O POÇO – UMA ANÁLISE LITERÁRIA DO FILME

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Uma prisão dividida em diversos andares. Dois presos por andar, seja ele um voluntário em busca de uma certificação ou que busque se isolar; seja ele um condenado por algum crime. A cela é um cômodo: camas, pia e privada. Sem portas. A única saída ou entrada é uma abertura no centro. Um poço por onde sempre descerá um banquete em uma plataforma. Um único banquete para os quase infinitos andares. Aqueles que estão nos andares superiores comem com fartura. Os restos são descidos. A medida que o banquete desce pelo poço, menos comida vai sobrando em meio a migalhas, restos. Quanto mais abaixo no poço, mais fome se terá. A situação é mudada de tempos em tempo quando um gás desacorda os presos e, novamente, ao despertarem estão em um andar diferente podendo ter mais sorte ou azar, mais fartura ou fome. Mas isso, é óbvio.

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1. O bicho homem: de oprimido a opressor

Quando olhamos a dinâmica do filme, inicialmente vem-nos a mente a luta de classes ao modo marxista ao evidenciar que aqueles que estão em uma esfera superior, pouco se importam como os que estão abaixo deles (o termo comunista chega a ser citado). Há a manutenção perpétua do status-quo: nem mesmo aqueles que em um dado momento alcançam os primeiros andares se importam com seu passado de fome. Neste ponto o longa-metragem espanhol é repleto de referências filosóficas que pensam a dinâmica da sociedade. Tem riqueza e fartura quem se banqueteia nos andares superiores e aos de baixo resta-lhes as migalhas ou nada. Nem aqueles emergentes, que ficam subitamente na elite do poço, se importam com sua pobreza anterior. Isso reflete diretamente a nossa sociedade ao mostrar que temos a tendência de esquecermos de que também fomos oprimidos e nos tornamos opressores narcisistas, parafraseando Paulo Freire. Claro que a animalização humana é uma constante no filme ao reduzir o homem e sua racionalidade ao instinto da fome (Manuel Bandeira, implicitamente), numa esfera naturalista que relega e destrói a todos em prol da sobrevivência do mais forte. Darwin aprovaria esse enredo e aplaudiria de pé, se estas circunstâncias acontecessem no mundo real.

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2. O inferno são os outros: a punição

Isso mesmo, o enredo do filme não se passa em nossa realidade. É uma metáfora bem construída e potencializada de nossa sociedade, mas o filme é uma ficção da ficção. Nesse sentido o terror do longa-metragem se estabelece com uma esfera angustiante de ameaça constante a “vida” dos personagens. Bem, se é que é vida, pois eles estão no inferno. Afinal, pela cultura ocidental, é no submundo, no Hades, no Sheol, no Tártaro que ficam presos aqueles que por seus crimes (é óbvio) ou vícios (como o de fumar) são punidos. Mas no Poço não há necessidade de “grelhas” para arder a alma do maus. “O inferno são os outros”, como diz o filósofo Jean-Paul Sartre, pois “projetamos nos outros a nossa realização e aguardamos deles que amenize o vazio que nos habita”. Desta forma, O Poço é uma roupagem nova para a punição no inferno, no qual as chamas eternas são substituídas pela fome que queima e pela centelha de uma esperança na mudança do outro, ou do sistema que nunca ocorre ou ocorrerá.

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3. O inferno de Dante: no fundo O Poço

A primeira parte da consagrada obra de Dante Alighieri está nas entrelinhas do funcionamento do Poço. Este poema com mais 14 mil versos conta a história de Dante que decide encontrar sua amada Beatriz após sua morte. Para isso ele passará pelo Inferno, onde é guiado pelo poeta latino Virgílio, o Purgatório e o Paraíso. A parte mais conhecida é justamente o Inferno porque ficou notória a crítica social à Itália do século XIII em que o poeta colocou no poema todos os seus desafetos e a elite daquele tempo. Mas é justamente as nove regiões do Inferno de Dante que inspiram diversas passagens do filme, inferno esse também em andares cada vez mais profundos, os círculos. O filme está na ordem inversa da obra do poeta italiano: do nono ao primeiro ciclo (dos andares superiores do Poço ao último).

  • 141_04O nono círculo: Os traidores – No poema italiano é o Lago Cócite, pavimento de gelo. Aqueles que traem seus companheiros ficam aprisionados aqui. E a traição aqui é baseada na fome, quando a amizade é esquecida em favor da fome, ou mesmo quando se quer reter algum alimento do banquete às escondidas. O ambiente começa a congelar (ou esquentar) de forma drástica. Qualquer andar ou pessoa é traidora: fica claro e até ÓBVIO para quem vê os primeiros momentos do filme.
  • 141_05O oitavo círculo: Pecados e calor – Neste ciclo há muitos pecados listado a arder nos vapores infernais. Novamente vemos os mais diversos pecadores no andares do poço. Por mais que a gula seja o que mais chama a atenção, há luxúria, ira, inveja… Mas sempre puníveis com o calor se alguém burlar as regras da fome.
  • 141_06O sétimo círculo: A violência – Neste ciclo está todo aquele que agiu contra o próximo. Assim todos podem praticar a morte no Poço e agir contra o próprio companheiro de cela. Em Dante é o Vale da sombra da morte; no Poço é a morte do outro que vale. Não há confiança e todos serão tomados pela violência em algum momento.
  • 141_07Sexto círculo: Os hereges A fé não está resguardada, nem em quem acha que a solidariedade é o caminho, nem em quem quer usar a corda como atalho para sair do Poço. Aqui a noção de Deus é distante e pouco a pouco todos se distanciam dele, sem deixar de blasfemar ou deturpar os valores cristãos: homens bons matam, mulheres boas interpretam a Bíblia de forma hedionda e a própria existência de Deus é questionada.
  • 141_08Quinto círculo: Ira – Em Dante é um lago de sangue onde ficam mergulhados os irados. Pense no Poço, nos assassinatos e no sangue que a todos permeiam. Lembre-se da mulher que mata e vive em constante sujeira sanguinolenta. Ela sempre mergulhada em sua busca sangrenta.
  • 141_09Quarto círculo: AvarentosAcomete a todos no Poço. Não há partilha quanto mais alto é o andar em que os condenados se encontram. Querem o melhor para si e esquecem dos outros. Engordam vergados pelo peso da saciedade e se apegam aos seus itens pessoais.
  • 141_10Terceiro círculo: Os gulosos – Neste círculo do inferno de Dante aqueles que comem demais ficam na lama e são por fim devorados pelo cão de três cabeças Cérbero. É a própria dinâmica do Poço em que aqueles que comem demais imediatamente servirão de alimento, para a fome canina do outro. Não esqueça que há um cão nessa história: Ramsés II, faraó conhecido por Ozymandias (Rei dos Reis). O cão vira vítima da fome, o verdadeiro Cérbero, rei dos reis do Poço.
  • 141_11Segundo círculo: O julgamentoAcontece de forma crua e seca na entrevista antes de entrar no poço com a escolha da comida favorita e do objeto que levará para prisão. Minos, ser infernal, julga em Dante; a administração e os formulários no Poço. O inferno já estava ali desde sempre.
  • 141_12Primeiro círculo: Limbo – Primeira região de Dante é onde está os que morreram pagãos, que não conheceram Jesus e que vagam na eterna escuridão devido a não iluminação de suas mentes. O último andar é o primeira círculo da Divina Comédia. Uma menininha oriental, não batizada, pagã perto do divino (o andar é 333, três vezes, número da Divina Trindade), mas longe da salvação. Andar que também é o da besta visto que 333×2 dão 666 pessoas condenada (como salientou Dan Pereira Leite). E por fim um Gorik fadado ao limbo, a escuridão de quem não conheceu a salvação ou a luz.

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4. Dom Quixote e a antropofagia

Se pensarmos que O Poço é uma representação do Inferno e que a principal punição deste lugar hediondo sãos as ações dos outros, fica fácil entender as motivações do protagonista Goreng. Ele escolhe estar no Poço em busca de redenção pessoal em relação ao seu vício em fumar. Acredita que expiará essa falha, que será um herói do auto domínio. Acredita nessa ilusão. Se observamos a caracterização do ator, ele nos lembra da imagem que temos de Dom Quixote, herói do livro de Miguel de Cervantes, o fidalgo que acreditou ser um cavaleiro andante e que lutava por uma donzela que não existia. Goreng é um homem abastado que quer ser herói de si mesmo (vencedor do vício) e do Poço (ao tentar salvar a mãe e sua filha). Mas seu Sancho Pança, óbvio que é o Trimagasi, tenta fazê-lo entender a filosofia do lugar onde ele está, trazê-lo para realidade infernal. Tanto Quixote como Goreng acreditam na ilusão e tem seus Sanchos até o final ao seu lado. Se você tem dúvida, lembre-se da cena em que, literalmente, Goreng come o seu livro, afinal “você é aquilo que você come”. Assim ao final da jornada de Dom Quixote, ele descobre a verdade; Goreng, por sua vez, descobre a ilusão e fica eternamente preso no limbo com Trimagasi.

Por fim há ainda de prestar atenção que Goreng é atormentado por quem ele se alimentou. Não é canibalismo, porque isso seria o simples prazer alimentício de comer carne humana. Não é o caso de nosso “herói”. Podemos dizer que o faz por necessidade. E ao se alimentar do outro, os humanos passam a habitar sua essência. Alimente-se do guerreiro mais forte: antropofagia, um ato religioso. Então Trimagsi e Imoguiri, a dona do cachorrinho, passam a habitar os pensamentos de Goreng e incentivando-o tanto no banquete que desce na plataforma como no banquete humano.

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5. Sempre uma última ceia: a blasfêmia

Quando vemos a antiga recepcionista, Imoguiri, nos delírios de Goreng incentivando-o a comer carne humana, ecoa a citação bíblica da Última Ceia de Jesus com os apóstolos antes de ser crucificado (Mateus 26:17-30, Marcos 14:12-26, Lucas 22:7-39 e João 13:1 até João 17:26). Para ser o inferno precisa deturpar os valores de Deus de alguma forma e nada do que levar ao pé da letra “comer do meu corpo e beber do meu sangue”. Nesse ponto o Poço parece ironizar as primeiras perseguições feitas aos cristãos primitivos, acusado de fazerem sacrifícios humanos pelos Romanos. Muitos cristão foram morto por causa dessa interpretação. Os pagãos entendiam esses trechos como literalmente um sacrifício e não como rito simbólico de memória. Se para um cristão comer e beber da essência de Jesus os deixam saciados de qualquer fome carnal ou espiritual, para Goreng cada banquete sanguinolento só o leva a uma fome maior e desesperadora.

Outro dado: a trajetória de Jesus fala de uma mesa em que todos possam se alimentar, o banquete dos justos. É o comensalismo, uma filosofia que prega que todos devem ser aceitos à mesa e que todos são iguais. Ninguém deve alimentar-se das migalhas da mesa dos ricos (Mateus 15: 21:39). Até o cachorrinho Ramsés II, come mais do que quem está nos andares inferiores. Também o Poço subverte a ótica cristã e nem as migalhas deixa aos famintos e o banquete não é para todos.

Por fim a menina ao final. Aquela que lhe está destinada uma Panacota perfeita, sem nenhum cabelo. Ela mesma pura, limpa. Naquele inferno até a esperança é uma ilusão. No Poço, na Caixa de Pandora, de todos os males a criança é a esperança. Como pode uma menina conservada em um estado tão puro em um lugar hediondo sem se alimentar. Impossível. A última refeição é dela, da esperança ilusória de Goreng, o Dom Quixote do Poço. Ele fica para sempre no Limbo enquanto a esperança e a salvação sobem em alta-velocidade como oferenda de verdade. A esperança sobe veloz e furiosa sem chance de salvação. A mensagem final: bom apetite, pois chegamos ao fim do Poço.

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