SEX EDUCATION – SÉRIE DA NETFLIX (CRÍTICA)

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SINOPSE
137_04Otis é um garoto bem diferente da maioria dos jovens com que convive, vindo de uma criação pouco convencional na qual seus pais não conseguem se desligar de suas carreiras como terapeutas sexuais, o que fazia com que o rapaz desde muito jovem ficasse exposto a todo tipo de conhecimento sobre o assunto. A decoração da sua casa é repleta de ornamentos fálicos e todo tipo de objetos que remetiam a sexualidade. Para quem não conhecia o entusiasmo da sua mãe pelo trabalho, aquilo era uma total loucura. Na escola era introspectivo e pouco notado, e em seu íntimo se sentia para trás na corrida por alcançar a vida adulta, o que para ele se traduzia em: fazer sexo. Em outras palavras, perder a virgindade. Se por um lado ele se sentia perdido com as próprias ações na busca disso, de outro ele era um oráculo de conhecimento sobre tudo relacionado a comportamento sexual. Como eu disse, a vida dele era louca. Tinha acesso a intermináveis estantes repletas de livro sobre o tema, e sua mãe fazia de sua vida um reflexo das sessões com seus pacientes. Definitivamente sexo não era um tabu para Otis e, é quando ele se junta a Maeve, uma colega de classe que ele sempre observava de longe com certa admiração, e que agora lhe deu brecha para um melhor contato, fazendo sua imaginação começar a se desenvolver em atração por ela. Mas aquele era um mero acordo comercial, onde a menina conseguia clientes com problemas em suas vidas sexuais, e Otis orientava individualmente em breves reuniões sigilosas. No entanto essa feliz parceria vai se desenvolvendo, e inconscientemente o jovem vai aflorando uma nova realidade para Maeve, ao mesmo tempo que ela o faz se sentir mais confiante do próprio potencial.

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COMENTÁRIOS
Na juventude é natural nossa ansiedade maior por avançar em nossa própria sexualidade, e isso pode se tornar um verdadeiro caos dependendo da nossa bagagem de vida até o fatídico momento de interesse por essas descobertas. São infinitos fatores e combinações que podem desencadear uma vida sexual sem brilho e satisfação, e é com uma enorme sensibilidade e respeito que Sex Education (2019) aborda esse tópico tão delicado. Sempre inteligente e com humor elevado, são escritos os mais variados tipo de cenários e situações. É surpreende a ousadia e a assertividade do tato de Laurie Nunn, criadora e uma das idealizadoras da série em conjunto com Ben Taylor. Gostaria muito que esta série pudesse alcançar todo mundo, pois desmonta paradigmas espinhosos e remonta de forma clara, para que independente da sua origem cultural, consiga entender a simplicidade que é a complexidade de como as pessoas enxergam suas próprias realidades. Recebemos projeções da vida dos nosso amigos, familiares, aquele outro desconhecido por qual temos empatia, e obviamente, sobre nós mesmos. E não existe nada mais esclarecedor e útil do que vermos nossos próprios demônios serem fragmentados em pedaços na nossa frente, e ter as opções de deixarmos as coisas seguirem como estão indo ou decidirmos atualizar. No fim sempre temos o livre arbítrio.

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Comentando um pouco sobre os aspectos gerais, Sex Education é uma série muito leve e confortável de assistir. Sua fotografia é belíssima e explora as belezas naturais da Wye Valley, patrimônio internacional da humanidade que se estende pela fronteira da Inglaterra com o País de Gales, sendo uma das paisagens cênicas mais inspiradoras de toda Grã-Bretanha. Seu enredo é bem amarrado e traz discussões precisas sobre temas triviais para o nosso entendimento sobre o quanto é importante nos colocarmos na posição do outro. As vezes o que nos causa graça ou repulsa pelo mero capricho de um julgamento imaturo, é motivo de muita dor e sofrimento para o alheio. Tudo isso é bem explorado com compaixão e nunca abandonando a honestidade. A trilha sonora é feita para abraçar a geração dos trinta, com Billy Idol, A-Ha, The Cure, The Smiths, UB40, INXS e muitos mais! Meu chapa, tem até Love Missile F1-11 do Sigue Sigue Sputnik, mais anos oitenta é impossível!

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PERSONAGENS! Sei que não vou conseguir destrinchar todos os que merecem atenção, mas vou citar ao menos os mais constantes na série.

  • Otis Milburn, é interpretado por Asa Butterfield, um jovem de carisma fenomenal! Um personagem complexo que mescla introspectividade com desinibição de uma maneira muito singular. Fechado para seus próprios dilemas e limitações, é uma caixinha de surpresa quando se trata de solucionar seus problemas.
  • Maeve Wiley recebe vida de Emma Mackey, atriz de semblante natural conflituoso, com um ar misto de arrogância e doçura, e que foi capaz evocar uma jovem rebelde de personalidade bem emaranhada. Sempre inteligente, sagaz e de humor ácido, se enxerga uma pessoa melhor através dos olhos, para ela ingênuos, de um tolo e esperançoso Otis.
  • Eric Effiong é vivido por Ncuti Gatwa. É para mim o personagem mais carismático da série. Negro, gay, de família humilde e tradicional, é uma pessoa sempre extrovertida e que valoriza o apoio e carinho daqueles que mais importam. Seu melhor amigo é Otis, e quando digo amigo, é porque os dois são unha e carne. Eric tem suas quedas, mas está sempre evoluindo e buscando jogar a bola pra frente. Rancor não é com esse cara!
  • Aimee Gibbs é interpretada por “Aimee” Lou Wood. Ela fica situada no grupo das patricinhas da escola, e das garotas de sua mini bolha é a menos extrema ao interagir com quem é de fora. Cabeça de vento com tudo, literalmente é lenta para entender o óbvio, o que acaba fazendo com que suas amigas façam-na de gato e sapato. Nos relacionamentos é confusa, e combinado com seu desconhecimento sobre seu próprio corpo, precisa se esforçar para entender o que quer da vida.
  • Jackson Marchetti é o superastro da escola vivido por Kedar Williams-Stirling. Descolado, popular, entusiasta na natação e com notas elevadas, está sempre rodeado de admiradores e professores interessados em seu alto desempenho acadêmico. Mas por dentro Jackson sofre uma enorme pressão, afinal, na busca de seus ótimos resultados ele precisa se abdicar de uma série de distrações e prazeres que talvez só pudesse aproveitar nesta etapa da vida.
  • Adam Groff é interpretado por Connor Swindells, e é filho do diretor Michael Groff. Adam é o um dos personagens mais complicados para não dizer caóticos de Sex Education. Nitidamente fica claro que sua agressividade tem origem da criação ríspida que teve de um pai problemático e que não o orienta bem. Sempre perdido em suas atitudes, não consegue focar e mirar num objetivo claro, estando sempre a mercê do que surge no ambiente.
  • Dra. Jean F. Milburn é encarnada por Gillian Anderson, a eterna Scully de Arquivo-X. Sensacional! Se mostrando calculista e falsamente estável, é uma mulher inteligente, bem resolvida, mas que também quer ter tudo sob seu controle. Quebrando a ética em diversos momentos ao seu relacionar com pacientes, também faz da vida de Otis um curioso laboratório para suas pesquisas comportamentais, e claro, sem ele saber.

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ELENCO E FICHA TÉCNICA
Asa Butterfield, Gillian Anderson, Ncuti Gatwa, Emma Mackey, Connor Swindells, Kedar Williams-Stirling, Aimee Lou Wood, Alistair Petrie, Mimi Keene, Chaneil Kular, Simone Ashley, Tanya Reynolds, Mikael Persbrandt, Patricia Allison e Anne-Marie Duff compõem o elenco. Escrito por Laurie Nunn, Sex Education é uma série de drama, romance e comédia lançada em 2019 sob o selo de distribuição Netflix. A adaptação recebeu como roteiristas na primeira temporada Laurie Nunn, Sophie Goodhart, Laura Neal e Freddy Syborn, e a direção foi dividida entre Ben Taylor e Kate Herron. A produção executiva é de Jamie Campbell e Ben Taylor, o produtor é Jon Jennings, cinematografia de Jamie Cairney e Oli Russell, e edições de Steve Ackroyd, David Webb e Calum Ross. Os estúdios utilizados são da Eleven Film, enquanto a distribuição internacional é do serviço por assinatura stream Netflix. A série conta até 2020 com duas temporadas, cada uma contendo oito episódios de uma média de cinquenta minutos cada um.

CONCLUSÃO
Sex Education é uma das séries mais gostosas de divertidas de se assistir no catálogo da Netflix, porém ela tem um corte de audiência por motivos óbvios, a censura. Não existe nada explícito aqui, no entanto o linguajar é pesado e escrito pensando em causar efeito nos jovens adultos. Definitivamente não é conteúdo para crianças assistirem. Convide seu companheiro ou amigos da sua faixa de idade, e pode ter certeza que vocês terão ótimos momentos de diversão. A classificação indicativa para Sex Education é de 16 anos, e a série já tem disponibilizada duas temporadas na Netflix. Então lave as mãos, pegue a sua pipoca e bate aquela vitamina de mamão!

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I AM NOT OKAY WITH THIS – SÉRIE DA NETFLIX (CRÍTICA)

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SINOPSE
A vida para a jovem Sydney ficou sem sentido após a morte de seu pai, alguém a quem era apegada e guardou boas recordações. Dali em diante passou a se sentir pouco amada e respeitada por todos ao seu redor, e nem mesmo vindo de sua mãe sentia o mínimo carinho. Na escola sofria com o bullying, se sentindo sempre incapaz de revidar. Até que certo dia uma coisa muito estranha aconteceu. Era pouco informada sobre coisas básicas relacionadas ao próprio corpo, já que se fechava em seu mundo e não interagia bem com os outros. Isso fez com que acabasse crendo que as certas coisas que aconteciam com ela poderiam ser completamente normais e estarem ligadas com as mudanças da idade. A primeira demonstração dessa particularidade aconteceu quando interiorizando uma forte raiva por uma pessoa, fez com que seu nariz sangrasse de forma significativa. Sydney não era uma garota má, no entanto como qualquer pessoa, não conseguia pesar os pensamentos pelos seus desafetos, e essa incapacidade de controlar seus desejos de retaliação pelos maus tratos que sofria, poderia a tornar bastante perigosa.

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COMENTÁRIOS
Mais uma vez a Netflix traz aquele ar de anos oitenta que super deu certo com o projeto Stranger Things, e a bola da vez é I Am Not Okay with This (2020), série adolescente de drama, comédia e fantasia. A linguagem e conceito são bem parecidas entre as duas produções, rolando até boatos de que fazem parte do mesmo universo, uma vez também que são obras dos mesmos criadores. A dinâmica aqui rola em torno de Sydney, uma adolescente que sofreu uma dura perda familiar, não conseguindo enxergar mais brilho nas coisas mais simples. Ela não se tornou depressiva ou coisa do tipo, apenas se isolou na própria existência e passou a ser pouco tolerante com o ambiente que a cercava. O que de certo modo era até compreensível, visto que vivia numa pequena cidade onde a maioria das pessoas eram pouco legais. Seu círculo de bom convívio era bem restrito, havia Dina, uma amiga da escola, Stanley, um rapaz que morava bem próximo de sua casa, e Liam, seu irmão caçula.

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A produção da série é conservadora e não faz movimentos bruscos, em sua película busca manter um sépia bem quente e levemente granulado com fim de remeter ao estilo vintage. A trilha sonora traz rock clássico do Kinks, soul sessentista de Shirley Ellis, o som psicodélico do Cults, o rock atmosféricos e denso do Bloodwitch, além de muitos outros hits bacanas. Combinando essa filmografia com essa inspirada sonorização, conseguimos embarcar numa viagem cheia de subidas e descidas no consciente de Sydney. Quando se trata das atuações, particularmente fiquei fascinado com Stanley, interpretado por Wyatt Oleff, o jovem Stan de It: A Coisa (2017), filme em que contracenou junto de Sophia Lillis. O jovem de comportamento bem atípico é o salvaguarda para o humor involuntário. A tirada com o vidro elétrico do carro que insiste em ser lento ao descer é algo impagável, principalmente por parecer que para ele é coisa mais normal do mundo. Stanley está próximo dos dezesseis mas age como um pós-hippie cinquentão que viveu numa cúpula entorpecente de cannabis. Conhece o Ozzy? Então. Já Sydney tem seu papel facilitado, e que coincidentemente (ou não), repetiu a mesma fórmula do papel encarnado em It. Os outros personagens não se destacam tanto assim, e funcionam mais como suporte para que o enredo evolua a próximos níveis.

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COMENTÁRIOS COM SPOILERS PESADOS!
O grande dilema de Sydney no decorrer da sua jornada de autoconhecimento, é entender onde se divide suas mudanças fisiológicas das habilidades que demonstra ter. Próximo ao fechamento dessa primeira temporada descobrimos que seu pai trazia capacidades muito parecidas, e que carregou uma enorme culpa por ter matado sem a intenção um incontável números de pessoas, sentimento triste esse que o fez não conseguir lidar com o fardo que carregava. Isso é revelado à Sydney através de uma conversa franca entre mãe e filha, num instante onde percebeu que sua mãe não era ruim, porém assim como ela, uma pessoa melancólica com a perda do marido, ao mesmo tempo que desiludida pela filha não se esforçar para ser uma pessoa agradável aos outros. Entendendo o próprio passado e concluindo que o problema estava muito mais nela do que no ambiente onde vivia, acordou no dia seguinte disposta a se esforçar para mudar sua própria realidade. Surpreendeu seus familiares e tocou sua vida com mais leveza, percebendo assim, que seu cotidiano poderia ser bem menos doloroso e complicado.

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Chegado o tal baile anual do colegial, momento singular de todo filme e série adolescente. Já embarcamos sabendo que ali vai rolar uma treta maligna! E advinha, aqui não é diferente. Bradley, indignado por ter sido exposto como um grande otário por Sydney, decide tentar humilhá-la na frente de toda a escola. Ele não economiza em ferir a moça, já que havia pegado seu diário onde continham todos os tipos de confissões. Ao avançar nos insultos e revelações de seus segredos pessoais, Sydney perde mais uma vez o controle, fazendo a cabeça de Bradley literalmente explodir, dando sequência àquele flashback rotineiro na série onde ela corre pela rua com o corpo coberto em sangue. A jovem já havia em períodos anteriores experienciado a sensação de estar sendo observada por alguma coisa, o que ela compreendia como uma sombra. Como da vez em que causou uma cataclisma na biblioteca. Mas retornado à fuga do seu crime por dar “um pouco mais” do que Bradley merecia, Sydney corre até a torre que Stanley comentou e brincou certa vez, lugar onde finalmente é confrontada por algo que já estava convicta de ser coisa de sua cabeça. Aquela forma sinuosa que sentia estar próximo vez ou outra, finalmente se revelava. Sydney pergunta se devia ter medo daquele homem. Deu-se a entender que não, além de que, “eram eles que deveriam temê-la”, e que agora iriam “começar” compreender isso.

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Como num preparo para algo que estaria por vir, obviamente na próxima temporada, aquele homem, ou entidade, escolha sua melhor definição, parecia estar presente todo tempo analisando Sydney. Aqui começa um bom background para teorizar o que diabos seria isso. Não é difícil associar com Stranger Things e os poderes de Eleven, visto que as capacidades das duas são bem semelhantes. Superpoderes psíquicos, como os de se comunicar com pessoas através da mente, levitar e lançar objetos, e causar chagas físicas e mentais em alvos desejados. O padrão é o mesmo, então a sugestão que não sei de onde surgiu, mas veio antes da série oficialmente estrear, talvez tenha algum fundamento. De qualquer forma, por ceticismo eu prefiro não me empolgar com ligações como essa, ainda enxergo I Am Not Okay with This como um produto independente, mas ficaria bastante satisfeito de estar errado. Estender o universo Stranger Things desta maneira não me parece uma má ideia. Resta esperar mais revelações surgirem para compreendermos melhor qual a verdade.

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ELENCO E FICHA TÉCNICA
Sophia Lillis, Wyatt Oleff, Sofia Bryant, Kathleen Rose Perkins, Richard Ellis e Aidan Wojtak-Hissong compõem o elenco principal. Adaptado por Jonathan Entwistle e Christy Hall se baseando no romance homônimo de Charles Forsman, I Am Not Okay With This é uma série de drama, comédia e com pitadas sobrenaturais, lançada sob o selo Netflix em 2020. Dirigido por Jonathan Entwistle, que também roteiriza, é produzida por Christy Hall, Shawn Levy, Dan Levine, Dan Cohen e Josh Barry. As produções ocorreram nos estúdios 21 Laps Entertainment, Ceremony Pictures e da Raindrop Valley. Sua primeira temporada conta com 7 episódios, e eles são curtos, durando uma média de 20 à 28 minutos cada. A série é distribuída e está disponível no serviço por assinatura Netflix.

CONCLUSÃO
Para qual público I Am Not Okay with This estaria destinado? Essa é uma pergunta complicada que eu deveria ser mais esperto em não fazê-la, mas já que a fiz, vamos lá. Ao mesmo tempo que ela reflete muito do que Stranger Things é, ela também traz um conteúdo mais sensível, me fazendo sugerir a classificação de não recomendado para menores de 14 anos (pelo menos). Consumo de álcool, piadas ácidas referenciando direta e indiretamente uma falsa normalidade no uso de drogas, pode não ser um bom conteúdo pra um mente ainda em construção. Eu dei a classificação de 14, mas oficialmente a censura da série classificou como 16. Eu digo: excelente. Então eu consigo resumir que esta seria uma série para jovens adultos que gostam de drama adolescente (digo isso sem julgamentos, afinal, eu mesmo assisti e curti), comédia, e quem compra, o leve suspense com fantasia que vai se transformando aos poucos. I Am Not Okay with This é uma série bem curtinha e que você consegue assistir tudo num único dia. Então faça sua pipoca e sintonize na Netflix!

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NINGUÉM TÁ OLHANDO – SÉRIE DA NETFLIX (CRÍTICA)

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SINOPSE
As pessoas não estão tão abandonadas assim, escondido num plano invisível existe o Sistema Angelus de Proteção aos Humanos, uma grande rede que se espalha pelo mundo inteiro. No 5511º Distrito um novo membro chegava, era Ulisses, um angelus muito questionador, e que diferente de todos os outros, contestava pontualmente cada uma das regras. Após receber a Ordem do Dia enviada pelo Chefe, um angelus deve se dirigir ao seu protegido para acompanhá-lo por todo expediente, enquanto o livra dos perigos sem ser notado. Ao fim do período trabalhado, o angelus deve fazer seu relatório e entregar ao supervisor para que o mesmo seja arquivado. Ulisses entendia o processo mas não conseguia controlar seus impulsos, decidia por si só ajudar os humanos que sentia realmente estar precisando de socorro. Sempre bem intencionado, mas ainda assim quebrando sequências de tradições milenares, Ulisses começava a alterar muito mais a ordem das coisas do que imaginava ser capaz.

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COMENTÁRIOS
Simplesmente por ser uma produção brasileira, muita gente já fica pé atrás. “Ah, vai ser mais uma produçãozinha com cara de novela das nove.” Aí que você se engana, Ninguém Tá Olhando (Para exportação: Nobody’s Looking) possui uma estética, tanto visual quanto de linguagem, muito peculiar. Com um humor ácido e bastante inteligente, arranca gargalhadas até mesmo em situações dramáticas apenas por seus cenários criados absurdos. Ulisses que é interpretado por Victor Lamoglia, é engraçadíssimo nos seus atos atrapalhados e nas expressões quando descobre mais uma vez ter feito besteira. E admito ter me surpreendido muito, quando noto Kéfera Buchmann fazendo um excelente trabalho como atriz. De verdade, eu não consumo o trabalho dela, e o pouco o que eu imaginava era sim baseado apenas em preconceitos dos estereótipos formados pela youtuber teen. Quebrei a cara, e gostei bastante disso.

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Esquetes, stand-up comedy, sitcom, enfim, nada muito focado assim na comédia prende muito minha atenção. Pelo menos não por muito tempo.  Mas assistindo ao trailer de Ninguém Tá Olhando na própria Netflix, senti que aquela ideia tinha um potencial muito bom. Marquei o interesse de assistir quando a série estivesse liberada, e percebendo que eram apenas oito episódios de poucos minutos, decidi conferir. E foi uma experiência sensacional! Excelentes atuações num roteiro muito bem elaborado, e uma produção bem bacana. Com direito a computação gráfica de qualidade e tudo mais! Te dou uma dica, caso ainda esteja de nariz torcido, abandone o preconceito e dê oportunidades a coisas diferentes do que está acostumado a consumir. O único risco é o de você gostar bastante e precisar ocultar de seus amigos trevosinhos que curtiu uma parada brasileira onde estrelam aquela celebridades que todo mundo curte zoar. E o pior, na maioria das vezes pelo mesmo motivo, imaturidade e preconceito besta. Deixei o trailer aí para que dê uma conferida, e gostaria de saber sua opinião nos comentários. Fechado?

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ELENCO E FICHA TÉCNICA
Victor Lamoglia, Kéfera Buchmann, Júlia Rabello, Projota, Danilo de Moura, Augusto Madeira, Leandro Ramos e Telma Souza compõem o elenco. Criada pro Daniel Rezende, Carolina Markowicz, Teodoro Poppovic, Ninguém Tá Olhando é uma série do gênero sitcom lançada exclusivamente para o serviço por assinatura Netflix no fim de 2019. A direção ficou a cargo de Daniel Rezende, diretor também de Turma da Mônica: Laços (2019), conhecido por sua participação em grandes sucessos brasileiros como Cidade de Deus (2002), Tropa de Elite (2007), e até mesmo o estadunidense Robocop (2014) atuando como editor de José Padilha.

CONCLUSÃO
Juntando a galera do Porta dos Fundos, Parafernalha, Julinho da Van, outros bons comediantes, e até mesmo o compositor Projota, Ninguém Tá Vendo foi uma aposta acertadíssima de seus idealizadores! Seu humor é inteligente, original e absolutamente nada pedante. Os diálogos fluem com naturalidade e as situações mais absurdas possíveis arrancariam risadas até mesmo do Chef Érick Jacquin. Pode perguntar pra ele. O sitcom está disponível na Netflix tendo apenas oito episódios de uns vinte minutos cada, e certamente terá uma segunda temporada, já que a história ficou em aberto. Sua classificação etária é de 16 anos, então tire as crianças da sala porque rolam alguns palavrões e pagações de peitinho. Estava sem nada para assistir, então cai dentro desta série que é garantia de sucesso no fim de semana.

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HEY GHOST, LET’S FIGHT – SÉRIE DA NETFLIX (CRÍTICA)

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SINOPSE
Park Bong-pal tem um dom não muito comum, ele é capaz de ver e tocar fantasmas, e junto desta habilidade mostra a visão de um empreendedor. Park decide trabalhar como exorcista e juntar um bilhão de wons, algo equivalente a quase um milhão de dólares. A empreitada já estava caminhando e os negócios iam bem, até que mais uma cliente entra em contato tarde da noite para pedir os seus serviços. O chamado era para uma escola que havia sido interditada por três dias devido a fenômenos estranhos, então seduzido por um pagamento dez vez maior que o preço normal, sai de casa às pressas para prestar o trabalho. Park literalmente invade a escola, e chegando lá encontra a fantasma de uma estudante. O rapaz literalmente toma uma surra, e abandona frustrado o prédio. Na noite seguinte, ainda irritado, retorna ao colégio buscando a sua revanche, e lá de novo estava ela, com ar irônico esperando seu desafiante. Park não espera, já parte para cima sabendo o quão lucrativo aquele fantasma lhe seria não havia tempo a perder. A briga é ferrenha, com direito a puxões de cabelo e golpes baixos. Em certo momento os dois rolam atracados por uma escada a baixo, e acidentalmente acabam se beijando! Vendo o que acabara de fazer, Park se levanta envergonhado e diz que essa não era sua intenção. A fantasma ainda caída tem flashbacks, ela não era uma aberração do tipo má, e aquele beijo a fez recobrar uma memória nova. Em meio a situação o verdadeiro fantasma surge, aquele perigoso e que causava problema. Park junto da menina fantasma consegue derrotar, e agora era a hora do pagamento! E afinal, quem havia feito o chamado? Desconcertada a fantasma não consegue esconder a culpa, e Park exige seu dinheiro. Convenhamos, na situação dela ser o que era, não iria pagar. Frustrado ele desiste e vai embora. Dia seguinte, e advinha, a fantasma estava como uma sombra por onde ele fosse, e o motivo, ela queria outro beijo para descobrir se aquilo a faria lembrar de mais coisas. Seu nome era Kim Hyun-ji, e a partir daquele momento, ela não sairia mais do pé do rapaz!

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COMENTÁRIOS
Comédia romântica é um dos gêneros mais férteis entre as séries sul-coreanas. São como as novelas brasileiras, inevitáveis e líderes de audiência. E Hey Ghost, Let’s Fight (싸우자 귀신아), K-drama de 2016, traz um plano de fundo de terror para contar uma história de amor recheada de muito bom humor. Divertidíssima e cheia de sacadas inteligente, é uma série com romance o suficiente para atrair mais o público feminino do que o masculino. E eu falei ‘atrair’, porque se eu tivesse optado pela palavra ‘aderir’, pode acreditar, que fosse mulher, homem, papagaio ou tamanduá, seria certo de que iria gostar. Provavelmente quem irá ler esta resenha já é um público conhecedor deste tipo de produção, o que transforma eu explicar isso em chuva no molhado. Mas vai que esse não é o caso, como eu te convenço a dar aquela conferida? Fazer pessoas que não conhecem o nível de qualidade das série sul-coreanas já é algo difícil, agora imagina quando ela também é um romance em essência. A única coisa que eu posso te pedir é para superar o preconceito, e dizer que a melhor prova de algo é experimentarmos. Por incrível que pareça tem muita coisa boa no além do cinema ocidental, e são dois que eu pago pau mesmo! Cinema indiano e sul-coreano, e as séries deste último. E se amanhã pintar alguém me sugerindo para assistir uma produção, sei lá… de São Tomé e Príncipe, pode acreditar que eu vou conferir!

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Comecei a assistir esta série assim que ela apareceu na Netflix, e meu impulso inicial era de sua chamada parecer bastante com a de uma outra também do Studio Dragon, Black (2017). Bem, era só impressão mesmo, na prática a pegada é outra. Enquanto em Black o assunto é mais pesado e sério, em Hey Ghost, Let’s Fight, quase o tempo todo o  clima é de diversão. Mas claro, por trás de fantasmas sempre existem mortes e discussões um pouco mais pesadas, e elas estão lá. No entanto o andamento não se cerca disso, e busca sempre quebrar o gelo com alívios cômicos. E em se tratando de fazer rir, estou seguro em dizer que praticamente funciona sempre! As tiradas de sarro não são desperdiçadas e ocorrem num timing perfeito. Há uma situação onde uma dupla bem enrolada quer encontrar a ficha escolar de Park , o personagem principal, e um deles vira por outro solicitando que faça a busca enquanto elogia sua habilidade com computadores. Antes de terminar o elogio, coisa que levou menos de dois segundos, e talvez 1/3 de um clique no teclado, estava lá na tela o relatório requisitado! Só contando talvez eu não consiga expressar a verdadeira intenção, mas te garanto, reze para não estar comendo nada.

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ELENCO E FICHA TÉCNICA
Ok Taec-yeon, Kim So-hyun, Kwon Yul, Kim Sang-ho, Kim Min-sang, Son Eun-seo, Lee Do-yeon, Kang Ki-young, Lee David e Baek Seo-yi compõem o elenco. Hey Ghost, Let’s Fight é uma série sul-coreana de terror, romance e comédia lançada em 2016, e que foi dirigida por Park Joon-hwa e Myung Hyun-woo. Se baseando num webtoon homônimo, tem seu roteiro adaptado por Lee Dae-il. Essa é uma das primeiras obras do Studio Dragon, tendo como produtores executivos Choi Kyung-sook, Park Ji-young e Song Byung-joon, e é produzida por Yoon Hyun-gi e Lee Se-hee utilizando a estrutura da Creative Leaders Group 8 e da The Unicorn. Hey Ghost, Let’s Fight foi distribuído na Coreia do Sul através da tvN, e é internacionalizada pelo serviço por assinatura Netflix.

CONCLUSÃO
Hey Ghost, Let’s Fight é uma série sul-coreana bastante divertida, que tem como plano central o romance entre uma fantasma e um cara que tem o dom de enxergar e poder tocar espíritos. Inicialmente essa relação nunca deveria ter começado, afinal, o rapaz trabalhava como exorcista de fantasmas, só que alguns acontecimentos levaram a um precisar do outro. O que eu posso te resumir sobre esta série, é que ela é sim boa, mas óbvio, se você for adepto de um drama romântico com altas doses de comédia. Na prática vale a máxima de sempre, assista pelo menos o primeiro episódio, se não curtir, abandone. Hey Ghost, Let’s Fight não é recomendada para menores de 14 anos, e está disponível pelo serviço de assinatura Netflix. Confere lá, acredito que você vá gostar!

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SPECIAL – SÉRIE DA NETFLIX (CRÍTICA)

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COMÉDIA SEM GARGALHADA OU APELO A REPRESENTATIVIDADE?
COMENTÁRIOS COM SPOILERS

A série Special da Netflix ingressa com uma proposta que tem tudo para dar certo, mas será que deu? Parecendo intencionar a atração de espectadores pertencentes à grupos de diversidade étnica, de gênero, de classe social, de estereótipos e por aí vai, a trama conta com tudo que é socialmente colocado em pauta ano após ano no que diz respeito à alvos de críticas preconceituosas.

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Só pra começar, nosso personagem principal consegue unir as seguintes características: deficiente motor com paralisia cerebral, gay, nerd, virgem, imaturo, dependente da mãe e auto-comiserativo (coitadinho de mim, não sou um “ganhador de bolinhos de graça” – Free Cupcakes – um termo bem bobinho para chamar alguém de “sortudo”). Um personagem desses podia ter muita história pra contar, não acham? Pois é, mas não tem. Pasmem, o personagem parece diretamente saído de uma bolha de oxigênio e cuspido na “vida real” por si próprio. E a “vida real” está entre aspas porque eu estou até agora tentando descobrir quem vive daquele jeito.

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Aí encontramos a personagem que se torna a melhor amiga do protagonista: A latina curvilínea que vive para manter a aparência de amor próprio (no Instagram e nos artigos que escreve para a agência que trabalha) e que está falida por causa das roupas caras e salão de cabeleireiro que frequenta para poder manter sua pose de rica. Sim, eu não usei nenhuma palavra que não tenha sido expressa pela personagem, a própria se define desse jeito. De longe sacamos uma referência com a famosa Kim Kardashian, homônima da personagem, consegue acreditar? Pois é verdade. E não termina por aí.

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Ainda temos a famosa personagem “mãe solteira cinquentona carente sem namorado há uns 20 anos”. Sério. Abordaram essa temática da pior forma possível, mostrando a mulher como uma infeliz por não ter tido relacionamento para cuidar do filho deficiente, que abdicou de muita coisa para sustentar a cria – acreditem, eu sei do que estou falando. E quando é que ela acha que tirou a sorte grande??? Claro que vocês vão adivinhar, ela se deparou com um (outro estereótipo, lá vamos nós) “cinquentão gato branco de cabelo estiloso e olhos azuis, bombeiro aposentado e maconheiro”. Uau que mistura incrível né? Até mostrar que por trás da “beleza de príncipe” é um cara autoritário, que gosta de fazer as coisas do jeito dele e que (pasmem de novo) não consegue aceitar as crises de histeria da mãezona e dá um pé nela porque “não quer namorar o filho babaca” da mesma. Sim, foi uma fala também. Dá pra acreditar? – pausa para náuseas.

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Entre tantos clichês ainda temos a “loira arrogante metida rica socialite solteirona maluca extravagante insensível”, outra “loira burra retardada abortista” e o “negro gay gostoso crossfiteiro” ou ainda um “gay loiro nórdico marombeiro” – tem pra todos os gostos. Gente, é uma lástima. Não dá pra dizer que existe enredo, e se existe, é completamente fútil. As piadas são fracas, os personagem são caricatos e parece uma tentativa de paródia de uma vida real que nem faz sentido. Conseguem entender?

É uma série que tenta te transmitir alguma emoção (nem tenho tanta certeza assim), mas que a piada não é engraçada, o drama não é comovente, a raiva, o tesão e a identificação passam batidos. Dá pra dizer que a série foi feita por um cérebro sem mente para mentes sem cérebro. E olha que com tanta diversidade poderia ter rendido muito mais conteúdo. Não foi o que aconteceu. Decepcionante. E sim, a temporada inteira é água com aspartame – nem açúcar rola ali.

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NOTAS SOBRE A SÉRIE
Classificada como comédia, foi baseada no livro I’m Special: And Other Lies We Tell Ourselves (2015) de memórias do próprio protagonista, que escreve e atua como produtor executivo da série, Ryan O’Connell. Ou seja, segundo ele, é baseado em fatos reais.

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ELENCO
Ryan O’Connell, Jessica Hecht, Punam Patel, Marla Mindelle, Augustus Prew, Patrick Fabian, Kat Rogers, Jason Michael Snow, Brian Jordan Alvarez e Gina Hughes.

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