I AM NOT OKAY WITH THIS – SÉRIE DA NETFLIX (CRÍTICA)

136_00

SINOPSE
A vida para a jovem Sydney ficou sem sentido após a morte de seu pai, alguém a quem era apegada e guardou boas recordações. Dali em diante passou a se sentir pouco amada e respeitada por todos ao seu redor, e nem mesmo vindo de sua mãe sentia o mínimo carinho. Na escola sofria com o bullying, se sentindo sempre incapaz de revidar. Até que certo dia uma coisa muito estranha aconteceu. Era pouco informada sobre coisas básicas relacionadas ao próprio corpo, já que se fechava em seu mundo e não interagia bem com os outros. Isso fez com que acabasse crendo que as certas coisas que aconteciam com ela poderiam ser completamente normais e estarem ligadas com as mudanças da idade. A primeira demonstração dessa particularidade aconteceu quando interiorizando uma forte raiva por uma pessoa, fez com que seu nariz sangrasse de forma significativa. Sydney não era uma garota má, no entanto como qualquer pessoa, não conseguia pesar os pensamentos pelos seus desafetos, e essa incapacidade de controlar seus desejos de retaliação pelos maus tratos que sofria, poderia a tornar bastante perigosa.

136_01

COMENTÁRIOS
Mais uma vez a Netflix traz aquele ar de anos oitenta que super deu certo com o projeto Stranger Things, e a bola da vez é I Am Not Okay with This (2020), série adolescente de drama, comédia e fantasia. A linguagem e conceito são bem parecidas entre as duas produções, rolando até boatos de que fazem parte do mesmo universo, uma vez também que são obras dos mesmos criadores. A dinâmica aqui rola em torno de Sydney, uma adolescente que sofreu uma dura perda familiar, não conseguindo enxergar mais brilho nas coisas mais simples. Ela não se tornou depressiva ou coisa do tipo, apenas se isolou na própria existência e passou a ser pouco tolerante com o ambiente que a cercava. O que de certo modo era até compreensível, visto que vivia numa pequena cidade onde a maioria das pessoas eram pouco legais. Seu círculo de bom convívio era bem restrito, havia Dina, uma amiga da escola, Stanley, um rapaz que morava bem próximo de sua casa, e Liam, seu irmão caçula.

136_02

A produção da série é conservadora e não faz movimentos bruscos, em sua película busca manter um sépia bem quente e levemente granulado com fim de remeter ao estilo vintage. A trilha sonora traz rock clássico do Kinks, soul sessentista de Shirley Ellis, o som psicodélico do Cults, o rock atmosféricos e denso do Bloodwitch, além de muitos outros hits bacanas. Combinando essa filmografia com essa inspirada sonorização, conseguimos embarcar numa viagem cheia de subidas e descidas no consciente de Sydney. Quando se trata das atuações, particularmente fiquei fascinado com Stanley, interpretado por Wyatt Oleff, o jovem Stan de It: A Coisa (2017), filme em que contracenou junto de Sophia Lillis. O jovem de comportamento bem atípico é o salvaguarda para o humor involuntário. A tirada com o vidro elétrico do carro que insiste em ser lento ao descer é algo impagável, principalmente por parecer que para ele é coisa mais normal do mundo. Stanley está próximo dos dezesseis mas age como um pós-hippie cinquentão que viveu numa cúpula entorpecente de cannabis. Conhece o Ozzy? Então. Já Sydney tem seu papel facilitado, e que coincidentemente (ou não), repetiu a mesma fórmula do papel encarnado em It. Os outros personagens não se destacam tanto assim, e funcionam mais como suporte para que o enredo evolua a próximos níveis.

136_03

COMENTÁRIOS COM SPOILERS PESADOS!
O grande dilema de Sydney no decorrer da sua jornada de autoconhecimento, é entender onde se divide suas mudanças fisiológicas das habilidades que demonstra ter. Próximo ao fechamento dessa primeira temporada descobrimos que seu pai trazia capacidades muito parecidas, e que carregou uma enorme culpa por ter matado sem a intenção um incontável números de pessoas, sentimento triste esse que o fez não conseguir lidar com o fardo que carregava. Isso é revelado à Sydney através de uma conversa franca entre mãe e filha, num instante onde percebeu que sua mãe não era ruim, porém assim como ela, uma pessoa melancólica com a perda do marido, ao mesmo tempo que desiludida pela filha não se esforçar para ser uma pessoa agradável aos outros. Entendendo o próprio passado e concluindo que o problema estava muito mais nela do que no ambiente onde vivia, acordou no dia seguinte disposta a se esforçar para mudar sua própria realidade. Surpreendeu seus familiares e tocou sua vida com mais leveza, percebendo assim, que seu cotidiano poderia ser bem menos doloroso e complicado.

136_04

Chegado o tal baile anual do colegial, momento singular de todo filme e série adolescente. Já embarcamos sabendo que ali vai rolar uma treta maligna! E advinha, aqui não é diferente. Bradley, indignado por ter sido exposto como um grande otário por Sydney, decide tentar humilhá-la na frente de toda a escola. Ele não economiza em ferir a moça, já que havia pegado seu diário onde continham todos os tipos de confissões. Ao avançar nos insultos e revelações de seus segredos pessoais, Sydney perde mais uma vez o controle, fazendo a cabeça de Bradley literalmente explodir, dando sequência àquele flashback rotineiro na série onde ela corre pela rua com o corpo coberto em sangue. A jovem já havia em períodos anteriores experienciado a sensação de estar sendo observada por alguma coisa, o que ela compreendia como uma sombra. Como da vez em que causou uma cataclisma na biblioteca. Mas retornado à fuga do seu crime por dar “um pouco mais” do que Bradley merecia, Sydney corre até a torre que Stanley comentou e brincou certa vez, lugar onde finalmente é confrontada por algo que já estava convicta de ser coisa de sua cabeça. Aquela forma sinuosa que sentia estar próximo vez ou outra, finalmente se revelava. Sydney pergunta se devia ter medo daquele homem. Deu-se a entender que não, além de que, “eram eles que deveriam temê-la”, e que agora iriam “começar” compreender isso.

136_05

Como num preparo para algo que estaria por vir, obviamente na próxima temporada, aquele homem, ou entidade, escolha sua melhor definição, parecia estar presente todo tempo analisando Sydney. Aqui começa um bom background para teorizar o que diabos seria isso. Não é difícil associar com Stranger Things e os poderes de Eleven, visto que as capacidades das duas são bem semelhantes. Superpoderes psíquicos, como os de se comunicar com pessoas através da mente, levitar e lançar objetos, e causar chagas físicas e mentais em alvos desejados. O padrão é o mesmo, então a sugestão que não sei de onde surgiu, mas veio antes da série oficialmente estrear, talvez tenha algum fundamento. De qualquer forma, por ceticismo eu prefiro não me empolgar com ligações como essa, ainda enxergo I Am Not Okay with This como um produto independente, mas ficaria bastante satisfeito de estar errado. Estender o universo Stranger Things desta maneira não me parece uma má ideia. Resta esperar mais revelações surgirem para compreendermos melhor qual a verdade.

136_06

ELENCO E FICHA TÉCNICA
Sophia Lillis, Wyatt Oleff, Sofia Bryant, Kathleen Rose Perkins, Richard Ellis e Aidan Wojtak-Hissong compõem o elenco principal. Adaptado por Jonathan Entwistle e Christy Hall se baseando no romance homônimo de Charles Forsman, I Am Not Okay With This é uma série de drama, comédia e com pitadas sobrenaturais, lançada sob o selo Netflix em 2020. Dirigido por Jonathan Entwistle, que também roteiriza, é produzida por Christy Hall, Shawn Levy, Dan Levine, Dan Cohen e Josh Barry. As produções ocorreram nos estúdios 21 Laps Entertainment, Ceremony Pictures e da Raindrop Valley. Sua primeira temporada conta com 7 episódios, e eles são curtos, durando uma média de 20 à 28 minutos cada. A série é distribuída e está disponível no serviço por assinatura Netflix.

CONCLUSÃO
Para qual público I Am Not Okay with This estaria destinado? Essa é uma pergunta complicada que eu deveria ser mais esperto em não fazê-la, mas já que a fiz, vamos lá. Ao mesmo tempo que ela reflete muito do que Stranger Things é, ela também traz um conteúdo mais sensível, me fazendo sugerir a classificação de não recomendado para menores de 14 anos (pelo menos). Consumo de álcool, piadas ácidas referenciando direta e indiretamente uma falsa normalidade no uso de drogas, pode não ser um bom conteúdo pra um mente ainda em construção. Eu dei a classificação de 14, mas oficialmente a censura da série classificou como 16. Eu digo: excelente. Então eu consigo resumir que esta seria uma série para jovens adultos que gostam de drama adolescente (digo isso sem julgamentos, afinal, eu mesmo assisti e curti), comédia, e quem compra, o leve suspense com fantasia que vai se transformando aos poucos. I Am Not Okay with This é uma série bem curtinha e que você consegue assistir tudo num único dia. Então faça sua pipoca e sintonize na Netflix!

Barra Divisória

assinatura_dan