CASO MARCO AURÉLIO (MISTÉRIO)

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RESUMO DO CASO
No dia 8 de junho de 1985, durante uma excursão no Pico dos Marins, Município do Piquete em São Paulo, o jovem escoteiro de 15 anos Marco Aurélio Bezerra Simon desapareceu sem deixar rastros de seu paradeiro e, mesmo com um gigantesco esforço de um exército de voluntários, civis e militares, absolutamente nada fora encontrado. O estranho episódio é um dos mais complexos e misteriosos da literatura brasileira, tendo entrado até mesmo em listas internacionais de maiores casos de desaparecimento do mundo. Oficialmente suas investigações foram encerradas no dia 8 de abril de 1990 e, embora o incidente houvesse recebido bastante atenção da mídia na época, acabou sendo consumido pelo tempo, praticamente recebendo o status de lenda. Foi quando o jornalista investigativo Rodrigo Nunes, em 10 de março de 2005, decidiu desarquivar o caso para resgatar o incidente e buscar novas informações. Como fruto de sua pesquisa, dois livros foram publicados, e em 2015 foram compilados em um único volume revisado. Seu teor traz inconsistências nos relatos dos outros escoteiros, do líder deles, no andamento das investigações policiais, além de conter teorias e entrevistas com testemunhas da época.

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COMO ACONTECEU?
Marco Aurélio junto de seu grupo de escotismo, participaria de uma expedição para conquistar o Pico dos Marins, e assim cumprir a tarefa que os graduaria no Ramo Senior, destinado a jovens de 15 à 17 anos. A viagem estava marcada para o dia 6 de junho de 1985, onde o grupo faria a escalada para montar acampamento 2400 metros acima do nível do mar. A trilha não era das mais complicadas e, exigia mais disposição para marcha em ladeira, do que técnicas especiais. Neste dia, Marco Antônio, irmão gêmeo de Marco Aurélio, tinha ficado doente e portanto não pôde participar daquela aventura, considerada tão importante para eles. O grupo então se fechou com Marco Aurélio sendo designado como monitor, os escoteiros Ramatis Rohm, Ricardo Salvione, Osvaldo Lobeiro e, o instrutor e líder do grupo, Juan Bernabeu Céspedes. Eles integravam o Grupamento de Escoteiros Olivetanos, de identificação número 240. Chegado o momento seguiram para a cidade de Piquete, se direcionando para a propriedade de Afonso Xavier, um senhor com 50 anos de experiência no local, e que serviria de guia para o grupo. No local montaram acampamento e fizeram algumas atividades relacionadas ao escotismo. Na hora de iniciar a marcha pela trilha, o instrutor Juan Bernabeu dispensou o auxílio do Senhor Afonso, alegando a facilidade para percorrer aquele caminho, e decidido assim, o Grupamento 240 tomou partida.

114_02Aquela trilha era bem popular, havia sido traçada na década de 30, e frequentemente era utilizada por turistas e aventureiros, com ou sem treinamento. Na manhã do dia 8 de junho os quatro escoteiros iniciaram sua caminhada rumo ao cume do Pico dos Marins, quando no meio do caminho, numa descida do Morro do Careca, Osvaldo Lobeiro sentiu uma luxação no joelho. Continuar a aventura não era mais uma opção, então o líder decidiu retornar ao acampamento. Marco Aurélio então se prontificou em descer na frente, abrindo caminho para os outros que carregavam o rapaz ferido apoiado nos ombros. Orientado pelo instrutor, Marco Aurélio levou um giz para marcar todo o trajeto com o número do grupamento. Às 14:30h aproximadamente, o rapaz se afastou de seus amigos e tornou a descida. Fazendo corretamente sua função como batedor, o grupo passou por três pedras onde estava lá o número 240. Após a terceira pedra, havia uma bifurcação onde Marco seguiu pela esquerda, o caminho mais curto, porém orientados pelo instrutor, o grupo pegou a via da direita, uma vez que Juan entendia que aquele terreno embora mais longo, seria menos acidentado quando transportando alguém. Os outros garotos protestaram, mas Juan estava convicto da decisão, e reforçou que no fim da descida todos se encontrariam. Ramatis Rohm, Ricardo Salvione e Osvaldo Lobeiro, guiados pelo líder Juan Bernabeu, levaram cerca de quinze horas para concluir o retorno, chegando às 5:30h da manhã, dia seguinte, no acampamento. Quando se deram por conta perceberam que Marco Aurélio não estava presente, e que todos os seus pertences estavam da mesma forma, como no dia anterior, intactos. Juan então decide retornar à trilha para procurar o garoto, voltando cinco horas depois sem sucesso em encontrá-lo. Foi quando convicto da gravidade da situação, decidiu ativar as autoridades.

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BUSCA POR LOCALIZAR MARCO AURÉLIO
O pai do menino era Ivo Simon, um jornalista respeitado da época, e rapidamente mobilizou meios através da imprensa. Foram designados 180 soldados do Quinto Bil, o Batalhão de Infantaria Leve de Lorena, 18 homens da COE, o Centro de Operações Especiais, 6 alpinistas de agulhas negras, helicópteros da Escola de Especialistas de Aeronáutica de Guaratinguetá, um avião mandado pelo Governador Franco Montoro, um helicóptero do jornal Estado de São Paulo, sem contar os inúmeros voluntários civis que conheciam muito bem a região. Piquete virou palco para uma enorme campanha de resgate, no qual cada centímetro do lugar fora remexido, mas nenhum vestígio do rapaz foi encontrado. Aquela busca foi tão minuciosa, que uma faca perdida na mata por um soldado, fora localizada no dia seguinte por outra equipe. Marco Aurélio havia desaparecido de maneira misteriosa, e isso intrigou por muito tempo a região. Nem mesmo as mais de 300 pessoas envolvidas foram suficiente para encontrar uma mínima prova de crime, ou um pequeno traço do desaparecimento. Cartazes foram expostos em mais de vinte cidades, os rios da região foram percorridos na busca pelo mínimo vestígio, e surpreendentemente nada fora encontrado, nem sequer um fio de cabelo.

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AS INVESTIGAÇÕES
Antes de consumirmos os pormenores da investigação, é preciso ter em mente uma informação bastante estranha. Rodrigo Nunes, o jornalista investigativo que reabriu o caso em 2005, disse que ao entrevistar Vicente de Paula Santos, o datilógrafo responsável pelos depoimentos, descobriu a informação de que o profissional fora impedido por um major, de registrar em tempo real as declarações dos investigados. Todo o conteúdo constante das documentações foram registrados depois por intermédio do delegado Izidro de Ferraz, que ditou cada palavra. Isso faz com que inquérito não possa ser considerado integralmente confiável. Tendo isso em mente, a versão oficial do inquérito policial foi produzida com os depoimentos do líder Juan Bernabeu Céspedes, e dos escoteiros Ricardo Salvione, Osvaldo Lobeiro e Ramatis Rohm. Juan afirmou ter autorizado Marco Aurélio a seguir na frente abrindo passagem para o grupo que descia logo atrás, e que cerca de 15 minutos após a separação, não tinha mais visual de sua posição.

Durante a descida o grupo localizou apenas três marcações com giz feitas por Marco Aurélio, e que levavam até a fatídica bifurcação. O rapaz teria escolhido seguir pelo caminho da esquerda, mesmo sendo mais tortuoso para quem levava o peso de alguém ferido, como reforçou o líder Juan. Sendo assim decidiu por contrariar a sugestão do garoto, tomando a decisão de pegar o caminho da direita. Para acalmar o restante do grupamento que ficou preocupado com a Marco Aurélio ter seguido o outro trajeto, Juan afirmou que todos se encontrariam mais a frente, ao concluir o retorno. No entanto, isso não ocorreu. Juan também havia dito que havia cortado uma árvore e, Olindo Roberto Bonifácio, guia e voluntário que participou da reconstituição do caso, disse que tal árvore nunca foi encontrada.

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INFORMAÇÕES E SUGESTÕES CURIOSAS

  1. Após reunião da diretoria do Grupo Escoteiro Olivetano, foi combinado que a marcha seria conduzida por Sr. Afonso, guia com experiência de 30 anos naquela região, porém o mesmo fora dispensado por Juan, com a alegação de que o senhor não teria tempo. Porém Sr. Afonso e sua esposa desmentiram, dizendo que estava sim disponível, que até havia preparado lanche para fazer o percurso, e que na realidade Juan tinha o dispensado.
  2. Um outro grupo havia cruzado com o Grupo Olivetano em seu acampamento e, prontamente se ofereceram para fazerem o trajeto juntos, no entanto Juan dispensou o convite.
  3. Quando Osvaldo Lobeiro se machucou, próximo às 14:00h, Juan autorizou Marco Aurélio ir na frente, porém acompanhou com ele sozinho cerca de 100 metros a frente para orientar sobre algo e apontar a direção para onde o menino deveria ir. Regra básica do escotismo é nunca se separar, então por qual razão um escoteiro de grande experiência quebraria tal protocolo?
  4. Durante a descida, próximo das 2:00h, Juan e os outros haviam passado por uma propriedade conhecida como Fazenda do Seu Filinho e, como era de se esperar, Juan deveria perguntar se Marco Aurélio havia passado por ali, mas ele não o fez.
  5. Ao chegar na base do acampamento o grupo não encontrou Marco Aurélio, e como seria natural, deveriam perguntar ao Sr. Afonso sobre o garoto. No entanto nem os outros escoteiros, ou mesmo Juan, percorreram os 50 metros até a casa do senhor para perguntar sobre o amigo.
  6. Um depoimento controverso foi obtido do escoteiro Osvaldo Lobeiro, que foi separado dos outros garotos e presenciou Juan Bernabeu Céspedes sendo torturado, sem o acompanhamento do escrivão. Após o ocorrido, a polícia tentou avançar com a hipótese que Juan abusou de Marco Aurélio e o teria matado.
  7. A operação pente fino foi feita em fila indiana pelo Quinto Batalhão de Infantaria Leve de Lorena, e este era um erro apontado pelo experiente guia, Ronaldo Nunes, que foi ignorado pelo Tenente Fischer que comandava a operação.
  8. Segundo o próprio Juan, ele retornou à montanha sozinho para procurar o menino, e passaram-se cerca de 5 horas depois, sem sucesso.
  9. Devido as fortes suspeitas, Juan concordou em passar por um polígrafo, mas o processo foi cancelado pelo delegado Francisco Baltazar Martin, que afirmou o rapaz ter sofrido fortes pressões psicológicas, e que aquilo interferiria no resultado do exame. Segundo murmúrios na Polícia, a decisão foi tomada devido a ingerência da União dos Escoteiros do Brasil, que não queria por em risco a imagem pública da instituição.
  10. No terceiro dia de buscas por Marco Aurélio, houve um incêndio de grandes proporções no Pico dos Marins, e os delegados George Henry e Bayerlein se questionaram se aquele ocorrido não havia sido proposital e com o fim de atrapalhar o primeiro dia em que participavam das investigações.
  11. Em entrevista a Rádio Mantiqueira, o delegado questionou o tempo alegado para percorrer aquelas trilhas: “O grupo de escoteiros dirigido por Juan havia o perdido o caminho na ida e na volta, pois na ida gastou seis horas (das oito da manhã às quatorze horas) numa caminhada que, pela trilha comum, batida e assinalada, não se leva hora e meia.
  12. Devido à má conduta, Juan Bernabeu Céspedes já havia sido expulso anteriormente de outro grupo de escoteiros. E isso é reforçado pelas três alegações nos itens seguintes.
  13. Segundo a experiência de Dr. Anivaldo Registro, delegado do G.A.S. (Grupo Anti-Sequestro de SP), os erros cometidos por Juan foram propositais.
  14. Pedro Teixeira da Silva, industrial, afirmou: “este não cumpria o regulamento do escotismo, era autoritário, ameaçava os garotos e não admitia ser repreendido.”
  15. Dr. Pedro Orlando Petrere Júnior, dentista, afirmou: “… modo estranho de comportamento … frio, com conduta que às vezes fugia ao normal de uma pessoa sã.”
  16. O laudo de reconstituição só foi liberado após o pai de Marco Aurélio ter recorrido à Corregedoria da Polícia Civil. Seu conteúdo era tendencioso, e apontava apenas indícios de que o garoto havia fugido. O inquérito policial contendo 391 folhas foi arquivado no dia 26 de abril de 1990, por determinação do Juiz de Direito Walter Luiz Esteves de Azevedo, acolhendo manifestação do Doutor Promotor Mauro de Oliveira Navarro.

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TEORIAS COM EXTRATERRESTRES
Devido o ar de forte mistério sobre o caso não solucionado, muitas teorias foram levantadas e, a mais curiosa delas nasce de parte do depoimento que os adolescentes deram sobre o momento em que iriam dormir após o segundo dia de buscas. Da região próxima onde Marco Aurélio havia desaparecido, os jovens ouviram um grito e na sequência o som de um apito, vindo do matagal. Sabendo que o amigo possuía um apito, os garotos correram até o local, onde observaram apenas estranhas luzes azuis que piscavam três vezes. Apenas os rapazes alegaram tal história, já Afonso Xavier discordava, e afirmava que as luzes se tratavam de casas distantes na região. Em 2011 a teoria dos extraterrestres, foi questionada por Ivo Bosaja Simon: “Tínhamos uma amizade muito grande com o Juan, seus pais, irmã, cunhado e sobrinhos. Chegamos a passar Natal juntos. Após o fato, ele prestou os depoimentos à Polícia e desapareceu. (…) Os depoimentos no inquérito nos levam a muitas suposições. Os erros do líder foram propositais? Falou-se em discos voadores e, por sugestão de um delegado de São Paulo, fomos a Brasília falar com o general Moacyr Uchoa, expert no assunto. Falou-se da seita Borboleta Azul e, no depoimento à Policia, seu responsável deu um endereço em Goiás, para onde teriam viajado na época alguns jovens. Pedi a jornalistas amigos para investigarem e o endereço era uma casa abandonada. (…) Se Marco Aurélio quisesse fugir, como suspeita o perito, poderia fazê-lo em São Paulo, com roupas, dinheiro e documentos. Na barraca na serra, ficou tudo isso.

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SERIA ESSE O CRIME PERFEITO?
Esse ano (2020) fará 35 anos do desaparecimento do escoteiro Marco Aurélio Bezerra Simon, e quem pôde acompanhar a repercussão na época, ou os detalhados documentários e programas de TV que se sucederam a reabertura dos arquivos feita pelo jornalista investigativo Rodrigo Nunes em 2005, sabe o quanto esse caso é instigante. São muitas as teorias, e além das esperadas, como sequestro e assassinato, também existe a linha das ideais que correm pelo sobrenatural. Até o controverso Chico Xavier entrou na história certa vez que a família o procurou para uma comunicação mediúnica, no entanto o próprio Chico havia afirmado ser incapaz de se comunicar com pessoas que ainda não desencarnaram. O caso definitivamente é muito confuso, e até hoje a família tem esperança de na resposta que tanto precisa, sobre o que aconteceu, ou onde está Marco Aurélio.

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