este longa-metragem é original Netflix, lançado em 28 de fevereiro de 2019 e que foi baseado no best-seller internacional de Jennifer Niven, de mesmo nome. All the Bright Places é o titulo original da obra, que durante 108 minutos te leva nessa viagem ao mais profundo de seus personagens. Dirigido por Brett Haley, este drama romântico hoje (01/03/2020), é o TOP 1 da Netflix Brasil.

CONCLUSÃO
Mas e aí? A que conclusão chegamos então? Não, os assuntos abordados, embora fortes, não foram bem aprofundados. Mas sim, é um filme com frases bonitas, boa interpretação e excelente fotografia, então vale a pena sim conferir, com certeza.

O que precisa ser dito aqui, é que Por Lugares Incríveis traz de fato alguns gatilhos, pois trata de assuntos delicados como luto, distúrbios mentais, traumas familiares e suicídio, então caso você tenha alguma dificuldade com estes temas, prepare mesmo o coração. Então, pelos temas abordados, concordo com a classificação de 16 anos.

Quer um conselho?
Copo de água numa mão, lencinho na outra e boas lágrimas.

O que aprendi?

“Aprendi que existem coisas boas no mundo, se você procurar por elas. Aprendi que nem todo mundo é uma decepção, incluindo eu mesmo, e que um salto a 383 metros de altura pode parecer mais alto que uma torre de sino se você estiver ao lado da pessoa certa.”


por Jennifer Niven –
Por Lugares Incríveis

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SEX EDUCATION – SÉRIE DA NETFLIX (CRÍTICA)

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SINOPSE
137_04Otis é um garoto bem diferente da maioria dos jovens com que convive, vindo de uma criação pouco convencional na qual seus pais não conseguem se desligar de suas carreiras como terapeutas sexuais, o que fazia com que o rapaz desde muito jovem ficasse exposto a todo tipo de conhecimento sobre o assunto. A decoração da sua casa é repleta de ornamentos fálicos e todo tipo de objetos que remetiam a sexualidade. Para quem não conhecia o entusiasmo da sua mãe pelo trabalho, aquilo era uma total loucura. Na escola era introspectivo e pouco notado, e em seu íntimo se sentia para trás na corrida por alcançar a vida adulta, o que para ele se traduzia em: fazer sexo. Em outras palavras, perder a virgindade. Se por um lado ele se sentia perdido com as próprias ações na busca disso, de outro ele era um oráculo de conhecimento sobre tudo relacionado a comportamento sexual. Como eu disse, a vida dele era louca. Tinha acesso a intermináveis estantes repletas de livro sobre o tema, e sua mãe fazia de sua vida um reflexo das sessões com seus pacientes. Definitivamente sexo não era um tabu para Otis e, é quando ele se junta a Maeve, uma colega de classe que ele sempre observava de longe com certa admiração, e que agora lhe deu brecha para um melhor contato, fazendo sua imaginação começar a se desenvolver em atração por ela. Mas aquele era um mero acordo comercial, onde a menina conseguia clientes com problemas em suas vidas sexuais, e Otis orientava individualmente em breves reuniões sigilosas. No entanto essa feliz parceria vai se desenvolvendo, e inconscientemente o jovem vai aflorando uma nova realidade para Maeve, ao mesmo tempo que ela o faz se sentir mais confiante do próprio potencial.

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COMENTÁRIOS
Na juventude é natural nossa ansiedade maior por avançar em nossa própria sexualidade, e isso pode se tornar um verdadeiro caos dependendo da nossa bagagem de vida até o fatídico momento de interesse por essas descobertas. São infinitos fatores e combinações que podem desencadear uma vida sexual sem brilho e satisfação, e é com uma enorme sensibilidade e respeito que Sex Education (2019) aborda esse tópico tão delicado. Sempre inteligente e com humor elevado, são escritos os mais variados tipo de cenários e situações. É surpreende a ousadia e a assertividade do tato de Laurie Nunn, criadora e uma das idealizadoras da série em conjunto com Ben Taylor. Gostaria muito que esta série pudesse alcançar todo mundo, pois desmonta paradigmas espinhosos e remonta de forma clara, para que independente da sua origem cultural, consiga entender a simplicidade que é a complexidade de como as pessoas enxergam suas próprias realidades. Recebemos projeções da vida dos nosso amigos, familiares, aquele outro desconhecido por qual temos empatia, e obviamente, sobre nós mesmos. E não existe nada mais esclarecedor e útil do que vermos nossos próprios demônios serem fragmentados em pedaços na nossa frente, e ter as opções de deixarmos as coisas seguirem como estão indo ou decidirmos atualizar. No fim sempre temos o livre arbítrio.

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Comentando um pouco sobre os aspectos gerais, Sex Education é uma série muito leve e confortável de assistir. Sua fotografia é belíssima e explora as belezas naturais da Wye Valley, patrimônio internacional da humanidade que se estende pela fronteira da Inglaterra com o País de Gales, sendo uma das paisagens cênicas mais inspiradoras de toda Grã-Bretanha. Seu enredo é bem amarrado e traz discussões precisas sobre temas triviais para o nosso entendimento sobre o quanto é importante nos colocarmos na posição do outro. As vezes o que nos causa graça ou repulsa pelo mero capricho de um julgamento imaturo, é motivo de muita dor e sofrimento para o alheio. Tudo isso é bem explorado com compaixão e nunca abandonando a honestidade. A trilha sonora é feita para abraçar a geração dos trinta, com Billy Idol, A-Ha, The Cure, The Smiths, UB40, INXS e muitos mais! Meu chapa, tem até Love Missile F1-11 do Sigue Sigue Sputnik, mais anos oitenta é impossível!

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PERSONAGENS! Sei que não vou conseguir destrinchar todos os que merecem atenção, mas vou citar ao menos os mais constantes na série.

  • Otis Milburn, é interpretado por Asa Butterfield, um jovem de carisma fenomenal! Um personagem complexo que mescla introspectividade com desinibição de uma maneira muito singular. Fechado para seus próprios dilemas e limitações, é uma caixinha de surpresa quando se trata de solucionar seus problemas.
  • Maeve Wiley recebe vida de Emma Mackey, atriz de semblante natural conflituoso, com um ar misto de arrogância e doçura, e que foi capaz evocar uma jovem rebelde de personalidade bem emaranhada. Sempre inteligente, sagaz e de humor ácido, se enxerga uma pessoa melhor através dos olhos, para ela ingênuos, de um tolo e esperançoso Otis.
  • Eric Effiong é vivido por Ncuti Gatwa. É para mim o personagem mais carismático da série. Negro, gay, de família humilde e tradicional, é uma pessoa sempre extrovertida e que valoriza o apoio e carinho daqueles que mais importam. Seu melhor amigo é Otis, e quando digo amigo, é porque os dois são unha e carne. Eric tem suas quedas, mas está sempre evoluindo e buscando jogar a bola pra frente. Rancor não é com esse cara!
  • Aimee Gibbs é interpretada por “Aimee” Lou Wood. Ela fica situada no grupo das patricinhas da escola, e das garotas de sua mini bolha é a menos extrema ao interagir com quem é de fora. Cabeça de vento com tudo, literalmente é lenta para entender o óbvio, o que acaba fazendo com que suas amigas façam-na de gato e sapato. Nos relacionamentos é confusa, e combinado com seu desconhecimento sobre seu próprio corpo, precisa se esforçar para entender o que quer da vida.
  • Jackson Marchetti é o superastro da escola vivido por Kedar Williams-Stirling. Descolado, popular, entusiasta na natação e com notas elevadas, está sempre rodeado de admiradores e professores interessados em seu alto desempenho acadêmico. Mas por dentro Jackson sofre uma enorme pressão, afinal, na busca de seus ótimos resultados ele precisa se abdicar de uma série de distrações e prazeres que talvez só pudesse aproveitar nesta etapa da vida.
  • Adam Groff é interpretado por Connor Swindells, e é filho do diretor Michael Groff. Adam é o um dos personagens mais complicados para não dizer caóticos de Sex Education. Nitidamente fica claro que sua agressividade tem origem da criação ríspida que teve de um pai problemático e que não o orienta bem. Sempre perdido em suas atitudes, não consegue focar e mirar num objetivo claro, estando sempre a mercê do que surge no ambiente.
  • Dra. Jean F. Milburn é encarnada por Gillian Anderson, a eterna Scully de Arquivo-X. Sensacional! Se mostrando calculista e falsamente estável, é uma mulher inteligente, bem resolvida, mas que também quer ter tudo sob seu controle. Quebrando a ética em diversos momentos ao seu relacionar com pacientes, também faz da vida de Otis um curioso laboratório para suas pesquisas comportamentais, e claro, sem ele saber.

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ELENCO E FICHA TÉCNICA
Asa Butterfield, Gillian Anderson, Ncuti Gatwa, Emma Mackey, Connor Swindells, Kedar Williams-Stirling, Aimee Lou Wood, Alistair Petrie, Mimi Keene, Chaneil Kular, Simone Ashley, Tanya Reynolds, Mikael Persbrandt, Patricia Allison e Anne-Marie Duff compõem o elenco. Escrito por Laurie Nunn, Sex Education é uma série de drama, romance e comédia lançada em 2019 sob o selo de distribuição Netflix. A adaptação recebeu como roteiristas na primeira temporada Laurie Nunn, Sophie Goodhart, Laura Neal e Freddy Syborn, e a direção foi dividida entre Ben Taylor e Kate Herron. A produção executiva é de Jamie Campbell e Ben Taylor, o produtor é Jon Jennings, cinematografia de Jamie Cairney e Oli Russell, e edições de Steve Ackroyd, David Webb e Calum Ross. Os estúdios utilizados são da Eleven Film, enquanto a distribuição internacional é do serviço por assinatura stream Netflix. A série conta até 2020 com duas temporadas, cada uma contendo oito episódios de uma média de cinquenta minutos cada um.

CONCLUSÃO
Sex Education é uma das séries mais gostosas de divertidas de se assistir no catálogo da Netflix, porém ela tem um corte de audiência por motivos óbvios, a censura. Não existe nada explícito aqui, no entanto o linguajar é pesado e escrito pensando em causar efeito nos jovens adultos. Definitivamente não é conteúdo para crianças assistirem. Convide seu companheiro ou amigos da sua faixa de idade, e pode ter certeza que vocês terão ótimos momentos de diversão. A classificação indicativa para Sex Education é de 16 anos, e a série já tem disponibilizada duas temporadas na Netflix. Então lave as mãos, pegue a sua pipoca e bate aquela vitamina de mamão!

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THE WITCHER – SÉRIE DA NETFLIX (CRÍTICA)

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SINOPSE
Não importa em que mundo você esteja, ele sempre será bastante perverso com o diferente ou com o que não compreende. E num lugar assim, como qualquer outro, que Geralt de Rívia vive, um caçador de monstros que vaga solitariamente buscando conhecer a si mesmo para encontrar seu lugar num mundo onde as pessoas podem ser muito mais cruéis que as mais terríveis bestas que enfrenta. Seu destino o leva a conhecer Yennefer de Vengerberg, uma poderosa feiticeira e, Cirilla Fiona Elen Riannon, uma jovem princesa sobrevivente de uma chacina, e detentora de um perigoso segredo. Juntos esse incomum trio precisa aprender a conviver e caminhar por este inóspito continente habitado por todo tipo de perigosas criaturas.

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COMENTÁRIOS
Aguardadíssimo por uma legião de fãs, mais da série de jogos eletrônicos do que dos livros originais de Andrzej Sapkowski, The Witcher chegou arrebentando tudo na Netflix nesse finzinho de 2019. Muito diferente do que alguns jornalistas do ramo vinham alimentando como ideia, a série em nada tem métrica para se comparar a Game of Thrones. Os conceitos são diferentes, a linguagem é outra, e o público alvo não exatamente é compatível. Enquanto a obra de George R. R. Martin aborda de forma pesada os conflitos pelo poder, quase como num House of Cards, The Witcher está mais preocupado (ao menos nesta primeira temporada) em trazer uma aventura fantástica num ambiente onde a politização tem outra natureza. Racismo e atritos entre diferenças sociais são os elementos mais comuns, e nesse canário vamos compreendendo o alinhamento moral de Geralt, herói desta história.

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Um dos principais méritos de The Witcher são suas imponentes tomadas de lutas coreografadas, geralmente em grandes planos sequências, sincronia impecável, velocidade, e muito vigor, mostrando o altíssimo nível de dedicação de Henry Cavill aos treinos para o papel. Todo os conceitos, que até então eram graficamente exclusivo dos jogos The Witcher, foram acolhidos e muito bem explorados pela equipe de design artístico. Trazendo belíssimas e convincentes paisagens digitalizadas e, uma elaboração bastante realista de grandes salões de castelos, calabouços, e vielas detalhadas de reinados de todos os tamanhos e tipos. A produção é muito bonita e confortável, com uma saturação sóbria que contribui bem para a atmosfera de mistério por trás de um universo que se revela aos pouquinhos. Aqui não existem grandes linhas de diálogos para te inserir artificialmente na ‘main story’, você terá de ter paciência e atenção para entender onde o roteiro quer te levar. O universo de The Witcher é vasto e muito rico em detalhes, não devendo em nada aos contos de Tolkien, ou mesmo a George R. R. Martin. Sua linguagem não é das mais simples, e ao mesmo tempo que acelera com vigor em momentos de ação, também traz alguns grandes e inconsistentes intervalos de tempo entre eles. O que no meu ver não é motivo algum para qualquer coisa ser taxada como bom ou ruim, neste caso considero o roteiro sendo o que é, já que ele não almeja ser obrigado a manter um dinamismo artificial.

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Vou ser franco aqui, eu conheço consideravelmente os games da franquia, mas não sou um exato fã. Não me identifico muito com a mecânica de RPG mais voltada para ação hack ‘n slash, fui doutrinado a viver em cativeiro com jRPG’s baseados em turno que as vezes duram centenas de horas, mas reconheço a grandeza que é The Witcher, e o quanto sua fanbase estava ansiosa pela série. E de forma mais do que merecida eu preciso parabenizar a comunidade de adeptos pela qualidade do presente de natal que receberam, e The Witcher é simplesmente fantástico! Não encontrei pontos para dizer o que poderia ser melhor, e imagino que essa será uma produção que ficará marcada como uma excelente adaptação de jogo para a TV. E sim, eu sei que existe o livro, mas é indiscutível que o que fez The Witcher ser o que é hoje, foi o estrondoso sucesso da CD Projekt RED em 2007.

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ELENCO E FICHA TÉCNICA
Henry Cavill, Freya Allan, Anya Chalotra, Jodhi May, Björn Hlynur Haraldsson, Adam Levy, MyAnna Buring, Mimi Ndiweni, Therica Wilson-Read e Emma Appleton. Adaptado por Lauren Schmidt Hissrich, que se baseia na saga literária Wiedźmin (2011~2019) de contos e romances de fantasia do polonês Andrzej Sapkowski, a série The Witcher original da Netflix estreou no dia 20 de dezembro de 2019. A superprodução coproduzida nos Estados Unidos, Hungria e Polônia, é dirigida na parceria de Tomasz Bagiński e Alik Sakharov, e tem como produtores executivos Sean Daniel, Jason Brown, Tomasz Bagiński (também diretor), Jarosław Sawko, e a própria roteirista Lauren Schmidt Hissrich. A primeira temporada possui um total de 8 episódios, com cerca de 60 minutos de duração cada.

CONCLUSÃO
Seja você um fã dos jogos, consumidor dos contos originais de Andrzej Sapkowski, ou mesmo os dois, não importa, eu tenho certeza que ficará bastante satisfeito com essa adaptação muito respeitosa de The Witcher. Diferente de Game of Thrones, a pegada aqui é outra, temos um cenário de conflitos e problemas sociais, onde um herói e duas outras personagens ascendem em suas histórias pessoais até o instante onde o destino os unirá. Não, isso não é spoiler, está na própria sinopse oficial, que é até tímida na retratação do plot. Essa aventura dramática de fantasia medieval tem potencial de agradar qualquer tipo de público. Embora seu enredo inicial exija uma atenção dedicada para não se perder, sua fluidez permite uma fácil assimilação. Curte aventura de fantasia medieval e estava procurando o que assistir? The Witcher é obrigatório para você! Classificado como recomendado para maiores de 16 anos, a série está disponível oficialmente no serviço por assinatura Netflix.

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O ESCOLHIDO – SÉRIE DA NETFLIX (CRÍTICA)

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SINOPSE
ATENÇÃO:
Irei me basear pelas impressões da primeira temporada, então esta resenha é destinada ao público iniciante na série.

Lúcia, Enzo e Damião são médicos enviados para Águazul, um vilarejo remoto no Pantanal Matogrossense para vacinar os moradores contra uma nova mutação do virus da zika. Chegando no lugar o trio é hostilizado pela população, que rejeita violentamente a presença não só deles, mas de qualquer profissional de saúde. Todos os moradores seguem uma obscura seita, onde alguém, ou alguma coisa, conhecida como Escolhido, dita todas as regras. Decididos em cumprir suas tarefas de vacinar toda aquela pessoas, os três precisarão enfrentar coisas mistérios inimagináveis.

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COMENTÁRIOS
Atraído por um curioso trailer decidi dar uma chance ao O Escolhido (Para exportação: The Chosen One), série tupiniquim com uma abordagem bem diferente do que estamos acostumados nos produtos nacionais. A produção se trata de uma adaptação da série mexicana Niño Santo (2011), criada por Mauricio Katz e Pedro Peirano. Apresentando um drama com altas doses de suspense paranormal, somos obrigados a nos acostumar com seu tenebroso ponto fraco, as fraquíssimas atuações, e passamos a focar no que realmente é interessante, sua trama. Não que este último faça o roteiro ser uma obra prima, mas seu plot inicial é bastante intrigante para nos prender a atenção. Mas retomo um pouco mais a conversa para as atuações, e recobro que ela não é de toda ruim. São muitos os personagens de O Escolhido, e ironicamente são os principais os que se mostram menos íntimos dos holofotes. Em certos momentos até rola um bom entrosamento entre os três, mas não precisam muitas linhas de diálogo para coisa desabar na artificialidade, parecendo ter sido escrito por quem não tem mesmo o tino pra coisa. E para completar a estranheza, os personagens secundários são bem melhor interpretados, com desenvolvimentos interessantes e bastante convincentes.

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A série conta com apenas seis episódios na primeira temporada, e para mim, mesmo sendo algo curto, foi complicado manter o interesse. O que eu falei sobre ignorar as más atuações e se entregar à trama, acaba não se sustentando por muito tempo. Quando você está envolvido o suficiente, surge um anticlímax pesado, fruto de um interpretação catastrófica, que te faz ter vontade de voar no ator para exigir que ele faça seu trabalho direito. Foram apenas quatro as atuações que me convenceram, e que infelizmente não eram o suficiente para sustentar a qualidade. Mariano Mattos Martins como Mateus, Renan Tenca como ‘O Escolhido’, Lourinelson Vladmir como Santiago, e Francisco Gaspar, como o homem simples Silvino, foram os que deram alguma sobrevida para a série. Mas os três principais atores, pelo menos neste trabalho, definitivamente não foram nada felizes. Considero uma pena o resultado final, e fiquei até curioso em assistir Niño Santo (2011), já que o plot original me pareceu bem bacana.

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ELENCO E FICHA TÉCNICA
Paloma Bernardi, Pedro Caetano, Gutto Szuster, Renan Tenca, Mariano Mattos Martins, Alli Willow, Tuna Dwek, Francisco Gaspar, Lourinelson Vladmir, Kiko Vianello, Bruna Anauate, Alexandre Paro, Cintia Rosa, Paulo Azevedo, Laerte Késsimos, Paulo Marcello, Fafá Rennó, Tsupto Xavante, Tião D’Ávila, Maria do Carmo Soares, Fernando Teixeira, Adriano Paixão, Cesar Pezzuoli, Ana Nero, Cesar Pezzuoli, João Carlos Andreazza, Laura Chevi, MC Choice, Brian Castro, Astrea Lucena e Aury Porto compõem o elenco. Adaptado da série mexicana Niño Santo (2011) por Raphael Draccon e Carolina Munhóz para o mercado nacional, a série O Escolhido de 2019 é dirigida por Michel Tikhomiroff, e é produzida pelo estúdio Mixer Films sob a produção executiva dos próprios roteiristas Raphael Draccon e Carolina Munhóz, em parceria com Lanna Marcondes. A produção original distribuída pela Netflix, hoje conta com duas temporadas de seis episódios cada.

CONCLUSÃO
Com um roteiro bastante interessante, O Escolhido é capaz de prender nossa atenção ao menos nos seus dois primeiros episódios, mas creio que dificilmente alguém não vá torcer o nariz e começar a se sentir ainda mais incomodado pelas atuações pouco convincentes. Alguns atores estão muito bem, enfatizando o próprio ‘Escolhido’, que cria um personagem de psicológico complexo que nos gera uma confusão agradável sobre qual é seu real alinhamento moral, no entanto o trio principal parece completamente perdido, fazendo a série descer ladeira a baixo em qualidade. Agora estou curiosos para assistir Niño Santo (2011), já que a O Escolhido ofereceu uma bala doce por fora, mas bem amarga por dentro. A série é recomenda para maiores de 16 anos, e está disponível com suas duas atuais temporadas no serviço por assinatura Netflix.

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NINGUÉM TÁ OLHANDO – SÉRIE DA NETFLIX (CRÍTICA)

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SINOPSE
As pessoas não estão tão abandonadas assim, escondido num plano invisível existe o Sistema Angelus de Proteção aos Humanos, uma grande rede que se espalha pelo mundo inteiro. No 5511º Distrito um novo membro chegava, era Ulisses, um angelus muito questionador, e que diferente de todos os outros, contestava pontualmente cada uma das regras. Após receber a Ordem do Dia enviada pelo Chefe, um angelus deve se dirigir ao seu protegido para acompanhá-lo por todo expediente, enquanto o livra dos perigos sem ser notado. Ao fim do período trabalhado, o angelus deve fazer seu relatório e entregar ao supervisor para que o mesmo seja arquivado. Ulisses entendia o processo mas não conseguia controlar seus impulsos, decidia por si só ajudar os humanos que sentia realmente estar precisando de socorro. Sempre bem intencionado, mas ainda assim quebrando sequências de tradições milenares, Ulisses começava a alterar muito mais a ordem das coisas do que imaginava ser capaz.

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COMENTÁRIOS
Simplesmente por ser uma produção brasileira, muita gente já fica pé atrás. “Ah, vai ser mais uma produçãozinha com cara de novela das nove.” Aí que você se engana, Ninguém Tá Olhando (Para exportação: Nobody’s Looking) possui uma estética, tanto visual quanto de linguagem, muito peculiar. Com um humor ácido e bastante inteligente, arranca gargalhadas até mesmo em situações dramáticas apenas por seus cenários criados absurdos. Ulisses que é interpretado por Victor Lamoglia, é engraçadíssimo nos seus atos atrapalhados e nas expressões quando descobre mais uma vez ter feito besteira. E admito ter me surpreendido muito, quando noto Kéfera Buchmann fazendo um excelente trabalho como atriz. De verdade, eu não consumo o trabalho dela, e o pouco o que eu imaginava era sim baseado apenas em preconceitos dos estereótipos formados pela youtuber teen. Quebrei a cara, e gostei bastante disso.

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Esquetes, stand-up comedy, sitcom, enfim, nada muito focado assim na comédia prende muito minha atenção. Pelo menos não por muito tempo.  Mas assistindo ao trailer de Ninguém Tá Olhando na própria Netflix, senti que aquela ideia tinha um potencial muito bom. Marquei o interesse de assistir quando a série estivesse liberada, e percebendo que eram apenas oito episódios de poucos minutos, decidi conferir. E foi uma experiência sensacional! Excelentes atuações num roteiro muito bem elaborado, e uma produção bem bacana. Com direito a computação gráfica de qualidade e tudo mais! Te dou uma dica, caso ainda esteja de nariz torcido, abandone o preconceito e dê oportunidades a coisas diferentes do que está acostumado a consumir. O único risco é o de você gostar bastante e precisar ocultar de seus amigos trevosinhos que curtiu uma parada brasileira onde estrelam aquela celebridades que todo mundo curte zoar. E o pior, na maioria das vezes pelo mesmo motivo, imaturidade e preconceito besta. Deixei o trailer aí para que dê uma conferida, e gostaria de saber sua opinião nos comentários. Fechado?

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ELENCO E FICHA TÉCNICA
Victor Lamoglia, Kéfera Buchmann, Júlia Rabello, Projota, Danilo de Moura, Augusto Madeira, Leandro Ramos e Telma Souza compõem o elenco. Criada pro Daniel Rezende, Carolina Markowicz, Teodoro Poppovic, Ninguém Tá Olhando é uma série do gênero sitcom lançada exclusivamente para o serviço por assinatura Netflix no fim de 2019. A direção ficou a cargo de Daniel Rezende, diretor também de Turma da Mônica: Laços (2019), conhecido por sua participação em grandes sucessos brasileiros como Cidade de Deus (2002), Tropa de Elite (2007), e até mesmo o estadunidense Robocop (2014) atuando como editor de José Padilha.

CONCLUSÃO
Juntando a galera do Porta dos Fundos, Parafernalha, Julinho da Van, outros bons comediantes, e até mesmo o compositor Projota, Ninguém Tá Vendo foi uma aposta acertadíssima de seus idealizadores! Seu humor é inteligente, original e absolutamente nada pedante. Os diálogos fluem com naturalidade e as situações mais absurdas possíveis arrancariam risadas até mesmo do Chef Érick Jacquin. Pode perguntar pra ele. O sitcom está disponível na Netflix tendo apenas oito episódios de uns vinte minutos cada, e certamente terá uma segunda temporada, já que a história ficou em aberto. Sua classificação etária é de 16 anos, então tire as crianças da sala porque rolam alguns palavrões e pagações de peitinho. Estava sem nada para assistir, então cai dentro desta série que é garantia de sucesso no fim de semana.

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STAR TREK: DISCOVERY – SÉRIE DA NETFLIX (CRÍTICA)

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SINOPSE / PRIMEIRA TEMPORADA
Um século de paz se passava entre a Federação e o Império Klingon, quando durante a investigação em um satélite danificado na borda do espaço amigo, a tripulação da USS Shenzhou encontra um objeto oculto de seus sensores. A primeira oficial Michael Burnham se candidata a investigar mais de perto, descobrindo aquela ser uma antiga nave. Surpreendida e atacada por um klingon, acidentalmente acaba o matando enquanto tentava escapar, o que levou uma facção de klingons ao lamento pela morte do soldado. “Torchbearer” era seu apelido, e antes que o rejeitado Voq se voluntariasse a assumir o seu posto, liderados por T’Kuvma, os klingons se revelavam em uma nave invisível. T’Kuvma então fomenta a ira dos seus pela suposta tentativa da Federação em querer usurpar a individualidade dos klingons e de sua cultura, planejando assim cumprir uma antiga profecia de reunir as 24 grandes casas klingons assim como Kahless fizera no passado. Voq então ativa um farol que convoca os klingons, e Burnham desesperada tentando impedir uma guerra, contraria as ordens da Capitão Georgiou, tenta impedir.

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COMENTÁRIOS
Enquanto alguns evocam Star Wars como uma aventura de ficção científica, os amantes de Star Trek se contorcem de ódio com tal sugestão errônea. Temos de convir, se formos prestar um pouquinho só de atenção, iremos perceber que Star Wars é uma fantasia medieval ambientada no espaço, com história de cavaleiros com espadas, ‘montarias’ e tudo mais, exatamente como os clássicos europeus. Isso nunca fora um assunto obscuro, e sempre fora encarado exatamente assim pelo próprio autor. Por outro lado Star Trek procura ser o mais científico possível, fazendo uso de conceitos críveis, e que nada mais seriam do que uma projeção de evolução. Seus enredos são ficções? Óbvio, mas procurando manter sempre a coerência de se manter como científico em suas concepções de futuro. Então após fazer uma rasa distinção do que seria a franquia para os passageiros de primeira viagem, tentaremos nos focar especificamente em Star Trek: Discovery, a produção originalmente lançada para o serviço CBS All Access em 2017.

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É importante perguntar inicialmente, quais destes três é você? Um: Literalmente um passageiro de primeira viagem e que não faz ideia do que é Star Trek? Dois: Já consumidor de Star Trek, mas aberto a novas reformulações em prol da boa aceitação do público geração a frente da sua? Três: Um fã purista e exigente que não aceitar que toda a essência e filosofia original seja maculada? Bem, pergunto isso porque é a base para saber com que olhos irá encarar esta sétima série da franquia. A primeira temporada de  Star Trek: Discovery se passa no ano 2256 do nosso calendário terrestre, dez anos antes da expedição que origina a série sob o comando de James Tiberius “Jim” Kirk, o Capitão Kirk, líder da USS Enterprise. As iniciais incoerências e inconsistências começam a ser notadas quando colocamos as duas séries lado a lado. Star Trek: Discovery apresenta um nível conceitual de tecnologia absurdamente superior ao que se viria anos depois na série original, o que faz com que os fãs mais puristas e detalhistas se contorçam de agonia. Falha simples que poderia ser contornada com o posicionamento do episódio em outro momento mais a frente na linha cronológica.  A filosofia também fora arranhada, já que diretrizes da Frota Estelar prezam pela não interferência em sociedades ou formas de vida alienígenas, e em Star Trek: Discovery isso não é plenamente respeitado. Então se você é um fã muito radical, eu até acredito que talvez você complete a série, mas com certeza terá de arrumar um peruca ao término.

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Quando consideramos o público cru neste universo, lógico, o que curta ficção científica, não há dúvida alguma de que ficará muito satisfeito. O ponto de partida é recheado de sequências de ação, batalhas espaciais e, a montagem de um cenário atraente até mesmo para quem não é público alvo de Star Trek. Mas não demora muito, e após os três primeiros episódios, Discovery toma rumo à natureza do que realmente é a franquia. A curiosidade de desbravar novos mundos, os conflitos morais entre os personagens, e um capitão destemido estimulando sua tripulação para resolver os problemas mais complexos, tudo que Gene Roddenberry, criador de Star Trek, idealizou para sua obra. Como considerado antes, creio que um ‘trekker’ muito purista vá se incomodar com quase tudo, visto que esta é uma total reformulação da série, quase um reboot. Agora, se você for um fã flexível, que consome o que a maré trouxer, relaxa porque todas as pequenas falhas são aceitáveis e não vão manchar a honra da sua série preferida.

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A produção de Star Trek: Discovery é fabulosa, trazendo um elenco de primeira linha, recursos técnicos tão bons quanto de superproduções do cinema e, uma edição sonora fantástica! Como de esperado, era preciso superar velhos paradigmas, fazendo desta que nunca foi uma série lá muito interessada em se fazer visualmente vistosa, parecer mais agradável aos olhos do público mais moderno. E afirmo, o tiro foi acertado! Trouxe uma roupagem cheia de luxo numa película de alto contraste muito bonita. Suas cenas em computação gráfica são de excelente bom gosto, e em momento algum eu me senti incomodado com falhas de efeitos da pós produção. O roteiro é o típico de série, e essa é uma do tipo contínua, no entanto ainda assim consegue se fracionar com uma boa lógica. Uma outra coisa que também me chamou a atenção foram as cenas de ação, já que Star Trek é famosa por ser uma tristeza nesse quesito. E voe ‘voilà’, que beleza! Coreografia muito bem feitas e, que aproveitam muito bem ângulos e recursos do cenário.

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Uma coisa é certa, os temos são outros e as coisas precisam inovar. Hoje já temos a muito bem sucedida trilogia de J. J. Abrams que já está indo para um quarto filme, e faz bem para a saúde da franquia que a série não se sinta intimidada pelo seu novo carro-chefe. Star Trek: Discovery traz uma boa revigorada ao universo criado por Roddenberry, e junto de Perdidos no Espaço (2018), outra série de ficção científica das antigas que recebera uma nova vestimenta. Se você  ainda nunca assistiu nada de Star Trek, considere-se um privilegiado, pois terá com esse um ótimo ponto de partida. E fique tranquilo se acha que ficará perdido dentro desta franquia gigantesca, tudo em Discovery é explicado, e aos poucos você vai se inserindo. E quem sabe tome gosto para conhecer as produções que antecederam esta. Então aperte o cinto, entraremos em dobra espacial!

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ELENCO E FICHA TÉCNICA
Sonequa Martin-Green, Doug Jones, Shazad Latif, Anthony Rapp, Mary Wiseman, Jason Isaacs, Wilson Cruz, Anson Mount, Michelle Yeoh, Mary Chieffo, James Frain, Jayne Brook, Kenneth Mitchell, Rainn Wilson, Tig Notaro, Ethan Peck, Rachael Ancheril e David Ajala compõem o elenco. Produzida pela CBS Television Studios associada com a Secret Hideout, Roddenberry Entertainment e Living Dead Guy Productions, Star Trek: Discovery tem Gretchen J. Berg e Aaron Harberts como diretores gerais, e Akiva Goldsman como provedor de produção. A série de ficção científica com milhões de fãs pelo mundo veio com um altíssimo nível, sendo premiada em 2018 como a Melhor Série de Televisão pelo Saturn Awards, e que também agraciou Sonequa Martin-Green como Melhor Atriz. Jason Isaacs também foi lembrado pelo Empire Awards, no qual recebeu como Melhor Ator de TV. Star Trek: Discovery até o fim de 2019 possui duas temporadas, 15 episódios na primeira, e 14 na segunda, sendo distribuído no Brasil com o selo Netflix.

CONCLUSÃO
Star Trek: Discovery chega trazendo novos ares para uma franquia repleta de fãs ao redor do mundo. E faz isso modificando alguns poucos conceitos, que a meu ver não deveriam servir para desqualificá-lo dentro do seu universo. Claro, isso é opinião minha. Sua produção é cinco estrelas, trazendo excelentes atuações, roteiro redondinho, efeitos especiais com qualidade de cinema, e uma trilha sonora muito inspirada. Se você tinha dúvidas do que assistir, considere esta uma das primeiras opções na sua lista. Classificada como recomendada para maiores de 14 anos, Star Trek: Discovery está disponível no serviço por assinatura Netflix. Vida longa e próspera!

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NÓS SOMOS A ONDA – SÉRIE DA NETFLIX (CRÍTICA)

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SINOPSE
Tristan é o novo garoto a ingressar numa escola, e logo de cara atrai a curiosidade de outros alunos, afinal, sua forma de falar e agir era bem diferente das pessoas daquele ambiente. Convenções sociais era algo que ele não dava a mínima, em contrapartida não aceitava ver pessoas sofrendo bullying e não tomar partido. E de que forma você acha que ele fazia isso? Acredite, das formas mais inusitadas possíveis! Tristan não tarda em cativar amigos na classe, e eles não são muitos.. na realidade apenas quatro. Lea, uma patricinha que tem um insight realmente libertador, e mais outros três desajustados com problemas sociais distintos, Zazie, Hagen e Rahim, este último um rapaz árabe. O grupo nada ortodoxo de adolescente mostra um sentimento em comum, a raiva pelos rumos que a sociedade vem tomando. O descaso com o meio ambiente, as políticas sociais injustas, e a até mesmo os movimentos neonazistas da vizinhança pesavam na consciência deles. Mas e aí, até com quanto de força se pode bater no establishment?

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COMENTÁRIOS
Nós Somos a Onda (Alemão: Wir sind die Welle / Inglês: We are the Wave) é uma série de televisão alemã que acompanha o drama de um grupo de adolescentes, jovens de origens e classes sociais diferentes que compartilham um mesmo ideal, o de um futuro melhor. Em essência essa é sua premissa, e para darmos continuidade é necessário termos em mente que essa produção tem seu exato público alvo. Harry Potter por exemplo é para o público infantojuvenil, no entanto qualquer adulto é capaz de assistir sem entrar no mérito da maturidade de seu conteúdo. E esse é um conflito no qual entramos e somos expelidos algumas vezes nesta série alemã supostamente adolescente. Inicialmente eu tive uma sensação quase frustrante de estar assistindo algo completamente destinado ao público teen, porém os personagens se desenvolvem e expõem um background maduro o suficiente para interromper esse entendimento. Só que isso é um processo lento, precisando pelo menos alcançar a metade dos seus seis episódios para ser descoberto. O que me leva a impressão que muita gente vai abandonar o barco antes de chegar ao destino.

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Aí eu sou obrigado a voltar na afirmação de que esta série tem seu público alvo. E qual seria ele então? Obrigatoriamente sua audiência precisa ser paciente, ter apreço por um ativismo visualmente anárquico (que se desenvolve à frente (e isso não é spoiler)) e, obviamente não se incomodar com o combate ao conservadorismo (que aqui evolui para um literal fascismo (e isso também não é spoiler)). Quem se enquadra nisso? Bem, eu acho que qualquer pessoa verdadeiramente desconstruída. E já que joguei a semente, então eu explico. Ser alguém desconstruído é você ser tão seguro de si, num ponto onde não se incomoda mais com as diferenças dos outros, e nem mesmo em se expor à julgamentos. Não é o caso de não se importar com nada ou com os outros, mas se importar com o que realmente faz sentido. De que melhor maneira, você, um homem, provoca um outro homem, tão inseguro de si, que maltrata pessoas por sua cor, por seu gênero ou sua etnia, do que lhe dando um beijo na boca? Lhe dando um soco? Não, uma pessoa desconstruída usa a criatividade e tem a ousadia de fazê-lo sem medo de ser julgado. Afinal, para um homem desconstruído o ato de beijar um outro homem não o torna menos viril, mas para um oponente inseguro, este é o maior nocaute que se pode dar. E é exatamente com esse ato que o personagem principal de Nós Somos a Onda mostra o que a série reserva.

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ELENCO E FICHA TÉCNICA
Ludwig Simon, Luise Befort, Michelle Barthel, Daniel Friedl, Mohamed Issa, Milena Tscharntke, Leon Seidel, Bela Lenz, Robert Schupp, Stephan Grossmann, Kristin Hunold, Sarah Mahita, Luis Pintsch, Bianca Hein, Christian Erdmann, Jascha Baum, Nicole Johannhanwahr, Stefan Lampadius, Livia Matthes, Daniel Faust e Leander Paul Gerdes compõem o elenco. Dirigida por Anca Miruna Lăzărescu e Mark Monheim, Nós Somos a Onda de 2019, é uma série dramática que se baseia na novela The Wave de Morton Rhue. A adaptação é compartilhada entre os roteirista Jan Berger, Ipek Zübert, Kai Hafemeister, Thorsten Wettcke e Christine Heinlein. Produzida por Christian Becker e Dennis Gansel, a série fez uso dos estúdios da Rat Pack Filmproduktion e da Sony Pictures Film und Fernseh Produktion. A série chegou ao Brasil sob o selo Netflix.

CONCLUSÃO
Brigar contra o sistema na intenção de fazer do futuro um lugar melhor. E qual melhor época para se fazer isso do que a adolescência? Período onde construímos nossos conceitos morais e temos disposição para seguir os ideais mais ambiciosos. Em Nós Somos a Onda temos um grupo que se encaixa exatamente nisso, e liderados por um rapaz extremamente inteligente e bem intencionado, se veem no clássico dilema de nem sempre saberem ao certo se os fins justificam os meios. Bem, se quer saber que rumos essa história toma, dê aquela conferida. A série é bem curta, contendo apenas seis episódios de uns cinquenta minutos cada. Recomendada para maiores de dezesseis anos, a série tem o selo Netflix e já pode ser encontrada em seu catálogo.

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O DATE PERFEITO – FILME DA NETFLIX (CRÍTICA)

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SINOPSE
A maior ambição na vida de Brooks é ter sucesso no seu ingresso em Yale, uma das melhores universidade dos Estados Unidos. E após a brincadeira de um amigo, o jovem bem educado e despojado, decide criar um aplicativo de namoro de aluguel para faturar uma grana, assim podendo financiar seus estudos. O serviço é personalizado, isso quer dizer que Brooks assume a personalidade que a cliente quiser. Então se alguém precisar causar ciúmes no ex-namorado, ele estará lá. A necessidade é de um entusiasta que lhe acompanhe numa elitizada mostra de arte? É só escrever no pedido, e pronto! Inteligente, espirituoso e bonitão, logo progride em seu empreendimento, porém viver essa vida sem uma identidade própria, lhe faz perceber quais são realmente importantes as coisas na vida.

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COMENTÁRIOS
Eu adoro distopias de ficção científica, suspenses com tramas complexas, dramas de guerra, thrillers com bastante ação, épicos sanguinolentos, e veja você, também curto filmes de comédia romântica que as vezes inicia de forma diferente, mas sempre acaba da mesmíssima forma clichê. Daqueles que logo de cara você já sabe com quem fulano irá terminar junto. Deixe-me explicar, afinal, já que estou me expondo revelando algo que a maioria dos machos alfas levariam para o túmulo, deem-me ao menos a oportunidade de justificar. Eu odeio do fundo do meu âmago (não sei nem onde fica isso) dramas românticos melosos, romances formais almofadinhas (esses estão em extinção, oh glória), e aquelas comédias infantiloides de paixonite adolescente. Tem coisas que realmente não dá! No entanto, não compreendo a razão,  mas acho divertido as histórias de situações onde alguém com algum complexo existencial precisa se superar. Vide uma comédia na qual um maluco é obcecado para entrar em uma universidade, não tem grana pra isso, usa seu poder de seduzência para tal, acaba se enrolando com quem menos imaginaria, e nós, do lado de fora da tela, tínhamos absoluta certeza de quem seria. E vamos ser sinceros, nenhum destes filmes tenciona ocultar isso, é uma convenção que faz parte, até sendo obrigatória para o gênero. Ótimo, consegui explicar a base. Só que isso por si só não basta, ele ainda assim precisa ser um filme inteligente. Como assistindo qualquer outro gênero, eu não quero ser tratado como idiota pelo roteiro. Prezo muito pela qualidade dos diálogos e na coerência dos mesmos. Comédia no meu gosto se trata de um besteirol assumido como Monty Python, ou um humor inteligente com piadas honestas. E O Date Perfeito (The Perfect Date), filme que eu não dava absolutamente nada, e só decidi conferir porque descobri ser um dos mais vistos na Netflix, é exatamente isso!

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ELENCO E FICHA TÉCNICA
Noah Centineo, Laura Marano, Odiseas Georgiadis, Camila Mendes, Matt Walsh, Joe Chrest, Carrie Lazar, Alex Biglane, Blaine Kern III, Zak Steiner, Ty Parker e Wayne Péré compõem o elenco. Dirigido por Chris Nelson, a comédia romântica adolescente de 2019, é baseada na obra The Stand-In de Steve Bloom, que teve adaptação feita pelo próprio Bloom em parceria com Randall Green. A produção norte-americana é de Matt Kaplan e John Tomko, sob os selos dos estúdios Ace Entertainment e AwesomenessFilms. O Date Perfeito é um produto original Netflix, e já está disponível em seu catálogo.

CONCLUSÃO
Se estruturando bastante nas comédias românticas da década de oitenta, O Date Perfeito é uma comédia inteligente e divertida. Não espere um romance adolescente bobo como seu título insinua ser, aqui teremos piadas ácidas, e tiradas bastante inesperadas. A fórmula é aquela clássica, tem mais de trinta e lembra de Namorada de Aluguel (1987) que repetiu centenas de vezes na Sessão da Tarde? Ou seja, na prática é sim um filme romântico, mas daqueles que a gente assiste escondido dos amigos para não admitir que gostou. E olha que quem está falando é um homem hétero que tem John Rambo como inspiração! Quem me conhece sabe o quanto não aceito brincadeiras quanto minha sexualidade, afinal, tenho algumas cuecas vermelhas e rosas sim, e daí?! Enfim, deixe o preconceito bobo de lado, convide seus amigos de infância do colégio, e assistam juntos essa bela história de amor de um rapaz por uma rapariga. E claro, deixe lenços disponíveis para que limpem o suor de suas vistas. Com classificação etária de 12 anos, O Date Perfeito está disponível no serviço por assinatura Netflix.

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CONTATO VISCERAL – FILME DA NETFLIX (CRÍTICA)

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SINOPSE
Will cobria um dos turnos num bar de cidade pequena onde as mesmas figuras carimbadas de sempre se reuniam, porém certa noite um público diferente do cotidiano apareceu. Eram quatro adolescentes que o barman decidiu fazer vista grossa, afinal, pareciam decentes e só queriam tomar umas cervejas. E em meio aos flertes velados de Will à Alicia, que estava acompanhada do novo namorado, uma briga violenta se iniciou entre quem jogava sinuca. Eric, um brutamontes encrenqueiro já conhecido, contra um tal de Marvin, um gigante marombado. A quebradeira foi feia, e um dos garotos que estava lá começou a gravar com o celular, quando Eric foi ferido gravemente no rosto por uma garrafa quebrada. As pessoas conseguiram separar os dois antes que algo pior acontecesse, e com a chamada da polícia, todos fugiram com medo de se meter em mais encrenca. Will olhando o estrago em seu bar nota que o telefone de um dos garotos caiu durante a confusão, e disposto a entregar, coloca no bolso. Chegado em casa, procura uma maneira de desbloquear a tela do aparelho, e tem a ideia de tentar ver o desenho que a marcas de dedo teriam feito. Will responde a mensagem de alguém para aquele celular, se identifica como sendo o barman e que no dia seguinte deveriam ir no bar buscar o objeto perdido. Mas a conversa não para por aí, mensagens e fotos cada vez mais estranhas começam a chegar, desencadeando uma série de situações bizarras.

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COMENTÁRIOS
Não sei como iniciar uma crítica sobre esse filme omitindo tê-lo detestado! Primeiramente ele se vende como um terror, e assim como em Midsommar (2019), outro filme do gênero do mesmo diretor, usa como base o relacionamento conturbado de um casal. Mas diferente do qual eu citei, Contato Visceral (Wounds), não tem nada de assustador ou mesmo aquela estranheza que causa desconforto. O filme com ar de drama em boa parte do seu tempo, acompanha os passos de um homem que vai se revelando cada vez mais problemático, mostrando sua infidelidade, seus vícios, e porque não colocar assim, sua chatura. Will tenta ser engraçado mas não é, e nem essa tentativa de ser, tem alguma graça. Sua esposa não é muito diferente, sempre desconfiada e certamente insatisfeita com o marido, Carrie é colocada em segundo plano na trama. Serve exclusivamente como âncora para embasar o entendimento de Will ser um completo mau-caráter, e é cansativa a artificialidade da comunicação entre os dois. Logo no início do filme, numa situação onde o casal discute sobre a procedência daquele celular, ele simplesmente trava como se admitisse culpa por algo que não fez. E essa incoerência é o que mais incomoda na trama. Quanto ao terror, ele tenta ser algo mais metafórico. E não me levem à mal, essa conversa típica de que se você não entendeu o simbolismo da obra é porque não entrou no clima, ou não teve intelecto para tanto definitivamente não funciona para mim. Basicamente eu vi um filme lento, enfadonho, que o vilão não passava de baratas que se multiplicavam, e o herói deveria ser um dedetizador! Quanto ao seu final, nossa, prefiro nem fazer comentários. Enfim, ainda vale a regra de ouro, você não precisa concordar comigo e nem deve, assista você mesmo e tire suas conclusões.

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ELENCO E FICHA TÉCNICA
Armie Hammer, Dakota Johnson, Zazie Beetz, Karl Glusman, Brad William Henke, Jim Klock, Luke Hawx, Kerry Cahill, Terrence Rosemore e Ben Sanders compõem o elenco. Escrito e dirigido por Babak Anvari, Contato Visceral é um filme de terror lançado em 2019 produzido por Christopher Kopp e Lucan Toh. A obra se baseia no livro The Visible Filth de Nathan Ballingrud. A estrutura de produção é da Annapurna Pictures e da AZA Films, e sua distribuição ficou a cargo do Hulu para os Estados Unidos, e da Netflix para o restante do mundo.

CONCLUSÃO
A percepção que eu tenho, é que chega num determinado ponto em que certos diretores ficam tão confortáveis e seguros das próprias capacidades, que perdem a régua do que pode funcionar. Contato Visceral tem um início enfadonho, com linhas de diálogo tediosas, e que quando culmina no seu elemento central, que deveria ser o terror, já se perdeu totalmente. Fica parecendo que estou pegando no pé, mas não consegui encontrar um elemento ao menos qual pudesse dizer: não, isso aí é legal! Enfim, esse é mais uma péssima produção que a Netflix teve a infelicidade de colocar seu selo de distribuidora. Mas o lance é aquele de sempre, a melhor forma de sabermos se algo é ruim, é conferirmos nós mesmos. Contato Visceral tem classificação etária de 16 anos, e está disponível no serviço por assinatura Netflix.

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MINDHUNTER – SÉRIE DA NETFLIX (CRÍTICA)

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SINOPSE
Ambientada no anos 1970, Mindhunter (Caçador de Mente, em tradução livre) segue a trajetória, inicialmente, de dois agentes do FBI: Holden Ford e Bill Tench. Encarregados do setor de Ciência Comportamental, eles tentam inovar os métodos para detectar e analisar suspeitos e condenados por crimes violentos. Enquanto a agência de investigação se atém ao modelo obsoleto MMO (Meio, Motivo e Oportunidade), Ford e Tench tentam mudar essa linha de abordagem que parece não mais se aplicar ao mundo abalado após a contracultura e dos crimes violentos como os influenciados por Charles Manson.

Desta forma, Holden e Bill teorizam aplicar uma avaliação psicológica mais profunda que acarretará novas questões. Mesclando ciências humanas, como a sociologia e antropologia, eles empreendem diversas entrevistas com indivíduos violentos encarcerados: de assassinos e estupradores até criminosos em série. Para isso, simplesmente perguntando o porquê, seus atos, seu passado familiar os levará a desvendar e analisar cada suspeito. Assim, Mindhunter concentra-se no desenvolvimento de dois homens, dois agentes, e de um novo campo criminal através de histórias que visitam à mente psicopatas e sociopatas.

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ABERTA A TEMPORADA DE CAÇA (análise da 1ª temporada)
Sou um aficionado por série e filme que envolvam serial killers (assassinos em série), paixão que surgiu justamente depois de assistir a O silêncio dos inocentes (1991), o qual nos apresenta a figura icônica de Hannibal Lecter, e Seven – Os Sete Crimes Capitais (1995). Quanto ao primeiro, li a romantização do longa-metragem (1988), também do livro Dragão Vermelho (1981) que fora transformado em filme (2002). Depois de ficar obcecado pelo criador de Hannibal, Thomas Harris, assisti de True Detective (2014-2019), a Hannibal (2013-2015)  e Bates Motel (2013-2016), só para citar as narrativas que mais me chamaram a atenção.

Quando nos deparamos com Mindhunter, percebemos não algo acabado do ponto de vista investigativo. Os métodos não existem ainda. Só temos um jovem agente, Holden Ford, especializado em negociação de reféns que possui a ideia insistente de que é necessário conhecer e preservar a vida de criminosos e vítimas. De que é preciso conhecer a psique do crime em uma época em que todos achavam que mente maldosa e sinistra era algo nato e a loucura encarnada. Sua ideias inovadoras se tornam um fardo para seu chefe, Shepard, que o designa para área de setor comportamental de Bill Tench.

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Por mais que Bill tenha criado a unidade (somente ele trabalhava nela), não havia evoluído muito mais do modelo MMO (Meio, Motivo e Oportunidade). Com um casamento em ebulição devido a adoção de um menino silencioso, rodava os EUA dando palestras aos policiais e ensinando o modos operante do FBI na caça de criminosos violentos. A chegada de Holden, motivado pelas constantes dicas de sua namorada estudante de sociologia, Debbie, faz com que eles acabem entrevistando o primeiro de uma série de assassinos. É analisando os traumas, as motivações e os sentimentos desses “maníacos” que eles se empenharão para montar um modelo a fim de se antecipar e evitar que crimes violentos como aqueles aconteçam.

Para fechar a equipe, a Dr. Wendy, especialista em psicologia criminal de grandes empresários, abandona seu relacionamento lésbico pela certeza de por em prática em situações reais seus estudos e, enfim, fazer a diferença.

Mesmo com os entraves do chefe da unidade, Shepard, Holden e seus métodos nada convencionais e improvisos fazem com que a dupla consiga suas primeiras prisões e alcance certa notoriedade, inclusive angariando fundos do Congresso para um estudo aprofundado. Mas é aí que, talvez, o estrelismo de Ford faz com que seja visto com desconfiança pelos amigos e se distancie de sua namorada. Parece que até os gênios têm seu limite.

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ENFIM, CHARLES MANSON (análise da 2ª temporada)
Depois de Holden ter chegado ao seu limite psicológico, depois de passada a sensação inicial de Super-Homem que não se abatia, não tinha sentimentos diante de tantos assassinos múltiplos, ele se vê confrontado pelo pânico e já não é mais o mesmo. Perdeu o feeling para sondar, interpretar e entrar na mente dos criminosos violentos.

Sua unidade também mudou. A ascensão dos métodos da Ciência Comportamental empreendidas por Ford e Tench causam o afastamento de seu principal opositor: Shepard. Em compensação, o novo diretor quer eficiência nos trabalhos e pesquisas porque anseia por colocar em prática a divulgação dos novos procedimentos de estudo da mente violenta. A pressão é constante e se sobrepõe-se muitas frentes de investigação ao mesmo tempo e abre-se espaço para atuação de todos. Até da Dra. Wendy, que sai de sua zona de conforto, vai a campo entrevistar assassinos.

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O trio de protagonistas tem suas tramas individuais expandidas. Holden nos passa a insegurança de que pode entrar em pane a qualquer momento. Sua mente ainda é brilhante, mas à medida que tem seus métodos apoiados pelo novo chefe da unidade, não encontrar total apoio entre seus amigos. Envolve-se com o um caso de muita relevância nacional: o assassino múltiplo de Atlanta que mata garotos negros de comunidades carentes.

Bill Tench vive em torno de preocupações familiares em relação ao seu filho introspectivo demais. O garoto se envolve com um assassinato culposo (sem intenção de matar). Devido a sua inocência ou premeditação? Essa dúvida permeia a vida de Bill que tem isso como estopim para uma crise no casamento: sua mulher exige sua presença. Já o trabalho necessita de seu dom de relações públicas com os figurões do FBI e ainda precisa fiscalizar o Holden. Uma das cenas mais bem feitas da série é a entrevista com Charles Manson, um dos bandidos mais famosos da contracultura. Interrogar o homem que influenciou jovens da classe média sem antecedentes criminais a cometer uma terrível chacina sempre foi um desejo de Ford. Ele é quase um fã e ainda pega um autógrafo. Mas a cena vale por cada minuto de provocação de Manson em relação a Tench e como as palavras encarcerado mexem com Bill. Notamos como isso reflete nos acontecimentos de sua vida pessoal.

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Wendy, assumindo de vez sua nova vida em Quântico, sai do campo da teoria e, na prática, percebe que há muito que aprender no modos operante de Holden de interrogar os assassinos. Oscila entre os questionamentos acadêmicos, seu novo romance com uma bartender e o fato de ter que esconder de todos que é lésbica. Em um trabalho altamente sexista, machista e que a homoafetividade é vista como comportamento desviante, ela andará na corda bamba continuar seu trabalho ao passo que oculta sua vida privada. Sua amizade com Bill cresce e de certa forma se sente acolhida nessa conjuntura hostil.

Desta forma a 2ª temporada parte muito mais para esfera prática, algo somente ensaiado na primeira que contou somente com a resolução de dois casos sem grande esforço para os agentes. Assim, nesta temporada, vemos a ascensão de um estrangulador de crianças negras, mais um pouco do mistério em torno do assassino BTK, casos que despertarão e exigirão muita perspicácia para chegarem a um ponto final. E, para além da solução mágica que a ficção de serial killers enfoca, nosso agentes terão problemas simplórios como a burocracia e política que impedirão um resultado mais satisfatório.

CURIOSIDADES (bem reiais)

  1. 090_06A série é baseada em dois agentes reais, John Douglas e Robert K. Ressler, que faziam perfis criminais na década de 1970 e que escreveram o livro Mind Hunter: Inside the FBI’s Elite Serial Crime Unit. Assim, as cenas das entrevistas são baseadas nas entrevistas reais com os ditos serial killers, às vezes quase palavra por palavra.
  2. 090_07Um distúrbio que combina com os sintomas que o filho de Bill Tench supostamente exibe é chamado de “mutismo seletivo”. É classificado como um transtorno de ansiedade que afeta até 0,8% de todas as pessoas em algum momento de suas vidas, mais comumente na escola e / ou em ambientes sociais.
  3. 090_08Na Austrália, as duas fabricantes de automóveis históricas e mais competitivas são Holden (marca General Motors) e Ford. O nome do personagem principal é Holden Ford (Jonathan Groff). No episódio 3 da segunda temporada, quando Holden faz check-in no Omni International Hotel, em Atlanta, ele precisa esclarecer à recepcionista que seu sobrenome é Ford, acrescentando: “É uma piada de mau gosto na Austrália. Como aqui”.
  4. 090_09Há um serial killer ativo sendo aludido na série em trechos muito rápidos. Este é Dennis Rader, mais conhecido como O Assassino “BTK”, que matou dez pessoas no Condado de Sedgwick, Kansas, entre 1974 e 1991.
  5. 090_10Em um dos episódios, a Dra. Wendy Carr (Anna Torv) pode ser ouvida perguntando: “O que há na caixa”? Possivelmente uma referência ao filme de David Fincher, Seven: Os Sete Crimes Capitais (1995), no qual o personagem de Brad Pitt faz a mesma pergunta na cena mais famosa do filme. David Fincher também dirigiu quatro episódios da primeira temporada desta série.

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ELENCO E FICHA TÉCNICA
Jonathan Groff, Holt McCallany, Anna Torv, Hannah Gross, Cotter Smith, Stacey Roca, Joe Tuttle, Michael Cerveris, Lauren Glazier, Albert Jones, Sierra McClain e June Carryl  compõem o elenco. Criada por Joe Penhall, a série de 2017, Mindhunter, é baseada no livro Mindhunter: Inside the FBI’s Elite Serial Crime Unit, escrito pelos reais investigadores John Douglas e Mark Olshaker. Seus produtores executivos são Beth Kono, Charlize Theron, Joe Penhall, Ceán Chaffin, Joshua Donen, David Fincher e Courtenay Miles. Seus produtores são Jim Davidson, Mark Winemaker e Liz Hannah, e as gravações ocorreram no Estado da Pennsylvania, nos EUA. Mindhunter é da produtora Denver and Delilah Productions, e é distribuída pelo serviço de assinatura Netflix.

CONCLUSÃO
O importante é ficar de olho nos detalhes e conversas. Como na ciência forense, cada detalhe, cada cena aparentemente desconexa da trama principal acaba por se entrelaçar em algum momento da história: seja um comentário de um entrevistado ou na visão de um homem fazendo nós rápidos. Aliás, as entrevistas, para quem não gosta de diálogos será um entrave, no entanto se conectam com os dramas pessoais do trio Holden, Tench e Wendy e mostram a evolução dos métodos investigativos da Ciência Comportamental.

Se você curte, como eu, os jogos geniais de palavras, a mente dos assassino que beira a naturalização do crime, a banalização do atos homicidas e a confusão serão momentos de pura empolgação. Como li muito Agatha Christie (36 livros para ser exato), a pegada da série me lembra muito dos métodos de Hercule Poirot ao interrogar seus suspeito a procura de pistas. A diferença, claro, é que não falamos da Inglaterra, mas prisões estadunidenses em que os criminosos possuem sempre uma conexão sexual e o dinheiro lhes é pouco relevante. Estão em busca de uma satisfação sádica para seus impulsos primitivos.

Outro ponto interessante é o estilo retrô. Não só porque a ambientação da série se dá na década de 1970, mas porque a fotografia muitas vezes imita a da época e a qualidade da filmagem, as vezes defeituosa ou nebulosa, típica de películas antigas. Isso está presente em vários momentos da série desde uma festa até um passeata pelas ruas de Atlanta.

Como é uma série inspiradas em fatos, o telespectador tem uma sensação ímpar de estar mergulhado em uma “verdadeira” investigação criminal, até onde a ficção pode alcançar. Mindhunter é uma série inteligente e merece mais temporadas, contudo ainda aguarda o sinal verde da Netflix para continuar. São previstas cinco temporadas e já lhe rendeu 5 indicações variadas e o prêmio de melhor ator de drama para Jonathan Groff, pela Satellite Awards. Aventure-se por mentes criminosas e para quem gosta de roteiros precisos, está é uma atração para você matar (ou maratonar) em série. Trocadilho ruim, mas eu deixo assim. Boa diversão!

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FRATURA – FILME DA NETFLIX (CRÍTICA)

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SINOPSE
Ray procura dirigir com extremo cuidado quando está com sua família no carro, e isso irrita Joanne, pois sempre faz com que atrasem nas reuniões familiares. O casamento entre os dois não vai bem, ela acha que os dois estão cada vez mais afastados e que não há diálogo na relação. Ray se sente pressionado, mas admite que talvez esteja realmente numa fase ruim, mas que irá se esforçar mais. Enquanto isso Peri, uma pequena menina no banco traseiro, estava com fone distraída ouvindo música em seu radinho, quando reclama com os pais que o aparelho parou de funcionar. Acreditando ser faltas de pilhas, o pai decide parar num posto de beira de estrada. Joanne vai ao banheiro, e Peri fica com o pai. Num momento de distração, um cachorro aparece, e Peri muito assustada, começa a se afastar lentamente andando de costas, sem perceber que atrás havia um buraco de uma área em construção. Ray ainda tenta acalmar a filha e impedir que o pior aconteça, mas a menina cai com o pai também se jogando para tentar ajudar.

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Joanne volta do banheiro e não encontra os dois, então procura ao redor e os vê caídos no fundo daquele poço. Ray desmaiou após bater a cabeça no concreto, e acorda atordoado, se esforçando para recobrar a visão e consciência. De pé novamente, verifica que a filha parece bem, mas sentindo uma forte dor no braço. Toma-a no colo, e voltam depressa para estrada, lembrando que poucos quilômetros atrás tinham passado por um hospital. Ray dá entrada para o atendimento da filha e, há um pouco de desentendimento por conta da demora, mas finalmente Peri é atendida. É pedido ao pai que aguarde um pouco, porém horas se passam e ele estranha a demora. Retorna à recepção para entender o motivo de tanta demora, e lhe é contado que nenhuma criança com aquele nome havia dado entrado para atendimento. Não acreditando no que acabara de ouvir, passa a desconfiar que aquele hospital tivesse feito algo com a sua família.

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COMENTÁRIOS
Filmão! É sensacional quando aparece uma pérola tão valiosa assim e sabemos que custou tão barato. Fratura (Fractured) é um filme que consegue explorar de forma muito criativa, umas mil maneiras de subverter segundo à segundo nosso julgamento da narrativa. Utilizando de um conta gotas para soltar informações, vamos precisando de unhas e mais unhas alheias para ter o que roer enquanto não descobrimos a real verdade verdadeira. Está rindo? Você não riria se já tivesse assistido. Escrito por Alan B. McElroy, é Brad Anderson, responsável por O Operário (2004), que dirige e consegue criar essa atmosfera intrincada de mistério. Em Fratura não tem calmaria, nosso cérebro fica numa constante caótica se esforçando para não ser enganado. É Sam Worthington, o Perseu de Fúria de Titãs (2010), que se supera e entrega, na minha opinião, a melhor atuação de sua carreira. Sua atuação esbanja personalidade e convencimento, transformando-se no principal ingrediente desta magnífica receita.  Se gosta de ter sua sagacidade desafiada por complexos mistérios, cai dentro, Fratura é o filme perfeito para você! É ver para crer!

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ELENCO E FICHA TÉCNICA
Sam Worthington, Lily Rabe, Stephen Tobolowsky, Adjoa Andoh, Stephanie Sy, Lucy Capri, Lauren Cochrane, Crystal Magian, Derek James Trapp, Dennis Scullard, Natalie Malaika, Will Woytowich, Erik Athavale, Megan Best, Chris Sigurdson e Ernesto Griffith compõem o elenco. Escrito por Alan B. McElroy, Fratura, filme original da Netflix de 2019, é dirigido por Brad Anderson. A produção de Neal Edelstein, Mike Macari e Paul Schiff, se dá pelas produtoras Koji Productions, Crow Island Films, Macari/Edelstein e Paul Schiff Productions.

CONCLUSÃO
De um tempo pra cá a Netflix vem trazendo produções bem melhores que as bombas que estava soltando um tempo atrás, e Fratura não é só um filme honesto para o catálogo, é definitivamente excelente! O drama e suspense é repleto de quebra-cabeças para nos distrair do começo ao fim, não há descanso, ficamos tão compenetrados na trama que nem notamos quando acaba. Esse é um trabalho em trio, do roteirista Alan B. McElroy, do diretor Brad Anderson e de Sam Worthington, que deu uma enorme qualidade para um personagem complicadíssimo. Assistir Fratura me fez ter um sentimento nostálgico da época em que o Supercine da Globo só passava coisa realmente boa. Geralmente não eram superproduções, mas tinham roteiros bacanas e com uma com uma ótima história cheia de mistérios para contar. Com classificação etária de 14 anos, Fratura está disponível no serviço por assinatura Netflix.

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ELI – FILME DA NETFLIX (CRÍTICA)

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SINOPSE
Eli é um menino de 11 anos portador de uma doença autoimune que o leva a ter uma vida difícil, precisando sempre se manter em locais hermeticamente descontaminados para continuar a viver. Toda vez que se expõe, sua pele apresenta uma vermelhidão alérgica, machucando-o como uma grave queimadura. Seus pais, Paul e Rose, descobrem uma clínica que oferece um procedimento experimental, e investem todas suas economias para poder dar uma vida melhor ao filho. O local é uma enorme mansão isolada numa distante região rural, um imóvel enorme e inteiramente protegido dos contaminantes do exterior. Lá a criança é submetida a dolorosos procedimentos médicos, enquanto paralelamente a isso, uma série de fenômenos sobrenaturais começam a acontecer, e se tornando cada vez mais bizarro, Eli começa a questionar se realmente pode confiar  naquelas pessoas.

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COMENTÁRIOS
Enquanto em Jimmy Bolha (2001), Jake Gyllenhaal traz uma visão otimista e divertida das complicações de ser uma criança que precisa viver dentro de uma bolha, em Eli (2019), as coisas não são tão simples e positivas assim. Eli é um menino bastante inteligente que compreende sua própria situação, mas mesmo assim sofre demais com suas limitações. Como uma criança normal, ele gostaria de poder sair de casa para aproveitar as coisas simples sem se preocupar, e o fato de não poder fazer isso, lhe gera muita angústia. Não bastando as dificuldades que lhe atormentavam a vida, ainda sofre com a falta de empatia daqueles que o veem com estranheza devido ao curioso traje plástico que precisa vestir quando está fora de casa. O sadismo e deboche dos outros tiram-no do sério, fazendo com que precise ser acalmado pelos pais, de quem é totalmente dependente para tudo.

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Eli tem uma atmosfera pesada e instigante, começando tímido, vai moldando ambientes e plantando cada vez mais confusão na audiência. Elementos aparentemente desconexos são gradualmente inseridos, e causam cada vez mais estranheza. A trama que se inicia como um drama, toma rumos no suspense e no terror, e até o último minuto sustenta mistérios inimagináveis. Seu roteiro é bastante criativo, e junto com Fratura (2019), lançado quase simultaneamente, ambos pela Netflix, conseguem convencer numa trama extremamente bem escrita. Esse é daquele filmes que é muito perigoso fazer comentários acerca de seu decorrer, mas o que ainda dá para ser dito, é que em certos momentos aparenta que estamos assistindo apenas mais um filme de terror bobo e cheio de jogos de iluminação e jump scares, e de certa forma ele parece não ocultar querer parecer ser isso. Não seja ingênuo, aqui temos um diretor perspicaz e experiente em filmes de terror com mistério, esta é uma obra que vai te surpreender bem mais do que imagina. Digo isso assumindo ser um cara chato e exigente com filmes de terror, quando a coisa não tem conteúdo e é só baboseira, já sento o malho sem pena. Deixo um alerta, não recomendo procurar muita coisa sobre este filme na internet, sejam críticas, material promocionais, e nem mesmo imagens em sites de buscas, acredite, o potencial é enorme de você estragar sua experiência com spoilers não intencionais.

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Charlie Shotwell está excelente interpretando Eli, onde atua com muita naturalidade, conseguindo convencer em momentos de medo, dúvida ou raiva. Já Sadie Sink, a menina ruiva de Stranger Things, é mais do mesmo, e não traz grandes feitos. Kelly Reilly e Max Martini, os pais de Eli, fazem uma boa atuação, assim como a chefe médica Lili Taylor. A direção de Ciarán Foy é inteligentíssima, o cara realmente sabe induzir com que pense exatamente o que ele quer. Você vai ter certeza de que está confortável com uma ideia, e como um um guindaste de demolição, o roteiro faz desabar todas suas convicções quando você menos imaginar.

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ELENCO E FICHA TÉCNICA
Kelly Reilly, Sadie Sink, Lili Taylor, Max Martini, Charlie Shotwell, Deneen Tyler, Katia Gomez, Austin Fox, Kailia Posey, Parker Lovein, Lou Beatty Jr., Jared Bankens, Nathaniel Woolsey e Mitchell De Rubira compõem o elenco. Escrito por David Chirchirillo, Ian Goldberg e Richard Naing, Eli é um filme de drama e terror de 2019 dirigido pelo experiente Ciarán Foy, responsável também por A Entidade (2012) e Citadel (2012). A produção é dividida com Trevor Macy e John Zaozirny, utilizando os estúdios produtores Paramount Players, MTV Films, Intrepid Pictures e Bellevue Productions. Distribuído pela Paramount Pictures, e pela Netflix, o longa teve um orçamento modesto de 11 milhões de dólares. Eli está disponível através do serviço por assinatura Netflix.

CONCLUSÃO
Flertando com o drama mas descambando para o terror, Eli lida com seu gênero principal de forma bem peculiar. Não é o tipo de filme que se diz que com segurança ser capaz de agradar qualquer público, seu formato, e principalmente sua conclusão, tem potencial enorme de trazer desconforto à algumas pessoas. Seu roteiro inteligente e seus plot twists, são seus principais atrativos, mas não se pode afirmar que seu desfecho seja surpreendente. Como disse antes, eu sou uma pessoa exigente com filmes desse gênero, e esse acertou em cheio para mim! Mas como gosto é algo muito pessoal, recomendo muito que você assista e tire as próprias conclusões. Lembrando, a surpresa eu garanto que você terá! Recomendado para maiores de 16 anos, Eli é uma produção original Netflix, e já está disponível. Tenha um ótimo filme!

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BLACK – SÉRIE DA NETFLIX (CRÍTICA)

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SINOPSE
Kang Ha-ram é uma jovem mulher que desde a infância sofre bastante com um infeliz dom. Capaz de ver espíritos por todos os lados, precisa estar sempre de óculos escuros para camuflar os vultos espectrais e não acabar enlouquecendo. Em outro canto da cidade está Han Moo-gang, um detetive extrovertido e dedicado ao trabalho que acaba morrendo durante o cumprimento do seu dever. Seu corpo então é levado ao necrotério, e lá ele é possuído pelo Ceifador Nº 444, uma entidade implacável e sem compaixão que encaminha os vivos para o mundo do morto. Assumindo o corpo de Han Moo-gang, ele procura manter o disfarce como detetive, enquanto parte no encalço de seu pupilo renegado, do qual é responsável, e que também se apossou de um corpo humano morto.

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COMENTÁRIOS
Black (블랙) é uma produção sul-coreana que mistura elementos como drama, romance, policial, mistério, fantasia, comédia e ação, e por todos os gêneros por onde transita, o faz com muita presteza e originalidade narrativa, mesmo englobando tantas categorias. Por incrível que pareça o senso de humor dos sul-coreanos não é muito diferente de nós brasileiros, eles estão sempre rindo, sempre solícitos, algo bem diferente do que faria sentido, uma vez que o recebe forte influência cultural norte americana, um povo bem introspectivo. Isso é algo que sempre acho bacana de observar, seja em qual tipo de mídia for, a expressão natural de humanidade de uma cultura, e os sul-coreanos não se preocupam com isso. Fazem suas graças seja onde for, estando seguros de não dever satisfação por seus comportamentos a ninguém. Do jeito que realmente deve ser!

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Explicado um pouco sobre esse grau de naturalidade com o qual esse povo tão distante se mostra, fica mais fácil dizer que tudo em Black é fluído. As atuações e diálogos são impressionantes. Esse é o tipo de série que verdadeiramente te distrai, sendo capaz de te empurrar para uma maratona sem nem perceber. Divertidíssimo, porém de bastante tato quando há necessidade de mais seriedade, a narrativa traz muito sobre dilemas familiares, lutos, superações e, sempre que o faz, somos afetados pela emoção que esse elenco consegue transbordar. São profissionais que realmente encarnam seus personagens e dão o máximos de si. O roteiro de Black consegue se manter firme pelos seus dezoito episódios, onde cada um deles tem entre 68 e 87 minutos. Achou longo? Acredite, você nem consegue notar que esse tempo todo passou.

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Com uma produção polida, o ‘K-drama’ (produções sul-coreanas lançadas em série para TV), que erroneamente é chamado por muito gente de ‘dorama’ (produções japonesas), não apresenta muitas falhas. Seu roteiro bem amarrado tem uma direção competente, executando cenas de ação bastante empolgantes. As lutas e perseguições são bem coreografadas, mesmo com as rígidas normas de trânsito do país, o que traz uma boa dose de adrenalina. Acho que é óbvio, mas digo tudo isso considerando esta ser uma série, e não um filme, que é bem mais compacto e fácil de editar.

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ELENCO E FICHA TÉCNICA
Song Seung-heon, Go Ara, Jae-young Kim, Kim Dong-jun, Lee El, Won-hae Kim, Jo Jae-yoon, Choi Min-chul, Park Doo-sik, Kim Tae Woo, Chul-min Lee, Jae-Ho Heo, Seok-yong Jeong e Choi Won-hong compõem o elenco. Com roteiro de Choi Ran, a série é dirigida por Kim Hong-sun. Obra do sul-coreano Studio Dragon, tem produção executiva de Kim Jong-sik e Song Jae-joon. Estúdio esse também responsável por outras séries já resenhadas aqui, como The K2 (2016), Tunnel (2017) e Stranger (2017). Na Coreia do sul, Black, foi distribuída pela Orion Cinema Network, mais conhecida como OCN, e foi internacionalizada pelo serviço de assinatura Netflix. Lançada em 2017, a série, que de forma correta deve ser tratada como um K-drama, possui dezoito episódios, e até onde se compreende, tem sua história concluída, dificultando a possibilidade de continuação.

CONCLUSÃO
Embora eu ainda não tivesse feito a resenha sobre nenhuma produção sul-coreana até o momento, já assisti muitas coisas do país, e estou seguro em afirmar, esta é uma das melhores e mais divertidas séries daquelas bandas. Tendo uma história muito intrigante, ela te prende em assistir sequencias de episódios de mais de uma hora cada sem nem perceber. Uma produção muito boa que acertou em cheio em seu roteiro e direção, e que fez mais bonito ainda na escolha de seu elenco. Black tem drama, romance, policial, mistério, fantasia, comédia e ação, e não se engane achando que uma série com tantos gêneros misturados não tem condições de ser bom em tudo que propõe. Muito pelo contrário, os caras acertaram e fizeram bonito em tudo! Duvida? Te desafio a assistir pelo menos o primeiro episódio e não se apaixonar por este K-drama. A série é recomendada para maiores de dezesseis anos e está disponível no serviço por assinatura Netflix.

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GLITCH – SÉRIE DA NETFLIX (CRÍTICA)

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SINOPSE
A polícia da pequena e pacata cidade Yoorana recebe um chamado de perturbação no cemitério, então o Sargento James Hayes parte a caminho. Sete pessoas por conta própria simplesmente saíram de seus respectivos túmulos, não com os corpos em decomposição ou coisa do tipo, mas com plena saúde. O policial então sem compreender exatamente o que estava acontecendo imagina que aquelas pessoas estavam sob efeito de drogas ou participando de algum ritual esquisito. James encontra cinco deles, e os leva para a clínica Elishia McKellar, os outros dois tomaram rumos diferentes pela cidade sem que ele notasse.

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Havia algo ainda mais estranho do que gente nua cheia de terra num cemitério, após todos serem atendidos e limpos na clínica, James reconhece um deles como sua falecida esposa, Kate Willis. Incrédulo e nervoso, fica atônito diante daquela situação, no entanto o sentimento da saudade faz com que ignore toda a estranheza e aceite aquilo como um milagre. A noite caótica exigia que James pensasse rápido, as autoridades não podiam tomar ciência de nada, sabe-se lá o que fariam com eles. Aquelas pessoas aos poucos iam recobrando algumas memórias, e era descoberto que cada um morreu em épocas bem diferentes. Tornou-se pessoal, ele precisava entender porque aquilo estava acontecendo, ao mesmo tempo que precisava fazer de tudo para mantê-los protegidos.

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COMENTÁRIOS
Glitch é uma série australiana que estreou em 2015 pelo serviço de assinatura Netflix, e se concluiu com três temporadas de seis episódios cada. Com uma temática de drama, paranormal e muito mistério, a produção mostra muita qualidade e personalidade em seu desenvolvimento como história. Não espere nada assustador ou sombrio, a temperatura aqui é outra, e foca muito mais nos mistérios do porque aquilo tudo aconteceu, e em repentinos flashbacks de cada um daqueles indivíduos para que recordem suas memórias. O que mais me surpreendeu em Glitch foi o entrosamento excepcional dos atores. Não existe elo fraco, todos se saem bem e conseguem entregar uma performance sem máculas.

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O roteiro do trio de escritores, Louise Fox, Kris Mrksa e Giula Sandler, é bem fechado, mantendo a coerência por todas as três temporadas, e combinado à excelente direção de Emma Freemanm, faz ser muito merecido os vários prêmios que a série recebeu. A trilha original de Cornel Wilczek é um espetáculo à parte, e também foi premiada. A fotografia australiana traz ainda mais autenticidade e identidade para a produção, com tomada aéreas muito bonitas e cenas panorâmicas espetaculares. A cidade de Yoorana é fictícia, e suas gravações ocorreram em Victoria, sudeste da Austrália. Glitch finalizou nesta terceira temporada lançada em 2019, e uma coisa incomodou muitos os fãs, a Netflix não deu ênfase alguma. O que se passa na cabeça dos executivos que não valorizam nem seus trabalhos originais? Ainda mais se tratando de uma série muito bem aceita pelo público. Enfim, esmiuçar esse assunto fica para outra hora, mas realmente é revoltante.

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COMENTÁRIOS COM SPOILERS
Mistérios e mais mistérios! Fiquei com a pulga atrás da orelha pelos dezoito episódios, e queria muito um décimo nono para me desenhar que raios eu preciso entender! Sou o tipo de pessoa ansiosas que precisa sim da visão conceitual do autor, por mais que ele considere ‘o charme’ deixar algumas questões em aberto. Mágica? Ciência? Cadê o outro lado? Tem um outro lado? Quem ou o que orquestrava e definia todas as regras para a sinfonia da natureza? Deus? Fiquei agoniado querendo essas explicações e acreditava até o último segundo que as teria. E não tive! Tem dois dias que terminei de assistir e ainda estou arrancando cabelos. Fiquei por um fio de chutar o balde e praguejar pelos quatro cantos do mundo o quanto essa série é horrorosa, mas seria mentira. Seria apenas eu putaço querendo minhas respostas. Me diz você aí que já assistiu, o que achou do final? Tem sua teoria? Ajuda aí esse cara que não tem religião, é cético pra cacete com tudo, mas quer um ‘ah, é isso’ para se agarrar. Essa série é horrível! Não vê não! mentira, é boa. Saco!

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ELENCO E FICHA TÉCNICA
Patrick Brammall, Genevieve O’Reilly, Emma Booth, Hannah Monson, Sean Keenan, Daniela Farinacci, Ned Dennehy, Rodger Corser, Emily Barclay, Andrew McFarlane, Aaron McGrath, Rob Collins, Pernilla August, Luke Arnold, James Monarski, John Leary, Anni Finsterer, Lisa Flanagan, Leila Gurruwiwi, Robert Menzies e Greg Stone compõem parte do elenco. Escrito por Louise Fox, Kris Mrksa e Giula Sandler, Glitch foi dirigido por Emma Freeman. A produção fica por conta de Noah Burnett e Noah Fox, com Tony Ayres servindo como produtor executivo. A série recebeu o Prêmio AACTA nas categorias Melhor Série de Drama e Melhor Trilha Sonora Original. Também recebeu dois Prêmios Logie nas categorias Melhor Série de Drama e Melhor Direção em Série de Drama.

CONCLUSÃO
Se gosta de um mistério, não pense duas vezes, cai dentro porque Glitch é conteúdo para você! A série te prende com naturalidade, fazendo com que tenha disposição, e caso tenha tempo também, maratone seus dezoito episódios rapidinho. Já concluída na terceira temporada, a obra está disponível com exclusividade no serviço por assinatura Netflix. Sua classificação é de dezesseis anos, aborda alguns temas delicados e tem cenas de nudez, mas tudo sem recorrer a extremos. Portanto se tem um moleque de uns doze anos, consciente dos paranauês básicos da vida, pode colocar ele do seu lado no sofá e curtir de boa. Boa série para você!

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SPECIAL – SÉRIE DA NETFLIX (CRÍTICA)

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COMÉDIA SEM GARGALHADA OU APELO A REPRESENTATIVIDADE?
COMENTÁRIOS COM SPOILERS

A série Special da Netflix ingressa com uma proposta que tem tudo para dar certo, mas será que deu? Parecendo intencionar a atração de espectadores pertencentes à grupos de diversidade étnica, de gênero, de classe social, de estereótipos e por aí vai, a trama conta com tudo que é socialmente colocado em pauta ano após ano no que diz respeito à alvos de críticas preconceituosas.

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Só pra começar, nosso personagem principal consegue unir as seguintes características: deficiente motor com paralisia cerebral, gay, nerd, virgem, imaturo, dependente da mãe e auto-comiserativo (coitadinho de mim, não sou um “ganhador de bolinhos de graça” – Free Cupcakes – um termo bem bobinho para chamar alguém de “sortudo”). Um personagem desses podia ter muita história pra contar, não acham? Pois é, mas não tem. Pasmem, o personagem parece diretamente saído de uma bolha de oxigênio e cuspido na “vida real” por si próprio. E a “vida real” está entre aspas porque eu estou até agora tentando descobrir quem vive daquele jeito.

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Aí encontramos a personagem que se torna a melhor amiga do protagonista: A latina curvilínea que vive para manter a aparência de amor próprio (no Instagram e nos artigos que escreve para a agência que trabalha) e que está falida por causa das roupas caras e salão de cabeleireiro que frequenta para poder manter sua pose de rica. Sim, eu não usei nenhuma palavra que não tenha sido expressa pela personagem, a própria se define desse jeito. De longe sacamos uma referência com a famosa Kim Kardashian, homônima da personagem, consegue acreditar? Pois é verdade. E não termina por aí.

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Ainda temos a famosa personagem “mãe solteira cinquentona carente sem namorado há uns 20 anos”. Sério. Abordaram essa temática da pior forma possível, mostrando a mulher como uma infeliz por não ter tido relacionamento para cuidar do filho deficiente, que abdicou de muita coisa para sustentar a cria – acreditem, eu sei do que estou falando. E quando é que ela acha que tirou a sorte grande??? Claro que vocês vão adivinhar, ela se deparou com um (outro estereótipo, lá vamos nós) “cinquentão gato branco de cabelo estiloso e olhos azuis, bombeiro aposentado e maconheiro”. Uau que mistura incrível né? Até mostrar que por trás da “beleza de príncipe” é um cara autoritário, que gosta de fazer as coisas do jeito dele e que (pasmem de novo) não consegue aceitar as crises de histeria da mãezona e dá um pé nela porque “não quer namorar o filho babaca” da mesma. Sim, foi uma fala também. Dá pra acreditar? – pausa para náuseas.

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Entre tantos clichês ainda temos a “loira arrogante metida rica socialite solteirona maluca extravagante insensível”, outra “loira burra retardada abortista” e o “negro gay gostoso crossfiteiro” ou ainda um “gay loiro nórdico marombeiro” – tem pra todos os gostos. Gente, é uma lástima. Não dá pra dizer que existe enredo, e se existe, é completamente fútil. As piadas são fracas, os personagem são caricatos e parece uma tentativa de paródia de uma vida real que nem faz sentido. Conseguem entender?

É uma série que tenta te transmitir alguma emoção (nem tenho tanta certeza assim), mas que a piada não é engraçada, o drama não é comovente, a raiva, o tesão e a identificação passam batidos. Dá pra dizer que a série foi feita por um cérebro sem mente para mentes sem cérebro. E olha que com tanta diversidade poderia ter rendido muito mais conteúdo. Não foi o que aconteceu. Decepcionante. E sim, a temporada inteira é água com aspartame – nem açúcar rola ali.

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NOTAS SOBRE A SÉRIE
Classificada como comédia, foi baseada no livro I’m Special: And Other Lies We Tell Ourselves (2015) de memórias do próprio protagonista, que escreve e atua como produtor executivo da série, Ryan O’Connell. Ou seja, segundo ele, é baseado em fatos reais.

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ELENCO
Ryan O’Connell, Jessica Hecht, Punam Patel, Marla Mindelle, Augustus Prew, Patrick Fabian, Kat Rogers, Jason Michael Snow, Brian Jordan Alvarez e Gina Hughes.

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THE I-LAND – SÉRIE DA NETFLIX (CRÍTICA)

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SINOPSE
Dez pessoas acordam numa praia sem saber os próprios nomes ou lembrando de qualquer outra coisa, e sem tardar descobrem que aquela ilha esconde diversos mistérios e perigos. Será necessário que deem o melhor de si para resolver com seus enigmas, além de lidar com as intrigas do grupo. Todos precisarão dar o máximo para conseguir sobreviver aos extremos desafios físicos e psicológicos daquele lugar.

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COMENTÁRIOS
Pensei em mil maneiras de pegar leve com esta série, mas realmente não tem condições. A vontade que dá é de só fazer uma lista e sair dizendo tudo que é ruim por esse e aqueles outros motivos. Mas vou procurar seguir o padrão das críticas.

Imediatamente nos minutos iniciais do primeiro episódio o que notamos é uma tentativa deslavada de reencarnação de Lost. Porém, a única coisa que podemos dizer que as duas séries tem claramente em comum, é uma ilha misteriosa. The I-Land não tem personagens inteligentes, não tem carisma, não tem coerência narrativa, e o principal e mais grave, as atuações são terríveis! Eu não consigo lembrar de nada tão horroroso quanto isso. Anthony Salter é o nome do criador, e me pergunto de onde ele tirou as péssimas ideias que arrumou. Você consegue imaginar alguém pegar uma concha marinha e utilizá-la como megafone ou “berrante”? Bem, Salter parece ter visto sentido nisso, porque é exatamente o que a Kate genérica decide fazer, e claro, deu certo. Errado somos nós que nunca pensamos em fazer isso com uma concha.

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Persistindo ainda na comparação com o controverso Lost, o personagem de Alex Pettyfer, claramente faz referência ao Sawyer, bonitão, canastrão e de comportamento imprevisível. E qual motivo disso? Eu não sei. Só sei que o carinha do Eu Sou o Número Quatro já não é grande coisa atuando, e com um texto tão ruim quanto o que recebeu, eu senti um pouco até de pena. Sawyer era um pilantra, mas você enxergava o ser humano no personagem, mas em Brody você não nota nada. E o mais surreal, é o personagem ser um cara tão sem caráter, e mesmo assim conseguir convencer os outros de que é gente boa sem precisar de nenhum esforço para isso. Aliás, o único sentimento que eu tive era o de querer que aqueles dez personagens horríveis morressem logo para devolver a paz para a ilha.

A coisa é tão mal pensada que uma série de primeira temporada pequena, apenas sete episódios, possui em seu trailer oficial uma quantidade enorme de spoilers que frustra qualquer expectativa de reviravolta. Se a sinopse é pragmática em dizer que um grupo de dez pessoas sem memórias precisa sobreviver numa ilha misteriosa, faria sentido contar no trailer que aquilo tudo na verdade não passava de uma simulação? Faria sentido mostrar um grupo de pessoas dentro de uma sala de monitoramento acompanhando cada passo do grupo fazendo o uso de diversas câmeras escondidas pela ilha? O nome disso é pretensão. No fim das contas essa é apena uma série de baixa qualidade, sem personalidade alguma ao querer copiar outra. Tem conceitos ridículos, atuações deprimentes, e que força situações constantes que não fazem sentido algum.

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ELENCO E FICHA TÉCNICA
Natalie Martinez, Kate Bosworth, Ronald Peet, Kyle Schmid, Sibylla Deen, Gilles Geary, Anthony Lee Medina, Kota Eberhardt, Michelle Veintimilla e Alex Pettyfer compõem o elenco. A série foi criada por Anthony Salter, e tem como produtores executivos Neil LaBute, Chad Oakes e Mike Frislev. A produção norte americana é de 2019, e foi lançada para o catálogo  de setembro da Netflix.

CONCLUSÃO
Quando assisti ao trailer fiquei curioso, afinal, era fã de Lost do tipo de perder tempo no Orkut olhando em fóruns sobre os mistérios daquela ilha. E daí pensei: “olha, essa série tem jeito de Lost, vou conferir”. Eu deveria ter ficado quieto na minha. Essa série é um total embuste! Antes de terminar o primeiro episódio eu já estava arrancando os cabelos de raiva. Tudo em The I-Land é terrível! Se o roteiro, conceito e atuações não prestam, o que sobra? Ah, já sei. A fotografia é muito bonita. Se você quiser assistir um cartão postal, vai fundo, porque de Lost só ficou a presunção mesmo. Não recomendo nem para meu pior inimigo.

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LEILA – SÉRIE DA NETFLIX (CRÍTICA)

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SINOPSE
O ano é 2047, e o território da Índia agora é chamado de Aryavarta. Uma nação onde extensos muros dividem comunidades, separando castas consideradas puras das impuras, nas quais umas possuem mais privilégios do que outras. Nesse futuro distópico de desigualdade, a água limpa se tornou escassa, e cerceada pelo Estado, apenas os considerados puros tem melhor acesso. O Governo é regido por Dr Joshi, um totalitarista sádico que recebe denúncias de simpatizantes, e usa de violência física e psicológica para ‘purificar’ a sua idealizada Aryavarta.

Nesse cenário de tensão, Shalini, uma mulher comum mas de vida privilegiada, tem sua casa invadida, seu marido assassinado de forma brutal e, é levada à força, enquanto sua filha era deixada para trás. Segundos as regras estabelecidas por Dr Joshi, a mulher havia se casado com um muçulmano, e portanto havia se tornado impura. Assim como outras, Shalini é levada uma clínica de bem-estar feminino, local onde de forma cruel e covarde, sofre todo tipo de maus-tratos e humilhações. Elas abandonam suas individualidades e precisam se enquadrar no padrão comportamental de submissão, no qual um sistema misógino e tirano, às obrigam a obedecer vexatórios ritos até estarem aptas a oportunidade de provarem estar prontas para voltar a sociedade como mulheres puras.

Dois anos se passam e, Shalini nota que as crianças consideradas ‘mestiças’, as nascidas de relacionamentos inapropriados, eram levadas para um desconhecido paradeiro. Passa então a ficar bastante preocupada com o paradeiro de sua filha, e faz de tudo para conseguir sair daquele lugar.

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COMENTÁRIOS
Logo de cara é impossível não fazer a comparação óbvia com a série norte americana O Conto de Aia (The Handmaid’s Tale, de 2017), principalmente pela semelhança estética e da atmosfera claustrofóbica e melancólica. Leila também conta sobre um futuro similarmente distópico, no qual um governo totalitário e opressor, subjuga mulheres para que se enquadrem nos padrões de dona de casa, submissa e procriadora. Mas diferentemente da série ocidental que foca muito no cenário estrutural político, esta prioriza o drama pessoal de Shalini, negligenciando explicar os fatores que levaram a sociedade chegar naquele formato ditatorial.

Uma  das coisas que me incomodou bastante nesse começo de série, é o fato daquele grupo de mulheres não oferecerem resistência alguma aos seus opressores. Não há uma gerência e muito menos união para planejar uma fuga. Faria sentido ao menos que conspirassem para melhorar aqueles períodos tortuosos de cárcere. Mas não, é pressuposto que todas cuidam apenas dos próprios interesses, e cada uma é responsável pela própria saúde física e mental. No início Shailini e Pooja ainda esboçam o ensaio para tal, mas logo a cumplicidade é abandonada voltando cada uma a cuidar do próprio nariz.

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Ao mesmo tempo que esta é uma série endereçada ao público de O Conto de Aia, imagino que esse conceito praticamente copiado, deixe tal público bastante desconfortável. O romance do indiano Prayaag Akbar foi publicado originalmente em 2017, enquanto O Conto de Aia é uma obra de Margaret Atwood lançada em 1985. Me pergunto se os produtores de Leila não imaginavam que essa grande semelhança, junto com a oferta das série em datas tão próximas, não poderia prejudicar bastante o marketing da produção indiana. A repercussão não vem sendo nada favorável, visto que além da já citada comparação, Leila não traz grande qualidade de roteiro e direção. Seu ritmo é lento e cansativo, fazendo parecer os seis episódios com uns 40 minutos cada, parecem uma eternidade. As atuações também são apenas aceitáveis, não temos ninguém se destacando.

Na Índia existe um conflito ideológico e religioso muito grande entre muçulmanos e hinduístas e, Leila explora isso de forma muito arriscada, uma vez que deturpa uma série de elementos de ambas as religiões. Para uma nação tão ortodoxa assim, essa é uma série que se complica até para seu público doméstico. Fica a questão: Leila é bom? Eu particularmente tenho certa dificuldade em endossar obras embasadas em tons melancólicos, mas ao mesmo tempo gosto de conhecer conceitos distópicos diferentes. A pena fica por conta desse ponto não ser merecidamente explorado, e isso é uma pena. Então respondendo minha própria pergunta, eu acho que não sou fã desta série.

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ELENCO E FICHA TÉNICA
Huma Qureshi, Siddharth, Leysha Mange, Seema Biswas, Rahul Khanna, Sanjay Suri, Arif Zakaria, Ashwath Bhatt, Pallavi Batra, Anupam Bhattacharya, Akash Khurana, Jagjeet Sandhu, Prasanna Soni e Neha Mahajan compõem o elenco. A obra indiana é baseada no livro homônimo de Prayaag Akbar, e foi adaptada em conjunto por Urmi Juvekar, Suhani Kanwar e Patrick Graham. A direção também é compartilhada entre Deepa Mehta, Shanker Raman e Pawan Kumar. Produzida pela Open Air Films LLP, Leila foi lançado e distribuído sob o selo Netflix.

CONCLUSÃO
A série indiana surgiu recentemente na Netflix com o objetivo claro de fisgar o mesmo público de O Conto de Aia, porém não tarda em criar uma identidade própria. A série aborda o drama de Shalini, uma mulher acostumado com uma vida confortável, que de uma hora para outra é subjugada por um regime covarde e hipócrita, quando ao mesmo tempo vive a angústia de não saber o paradeiro da própria filha. Uma obra cheia de melancolia e sofrimento, que por muitas vezes gera repulsa e raiva, pelas injustiças e abusos que aquelas mulheres são expostas. A série é curta, possuindo apenas seis episódios nessa segunda temporada, e até o momento não é confirmada continuação.

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BETTER THAN US (CRÍTICA)

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SINOPSE
Num futuro não tão distante as máquinas fazem parte do dia a dia da maioria dos cidadãos da Rússia. Fábricas, hospitais, escolas, nada fica de fora. E não são simples máquinas, boa parte delas possuem graus de inteligência artificial para auxiliar nas tarefas mais pesadas dos humanos. Existem robôs babás, enfermeiros, e até mesmo parceiros sexuais. A indústria por trás de tal tecnologia busca constante avanço, estando sempre atrás de novos upgrades e modelos para clientes sedentos por novidades. E nesse contexto surge Arisa, uma robô de alta tecnologia adquirida por um magnata do mercado de alta tecnologia. Arisa é um protótipo de uma empresa chinesa, e emprega inteligência artificial que lhe capacita tomar decisões morais de acordo com seu aprendizado. Essa capacidade não era prevista por seus idealizadores, e após um incidente de violência, foi descartada.

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De maneira desconhecida, a robô com fisionomia similar à humana, chega às mãos do empresário russo, um homem de caráter duvidoso que coleciona ‘bonecas’ para atender seus fetiches sexuais. As coisas fogem do controle, quando Arisa, após ser molestada, assassina um dos homens que transportaram-na até ali. A robô então foge do prédio onde estava e, vai parar dentro de uma família comum da cidade de Moscou, onde é ‘adotada’ por uma criança, e começa a aprender uma série de conceitos sobre humanidade.

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COMENTÁRIOS
São poucas as séries que nos deixam confortável ainda no episódio piloto, e Better than Us é uma dessas. A produção russa de ficção científica tem várias qualidades que merecem ser citadas, começando pela sua estética, que logo de cara mostra personalidade conceitual. Não traz exageros alegóricos tradicionais da nossa imaginação quando idealizamos uma proposta de futuro. A criação de Andrey Junkovsky, tem total inspiração em Isaac Asimov, porém não se limitando por completo nos dilemas existenciais de máquinas sendo inseridas na sociedade. O foco é apontado mais para como os seres humanos lidam com essa tecnologia, que vem interferindo em questões previdenciárias, e na constituição de formatos familiares.

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Arisa é uma máquina capaz de identificar emoções e expressões humanas, ao mesmo tempo que consegue aprender e compreender a filosofia da ética se baseando em avanços morais. O destino lhe proveu sorte ao encontrar Sonya, uma pequena menina bastante inteligente, filha de Georgy N. Safronov, um respeitado patologista. As duas desenvolvem um elo afetivo, no qual Arisa tem fortes impulsos de proteger aquela família, e Sonya corresponde ao sentimento por perceber antes de todos que aquele não era um robô como os outros. Arisa aos poucos vai observando aquele ambiente familiar e, adotando cada vez mais um comportamento humanizado, porém sua ‘vida’ se mostra complicada, considerando que ela foi responsável pela morte de uma pessoa.

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ELENCO E FICHA TÉCNICA
O elenco de Better than Us conta com Paulina Andreeva, Kirill Käro, Aleksandr Ustyugov, Olga Lomonosova, Eldar Kalimulin, Vita Kornienko, Aleksandr Kuznetsov, Vera Panfilova, Fedor Lavrov, Sergey Sosnovsky, Pavel Vorozhtsov, Irina Tarannik, Sergey Kolesnikov e Kirill Polukhin. A obra é criação de Andrey Junkovsky, Aleksandr Dagan e Aleksandr Kessel, produzida pela Yellow, Black and White, em cooperação com a  Sputnik Vostok Production para o canal estatal russo C1R. Em 2019 a Netflix comprou os direitos de exibição da primeira temporada. Better than Us é uma série originalmente lançada na Rússia no ano de 2018 com o nome Лучше, чем люди.

CONCLUSÃO
Uma produção de muito bom gosto estético, que traz boas atuações, um roteiro sólido e, a discussão ética de como iremos lidar no futuro com máquinas coexistindo conosco de maneira tão próxima. Better than Us conta a história de uma robô descartada em seu desenvolvimento, mas que chegando às mãos de um poderoso empresário. Arisa acaba cometendo um crime e, em sua fuga vai parar dentro de um ambiente familiar. A série russa é original de 2018, mas estreou no ocidente recentemente através do serviço Netflix. Recomendo muito!

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TRAVELERS – SÉRIE DA NETFLIX (CRÍTICA)

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SINOPSE
ATENÇÃO: Irei me basear pelas impressões da primeira temporada, então esta resenha é destinada ao público iniciante na série.
Atitudes erradas da humanidade levaram o mundo à um futuro calamitoso de colapso social, então milhares de agentes são treinados e, enviados para o nosso período atual no intuito de fazer mudanças pontuais na linha do tempo para impedir tal predestinação. Então cinco destes viajantes são enviados assumindo cada um o corpo físico de uma pessoa qual já era conhecido o local e horário da morte. Este método servia para amenizar o máximo de interferência na linha temporal, visto que a pessoa não mais existiria. Porém eles ainda precisariam viver o restante de suas vidas seguindo a realidade de seu hospedeiro, enquanto missões eram orientadas pelo Diretor, e deviam ser cumpridas seguindo as regras exatas de cada protocolo.

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COMENTÁRIOS
Esta é uma série de 2016 que estreou e não dei a devida atenção, então estou atualmente correndo atrás do tempo perdido. Recordo ter assistido apenas o primeiro episódio e, sendo sincero, eu não lembrava de nada direito. Provavelmente parei para ver enquanto brigava contra o sono, costumo fazer isso as vezes. Então decidi dar uma conferida novamente, e tenho de dizer, essa série está me surpreendendo muito! A impressão que tinha era baseada num preconceito bobo com o ator Eric McCormack, não me pergunte, mas na minha cabeça esse era um ator de projetos duvidosos. Tenho uma lista com atores que se eu vejo a cara num filme ou série, eu já penso mil vezes antes de dar atenção. Mas não, realmente eu estava bastante errado. As vezes as pessoas são azaradas, ou não tem os contatos certos para pegar bons papéis. No fim das contas estou gostando da atuação de McCormack.

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Séries de ficção são alvo fácil para roteiros e conceitos de péssimo gosto, e são raras as exceções nesse gênero. As linhas de diálogos mal escritas e os nomes de itens fictícios são os elementos que mais costumam me incomodar. Não aguento piadinhas descabidas em momentos tensos, ou engenheiros pedindo ao assistente para passar o “suturador de ionização quântico”. Isso definitivamente me tira do sério! É preciso ser dito, Travelers é uma série não tem nada disso! Fui pensando ser realmente algo como dei o exemplo, mas não, temos aqui uma produção bem roteirizada e com um ritmo gostoso de assistir. Seu plot é apenas a ponta do iceberg, a trama vai desenvolvendo e trazendo uma série de novos elementos para incrementar o universo proposto.

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ELENCO E FICHA TÉCNICA
O elenco principal conta com os atores Eric McCormack, MacKenzie Porter, Nesta Cooper, Jared Abrahamson, Reilly Dolman e Patrick Gilmore. A criação de Brad Wright é produzida por Eric McCormack e foi distribuída no Canadá pelo canal Showcase Television do grupo do grupo Alliance Atlantis Communications. Para o resto do mundo Travelers foi ofertado pela Netflix. A série atualmente conta com 3 temporadas e um total de 34 episódios.

CONCLUSÃO
Travelers é uma série inteligente e agradável de assistir que se põe fora da curva se comparado à outras obras do gênero. Aqui não tem carnaval, não tem diálogos esdrúxulos e muito menos termos estúpidos para designar coisas que não existem. Duas coisas me surpreenderam bastante, o ritmo agradável do roteiro e as atuações de atores que até então eu tinha o preconceito de não esperar ao menos uma atuação razoável. O clima de suspense e tensão te instiga a devorar a série de uma só vez. Atualmente ela se encontra disponível na Netflix, então se você gosta do gênero ficção científica, esse aqui é um pratão para você! Para  mim está aprovadíssima!

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JOGO NA ESCURIDÃO (CRÍTICA)

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Embora este filme tenha sido classificado como 16 anos, acredite em mim, ele deveria ter sido listado como 18.

SINOPSE
Uma onda de assassinatos sádicos contra mulheres vem ocorrendo no ano de 2017, e retratando um destes episódios, o novo longa indiano de suspense psicológico inicia. A cena de abertura é pesadíssima, utilizando a filmagem da câmera de um doentio serial killer enquanto ele espreita o momento de descanso de uma moça. Despercebido ele entra na casa onde se mantém oculto nas sobras até que ela adormeça. As imagens que se seguem mostram o quanto grotesco e desumano alguém pode ser com outro, os detalhes são excessivamente macabros e inenarráveis. O resultado é termos uma jovem assassinada, decapitada e com seu corpo incinerado.

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Um ano se passa após essa morte, e acompanhamos os dias de Swapnam, uma designer e desenvolvedora de jogos que luta contra um trauma de seu passado recente. A jovem mulher mora numa casa bem aparelhada, na qual Kalamma cuida de suas necessidades pessoais diárias, e Anwar cuida da segurança na portaria do imóvel. Swapnam traz consigo um grande trauma, que faz a moça não conseguir se manter em ambientes de escuridão, e isso cada vez mais prejudica sua qualidade de vida. No seu pulso esquerdo ela traz uma pequena tatuagem de um coração com um controle de videogame no meio, mas o que ela não fazia ideia, é que na pigmentação da tinta fora misturado cinzas de uma pessoa morta. E isso seria a chave para bizarras coisas que sucederiam.

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RESUMO COMENTADO E COM SPOILERS!
Jogo na Escuridão é um filme atípico. Vendido pela Netflix como um filme de terror, a produção não traz verdadeiramente elementos para essa classificação. O que temos é uma obra de drama e suspense com grande peso na tensão psicológica. Swapnam é uma personagem mal explorada pelo roteiro, que em sua sinopse enfatiza a descrição de uma designer de games, mas tem isso como completamente irrelevante para o desenrolar da trama. Seus traumas são relembrados em todo momento do longa, e entender como desenrolou isso faria total sentido para compreender a grandeza do que ela precisava superar. Mas não, o roteiro não colabora em momento algum para dar clareza à nada. Basicamente passamos mais da metade do filme acompanhando a jovem em suas sessões de terapia para aprender a lidar com seus medos.

A tatuagem que havia feito no pulso começa a doer inexplicavelmente, então ela volta ao estúdio onde havia feito para tentar entender o que poderia ser a causa. Mais de um ano tinha passado desde a aplicação, então não fazia sentido uma reação agora. Até a tatuadora que atendeu fica sem entender, porém ela revela algo delicado. Haviam pessoas que traziam as cinzas de seus entes queridos na intenção de misturar na pigmentação. A ideia era de levar algo da pessoa amada sempre consigo. E o que ocorreu, é de ela ter confundido, e usado uma destas tintas no pulso da jovem. Swapnam fica indignada com absurdo do que ouve, era inaceitável a condição de ter algo de uma pessoa morta presa ao seu corpo.

Voltando à sua rotina, Swapnam vai empurrando a vida com a barriga, até o momento qual enfrenta a situação desconfortável de ao entrar numa cafeteria ser reconhecida por dois homens. Os rapazes conseguiram identificá-la como a mulher amarrada de um vídeo. Os dois comentam em tom de zombaria ser realmente ela, e isso não faz sentido algum. Porque alguém acharia graça da desgraça de uma mulher dessa maneira? Fica aí ainda mais um motivo para se compreender o que ocorreu de tão grave um ano atrás, e que gera tanta dor para ela. Mas não importa, o filme fecha e isso realmente não é elucidado.

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Durante um dia de terapia Swapnam está esgotada, não aguenta mais e se entrega as dores. Salta de um edifício procurando a morte, mas não adiantou, aquela ainda não era sua hora. A jovem fica bastante machucada, quebra alguns ossos e passa a andar de cadeiras de rodas. A gravidade da sua saúde também não é explicada, portanto não sabemos também se o fato de não poder andar é apenas uma situação momentânea ou permanente. E se antes seu psicológico era terrivelmente afetado, agora ele estava em migalhas por estar ainda mais impotente.

Certo dia Swapnam recebe uma visita. Era uma mãe, justamente a mãe da jovem moça que tinha sido brutalmente assassinada no começo do filme. Ela conta sua história, e explica o quanto sua filha era uma pessoa forte que lutava pela vida. Vinha numa longa batalha contra o câncer e mesmo assim nunca se abatia. Em comemoração sua última vitória contra a doença, combinaram de fazerem juntas uma tatuagem. Mas a jovem não teve tempo, foi morta antes que pudesse cumprir a promessa. Por conta desse pedido da filha que a mãe em sua homenagem decidiu fazer essa “tatuagem rememorativa”, o nome que o estúdio deu pra técnica.

Tal revelação fez mudar completamente as coisas. Saber que por trás daquela marca havia o sangue de uma guerreira te trazia coragem. Só não ficou claro ainda o porque daquelas pontadas de dor, mas sem tardar ela entenderia. É chegada então a noite qual o caos invadiria completamente sua vida. Aquele mesmo cara que matou a jovem do começo, e que na realidade não era apenas um, mas pelo menos três homens, haviam matado o vigia da portaria e agora tentavam entrar na casa.

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FINALMENTE ALGUNS PORQUÊS
MAS NÃO TODOS (+SPOILERS!)

Assim que um assassino entra Swapnam percebe que no seu braço surgiram mais duas tatuagens, totalizando assim três corações. A jovem ainda não entendia o que aquilo queria dizer. A ação desenrola rápido, o homem entra, mata Kalamma, e em seguida alcança Swapnam. Numa cena arrepiante ele corta a cabeça da jovem, e isso pela ótica da própria vítima! Uma boa sacada da direção onde escondeu o grafismo de um gore que não se encaixaria no todo, mas manteve a carga de peso do ato cruel. Pensamos: sério, o filme acaba assim? Não, ele continua.

Como num jogo, Swapnam perdeu uma vida. Ela descobre isso olhando para o seu pulso onde haviam três corações e agora restavam dois. Inserida na partida ela tenta tirar melhor proveito da situação para se safar daqueles assassinos. Mais uma vez não consegue. Até chega a ativar a polícia mas tudo dá errado, desta vez ela é morta queimada dentro de uma viatura da polícia enquanto era evacuada de casa.

Pronto, restava apenas a última ficha. Quer dizer, coração. Swapnam joga diferente. Antes seu trauma vinha atrapalhando na sua desenvoltura para sobreviver ao ataque. Então era questão de vida ou morte. E não só dela, mas de Kalamma também. Ao ouvir o primeiro ruído dos invasores ela mantém o controle. Com grande esforço e inspirada na menina que de alguma forma sobrenatural lhe ajudava, manteve a calma e não entrou em pânico quando as luzes se apagaram. Seguindo a regra de manter a racionalidade, eliminou um à um aqueles psicopatas. Se salvando e mantendo a vida de Kalamma. O vigia, bem. Esse não teve sorte mesmo. Já estava morto antes do checkpoint.

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ELENCO E FICHA TÉCNICA
Taapsee Pannu, Vinodhini Vaidyanathan, Anish Kuruvilla, Sanchana Natarajan, Ramya Subramanian, Parvathi T., Maala Parvathi, David Solomon Raja, Indrajith, Subramanian, Soorim, Capt KRC Pratap, Vignesh Shanmugham e Joshua Miller compõem o elenco. O roteiro é de Ashwin Saravanan e Kaavya Ramkumar, e a direção de Ashwin Saravanan.

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CONCLUSÃO
Jogo na Escuridão é um filme com muitos furos no roteiro. Apresenta vários elementos na trama mas não os desenvolve, e isso acaba prejudicando as reflexões comuns de filmes desse gênero. A obra gera inconstância, as vezes caminhando bem e as vezes batendo justamente nessas falhas. De qualquer forma, e mesmo com esses defeitos, ainda é uma filme que vale à pena ser visto. Nos seus pontos positivos ele segue bem, trazendo a sensação constante de agonia e impotência em situações sinistra. A produção é original da Netlix e já está disponível na plataforma. Tenham cautela com as crianças, esse não é um filme adequado para elas.

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